A literatura popular portuguesa é tão antiga como a língua portuguesa, mas não conseguimos datar com exatidão a sua existência, dado que (segundo Viegas Guerreiro) já no século IX se falava português, não obstante ser impossível fixar a data em que o latim vulgar evoluiu para o romance português (terá sido no século VI? No VII?). A existência de literatura popular nessa época é comprovada por diversos testemunhos: referências literárias, legislação civil e eclesiástica; atos de concílios (desde o século VI) e constituições de bispados atacavam momos e arremedilhos, cantos e danças profanas, tudo considerado atos torpes, lascivos e irreverentes. Assim eram consideradas, por exemplo, as carmina amatoria, turpia, nefaria, isto é, cantigas de mulheres, de índole amorosa, correntes na România. O povo, meio cristianizado, cantava e bailava dentro ou no adro das igrejas, em romarias e procissões, ruas e praças, bodas e enterros, o que era tido por abuso e artes do diabo pela alta hierarquia eclesiástica, ao contrário do que sucedia com o baixo clero, que se misturava com a plebe e folgava o corpo.
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quarta-feira, 24 de junho de 2026
Literatura popular: Época medieval – Período pré-trovadoresco
Mucádam ben Muafa el Cabrí, o Cego, natural de Córdova, que viveu entre finais do século IX e princípios do X, criou uma variedade de poesia lírica, a moaxaha (muwaššaha), de versos curtos de cunho popular, que podia terminar em árabe vulgar ou na língua dos cristãos. Ou seja, um poeta árabe escrevia em romance moçarábico, inserindo provavelmente nas suas composições trechos poéticos da tradição cristã. No total, conhecemos atualmente quarenta e três moaxahas, escritas entre meados do século XI e fins do XIII. As coplazinhas que as fecham são as carjas (jaryas) ou saídas. Elas condensam o sentido da moaxaha, que, por outro lado, é também o resultado do seu desenvolvimento. Trata-se de cançõezinhas populares, ou trechos delas, espécie de vilancetes, postas na boca de raparigas andaluzas apaixonadas, que choram a ausência do amigo ou se queixam do seu desamor e infidelidade e desabafam as suas mágoas com a mãe ou com as irmãs. Menéndez Pidal e Dámaso Alonso associam-nas à origem da lírica castelhana quatrocentista e posterior, em que o vilancete, como mote, se desenvolve por meio de glosas, género que, por influência castelhana, teve igualmente grande voga em Portugal. Por outro lado, estes dois autores apresentam-nas também como uma das prováveis origens do lirismo galaico-português de cunho autóctone popular. Estas cantiguinhas constituem o género lírico mais antigo que se conhece no mundo neolatino.
Como é que essa poesia influenciou a lírica trovadoresca portuguesa? Os cristãos, sob o jugo sarraceno, puderam manter a língua, os costumes e as crenças. Provavelmente, a língua e a cultura seriam mais homogéneas do que diversas no território andaluz. Apesar de os poetas das moaxahas pertençam ao Andaluz espanhol ou ainda tenham vivido, é provável que esses cantares nelas inseridos ou análogos se ouvissem no nosso andaluz, ou seja, que constituam património comum das duas nações peninsulares.
Exemplifiquemos como isto sucedeu. Judá Ha-Levi, um judeu de Tudela ou Toledo, que viveu a maior parte da sua vida em Sevilha, Córdova e Granada, põe na boca de uma rapariga um canto de saudade incontida, cerca de 1075, mais de um século antes da mais antiga poesia trovadoresca dos três cancioneiros que albergam a poesia
Garid vos, ay yermanelas
Com' contener é meu mali?
Sin el habib non vivreyu
ed volarei demandari.
Se traduzirmos os versos, encontraremos o seguinte: "Dizei-vos, ai irmãzinhas, como refrearei meu pesar? Sem o amigo eu não viverei e voarei a buscá-lo."
Numa moaxaha de Josef ben Saddig, natural de Córdova, falecido em 1149, a figura materna surge como confidente, a quem a jovem pede conselho:
Que farej, mamma?
Meu-l' habib est ad yana.
Ou seja: "Que farei, mãe? O meu amigo está à porta."
Em suma, o mais provável é que as moaxahas e a poesia peninsular tenham tido uma origem comum: um fundo romântico comum, que motivou o surgimento de um certo tipo de poesia feminina, florescida no andaluz, e a poesia nascida no noroeste da Península Ibérica Quer isto dizer, em suma, que um lirismo popular preexistiu à escola dos trovadores galego-portugueses e serviu-lhes de modelo, compondo estes concomitantemente cantares de amor à maneira provençal. Na sua estrutura mais simples — duas estrofes de dois versos que terminavam, cada uma delas, por refrão —, as cantigas paralelísticas decalcarão muitas vezes as similares do povo. Estes dados são exemplificados pela existência de variantes de uma mesma cantiga assinadas por mais de um poeta, como é o caso de duas versões da bailia das "Avelaneiras frolidas", uma assinada por João Zorro e outra por Airas Nunes. Este género continuou na boca do povo pelo tempo fora. De facto, podemos encontrá-lo nos cancioneiros musicais dos séculos XV e XVI, em português e castelhano, em Gil Vicente, em canções de trabalho de Trás-os-Montes, neste caso já em pleno século XIX. Por volta de 1932, são descobertas novas catorze canções, a que chamam ritmos. As primeiras quatro são provenientes de Rebordainhos e as restantes, recolhidas em Parada, Rebordainhos e Nozedo de Cima. Todas estas descobertas são obra de Leite de Vasconcelos. Os textos estão publicados no volume I do Cancioneiro Popular Português (1975), uma obra póstuma.
O paralelismo, genuinamente popular, está presente nestas composições, mais especificamente dois dísticos, seguidos cada um deles de refrão; o segundo repete o primeiro com substituição da última palavra, a rima é assoante. Se a ideia se desenvolve com mais duas estrofes, o 1.º verso da 3.ª é o 2.º da 1.ª, seguido de verso novo; a 4.ª repete a 3.ª com substituição da última palavra. No cantar transmontano, observam-se repetições análogas. A rima é em -i, -a, como na Idade Média, e não falta a palavra amigo e a tradicional alternância a rima de amigo - amado. Estamos na presença de versos para serem cantados, de música para bailar e mais tarde para acompanhar trabalhos de campo. Repete-se a estrutura rítmica, varia o conteúdo, atualiza-se, sobretudo nos exemplares modernos. Porém, o mais interessante de tudo reside no facto de ainda hoje se manterem, com naturais alterações, letras medievais. Um texto recolhido por Leite de Vasconcelos em Parada, concelho de Bragança, cerca de 1932, diz o seguinte:
As meninas todas três Marias
Foram-se a colher as andrinas.
As meninas todas três Joanas
Foram-se a colher as maçanas.
Quando lá chegaram, acharam-nas colhidas
Quando lá chegaram acharam-nas talhadas
Por outro lado, temos a letra anónima de uma música do Cancioneiro de Barbieri, datada dos séculos XV e XVI, que reza o seguinte:
Tres morillas me enamoran
En Jaen Axa y Fátima y Marien.
Tres morillas tan garridas,
Iban a coger olivas,
Y hallabanlas cogidas,
En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
Y hallabanlas cogidas
Y tornaban desmaiadas
Y las colores perdidas
En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
Tres moricas tan lozanas,
Tres moricas tan lozanas,
Iban a coger manzanas
En Jaen, Axa y Fátima y Marien
O poema transcrito em castelhano é anónimo, o que pressupõe a sua origem popular, e evoca tempos de convívio entre cristãos e mouros. Talvez seja anterior ao século XV. O seu tema desenvolve-se sob a forma de zéjel castelhano, ao passo que na versão transmontana é de estrutura.
a) A poesia
A tradição lírica popular estendeu-se da Idade Média aos nossos dias, embora sejam escassos os textos que se podem inserir no elenco do povo entre os finais do século XII aos do século XV. Cantares anónimos, de invenção popular ou popularizados, encontramo-los, e poucos, em cancioneiros musicais. Algumas cantigas de amigo, sobretudo as paralelísticas, terão também andado na boca do povo, divulgadas pelos jograis, que eram os aedos ou rapsodos da Idade Média. Andavam de terra em terra, por cortes de reis, castelos de fidalgos, conventos abastados, por ruas, praças, feiras e romarias, tangendo na cítola ou violão, cantando obra própria ou alheia. Os reis colocaram-nos ao seu serviço e mais de um bobo deles nasceu. De igual modo, serviam trovadores para eles cantarem os versos. Aos olhos de pessoas privilegiadas (nobreza e alto clero), o ofício de jogral era desonroso, dado que recebiam dinheiro pela sua arte. Alguns, mais talentosos, também trovaram, o que desagradou aos autênticos trovadores, pois, no seu entendimento, uma arte nobre como a sua não cabia na insciência de jograis, pelo que as disputas, as "tensões" entre ambos foram bastantes.
Os trovadores desdenhavam, portanto, da arte dos jograis, que o povo apreciava, para quem os primeiros também compunham, embora tivessem vergonha disso, pelo que não incluíam esses versos nas obras que publicavam. Foi o que aconteceu com Juan Ruiz, arcipreste de Hita, na primeira metade do século XIV, que confessa ter composto para cegos e outros cantores populares "muitos cantares ou romances".
O reportório dos jograis variava com os ouvintes: nos palácios, entoavam cantigas de amor, sobretudo; quando o público era o povo, eram cantigas satíricas e bailadas. Os caçurros, mais pobres, tinham a plebe para os ouvir. Nenhum documento escrito do lirismo galego-português de meados do século XIV a meados do XV. Isto pode ter duas explicações: por um lado, as coleções perderam-se; por outro, faltaram compiladores. Constituem exceção os versos cantados pelas "moças sem nenhũ medo, apanhando pedras pelas herdades", durante o cerco montado a Lisboa, em 1385, por D. João de Castela, que Fernão Lopes colocou na 1.ª parte da Crónica de D. João I. Sucede, porém, pelo exposto, que esses versos não são integráveis na escola dos trovadores:
Esta é Lisboa prezada,
mirá-la e leixá-la.
Se quiseres carneiro,
qual deram ao Andeiro;
se quiseres cabrito,
qual deram ao Bispo.
É nos cancioneiros castelhanos, sobretudo no organizado por João Afonso de Baena (1445), que encontramos continuidade do trovar galego-português, mas de inspiração frouxa. De facto, nesses textos, de cunho popular, pouco mais encontramos do que as formas métricas.
Segue-se o Cancioneiro Geral, que Garcia de Resende publicou em 1516, e que reúne a produção poética posterior à primeira metade do século XV. Os textos nele incluídos são composições de circunstância, palacianas, aristocráticas, carregadas de "futilidades", elaboradas para entreter os cortesãos; "cousas de folgar e gentilezas", como lhes chama o próprio Garcia. O vulgo e a sua arte não marcam presença nesta compilação.
b) A prosa
Não restou nenhum códice da prosa popular medieval, o que era expectável, visto que o exercício de vilãos não cabia no interesse de gente letrada. No entanto, existe notícia dessa atividade literária na Península Ibérica. A segunda das Siete Partidas, um código atribuído ao rei Afonso X, o Sábio, avô de D. Dinis, menciona, entre as diversões de 1260, "... las historias e los romances e los otros libros que fablan de aquellas cosas de que los homes reciben alegria e placer"; "estórias e romances" que corriam na boca do povo. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438) escreve no Leal Conselheiro que "... no tempo de orar e ouvir ofícios divinos, nos conselhos proveitosos, falamentos ou desembargos levantamos estórias, recontando longos exemplos". Nas pregações religiosas, nas práticas públicas, nas sentenças dos juízes, no dar de conselhos, contavam-se histórias, com longos exemplos, que o povo ouvia e recontava ou que dele provinham.
Amostras de algumas narrativas deste género encontram-se nos Livros de Linhagens mais recentes, sobretudo no 4.º, da autoria de D. Pedro, Conde de Barcelos (1289-1354), e nas obras religiosas e morais. Andaram com o povo lendas como "A dona pé de cabra", "A lenda de Gaia" e a do "Rei Leir", esta ainda hoje corrente entre nós, todas incluídas no referido quarto Livro de Linhagens. No Orto do Esposo, um códice alcobacense do século XIV, de caráter apologético e místico, vêm várias histórias e de uma delas publica Adolfo Coelho uma versão contemporânea nos Contos Populares Portugueses.
c) Provérbios e adivinhas
Estamos perante géneros menores em prosa e em verso, o que não os torna menos significativos. Todas as classes usam provérbios e adivinhas e, apesar de terem uma presença assinalável na nossa literatura medieval, não chegou até nós qualquer coleção dessa época.
Como exemplo temos uma cantiga de amigo de João Soares Coelho, composta na segunda metade do século XIII e rematada com um anexim. A história é simples: uma jovem decide ir ver o amigo contra a vontade da mãe:
Pero m' o ela non quer outorgar,
hir-o-ei veer aly hu m'el mandou,
e per quanta coyta por mi levou,
farey-lh' eu est' e quanto m' al roguar,
e desy saya per hu deus quiser.
Ca diz o vervo - ca non semeou
milho quem passariños receou.
Na forma atual, o provérbio é o seguinte:
"Nunca milho semeou
Quem passarinho receou."
Atente-se no vocábulo "vervo", que significava "provérbio".
Igualmente, não possuímos qualquer compilação de adivinhas.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
A literatura popular e a língua portuguesa
A Península Ibérica é um território habitado desde sempre, facto atestado pelos vestígios das mais antigas indústrias, do paleolítico inferior à idade dos metais, nela encontrados, os quais não deixam dúvidas de que foi ocupada por toda a espécie de seres humanos, desde os pitecantropídeos ao "homo sapiens".
Depois desses seres primitivos, aqui chegaram há mais de 3000 anos muitos outros povos: lígures, celtas, iberos, fenícios, gregos, cartagineses. Posteriormente, no final do século III a.C., os romanos invadiram a P.I., o mesmo sucedendo, no séc. V d.C., povos germânicos (vândalos, alanos, suevos e visigodos). Em 711, foi a vez dos árabes a ocuparem, refugiando-se nas Astúrias os godos, que não quiseram submeter-se ao domínio muçulmano. Aí, constituíram um reino cristão, a partir do qual se organizou a Reconquista cristã, uma guerra longa, porfiada e tormentosa que durou mais de sete séculos, vindo a terminar com a conquista de Granada, em 1492, pelos reis católicos Fernando e Isabel.
Os reinos e estados peninsulares, entre os quais Portugal, resultam da mestiçagem de todos estes povos e estas culturas.
Que língua ou línguas falavam esses povos? Cada um deles teria a sua, mas a dominante, após a conquista romana, foi o latim vulgar ("sermo vulgaris"). Desses antigos idiomas, restam poucos vestígios. Um caso especial é o da escrita ibérica, não totalmente decifrada, copiosamente representada em inscrições tumulares de cemitérios da Idade do Ferro, situadas predominantemente a sul da península.
O latim vulgar, trazido pelos soldados e pelos colonos romanos foi-se transformando, pouco a pouco, na boca dos falantes peninsulares, em contacto com as línguas dos povos pré-existentes e dos invasores, até se converter num falar românico, o romance, que, consoante regiões e povos, se individualizou em vários dialetos.
No território que viria a ser Portugal, distinguiam-se dois tipos de romance: o situado a Norte do rio Douro, incluindo a Galiza, e o do Sul. Aquando da dominação sarracena, que apenas episodicamente atingiu o noroeste da P.I., as diferenças entre as duas linguagens acentuaram-se. A do Norte ficou conhecida por galego-português, enquanto a do Sul por romance moçarábico ou lusitano-moçárabe, por ser a dos cristãos que viviam sob domínio árabe. Do contacto dos dois dialetos, estabelecido após a Reconquista ter descido abaixo do Mondego e do Tejo, nasceu o português.
Até meados do século XII, falou-se uma língua e escreviam-se duas. Os clérigos possuidores de instrução escreviam em latim menos apurado que o clássico, daí a denominação de baixo ou medieval; os documentos oficiais, como, por exemplo, testamentos, contratos ou doações, eram redigidos num latim estropiado, a que se dá o nome de bárbaro ou tabeliónico. Ora, é da mistura com este latim que aparecem, desde o século IX, as primeiras palavras portuguesas. No entanto, textos inteiros em português chegaram até nós apenas do século XII em diante.
A linguagem escrita implica uma disciplina e uma obediência a regras de que a popular está livre, daí a progressiva separação entre um português literário, influenciado pelos modelos latinos, e o português popular que mal conhecemos.
O galego-português, a língua comum de portugueses e galegos que, durante séculos, foi uma só, foi-se dividindo em duas com a separação política, evolução consumada no século XVI, não obstante existir uma parte nuclear comum.
José Leite de Vasconcelos fala em dois períodos na evolução do português: o arcaico e o moderno. O primeiro situa-se entre o século IX e meados do século XVI e nele se inclui o português proto-histórico, que está presente em documentos escritos no chamado latim bárbaro, do século IX ao XII, e o segundo daquela data em diante.
Fonte: José Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1959, p. 16.
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