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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O desempenho dos alunos é [ainda] pior do que se pensa


 

    Nas últimas semanas, mais de 1 800 professores de matemática e ciências da Universidade da Califórnia, um dos maiores e melhores sistemas universitários públicos dos Estados Unidos, assinaram uma carta aberta em que detalham um problema complexo. Segundo eles, os estudantes do primeiro ano de licenciatura chegam, cada vez mais, sem as competências básicas necessárias para terem sucesso. 

    No campus de Berkeley, escrevem eles, cerca de 20 a 30% dos estudantes que frequentam um curso introdutório de cálculo apresentam «graves lacunas de preparação». O desafio tornou-se tão grande, acrescentam, que os docentes estão a ter de voltar a ensinar matemática do ensino básico.

    A carta é o mais recente contributo para um debate cada vez mais alargado sobre o ensino superior, as práticas de admissão nas universidades — e a capacidade intelectual dos jovens americanos. Segue-se a um relatório surpreendente divulgado em novembro no campus de San Diego do sistema universitário da Califórnia. Os académicos locais observaram que o número de estudantes do primeiro ano que ingressavam com competências matemáticas abaixo do nível do ensino secundário tinha aumentado quase trinta vezes em cinco anos, atingindo quase um em cada oito. Cerca de 70% dos estudantes com atrasos, argumentaram, não apresentavam um desempenho ao nível esperado de um aluno de 14 anos.

    As preocupações com as competências matemáticas dos estudantes de licenciatura juntam-se à consternação de longa data face à queda dos níveis de literacia. Os docentes alertam para o facto de os estudantes de literatura parecerem incapazes de terminar livros. Não é apenas na costa oeste, nem nas universidades públicas, que estes problemas são relatados. 

    Em Harvard, alguns professores de ciências humanas e sociais afirmam sentir-se obrigados a encurtar os textos, de acordo com um relatório divulgado ao corpo docente em outubro. Os estudantes chegam à universidade mais famosa dos Estados Unidos «com menos experiência na leitura de prosa complexa e menos capacidade de concentração e atenção sustentada». Eles «têm dificuldades com leituras que os estudantes concluíam com facilidade há apenas dez anos».

    Os professores têm-se queixado dos estudantes desde que existem as torres de marfim. Pode ser difícil corroborar as histórias com dados abrangentes. Após o ensino secundário, os alunos raramente realizam exames padronizados a nível nacional ou regional. Os investigadores dependem, assim, em grande medida de relatórios esporádicos do corpo docente, como os da Califórnia, que se sentem compelidos a dar o alarme.

    Mas os observadores que procuram compreender as tendências globais — e o lugar dos Estados Unidos no seu seio — não precisam de avançar completamente às cegas. Pelo menos algumas pistas podem ser extraídas de um teste realizado uma vez por década pelos analistas da OCDE, um clube composto principalmente por países ricos. O seu «Inquérito às Competências dos Adultos» visa avaliar em que medida os cidadãos de dezenas de países possuem as competências de literacia e numeracia necessárias para prosperar no mundo real.

    Na sua forma mais simples, os testes avaliam a capacidade das pessoas de compreender as instruções num frasco de comprimidos ou de calcular a quantidade de papel de parede necessária para redecorar uma divisão. Em níveis mais avançados, exploram a capacidade das pessoas de tirar conclusões válidas a partir de análises e gráficos complexos.

    Os participantes são divididos em cinco níveis de aptidão, em cada disciplina. O nível 1 deve ser alcançável por um aluno de um país rico no final do ensino básico, afirma Andreas Schleicher, da OCDE.

    Cerca de 160 000 pessoas de todas as idades foram testadas na última ronda (cujos resultados foram publicados no final de 2024). A revista «The Economist» solicitou à OCDE dados relativos apenas aos menores de 35 anos que frequentavam o ensino «superior» na altura em que realizaram os testes. Isso inclui estudantes de todas as universidades, bem como alunos da maioria dos tipos de institutos de ensino superior (mas apenas aqueles que frequentavam cursos que, em teoria, são mais avançados do que os oferecidos no ensino secundário).

    Muitos deles têm um desempenho muito bom — mas uma percentagem impressionante apresenta resultados desastrosos (ver gráfico 1). Nos países ricos, cerca de 8% dos estudantes do ensino superior obtêm uma pontuação em literacia que não é superior à que se poderia esperar de uma criança de dez anos. A percentagem é praticamente a mesma no que diz respeito à numeracia. Pior ainda, a percentagem de estudantes que se situam neste nível ou abaixo dele aumentou desde a última vez que os testes foram realizados, há pouco mais de uma década. A percentagem de alunos com desempenho muito fraco em literacia mais do que duplicou.

    As pontuações a nível de cada país variam consideravelmente. Na Estónia, menos de 2% dos estudantes do ensino superior obtêm resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo. Esse valor sobe para um quinto na Polónia (em literacia) e para um quarto no Chile (em matemática). Os britânicos podem sentir-se razoavelmente otimistas, apesar do crescente desdém público pela academia; os resultados dos seus estudantes estão acima da média e a melhorar. As pontuações dos Estados Unidos, em contrapartida, estão entre as mais dececionantes. Um em cada sete dos seus estudantes do ensino superior obteve resultados iguais ou inferiores ao nível do ensino básico nos testes de literacia, um aumento em relação a cerca de um em cada vinte há uma década. A percentagem de estudantes com resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo em numeracia, por sua vez, foi de quase um em cada cinco.

    Todas as crianças ficaram para trás.

    O que se passa? Em parte, as faculdades e universidades estão a herdar problemas que tiveram origem nas escolas de todo o mundo. Não se pode subestimar o impacto da pandemia. Os países impuseram o encerramento das escolas a nível nacional, com uma duração média de 20 semanas. Os sistemas de turnos para o ensino presencial e as quarentenas para os «contactos próximos» vieram, depois, perturbar ainda mais as aulas. Nos anos imediatamente a seguir a esse desastre, era como se alguns alunos «não tivessem frequentado o ensino secundário», afirma Jessica Hooten Wilson, professora da Universidade Pepperdine, na Califórnia. «Na verdade, foi algo muito assustador de se ver.»

    No entanto, em muitos locais, a educação já estava a regredir quando a mega-pandemia surgiu. As notas no NAEP, o teste nacional de referência dos Estados Unidos, atingiram um pico no início da década de 2010 e têm vindo a descer gradualmente desde então. As notas do PISA, um exame internacional realizado por jovens de 15 anos, seguem a mesma tendência numa série de outros países (ver gráfico 2). Entre os países com declínios invulgarmente acentuados e prolongados contam-se a França, a Alemanha, os Países Baixos e a Nova Zelândia.

    As causas destas tendências são alvo de aceso debate. O aumento da migração é um fator relevante: os recém-chegados tendem a ser mais pobres do que os alunos nascidos no país e têm mais probabilidades de falar uma língua estrangeira em casa. 

    Entretanto, os tradicionalistas acusam os reformadores escolares de diluir os sistemas de avaliação e de responsabilização. E de substituir programas de estudos comprovados pelo tempo por currículos da moda que minimizam a aprendizagem de factos concretos em favor de competências «soft» que soam bem, mas são insípidas.

    As alegações de que as redes sociais têm vindo a «reprogramar» o cérebro das crianças têm fortes semelhanças com os pânicos do passado, como os que surgiram em relação à televisão e aos jogos de computador. 

    Mas não há muitas dúvidas de que os ecrãs de todos os tipos substituíram passatempos mais enriquecedores: a percentagem de crianças de nove anos nos Estados Unidos que afirmam ler livros por prazer caiu de quase 60 % na década de 1990 para 37 % atualmente. De facto, não são apenas os alunos do ensino básico ou os estudantes universitários que estão a registar um declínio na literacia: os testes da OCDE também revelam esta tendência entre as populações mais velhas, observa o Sr. Schleicher, talvez porque as pessoas têm menos prática do que no passado na leitura de textos longos e complexos.

    No entanto, as faculdades e universidades que afirmam ser meros observadores passivos desta situação estão a avaliar o seu próprio desempenho. Em muitos países, gozam de amplo controlo sobre as suas próprias políticas de admissão. Frequentemente, não têm aproveitado essas liberdades para manter padrões elevados.

    Há décadas que os críticos acusam os responsáveis das faculdades e universidades de baixarem os critérios de admissão para tirar partido da crescente procura. Atualmente, a dinâmica é um pouco diferente: em alguns países ricos, o número de jovens de 18 anos está a aproximar-se ou já ultrapassou o seu pico. Os gestores podem ter ainda mais dificuldade em resistir à tentação de baixar os padrões quando a alternativa é reduzir o número de alunos. De facto, a comparação dos dados da OCDE sobre as competências dos estudantes com a evolução do número de alunos nos sistemas de ensino superior revela uma correlação que merece um estudo mais aprofundado: os sistemas em contração são especialmente propensos a ter atraído muitos estudantes que obtêm resultados nos níveis mais baixos desses testes.

    A queda no desempenho escolar tem sido impulsionada principalmente por crianças que já se situavam na metade inferior das suas turmas, e não pelos alunos mais brilhantes no topo. Assim, o afluxo de estudantes mal preparados para algumas das melhores universidades dos Estados Unidos exige uma explicação adicional. 

    Os académicos indignados na Califórnia, e em muitas outras partes do país, atribuem a culpa à eliminação dos testes de admissão. Antes da pandemia, mais de metade das universidades que conferem licenciaturas nos Estados Unidos exigiam que os candidatos realizassem testes de raciocínio numérico e verbal — geralmente o SAT ou o ACT (estes testes ajudam a substituir os exames padronizados que existem em muitos outros países). Agora, essa percentagem é de apenas 10%.

    No auge da pandemia da COVID-19, as universidades americanas argumentaram que seria impossível realizar estes exames em segurança. Mas também se basearam em alegações de que os exames são tendenciosos contra estudantes negros e latinos, que têm tido um desempenho inferior à média nessas provas. 

    Os cínicos afirmam que a sua eliminação facilitou aos administradores continuar a moldar a composição étnica dos seus campus da forma que consideram mais justa — apesar de uma decisão do Supremo Tribunal, em 2023, que proibiu a ação afirmativa baseada na raça. Para as instituições de nível inferior, a eliminação dos exames provavelmente simplificou a tarefa mais premente de garantir simplesmente que houvesse alunos suficientes a ocupar as vagas.

Tudo isto fez com que os responsáveis pelas admissões nos Estados Unidos dependessem mais de sinais alternativos que se estão a tornar cada vez menos fiáveis. 

    As redações de candidatura já eram frequentemente escritas por pais e professores, mas agora valem quase nada, dada a facilidade com que podem ser elaboradas usando IA, afirma Mina Aganagic, professora de matemática em Berkeley e uma das autoras da carta aberta. 

    Quanto às notas do ensino secundário, têm vindo a inflar-se rapidamente. Nos últimos anos, muitos estados americanos baixaram os limites que os alunos do ensino secundário têm de atingir para obterem os certificados de conclusão do curso. Cerca de um quarto de todos os alunos que os professores de San Diego têm encaminhado para a sua turma de reforço de matemática, a mais fraca, tinham obtido notas perfeitas em matemática nos seus últimos anos de escola.

    O processo de admissão está a tornar-se uma «caixa negra», afirma o professor Aganagic. «Penso que a maioria das pessoas concordará que selecionar estudantes ao acaso não beneficia ninguém.»

    Uma questão fundamental para as faculdades e universidades não é apenas como irão responder a um número crescente de candidatos mal preparados, mas se elas próprias estão preparadas para continuar a impor expectativas elevadas. 

    A carta aberta na Califórnia alerta que, com o aumento do número de estudantes menos preparados, surgiu «uma pressão crescente para diluir o rigor quantitativo». Na Grã-Bretanha, os grandes exames nacionais atenuam, em certa medida, a inflação de notas no ensino secundário, mas isso não acontece no ensino superior. Embora as notas tenham descido ligeiramente em relação ao pico atingido durante a pandemia, em 2025 cerca de 30% dos estudantes de licenciatura na Grã-Bretanha obtiveram um diploma de primeira classe, contra 7% em 1995.

    Em Yale, 79% das notas foram A ou A- em 2022-23, em comparação com 67% em 2010-11. A taxa mais baixa registou-se nos cursos de economia, com cerca de 50%; situou-se acima dos 80% nas ciências humanas, nos estudos étnicos e nos estudos da educação, entre outros (ver gráfico 3). 

    Em abril, académicos de renome de Yale afirmaram, num ensaio que explorava as razões do declínio da confiança no ensino superior, que «décadas de inflação e compressão tornaram o sistema de classificação universitária quase sem sentido enquanto medida académica».

    Um relatório publicado no ano passado pelo decano dos estudos de licenciatura de Harvard contém um resumo admiravelmente franco das pressões que estão na origem da inflação das notas, com base em conversas com o corpo docente. Os estudantes que nunca receberam uma nota medíocre durante o seu percurso escolar tornaram-se mais confiantes na hora de contestar notas que não sejam perfeitas na universidade. 

    Os docentes de Harvard receiam que os estudantes evitem disciplinas ministradas por professores que atribuem notas rigorosas e que isso possa prejudicar as suas próprias carreiras. Percebem que os gestores estão a dar mais atenção ao que os estudantes escrevem nos formulários de avaliação no final das disciplinas. Isso constitui um incentivo adicional para tentar manter os alunos satisfeitos.

    Há uma década que Harvard tem vindo a «exortar o corpo docente a lembrar-se de que alguns estudantes chegam menos preparados para a universidade do que outros, que alguns enfrentam situações familiares difíceis ou outros desafios… e que quase todos sofrem de stress», de acordo com o relatório. Os académicos que lhes atribuem notas baixas nem sempre tiveram a certeza de que a universidade lhes «daria apoio». 

    As mudanças nas tendências do ensino também desempenham um papel importante. Os projetos de grupo são mais difíceis de avaliar objetivamente do que os exames. Alguns docentes chegam mesmo a referir interesse em conceitos como a «ausência de classificação» ou a «aprendizagem baseada em contratos», em que os estudantes obtêm notas A por concluírem todos os trabalhos atribuídos.

CheatGPT

    A tudo isto junta-se agora a IA, que parece estar a facilitar a fraude generalizada. 

    Cerca de 94% dos estudantes universitários no Reino Unido afirmam utilizar a IA para os ajudar nos trabalhos avaliados, de acordo com um inquérito divulgado em março pelo HEPI, um grupo de reflexão. Cerca de 12% admitiram colar texto gerado por IA diretamente nos trabalhos académicos, um aumento em relação aos 3% registados em 2024. Quase metade dos estudantes das áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) — e um quarto dos estudantes de ciências humanas — consideraram que o conteúdo gerado por IA lhes permitiria «obter uma boa nota» na sua disciplina (ver gráfico 4).

    Nos Estados Unidos, durante o ano letivo de 2023-24, cerca de dois terços dos estudantes de universidades públicas utilizavam IA, e estima-se que 9% deles a utilizassem para fazer batota, de acordo com uma investigação publicada em maio. A taxa de batota foi mais elevada — o que é irritante — entre os estudantes de economia (17%) e de jornalismo (16%). Os números são certamente muito mais elevados agora, afirma Igor Chirikov, de Berkeley, um dos autores do estudo.

    Por enquanto, a fraude compensa. Num segundo estudo publicado como documento de trabalho no mês passado, o Dr. Chirikov analisou 500 000 notas atribuídas por uma grande universidade (não identificada) no Texas entre 2018 e 2025. Descobriu que o número de notas máximas atribuídas em disciplinas que envolvem competências em que a IA se destaca, como redação e programação, disparou desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022.

    A percentagem de notas «A» nestas disciplinas aumentou 13 pontos percentuais, ou seja, cerca de 30 % em relação ao valor de referência. O investigador não constata um aumento semelhante nas disciplinas em que os robôs falantes provavelmente não são muito úteis.

    Os académicos têm pouca confiança nas ferramentas que afirmam detetar trabalhos escritos por IA e muito a perder ao lançarem acusações de fraude. Afirma o Dr. Chirikov: «Não se pode proibir uma ferramenta que também se espera que se ensine.» Muitos docentes estão a reintroduzir avaliações supervisionadas (durante a pandemia, tornaram-se populares os exames com consulta, que os estudantes podiam levar para casa e concluir num período de 24 horas). Mas isso pode encontrar resistência por parte dos administradores, que têm de encontrar espaço e pessoal para exames devidamente supervisionados.

    Para alguns, a IA induziu uma sensação de resignação. É cada vez mais comum ouvir académicos encolherem os ombros, dizendo que talvez os estudantes já não precisem de competências básicas sólidas, porque grande parte do trabalho que farão no futuro envolverá ajustar coisas criadas pela IA. Isso não é pragmatismo; é rendição.


"Exames coloniais" ou uma mente retorcida a debitar aquilo que se sabe

Exames coloniais

    Ao analisar os enunciados dos exames de História A e de História da Cultura e das Artes, podemos extrair duas breves conclusões sobre escolhas ideológicas.

João Moreira da Silva

    Na semana passada, um teste realizado no Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) gerou uma polémica que percorreu os noticiários do país. O enunciado falava de um partido chamado “Cheguei Chegando”, liderado por “André Aventuras”, que pretendia “erradicar imigrantes”. Consequentemente, o líder do Chega partilhou nas suas redes sociais uma fotografia do teste como prova de que o sistema está contra si. Com base neste teste, pintou-se como vítima de uma alegada perseguição ideológica “feita nas escolas”.

(c) Retirado daqui: IP azul

Funcionamento do aparelho fonador

    O ar expelido dos pulmões, através dos brônquios, penetra na traqueia e chega à laringe, onde, ao atravessar a glote, costuma encontrar o primeiro obstáculo à sua passagem.

    A glote, que se situa na altura da chamada maçã-de-adão, pomo-de-adão ou, no Brasil, gogó, é a abertura entre duas pregas musculares das paredes superiores da laringe, conhecidas pelo nome de cordas vocais. O fluxo de ar pode encontrá-la fechada ou aberta, em virtude de estarem aproximados ou afastados os bordos das cordas vocais. No primeiro caso, o ar força a passagem através das cordas vocais retesadas, fazendo-as vibrar e produzir o som musical característico das articulações sonoras. No segundo caso, quando as cordas vocais estão relaxadas, o ar escapa-se sem vibrações da laringe. As articulações produzidas denominam-se, então, surdas.
    A distinção entre sonora e surda pode ser claramente percebida na pronúncia de duas consoantes que quanto ao mais se identificam. Assim:
                                                                /b/ [ = sonoro ]         /p/ [ = surdo ]
    Ao sair da laringe, a corrente expiratória entra na cavidade faringe, uma encruzilhada, que lhe oferece duas vias de acesso ao exterior: o canal bucal e o nasal. Suspenso no entrecruzar desses dois canais fica o véu palatino, órgão que possui mobilidade capaz de obstruir ou não o ingresso do ar na cavidade nasal e, consequentemente, de determinar a natureza oral ou nasal de um som.
    Quando levantado, o véu palatino cola-se à parede posterior da faringe, deixando livre apenas o conduto bucal. As articulações assim obtidas denominam-se orais (adjetivo derivado do latim os, oris, isto é, "a boca"). Quando abaixado, o véu palatino deixa ambas as passagens livres. A corrente expiratória então divide-se, e uma parte dela escoa-se pelas fossas nasais, onde adquire a ressonância característica das articulações, por este motivo, também chamadas nasais.
    Compare-se, por exemplo, a pronúncia das vogais:
                                        /a/ [ = oral ]             /ã/ [ = nasal ]
em palavras como:
                                        lá / lã mato / manto
    É, porém, na cavidade bucal que se produzem os movimentos fonadores mais variados, graças à maior ou menor separação dos maxilares, das bochechas e, sobretudo, à mobilidade da língua e dos lábios.

O aparelho fonador


    O aparelho fonador é constituído pelas seguintes partes:

a) os pulmões, os brônquios e a traqueia, órgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria-prima da fonação;

b) a laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala;

c) as cavidades supralaríngeas (a faringe, a boca e as fossas nasais), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos órgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinónimo de "idioma".

    Quase todos os sons da nossa fala são produzidos na expiração. A inspiração normalmente funciona como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução. Há outras línguas, como, por exemplo, o hotentote, o zulo, o boximane e outros idiomas africanos, que apresentam uma série de consoantes articuladas na inspiração, os ruídos que se denominam cliques. No caso da língua portuguesa, praticamos alguns cliques, mas sem valor fonémico: o beijo, que é uma bilabial inspiratória; o estalido línguo-dental com que animamos o andar das cavalgaduras; e uns poucos mais.

(c) Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo

Os sons da fala

    Os sons da fala resultam quase todos da ação de certos órgãos sobre a corrente de ar proveniente dos pulmões.
    Para a sua produção, de acordo com Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), são necessárias três condições:
            a) a corrente de ar;
            b) um obstáculo encontrado por essa corrente de ar;
            c) uma caixa de ressonância.
    Estas condições são criadas pelos órgãos da fala, denominados, no seu conjunto, aparelho fonador.

Fonologia

    A fonologia tem como objeto de estudo as mais pequenas unidades da língua, os segmentos fonológicos, a sua organização em sistema e os processos e regras a que estão sujeitos esses segmentos. Os elementos do sistema fonológico são frequentemente denominados "fonemas".

terça-feira, 30 de junho de 2026

Literatura popular: atualidade

     Nos últimos largos anos, a literatura popular tem vindo a empobrecer gradualmente, essencialmente por causa da generalização de modelos graças aos meios de comunicação e à Internet. Já em 1933 Leite de Vasconcelos proclamava: "Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem, vivendo hoje, houvesse nascido nos meados do século XIX lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona — e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer da tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares... estudemos tudo, busquemos ou continuemos a buscar paralelos ao que estiver, abalancemo-nos à compreensão genérica dos factos, e assim daremos provas, nós, Portugueses, de que desejamos acompanhar as nações cultas neste campo de atividade científica."

Literatura popular: continuadores de Almeida Garrett

    Neste capítulo, destacam-se os nomes de três grandes figuras da literatura portuguesa: Teófilo Braga, Adolfo Coelho e José Leite de Vasconcelos. Estes vultos foram os primeiros a dar rigoroso tratamento científico.

    Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, a 4 de fevereiro de 1843, na ilha de S. Miguel, nos Açores, e aí fez os primeiros estudos. Tirou o curso de Direito em Coimbra em 1868 e foi professor do Curso Superior de Letras, de Lisboa, de 1872 a 1924, data do seu passamento. Foi poeta e historiador, etnólogo e filósofo e simultaneamente político ativista, militante do Partido Republicano, tendo alcançado por duas vezes a suprema chefia do Estado (1910 e 1915).

    Na esteira de Almeida Garrett, dedicou-se ao estudo do povo e da sua literatura, tendo produzido uma vastíssima obra, que conta mais de trezentos títulos, dentre os quais avultam os volumes que dedicou à literatura popular. Em 1865, quando contava apenas vinte e quatro anos, fez publicar o Cancioneiro e o Romanceiro Geral Português, que viu uma nova e aumentada edição - de dois para três volumes - em 1906-1909, e ainda uma primeira edição da História da Poesia Popular Portuguesa, ampliada para dois volumes numa edição de 1902-1905. Além disso, publicou Contos Populares do Arquipélago Açoriano (1869), Parnaso Português Moderno (1877), Contos Tradicionais do Povo Português (1883), além de outras obras menores dispersas por jornais e revistas.

    A maioria dos textos que publicou chegou-lhe às mãos por meio de amigos ou de livros. Raramente se dedicou à recolha direta. Para evitar cometer os mesmos erros praticados por Almeida Garrett, reproduziu com fidelidade o que ouviu ou leu, tendo-nos deixado materiais abundantes e de boa qualidade. Deve-se-lhe o primeiro cancioneiro moderno e o romanceiro mais rico da História portuguesa.
    Por outro lado, Teófilo Braga continua a olhar para o povo como uma entidade mítica: um rebanho que vive pela tradição, emocionalmente, irrefletidamente, fazendo o que os outros fizeram, repetindo automaticamente comportamentos aprendidos, sob o império do sentimento, em estado de inconsciência. Além disso, apresenta-o como rude, inculto, ingénuo, uma classe baixa, inferior e ínfima.
    Sustentando-se em dados antropológicos inseguros, Teófilo Braga procura as origens da nossa poesia popular na raça proto-árica dos Lígures, anterior aos Celtas e mais civilizada do que estes. Além disso, não obstante a admiração que sustenta pela arte do povo, mantem a tradicional distinção entre poesia popular e poesia artística, quando, na realidade, sem a primeira não se chega à segunda. Face ao exposto, é fácil concluir que Teófilo Braga não se afasta das ideias aristocraticamente românticas de Garrett. No entanto, diferem na função que atribuem à poesia popular: Garrett queria renovar a literatura, ao passo que Teófilo sustenta que, cultivando-a, repetindo-a ao povo, se faria renascer o caráter nacional, e este, tomando consciência das suas virtualidades, ganharia novas forças e coragem para fazer a revolução.
    Francisco Adolfo Coelho nasceu em Coimbra a 1 de janeiro de 1847. Frequentou a Universidade e, ao fim de dois anos, abandonou-a desiludido, em busca por si da educação intelectual que não achara. Foi professor de Filologia e Pedagogia no Curso Superior de Letras, diretor da Escola Preparatória de Rodrigues Sampaio e da Escola Normal Superior de Lisboa e um dos promotores das Conferências do Casino, em 1871. Faleceu a 8 de fevereiro de 1919. Foi um cidadão de caráter íntegro, que sempre respeitou quem tinha um pensamento diverso do seu. Além disso, defendeu sistematicamente o que considera justo e verdadeiro, não olhando a pessoas nem a conveniências, granjeando, por isso, o respeito dos seus antagonistas.
    Aprendeu, ainda bastante jovem, a falar inglês e alemão, bem como francês, o que lhe proporcionou um contacto permanente com os progressos que as Ciências Humanas iam fazendo na Europa. Os seus mestres prediletos foram psicólogos e etnólogos alemães. Ao longo dos anos, adquiriu uma grande erudição e cultivou com mestria a Linguística, a Etnologia e a Pedagogia, as três áreas que sustentavam o seu ideal cívico: a educação do povo português. No que diz respeito à Etnologia e concretamente à literatura popular, a obra que realizou foi absolutamente notável. Colheu-a diretamente do povo, de livros e do contributo de amigos. Foi, no entanto, essencialmente um trabalhador de gabinete. Ao longo da sua vida, publicou contos, lendas, adágios, jogos, romances, ensalmos, rimas infantis, que acompanhou de estudos sobre a estrutura, a origem e a classificação.
    Os seus trabalhos e as suas pesquisas visavam sobretudo a ascensão das classes populares à educação e a democratização do ensino. De facto, esse ideal cívico constituiu uma constante do seu pensamento em todas as matérias a que se aplicou. À semelhança de Almeida Garrett, propôs que a literatura popular fosse fonte de inspiração e alfobre de formas e temas para os artistas contemporâneos, considerando que essa seria a única via por que produziriam uma verdadeira literatura, autenticamente nacional. Acima disso, a literatura popular constituiria o elemento fundamental na educação geral da nação.
    Para Adolfo Coelho, o povo é inculto e atrasado; vivendo dominado pelo sentimento e pelo instinto, o seu comportamento é predominantemente irrefletido; repetindo maquinalmente o que lhe vem da tradição e das suas "experiências brutas", não é capaz de organizar sistematicamente os seus conhecimentos. Se é verdade que não lhe faltava imaginação e capacidade de alcançar ideias gerais, não o é menos que a sua falta de cultura, sob o jugo de uma atividade permanentemente prática, o impede de subir às mais altas conceções teóricas. Assim, vive imerso em ideias comuns, num pensamento coletivo; a arte que cultiva não possui o cunho da individualidade, da originalidade e da complexidade. Esse era o privilégio das classes cultas. Pelo contrário, o vulgo, por causa da sua irreflexão, não escolhia as premissas certas para chegar a conclusões certas, ao passo que os estratos cultos cultivavam o logismo, a aptidão de eliminar o que não convém como base de conclusão segura.
    José Leite de Vasconcelos nasceu na Ucanha, concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Formou-se, no Porto, em Ciências Naturais e Medicina entre 1879 e 1886. Exerceu o ofício de médico durante um ano; depois exerceu a função de conservador da Biblioteca Nacional e, em 1911, tornou-se professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinou principalmente a disciplina de Filologia Românica. Aposentou-se em 1929, mas não abandonou o seu trabalho científico, o que só sucedeu quando a morte o surpreendeu a 17 de maio de 1941. Embora tivesse cursado Ciências, a sua paixão eram as Letras, que cultivou desde cedo. O seu grande sonho era escrever uma história do povo português, um tratado de Etnografia. Para conseguir atingir esse objetivo, tornou-se arqueólogo e filólogo, fundou o Arqueólogo Português, a Revista Lusitana, o Boletim de Etnografia, o Museu Etnológico. No total, escreveu mais de trezentas obras.
    Nascido numa aldeia da Beira Alta, de família liberal, conviveu quotidianamente com o povo, foi discípulo de românticos e entusiasmou-se com o movimento científico do século, daí que não seja surpreendente o facto de se ter dedicado a estudos de literatura popular. Começou a coligi-la entre os dezassete e os dezoito anos e aos vinte publicou os seus primeiros artigos na Aurora do Cávado, uma revista editada em Barcelos. Recolheu e publicou romances, cantigas, rimas infantis, orações, contos, lendas, anedotas, provérbios, adivinhas, que acompanhou de notas e comentários nos quais refletia grande sabedoria e reflexão. Entre muitos estudos, destacam-se aqueles que versam a poesia popular, canções de berço, normalmente representar "o modo de ser de um só".
    Por outro lado, Leite de Vasconcelos é dos primeiros a explicar a identidade de tradições em diferentes países, nomeadamente de adágios e fábulas, pela transmissão de povo a povo, enquanto o resto da Europa se mantinha fiel à teoria evolucionista da invenção independente.
    Leite de Vasconcelos foi o primeiro etnólogo a sustentar a grande importância do trabalho de campo, da recolha direta, e a executá-lo. Para tal, percorreu o país de lés a lés, de caderno na mão, tomando notas de tudo, recolhendo da boca do povo quanto ele sabia.

Literatura popular: Almeida Garrett e o Romanceiro

  1. Vida
    João Baptista da Silva Leitão nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799, filho de um proprietário açoriano, funcionário de alfândega, e de mãe de família burguesa, enriquecida no Brasil, de origem minhota. Os apelidos Almeida e Garrett adotou-os o próprio escritor, respetivamente, do nome da mãe e de um antepassado paterno. Apesar de se manifestar contra a nobreza liberal recente, acabou por possuir o título de visconde. Em 1811, exilou-se na ilha Terceira com a família por causa das invasões francesas. Aí, conviveu intimamente com o seu tio, D. Alexandre da Sagrada Família, bispo de Angra do Heroísmo. Foi aí também que completou a sua educação tradicional, católica no que diz respeito à religião e clássica no que se refere à literatura. Muitos julgaram que seguiria a carreira eclesiástica, como o tio arcebispo ou outros dois tios padres, no entanto optou por estudar matemática, em Coimbra, mas rapidamente trocou pelo curso de Direito.
    O jovem estudante manifestou desde cedo os seus ideais liberais e a oposição ao regime absolutista. Deste modo, escreve, conspira e fala em comícios a favor do liberalismo e contra o absolutismo. Após o triunfo do Vintismo, viu-se confrontado com a abolição da Constituição de 1822 e a necessidade de novo exílio, desta vez em Inglaterra, país para o qual parte em 9 de julho de 1823. A 22 de agosto, regressou a Portugal, graças a uma amnistia, porém foi preso de imediato e apenas solto com a condição de abandonar o país. Assim, passou a viver em Inglaterra, depois em França, tendo regressado a Portugal após a outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV (1826). Voltou a ser novamente preso por três meses por causa da sua intensa atividade política. A 3 de maio de 1827, a Carta foi revogada e Garrett mais uma vez sujeito ao exílio. Em janeiro de 1832, após quatro anos de absolutismo em Portugal, D. Pedro organizou, em França e Inglaterra, uma expedição militar que, passado algum tempo, restaurará a Constituição e o liberalismo no país. Almeida Garrett alistou-se como soldado, desembarcou na ilha Terceira, em março de 1832, e foi depois um dos bravos do Mindelo, em julho de 1832. A sua intensíssima atividade política e literária consumiu-lhe a vida, que acabou a 9 de dezembro de 1854.

2. O reformador
    O exílio permitiu-lhe contactar com o movimento romântico, que campeava em Inglaterra, na Alemanha e França. De facto, estimulado pela leitura e exemplos de Walter Scott, Burns, Burger, Percy, Shakespeare, Macpherson, M. Stael, etc., Garrett restaurou o romance nacional e renovou a poesia portuguesa. Assim, deseja que "Vamos a ver por nós, a tirar de nós, a copiar da nossa natureza e deixemos em paz Gregos, Romanos e toda a outra gente", e defende o regresso ao que ele tem por "nossas primitivas e genuínas fontes poéticas", que são os textos medievais e a literatura popular. A legítima poesia nacional, mesmo que com alguma corrupção, era aquela que ecoava na voz do povo. Ao longo dos séculos, tinha sido transmitida de geração em geração, e urgia agora recolher, restaurar, popularizar e estudar. Deste modo, Garrett deu andamento ao projeto de publicar um cancioneiro e um romanceiro, todavia apenas o segundo viu a luz do dia.

3. A coleção
    Na amargura do exílio, Garrett evocou, com saudade, as "xácaras e romances populares de maravilhas e encantamentos, de lindas princesas, de galantes e esforçados cavaleiros" que em pequeno, lhe cantavam a velha criada Brígida e a boa ama Rosa de Lima e em nada as achava inferiores às novelas poéticas de Walter Scott e às baladas de Burger e Burns. Entre 1823 e 1826, escreveu a uma "menina" de sua "amizade" que lhe mandasse xácaras, daquelas que se ouviam nos arredores de Lisboa, e dela recebeu os primeiros quinze espécimenes. Pouco depois contava vinte, a que se juntou meia centena, escritos pelo punho do Cavaleiro de Oliveira nas margens das folhas dos tomos de um exemplar da Biblioteca de Barbosa e em folhas brancas que nele tinha inserido a propósito de "anotações, comentários, emendas, adições" a artigos da referida Biblioteca. Quando regressou a Portugal, em 1832, enriqueceu o pecúlio com outros que recolheu da boca de criadas velhas da sua mãe e de uma mulata brasileira da casa de sua irmã. Teve igualmente acesso a uma pequena coleção reunida pelo cônsul francês no Porto, o Sr. Pichon (1832-1833). A partir daí o espólio continuou a crescer com ofertas provenientes de diversos locais, entre as quais avulta a do seu condiscípulo Emídio da Costa e, em 1838, o grande romanceiro de Durán, bem como o que Ochoa publicou em Paris.
    Por outro lado, Almeida Garrett não se interessou muito pela recolha da tradição oral, todavia sempre o manifestou relativamente à recolha de romances, uma ocupação dileta das suas "horas de lazer", como ele próprio confessou.

3. Tratamento dado à matéria romanesca
    Nenhum dos textos do Romanceiro é uma reposição fiel da versão popular. De facto, alguns nem corriam como romances, antes eram contos ou lendas que Garrett modificou livremente. Outros têm por base a versão tradicional, muito estropiada, que o autor reconstruiu, como foi o caso do romance, refeito sobre D. Silvana, no qual conservou o fundo da história e do desfecho, a que acrescentou diversos acidentes e profusão de enfeites, que formalmente o desfiguraram; e Bernal-Francês, menos alterado. Ambos foram publicados pela primeira vez em Londres, em 1828.
    Estes dois tipos de romance constituem a matéria do 1.º volume, a que Almeida Garrett deu o nome de Romances da Renascença, como se renascessem de um fundo tradicional quase extinto. Nos dois volumes seguintes, o autor procurou apresentar o texto original, através do confronto das diversas variantes. Assim, na busca do arquétipo, corrigiu, substituiu palavras e expressões, versos por versos de outras lições, completou, eliminou. Estamos na presença de um tratamento livre, optando Garrett por tomar por modelo as estimadas coleções de Ellis e do bispo de Percy e d'As Fronteiras de Escócia por Sir Walter Scott e as publicações de Lockhart. Além disso, o autor teve o cuidado de citar em fim de página, referindo a origem e as variantes que não utiliza.
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