O
poema pode dividir-se em três partes. A primeira corresponde às duas primeiras
estrofes, nas quais o sujeito poético sugere a possibilidade de alcançar a
felicidade através do sonho, como se pode comprovar através das expressões que
o caracterizam: “terra de suavidade” (v. 3), “ilha extrema do sul” (v. 4), “palmares”
(v. 7). Este lugar é um espaço longínquo e indefinido que acarreta sossego e
calma, serenidade, juventude e alegria/sorriso, e representa a felicidade absoluta,
tudo nele se opondo à realidade e ao quotidiano. De facto, aparentemente, esse
espaço constitui a materialização do paraíso perdido, como se pode constatar
pelas metáforas/imagens exóticas de “palmares” e “áleas longínquas”. Esta ideia
é reforçada nos dois versos finais da primeira estrofe, as quais enfatizam a
ideia de que é possível que exista uma ilha, situada entre o sonho e a
realidade, na qual reina a felicidade. O adjetivo “jovem” e a forma verbal “sorri”
associam-se à musicalidade sugerida pela repetição do advérbio locativo “ali”,
reforçando as características paradisíacas e de exceção daquele espaço. No
entanto, a segunda estrofe parece introduzir uma certa incerteza: será possível
efetivamente viver daquela forma de felicidade (atente-se na repetição do
vocábulo “talvez”, que sugere essa mesma incerteza). Além de incerto, o ideal
procurado afirma-se já como ilusório, ideia sugerida pelas expressões “palmares
inexistentes” (v. 7) e “Áleas longínquas sem poder ser” (v. 8) e confirmado
pela interrogação do quinto verso: “Felizes, nós?”.
A
terceira estrofe constitui o segundo momento do texto. A conjunção coordenativa
adversativa “mas” que a inicia, que tem um valor de oposição ou contraste, contraria
a noção de felicidade absoluta sugerida inicialmente, desfazendo a dúvida
entretanto introduzida, o que deixa o sujeito poético desanimado e desalentado
ao constatar que é impossível vivenciar a felicidade no sonho, por causa do
caráter efémero do bem (“não dura o bem” – v. 18). Assim, a incerteza que se
foi instalando na segunda estrofe dá lugar à certeza da imperfeição que
caracteriza aquele lugar idealizado pelo “eu” e a sua desilusão fica bem
evidente com o recurso à interjeição do verso 17: “Ah”. De facto, “Sob os palmares”
(v. 15) “Sente-se o frio” (v. 16).
A
terceira parte compreende a quarta estrofe e nela encontramos as conclusões do
sujeito poético, que veiculam uma ideia oposta à inicial: afinal, não é no
sonho que podemos encontrar a felicidade, mas no interior, no íntimo de cada um
de nós (“É em nós que é tudo” – v. 23). Deste modo, a felicidade deixa de fazer
sentido num lugar exterior ao indivíduo ou na ilusão do sonho (enquanto fuga à
realidade) para poder ser materializada no interior do ser humano.
Para
atingir o absoluto, a plenitude, o ser humano necessita de ultrapassar as suas
próprias limitações, as quais geral o mal-estar, “assumindo a tensão produzida pelas
contingências da vida. A dicotomia sonho-realidade é representada por dois
mundos cujas fronteiras às vezes se tocam e o ser humano, na sua busca contínua
pela felicidade absoluta, tem tendência a divagar entre os dois, oscilando
entre as vivências vividas e as vivências sonhadas.” (Resumos Clássicos,
Conceição Coelho e Maria de Fátima Santos)


