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sábado, 20 de junho de 2020

'Os Lusíadas': Canto V: estâncias 92 a 100


. Análise estância a estância

. Estância 92

. É agradável (“doce”) ouvir os elogios dos outros quando os nossos feitos são divukgados (“soados” – v. 2).

. Qualquer pessoa de valor (“nobre”) esforça-se por igualar ou superar a glória dos seus antepassados.

. A admiração (“envejas”) dos feitos dos outros/antepassados constitui um estímulo, um incentivo para realizar atos mais sublimes (hipérbole “Fazem mil vezes feitos sublimados.” – v. 6). De facto, o canto, o louvor, incita à realização dos feitos: “Louvor alheio muito o esperta e incita.” (v. 8) – o exemplo origina a ação.

. Estância 93: Heróis da Antiguidade que se dedicaram à poesia ou à cultura.

. Alexandre Magno apreciava os versos melodiosos de Homero (mais do que os próprios feitos de Aquiles).

. Temístocles invejava os monumentos às vitórias do general Milcíades.

. Temístocles gostava de ouvir cantar os feitos de Milcíades.


Apreço dos Antigos pelos seus poetas
e importância dada à cultura
Consequência
Conciliação entre as armas e as letras

. Estância 94

. Vasco da Gama esforça-se por mostrar que a sua viagem à Índia (“que o Céu e a Terra espanta.”) merece mais glória e louvor do que as célebres navegações de Ulisses e Eneias, embora estes tenham sido imortalizados porque Virgílio foi valorizado por um “Herói” (v. 21), Otávio César Augusto.
O Poeta enaltece o Herói clássico pela sua atitude

. Crítica implícita aos portugueses: Camões canta os feitos dos portugueses, tal como Virgílio, e não há um herói que reconheça o seu valor. Quem imortaliza Vasco da Gama e os seus feitos é o Poeta.

. Estâncias 95 e 96

. Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e Augusto, mas…

. Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est. 95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a quem falta cultura e dons artísticos.

. Exemplos de heróis cultos:

1. Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia belos versos, tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um poema, depois de Marco António a ter abandonado por Glafira.

2. César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a ciência; / Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.

3. A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à escrita de comédias.

4. Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero que o considerava seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à cabeceira”.


. Estância 97




sexta-feira, 22 de maio de 2020

Episódio de Leonardo

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, nos dois últimos versos desta estância, Camões valoriza, claramente, o conhecimento baseado na experiência. De facto, Camões faz uma descrição bastante elucidativa acerca do prazer experimentado pelos marinheiros e pelas ninfas, porém conclui-a afirmando que “é melhor experimentá-lo que julga-lo”, pois só poderá ter noção exata das emoções e do prazer vividos aquele que passar por tal experiência.


. 5.ª parte (IX, est. 84) – O casamento.
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro e flores abundantes;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.
                A ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos há uma troca formal de palavras e atos parecidos aos de uma cerimónia de casamento: “As mãos alvas lhe davam como esposas; / Com palavras formais e estipulantes / Se prometem eterna companhia” (est. 84, vv. 5-7).
                Atente-se, por outro lado, na simbologia do ouro e do louro. Comecemos pelo primeiro: o ouro, tradicionalmente considerado como o metal mais valioso, o metal perfeito, possui o brilho da luz e é considerado, na Índia, a luz mineral. Por outro lado, contém o caráter ígneo, solar e real, e até divino. Por seu turno, o ouro-luz configura o símbolo do conhecimento e, para os brâmanes, é a imortalidade. De acordo com a tradição grega, evoca o sol e toda a sua simbologia: fecundidade, riqueza, conhecimento, irradiação. Relativamente ao louro/loureiro, está ligado, como todas as plantas que se conservam verdes no inverno, à imortalidade, simbolismo que levou os Romanos a fazer dele o emblema da glória, tanto das armas como do espírito. O loureiro é uma planta consagrada a Apolo e simboliza a imortalidade adquirida pela vitória, daí a sua folhagem servir para coroar os heróis, os génios e os sábios. Simboliza ainda as condições espirituais da vitória, a sabedoria unida ao heroísmo.


. Paráfrase

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, a ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos

. 5.ª parte (IX, est. 84):
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.



terça-feira, 6 de agosto de 2019

"No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade


            O poema “No meio do caminho”, composto por uma quadra e uma sextilha, num total de 10 versos, alternando versos rimados (ABAA) com brancos (o sexto, por exemplo), foi publicado pela primeira vez no número 3 da “Revista de Antropofagia”, em julho de 1928. Posteriormente, integrou o livro Alguma Poesia, datado de 1930.
            Começando pelo título, este remete para um espaço (“No meio do caminho”), antecipando o imprevisto: a pedra.
            O texto é caracterizado pela redundância e pela repetição. De facto, se as eliminássemos, a composição seria a seguinte: “No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. As pedras simbolizam os obstáculos ou problemas com que as pessoas se confrontam durante a sua vida, descrita, metaforicamente, como um “caminho”. Por outro lado, as pedras, enquanto obstáculos, podem impedir o indivíduo de prosseguir o seu percurso, isto é, os problemas podem impedi-lo de avançar na vida.
            Os versos 5 e 6 transmitem uma sensação de cansaço por parte do sujeito poético e do acontecimento que ficará sempre na sua memória. Assim, as pedras também podem indicar um acontecimento relevante e marcante para a vida de uma pessoa.
            Há autores que fazem uma interpretação biográfica do poema, associando-a a um drama familiar do poeta. De facto, em 1927, Drummond de Andrade foi pai de um menino que sobreviveu apenas meia hora. Entre janeiro e fevereiro desse ano, foi-lhe encomendada a escrita de um poema para o número 1 da “Revista de Antropofagia”. Imerso na sua tragédia pessoal, o escritor enviou este poema.
            O crítico Gilberto Mendonça Teles sublinha o facto de a palavra “pedra” conter as mesmas letras do vocábulo “perda”, um fenómeno de hipértese. Mera coincidência ou recurso intencional?


quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Fim", de Mário de Sá Carneiro


            Este poema data de 1916 e foi escrito na capital francesa.
            O texto gira em torno de um tema que se pode sintetizar do seguinte modo: encontrar sentido apenas na morte e através dela. O sujeito poético confere à sua morte e ao seu funeral o tom grotesco que lhe rira a dignidade, como para mais achincalhar-se.
            Começando a análise pelo título, nota-se nele uma espécie de humor satânico que se estende a toda a composição. O sujeito poético expressa o desejo de o seu post-mortem, o seu funeral, ser marcado pelo bater de latas, berros, pinotes e palhaços, desejo esse que sugere uma autorridicularização. É uma sugestão irreverente que deixa escapar um profundo autodesprezo. Por outro lado, a performance circense de palhaços e acrobatas conota uma alegria no encontro com a morte.
            As ideias de teatralidade e representação são conferidas pela presença precisamente dos palhaços e acrobatas, típicas figuras do espetáculo circense, que resume a faceta de clandestinidade, de transgressão incutida na excentricidade do último desejo, o de um funeral à moda andaluza. Esta arte de rua, marginal, constitui também o tema de “Partida de Emigrantes”, um triplico de Almada Negreiros. Num dos quadros, os saltimbancos de rua dominam a cena do cais representado. A sua presença representa a transgressão, a marginalidade que pode ser ignorada, desprezada e ostracizada, mas não suprimida, porque existe. No poema em análise, o sujeito lírico, na última jornada da sua existência, transforma o que deveria ser um cerimonial triste e pesaroso, de acordo com as convenções ocidentais, numa festa de rua, dominada pelo clima de festa, provocatória. O fim é celebrado e transformado numa comemoração de vida, a pretexto da morte, e acompanhado por artistas marginais com quem comunga o mesmo sentido transgressor.
            O ato caricato de transportar o caixão sobre um burro sugere a irreverência diante da morte e traduz também uma ideia de escárnio pelo próprio fim. Além disso, tem os enfeites à moda da Andaluzia, que devem ser vibrantes, vistosos.
            Quanto ao burro, no texto simboliza a obscuridade. Note-se que, na Índia, o animal serve de montaria para divindades funestas, como Nairrita, guardião da região dos mortos, o que só confirma a ideia de que o poema aponta para a figura do fim.
            A figura do palhaço, para Chevalier e Gheerbrant, é a representação do rei assassinado. Simboliza a inversão da compostura régia nas suas palavras e atitudes. A majestade é substituída pela irreverência; a soberania pela ausência de toda a autoridade; o temor pelo riso; a vitória pela derrota; as cerimónias sagradas pelo ridículo; a morte pela zombaria. O palhaço é como o reverso da medalha, o contrário da realeza, a paródia encarnada.
            Por um lado, a composição remete para um deboche numa ocasião cercada de solenidade; por outro, as atitudes a que ele incita traduzem uma celebração pela sua morte, como se se tratasse de um benefício para o mundo, talvez para si mesmo. O corolário do cortejo reside na sua exigência de que o caixão seja transportado sobre um burro, um claro menosprezo do seu próprio funeral, revelando, deste modo, a pouca importância atribuída a si mesmo e à sua vida.
            Em suma, a estruturação mental do poema é clara. De facto, o sujeito poético deixa um conjunto de indicações bastante precisas sobre:
● o tipo de funeral: à andaluza;
● o meio de transporte para o levar à sua última morada: um burro;
● as ações a desempenhar pelos acompanhantes da sua cerimónia fúnebre: bater em latas, romper aos berros e aos pinotes, fazer estalar chicotes no ar;
● os participantes e responsáveis pela animação do evento: palhaços e acrobatas.
A nota final é clara: esta é a sua vontade expressa, pois a um morto nada se recusa.

Bibliografia:
- Neusa Sorrenti, “Mário de Sá Carneiro, poeta: um Narciso entre Eros e Tânatos”;
- Carlos Ferreira, Mário de Sá Carneiro: Do Percurso do Poeta às Práticas no Programa de Português do Ensino Secundário.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

"José", de Carlos Drummond de Andrade

            “José” é um poema da autoria de Carlos Drummond de Andrade, escritor nascido a 31 de outubro de 1902 e falecido a 17 de agosto de 1987, um dos maiores vultos da segunda geração de modernistas brasileiros, considerado por muitos o maior poeta brasileiro do século XX.
            A composição em questão foi publicada pela primeira vez em 1942, integrada na obra Poesias. Nela, o autor aborda a temática da solidão e do abandono do indivíduo na cidade grande, bem como a desesperança e a sensação de estar perdido na vida, sem saber que rumo seguir.
            O texto abre com uma interrogação que se repete, anaforicamente, ao longo do mesmo, assumindo a forma de uma espécie de refrão: “E agora, José?”. Ou seja, agora que os bons momentos terminaram (“a festa acabou”, “a luz apagou”, “o povo sumiu”), o que resta? O que há a fazer?
            Por outro lado, a interrogação constitui o mote e o motor do poema: a procura de um caminho, de um sentido para a vida. José, tal como João ou António, é um nome muito comum na língua portuguesa, pelo que o seu uso neste texto pode ser entendido como um sujeito coletivo, uma metonímia. A sua substituição pelo pronome “você” significa que o sujeito poético se está a dirigir diretamente ao(s) leitor(es), comos e este(s) fosse(m) o(s) interlocutor(es).
            Esse “você” não tem nome, mas “faz versos”, “ama, protesta” e “zomba dos outros”. A sua característica de poeta pode ser interpretada como a sua identificação com o próprio Drummond de Andrade.
            A segunda estrofe reforça a ideia de vazio, de ausência e carência de tudo: está sem “mulher”, “discurso” e “carinho”. Além disso, já não pode “beber”, “fumar” e “cuspir” (atente-se na sucessão de anáforas); “a noite esfriou”, “o dia não veio”, tal como não veio “o bonde”, “o riso” e a “utopia”. Isto significa que todas as formas de contornar o vazio, a ausência, o desespero e a realidade não chegaram, nem mesmo o sonho (“a utopia”), nem a esperança de um recomeço, pois “tudo acabou”, “fugiu” e “mofou” (nova sucessão de anáforas), como se o tempo deteriorasse tudo aquilo que é bom.
            Na terceira estrofe, prosseguem as anáforas e as enumerações, nomeadamente das suas características imateriais (“sua doce palavra”, “seu instante de febre”), “sua gula e jejum”, “sua incoerência”, “seu tédio”), bem como daquilo que é material e palpável (“sua biblioteca”, “sua lavra de ouro”, “seu terno de vidro”). Ou seja, tudo desapareceu e nada restou, exceto a interrogação: “E agora, José?”.
            A quarta estrofe apresenta-nos um sujeito poético que não encontra saída/solução para a sua situação: “Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta”. A própria morte enquanto derradeira solução também não é possível – “quer morrer no mar, / mas o mar secou – ideia que é reforçada mais adiante (José é obrigado a viver) –, tal como a possibilidade de um regresso às origens: “quer ir para Minas, / Minas não há mais”. Atente-se no facto de o poeta ser natural de Minas Gerais (Itabira), o que pode indiciar nova possível identificação entre Drummond de Andrade e José. Em suma, o passado também não constitui uma solução para o drama vivido pelo sujeito poético.
            A quinta estrofe contém uma anáfora constituída por várias orações subordinadas adverbiais condicionais, com as formas verbais no pretérito imperfeito do conjuntivo. Todos estes recursos remetem para um conjunto de possíveis escapatórias ou distrações que nunca se concretizam, são interrompidas, ficam em suspenso, ideia suscitada pelo recurso às reticências. O verso 7 desta estrofe destaca novamente a ideia de que a morte não é solução: “Mas você não morre”, pois “você é duro José!”. Estes dois versos sugerem que o sujeito lírico possui uma grande força, uma resiliência e capacidade de sobrevivência que constituem traços da sua personalidade, para quem desistir da vida não é uma opção.
            A última estrofe do texto salienta o seu isolamento total (“Sozinho no escuro / qual bicho-do-mato”), “sem teogonia” (não há Deus, não existe fé nem auxílio divino), “sem parede nua / para se encostar” (sem o apoio de nada nem de ninguém), “sem cavalo preto / que fuja a galope” (sem nenhum meio de fugir da situação em que se encontra).
            Ainda assim, “você marcha, José!”, mas para onde? Ou seja, o sujeito poético segue em frente, mesmo sem saber em que direção ou com que objetivo. O verbo “marchar” remete para um movimento repetitivo, quase automático. José é um homem preso à sua rotina, às suas obrigações, afogados em questões existenciais que o angustiam; faz parte da máquina, das engrenagens do sistema, por isso tem de manter o seu quotidiano.
            Não obstante, perante uma mundividência pessimista, de vazio existencial, os versos finais do poema parecem sugerir um raio de esperança: José não sabe para onde vai, qual é o seu destino ou lugar no mundo, mas “marcha”, prossegue, sobrevive, resiste.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Presságio"

            O poema “Presságio” foi escrito por Fernando Pessoa em 24 de abril de 1928, já na fase final da sua vida (13 de junho de 1888 – 30 de novembro de 1935).
            O tema da composição poética é o amor, mais concretamente a dificuldade em o revelar à pessoa amada (em última análise a impossibilidade de viver um amor correspondido), abordado em cinco quadras de redondilha maior (bem ao gosto popular), com rima cruzada, segundo o esquema rimático ABAB.
            Na primeira quadra, o sujeito poético apresenta o mote do texto, isto é, o tema que vai ser desenvolvido, bem como o seu posicionamento face ao mesmo: quando o sentimento amoroso se revela, quando surge, não sabe como se revelar, como se confessar (note-se a antítese construída em torno da repetição de formas do verbo “revelar” nos dois versos iniciais: “revela” e “revelar”). Recorrendo à personificação, ele representa o amor como uma entidade autónoma, que age independentemente da vontade do sujeito. Assim, sem conseguir controlar aquilo que sente, apenas pode olhar a mulher amada, mas não consegue conversar com ela, não sabe o que dizer.
            Na segunda estrofe, o sujeito poético reforça a incapacidade de expressar devidamente o seu amor, parecendo acreditar que o sentimento não pode ser traduzido por palavras, pelo menos por ele: “Quem quer dizer o que sente / Não sabe o que há de dizer.”. O «eu» é um inadequado relativamente ao «outro» e tem dificuldade em comunicar com ele, a qual resulta na sensação de que está sempre fazendo algo de errado.
            A observação e a opinião dos outros restringem os seus sentimentos. O sujeito acredita que, se falar sobre eles, vai parecer que mente, mas, se os calar, vai ser julgado por deixar (a amada? O amor?) cair no esquecimento. Assim sendo, sente que não pode agir de nenhum modo.
            Na terceira estrofe, o sujeito lírico, triste e desalentado, lamenta-se e, socorrendo-se do pretérito imperfeito do conjuntivo (modo verbal do desejo) e de uma oração subordinada adverbial condicional, manifesta um desejo: que ela pudesse compreender o amor que sente através do olhar. Atente-se na sinestesia dos versos 9 e 10 (“Ah, mas se ela adivinhasse, / Se pudesse ouvir o olhar”), que exprime a crença do sujeito, segundo a qual o modo como olha a amada denuncia mais o seu sentimento do que qualquer declaração. O «eu» suspira (“Ah”), imaginando como seria se ela percebesse, sem que ele tivesse de dizer por palavras. Porém, a presença do conjuntivo (“adivinhasse”, “pudesse”) e da oração condicional nega desde logo a possibilidade de se concretizar essa vontade.
            Na estrofe seguinte, defende que “quem sente muito, cala”, ou seja, aqueles que estão realmente apaixonados calam o seu sentimento. Para ele, quem tenta expressar o seu amor “fica sem alma nem fala”, “fica só, inteiramente”. Falar do que sente irá sempre levá-lo ao vazio e à solidão absoluta. Assim, é como se assumir um amor fosse, automaticamente, uma sentença de morte para o sentimento, que passaria a estar condenado.
            A última quadra é passível de diferentes leituras:
a) Se o sujeito poético pudesse explicar à mulher a dificuldade que tem em exprimir o seu amor, não mais seria necessário fazê-lo, porque já se estava a declarar, mesmo que indiretamente. Porém, a realidade é que não consegue verbalizar o sentimento nem discutir essa sua inabilidade. Assim sendo, o relacionamento está condenado a não passar do plano platónico.
b) O texto é, na verdade, uma declaração de amor. Neste caso, o «eu» usa a poesia como forma de falar, de mostrar o que sente; o poema diz/fala aquilo que ele não consegue. Porém, para que esta forma de comunicação se concretizasse, seria necessário que ela lesse o poema e soubesse que lhe era dirigido. Como não o lê não sabe, o relacionamento também não se concretiza deste modo.
c) O verdadeiro amor é incomunicável, não pode ser expresso através de palavras, caso contrário desaparece. O sujeito poético conclui que só conseguiria declarar o seu amor, caso o sentimento não existisse mais.
            A conjunção coordenativa adversativa “mas” estabelece uma oposição entre aquilo que tinha sido dito antes e a quadra que encerra o poema. Embora lamente não poder expressar o seu sentimento, está conformado, pois sabe que não pode ser revelado, sob pena de desaparecer.
            Ao longo de todo o poema, transparece a atitude derrotista do sujeito poético face ao amor.



https://www.culturagenial.com/poema-pressagio-de-fernando-pessoa/

quinta-feira, 13 de junho de 2019

"Não sei se é sonho, se realidade"

            A composição poética, composta por quatro sextilhas de rima cruzada nos primeiros quatro versos e emparelhada nos dois últimos (ABABCC) e versos eneassílabos, aborda a temática da dicotomia entre o sonho e a realidade. Esta temática é consentânea com o conceito de arte que caracteriza o Modernismo, enquanto experimentação para recriar a vida, criando uma realidade nova.
            O poema pode dividir-se em três partes. A primeira corresponde às duas primeiras estrofes, nas quais o sujeito poético sugere a possibilidade de alcançar a felicidade através do sonho, como se pode comprovar através das expressões que o caracterizam: “terra de suavidade” (v. 3), “ilha extrema do sul” (v. 4), “palmares” (v. 7). Este lugar é um espaço longínquo e indefinido que acarreta sossego e calma, serenidade, juventude e alegria/sorriso, e representa a felicidade absoluta, tudo nele se opondo à realidade e ao quotidiano. De facto, aparentemente, esse espaço constitui a materialização do paraíso perdido, como se pode constatar pelas metáforas/imagens exóticas de “palmares” e “áleas longínquas”. Esta ideia é reforçada nos dois versos finais da primeira estrofe, as quais enfatizam a ideia de que é possível que exista uma ilha, situada entre o sonho e a realidade, na qual reina a felicidade. O adjetivo “jovem” e a forma verbal “sorri” associam-se à musicalidade sugerida pela repetição do advérbio locativo “ali”, reforçando as características paradisíacas e de exceção daquele espaço. No entanto, a segunda estrofe parece introduzir uma certa incerteza: será possível efetivamente viver daquela forma de felicidade (atente-se na repetição do vocábulo “talvez”, que sugere essa mesma incerteza). Além de incerto, o ideal procurado afirma-se já como ilusório, ideia sugerida pelas expressões “palmares inexistentes” (v. 7) e “Áleas longínquas sem poder ser” (v. 8) e confirmado pela interrogação do quinto verso: “Felizes, nós?”.
            A terceira estrofe constitui o segundo momento do texto. A conjunção coordenativa adversativa “mas” que a inicia, que tem um valor de oposição ou contraste, contraria a noção de felicidade absoluta sugerida inicialmente, desfazendo a dúvida entretanto introduzida, o que deixa o sujeito poético desanimado e desalentado ao constatar que é impossível vivenciar a felicidade no sonho, por causa do caráter efémero do bem (“não dura o bem” – v. 18). Assim, a incerteza que se foi instalando na segunda estrofe dá lugar à certeza da imperfeição que caracteriza aquele lugar idealizado pelo “eu” e a sua desilusão fica bem evidente com o recurso à interjeição do verso 17: “Ah”. De facto, “Sob os palmares” (v. 15) “Sente-se o frio” (v. 16).
            A terceira parte compreende a quarta estrofe e nela encontramos as conclusões do sujeito poético, que veiculam uma ideia oposta à inicial: afinal, não é no sonho que podemos encontrar a felicidade, mas no interior, no íntimo de cada um de nós (“É em nós que é tudo” – v. 23). Deste modo, a felicidade deixa de fazer sentido num lugar exterior ao indivíduo ou na ilusão do sonho (enquanto fuga à realidade) para poder ser materializada no interior do ser humano.
            Para atingir o absoluto, a plenitude, o ser humano necessita de ultrapassar as suas próprias limitações, as quais geral o mal-estar, “assumindo a tensão produzida pelas contingências da vida. A dicotomia sonho-realidade é representada por dois mundos cujas fronteiras às vezes se tocam e o ser humano, na sua busca contínua pela felicidade absoluta, tem tendência a divagar entre os dois, oscilando entre as vivências vividas e as vivências sonhadas.” (Resumos Clássicos, Conceição Coelho e Maria de Fátima Santos)


domingo, 9 de junho de 2019

Bernardo Soares: "Eu nunca fiz senão sonhar"


Estrutura interna do excerto

1.ª parte (de “Eu nunca fiz…” a “… uma felicidade enorme, real, incomparável.”): reflexão sobre a importância do sonhar e sobre as suas consequências (criação de um “mundo falso”).


segunda-feira, 20 de maio de 2019

"Num bairro moderno"

. Tema: a oposição campo / cidade – dramatização de uma invasão simbólica da cidade pelo campo, representada por uma vendedeira e sua giga de frutas e legumes.


. Assunto: o percurso do sujeito poético, a caminho do emprego às dez horas de uma quente manhã de agosto, pelas largas ruas macadamizadas de um bairro moderno da cidade, e ao longo do qual faz contrastar o conforto dos habitantes do bairro com o esforço de uma vendedeira ambulante, uma jovem camponesa pobre. Os frutos e legumes que vende são o pretexto para uma transfiguração do real, transmutando os legumes e frutos num ser humano.

            Perante este cenário, é fácil concluir que o poema apresenta uma linha narrativa: o sujeito poético caminha, pelas ruas macadamizadas de um bairro da cidade, para o seu emprego, às dez horas de uma manhã quente de agosto. Em determinado momento vê uma camponesa pobre, uma vendedeira ambulante a colocar o cabaz pesado de frutos e legumes nas escadas de uma casa luxuosa. Esta é a cena que inspira nela a “visão de artista”, que é o principal foco do poema. O sujeito poético vai observando, com bastante pormenor, o que o rodeia, contrastando a frescura da vida confortável das casas “apalaçadas” com o calor daquela rua. Segue-se a caracterização da vendedeira e transformação dos elementos da sua giga num “corpo orgânico”.


. Estrutura interna


            Porém, este luxo da vida confortável na sombra fresca das ilhas privativas de verdura, que são as casas apalaçadas, contrasta com a crua hostilidade da luz e do calor na larga rua desabrigada: “E fere a vista, com brancuras quentes, / A larga rua macadamizada.” (vv. 4-5)
            O sujeito poético desempenha um papel activo na medida em que, enquanto caminha, vai observando o que o rodeia com uma particularidade de detalhes que constituem o seu próprio comentário selectivo. As casas grandiosas têm fontes e jardins; os seus interiores, vislumbrados através das janelas quando se abrem as persianas, revelam a folhagem pintada dos papéis de parede – o jardim capturado e enclausurado como um tema decorativo – e o reluzir reconfortante das porcelanas frias. Mas além de reportar o que vê e o surpreende nas ruas durante os passeios pelos bairros da cidade, ele integra-se nas várias cenas que anota na sua poesia. Daí, vemo-lo às “Dez horas da manhã”, a descer, “Sem muita pressa, para o [seu] emprego”, e a observar agudamente o meio ambiente. O “eu” projecta-se, assim, como quem vai todos os dias para o seu emprego, tal como qualquer lisboeta o faz, na rotina e monotonia típicas do ambiente citadino e burguês de qualquer capital em qualquer época. Perante esta vida monótona, o sujeito poético reage negativamente – fala das “tonturas duma apoplexia” que já se lhe tornaram quase habituais.
            Os ataques de tonturas levam o sujeito poético a ironizar enquanto caminha sobre a “vida fácil” representada pelas casas “apalaçadas” que abundam nas ruas largas e modernas que distam do seu emprego (est. 1-3). A sua observação contém particularidades que são o seu próprio comentário selectivo (estr. 2). O luxo contrasta com a hostilidade da luz e do calor (est. 1, vv. 4-5) que retém a sua visão na presença da vendedeira de hortaliça (est. 4-5), enquanto a restante cidade prossegue na sua rotina quotidiana (est. 8); o sujeito poético fica, porém, imerso na visão que o leva a recompor gradualmente um “novo corpo orgânico” com os produtos do cabaz da vendedeira (est. 9-12).


. 2.ª parte (estr. 4-6) – Entrada da vendedeira, simbolizando a invasão da cidade pelo campo.

            No ambiente hostil onde caminha, a atenção do sujeito poético é atraída pela presença da vendedeira de hortaliça numa escada de mármore.
            A rapariga é socialmente inferior ao sujeito lírico. No entanto, tem mais em comum com as ilhas de verdura do bairro moderno do que ele: pertence ao mundo natural da vegetação que, na forma do jardim ou da sua representação no forro das paredes, circunda e invade a casa apalaçada, da mesma maneira que ela invadiu a cidade com o seu “retalho de horta aglomerada”.


. Descrição da vendedeira:
“rota, pequenina, azafamada”tripla adjectivação, diminutivo;
“esguedelhada” – desleixada – , feia”dupla adjectivação, sensação visual;
– pobre, pelas vestes, que são apresentadas mesmo antes da camponesa em si mesma;
“ressoam-lhe os tamancos”sensação auditiva;
“o algodão azul da meia”sensação visual, metonímia;
“os seus bracinhos brancos”sensação visual, diminutivo carinhoso;
– demonstra ser activa, diligente, trabalhadora (estr. 13, vv. 1-5);
– mostra-se robusta [“Nós levantámos todo aquele peso / (...) Com um enorme esforço muscular.” – estr. 14, vv. 3-5; “E como as grossas pernas dum gigante...”, “... abóboras carneiras.”, estr. 20], em paralelo com o seu aspecto frágil: “magra, enfezadita” (estr. 19, v. 4)

            Esta descrição vinca bem o contraste entre a vitalidade dos produtos do campo transportados pela vendedeira e a sua fragilidade.
            Por outro lado, sugere a imagem de uma criatura pobre e privada de tudo, com uma vida que é uma verdadeira luta, pis embora “azafamada", continua “rota” e “esguedelhada”, de uma pobreza que se reflecte também nas meias que se abrem quando ela se curva. Não obstante, ela é alegre e “prazenteira”; a sua boa disposição reflecte-se nos tamancos que ressoam, no algodão azul das meias, na chita estampada e nas ramagens da sua saia, e dá-lhe uma projecção ao mesmo tempo “pitoresca e audaz”, como alguém que desabafa a sua própria penúria, com o “peito erguido, os pulsos nas ilhargas” (mostrando-se decidida), e “duma desgraça alegre” (paradoxo) que incita o sujeito poético.


. Relações:


            A tensão que existe entre o criado desdenhosamente impaciente e a hortaliceira tem uma projecção simbólica nos últimos três versos da estrofe, cujo efeito é a intensificação da atitude negativa do sujeito perante o criado: por transferência metonímica, a moeda «lívida, oxidada» representa a cara cor de cadáver («lívido», significando cor de chumbo, entre o negro e o azul, ou a cor cadavérica) do criado, o «bater» da imagem representa a atitude hostil deste perante a rapariga, enquanto as «faces» dos «alperces», sobre os quais a moeda cai, simbolizam, pela sua frescura saudável, as faces da própria rapariga. A bofetada verbal que se lhe dá transforma-se, assim, numa bofetada simbolicamente física.
            A pobreza desta vendedeira é um sintoma de injustiça social, tal como a riqueza contrastante das casas apalaçadas.


. Recursos expressivos:
sinestesia: "xadrez marmóreo" (sobreposição de sensações visuais e tácteis);
– nas estrofes 5 e 6 há um grande rigor de observação (“apesar do sol, examinei-a”), obtido através da importância conferida às sensações auditivas ("ressoam os tamancos") e às sensações visuais ("o algodão azul da meia", "os seus bracinhos brancos”, "um cobre lívido, oxidado”);
– na estrofe 6 nota-se a grande capacidade de síntese de Cesário Verde e do seu génio em conseguir caracterizar todo um universo social e psicológico através da fala do criado ("Se te convém, despacha; não converses. / Eu não dou mais...”), de gestos burgueses de arrogância presentes na expressividade do(a):
® superlativo analítico "muito descansado”;
® forma verbal "atira”;
® personificação "cobre lívido”;
® cariz pejorativo e desprezível presente no adjectivo oxidado – autênticos traços naturalistas da poesia de Cesário;
– a adjectivação utilizada para a vendedeira caracteriza-a como inferior, desprezível;
verbos: "notei", "examinei"    observação do sujeito poético.


. 3.ª parte – Transfiguração da realidade  –  marca surrealista 


. Marcas do real     – "E eu recompunha"
– a azáfama matinal de uma rua citadina (estr. 7-8):
. sensações olfactivas: "Bóiam aromas";
. sensações visuais: "fumos de cozinha", "claros de farinha";
. sensações auditivas: "uma ou outra campainha toca".


   


NOTAS:

            1.ª) O ser humano vegetal que emerge da cornucópia trazida para a cidade pela frágil mensageira do campo é uma mulher gigantesca com grandes seios maternais ("seios injectados”) e opulentas “carnes tentadoras”; uma Deusa-Mãe arquetipal, uma personificação da Natureza.

            2.ª) Este exuberante corpo vegetal é a antítese do corpo da vendedeira que o transporta: caracterizada inicialmente como “rota, pequenina, azafamada”, a rapariga é também “esguedelhada, feia” (estrofe 5), “magra, enfezadita” (estrofe 19), “descolorida nas maçãs do rosto, / E sem quadris na saia de ramagens” (estrofe 16).

            3.ª) A transfiguração do real (que foi desencadeada pelo “cobre lívido, oxidado” caindo sobre as “faces duns alperces” – estr. 6, vv. 4-5), essa fuga para o fantástico não significa um abandono do real, mas sim atribui uma visão mais ampla dos seus aspectos essenciais, conseguida através da transformação de sensações em imagens. Deste modo, dos frutos e legumes nasce a imagem das várias partes de um gigantesco corpo natural, simbólico do campo: prevalecem os substantivos, a adjectivação sugestiva [“túmido”, “fragrante”, est. 11, v. 3; “(...) vívida, escarlate”, est. 12, v. 3; “(...) hirtos, rubros”, est. 12, v. 5], o verbo expressivo em Bóiam aromas, fumos de cozinha” (est. 8, v. 1); existem enumerações (est. 10-11), elipses (est. 9, vv. 5; est. 10, vv. 4-5), comparações (“túmido”, “fragrante, / Como de alguém que tudo aquilo jante, / Surge um melão, que me lembrou um ventre”, est. 12, vv. 3-5; “E como um feto”, est. 12, v. 1); hipálage (“E às portas, uma ou outra campainha / Toca, frenética, de vez em quando”, est. 8, vv. 4-5); e metáforas [“(...) verdes folhos”, est. 10, v. 2; “São tranças dum cabelo (...)”, est. 10, v. 3; “E os nabos – ossos nus”, est. 10, v. 4; “E os cachos de uvas – os rosários dos olhos”, est. 10, v. 5].
            Em suma, esta metamorfose da realidade é bastante simbólica. A giga é “um retalho de horta”, daí que transpire força, vigor, saúde, vida, poder de transformação, por oposição à cidade, representada pelo sujeito poético e, de certa forma, pela hortaliceira, conotada com dor, sofrimento e, no limite, morte. Esta oposição campo / cidade, vida / morte é um dos binómios estruturadores da poesia de Cesário e está ligada ao mito de Anteu. Anteu foi um gigante, filho de Neptuno e da Terra. Na luta contra Hércules, Anteu recuperava forças cada vez que tocava no solo e era invencível. Então, Hércules ergueu-o nos braços e conseguiu desta forma eliminá-lo. Fala-se deste mito sempre que alguém estabelece contactos com a origem das suas ideias ou dos seus sentimentos e recupera energias físicas ou psicológicas. No caso deste poema, o mito de Anteu está presente no sentido de que só o contacto com o real, mas sobretudo com o campo, com a terra, confere ao homem força e vitalidade.

            4.ª) Serão a reacção física negativa e a tensão psicológica que o sujeito patenteia na 1.ª parte apenas o resultado da monotonia da sua vida? Ou serão ao mesmo tempo o resultado de um esforço constante de sublimar problemas pessoais? Nesta ordem de ideias, o que lhe desperta o interesse não é a paisagem, em geral, mas, especificamente, as casas, os lares, que, por sua vez, representam tudo aquilo que lhe é negado pela sua inadaptação sexual. Enquanto o «eu» vai observando e anotando, apresenta-se-lhe repentinamente, de costas, a figura de uma pequena hortaliceira, e logo, numa imagem brilhante e visual, o sujeito foca nela um aspecto erótico, ou pelo menos, sugestivo, no «algodão azul da meia» que se abre quando ela se curva. Neste momento começa-se a sentir a tensão que noutros poemas se manifesta perante a figura feminina quando, «Subitamente, através da sua visão de artista», todos os controles, as barreiras censoriais erguidas contra os impulsos da líbido no processo de sublimação, se rompem, e segue-se-lhe depois o quadro mais sensual de toda a obra de verdiana, como seu o «eu» estivesse protegido e desculpado agora pela sua «visão de artista». É neste momento que a sexualidade inerente, insatisfeita e problemática do «eu», em termos da sua ambivalência, atinge o seu clímax.

            5.ª) Por outro lado, é aqui que o sujeito poético se apresenta na pele de um artista, de um poeta, no gesto demiúrgico de transformar esses alperces, humilhados pelo valor de troca e pela classe que o determina (representada no criado de uma casa apalaçada), num motivo de metaforização poética de recriação vital  -  de uma sobre-vida. Trata-se aqui de um projecto de sobre-vivência não só do sujeito, que passa a ter uma visão de artista e se autocontempla no acto de transmutar os simples vegetais, com a ajuda da luz do sol, num corpo recriado, mas também de sobre-vivência da própria natureza vegetal, reagindo contra a funesta redução do seu uso ao valor de troca, entendido como mortal: o cobre é qualificado de oxidado e além disso Cesário substituiu a qualificação da versão primitiva, «ignóbil», por «lívido». Deslocou o enfoque do conflito humano e sentimental para um nível mais profundo, onde a lógica económica se cruza com uma lógica fantasmática dominada pela pulsão de morte. Para revalorizar a natureza  -  os frutos e os legumes  -  o sujeito torna-se e mostra-se poeta, capaz de a recriar num corpo carnal, e põe a nu o procedimento metafórico com a sua capacidade fecundadora e produtiva. A metáfora transforma-se assim num equivalente da fertilidade da natureza.
            Convém ainda notar que não é um corpo qualquer que a «visão de artista» recompõe, mas pedaços de um organismo feminino, agigantados e plurais, numa série que caminha do mais epidérmico para o mais visceral, para os órgãos da digestão, da procriação e para os centros de vida: «ventre», «feto», «sangue» e «corações pulsando». Se a natureza comestível se transforma em natureza carnal e fértil, o contrário também sucede. A metáfora é também pretexto para uma oralização dos estilhaços do corpo feminino, tornando-o deglutível e nutritivo como as hortaliças e como elas revigorante, pois que é do «gigo» que o sujeito recebe «emanações sadias».

            6.ª) Uma vez que o sujeito poético recompõe, isto é, compõe de novo “um novo corpo orgânico” com os frutos e legumes vistos em termos metafóricos (“... descobria / Uma cabeça numa melancia...”), a sua actividade implica a existência anterior de um modelo ou arquétipo, de uma «ideia» no sentido platónico, que houvesse sido decomposto em frutos e legumes. Esse modelo é, portanto, a própria Natureza. Mas como o corpo que é recomposto é um corpo “novo”, fica também implícito que a Natureza, no processo da sua decomposição, tinha perdido a sua forma ou totalidade original. A visão de artista ganha, assim, uma dimensão mais ampla e mais profunda: é um projecto “visionário” de reconquista de um paraíso perdido.


. 4.ª parte (est. 13 - fim) – Interrupção da visão pelo pedido da vendedeira ao sujeito poético que a ajude, seguida da observação:

. da vendedeira:
- a palidez e a fragilidade:
. metáfora / sensação visual: "descolorida nas maçãs do rosto"(1) ;
. metáfora e hipérbole: "e sem quadris na saia de ramagem"(1) → associado à “rama dos papéis pintados” (v. 9) nas paredes da casa apalaçada, este verso torna-se numa comparação entre a vendedeira rural que invade a cidade com o campo e a casa citadina que aprisiona o campo na cidade;
. adjectivação expressiva: "pitoresca e audaz"; "magra, enfezadita"; "ver-dura rústica, abundante"; "repolhudas, largas"; "pobre caminhante"; "duas frugais abóboras carneiras";
. antítese e construção estrófica final, onde o verso mediano carrega com todo o peso dos 2 + 2 versos marginais, referindo-se aquele à «pobre caminhante» e os outros quatro, que o encaixam e esmagam, às «grossas pernas dum gigante» e à «verdura rústica, abundante» das abóboras:
"Ela apregoa, magra, enfezadita, / As suas couves repolhudas largas." → contraste entre a fragilidade da vendedeira e a "robustez" dos produtos que transporta;
. comparação: "E como as grossas pernas dum gigante (...) / Duas frugrais abóboras carneiras", realçando as grandes dimensões e o peso das abóboras em contraste com a fragilidade da vendedeira;
. sensação auditiva: o pregão da vendedeira;
. oxímoro/paradoxo: "desgraça alegre";

. do conteúdo da giga:
- adjectivação expressiva: "repolhudas, largas"; "emanações sadias"; "duas frugais abóboras carneiras";
- sensações olfactivas: os aromas provenientes da giga;

. da realidade exterior:
- metáforas: "O sol dourava o céu";
“Seus raios de laranja destilada”;
- sensações auditivas: "E ao longe rodam umas carruagens"; "Oiço um canário";
- imagem: "... parece que joeira / Ou que borrifa estrelas"; "... e a poeira / Que eleva nuvens altas a incensá-lo";
- exclamação: "que infantil chilreada";
- adjectivação expressiva: "infantil chilreada".

            O aspecto da colaboração aprazível que se salienta na expressão «sem desprezo» reforça-se pelo uso da 1.ª pessoa do plural do verbo junto com o pronome correspondente, que estabelece um cunho de intimidade relativamente à relação que assim se institui entre o sujeito e «ela». A hortaliceira depois agradece-lhe e ´é como se o «eu» se purificasse e purgasse do fastio que sente em relação ao meio urbano por ter tido este contacto com uma presença feminina bem diferente da maioria das mulheres que se nos afiguram na poesia de Cesário em geral. Mas, se bem que o contacto se realize e o sujeito consiga vencer momentaneamente a distância social entre ele e ela, é um contacto passageiro cujo aspecto transitório se salienta pelo substantivo «despedida», com a sua conotação de partida, que, por sua vez, se realça em função do pronome demonstrativo do terceiro grau («naquela despedida»). A separação já implícita concretiza-se pelos verbos motores que se lhe seguem quando os dois seguem em direcções opostas, num acto mútuo de afastamento que transpõe para o lado espacial o que já se verificou no temporal: «E enquanto sigo para o lado oposto, / [...] / A pobre afasta-se [...].» A relação «eu-ela» marca-se com o afastamento, um afastamento implícito e "psicológico", em função da divergência de classe social, e um afastamento explícito e físico, em função da dinâmica do desencontro.

            Como foi dito anteriormente, a “visão de artista” do sujeito poético é um projecto “visionário” de reconquista de um paraíso perdido.
            É nestes termos que a atitude dele perante a pobreza da rapariga pode tomar a forma aparentemente contraditória acentuada pelo uso do verbo incitar na sequência do oximoro “desgraça alegre”. A rapariga, como a transportadora da energia vital que falta ao sujeito poético – aprisionado na rotina diária da sua vida citadina contra a qual reage com frequentes tonturas ou da qual procura fugir em fantasias visionárias – , é ela própria transfigurada porque transfiguradora. Até a sua miséria pessoal é secundária à riqueza funcional da sua identificação com o mundo natural que representa. Com efeito, é directamente dela que o sujeito poético recupera a força simbolizada por esse mundo. Ela pede-lhe, “prazenteira”, que a ajude a levantar o pesado cabaz e ele acede, “sem desprezo”; a frase com que ela lhe agradece tem nele o efeito mágico de uma bênção:
“«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, naquela despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam dum excesso de virtude
Ou duma digestão desconhecida.”
            O efeito cómico dos últimos versos é característico do uso de ironia como um mecanismo de correcção sentimental na poesia de Cesário: a virtude é o seu próprio prémio, mas uma boa digestão ajuda. Mário Sacramento refere que este comentário irónico se relaciona com as “tonturas” a que o sujeito poético se refere no início do poema: «Tal “digestão desconhecida” só ironiza se tivermos presentes os prenúncios de apoplexia que o narrador nos havia confiado sessenta versos atrás Não obstante a auto-ironia, o contacto do sujeito poético com a vendedeira, que, no plano simbólico, é a transportadora da Deméter construída pela sua “visão de artista”, tem sobre ele um efeito regenerador: sente-se com força, alegria, plenitude.
            A metamorfose dos frutos e dos legumes tem, portanto, um equivalente psicológico na transformação subjectiva que ocorre no sujeito lírico. O processo dessa transformação gradual é marcado pelas sucessivas modificações da sua atitude em relação ao Sol. Inicialmente um sol real e hostil, cuja intensidade interfere com a visão literal das coisas – “E eu, apesar do sol, examinei-a” (est. 5) – , torna-se ele próprio, no acto da visão artística, num “intenso colorista”, num artista também, e num aliado do sujeito lírico: “Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do Sol, o intenso colorista...” (est. 7).
            E logo que o artista acaba de “dourar” a realidade no seu acto de imaginação criadora, assim também “o Sol dourava o céu” (est. 13). A maiúscula, indicativa da personificação do sol, que não fora usada na primeira referência ao sol real, também o não vai ser quando aparece pela última vez, de novo o sol real, mas agora como um efeito metonímico do gosto e da cor da própria fruta (est. 18).
            A atenção do sujeito poético volta a incidir sobre os pormenores do seu ambiente imediato. Na quadra anterior tinha observado as nuvens altas de poeira a “incensar” uma criança que regando uma trepadeira, numa “janela azul”, “parece que joeira ou que borrifa estrelas”. Agora ouve a “infantil chilreada” de um canário, sente a lida das ménages entre as geloseias” e vê o Sol de novo integrado no contexto dos outros objectos da realidade restaurada. Mas a vendedeira – “magra, enfezadita” – só é parcialmente restaurada à realidade das suas circunstâncias objectivas, pois continua ainda associada às qualidades de “força, alegria, plenitude” transpostas para ela da Natureza.
            A visão final do sujeito lírico, no entanto, não é a rapariga magra e enfezadita mas as enormes pernas de um gigante emergindo, sem tronco, da “verdura rústica” do cabaz que ela leva à cabeça:
“E pitoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
Duma desgraça alegre que me incita,
Ela apregoa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.”
            Esta nova metamorfose do conteúdo do cabaz, a visão das pernas do colosso triunfante carregando sobre “a pobre caminhante”, funciona como um comentário ambíguo e complexo da primeira metamorfose. A mudança do estado psicológico do narrador estivera intimamente ligada à obliteração visionária da percepção objectiva da vendedeira e dos seus produtos; esta última visão reintegra a percepção compadecida da rapariga, finalmente entendida como uma “pobre caminhante” esmagada pela imensidade do peso que transporta.
            Esta complexa atitude em relação à vendedeira de “Num Bairro Moderno” marca um ponto de viragem no tratamento do contraste campo-cidade na poesia de Cesário. Na prévia polarização de sentimentos e de atitudes nesta antinomia, «campo» tinha representado um conjunto de recordações, de percepções e de projectos que funcionavam como uma metáfora de uma ordem oposta à realidade constritora da cidade. Era portanto definido em termos negativos: o significado de «campo» só era deduzível por contraste com o seu pólo oposto, a cidade confinadora. Era uma essência sem existência real.
            A metáfora amplificada que é “Num Bairro Moderno” funde a observação e o símbolo: o contraste entre os pólos semânticos, representados pela cidade e pelo campo adquire neste poema uma nova dimensão que prevê a investigação e a análise do campo nos seus próprios termos, independentemente da ideia ou conjunto de ideias sobre a cidade que haviam determinado a definição do campo como seu equivalente antinómico.
            O ponto nodal da evolução semântica da metáfora “campo” é a consciência social despertada pela cidade, e expressa na atitude compadecida e revoltada dos narradores de “Desastre” e de “Contrariedades” perante a pobreza e a opressão que nela observaram. É significativo que a desgraça do ajudante de pedreiro de “Desastre” não tenha sido temperada por qualquer elemento de “alegria” que pudesse inspirar o narrador a uma visão transfiguradora e que a miséria da engomadeira de “Contrariedades” não tenha sido considerada nem “pitoresca” nem “audaz”. O único incitamento trazido por essas duas vítimas da exploração citadina foi ao protesto contra a ordem social denunciada pelas suas situações.
            A pobreza da vendedeira de “Num Bairro Moderno”, descrita objectivamente pelo narrador antes de ser neutralizada pela sua visão transfiguradora da Natureza, é um sintoma tão claro da injustiça social como a riqueza contrastante das casas apalaçadas.
            Este contraste, dramatizado no sobranceiro e alienado desdém de um criado de uma dessas casas pela rapariga (“Do patamar responde-lhe um criado: / «Se te convém, despacha; não converses. / Eu não dou mais.» E muito descansado, / Atira um cobre lívido, oxidado, / Que vem bater nas faces duns alperces.”) e no contraste implícito entre a imagem das carruagens rodando ao longe e a imagem da “pobre caminhante” curvada sob o seu pesado fardo, revela a posição anómala do narrador, que nem pertence ao campo como a vendedeira, nem tem o poder para se apropriar de um pedaço de campo para seu uso privativo na cidade, como os donos das casas apalaçadas.
            O bairro moderno e a visão inspirada pela presença da camponesa nas suas ruas representam duas maneiras de resolver a anomalia: o narrador pode tentar triunfar na cidade, nos termos da cidade, e assim alcançar a vida fácil e confortável das casas apalaçadas; ou pode transfigurar a cidade, num acto de imaginação artística. Mas é no seu contacto humano com a vendedeira que recebe as forças, a alegria e a plenitude que lhe faltavam. A ajuda que oferece “sem desprezo”, em contraste dramático com o desprezo do criado alienado, sendo uma recusa das hierarquias sociais em que ele próprio, a caminho do emprego, está relutantemente integrado, é o prelúdio da sua compadecida visão final da “pobre caminhante”.
            Assim, a base de uma possível resolução dinâmica do inevitável impasse gerado pelo conflito entre uma consciência social compadecida pela miséria de que não partilha e um mundo onde essa miséria parece ser a fundação necessária da riqueza, começa a ser criada neste poema não já pela simples polarização do sentimento nos significantes antinómicos “campo” e “cidade” – ou os seus equivalentes temporais “passado” e “presente” – mas pela dramatização, na situação de uma «persona» poética, de um processo entre os dois pólos. Com efeito, ao colocar a fuga visionária do narrador na área semântica de caracterização social definida pelo todo do poema, Cesário está a significar valores opostos aos da sua própria classe privilegiada, sugerindo uma reformulação socialmente amplificada do anterior contraste entre campo e cidade.



. A dicotomia cidade/campo e o mito de Anteu

            Quanto à dicotomia cidade/campo, esta fica bem explícita ao encararmos a vendedeira como a metonímia do próprio campo, invadindo assim com o seu pregão, a sua força, a sua vitalidade, o bairro citadino, apático, adormecido; chega mesmo a sensibilizar o sujeito poético que corresponde ao seu chamamento para a ajudar a prosseguir a sua tarefa (“Eu acerquei-me dela, sem desprezo”, est. 14, v. 1). A invasão da cidade pelo campo é ainda mais flagrante quando a própria giga da vendedeira – outra metonímia quando se lhe coloca o epíteto de “(...) retalho de horta aglomerada” (est. 4, v. 4) – toma vida na visão do poeta (est. 9-12) ao ponto de, no final, tomar a vendedeira como fazendo parte dessa super-realidade (ela é a causa e o efeito), uma vez que a comparação das “grossas pernas” com as “abóboras carneiras” nos transporta novamente para tal transfiguração (est. 20).
            O mito de Anteu (um gigante e portentoso lutador, era invencível desde que estivesse em contacto com a terra; aliás, nas lutas a sua energia era redobrada quando era atirado ao chão devido a esse contacto com o solo) perpassa no simbolismo dado a esta figura feminina e os produtos transfigurados – repare-se como é do próprio chão que o sujeito poético ajuda a vendedeira a recolocar a giga na cabeça (“Nós levantámos todo aquele peso / Que do chão de pedra resistia preso, / Com um enorme esforço muscular.”, est. 14, vv. 3-5) e deste acto lhe advêm “As forças, a alegria, a plenitude” (est. 15, v. 3), tal como Anteu se manteve indomável enquanto não tirou os pés da terra, já que desta emanava toda a sua força, o seu poderio. Por extensão a esta ideia, todos os produtos luxuriantes da giga são produtos da terra e, por tal, pujantes, robustos, vitalizadores – repare-se na antítese aquando da descrição da vendedeira (“Ela apregoa, magra, enfezadita, / As suas couves repolhudas, largas.”, est. 19, vv. 4-5) ou, ainda, na comparação com os membros inferiores – aqueles que inerentemente à terra estão ligados: “(...) grossas pernas dum gigante”, “(...) Duas frugais abóboras carneiras.” (est. 20, vv. 1, 5).


. Marcas do Surrealismo: a transfiguração surrealista dos frutos e legumes num "corpo humano", uma transfiguração que foi tornada possível, esteticamente, pelo poder de uma «visão de artista».


. Marcas do Impressionismo:
. a presença da cor;
. a presença da luz;
. as formas;
. o uso da sinestesia;
. o uso da hipálage;
. a acumulação de pormenores;
. a impressão inicial que o objecto provoca no sujeito;
. as sensações;
. a noção de movimento [“Sobem padeiros (...)”].


. Marcas do estilo poético de Cesário:
-» emprego de um vocabulário pragmático, preciso, concreto e corrente (“Se ela se curva esguedelhada, feia...”);
-» utilização inusitada do adjectivo (“Atira um cobre lívido, oxidado”);
-» emprego da sinestesia (“Brancuras quentes”);
-» recurso a sensações:
- visuais: “matizam”;
- tácteis: “fere”;
- olfactivas: “Bóiam aromas, fumos de cozinha”;
“A hortelã que cheira”;
- auditivas: “Toca frenética...”;
- gustativas: “Como dalguém que tudo aquilo jante”.


. Síntese

. Duas realidades presentes no poema:
* a objectiva, construída através da descrição do bairro e das personagens que nele se movimentam (estrofes 1-6, 13-19);
* a subjectiva, patente na fuga imaginativa leva a cabo pela visão pessoal do sujeito que vagueia, deambula pelo bairro (estrofes 7-12 e 20).

. O poema explicita o carácter deambulatório (o sujeito descreve o que vê à medida que passeia pelo bairro), cinético e visual da poesia de Cesário:
* a focagem do plano geral (o bairro);
* a passagem para o plano particular (o episódio da hortaliceira).

. Características narrativas do poema:

. Tempo:   “dez horas da manhã” (1);
                   “ao calor de Agosto” (16).

. Espaço:   “larga rua macadamizada” enquadrada por casas apalaçadas com quartos estucados, paredes de papéis pintados, mesas com porcelanas, jardins com nascentes Þ bairro burguês (1, 2).

. Personagens:
- sujeito poético: frágil, doente, “Com as tonturas de uma apoplexia”;
- hortaliceira: mulher do povo, esguedelhada, magra, feia, doente, enfezadita (5, 16, 19).
     A mulher do povo, apresentada de uma forma realista, não sujeita a uma metamorfose poética, constitui uma inovação da poesia de Cesário. Esta mulher pobre, feia, “sem quadris”, esmagada pelo peso do cabaz, simboliza também as preocupações sociais presentes na poesia de Cesário, aspectos «revolucionários» para a época.

. Ação: o deambular do sujeito poético pelo bairro:
- o encontro com a hortaliceira e a fuga imaginativa a partir da giga (esta fuga imaginativa é uma micronarrativa encaixada na narrativa de 1.º grau);
- o retomar do passeio e a visão final.


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