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sábado, 20 de junho de 2020

'Os Lusíadas': Canto V: estâncias 92 a 100


. Análise estância a estância

. Estância 92

. É agradável (“doce”) ouvir os elogios dos outros quando os nossos feitos são divukgados (“soados” – v. 2).

. Qualquer pessoa de valor (“nobre”) esforça-se por igualar ou superar a glória dos seus antepassados.

. A admiração (“envejas”) dos feitos dos outros/antepassados constitui um estímulo, um incentivo para realizar atos mais sublimes (hipérbole “Fazem mil vezes feitos sublimados.” – v. 6). De facto, o canto, o louvor, incita à realização dos feitos: “Louvor alheio muito o esperta e incita.” (v. 8) – o exemplo origina a ação.

. Estância 93: Heróis da Antiguidade que se dedicaram à poesia ou à cultura.

. Alexandre Magno apreciava os versos melodiosos de Homero (mais do que os próprios feitos de Aquiles).

. Temístocles invejava os monumentos às vitórias do general Milcíades.

. Temístocles gostava de ouvir cantar os feitos de Milcíades.


Apreço dos Antigos pelos seus poetas
e importância dada à cultura
Consequência
Conciliação entre as armas e as letras

. Estância 94

. Vasco da Gama esforça-se por mostrar que a sua viagem à Índia (“que o Céu e a Terra espanta.”) merece mais glória e louvor do que as célebres navegações de Ulisses e Eneias, embora estes tenham sido imortalizados porque Virgílio foi valorizado por um “Herói” (v. 21), Otávio César Augusto.
O Poeta enaltece o Herói clássico pela sua atitude

. Crítica implícita aos portugueses: Camões canta os feitos dos portugueses, tal como Virgílio, e não há um herói que reconheça o seu valor. Quem imortaliza Vasco da Gama e os seus feitos é o Poeta.

. Estâncias 95 e 96

. Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e Augusto, mas…

. Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est. 95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a quem falta cultura e dons artísticos.

. Exemplos de heróis cultos:

1. Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia belos versos, tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um poema, depois de Marco António a ter abandonado por Glafira.

2. César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a ciência; / Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.

3. A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à escrita de comédias.

4. Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero que o considerava seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à cabeceira”.


. Estância 97




sexta-feira, 22 de maio de 2020

Episódio de Leonardo

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, nos dois últimos versos desta estância, Camões valoriza, claramente, o conhecimento baseado na experiência. De facto, Camões faz uma descrição bastante elucidativa acerca do prazer experimentado pelos marinheiros e pelas ninfas, porém conclui-a afirmando que “é melhor experimentá-lo que julga-lo”, pois só poderá ter noção exata das emoções e do prazer vividos aquele que passar por tal experiência.


. 5.ª parte (IX, est. 84) – O casamento.
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro e flores abundantes;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.
                A ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos há uma troca formal de palavras e atos parecidos aos de uma cerimónia de casamento: “As mãos alvas lhe davam como esposas; / Com palavras formais e estipulantes / Se prometem eterna companhia” (est. 84, vv. 5-7).
                Atente-se, por outro lado, na simbologia do ouro e do louro. Comecemos pelo primeiro: o ouro, tradicionalmente considerado como o metal mais valioso, o metal perfeito, possui o brilho da luz e é considerado, na Índia, a luz mineral. Por outro lado, contém o caráter ígneo, solar e real, e até divino. Por seu turno, o ouro-luz configura o símbolo do conhecimento e, para os brâmanes, é a imortalidade. De acordo com a tradição grega, evoca o sol e toda a sua simbologia: fecundidade, riqueza, conhecimento, irradiação. Relativamente ao louro/loureiro, está ligado, como todas as plantas que se conservam verdes no inverno, à imortalidade, simbolismo que levou os Romanos a fazer dele o emblema da glória, tanto das armas como do espírito. O loureiro é uma planta consagrada a Apolo e simboliza a imortalidade adquirida pela vitória, daí a sua folhagem servir para coroar os heróis, os génios e os sábios. Simboliza ainda as condições espirituais da vitória, a sabedoria unida ao heroísmo.


. Paráfrase

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, a ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos

. 5.ª parte (IX, est. 84):
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Comparação 'Os Lusíadas' - 'Mensagem' (V)

Comparação 'Os Lusíadas' - 'Mensagem' (IV)

Comparação 'Os Lusíadas' - 'Mensagem' (III)

Comparação 'Os Lusíadas' - 'Mensagem' (II)

Comparação 'Os Lusíadas' - 'Mensagem' (I)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"O português como língua de Camões é um mito"

     Em 735 adjetivos usados por Luís de Camões n'Os Lusíadas, apenas um é uma criação nova do poeta, uma estreia na história da língua portuguesa. É a palavra "insofrido", que significa "impaciente".
     Esta contabilidade foi feita pelo linguísta Fernando Venâncio, que hoje apresenta alguns resultados da sua investigação dedicada àquela que será a primeira história do léxico português numa aula do curso de Estudos Camonianos da Universidade Nova de Lisboa, às 18h. "A primeira descoberta é que Camões inovou muito pouco", explica numa entrevista feita por telefone e email a partir de Amesterdão, onde é investigador na universidade.
     "O uso que Camões faz do léxico exclusivo português já conhecido é extremamente moderado e, mais do que tudo, as exclusividades portuguesas introduzidas pela sua obra foram residuais. Dir-se-ia que Camões não acreditou numa língua portuguesa de perfil autónomo."
     Sem ser n'Os Lusíadas, Fernando Venâncio encontrou apenas outro adjetivo novo de origem autóctone na lírica camoniana, desta vez "famulento", que significa "faminto".
     Já as criações castelhanas estreadas naquele poema épico, publicado em 1572, são cinco (e estamos a contar sempre só adjetivos, palavras normalmente utilizadas para testar a inovação numa língua): "alvoroçado", "disfarçado", "enamorado", "rebelde" e "sotoposto".
     Depois foram ainda enumerados os adjetivos latinos exclusivos do português, que atingem o número de treze ("abominoso", "cintilante", "celso", "fulvo", "humílimo", "longínquo", "piscoso", "crástino", "equório", "estelante", "frondente", "inconcesso", "prisco"). Entre estes, só dois - "longínquo" e "cintilante" - são realmente importantes, "o resto é extravagante e os adjetivos não voltam praticamente a ser usados".
     Mas os adjetivos latinos já correntes em castelhano estreados por esta obra-prima da literatura renascentista europeia, que conta em verso a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, sobem até aos 54: "aéreo", "aquoso", "árido", "aspérrimo", "áureo", "belígero", "canino", "canoro", "cerúleo", "ciente", "cônsono", "diáfano", "dissonante", "espumante", "estipulante", "estupendo", "famélico", "ferino", "fétido", "fradulento", "fugaz", "fulgente", "fulminante", "furibundo", "hispano", "impudico", "inerme", "inerte", "infido", "inúmero", "inusitado", "lácteo", "malévolo", "náutico", "pirático", "plácido", "plúmbeo", "preeminente", "prestante", "proceloso", "pudibundo", "radiante", "rapace", "régio", "rotundo", "rutilante", "salso", "sanguinoso", "sitibundo", "sonoroso", "truculento", "vasto", "vendível", "virgíneo". Uma lista "extensa" que mostra que Camões transportou para a escrita portuguesa "o que de melhor, mais sólido e mais expressivo já circulava em castelhano em matéria de latinismos". Metade destes adjetivos "revelaram-se aquisições felizes e definitivas", tão duradouros como os outros que o poeta utiliza e que já vêm da Idade Média.
     Até aqui o que faltou numa língua que tem sido intensamente escrutinada foi estudá-la numa perspetiva histórica, "comparando-a com a dos contemporâneos e de épocas anteriores". O professor da Universidade de Amesterdão diz que é assim que se consegue perceber que a inovação está lá, "mas não é portuguesa".
     "Os cultismos que Camões utiliza são já correntes em castelhano", conhecidos na época por qualquer português instruído. "Camões não parece acreditar num português castiço, autónomo, irredutível". Empenha-se "numa modernização do português culto", mas "com recurso a criações castelhanas e ao latim do castelhano". E isso é "uma absoluta novidade, que desautoriza os nossos mitos criados à volta de uma 'língua de Camões', um mantra sem base material".
     Se o português era a língua dos marinheiros e dos comerciantes, o castelhano era a grande língua internacional da classe culta portuguesa e europeia. "Os portugueses estavam muito familiarizados com o castelhano. Isso vale para todo o português com contactos na corte, nas universidades. A língua culta, aquela em que as classes instruídas se exprimem é muito devedora do castelhano".
     Fernando Venâncio dá o exemplo de Catarina de Áustria, que foi rainha de Portugal durante 53 anos e que nunca escreveu uma linha de português. "A verdade é que a língua da corte era o castelhano. Depois havia muitos professores, pregadores, confessores que vinham de Castela e isso obrigava muita gente, ativa ou passivamente, a exprimir-se ou a dominar o castelhano. Portanto, a presença do castelhano é imensa. Vemos isso naquilo que ficou, nos livros de piedade, nos dicionários. Tudo isso é castelhano ou traduzido do castelhano com muitos castelhanismos." O primeiro dicionário de português é de 1562, quando Camões já teria quase 40 anos.
     Assim, era normal que quem quisesse ser erudito e moderno o fizesse sob uma influência castelhana. A preocupação de Camões foi, então, tudo o parece indicar, "iberizar o português", de modo a que a língua funcionasse internacionalmente. "Modernizou o português e fê-lo, inteligentemente, segundo o modelo castelhano, para poder ser lido por espanhóis e pela Europa culta da época."


Movida em Goa

     Esta influência linguística do castelhano em Camões já foi anteriormente estudada, mas de uma forma limitada, tendo sido identificado na lírica de Camões algum aproveitamento lexical de célebres poetas castelhanos, como Juan de Mena e Garcilaso de la Vega, ou ainda de Juán Boscán, n'Os Lusíadas. Venâncio cita o trabalho dos anos 40 de Vieira de Lemos e Martínez Almoyna e, mais recentemente, o de Nicolás Extremera Tapiá. "Mas essa é uma parte ínfima do aproveitamento lexical que Camões fez do que já estava disponível em castelhano. Esta minha investigação é realmente o Camões todo. A novidade é a espetacular extensão do fenómeno."
     Camões não está sozinho neste projeto linguístico, como lhe chama o investigador. Fernando Venâncio encontrou no jesuíta Luís Fróis "um duplo linguístico de Camões", porque o missionário também transpôs para português toda a riqueza latina que os castelhanos já usavam. Este homem, que sai de Lisboa aos 16 anos para nunca mais regressar, depois de chegar à Ásia em 1548, é "o mais dotado 'jornalista' português no Oriente" e as suas cartas sobre a Índia e sobre o Japão foram durante décadas "lidas, relidas e disputadas logo que chegavam a Portugal". Também ele, nitidamente, "investia numa 'iberização' da língua".
     Estão os dois a fazer o mesmo em simultâneo. Apesar de terem percursos muito diferentes, ambos passam por Goa, que era por volta de meados do século XVI "um centro cultural fortíssimo". "De certeza que absorvem um clima cultural, a que eu chamei 'movida', que já não havia em Portugal. Uma imensa liberdade criativa e mundana que contrasta com o controlo social da época de D. João III e que durou  até à chegada da Inquisição." O investigador diz que é "impensável" que Camões e Fróis, que conviveram oito anos em Goa, entre 1554 e 1562, "não se tenham conhecido, e até culturalmente estimulado". Todo este projeto linguístico de Camões e de Fróis, Fernando Venâncio tinha-o mostrado a Vasco Graça Moura, antes da morte do poeta e camonista, que ficou, descreve o professor universitário, "assombrado".
     A partir de hoje o investigador vai com certeza testar a tese com outros camonistas. A história do léxico português, diz, é provável que seja publicada já para o ano no Brasil. Se não há quase nenhuma inovação lexical em Camões no português autóctone, isso não diminui a grandeza da sua criação literária. "E Camões é, sem a menor dúvida, um grande artista."

          Isabel Salema, in Público (20 de abril de 2016)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Episódio de Inês de Castro

Episódio de Inês de Castro

. História de Inês de Castro

                D. Inês de Castro era uma fidalga galega, de rara formosura, que fez parte da comitiva da infanta D. Constança de Castela, quando esta, em 1340, se deslocou a Portugal para casar com o príncipe D. Pedro (1320-1367). A beleza singular de D. Inês despertou desde logo a atenção do príncipe, que veio a apaixonar-se profundamente por ela. Desta paixão nasceu entre D. Pedro e D. Inês uma ligação amorosa que provocou escândalo na Corte portuguesa, motivo por que o rei resolveu intervir, expulsando do reino Inês de Castro, que veio a instalar-se no castelo de Albuquerque, na fronteira de Espanha. D. Constança morreu de parto em 1345 e a ligação amorosa entre D. Pedro e D. Inês estreitou-se ainda mais: contra a determinação do rei, D. Pedro mandou que D. Inês regressasse a Portugal e instalou-a na sua própria casa, onde passaram a viver uma vida de marido e mulher, de que nasceram quatro filhos.
                Os conselheiros do rei aperceberam-se das atenções com que o herdeiro do trono português recebia os irmãos de D. Inês e outros fidalgos galegos, chamaram a atenção de D. Afonso IV para aquele estado de coisas e para os perigos que poderiam advir dessa circunstância, uma vez que seria natural antever a possibilidade de vir a criar-se uma influência dominante de Castela sobre a política portuguesa. E persuadiram o rei de que esse perigo poderia afastar-se definitivamente, se se cortasse pela raiz a causa real desse perigo: a influência que D. Inês exercia sobre o príncipe D. Pedro, que um dia viria a ser rei de Portugal. Para isso seria necessário e suficiente eliminar D. Inês de Castro.
                O problema foi discutido na presença dos conselheiros do rei em Montemor-o-Velho, e aí ficou resolvido que Inês seria executada sem demora. Quando D. Inês soube desta resolução, foi ter com o rei, rodeada dos filhos, para implorar misericórdia, uma vez que ela se considerava isenta de qualquer culpa. As súplicas de Inês só momentaneamente apiedaram D. Afonso IV, que entretanto se deslocara a Coimbra para que se desse cumprimento à deliberação tomada. E a execução de D. Inês efetuou-se em 7 de janeiro de 1355, segundo o ritual e as práticas daquele tempo. Anos depois, em 1360, D. Pedro I, já então rei de Portugal, jurou, perante a sua corte, que havia casado clandestinamente com D. Inês um ano antes da sua morte.
www.infopedia.pt


. Contextualização

                O episódio de Inês de Castro é integrado em Os Lusíadas logo após à batalha do Salado.


. Estrutura interna

1. Introdução e Antecedentes da Ação (estâncias 118-119)

. Plano narrativo: História de Portugal.

. Articulação com o Plano da Viagem: o episódio está encaixado no plano fulcral da obra. Durante a viagem, os marinheiros param em Melinde e o rei pede a Vasco da Gama que lhe conte a História do seu povo.

. Narrador: Vasco da Gama.

. Ação: o episódio de Inês de Castro ("O caso triste, e dino da memória / [...] / Aconteceu da mísera e mesquinha / Que depois de ser morta foi Rainha." ‑ est. 118, vv. 5, 7-8 ‑ perífrase: com este recurso, o poeta identifica a personagem e a singularidade da sua morte).
Alude-se, neste passo, à lenda segundo a qual D. Pedro I terá coroado Inês de Castro rainha após a sua morte.
De facto, em junho de 1360, o monarca declarou perante testemunhas que, aproximadamente sete anos antes, recebera como legítima mulher a D. Inês de Castro. Posteriormente, as testemunhas do ato depuseram em Coimbra e, na estátua do túmulo, D. Pedro colocou-lhe a coroa de rainha.

. Tempo histórico: reinado de D. Afonso IV, tempo de paz em Portugal, que se seguiu a um tempo de guerra, no qual interveio o rei: "Passada esta tão próspera vitória" ‑ referência à vitória obtida pelos cristãos na Batalha do Salado, travada a 30 de outubro de 1340 contra os Mouros, na qual D. Afonso IV participou com o exército português, em auxílio de Afonso IX de Castela. O episódio terá, portanto, decorrido 15 anos após essa batalha: 1355.

. Espaço: "Tornado Afonso [Afonso IV, o Bravo ‑ 1291-1357] à Lusitana terra".

. Dimensão trágica do episódio e da morte: “o caso triste”, “dino de memória”, “sepulcro”, “desenterra”, “mísera e mesquinha”, “morta”.

. O narrador identifica o Amor como a causa da morte de Inês de Castro (est. 119): “Tu, só tu, puro amor (…) / (…) / Deste causa à molesta morte sua” (vv. 1 e 3).

. Caracterização do Amor (personificado e adjetivado de forma negativa):
‑ causa exclusiva daquela tragédia (“Tu, só tu” – v. 1; reiteração do pronome pessoal e apóstrofe);
‑ “puro”;
‑ cruel (“com força crua”);
‑ “fero” (adjetivação anteposta);
‑ devorador insaciável da alegria humana, alimenta-se das lágrimas e do sofrimento dos que amam (“a sede tua / Nem com lágrimas se mitiga” – vv. 5-6 – metáfora e hipérbole);
‑ “áspero e tirano” (dupla adjetivação);
‑ sanguinário, exige sacrifícios humanos: “É porque queres, (…) / Tuas aras banhar em sangue humano.” (vv. 7-8).


2. Desenvolvimento – Ação central (estâncias 120 a 132)

. Localização espacial:
‑ Coimbra (“Nos saudosos campos do Mondego” – est. 120,v. 5);
‑ espaço idílico, de calma e sossego, propício ao amor.

. Retrato de Inês de Castro (est. 120-121):
físico:
‑ mulher linda (“linda Inês” – apóstrofe);
‑ “fermosos olhos” (est. 120, v. 6);
‑ jovem (“De teus anos colhendo doce fruito” – est. 120, v. 2).

psicológico:
‑ despreocupada e sossegada (“posta em sossego” – est. 120, v. 1);
‑ apaixonada, imersa no amor (“Naquele engano da alma, ledo e cego” – est. 120, v. 3 – dupla adjetivação);
‑ feliz (“ledo” – v. 3);
‑ sonhadora, alheada da realidade, pensando somente em D. Pedro (“Aos montes insinando e às ervinhas / O nome que no peito escrito tinhas.” – est. 120, vv. 7-8 – personificação);
‑ ingénua, não desconfia da tragédia que se adivinha (“engano de alma, ledo e cego” – est. 120, v. 3; “em doces sonhos que mentiam” – est. 121, v. 5) , preparada pelo Destino (“Fortuna” – v. 4) cruel que a persegue;
‑ saudosa do seu amor (“As lembranças que na alma lhe moravam” – metáfora – est. 121, v. 2);
‑ apesar de separados fisicamente, estavam sempre juntos em sonhos e pensamentos.

. Relação entre D. Inês e a Natureza: a Natureza é amiga e confidente dos sentimentos de Inês de Castro ‑ do amor e da saudade (“Aos montes insinando e às ervinhas / O nome que no peito escrito tinhas.” – est. 120, vv. 7-8). Assim sendo, há uma relação de cumplicidade entre a fidalga e a Natureza que a rodeia.

. Indícios do desenlace trágico da relação amorosa: “Naquele engano da alma, ledo e cego, / Que a Fortuna não deixa durar muito. “‑ est. 120, vv. 3-4; “De noite, em doces sonhos que mentiam” – est. 121,v.5).

. Retrato de D. Pedro:
‑ rei sensato e prudente;
‑ influenciado pela opinião do povo: “respeita / O murmurar do povo e a fantasia / Do filho” (est. 122, vv. 1-2);
‑ incomodado com a atitude do filho, dado que a rejeição de outras mulheres e do casamento gerava comentários e boatos entre o povo;
‑ por isso, determina matar Inês de Castro (“Tirar Inês ao mundo determina” – est. 123, v. 1 – eufemismo) – razão de estado: D. Afonso IV atribui à paixão de D. Pedro e D. Inês a causa da recusa do príncipe em aceitar um casamento mais conveniente para o Estado português;
‑ crê que, dessa forma, terminará com a relação entre ambos (est. 123, vv. 2-4).

‑ D. Afonso IV age por razões de Estado;
‑ a sua ação revela ingenuidade e ignorância relativamente à força do Amor por parte do Poder: crê-se, erradamente, que a morte do ser amado é suficiente para apagar o fogo da paixão.

. Nos quatro versos finais da estância 123, o poeta exprime o seu espanto e questiona a ação do rei, nomeadamente o contraste entre a ação glorioso de D. Afonso IV contra os mouros e o assassinato de uma fraca, indefesa e inocente (interrogação retórica).

. Inês de Castro perante D. Afonso IV – Momento que antecede a execução

. Ao ver Inês de Castro, trazida à sua presença, pelos «horríficos algozes» (adjetivação expressiva), o monarca fica comovido e tende a perdoá-la por piedade. Contudo, é persuadido pelas razões do povo, ainda que «falsas e ferozes”, no sentido da «morte crua» da mãe dos seus netos (“o avô cruel” – est. 125, v. 8). Note-se a insistência na qualidade de avô que condena a mãe dos seus netos e, por extensão, eles mesmos.

. Inês de Castro surge presa (“as mãos lhe estava atando” ‑ est. 125, v. 3), triste, cheia de mágoa e saudade do seu amor e dos seus filhos. De facto, o que lhe dói mais não é a própria morte, mas o facto de, morrendo, deixar os filhos, tão pequenos, órfãos e D. Pedro só (“Do seu príncipe e filhos, que deixava, / Que mais que a própria morte a magoava” – est. 124, vv. 7-8 – comparação).
Na estância 125, é focado, com especial incidência, o seu olhar, que se dirige, em primeiro lugar, para o Céu, raso de lágrimas, como se invocasse Deus como testemunha da sua inocência e, depois, para os filhos (“Que tão queridos tinha e tão mimosos” – a adjetivação e o advérbio de quantidade e grau «tão» salientam o seu lado de mãe excelente – est. 125, v. 6), evidenciando assim o seu amor de mãe que teme a sua orfandade, enquanto se prepara para pedir piedade ao rei.
No fundo, estas duas estâncias destinam-se a preparar a intervenção dramática de Inês de Castro, através da piedade que a personagem suscita, indefesa diante dos “horríficos algozes”, banhada em lágrimas e olhando os filhos inocentes diante do avô cruel, situação e comportamentos que, por outro lado, inspiram compaixão.

. Discurso de Inês de Castro (est. 126 a 129)

                No seu discurso, Inês de Castro apresenta vários argumentos tendentes à sua salvação, procurando suscitar a piedade e a clemência para si e para os seus filhos:

1. Pedido de clemência, por comparação com outros casos: Inês de Castro apela à piedade do rei, afirmando que até os animais ferozes e as aves de rapina demonstram, em várias situações, piedade em relação às situações (est. 126). Ela dá o exemplo das aves de rapina que criaram a “mãe de Nino” (Semíramis) e da loba que alimentou Rómulo e Remo (os fundadores de Roma), animais que mostraram piedade para com os seres humanos.

2. Apelo ao lado humano e à condição de avô:
. Inês apela à humanidade do rei para que a perdoe, pois não é humano matar uma donzela fraca só por esta se ter apaixonado por quem a conquistou (est. 127, vv. 2-4).
. Inês apela à piedade e ao respeito do rei pelos seus filhos, que são, em simultâneo, netos do monarca (est. 127, vv. 5-8).
. Inês apela à clemência do rei, que, tal como soube dar a morte aos mouros, deve saber dar a vida, poupando-a (est. 128, vv. 1-4).

3. Apresentação de uma proposta alternativa: se, apesar da sua inocência, o rei a quiser castigar, implora-lhe o desterro para um lugar longínquo e inóspito (uma região gelada ou tórrida ou para junto de feras), mas que lhe poupe a vida, de forma a poder continuar a amar D. Pedro e a cuidar e criar os seus filhos, que tanto precisam dela e são fruto desse profundo amor (est. 129). Nesta parte final do seu discurso, Inês recupera e reforça uma das ideias já antes apontadas: ela sugere que poderá encontrar nas feras a piedade que não encontra entre os seres humanos, aludindo novamente aos animais selvagens.

                Com este discurso, Inês de Castro procura, por um lado, suscitar a piedade e a clemência de D. Afonso IV para si e para os seus filhos, e, por outro, despertar nele o sentido de justiça e levá-lo a reconhecer que a sua condenação à morte é cruel e injusta.

. Reações ao discurso de Inês de Castro (est. 130)

                Após o discurso de Inês de Castro, D. Afonso IV emociona-se e comove-se com as suas palavras e “Queria perdoar-lhe” (v. 1), “Movido das palavras que o magoam” (v. 2). Atente-se no uso do adjetivo “benino” para o caracterizar, que é revelador da simpatia do narrador para com a figura do monarca. Aliás, ao longo de todo o episódio, é clara a intenção do narrador de aligeirar a responsabilidade do rei na morte de Inês de Castro.
                Porém, o “pertinaz” povo e o destino de Inês, há muito traçado, não permitem que o rei reveja a sua decisão inicial (est. 130, vv. 3-4). Observe-se o recurso à conjunção coordenativa adversativa «mas» (est. 130, v. 3), que introduz uma ideia de oposição relativamente à hesitação do rei e aponta o povo e o destino como os responsáveis pela morte.
                Historicamente, D. Afonso IV não pôde perdoar Inês por razões de Estado: os seus conselheiros convenceram-no de que Inês de Castro representaria um perigo para a independência de Portugal, caso casasse com D. Pedro.
                A apóstrofe final da estância 130, dirigida aos carrascos de Inês (“Contra uma dama, ó peitos carniceiros, / Feros vos mostrais e cavaleiros?”) estabelece um contraste entre a figura de uma dama frágil e indefesa e aos cavaleiros ferozes, os quais, de acordo com o código de cavalaria da época, estariam obrigados a defender e proteger as damas em perigo, frágeis e desamparadas, e não a assassiná-las. De facto, o narrador transmite-nos a imagem dos assassinos como sendo “carniceiros”, “brutos matadores”, isto é, a imagem de cavaleiros indignos dessa condição pela ferocidade e crueldade que mostram perante uma dama frágil e indefesa. Deste modo, os carrascos de Inês são apresentados como ferozes, cruéis e cobardes, pois apenas mostram valentia contra uma dama fraca.
                Observe-se, porém, que o verdadeiro «culpado» desta morte já foi apresentado na estância 119: o Amor, cruel e tirano, que domina e sujeita os corações humanos, gosta de os ver sofrer e gosta de ver o sangue derramado.

. Execução de Inês de Castro

                Na estância 131, Inês de Castro é comparada com Policena, filha de Príamo e Hécuba, ele rei de Troia, e irmã de Heitor e Páris, por quem Aquiles, um dos heróis e guerreiros gregos que cercaram aquela cidade, se apaixonou. Após a morte de Aquiles, à traição, por Páris, Pirro, filho do herói grego, assassinou a jovem sob o túmulo do pai, vingando-o desta forma.
                A comparação inicia-se na estância 131 (1.º termo) e conclui-se na 132 (2.º termo). Naquela, Policena é caracterizada como jovem, formosa e inocente, consolo e amparo da sua “mãe velha”, e vítima da ira de Pirro, que a sacrifica de forma cruel, implacável e impiedosa. Observe-se a comparação do verso 6 da estância 131 entre Policena e a “paciente e mansa ovelha” e o hipérbato do verso 8, que a apresentam, precisamente, como uma vítima inocente que se oferece ao “duro sacrifício”.
                Na estância 132, o 2.º termo da comparação, Inês é apresentada como vítima inocente, sacrificada às mãos dos “brutos matadores”, “férvidos e irosos”, cujo peito branco trespassaram com as suas espadas. Esta comparação, em suma, comprova que a morte indigna de Inês de Castro é um sacrifício bárbaro, cruel e desumano. Além disso, enquadra-se no espírito clássico que animava o Renascimento, caracterizado pela admiração e imitação dos autores clássicos, apresentando-se a heroína deste episódio à altura dessa heroína clássica.
                Note-se como, no último verso, o narrador reflete a realidade histórica, dando nota do facto de os conselheiros, no momento em que executavam Inês, ignorarem a vingança de D. Pedro assim que subiu ao trono. De facto, o monarca capturou dois dos três conselheiros – Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves – e executou-os de forma bárbara.
                A estância 133 abre com uma apóstrofe dirigida ao Sol, através da qual o narrador exprime o seu repúdio pela morte de Inês de Castro. De facto, o seu assassinato foi um ato tão hediondo como cometido por Atreu, pelo que merecia também que o Sol se escondesse, horrorizado (comparação dos versos 3 e 4). Atreu tinha um irmão mais novo, Tiestes, que seduziu a sua esposa, Érope, e teve com ela vários filhos. Depois de descobrir a traição, Atreu, como forma de vingança, fingiu perdoar o irmão e preparou um banquete para celebrar a reconciliação, durante o qual lhe serviu os filhos fruto dessa relação adúltera entre Tiestes e a esposa do irmão. Horrorizado, o Sol escondeu-se.
                Nos últimos 4 versos da estância, o poeta dirige-se à Natureza, personificada, através de uma apóstrofe (“Vós, ó côncavos vales” – v. 5), a qual ouviu a última palavra proferida por Inês de Castro (“Pedro”) e a repetiu. De facto, os montes fizeram ecoar a última palavra dita por Inês.
                Na estância 134, o poeta faz uso de nova comparação, desta vez entre Inês de Castro e uma flor do campo. Num ambiente de juventude e inocência, uma menina corta boninas para fazer uma grinalda para adornar a sua cabeça. Colhida antes do tempo, a flor perde o cheiro e a cor. De igual modo, Inês de Castro, morta, perde a cor e a beleza (“Secas do rosto as rosas e perdida / A branca e viva cor, co a doce vida.” – vv. 7-8, est. 134 – metáfora e eufemismo) às mãos dos seus assassinos. Em suma, Inês, sem cor e sem vida, é comparada à bonina que foi cortada antes do tempo e que murchou: também ela possuía a beleza de uma flor, também ela tinha o viço da juventude e também ela foi morta antes do tempo.
                As ninfas do Mondego recordaram e choraram, durante muito tempo, Inês de Castro, tendo-se essas lágrimas transformado numa fonte que eternizou / imortalizou a memória dessa morte por amor a que chamaram «Dos amores de Inês» (Fonte dos Amores). Essa fonte situa-se na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Atente-se, estilisticamente, mas aliterações das consoantes nasais em /m/ e /n/, que sugerem o som contínuo do choro das ninfas, ou seja, o som das águas correndo.
                Nesta última parte do episódio, a Natureza surge novamente como cúmplice de Inês de castro, refletindo a tragédia que se abateu sobre ela. Assim, os montes ecoaram a sua última palavra, ela é comparada a uma bela e inocente flor que foi colhida antes do tempo e as ninfas do Mondego choraram copiosamente a sua morte, tendo as suas lágrimas dado origem à Fonte dos Amores.



. Características trágicas do episódio
. A ação é trágica e atinge o se clímax com a morte da protagonista, Inês de Castro, apresentada como uma vítima inocente.
. Camões respeita a lei das 3 unidades: de ação (a morte de Inês de Castro), de espaço (Coimbra) e de tempo (duração aproximada de 24 horas).
. A presença / intervenção do Destino: "Naquele engano de alma ledo e cego / Que a Fortuna não deixa durar muito ‑ est. 120, vv. 3-4; "Mas o pertinaz povo e seu destino" (est. 130, v. 3).
. A existência da peripécia, súbita mudança de rumo dos acontecimentos, em vários momentos da ação.
. A presença do coro, evidente nas intervenções emocionais do poeta que acompanham o desenrolar da ação e através das quais a vai comentando (estância 119, últimos 4 versos da estância 123, dos dois últimos versos da estância 130 até à 135).
. A catástrofe. constituída pela morte de Inês de Castro.
. A inspiração dos sentimentos de terror e piedade. O terror é sugerido por determinadas expressões: "horríficos algozes", "ferozes razões", "morte crua", "duros ministros rigorosos", "avô cruel", "morte escura", "peitos carniceiros", "brutos matadores", "encarniçavam férvidos e irosos".
Por sua vez, a piedade é suscitada:
- pelo contraste entre a vivência de uma felicidade despreocupada e a súbita desgraça que sobre Inês se abate;
- pela desproporção de forças entre uma "fraca dama delicada" e a brutalidade e crueldade dos seus "brutos matadores";
- pelo conjugação de uma morte injusta e uma vítima inocente;
- pelo contraste entre a humanização das feras e da natureza e a falta de humanidade dos homens;
- pela imagem de Inês de Castro implorando perdão ao rei, rodeada dos seus filhos;
- pelas intervenções do poeta.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Consílio dos Deuses no Olimpo


. Início da narração (estância 19): «in medias res», à semelhança das epopeias greco-latinas.

. A ação de Os Lusíadas não é narrada cronologicamente. De facto, o poeta inicia a narração quando a viagem de Vasco da Gama à Índia se situa já no Oceano Índico, perto da costa de Moçambique.
   Esta técnica narrativa, um traço das antigas epopeias, designa-se «in medias res», ou seja, a narração é iniciada a meio dos acontecimentos.

. O início da viagem e os acontecimentos que ocorreram até ao ponto em que a narração é iniciada na estância 19 serão contados posteriormente, num recuo temporal (analepse), pelo próprio Vasco da Gama.

. Espaço:
‑ Oceano Índico;
«largo» (espaço marítimo vasto);
‑ ondas «inquietas» (ondulação ligeira ‑ personificação);
‑ os ventos brandos, tranquilos, serenos (personificação: «respiravam» ‑ v. 3);
‑ as velas «inchadas» pelo vento, fazendo movimentar as naus, que vão cortando as ondas;
‑ a espuma branca (causada pela ondulação e pela deslocação das naus).
Em suma, a viagem dos Portugueses decorre num ambiente calmo, tranquilo, sereno, com os ventos a «empurrarem» as naus.

. Plano estrutural: viagem.

. Há uma estreita ligação entre esta estância e a seguinte (20), expressa pelo advérbio «já» e pela conjunção subordinativa temporal «quando», os primeiros vocábulos de cada estância ‑ aquele correspondente à oração subordinante e este à subordinada adverbial temporal ‑, a marcarem a simultaneidade dos dois acontecimentos – a viagem e o consílio. Note-se que a frase iniciada na estância 19 só termina no verso 4 da estância 20.

. Uso do pretérito imperfeito e do gerúndio: o decurso e a continuidade da viagem.



. 1.ª parte (est. 20-23) ‑ Introdução – Início do consílio: convocação dos deuses por Júpiter, sua viagem e chegada.

. Definição de consílio: a palavra deriva do latim «consilium» e significa, em português, «conselho», «reunião», «assembleia».
   Existe um outro vocábulo, semelhante ‑ «concílio» ‑, proveniente do latim «concilium», que em português significa «assembleia de bispos, conjunto de pessoas da hierarquia eclesiástica presidido pelo bispo, arcebispo, papa ou seus legados».
   Assim, o termo «concílio» designa atividades da Igreja Católica e «consílio» atividades realizadas fora desse âmbito.

. Plano: mitologia (o consílio dos deuses).

. Local de realização do consílio: Olimpo (cadeia de montanhas situada entre a Macedónia e a Tessália que era considerada a morada dos deuses).

. Convocatória e presidência: Júpiter.

. Mensageiro: Mercúrio, o mensageiro dos deuses, leva a mensagem de Júpiter às divindades.

. Objetivo do consílio: decidir se os Portugueses vão ou não chegar à Índia («Sobre as cousas futuras do Oriente» ‑ estância 20, v. 4 – isto é, o futuro do Oriente).

. Participantes: os deuses que governam os Sete Céus, de Norte a Sul e Este a Oeste.

. Retrato dos deuses:
‑ governam / comandam a vida dos homens («Onde o governo está da humana gente» ‑ est. 20, v. 2);
‑ governam os Sete Céus – todo o céu («deixam dos Sete Céus o regimento, / Que do poder mais alto lhe foi dado» ‑ est. 21, vv. 1-2);
‑ provêm de todo o cosmos, dos diferentes pontos cardeais (Norte a Sul, Este a Oeste), mas juntaram-se no Olimpo num instante («Ali se acharam juntos, num momento» ‑ est. 21, v. 5);
‑ governam todo o céu, toda a terra e todo o mar só com o pensamento («Alto poder, que só c’o pensamento / Governa o Céu, a Terra e o Mar irado» ‑ est. 21, vv. 3-4);
‑ são, em suma, omnipotentes e muito poderosos.

. Retrato de Júpiter:
‑ é o Pai dos deuses («Estava o Padre ali» ‑ est. 22, v. 1);
‑ é o presidente do consílio;
‑ é sublime e digno;
‑ é o senhor do raio;
‑ está sentado num trono faiscante de estrelas;
‑ tem um gesto alto, severo e soberano (tripla adjetivação);
«Do rosto respirava um ar divino»;
‑ exala um ar que transformaria um corpo humano num ser divino;
‑ tem um cetro e uma coroa resplandecentes, feitos de uma pedra mais luminosa que o diamante (comparação hiperbólica);
‑ possui um tom de voz «grave e horrendo» (dupla adjetivação), isto é, que impõe respeito e temor;
‑ ocupa um lugar privilegiado, mais elevado (senta-se num lugar mais elevado, superior ao dos demais deuses; repetição do adjetivo «alto»: «poder mais alto», «alto poder», «gesto alto»);
‑ símbolos: os raios de Vulcano, a coroa e o cetro (símbolos de poder).
- poder
- superioridade
- severidade
- distinção
- majestática dignidade

. Chegada e disposição dos deuses no consílio:
‑ Júpiter ocupa o lugar mais elevado;
‑ os restantes deuses eram distribuídos hierarquicamente, por ordem de importância, de acordo com as suas dignidades («Como a Razão e a Ordem concertavam»).

. Nestas estâncias, está presente a luminosidade característica das entidades divinas, visível nos nomes e adjetivos do campo lexical de luz: «estrelas», «cristalino», «rutilante», «clara», «diamante», «luzentes», «ouro», «perlas», etc.

. A intenção de Camões é caracterizar os deuses como seres superiores, respeitados e temidos pelo Homem. De facto, os deuses apresentam-se como seres imponentes no aspeto e nos ambientes que frequentam. Esta imponência concretiza o objetivo do maravilhoso n’Os Lusíadas: uma alegoria de enaltecimento dos feitos portugueses, que, por ação dos deuses olímpicos, atingiram uma grandeza transcendente. A sublime majestade dos deuses olímpicos acaba por se refletir na grandeza e no caráter sublime dos feitos dos Portugueses.


. 2.ª parte (estâncias 24 a 29). Exposição – Início do consílio propriamente dito.

a) Discurso de Júpiter (est. 24 a 29).

. Introdução (est. 24):
‑ Destinatário do discurso: os deuses («Eternos moradores do luzente» ‑ perífrase: o Olimpo).

‑ Caracterização dos Portugueses: «grande valor da forte gente» (est. 24, v. 3).

‑ Profecia dos Fados (decisões a que nem os deuses podem opor-se e contrariar): os Portugueses tornar-se-ão mais famosos do que os povos da Antiguidade – Assírios, Persas, Gregos e Romanos ‑, isto é, os seus feitos farão esquecer os feitos e as glórias desses povos.

‑ A sumária alusão aos Portugueses, ao seu valor e valentia, e a referência à profecia dos Fados permitem antecipar a posição favorável de Júpiter relativamente à empresa lusitana.

. Desenvolvimento (est. 25 a 28): Argumentos de Júpiter:

‑ Os feitos passados dos Portugueses: o valor, a coragem e a força demonstrados na luta e nas grandes vitórias alcançadas contra os Mouros (est. 25, v. 2) durante a Reconquista, contra os Castelhanos para assegurar a independência (est. 25, v. 5) e nas guerras contra os Romanos, capitaneados por Viriato e por Sertório (est. 26), general romano («peregrino» = estrangeiro) que se uniu aos lusitanos contra o seu próprio povo após a morte de Viriato e que fingia ter por conselheira uma corça que o acompanhava e que teria poderes de adivinhação. Todos estes sucessos foram obtidos em inferioridade numérica e desproporção de forças («Cum poder tão singelo e tão pequeno, / Tomar ao Mouro forte e guarnecido» ‑ antítese – est. 25, vv. 2-3), apenas com a ajuda divina («favor do Céu sereno» ‑ est. 25, v. 6).

‑ Os feitos do presente (advérbio de tempo «agora»):
. a coragem e a ousadia de navegar por mares incertos («duvidoso mar» ‑ est. 27, v. 2) desconhecidos («Por vias nunca usadas» ‑ est. 27, v. 3), em frágeis embarcações («num lenho leve» ‑ metonímia ‑ est. 27, v. 2), sem temer a força dos ventos («não temendo / De Áfrico e Noto a força» ‑ est. 27, v. 4)
. a persistência dos Portugueses, apesar do tempo de viagem já decorrido («Que, havendo tanto já que as partes vendo / Onde o dia é comprido e onde breve» ‑ est. 27, vv. 5-6), do cansaço («A gente vem perdida e trabalhada» ‑ est. 28, v. 6) e do sofrimento e das dificuldades e perigos enfrentados durante a viagem («duro inverno», «ásperos perigos», «climas e céus experimentados», «furor de ventos inimigos» ‑ est. 28 e 29).

‑ Os feitos do futuroprofecia: o Fado já havia determinado que detivessem, por longo tempo, o domínio do Oriente («Prometido lhe está do Fado eterno, / Cuja alta lei não pode ser quebrada, / Que tenham longos tempos o governo / Do mar que vê do Sol a roxa entrada.» ‑ est. 28, vv. 1-4) e nada nem ninguém o pode contrariar («Cuja alta lei não pode ser quebrada» ‑ est. 28, v. 2).

. Conclusão Decisão de Júpiter: por estes motivos e como prémio de terem já vencido tantos perigos e de «tanto furor de ventos inimigos», Júpiter determina que os marinheiros lusos sejam «agasalhados» na costa africana, para seguirem o seu caminho até à Índia, isto é, que os Portugueses sejam recebidos como amigos e ajudados na costa africana, no restabelecimento das forças e das naus, para que a viagem possa prosseguir (estância 29).


. 3.ª parte (est. 30 a 40) – Conflito: reação dos deuses ao discurso de Júpiter.

1) Divisão de opiniões entre os deuses: uns opõem-se à atitude favorável de Júpiter, outros defendem a posição do pai dos deuses (4 versos iniciais da est. 30). A forma como os deuses se envolvem na discussão revela a importância que atribuem ao assunto, isto é, o sucesso ou insucesso da empresa dos Portugueses, o que lhes confere um estatuto especial.

2) Posição de Baco (2.ª metade da estância 30 à estância 32): oposição à decisão de Júpiter, isto é, à empresa dos Portugueses.

a) Argumentos de Baco (em discurso direto):
‑ o receio de que os seus feitos no Oriente sejam esquecidos caso os Portugueses aí cheguem (est. 30, vv. 5-8);
‑ o receio de que a chegada dos Portugueses («gente fortíssima de Espanha» ‑ est. 31, v. 2) e as suas «novas vitórias» (est. 31, v. 5) façam desaparecer o seu renome, a sua glória e a sua fama, conforme profecia dos Fados (estância 31);
‑ o deus dominou a Índia («já teve o Indo sojugado» ‑ metonímia – est. 32, v. 1) e foi, por isso, cantado pelos poetas, os que «bebem a água de Parnaso» (est. 32, v. 4); com a chegada dos Portugueses, receia que o seu nome glorioso, cantado pelos poetas, caia no esquecimento (metáforas dos versos 5 a 7 da estância 32).

b) Simbolismo de Baco:
‑ as dificuldades e obstáculos enfrentados pelos Portugueses durante a sua navegação;
‑ os interesses prejudicados de mouros e outros indígenas e mesmo de Portugueses cuja posição social poderia ser afetada.

3) Posição de Vénus (est. 33 e 1.ª parte da est. 34): Defesa e apoio à viagem dos Portugueses.

a) Razões de Vénus:
1) a simpatia que sente pelos Portugueses («Afeiçoada à gente Lusitana» ‑ perífrase – est. 33, v. 2) porque são um povo semelhante ao seu amado povo romano (descendente de Eneias, seu filho, nascido em Tróia, que seguiu para Itália, depois da destruição daquela cidade pelos Gregos e, segundo Virgílio, foi o progenitor dos Romanos), proximidade essa visível em aspetos como:
i) a grande valentia e fortuna («Nos fortes corações, na grande estrela» ‑ est. 33, v. 5) mostradas na guerra no Norte de África («terra Tingitana» ‑ est. 33, v. 6);
ii) as semelhanças a nível da língua (entre o português e o latim) – est. 33, vv. 7-8;
‑ a certeza de que o seu nome e o culto do Amor, que ela simboliza, serão sempre celebrados, no Oriente, em todos os lugares onde os Portugueses chegarem (est. 34, vv. 1-4).

b) Vénus simboliza a civilização ocidental e o seu desejo de expansão no Oriente.

c) Esta disputa entre Baco e Vénus significa um conflito de interesses: de um lado, a inveja, o despeito, o receio de perda de influência; do outro, a simpatia e o desejo de glória. Ou seja, os deuses evidenciam, na sua discussão acalorada, sentimentos bem humanos.

4) Ponto da situação do consílio (2.ª parte da est. 34 e est. 35):
a) Baco teme a infâmia resultante da perda de influência no Oriente;
b) Vénus ambiciona as honras e a glória que os portugueses lhe poderão proporcionar;
c) A divisão dos deuses no apoio às duas partes gera um tumulto comparável a uma tempestade gigantesca na floresta e nas montanhas (além da comparação, destaque para as aliterações em «r», «f», «t», sugerindo o ruído da tempestade; para a adjetivação, para as sensações visuais e auditivas, para a hipérbole, todos estes recursos sugerindo a sua violência).

5) Posição de Marte (est. 36 a 40): toma o partido de Vénus e dos Portugueses.

a) Razões o apoio de Marte:
‑ o «amor antigo» que nutria por Vénus, também ela defensora da causa lusitana («ou porque o amor antigo o obrigava» ‑ est. 36, v. 3);
‑ o merecimento da «gente forte» (est. 36, v. 4).

b) Descrição de Marte: a força, a majestade e imponência, características evidenciadas pelo seu aspeto, pelas atitudes e pelo efeito que aquelas têm na natureza e nos próprios deuses:
‑ a adjetivação expressiva, dupla e tripla por vezes: «merencório», «medonho e irado», «armado, forte e duro», «penetrante», etc.;
‑ a armadura de guerreiro e os símbolos: o escudo, o elmo com viseira de diamante, o bastão;
‑ as suas atitudes de firmeza, determinação e revolta, de um guerreiro forte (atentar na adjetivação expressiva):
- levanta-se diante dos deuses (para se destacar, ser visto, avançar em direção a Júpiter);
- atira o escudo para trás, «medonho» e «irado» (para poder falar melhor);
- levanta a viseira do elmo «mui seguro» (para poder ver melhor);
- coloca-se diante de Júpiter, «armado», «forte» e «duro» (para mostrar que não o teme);
- dá uma pancada tão violenta com o bastão que Apolo perde um pouco a cor (para chamar a atenção) [«O Céu tremeu, e Apolo, de turvado, / Um pouco a luz tremeu, como infiado;» ‑ hipérbole: realça a violência e a fúria da pancada do bastão de Marte no chão sagrado do Olimpo, a tal ponto que o próprio Céu tremeu e o Sol (ambos personificados) até perdeu a luz].

c) Argumentos de Marte (em discurso direto):
‑ o mérito e a bravura dos portugueses, gente guerreira (Marte é o deus da guerra), reconhecidos pelo próprio Júpiter no seu discurso [«esta gente (…) / Cuja valia e obras tanto amaste» ‑ est. 38, vv. 3-4];
‑ a inveja e a falsidade das razões apresentadas por Baco [«Não ouças mais (…) / Razões de quem parece que é suspeito» ‑ est. 38, vv. 7-8; estância 39];
‑ é sinal de fraqueza voltar atrás numa decisão tomada («Da determinação que tens tomada / Não tornes por detrás, pois é fraqueza / Desistir-se da cousa começada» ‑ est. 40, vv. 2-4).

d) Conclusão: Marte solicita a Júpiter que dê cumprimento à sua determinação de ajudar os Portugueses, ordenando a Mercúrio, o mensageiro, que indique aos nautas lusos a terra onde podem colher informações sobre a Índia e restabelecer-se da viagem, retemperando forças.

                Observe-se como Camões faz surgir Marte diante de Júpiter, com uma força e autoridade quase iguais à do pai dos deuses. Tal sucede não apenas por se tratar do deus da guerra. De facto, a intenção do poeta era apresentar Marte como o símbolo da força, da coragem, da vitória, um símbolo da força dos Portugueses (povo «que a Marte tanto ajuda»), do seu amor à luta, das suas vitórias passadas e futuras. Note-se, por outro lado, que, após o seu discurso, favorável aos Portugueses, nenhum deus se atreveu a contrariá-lo e o próprio Júpiter consentiu no que o deus da guerra disse.


. 4.ª parte (est. 41) – Desenlace:
‑ Júpiter assente no que Marte disse («Como isto disse, o Padre poderoso, / A cabeça inclinando, consentiu / No que disse Mavorte valeroso» ‑ est. 41, vv. 1-3);
‑ Júpiter encerra o consílio e os deuses regressam aos seus domínios.


* - *


. Narrador

                O narrador do episódio é Camões, um narrador heterodiegético, pois narra na terceira pessoa uma história em que não tomou parte, da qual não foi personagem.


. Glorificação dos Portugueses no episódio

                Este episódio glorifica e engrandece os feitos dos Portugueses, desde logo porque o próprio Júpiter elogia a coragem e a ousadia do povo luso.
                Por outro lado, a referência às descobertas e aos sofrimentos e dificuldades enfrentados engrandece também os Portugueses, tendo em conta o facto de o consílio se realizar unicamente para tomar uma decisão sobre o apoio a dar aos navegadores que procuram chegar à Índia.
                Os próprios receios e oposição de Baco engrandecem o feito, já que uns simples humanos conseguem provocar o temor e a inveja de um deus.


. Valor simbólico do maravilhoso pagão

                A navegação dos Portugueses obriga os deuses a reunirem-se em consílio, envolvendo-se em disputa acesa, uns como oponentes, outros como adjuvantes, da aventura marítima lusa.
                A intervenção dos deuses pagãos (maravilhoso pagão) constitui não apenas um adorno externo do poema, tornando-o semelhante às grandes epopeias antigas, mas reveste-se também de um grande valor simbólico, relacionado com a própria intenção do poema: exaltar o empreendimento dos Portugueses, pois a descoberta do caminho marítima para a Índia era tão importante que interessou às próprias divindades. A convivência das deusas, no episódio da «Ilha dos Amores», com os Portugueses representa não só uma concessão formal do poeta aos processos e mentalidades renascentistas, mas insere-se dentro de uma linguagem literária e simbólica: o empreendimento da descoberta do caminho marítimo para a Índia era tão extraordinário que Camões se serviu dos deuses para realçar a transcendência dessa descoberta.
                A mitologia, n’Os Lusíadas, simboliza, pois, uma alegoria de exaltação dos grandes feitos dos Portugueses.


. Actantes:
‑ Sujeito: Vasco da Gama e os marinheiros portugueses e, num plano histórico, o próprio povo português.
‑ Objeto: a Índia e, no plano da História de Portugal, a fundação de um novo reino.
‑ Adjuvantes: Vénus e Marte.
‑ Oponente: Baco.
‑ Destinadores: os Fados e Júpiter.
‑ Destinatários: Vasco da Gama e os marinheiros e, no plano histórico, os Portugueses.

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