terça-feira, 30 de abril de 2013

Principal Sousa


         Principal Sousa, a figura que representa o poder religioso, é, em nossa opinião, de todas, a personagem mais odiosa da peça. Porquê? Desde logo, porque deveria representar o BEM e, por isso, estar ao lado do povo humilhado, explorado, oprimido e ignorante. No entanto, pelo contrário, Principal Sousa personifica uma Igreja contrária aos princípios cristãos e ao exemplo de Jesus Cristo: autocráticadogmáticaconservadora nos usos e costumes, falsa hipócritadefensora dos seus interesses, daí o seu comprometimento com o poder político (a equivalência à relação, em determinados períodos do Estado Novo, entre a Igreja católica, representada pelo Cardeal Cerejeira, e o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar).

          Defensor do despotismo iluminado ("É de origem divina o poder dos reis e é portanto a sua - e não a do povo - a voz de Deus." - p. 36), é um obscurantista, na medida em que defende a manutenção do povo na ignorância para que, desse modo, o poder opressivo e tirânico possa manter o seu reinado livremente. É uma forma de assegurar o sufocar da revolta popular ("... a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! Ambas podem afastar o homem de Deus e do seu caminho." - p. 36) - que receia (p. 40) -, pois a ignorância impede que o povo seja capaz de refletir sobre si, sobre a sua existência, sobre os mecanismos do poder opressivo e de os questionar. Assim, também não é de estranhar que ele odeie a Revolução Francesas e os ideais / valores que lhe estão subjacentes, além dos próprios franceses ("... perdoe o ódio que tenho aos Franceses..." - p. 39), acusando-os de serem responsáveis pelo espírito revolucionário que germina e que poderá contribuir para o fim do seu consulado.

          Por outro lado, dá voz a determinadas ideias do Salazarismo: a conservação de um povo«pobre mas feliz» (pág. 40). Odeia Beresford ("O principal não gosta de Beresford..." - p. 41), que considera um herege (pág. 41), mas aceita e submete-se à sua presença porque tem consciência de que precisa do seu auxílio para manter o poder (p. 59). Além disso, é vingativo, pretendendo justificar a condenação do general com uma ofensa que este terá praticado relativamente ao seu irmão ("Agora me lembro de que há anos, em Campo d' Ourique, Gomes Freire prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!" - p. 72). Astuto, converte rapidamente os eu ódio pessoal numa razão de Estado (RÉPLICAS DA PÁG. 74)

          Adota, sucessivamente, uma postura calculista, hipócrita e cínica. Por exemplo, mostra-se falsamente preocupado com a possibilidade de se condenar um inocente e parece hesitar cada vez que se alude à trama que estará na base da condenação de Gomes Freire (p. 60), mas é denunciado por Beresford, que lhe diz que está nas suas mãos impedi-lo. Por outro lado, é ele próprio quem encontra as razões que o «tranquilizam»: «São muitos os inimigos [...] Maçonaria?» - pág. 67; o episódio acima referido acerca da ofensa que terá praticado. No entanto, pouco depois deixam de o mover o sentimento de culpa e os princípios morais e religiosos que deveriam servir de base à sua atuação, que são substituídos pela inquietação em torno de não se encontrarem as pessoas certas para a condenação de Gomes Freire. Além disso, faz uso constante de uma linguagem pejada de termos religiosos, invocando periodicamente a figura divina para justificar os seus atos, como se agisse em seu nome, e de um discurso paternalista («Vá, meu filho, e ajude-nos a cuidar do rebanho...» - pág. 38). Além disso, não demonstra qualquer escrúpulos em adulterar / deturpar o discurso bíblico, adequando-o aos seus propósitos, interesses e necessidades (PÁGINA 36). Não obstante, o seu inconsciente parece atormentá-lo: sonhou com o seu julgamento e com a sua condenação à forca (p. 68), o que o deixa aterrado e sem dormir.

          Vive deformado pelo fanatismo religioso, evidenciando uma ausência aflitiva de valores éticos e um paternalismo falsooco e beato. Daí a sua linguagem estereotipada, paternalista e falsamente compreensiva. Acaba por ser Matilde a desmascará-lo e humilhá-lo, dirigindo-lhe e à Igreja que representa um conjunto de acusações diretas e violentas: de hipocrisia, violência, falsidade, mentira e traição. A culminá-las, atira-lhe uma moeda aos pés que simboliza os princípios da traição, do apego aos bens materiais  e da corrupção que sempre nortearam o percurso de Principal Sousa.

          Em suma, a figura de Principal Sousa representa:
  1. o conluio entre a Igreja e o Poder;
  2. a política do orgulhosamente sós, princípio em que se espelha, mais uma vez, o Salazarismo;
  3. o não cumprimento da sua missão, evidenciada pela hipocrisia, pela ausência de valores éticos e morais consonantes com a ética cristã e pela cobertura que dá à injustiça.

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