O espaço geográfico onde se desenvolve a quarta cena do segundo ato é uma rua de Veneza, um cenário público, aberto e dinâmico que se constitui como o local ideal para a socialização, a livre circulação e, acima de tudo, para a conspiração e a preparação da fuga clandestina. Este ambiente urbano exterior estabelece um contraste imediato com o isolamento claustrofóbico e melancólico do quarto de Jéssica na cena anterior. Na rua veneziana, a juventude cristã move-se com absoluta desenvoltura, planeando uma mascarada que irá apropriar-se do espaço público noturno sob o manto do anonimato, da folia e da transgressão festiva. Para além de ser o local físico da ação, a rua funciona como um ponto de confluência e trânsito que articula uma vasta rede de espaços privados mencionados pelas personagens. A partir deste ponto de encontro, projeta-se uma cartografia de movimentos precisos que conectam diferentes habitações de Veneza: os jovens planeiam escapar-se a meio da ceia em casa de Bassânio, deslocar-se para a casa de Lourenço para se disfarçarem, e reagrupar-se na casa de Graciano dali a uma hora. A rua é também o local onde se intercetam as rotas de comunicação clandestina, servindo de palco para Lanceloto cruzar a cidade com a carta que dita as coordenadas exatas da fuga de Jéssica da sua "casa paterna". A própria geografia noturna e potencialmente perigosa de Veneza é evocada através da discussão sobre a necessidade de archotes para iluminar o cortejo. A escuridão das ruelas exige uma orientação visual que, nesta cena, ganha contornos de fuga planeada. Ao designar Jéssica como a porta-archote da mascarada, o espaço da rua é simbolicamente transformado num corredor de transição iluminado, através do qual a jovem cruzará a fronteira física e espiritual entre o "inferno" doméstico do pai e a liberdade da sua nova vida comunitária ao lado de Lourenço. Assim, a rua de Veneza revela-se o espaço geográfico da transição por excelência, onde os muros da segregação familiar são rompidos pela mobilidade e audácia dos amantes.
A cena V do ato II decorre no limite imediato da habitação de Shylock, definido como o espaço público diante da casa do mercador, em Veneza. Este cenário exterior, a rua veneziana, constitui uma zona de transição e de contacto onde as personagens se encontram temporariamente, dialogam e se separam. É um espaço aberto que, embora seja o palco desta conversa íntima e familiar, está sob a ameaça iminente de ser invadido pelo ruído, pela música e pela folia das mascaradas cristãs que se organizam na cidade, representando a intrusão constante do exterior sobre a ordem doméstica do judeu. Em contrapartida direta a esta rua pública, ergue-se a casa de Shylock, descrita pelo próprio como uma "casa austera". Este espaço interior funciona como um recinto de reclusão, silêncio e contenção moral, onde a entrada de estímulos externos é severamente vigiada e limitada. A arquitetura desta habitação é definida por elementos de fechamento e segurança que operam como barreiras físicas defensivas contra o mundo exterior. As portas, que Shylock ordena repetidamente que sejam fechadas e mantidas debaixo de chave, simbolizam a separação estrita que protege a sua intimidade, a sua filha e a sua riqueza material contra a instabilidade e o desperdício que ele associa à vida na rua. Por outro lado, as janelas desempenham um papel espacial e visual central nesta dinâmica de oposição, funcionando como as únicas aberturas de comunicação entre o isolamento doméstico e a vibrante vida urbana de Veneza. Shylock foca grande parte da sua autoridade nestes pontos de transição, exigindo que Jéssica não apareça à janela e que as feche totalmente, o que ele equipara a fechar os próprios ouvidos, para impedir que a "loucura estúpida" da rua penetre no lar. No entanto, é precisamente através deste elemento arquitetónico que a rutura se desenha, uma vez que o conselho sussurrado de Lanceloto para que Jéssica espreite pela janela à procura de um cristão transforma a janela num ponto de vulnerabilidade, esperança e escape. A cena conclui-se com a ativação física destas fronteiras espaciais, com o afastamento de Shylock e a entrada definitiva de Jéssica para o interior da habitação, fechando a porta que ela própria planeia reabrir por dentro durante a noite.
A cena VII do ato decorre em Belmonte, especificamente numa sala no castelo de Pórcia. Este espaço interior é caracterizado pela privacidade, pela sofisticação e pelo mistério, sendo visualmente dominado pelas cortinas que ocultam os três cofres de ouro, prata e chumbo. Trata-se de um ambiente de reclusão estática e aristocrática que funciona como um palco de provação moral, onde o tempo parece suspenso e o destino de Pórcia se decide sob regras muito estritas. Este retiro de Belmonte constitui, na arquitetura da peça, o contraponto idílico e romântico à agitação mercantil, ruidosa e tensa das ruas de Veneza. Contudo, a geografia da cena expande-se de forma extraordinária através do discurso do Príncipe de Marrocos, que transforma esta sala privada num ponto de convergência de uma vasta escala geográfica global. Pórcia é descrita como um relicário sagrado que atrai pretendentes vindos dos quatro cantos do globo, fazendo com que as distâncias físicas sejam relativizadas pelo poder do desejo. No mapa evocado pelo príncipe, Belmonte é o destino final de rotas desafiantes que cruzam geografias exóticas e perigosas, como os desertos da Hircânia e as imensas solidões da extensa Arábia, agora transformados em estradas frequentadas por caravanas de príncipes decididos a contemplá-la. Esta projeção geográfica estende-se igualmente aos oceanos, referidos poeticamente como o "salso império", cujas ondas orgulhosas se elevam até aos céus. Para os viajantes vindos de longínquas paragens, a imensidão marítima deixa de ser uma barreira intransponível e passa a ser tratada como um mero regato que se salta facilmente para alcançar a senhora do castelo. Adicionalmente, o discurso estabelece uma ponte geográfica e económica com a Inglaterra, ao evocar a moeda inglesa com o cunho de um anjo gravado na superfície, ancorando esta fantasia geográfica global na realidade histórica e monetária da época. Assim, o espaço nesta cena opera uma tensão fascinante entre o isolamento de uma sala de castelo e a imensidão do mundo exterior. O castelo de Belmonte deixa de ser apenas uma habitação senhorial isolada para se assumir como um polo de gravidade universal, um espaço místico onde as barreiras da geografia física — os desertos, os oceanos e as distâncias continentais — são vencidas pelo ímpeto de conquista dos homens que ali convergem.
Parte do final do terceiro ato (cena V), a ação decorre no jardim do castelo de Belmonte, que funciona nesta cena como um espaço físico e simbólico de extrema relevância, atuando como o clássico locus amoenus da tradição literária renascentista: um refúgio natural, protegido e idílico onde florescem o amor, o ócio aristocrático e a harmonia humana. Em oposição direta à topografia claustrofóbica, mercantil e legalista de Veneza — dominada por canais lodosos, pontes movimentadas, o bulício comercial do Rialto e o confinamento forçado do gueto —, o jardim apresenta-se como um território aberto, verdejante e sereno, onde as pressões materiais da sobrevivência económica e da usura são completamente neutralizadas.
A natureza cultivada deste jardim reflete a ordem, a sofisticação e a generosidade moral da sua proprietária ausente, Pórcia. Embora o espaço físico seja ao ar livre, ele permanece intimamente integrado na esfera doméstica do palácio, servindo como uma antecâmara exterior onde as personagens passeiam tranquilamente enquanto aguardam que a mesa de jantar seja posta e a refeição servida. Esta fronteira fluida entre o jardim e os salões interiores enfatiza um modo de vida senhorial onde o tempo não é medido pela urgência dos prazos contratuais de dívidas vencidas, mas sim pelo ritmo suave das conversas galantes, das reflexões existenciais e dos prazeres quotidianos partilhados à sombra das árvores.
Do ponto de vista dramático, o jardim estabelece uma transição acústica e emocional indispensável. Ele opera como uma bacia de descompressão e serenidade, situada estrategicamente entre a partida apressada de Pórcia para o mundo masculino da justiça e a violência psicológica iminente do tribunal veneziano. A brisa tranquila e a luminosidade aberta deste espaço acolhem as brincadeiras e os trocadilhos de Lanceloto, desarmando momentaneamente a gravidade dos conflitos teológicos e transformando questões de salvação eterna e herança de sangue num mero pretexto para gracejos sobre os apetites domésticos. O jardim proporciona a liberdade e o desafogo necessários para que o riso e a ironia possam respirar sem a ameaça constante de sanções jurídicas ou de violência física.
Além disso, o jardim afirma-se como o palco físico da inclusão e da redenção de Jéssica. Tendo escapado da casa soturna, trancada e severa do seu pai em Veneza — que Shylock ordenara manter hermeticamente fechada contra as músicas profanas da rua —, a jovem judia encontra finalmente em Belmonte um espaço onde pode respirar ao ar livre, caminhar de mãos dadas com o marido e contemplar a beleza da natureza sem medo. Estar no jardim de Belmonte representa para Jéssica a materialização visível da sua nova condição de liberdade e pertencimento a uma comunidade de afetos nobres. É neste espaço verde que ela proclama com espontaneidade que a vida com Lourenço e a proximidade com Pórcia constituem um verdadeiro antegosto do Paraíso celestial na Terra.
Por fim, este cenário verdejante antecipa e prepara a apoteose lírica do quinto ato, onde o mesmo jardim, então iluminado pela luz mística da lua e pelas estrelas, se transformará no templo da música das esferas celestes e da reconciliação dos amantes. Na quinta cena do terceiro ato, o jardim do palácio de Belmonte ergue-se, portanto, como um santuário moral de paz, diálogo e concórdia, cuja beleza natural recorda ao público a existência de uma ordem humana superior, fundada no afeto e na graça, que resiste e triunfa sobre o rigor estéril e sombrio das leis da cidade.
O espaço físico onde se desenrola o julgamento — a solene e austera sala do tribunal de Veneza — não é apenas um cenário passivo, mas sim uma extensão das forças ideológicas, políticas e sociais que dominam toda a obra. Este espaço institucional de pedra, caracterizado pela rigidez, pela hierarquia e pela frieza burocrática, funciona como o polo geográfico e moral diametralmente oposto ao ambiente idílico, luminoso e musical de Belmonte. Veneza, personificada nesta sala de audiências, apresenta-se como a cidade do comércio, dos canais movimentados e dos contratos rigorosos, um território onde as relações humanas são mediadas pelo papel, pela tinta e pelo cálculo financeiro.
No interior do tribunal, a disposição física dos elementos desenha uma teia de poder altamente estratificada e vertical. No ponto mais alto, ergue-se o estrado do Doge, ladeado pelos senadores e magnatas da República, simbolizando a soberania inabalável do Estado e a vigilância perpétua das leis que sustentam a riqueza de Veneza. Abaixo desta cúspide de poder político estende-se a arena onde os litigantes se confrontam. A separação física entre António, densamente rodeado pelos seus amigos patrícios cristãos, e Shylock, que se apresenta inteiramente isolado no meio da sala, traduz de forma cenográfica a exclusão social e a solidão do estrangeiro, encurralado num espaço cívico desenhado por e para a elite dominante da cidade.
A atmosfera física do tribunal é também definida por objetos carregados de simbolismo tátil e dramático que acentuam a violência latente da cena. De um lado, encontram-se os rolos de pergaminho, os livros de jurisprudência e o contrato assinado, que representam a autoridade abstrata e implacável do direito escrito. Do outro, introduzidos na cena pela determinação de Shylock, surgem a balança e a faca que ele afia obstinadamente na sola do seu sapato. O som metálico da lâmina contra o couro rasga a suposta civilidade do tribunal, introduzindo uma ameaça de violência física crua num espaço que se pretendia governado apenas pelas palavras. A balança, tradicionalmente o símbolo de uma justiça cega e equilibrada, é aqui pervertida num instrumento de dissecação anatómica, evidenciando como a precisão geométrica e matemática pode ser friamente usada para desumanizar um corpo humano.
Este espaço de pendor marcadamente patriarcal, masculino e exclusivista é, todavia, invadido e subvertido pela presença física de Pórcia e Nerissa. Ao ocuparem o centro do tribunal, munidas de cartas de recomendação e vestes masculinas de jurista e escrivão, as duas mulheres operam uma rutura na homogeneidade de Veneza. O disfarce permite-lhes transitar e falar num território que lhes estava formalmente interdito pela ordem civil, transformando a mesa do tribunal, antes o altar da lógica jurídica fria dos homens, numa mesa de jogo intelectual onde a inteligência e a retórica feminina reconfiguram as fronteiras da própria lei.
Por fim, este espaço de clausura e confronto violento contrasta com a geografia invisível do gueto, o espaço de segregação física de onde Shylock partiu de manhã e para onde é empurrado de volta ao fim do dia, agora espoliado de toda a sua dignidade. O tribunal funciona, assim, como uma fronteira física onde o Estado veneziano resolve as suas crises internas, purgando o seu espaço público do corpo estranho que ousou desafiar a ordem dominante. A transição subsequente deste espaço fechado, claustrofóbico e tenso para o ar livre, o luar e a música de Belmonte no ato seguinte acentua a dicotomia espacial da peça, sugerindo que a verdadeira reconciliação e a harmonia afetiva só podem florescer longe das paredes frias de pedra onde Veneza dita as suas sentenças.