quarta-feira, 21 de Novembro de 2012

"Não tenhas nada nas mãos"

            Como é habitual nas odes de Ricardo Reis, o «eu» dirige-se a um «tu», fazendo uso da segunda pessoa e do modo imperativo (“tenhas”), a quem aconselha uma vida estoica, desapegada de bens materiais e de afetos, isto é, uma vida vivida racionalmente em apatia: “Não tenhas nada nas mãos / Nem uma memória na alma” (vv. 1 e 2).
            O objetivo dessa renúncia surge explicitado nos versos seguintes: aceitar e encarar a morte sem sofrimento, pois não se está apegado à vida terrena. Está aqui presente uma ideia cara a este heterónimo: o princípio estoico da resistência do homem ao sofrimento, à dor, nomeadamente o que resulta da morte, que deve ser encarada a frio, “sem nada nas mãos” (vazio). Note-se, porém, que esse conselho nada mais é do que uma tentativa ilusória para combater a dor e a perturbação causadas pela passagem do tempo e a proximidade da morte.
            Por outro lado, nenhum poder («trono»), nenhum triunfo ou glória terrena, impedirão a chegada da morte e de nada valerão nesse momento. Mais: nesse momento, o da morte, todas as conquistas em vida, todas as emoções e sentimentos experimentados, todas as glórias e bens pessoais serão “fanados” no momento fatal. Por isso, o ser humano deve renunciar em vida a tudo para, no final do caminho, nada perder. Nesse sentido, são usadas as interrogações retóricas das estrofes 4 e 5, que retratam essa inutilidade das “conquistas” terrenas e a efemeridade da vida. Se o ser humano nada possuir, nada lhe podem tirar. A interrogação da estrofe 4 questiona, basicamente, o seguinte: que coisas pode o homem possuir em vida – posição social, poder, riqueza material, etc. – que a morte não retire? Dito de outra forma, a morte é certa e o poder, o mérito, a grandeza e a glória que o homem possa possuir nada valem perante Átropos (a morte) e não a evitam. Minos é o juiz que implacável que nos conduzirá aso infernos. Tudo isso é, com efeito, vão, efémero e está condenado à fatalidade, acabando no momento da morte, quando a moira decide cortar o fio da vida. Com a morte, o homem torna-se uma lembrança, uma mera sombra (note-se a oposição a “sol”). A noite e o fim da estrada são representações simbólicas da morte, o apagamento do ser e o fim da vida.
            Nos versos finais, regressam os conselhos de índole comportamental e moral:
1.º) aproveitar o momento presente, de forma serena e contida (para evitar qualquer perturbação) (“carpe diem”): “Colhe as flores” (v. 15);
2.º) recusar qualquer emoção intensa, de modo a obter a tranquilidade: “Larga-as / Das mãos” (vv. 15 e 16);
3.º) seguir os ideais da apatia e da ataraxia (convite a uma vida em que seja mero espetador, semelhante ao feito a Lídia para que se sentem junto ao rio e contemplem o seu curso): “Senta-te ao sol” (v. 17);
4.º) Abdicar / renunciar: “Abdica” (v. 17).
            Assim, fazendo uso do imperativo, o sujeito poético aconselha o «tu» a quem se dirige à renúncia, à abdicação. Ele apela à moderação dos prazeres (“Colhe as flores mas larga-as / Das mãos mal as olhaste”), baseado nos ensinamentos da filosofia epicurista: aproveitar, de forma moderada, o momento presente evitando perturbações.
            Por sua vez, a metáfora “senta-te ao sol” contém o conselho dirigido ao «tu» no sentido de viver a vida em plenitude, a partir de uma atitude contemplativa e, simultaneamente, passiva. Os dois versos finais sintetizam o estoicismo de Reis: porque tudo se perde no momento da morte, o ser humano deve aprender a renunciar e a ver nessa opção um ato nobre da sua parte. Se renunciar, nada vai perder quando morrer e, se tudo acaba por perder, o melhor é renunciar já, voluntariamente, uma forma de autodomínio de base estoica que leva a que o ser humano se torne senhor de si próprio. Só é possível evitar a dor e a perturbação através da aceitação lúcida e resignada das leis da vida, no limitado espaço de que dispomos.

            O poema deixa transpirar os traços que fazem de Reis um poeta clássico:
1) Linguagem erudita: “óbolo”, “Átropos”, “fanem”, “Minos”.
2) Sintaxe erudita: “Que quando te puserem” (“que” tem aqui valor final e equivale a “para que”); “Que Átropos to não tire?”, em vez da norma “Que Átropos não to tire?”).
3) Vocabulário metafórico e / ou polissémico:
. “trono” (conquistas e poder terreno);
. “louros” (glória de outros tempos);
. “sombra” (lembranças);
. “noite” e “fim de estrada” (morte);
. “flores” (sentimentos e emoções);
. “Sol” (a vida);
. “Abdica” (a renúncia, a abdicação);
. “rei” (a tomada das próprias decisões).
4) Eufemismos a suavizar a ideia de morte:
. “Da estatura da sombra”;
. “Da noite e ao fim da estrada”.
5) Referências clássica:
. “Óbolo”: a moeda colocada nos mortos para pagar a passagem para o Hades, o reino dos mortos.
. “Átropos” (do grego “Sem Retorno”): uma das três moiras (deusas) que comandavam os destinos dos deuses e dos humanos (eram as responsáveis por fabricar, tecer e cortar o fio da vida), concretamente a mais velha, aquela que cortava o fio da vida. Tradicionalmente, a sua representação é acompanhada de um ou vários elementos (quadrante solar, balança, tesoura, uma esfera e um livro onde lia os destinos com elevada carga simbólica ligada à inevitabilidade da morte). As outras duas moiras eram Cloto (em grego significava “fiar”), que segurava o fuso e tecia o fio da vida (era a deusa dos partos e nascimentos), e Láquesis (em grego “sortear”), que era aquela que puxava e enrolava o fio tecido.
6) “Minos”: o rei da ilha de Creta, filho de Zeus e Europa, quando morreu tornou-se um dos juízes dos mortos, ouvindo as suas confissões e atribuindo a pena de acordo com a culpabilidade de cada um.
7) “Louros”: as folhas e coroas de louros com que eram laureados os atletas após as suas vitórias desportivas.
8) Os princípios estoicos (a resistência do homem ao sofrimento, a renúncia / abdicação, a passividade, o autodomínio, etc.) e epicuristas (o “carpe diem”, a moderação…).
9) Os temas da morte, da passagem do tempo, da efemeridade da vida.

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