sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"O deus Pã não morreu"

            Antes de iniciar a análise propriamente dita do texto convém esclarecer quem são as entidades mitológicas nele referidas.
            Assim, era o deus dos pastores da região da Arcádia (região central do Peloponeso) e representava o poder e a fecundidade da natureza selvagem, com fortes implicações sexuais. Era representado com orelhas, chifres e pernas de bode. Além disso, como era amante da música, transportava consigo sempre uma flauta. Por sua vez, os Romanos identificaram-no como o deus itálico Fauno. Uma lenda conta que, no reinado do imperador romano Tibério (século I d. C.), o piloto de um navio ouviu uma voz que lhe ordenou que anunciasse a seguinte mensagem: «o Grande Pã está morto». Quando o marinheiro obedeceu, toda a natureza começou a gemer. Frequentemente, é associado à palavra grega “pan”, que significa “tudo”, uma associação errada, no entanto deu origem à ideia de que Pã simbolizava «o Grande Todo», ou seja, o poder universal da vida.
            Por seu turno, Apolo era o deus do sol e da música, irmão gémeo de Artemis, deusa da lua e da caça, filho de Zeus e da ninfa Leto. Por outro lado, Apolo amava a música, tendo sido presenteado com uma lira por parte de Hermes, feita a partir da carapaça de uma tartaruga e de tripas de gado.
            Quanto a Ceres, era, entre os romanos, a deusa das colheiras e do cereal, o equivalente a Deméter entre os gregos.

            O deus Pã simboliza o neoplatonismo para os neoplatónicos e para os cristãos, daí a sua «adoção» por parte de Ricardo Reis, em cuja filosofia existencial – a do paganismo da decadência ‑ se inscreve a ideia da sobrevivência dos deuses pagãos (“O deus Pã não morreu” – v. 1), bem como no programa do neopaganismo (de Fernando Pessoa ele mesmo e dos seus heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e António Mora).
            O neopaganismo sustentava o reatar da alma grega na arte, na religião e nas instituições políticas, ao considerar que nada, depois dos gregos clássicos, pode igualar a sua civilização. Neste sentido, o cristianismo é visto como um retrocesso, um atraso civilizacional.
            Neste poema, Cristo é apresentado num plano de igualdade com os deuses pagãos referidos. Ele não “matou outros deuses”, é apenas “um deus a mais, / Talvez um que faltava”, o que indicia que é um deus dispensável, pois é “apenas mais um”. Assim, a noção do Cristianismo segundo a qual Cristo seria o único e verdadeiro deus é implicitamente rejeitada, afirmando-se, pelo contrário, que todos os deuses pagãos antigos permanecem. Cristo, de facto, “não matou outros deuses”, é apenas “ Quanto ao ser humano, falta-lhe reconhecer essa permanência dos deuses pagãos.
            A relação entre o ser humano e os deuses carateriza-se pela distância e pela indiferença, dado que estes estão “Cheios de eternidade / E desprezo por nós” (vv- 18 e 19).
            O perfil dos deuses é traçado com clareza: são “claros e calmos” (v. 17), eternos / imortais, regem o mundo (“Trazendo dia e a noite / E as colheitas douradas”), mas não por causa dos seres humanos (“Sem ser para nos dar / O dia e a noite e o trigo”, antes por razões que não estão ao alcance da compreensão humana e alheias à sua vontade (“por outro e divino / Propósito casual” – vv. 24-25).

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