Português

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Aldrabice:

Doutoramento retirado à ministra alemã da Educação por plágio

     A Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, decidiu retirar o doutoramento da actual ministra da Educação, Annette Schavan, 57 anos, depois de confirmar que as suspeitas de plágio levantadas por um blogue anónimo, em 2012, tinham razão de ser. A ministra defende a legitimidade da sua tese, defendida em 1980, e promete recorrer. Porém, o seu lugar no governo alemão da conservadora Angela Merkel (CDU) passou a estar em perigo.

Calendário de exames - Secundário (2.ª fase)


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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Calendário de exames - Secundário (1.ª fase)


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"Endless Love" - Diana Ross e Lionel Richie


     We are getting old...

As considerações pessoais do poeta

            O poema épico de Camões destina-se a celebrar e a glorificar o povo português, em especial os heróis que tornaram a Pátria grande, a partir da viagem de Vasco da Gama à Índia. No entanto, o poeta, homem lúcido e experiente, demonstra, em diversos momentos, o seu desencanto e o seu pessimismo face a uma pátria em crise, “mergulhada numa austera, apagada e vil tristeza”. Este facto justifica-se se tivermos presente que Os Lusíadas foram publicados 74 anos após a viagem de Vasco da Gama, num momento em que o Império português se encontrava já em decadência e pressagiava um futuro negro.
            As reflexões apresentam uma estrutura semelhante, resultante do facto de surgirem, regra geral, no final dos cantos e após um acontecimento que os motiva. Para além disso, a linguagem é característica de um discurso judicativo (expressão de juízos de valor) e valorativo (expressão de juízos críticos e subjetivos) que se traduz no uso de adjetivação valorativa, frases exclamativas e apelativas, interrogações retóricas, interjeições, construções negativas, anáforas, apóstrofes e enumerações.
            Nas palavras de Zaida Braga e Auxilia Ramos, «Estes momentos constituem não só um reflexo da mentalidade do homem renascentista (pela sagacidade e análise crítica evidenciada), mas também contêm (pela intemporalidade que veiculam) uma intenção didática e interventiva.
            Com efeito, o espírito humanista de Camões não podia subestimar uma meditação sobre os valores, baseada nas suas experiências de vida e nas suas preocupações. É assim que, num texto de natureza épica, somos regularmente confrontados com momentos de reflexão e intervenção que desinstalam o leitor.»
            Resumindo, o poema procura cantar a grandeza do passado de Portugal e dos portugueses, um pequeno povo que “deu novos mundos ao mundo”, que dilatou a fé cristã, que abriu novos rumos ao conhecimento, mas fá-lo estabelecendo um contraste com o presente. De facto, ao cantar os feitos e os heróis do passado, Camões procura mostrar aos portugueses do seu tempo a sua falta de grandeza e, em simultâneo, procura incentivar D. Sebastião a conduzir o reino a um futuro de novas glórias, que se oferece para cantar.

            As reflexões são as seguintes:

. Canto I (105-106) – Reflexão sobre a fragilidade da condição humana:
. Acontecimento motivador da reflexão: a chegada da armada portuguesa a Mombaça, após a superação das armadilhas preparadas por Baco;
. Camões alude aos perigos que os portugueses enfrentarão durante a viagem, provenientes de enganos, ciladas e traições, bem como de guerras e tempestades;
. Reflete sobre a insegurança e a fragilidade da vida / condição humana;
. Note-se que esta reflexão surge no final do canto I, isto é, num momento em que os navegadores ainda têm um longo e difícil caminho a percorrer.

. Canto III (142-143) – Reflexão sobre a importância e o poder do amor:
. Acontecimento motivador: os amores de D. Inês de Castro e D. Pedro e de D. Fernando e D. Leonor Teles;
. Camões reflete sobre o poder do amor, que todos toca e transforma.

. Canto IV (95-104) – Reflexão sobre a ambição e a procura da fama:
. Acontecimento motivador: as despedidas em Belém;
. O poeta reflete sobre a procura insensata da fama e a ambição desmedida, que acarretam consequências dolorosas para o ser humano.

. Canto V (92-100) – Crítica à falta de cultura e de apreço pelos poetas por parte dos portugueses:
. Acontecimento motivador: o fim da narrativa de Vasco da Gama ao rei de Melinde;
. Camões mostra como o canto dos heróis e dos seus feitos incita à realização de novos feitos;
. De seguida, dá exemplos do apreço que os antigos heróis gregos e romanos tinham pelos seus poetas e da importância que atribuíam à cultura e à poesia, compatibilizando as armas e o saber;
. Lamenta a falta de interesse pelas artes e pelas letras por parte dos seus contemporâneos;
. Adverte para a necessidade de imortalizar os feitos dos portugueses através da arte;
. Reitera, movido pelo amor à pátria, o seu propósito de continuar a cantar os feitos e os heróis portugueses.

. Canto VI (95-99) – Reflexão sobre o caminho para a fama e a glória:
. Acontecimento motivador: a Tempestade e o agradecimento de Vasco da Gama a Deus pela proteção recebida;
. Camões defende um novo conceito de nobreza, espelho do modelo de virtude renascentista, segundo o qual a fama e a imortalidade, o prestígio e o poder se alcançam pelo esforço individual, pelo sacrifício e pela coragem, revelados na guerra, enfrentando os elementos da natureza, sacrificando o corpo ou sofrendo a perda de companheiros;
. O heroísmo não se herda nem se obtém vivendo no luxo e na ociosidade, ou à custa de favores.

. Canto VII (2-15) – Elogio do espírito de cruzada:
. Acontecimento motivador: a chegada da armada portuguesa a Calecute;
. O poeta elogia o espírito de cruzada dos portugueses, a divulgação da fé cristã por todo o mundo;
. Exorta-os a prosseguirem esse caminho, criticando, em simultâneo, outros povos europeus (“Alemães, soberbo gado”, o “duro inglês”, o “Galo indigno” e os italianos), que não seguem o exemplo luso no combate aos infiéis, antes se interessam apenas pelo ócio e pela cobiça.

. Canto VII (78-87) – Crítica aos contemporâneos:
. Acontecimento motivador: pedido do Catual a Paulo da Gama para que lhe explique o significado das figuras desenhadas nas bandeiras da nau;
. Num discurso marcadamente autobiográfico, alude à sua vida cheia de adversidades (a pobreza, os perigos do mar e da terra, etc.);
. Lamenta-se da ingratidão dos que tem cantado em verso e dos grandes senhores de Portugal por não prezarem as artes, por não reconhecerem o seu talento e por não o saberem prezar e recompensar;
. Alerta para a inibição do surgimento de outros poetas para cantarem os feitos do futuro em consequência da ingratidão;
. Manifesta a sua recusa em cantar os ambiciosos, os que sobrepõem os seus interesses ao bem comum e do Rei, os dissimulados e os que exploram o povo;
. Alude ao herói como aquele que arrisca a vida por Deus e pelo Rei.

. Canto VIII /96-99) – Crítica ao poder do dinheiro:
. Acontecimento motivador: as traições sofridas por Vasco da Gama em Calecute (o seu sequestro, do qual é libertado graças à entrega de valores materiais);
. Camões reflete sobre o poder do dinheiro e enumera os seus efeitos perniciosos: leva à corrupção e à traição, deturpa o conhecimento e as consciências, condiciona as leis e a justiça, ocasiona difamações e a tirania.

. Canto IX (90-95) – Reflexão sobre o caminho para a fama:
. Acontecimento motivador: a explicação a Vasco da Gama, por parte de Tétis, do significado alegórico da Ilha dos Amores;
. O poeta adverte os portugueses relativamente à ambição desmedida e à tirania, vícios que quem quer alcançar o estatuto de herói tem de desprezar;
. Exorta os portugueses a despertar do adormecimento e do ócio, a abandonar a cobiça e a tirania, a serem justos e a lutarem pela Pátria e pelo Rei.

. Canto X (145-146) – Nova crítica do poeta aos seus contemporâneos:
. Acontecimento motivador: a chegada da armada de Vasco da Gama a Portugal;
. O poeta lamenta a decadência da Pátria, submersa no “gosto da cobiça” e que não reconhece o seu talento artístico nem o seu “honesto estudo” nem a sua experiência, daí o seu desalento, o seu desânimo e o seu cansaço e a recusa de prosseguir o seu canto;
. Porém, enaltece os que são leais ao Rei (“os vassalos excelentes”), símbolo coletivo dos portugueses valorosos;
. Exorta o rei D. Sebastião a dar continuidade à glorificação do “peito ilustre lusitano” e a dar matéria a novo canto.

O Herói em Os Lusíadas


1. O herói nas antigas epopeias

         Nos poemas hindus, a figura do herói é a incarnação de um deus, por isso tudo nele, desde o aspeto físico até à ação que realiza, pode ser pensado ou decorrer fora de todos os moldes humanos, com proporções monstruosas desmedidas.
         Nos poemas homéricos, os heróis assumem a feição humana, sucedendo quase o mesmo com os deuses, concebidos como realizações superiores de tipos humanos, sem as limitações que impedem em cada um destes o realizar-se como desejaria. Mesmo quando intervêm, os deuses fazem-no de forma discreta, o que faz com que a liberdade do herói seja salvaguardada: pode discutir a vantagem ou desvantagem do conselho do deus que o protege, pode até contrariar esse conselho.
         “Os Portugueses do Renascimento levantaram a vida humana a maior altura, deram-lhe novas perspetivas e interesses, fizeram, no campo da ação navegadora e guerreira, o que no campo da arte fizeram os Italianos. Esses homens multímodos, navegantes e guerreiros, políticos e poetas, geógrafos e cronistas, aventureiros e apóstolos, constituem um momento insigne na história da personalidade.” (in Luís de Camões, O Épico, Hernâni Cidade).


2. O herói em Os Lusíadas

2.1. A ação da obra e o herói épico

2.1.1. Na Introdução

         Na esteira da ideologia renascentista, o poema de Camões coloca o homem português no centro do mundo ao atribuir-lhe características humanas e sobre-humanas e ao utilizá-lo como símbolo da confiança nas capacidades humanas.
         O primeiro momento da progressiva construção do herói em Os Lusíadas ocorre na Proposição, na qual Camões sintetiza o conceito de herói e cujos principais dados são os seguintes:
. apresentação da intenção do poeta: glorificar os feitos do povo português, através do seu canto épico, apontando deste logo para a imortalidade como traço essencial do conceito de herói: “As armas e os barões assinalados”; “Daqueles reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”; “E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando”;
. a assunção da dimensão coletiva do herói da obra: “Que eu canto o peito ilustre lusitano”;
. a apresentação dos quatro planos do poema:
. o da Viagem: “As armas e os barões assinalados / Que, da ocidental praia lusitana, (…) / Passaram ainda além da Taprobana…”;
. o da História de Portugal: “… reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”;
. o da mitologia: “Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / (…) A quem Neptuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta…”;
. o das considerações do poeta: “Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte”.
         Observa-se, desde já, a intenção de Camões imortalizar os portugueses quer pela grandeza dos seus feitos quer pelo facto de suplantarem os deuses antigos (“A quem Neptuno e Marte obedeceram”). Deste modo, o poeta inicia o processo de mitificação do herói, elevando-o a um plano superior e a um estatuto de imortal, que suplanta o dos heróis da Antiguidade, considerados modelos (Ulisses, Alexandre Magno, Trajano, Eneias).
         Na Invocação que se segue à Proposição, Camões invoca as ninfas do Tejo solicitando-lhes que o auxiliem na tarefa que tem em mente. Ora, esta invocação é um outro dado que

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Análise de Os Lusíadas: Canto X, estâncias 144-156


Contextualização
 
            Na Ilha dos Amores, as Ninfas ofereceram um banquete aos Portugueses. Após uma invocação a Calíope, num tom de lamento autobiográfico, uma ninfa canta as vitórias futuras dos lusos no Oriente. Tétis conduz Vasco da Gama ao cume de um monte para lhe mostrar a Máquina do Mundo e situar nela os lugares já conhecidos e dominados pelos Portugueses, bem como os territórios a conquistar.

            O Poeta narra a despedida da Ilha dos Amores e, na estância 144, o regresso dos marinheiros à pátria, concretamente a Lisboa (“Até que houveram vista do terreno / Em que naceram…”), numa viagem que decorreu tranquilamente, pois o tempo estava ameno (“Com vento sempre manso e nunca irado…” – v. 2) e o mar calmo (“… cortando o mar sereno…” – v. 1). Entre os versos 5 e 8, o Poeta alude ao prémio e à glória que os marinheiros, com os seus feitos, alcançaram e que agora vêm entregar ao rei para seu engrandecimento e da Pátria (“E à sua pátria e Rei temido e amado / O prémio e glória dão (…) / E com títulos novos se ilustrou.” – vv. 6-8).

            É o fim de uma viagem que constitui um feito heroico que conferiu glória e imortalidade ao monarca e à Pátria.

 
 
Acontecimento motivador da reflexão
 
            O facto que motiva esta reflexão de Os Lusíadas é a chegada de Vasco da Gama e dos marinheiros a Portugal, concluindo, assim, um feito imortal.
 
 
Assunto
 
            Depois de se despedir das musas, o Poeta dirige-se a D. Sebastião, o rei de Portugal. Dado o estado de decadência do reino, exorta o monarca à realização de grandes feitos e à restauração da glória da pátria.
 
 
Estrutura interna da reflexão
 
1.ª parte (est. 145 – v. 4, est. 146) – O Poeta anuncia que vai terminar o canto e lamenta o estado de decadência do povo português e a ingratidão de que é vítima.
 
2.ª parte (verso 5, est. 146 – est. 153) – O Poeta apela a D. Sebastião, encorajando-o a dar um novo impulso a Portugal, sustentado nos portugueses valorosos (“vassalos excelentes”) e experientes.
 
3.ª parte (ests. 154-156) – O Poeta oferece-se para servir o rei e para cantar os futuros feitos do monarca numa nova epopeia.
 
 
Análise da reflexão
 

Análise de Os Lusíadas: Canto VIII, estâncias 96-99


Contextualização

            Vasco da Gama permanece nas naus e decide não desembarcar, visto que já não confia no ambicioso Catual, pois já o traíra anteriormente, era muito ambicioso (“cobiçoso”), corrupto (“corrompido” e “pouco nobre”). Por outro lado, Gama espera vir a descobrir a verdade com o tempo, daí também a sua decisão de permanecer a bordo da embarcação.
            Ora, esta referência a Vasco da Gama é o exemplo que serve de ponto de partida para a reflexão do Poeta, que adverte, a partir do verso 5 da estância 96,para o efeito corruptor do dinheiro, que tanto sujeita os ricos como os pobres.


Estrutura interna

1.ª parte (estância 96) – Reflexão sobre o poder do dinheiro, a que ninguém escapa, seja rico ou pobre.

2.ª parte (estâncias 97-99) – Exemplos que confirmam a reflexão feita na estância 96.
 
OUTRA HIPÓTESE
 
1.ª parte (4 primeiros versos da estância 96) – Caso particular dos Portugueses, vítimas da cobiça do Catual.
 
2.ª parte (v. 5, est. 96 – est. 99) – Generalização dos perigos da ambição desmedida e do poder corruptor do dinheiro, na Antiguidade e na atualidade.

 
Análise da reflexão

1.ª parte – Reflexão sobre o poder do dinheiro.

▪ Momento narrativo e descritivo: Vasco da Gama...

 

Análise de Os Lusíadas: Canto VII, estâncias 78-87


        Contextualização
 
            No início deste canto (estâncias 3 a 14), Camões elogia os Portugueses, porém, no final, o seu tom é de crítica. Esta aparente contradição explica-se se tivermos em conta que os Portugueses que o Poeta elogia e apresenta como exemplo, são os heróis do passado, com Vasco da Gama à cabeça. No entanto, os Portugueses criticados são os contemporâneos de Camões, que, aparentemente, esqueceram o heroísmo e a grandeza dos seus antepassados.
            Os lusitanos chegam a Calecute e, por esse motivo, o Poeta elogia a expansão portuguesa pelo espírito de cruzada, na dilatação da fé pelo mundo, ao mesmo tempo que critica as nações europeias do seu tempo, por não seguirem o exemplo português. Além de descrever a Índia, Camões também relata os primeiros contactos entre os Portugueses e os indianos.
            Vasco da Gama e os companheiros são recebidos pelo Catual e depois pelo Samorim. Quando o Catual visita as naus, fica surpreendido ao vê-las todas embandeiradas e pede a Paulo da Gama que lhe explique o significado das figuras portuguesas que aí estão representadas, enquanto seu irmão, Vasco da Gama, é recebido no palácio do Samorim. Paulo da Gama prepara-se para satisfazer o desejo do Catual e narrar episódios da História de Portugal, no entanto Camões interrompe a narração e invoca as ninfas do Tejo e do Mondego para o auxiliarem nessa árdua tarefa.

 
Reflexão do Poeta
 
            O Poeta invoca as ninfas do Tejo e do Mondego, lamentando-se pelos infortúnios da vida, ao mesmo tempo que critica duramente os opressores e exploradores do povo.
 
 
Acontecimento motivador da reflexão

            O dado que motiva esta reflexão é o pedido do Catual a Paulo da Gama para que lhe explique o significado das imagens de heróis pintados nas bandeiras das naus.


Estrutura interna da reflexão
 
            Este excerto de Os Lusíadas pode dividir-se em quatro momentos:

. 1.º momento (estância 78):

1. A invocação: “Vós, Ninfas do Tejo e do Mondego”;

2. Objetivo: 


Continuação da análise: aqui.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Miguel Relvas e a língua portuguesa: 'take' II


'Os Lusíadas': VI, 95-99


         Nos quatro versos iniciais da estância 95, o poeta refere, genericamente, como se alcança a imortalidade (“honras imortais”) e as maiores distinções – a fama e a glória: através da coragem, da capacidade de luta e sofrimento demonstradas em situações de perigo, como fica visível nas seguintes expressões textuais: “hórridos perigos” e “trabalhos graves e temores”. Nestes versos, há a realçar a adjetivação, que, por um lado, intensifica a dureza e a amplitude (“hórridos” e “grandes”) das dificuldades a que se sujeitam todos aqueles que, como os portugueses, desejam cometer grandes feitos, e, por outro, reforça o valor das recompensas (“imortais” e “maiores”) que, desse modo, atingem.
         Um segundo momento do texto localiza-se entre o verso 5 da estância 95 e o verso 4 da estância 98. Aí, são identificados os obstáculos à obtenção da fama e da glória, isto é, o poeta põe em evidência aquilo que não são os meios de as atingir (logo atos a evitar):
a. viver à custa do que os antepassados conseguiram (= a glória não é herdada dos antepassados) ‑ 95, 5-6;
b. viver rodeado de conforto (95, 7);
c. viver rodeado de luxo e de requintes supérfluos (95, 8);
d. os “manjares novos e esquisitos” (96, 1);
e. os passeios ociosos (96, 2);
f. os deleites / prazeres (96, 3) que efeminam, isto é, enfraquecem, os fidalgos;
g. viver para saciar os apetites / caprichos insaciáveis;
h. ficar indiferente face a uma “obra heroica de virtude”.
         Assinale-se o recurso à enumeração e à anáfora na estância 96. Por um lado, o poeta enumera diferentes caminhos que não conduzem à verdadeira glória. Através da repetição anafórica, reitera a ideia de que esses caminhos devem ser postos de lado.
         Sintetizando, o poeta critica todos os que desejam ser reconhecidos na vida, apreciados apenas na genealogia, nos luxos, nos prazeres e numa vida ociosa, sem praticarem qualquer “obra heroica de virtude” (96, v. 8).
         A partir do verso 1 da estância 97, introduzido pela conjunção coordenativa adversativa «mas», sinónima de ideia oposta, Camões vai enumerar as ações que fazem o verdadeiro herói e que permitem alcançar a fama e a glória (ou seja, vai apresentar as alternativas aos comportamentos anteriormente descritos), salientando a dureza dessas ações através do recurso ao adjetivo (“forçoso”, “forjado”, “cruas”, “frios”, “nuas”, “corrupto”, “árduo”, …). Essas ações são as seguintes:
a. a obtenção das honras pelos seus atos, ações a que possa chamar suas (97, 1-2);
b. a disponibilidade para a guerra (97, 3);
c. o enfrentar/sofrer tempestades e “ondas cruas” (97, 4);
d. as navegações árduas por regiões inóspitas à custa de enorme sofrimento pessoal (97, 3-8);
e. o consumo de alimentos deteriorados;
f. a resignação ao sofrimento;
f. a vitória sobre as limitações pessoais, de forma a enfrentar as situações mais difíceis ou dolorosas – o enfrentar a guerra com ar seguro / confiante e alegre (por exemplo, manter um rosto “seguro” ao assistir a acidentes dos companheiros.
         Entre os versos 5 da estância 98 e 4 da 99, é feita uma espécie de síntese das qualidades necessárias àqueles que buscam a virtude:
i. o “calo honroso” no peito;
ii. o desprezo das honras e do dinheiro trazidos pela «ventura» e não pela «virtude»;
iii. o entendimento esclarecido e temperado pela experiência e a libertação dos interesses mesquinhos (“O baxo trato humano embaraçado” – 99, v. 4).
         Nos últimos quatro versos da estância 99, o poeta clarifica que só quem percorrer este caminho poderá e deverá ascender ao poder (“ilustre mando”, 99 – v.7), sempre contra a sua vontade e nunca a pedido, isto é, fá-lo-á de forma desinteressada. No fundo, ao concluir esta sua reflexão, Camões retoma o que afirmara na introdução: é através do esforço próprio e não das “honras e dinheiro” que se pode/deve ascender ao estatuto de herói. O verdadeiro herói despreza as “honras e dinheiro” (est. 98, v. 6) trazidos pela sorte e não produto do esforço pessoal. A sua experiência dar-lhe-á o conhecimento da verdadeira virtude e um estatuto superior ao dos homens de “baixo trato” (est. 99, v. 4). Desse modo, num mundo justo, “Subirá” (est. 99) a posições de poder por mérito pessoal e “não rogando” (est. 99, v. 6) favores.

         Em suma, é digno de louvor e merecedor de glória aquele que se dignifica através do seu esforço, da sua capacidade de sofrimento, perseverança e humildade, bem como através do desprezo das honras e do dinheiro conquistado graças à sorte e não ao mérito pessoal. Só quem "preencher estes requisitos" poderá conquistar o "ilustre mando", não porque o peça, mas contra a sua vontade. Tal significa que só a honra e a glória alcançadas por mérito próprio poderão ser valorizadas.


         Relativamente à estrutura interna, o excerto pode dividir-se em três momentos:
. 1.º momento (vv. 1-4, est. 95): o poeta elogia a coragem de quem, como os portugueses, pratica atos gloriosos dignos de honra.
. 2.º momento (v. 5, est. 95 ‑ v. 5, est. 98):
2.1. enumeração das renúncias (v. 5, est. 95 – est. 96);
2.2. atos a praticar por quem deseja alcançar a verdadeira fama (est. 97 – v. 4, est. 98);
. 3.º momento (v. 5, est. 98 – est. 99): conclusão das reflexões do poeta, que salienta o esforço sincero e desprendido como motor da glória.

         As reflexões feitas pelo poeta nestas estâncias sugerem o perfil do herói épico, que se resigna à dureza da vida e enfrenta com convicção, abnegação, espírito de sacrifício e coragem as dificuldades que se lhe apresentam. O herói é o que concretiza trabalhos árduos e perigosos na guerra e no mar, em condições climatéricas e existenciais deploráveis. Só deste modo, conseguindo superar todas as dificuldades e provações, é possível alcançar um estatuto honroso, destacando-se dos restantes seres humanos pelo seu carácter grandioso. Por outro, indiretamente, pode ver-se neste passo da obra a crítica camoniana à elite do seu tempo, “acusando” os nobres de serem passivos, fracos, privilegiados, insatisfeitos e alienados da realidade.
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