domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
terça-feira, 3 de novembro de 2026
Resumo da cena I da 3.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
A terceira parte da peça inicia-se numa noite de fim de primavera
do ano seguinte, com a ação dividida entre a atmosfera festiva da cozinha e a
intimidade pesada do piso superior. No andar de baixo, a cozinha foi
desimpedida para acolher vizinhos e lavradores que bebem, dançam e troçam
abertamente da verdadeira paternidade da criança recém-nascida. Através de
piscares de olho, cotoveladas e comentários sarcásticos, os convidados insinuam
que o bebé é filho de Eben e não do velho Ephraim Cabot. Enquanto a multidão se
diverte, Abbie permanece pálida, magra e retraída a um canto, fitando
ansiosamente a porta à espera da chegada do enteado e amanye, que se encontra
isolado no seu quarto superior a combater emoções contraditórias perante o
ruído da celebração.
Ao aperceber-se do riso da assembleia e julgando que a
vizinhança troça da inatividade dos presentes, Ephraim intervém com enorme
agressividade e orgulho. O velho patriarca exulta por ter sido pai aos setenta
e seis anos, vangloriando-se da sua força e confrontando a suposta moleza da
geração mais jovem. Incapaz de conter a sua exaltação, ele salta para o meio
dos dançarinos e lança-se numa dança frenética e grotesca, entoando gabarolices
sobre os seus antigos feitos no Oeste e sobre a sua inesgotável capacidade de
trabalho, até deixar o rabequista exausto e o público em silêncio hostil.
Entretanto, a tensão desloca-se para os quartos do primeiro
andar. Eben levanta-se, aproxima-se do berço e contempla a criança com uma
mistura de confusão e profunda ternura. Abbie, pressentindo a movimentação do
amante, esquiva-se ao contacto afetivo de Cabot na cozinha e sobe ao piso
superior. No quarto, junto ao berço, ela abraça o jovem e afirma que o menino é
o seu retrato fiel. O rapaz expressa uma viva revolta por ver o próprio filho
ser reivindicado pelo patriarca e por sentir que tudo o que lhe pertence acaba
nas mãos de outros, mas Abbie pede-lhe paciência e renova as suas declarações
de amor.
No exterior da casa, sentindo-se sufocado por uma atmosfera pesada que trepa pelas paredes e desprovido de qualquer sensação de paz, Cabot decide afastar-se da música e recolher ao estábulo para repousar junto dos animais. A saída do velho patriarca marca a viragem final da cena: no andar de baixo, o rabequista retoma a música com entusiasmo renovado e convida abertamente a assistência a festejar o engano pregado ao velho, dando início a uma celebração eufórica e sem constrangimentos entre a gente jovem.
Análise de Desejo sob os Ulmeiros, de Eugene O'Neill
I. Biografia de Eugene O'Neill
II. Relação da peça com a tragédia grega
III. Resumo da peça
IV. Resumo das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV
V. Análise das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV.
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV
VI.
VII. Questionários
Análise da cena IV da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
a) Ação
A ação da quarta cena desenvolve-se no exterior da casa dos
Cabot ao alvorecer e marca a consumação da viragem psicológica, espiritual e
moral na vida das personagens após a noite de intimidade. A dinâmica dramática
assenta numa estrutura bipartida claramente definida, articulando dois
momentos: um primeiro de intimidade romântica e cumplicidade libertadora entre
Eben e Abbie, seguido de um segundo de confronto sarcástico e inversão de
poderes entre pai e filho.
A primeira parte da cena abre com a saída de Eben
para o trabalho. A atitude do jovem contrasta radicalmente com o seu
comportamento do passado: apresenta-se sorridente, confiante e imbuído de uma
satisfação plena. A ação ganha dinamismo quando Abbie abre a janela da sala de
visitas e se debruça de cabelo desalinhado e olhar langoroso para se despedir
do enteado, agora amante. Neste diálogo matinal, a ação progride no sentido de
consolidar o vínculo afetivo através da declaração explícita de amor por parte
do rapaz. Em simultâneo, opera-se a regeneração simbólica e física do espaço: ela
escancara as persianas para deixar entrar a luz do sol e o ar puro, proclamando
que a divisão fúnebre e "morta" renasceu para se tornar o quarto do
casal. O clímax desta primeira parte é atingido quando as personagens constatam
que o espírito da falecida matriarca regressou definitivamente à sepultura,
conquistando o repouso e absolvendo o amor dos jovens de qualquer culpa
puritana.
A segunda parte da cena inicia-se com a transição
provocada pela aproximação de Ephraim Cabot, que obriga Abbie a recolher ao
interior e deixa Eben sozinho no terreiro à espera do pai. O ritmo da cena
altera-se, passando da ternura amorosa para a tensão dramática e a provocação
sarcástica. O jovem adota a atitude de novo senhor da herdade, contemplando a
propriedade com ares de dono e dirigindo ao patriarca um cumprimento irónico
sobre a sua abstração espiritual. Quando Cabot tenta enquadrar a eufórica boa
disposição do filho no consumo de álcool, ele rejeita a acusação e define a sua
alegria como o transbordar da própria vida, estendendo a mão ao progenitor para
declarar que a dívida moral da família está saldada e que a mãe já pode dormir
em paz.
O fecho da cena e do ato consagra a incomunicabilidade e o
desfasamento entre as personagens. Perplexo e incapaz de decifrar o verdadeiro
alcance das palavras enigmáticas do filho, Ephraim atribui o seu comportamento
à insensatez genética herdada da falecida esposa. A progressão dramática
culmina na afirmação triunfalista de Eben, que se proclama o galo da capoeira
antes de se retirar a rir para o estábulo, enquanto o patriarca o observa com
desprezo, desqualificando-o como um insensato sem salvação antes de se dirigir
para a porta, momento em que o pano cai.
A didascália que abre a cena marca uma rotura visual e
espacial imediata com a clausura noturna da cena anterior. A indicação «Exterior
da casa. Alvorece» estabelece uma dupla transição: por um lado, a
deslocação do foco dramático do interior fechado para o espaço aberto do
terreiro; por outro, o nascimento da luz matinal, que substitui a penumbra e o
mistério da noite pela clareza e pela transparência do dia.
O movimento inicial de Eben — ao sair pela porta principal à
direita, dar a volta até ao portão e avançar para a cancela — desenha uma
trajetória física de libertação. Trajado com o fato de trabalho e exibindo uma
postura firme e risonha, o jovem ocupa o terreiro não já como um subordinado
vergado pelo peso da lida diária, mas com a vivacidade de quem se sente
renovado.
Simultaneamente, a didascália introduz a janela da sala de
visitas como o elemento limiar mais relevante da cena. O som e o gesto com que «as
persianas são atiradas e Abbie debruça-se para fora» assinalam a rutura
violenta com o isolamento do passado. Ao debruçar-se com o cabelo desalinhado,
o rosto corado e o olhar langoroso, a mulher projeta a sensualidade e a
intimidade da noite interior para a luz pública do exterior, unindo visualmente
a casa e o terreiro numa mesma atmosfera de afeto e cumplicidade.
A janela escancarada funciona como uma metáfora de
purificação e arejamento. A sala de visitas no rés do chão — que ao longo da
obra figurara como um espaço fúnebre, escuro e reservado ao culto estático dos
mortos («este quarto tem estado morto») — é submetida a uma invasão de luz
solar e ar puro.
Ao abrir as persianas de par em par, Abbie rompe
simbolicamente com a estagnação do luto e com o interdito puritano. O espaço
doméstico deixa de ser um túmulo para se transfigurar no «quarto» do casal, um
lugar onde a vida e a paixão substituem o assombramento da falecida matriarca e
a rigidez do patriarca.
No desenvolvimento da cena, o espaço exterior desdobra-se em
segmentos:
- A
cancela e o terreiro: espaço ocupado por Eben, de onde o jovem
contempla a propriedade «com ares de dono». O chão da quinta deixa de ser
o local de opressão agrícola para se tornar o território simbolicamente
conquistado ao pai.
- O
estábulo (à esquerda): espaço associado à rotina do trabalho com o
gado e, ironicamente, ao recolhimento de Ephraim Cabot, que ali passou a
noite «com as vacas». O estábulo representa a animalidade, o isolamento e
a lonjura do velho patriarca, estabelecendo um contraste vincado com a
vivacidade da casa recém-regenerada.
- A
porta principal da casa: funciona como o ponto de fecho da cena, para
onde Cabot se dirige no final, mantendo-se tragicamente alheado e cego
perante a transformação que a abertura da janela e a luz da manhã acabaram
de consagrar na sua própria habitação.
Deste modo, a espacialidade da cena desenha o triunfo da luz
sobre a penumbra, da abertura sobre o confinamento e do espaço vivo e renovado
sobre a esterilidade fúnebre do passado.
A ação situa-se no alvorecer, um momento de transição
temporal exata em que a noite cede lugar às primeiras luzes da manhã. Este
marco temporal não é apenas uma indicação cénica, mas a marcação do início de
um novo ciclo na rotina da herdade, onde Eben, já vestido com as suas roupas de
trabalho, se prepara para começar as tarefas agrícolas, enquanto Abbie assinala
a extensão das horas que se avizinham ao lamentar a ausência do enteado ao
longo do dia.
No plano do tempo quotidiano e agrícola, a cronologia
da cena está intrinsecamente ligada ao ritmo rigoroso da vida na quinta dos
Cabot. O tempo é medido pelas tarefas do campo e pela lida do gado: o amanhecer
dita o despertar dos trabalhadores, a deslocação para o estábulo e a preparação
do pequeno-almoço. A chegada de Ephraim Cabot, vindo do estábulo onde passou a
noite inteira recolhido entre os animais, delimita a duração do período noturno
e marca a transição para a manhã. A provocação de Eben ao saudar o pai
perguntando-lhe se está a «ver as estrelas ao meio-dia» joga precisamente com a
iluminação solar do dia em contraste com a cegueira temporal do velho
patriarca.
No plano simbólico e psicológico, o tempo cronológico
opera uma rutura radical entre o passado e o futuro. A noite, que
dominou a cena anterior, representava o tempo do segredo, da repressão puritana
e da presença opressiva do fantasma da falecida matriarca. O alvorecer
consagra o fim desse tempo estático e fúnebre, que mantinha a casa e as
personagens aprisionadas ao passado. Com a entrada da luz do sol e do ar puro
pelas persianas abertas, o tempo da culpa e da vingança fica definitivamente
encerrado — a mãe regressa à sepultura para repousar em paz —, dando lugar a um
tempo presente de libertação, energia e renovação amorosa.
Por fim, a cronologia do alvorecer simboliza o despertar de
uma nova relação de forças na herdade. Eben renasce com o novo dia («parece
outro»), projetando-se para o futuro já não como o filho subjugado de outrora,
mas como o triunfante senhor da casa. O tempo da velhice, do cansaço e do
passado, encarnado por Cabot, contrasta vivamente com a temporalidade jovem,
efervescente e orientada para o seu futuro com a madrasta, tornando esta manhã
no palco onde se consagra a transição entre a morte de um ciclo e o nascimento
de uma nova era de paixão e domínio.
Quanto ao tempo do discurso, embora a ação avance em tempo real, o diálogo das
personagens abre frequentes janelas de recuo ao passado através de analepses
evocativas:
- Analepse
de passado recente: Abbie evoca a noite de paixão recém-consumada ao
recordar a entrega amorosa entre ambos, tal como Cabot evoca a forma como
passou a noite anterior recolhido no estábulo.
- Analepse
de passado remoto: Abbie e Eben recuam a um passado mais distante ao
evocarem o longo período em que a sala de visitas permaneceu fúnebre e
inacessível, bem como o historial de sofrimento da falecida matriarca e a
concretização da sua vingança.
As prolepses surgem de forma pontual no discurso,
projetando intenções e expetativas sobre o futuro imediato:
- Abbie
antecipa a falta que Eben lhe fará ao longo da jornada de trabalho.
- Além
disso, projeta a estratégia de dissimulação que irá adotar nas horas
seguintes perante o marido.
Relativamente ao tempo psicológico, Para Abbie e Eben, o tempo interior é vivido sob o signo da plenitude, da exaltação e do alívio. Após a consumação da paixão e a convicção de que o espírito da falecida matriarca alcançou a paz, a perceção temporal dos dois amantes é marcada por uma dupla dimensão:
- Suspensão
e desejo de prolongamento: na despedida matinal à janela, o tempo da
urgência do trabalho é suspenso pela necessidade afetiva de retardar o
momento da separação («Tenho um milhão deles guardados para ti!»).
- Aceleração
vital e libertação: o tempo interior de Eben deixa de ser o tempo
pesado e arrastado da submissão e do ressentimento. O jovem sente que o
tempo renasceu e que a vida flui com uma nova energia («É só a vida»),
projetando-se com impaciência e entusiasmo para o futuro da herdade.
Em contrapartida, o tempo psicológico de Ephraim Cabot surge
marcado pela frieza, pela solidão e pela estagnação espiritual:
- Lentidão
e alheamento: tendo passado a noite inteira no estábulo, recolhido
entre os animais, Cabot habita um tempo interior pesado, rígido e
desfasado do presente. A sua entrada na cena, fitando o céu com um olhar
vago, reflete uma perceção temporal "cega" e alheada, incapaz de
captar a profunda transformação que se operou ao seu redor.
- Prisão
ao passado: enquanto o tempo dos jovens se orienta para a vida e para
o futuro, o tempo interior do patriarca permanece preso ao rancor, à
desconfiança e à memória das velhas amarguras.
A tensão dramática da cena resulta fundamentalmente do choque
entre estes dois tempos psicológicos incomunicáveis:
- Por
um lado, a temporalidade efervescente e luminosa de Abbie e Eben,
que vivenciam o momento presente como o início de um novo ciclo de domínio
e felicidade.
- Por
outro lado, a temporalidade sombria e estática de Cabot, que
interpreta a exaltação do filho como fruto do álcool ou de uma loucura
hereditária, revelando a sua absoluta incapacidade de acompanhar o ritmo
interior da nova realidade da casa.
Deste modo, o tempo psicológico traduz o abismo emocional
que separa as personagens: enquanto Eben e Abbie celebram a intensidade viva do
presente, Cabot permanece encerrado na sua própria solidão temporal.
d) Personagens
Surgindo à janela ao alvorecer com o cabelo desalinhado e um
olhar terno e langoroso, símbolos da noite de amor que acabou de viver, Abbie
projeta sem pudores a paixão consumada na noite anterior. A sua conduta é
pautada por uma euforia afetiva e por uma clara necessidade de confirmação
emocional: não se satisfaz com a afeição superficial de Eben, exigindo-lhe uma
declaração explícita de amor absoluto. A insaciabilidade dos seus afetos e a
ternura com que se despede do amante mostram-na completamente absorvida pela
intensidade do sentimento, assumindo uma postura de abertura e vulnerabilidade
amorosa.
Simultaneamente, afirma o seu caráter determinado e a sua
ambição territorial. Ao escancarar as persianas da sala de visitas para deixar
entrar o ar e a luz do sol, a personagem assume o papel de agente regeneradora
do espaço doméstico, proclamando que a divisão fúnebre renasceu através da
paixão do casal. O seu lapso verbal ao classificar inicialmente o quarto como
sendo seu, corrigindo-o de imediato para incluir Eben, deixa transparecer o
instinto primordial de posse e domínio sobre a herdade, agora recalibrado pela cumplicidade
afetiva.
Por último, ela evidencia uma perspicácia calculista e uma
notável capacidade de dissimulação. Ao demonstrar total confiança na sua
habilidade para iludir o marido e ao planear desculpas domésticas para
justificar o seu cansaço, Abbie revela-se fria na gestão do segredo e
desprovida de qualquer sentimento de culpa ou respeito perante a autoridade do
patriarca. A forma desdenhosa como se refere ao cônjuge sublinha a sua rutura
moral com o casamento e o seu alinhamento definitivo com Eben, consolidando uma
figura feminina complexa, onde a paixão avassaladora coexiste com a coragem da
transgressão e a destreza da manipulação.
Ao surgir no terreiro ao alvorecer, Eben apresenta uma
postura física completamente renovada: a sua atitude é firme, o seu semblante
exibe uma satisfação evidente e a sua linguagem corporal projeta uma vivacidade
radiante. Esta renovação resulta do impacto vitalista da consumação da paixão
com Abbie. Perante a suspeita simplista de Cabot, que atribui a eufórica boa
disposição do filho ao consumo de álcool, o jovem rejeita a acusação e define a
sua alegria como o transbordar da própria vida, sentindo-se habitado por uma
energia interior que o liberta das velhas amarguras.
No plano afetivo, revela uma entrega genuína, ainda que
temperada pela prudência e pela defesa do seu espaço. No diálogo matinal com
Abbie, retribui os gestos de carinho e confirma o seu sentimento com firmeza,
demonstrando todavia um olhar vigilante quanto à preservação do segredo e à
partilha equitativa do espaço doméstico, reagindo de imediato quando se trata
de assegurar a sua legitimidade sobre a casa.
No plano espiritual e moral, a sua maior transformação
reside na conquista da pacificação interior. Para o jovem, a união com Abbie
deixa de ser vivida como uma transgressão pecaminosa para ser assumida como a
reparação da injustiça sofrida pela falecida matriarca. Ao convencer-se de que
a mãe ficou vingada e regressou definitivamente à sepultura para repousar em
paz, Eben liberta-se do terror do castigo e do peso da culpa puritana,
alcançando a absolvição da consciência.
Por fim, no confronto com o pai, assume uma postura de
aberta insubmissão e superioridade. Deixando para trás o medo e a submissão do
passado, contempla a quinta com atitude de proprietário e desafia Ephraim Cabot
através do sarcasmo e da provocação irónica. Sentindo que a dívida familiar
está saldada, oferece a mão ao patriarca num gesto de quitação e, perante a
cegueira e a incompreensão de Cabot, reafirma com altivez a sua virilidade e
liderança ao proclamar-se o novo senhor do terreno, retirando-se a rir na
plenitude da sua libertação.
Cabot entra em cena marcado por um profundo alheamento e por
um isolamento quase animalesco. Ao subir vagarosamente pelo terreiro fitando o
céu com um olhar vago, o patriarca projeta a imagem de um homem desconectado da
realidade imediata. O facto de ter passado a noite inteira recolhido no
estábulo, a dormir com as vacas, acentua a sua incapacidade de encontrar
conforto no espaço doméstico e na companhia da esposa, evidenciando uma solidão
interior que o impele a procurar refúgio na bruteza dos animais e na dureza do
trabalho.
No confronto com o filho, Cabot revela uma absoluta cegueira
espiritual e moral. Perante a inédita eufórica boa disposição de Eben, o velho
patriarca é incapaz de captar a dimensão de libertação e renascimento que
habita o jovem, bem como de suspeitar do que ocorreu dentro da sua própria
casa. Prisioneiro de uma mentalidade rasteira e desconfiada, Cabot tenta
enquadrar a mudança do filho em explicações vulgares, acusando-o de ter bebido
ou questionando irritado a razão de tanta vivacidade, demonstrando que os seus
olhos espirituais não alcançam a verdade dos acontecimentos.
Sentindo a sua autoridade ameaçada pela atitude trocista e
dominadora de Eben, Cabot recorre à agressividade verbal e ao desdém como
mecanismos de defesa patriarcal. Ao tentar menorizar o filho como uma figura
jovem e dependente e ao rejeitar com sarcasmo a ordem para ir trabalhar, o
patriarca esforça-se por reafirmar a sua liderança e a sua superioridade
hierárquica, recusando aceitar que o terreno e o controlo da família lhe estão
a escapar das mãos.
Por fim, a personagem encerra a cena mergulhada numa
amargura desdenhosa e numa ilusão de triunfo. Incapaz de decifrar as palavras
enigmáticas de Eben sobre o regresso da mãe à sepultura, Cabot prefere
desqualificar as provocações do filho, atribuindo a sua audácia a uma pequenez
intelectual e à herança genética da falecida esposa, a quem devota um antigo
desprezo. Ao retirar-se para a habitação convencido de que o filho é apenas um
insensato sem salvação, Cabot consagra o seu alheamento trágico: regressa a
casa com a ilusão de manter o poder, completamente cego para a derrota que
acabou de sofrer sob o seu próprio teto.
A hipérbole "Tenho um milhão deles guardados para
ti" permite a Abbie exagerar o número de beijos acumulados para dar a
Eben, o que demonstra a intensidade da sua paixão. Convém não esquecer que esta
cena surge imediatamente após a primeira noite de amor vivida com Eben. Após
tanto tempo de atração reprimida e de segredo, a personagem sente uma paixão
tão avassaladora que um discurso "normal" não é suficiente para a
medir, ou seja, o seu amor pelo enteado é incalculável e sem limites.
A expressão idiomática (com valor metafórico) "Sei
sempre deitar-lhe poeira nos olhos." reflete a astúcia e a capacidade de
dissimulação de Abbie e ilustra a facilidade com que ilude a vigilância do
marido. De facto, "deitar poeira nos olhos" significa
"enganar", "iludir" ou "tapar a vista a alguém",
de modo a que essa pessoa não perceba o que realmente se está a passar. Ao
fazer esta declaração, a personagem refere-se ao marido (Ephraim Cabot),
querendo dizer que é como se lhe atirasse poeira para os olhos para o
"cegar" e impedir que ele veja a realidade. Ela mostra-se totalmente
confiante na sua habilidade de manipular o esposo, ilustrando a facilidade com
que consegue esconder o seu envolvimento amoroso com Eben e iludir a vigilância
do marido, mantendo-o no desconhecimento относительно àquilo que acontece na
própria casa.
A personificação e a antítese (morte vs. vida) presentes em
"Já chegou e sobrou o tempo que este quarto tem estado morto!" e
"Demos-lhe vida... o nosso amor lhe deu." atribuem à sala / ao quarto
a condição de entidade viva que renasce da estagnação fúnebre, simbolizando a
metamorfose do espaço-sepulcro num local regenerado pelo desejo e pela paixão.
A sala de visitas fora até aí um espaço fúnebre, frio, ligado ao luto pela mãe
e à rigidez puritana do patriarca. A personificação mostra que o quarto
"ressuscitou": deixa de ser um túmulo e converte-se no centro da
paixão do casal. Já a antítese entre a morte e a vida serve para absolver as
duas personagens da culpa. Na perspetiva de Abbie, o envolvimento entre ambos
não constitui um pecado, mas antes uma força vital e regeneradora, capaz de
afastar os fantasmas do passado e trazer ar puro e luz a uma casa fria e
desoladora. Assim sendo, este passo evidencia o modo como o amor transfigura
simbolicamente o espaço: onde antes imperava a estagnação da morte, reina agora
a energia da vida.
A metáfora e o eufemismo presentes em "A mãe voltou
para a sepultura. Já pode dormir." e "E que repouse em paz!"
suavizam a ideia de morte e apresentam o regresso do espírito da matriarca à
sepultura como a conquista de uma paz justa e libertadora após a consumação da
vingança. Até esta parte da peça, a memória da falecida matriarca pairava sobre
a casa como uma presença opressiva e rancorosa contra a tirania do marido. Ao
afirmar que a mãe "voltou para a sepultura" e "já pode
dormir", quer dizer que a presença espiritual terminou e que a casa ficou
finalmente livre desse peso. Para Eben, tudo isto constitui a prova de que a
sua relação com Abbie não foi um pecado nem uma profanação, mas o cumprimento
de uma espécie de dívida de justiça. Ao sentir que a progenitora ficou vingada,
a sua consciência tranquiliza-se: a transgressão transforma-se num ato de
libertação que permite à falecida descansar e a ele próprio viver sem o terror
do castigo divino.
A expressão idiomática "passar pelas brasas", dita
pela madrasta traduz o seu desejo de descansar por alguns momentos após a noite
de entrega física. Note-se que a expressão confere ao texto e à conversa
matinal entre os amantes um grau de descontração e intimidade, algo que
contrasta com o tom pesado e solene que dominara a cena da noite anterior.
Abbie aproveita o cansaço real para construir uma desculpa convincente perante
o marido ("Digo ao velho que não me sinto bem") que lhe permite
recolher aos aposentos e evitar servir-lhe a refeição. Ao usar o
"nome" velho, mostra bem toda a falta de respeito ou afeto conjugal
pelo esposo. Em simultâneo, reduz o patriarca à sua dimensão estritamente
etária e física, despojando-o da sua autoridade como chefe de família. Por
outro lado, ao adotar a mesma designação pejorativa que Eben usa para se
referir ao pai, estabelece uma aliança linguística e emocional com o enteado,
situando-se agora ambos do mesmo lado, unidos contra o patriarca. Por último, o
termo "velho" evidencia o desinteresse pelas obrigações tradicionais
de esposa ("Ele que se arranje, se quiser comer"). O vocábulo
sublinha a velhice de Cabot perante a juventude e a vitalidade de Eben,
esclarecendo que Abbie já não se sente submissa nem vinculada aos deveres
conjugais.
A interrogação irónica "A ver as estrelas ao
meio-dia?" configura uma provocação sarcástica com que Eben procura
ridicularizar o alheamento do pai, refletindo a sua nova atitude de desafio e
superioridade sobre o progenitor (as estrelas não são visíveis àquela hora do
dia). Após a consumação da relação com a madrasta e da convicção de que a mãe
ficou vingada, o jovem deixa de se sentir intimidado por Ephraim, ironizando a
"cegueira" do patriarca, que olha vagamente para o céu sem suspeitar
da enorme transformação que acabou de ocorrer na sua própria casa.
Na sequência, ironiza a cegueira moral e espiritual do pai:
"Esses seus olhos não veem até lá.". A capacidade física de ver
("olhos") é usada metaforicamente para representar a sua incapacidade
de enxergar a realidade ao seu redor. Quando Cabot declara que está a falar do
céu, o filho responde ironicamente, sugerindo que um homem inflexível e
insensível jamais conseguirá aceder ao plano espiritual ou compreender o perdão
e a redenção. A réplica sublinha o desfasamento entre o que o patriarca julga
saber e aquilo que realmente acontece. Ou seja, um homem que se julga devoto é
incapaz de alcançar a verdade por causa da sua dureza moral.
A metáfora presente em "Não é pinga. É só a vida."
atribui a boa disposição de Eben não à bebida, mas a uma nova energia vital. De
facto, a vida é representada como uma força viva e embriagante, um impulso puro
que invade o corpo e o espírito do jovem. Expliquemos... Ao ser surpreendido
pelo comportamento alegre e invulgarmente confiante do filho, Ephraim supõe que
tal se fica a dever ao consumo excessivo de álcool, mas aquele refuta essa
acusação, mostrando que o seu estado de espírito não deriva de um vício
qualquer. Para o rapaz, a consumação da paixão com Abbie e a convicção de que a
mãe descansa finalmente em paz fazem-no sentir "vivo" pela primeira
vez.
A metáfora de cariz popular ("Que mosca te
mordeu?") na boca de Cabot serve para questionar, com espanto e irritação,
a repentina mudança de atitude do filho, que se apresenta invulgarmente
resoluto e provocador. Eben não desmente a ideia de ter sido "tocado"
por algo, mas reinterpreta a "mosca" como o próprio espírito da
falecida mãe. Para Cabot, a pergunta é apenas uma frase sem sentido, enquanto
para o filho é a confirmação secreta de que o assombramento materno acabou e
que a mãe regressou em paz à sepultura. O jovem diverte-se a dizer a verdade
nas barbas do patriarca, sabendo que a cegueira do patriarca o impede de
compreender o verdadeiro significado das suas palavras: "Não a sentiu
passar... de volta à sepultura?".
Em resposta, Ephraim desvaloriza e desqualifica a atitude do
filho, reduzindo-o a um animal jovem e dependente: "Estás a mandar em mim,
vitelo desmamado?". Ora, um vitelo desmamado é um bezerro jovem que acabou
de deixar de mamar, incapaz de se sustentar por si próprio ou de se impor no
rebanho. Ao recorrer a esta imagem, Cabot reduz o filho a uma figura fraca e
inexperiente, sem verdadeira força ou autonomia. Ao mesmo tempo, o patriarca
recusa-se a encarar a nova atitude confiante do rapaz como uma ameaça real. Em
vez disso, trata a ousadia da cria como a impertinência de qualquer valor.
De forma altiva e exaltada, Eben responde "Sou o galo
da capoeira!". Esta metáfora – a do galo que domina o terreiro, marca o
seu território e se impõe – é a resposta direta ao insulto anterior que o pai
lhe dirigira e que tinha como objetivo menorizá-lo como um "vitelo
desmamado". A expressão simboliza a convicção de Eben de que a casa e a
terra estão agora sob o seu controlo, aliado a Abbie. Ao proclamar-se o
"galo", o jovem desafia abertamente a autoridade do velho patriarca
no seu próprio terreno.
Por último, a fechar a cena e o ato, Ephraim Cabot recorre a
um par de insultos populares carregados de desdém, concretamente a metáfora
"Cabeça de avelã!" e a expressão idiomática "Escrito e
escarrado!", através dos quais procura desqualificar por completo a figura
de Eben. A metáfora "cabeça de avelã" compara o cérebro ou a
capacidade mental do jovem ao tamanho reduzido de uma avelã, ridicularizando a
sua suposta pequenez intelectual. Exposto às provocações do rebento, o patriarca
recusa-se a aceitar que a atitude do filho seja produto de qualquer traço de
inteligência ou estratégia, reduzindo a sua audácia a uma simples falta de
juízo ou estupidez.
Por seu turno, a expressão idiomática "Escrito e escarrado" é usada coloquialmente para significar que alguém é a cópia fiel, o retrato exato ou a réplica perfeita de outra pessoa. Assim, ao exclamar que Eben é o retrato "escrito e escarrado" da falecida mãe, o patriarca enfatiza asperamente a herança genética e comportamental que liga o filho à progenitora. Para Cabot, a parecença entre ambos não é um motivo de orgulho, antes uma falha moral, servindo para justificar o desprezo que nutre por ambos e sugerindo que Eben herdou a mesma fraqueza, insensatez e inutilidade que o pai atribuía à sua falecida esposa.
f) Elementos simbólicos
O elemento simbólico primordial é a luz do alvorecer, que
sucede à penumbra noturna para consagrar o nascimento de um novo ciclo na vida
dos amantes. O amanhecer ultrapassa a simples marcação cronológica para se
erigir no símbolo da clareza, da verdade e da vivificação. A luz solar e o ar
puro que penetram no terreiro representam a expulsão das sombras do passado,
varrendo o ambiente enrarecido da repressão e inaugurando o tempo da
transparência e da exaltação vital.
Estreitamente associada à luz surge a simbologia da janela e
das persianas escancaradas da sala de visitas. A janela funciona como o limiar
sagrado e profano entre o espaço interior do segredo e o espaço exterior da
afirmação pública. Ao abrirem-se violentamente as persianas, opera-se a
dessacralização do culto fúnebre que ali imperava. A divisão que anteriormente
figurava como um santuário estático e mortuário, dedicado à memória dorida da
falecida matriarca, sofre uma transfiguração radical: o ar puro e a
luminosidade desinfetam o espaço do ressentimento, convertendo o local da morte
num santuário vivo de paixão e cumplicidade. A abertura da janela simboliza,
assim, a rutura definitiva com o interdito puritano.
Outro eixo simbólico fundamental reside no regresso do
espírito da mãe à sepultura e na conquista do seu repouso eterno. A imagem
espiritual da falecida que finalmente pode dormir traduz a pacificação da culpa
e a resolução do assombramento que pesava sobre a habitação. A união amorosa
entre os jovens adquire o valor simbólico de um ato ritual de reparação e
vingança: ao consumarem a paixão na sala da falecida, a memória da matriarca é
vingada contra a tirania do patriarca, libertando a alma materna e absolvendo
os amantes. A transgressão converte-se, paradoxalmente, num ato de justiça
espiritual que devolve a paz à casa e pacifica a consciência do filho.
No plano das imagens concetuais, a oposição entre a bebida
alcoólica e a própria vida constitui uma metáfora vitalista de grande
densidade. A efervescência e a alegria que dominam o jovem não derivam de um
vício vulgar, mas sim do transbordar de um impulso vital renovado, de uma
energia pura que regenera o indivíduo. A esta força vital contrapõe-se a
cegueira moral dos olhos do velho patriarca. Os olhos que não alcançam as
coisas do espírito simbolizam a incapacidade espiritual e a insensibilidade
moral de um homem rígido que contempla o céu de forma vaga enquanto permanece
cego perante a regeneração e a perda de domínio no seu próprio lar.
Por fim, a cena estrutura-se em redor de um denso conjunto de imagens animais que expressam o confronto entre a esterilidade e o poder. O estábulo e a imagem do gado surgem associados ao recolhimento do pai, simbolizando a regressão, o isolamento e a bruteza de quem já não encontra refúgio na esfera humana da casa. Quando o patriarca tenta animalizar o filho ao apelidá-lo de vitelo desmamado, procura fixá-lo numa condição simbólica de imaturidade, fraqueza e dependência. Todavia, esta imagem depreciativa é de imediato anulada e subvertida pela metáfora autoafirmativa do galo da capoeira. Ao proclamar-se como o galo do terreiro, o jovem apropria-se do símbolo primordial da virilidade, da liderança e do domínio territorial, consagrando a inversão definitiva da autoridade patriarcal e o triunfo do novo senhor da propriedade.
g) Elementos da tragédia clássica
A hybris designa o orgulho excessivo ou a audácia com que o herói trágico desafia as leis morais, os deuses ou a ordem estabelecida. Nesta cena, manifesta-se no sentimento de triunfo e invulnerabilidade que domina Eben e Abbie. Ao escancarar as persianas da antiga sala fúnebre e ao contemplar a quinta «com ares de dono», o jovem assume uma postura de superioridade absoluta perante o pai. A sua proclamação eufórica («Sou o galo da capoeira!») e o tom trocista com que diz a Cabot que vá trabalhar constituem a expressão máxima desta arrogância trágica: a personagem julga-se totalmente vitoriosa e dona do seu destino, alheada dos perigos e da catástrofe que a sua transgressão fatalmente atrairá.
A hamartia é o erro de julgamento ou a ação
imperfeita cometida pela personagem que desencadeia a engrenagem da sua ruína.
Aqui, o erro trágico reside na ilusão dos amantes de que a consumação da sua
paixão e a reparação da injustiça materna absolvem a proibição moral da sua
união. Ao acreditarem que a rutura com o passado está consumada e que o
espírito da mãe já pode descansar em paz, Eben e Abbie ignoram a gravidade da
falta cometida contra a ordem familiar e social, assentando a sua felicidade
num alicerce frágil e proibido.
A ironia trágica ocorre quando o público possui o
conhecimento pleno da realidade, enquanto as personagens operam na cegueira e
na ilusão. Este recurso manifesta-se numa dupla dimensão:
- A
cegueira do patriarca (oidipous / cegueira moral): Ephraim
Cabot contempla o céu e questiona Eben sobre a origem da sua eufórica boa
disposição, supondo que o filho está embriagado. A incapacidade de Cabot
para perceber o que se passou no próprio interior da sua casa evoca o
motivo clássico do líder cego para a verdade que o rodeia.
- A
ilusão de triunfo do filho: Eben julga ter alcançado a liberdade e a
quitação de todas as dívidas morais («Eu e vossemecê estamos quites»), sem
compreender que o segredo e a transgressão contêm já a semente da própria
destruição.
Na tragédia grega (como na Orestia, de Ésquilo), os
mortos e as maldições familiares exercem uma pressão invisível sobre a conduta
dos vivos. A constante invocação da falecida matriarca coloca a ação sob a
alçada de uma justiça ancestral. Eben interpreta o regresso da mãe à sepultura
como o fim da cobrança e a conquista da paz; todavia, na lógica trágica
clássica, a tentativa de mitigar uma dor antiga através de um novo ato proibido
atrai inevitavelmente a Némesis (a punição divina ou o castigo do destino).
Por fim, o diálogo em que Cabot fala do «céu» e Eben o reduz à posse da «quinta» reflete a clivagem trágica entre duas conceções do mundo: a religiosidade rígida e solitária do velho patriarca e o vitalismo terreno do jovem. A incapacidade das personagens para encontrarem uma mediação espiritual consagra o ambiente sufocante da tragédia, onde os indivíduos permanecem isolados e impotentes perante as forças que os ultrapassam.
segunda-feira, 2 de novembro de 2026
O ser humano está a viajar no tempo
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Resumo da cena IV da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
A quarta
cena da segunda parte inicia-se no exterior da casa, ao alvorecer, marcando uma
viragem radical na atitude e no semblante de Eben. Vestido com a roupa de
trabalho, o jovem exibe uma atitude firme, confiante e risonha. A janela da
sala de visitas é aberta por Abbie, que, de cabelo desalinhado e rosto corado,
se debruça para se despedir dele. Entre beijos e trocas de afeto, a madrasta
pede uma confirmação de amor e o agora amante, após declarar que gosta dela
mais do que de todas as raparigas que conheceu, acaba por confessar abertamente
que a ama.
Neste
diálogo matinal, a transformação interior das personagens traduz-se na forma
como passam a encarar a habitação. Abbie escancara as persianas para deixar
entrar a luz do sol e o ar puro na sala de visitas, demonstrando que o espaço,
anteriormente fúnebre e estático, ganhou vida e passa a ser o quarto de ambos.
É neste ambiente de renovação que Eben constata que a presença da falecida mãe
regressou definitivamente à sepultura, podendo finalmente descansar em paz, uma
convicção que a mulher subscreve antes de recolher ao interior.
Com a saída
desta, o rapaz aguarda a chegada do pai, que regressa vagarosamente do
estábulo. Apresentando-se provocatório, jovial e seguro de si, Eben aborda
Ephraim Cabot com ironia, elogiando a beleza da quinta e insinuando o seu novo
sentimento de posse sobre a propriedade. O jovem chega a estender a mão ao pai,
declarando que estão finalmente quites e revelando abertamente que a mãe já
pode dormir em paz, uma vez que a dívida moral que os unia foi saldada.
Perplexo e incapaz de compreender o tom desafiador do filho, que atribui inicialmente ao consumo de álcool, Cabot ignora as insinuações sobre o repouso da falecida e limita-se a comentar a sua própria noite passada no estábulo entre as vacas. Quando o filho se afasta a rir para o trabalho, proclamando-se o novo senhor do terreiro, o patriarca observa-o com desprezo e piedade, desqualificando-o como um insensato sem salvação, à imagem da mãe, antes de se dirigir para a porta enquanto o pano cai, encerrando o ato.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Análise do conto "Uma descida no Maelströem", de Edgar Allan Poe
- O narrador visitante: representa o espectador urbano, culto e racional, contudo vulnerável à vertigem física e psicológica. Atingido por uma prostração avassaladora ao olhar para o abismo, este narrador necessita de se deitar de barriga para baixo e segurar-se à vegetação da rocha para não sucumbir ao pânico gerado pela escala monumental da paisagem.
- O Velho Guia: um pescador local que aparenta uma idade extremamente avançada, embora revele que o seu aspeto debilitado, os seus membros trémulos e o embranquecimento total dos seus cabelos não resultam da passagem do tempo, mas sim de uma experiência aterrorizadora de escassas seis horas vivida no interior do próprio vórtice.
- Os seus cabelos, anteriormente negros como o ébano, tornam-se completamente brancos.
- As feições do seu rosto alteram-se radicalmente, exibindo marcas de envelhecimento precoce e de exaustão extrema.
- O seu corpo adquire tremores e debilidade permanentes.

