Português

domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A notícia sobre exames que comeu a vírgula à oração temporal

Trovoada desafia o calendário: chega depois de domingo... na madrugada de sábado

Tempo virado

Uma tempestade de erros

Jornal Expresso

     Este texto, chamemos-lhe assim por simpatia, está mais grávido de erros do que a gata da minha vizinha.

    Enumerá-los até se torna fastidioso:

  • Erro de concordância verbal: utilização de "era" em vez de "eram" na frase "não era alinhados", falhando a concordância com o sujeito no plural ("escritores e artistas").
  • Erro ortográfico: a palavra "neorealista" está incorretamente escrita. A grafia correta, com a duplicação da consoante após o prefixo, é "neorrealista".
  • Falta de vírgula antes de conjunção adversativa: no excerto "...não era alinhados com o regime ditatorial mas, também, não se reviam...", falta uma vírgula antes do "mas". O correto seria "...regime ditatorial**,** mas...".
  • Falta de pontuação no final: O último período termina de forma abrupta com "...em Portugal em 2024", faltando o ponto final (.) obrigatório para encerrar a frase.

Sporting perde Taça para o Torreense e «A Bola» perde a noção

Perde Taça de Portugal

     O jornalista sportinguista que escreveu esta notícia ficou tão afetado pela derrota leonina no final da Taça de Portugal que se fartou de agredir a escrita: desconhece-se o motivo por que travou a conjunção adversativa «mas» com uma vírgula e a visão e as falanges perturbadas levaram-no a trocar «deve» por «vede». Nós vimos... e foi giro. Carrega, Torreense!

O jornal Expresso não reflete

Expresso

     Por norma, os pronomes átonos surgem após a forma / o complexo verbal: «Comprei uma mesa.» ⇢ «Comprei-a.» No entanto, há exceções, muitas exceções. No caso deste texto jornalístico, o pronome reflexo «se», porque integrado numa oração subordinada adjetiva, antecede a forma verbal.

    Assim sendo, deveria aparecer «que se divorciou». 

O jornal Público não sabe pontuar

Jornal Público

    A oração rodeada a vermelho é subordinada adverbial temporal e surge encaixada noutra oração. Quando tal sucede, tem de ser isolada por vírgula. O jornalista não sabe isso.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Informando sobre o verbo "informar"


      Vamos ignorar outras bacoradas presentes no texto.
     O verbo "informar" é transitivo direto, isto é, exige um complemento direto, não indireto ou lá o que é aquilo.
     Assim sendo, o saxofonista informou "o público", não "ao público".
     Outra coisa é "dar uma informação ao público"...
     Enfim, é o que temos.

Uma "plaforma"

      Como é sabido, a classificação dos exames digitalizados tem sido um fartote de erros.

     Pois bem, ontem ficámos a saber pela SIC que afinal o problema reside na "Plaforma de correção".

Exames 2026

     E eu a pensar que era a plataforma de classificação...

domingo, 5 de julho de 2026

Resumo de Os Insolentes,de Marguerite Duras

Marguerite Duras

    O excerto retrata o ambiente denso e sombrio no apartamento da família Grant-Taneran, situado no sétimo andar de um edifício com vista para um vale industrial, no dia em que a família é abalada por uma tragédia. A narrativa acompanha Maud, que observa o distanciamento emocional e a apatia dos seus familiares na sequência da morte repentina da sua cunhada, Muriel, num acidente de automóvel.

    Na sala de jantar, cujo espaço é dominado por um velho e banal aparador que sublinha a falta de gosto e a inércia da família, encontram-se amontoados os pertences de Jacques, o meio-irmão mais velho de Maud. Jacques, de quarenta anos, está fechado no quarto a chorar compulsivamente a perda da mulher, com quem havia casado há cerca de um ano. No entanto, a família deixa-o inteiramente entregue ao seu sofrimento, partilhando uma desconfiança desdenhosa por expressões de dor que serve de pretexto para o ignorarem e não o confortarem. Neste cenário de profundo silêncio e tensão, quebrado apenas pelos soluços que ecoam pelo corredor, a mãe — que sempre desaprovou o casamento do filho com Muriel — refugia-se na cozinha, num choro silencioso que se prolonga desde o meio da tarde. Entretanto, chega a casa o Sr. Taneran, o padrasto de Maud, um antigo professor de ciências com um ar abatido e solitário. Obrigado a regressar ao trabalho no Ministério da Educação aos sessenta anos para sustentar as avultadas despesas que o casamento lhe trouxe, ele usa a sua rotina profissional como uma forma de escapar à opressão familiar e ao terror constante que o enteado lhe inspira. Ao perceber imediatamente o ambiente anómalo na casa, e após um jantar rápido e taciturno servido por Maud, o Sr. Taneran pergunta e confirma o falecimento da nora em voz baixa. Após confessar de forma contida que, no fundo, não lhe queria mal nenhum, retira-se para o seu quarto, onde a sua inquietação se manifesta nos passos constantes que dá de um lado para o outro sobre o chão de madeira, que estala e chia suavemente debaixo dos seus pés durante muito tempo.

    O texto aprofunda o passado recente de Jacques, revelando a espiral de ruína financeira em que o seu casamento com Muriel mergulhara antes da tragédia. Habituado a esbanjar o dinheiro da mulher de forma inconsequente e a viver numa ociosidade fútil, o homem esgotara rapidamente a fortuna da esposa em esquemas duvidosos e dívidas. Desesperado, passara a mendigar dinheiro à família, encenando dramas para arrancar quantias pontuais à mãe, a Sra. Taneran, que controlava a ajuda financeira com uma mistura de amor e ódio para evitar ser totalmente explorada. O desespero de Jacques agravara-se com a chegada constante de cartas de cobrança de um banco, uma vergonha que ele se esforçava por esconder de Muriel, mantendo-a rigorosamente afastada da sua família. Por isso, a morte súbita da mulher, embora brutal, acaba por ser intimamente encarada pela mãe e pela família como a resolução de um suplício e de um problema financeiro insustentável.
    Por volta das dez da noite, o luto de Jacques atinge um momento de confissão quando chama a sua meia-irmã, Maud, ao quarto. Profundamente abatido e agarrado a uma madeixa de cabelo da mulher, ele relata os contornos bizarros e angustiantes daquela noite: os amigos tinham deixado Muriel em casa desmaiada, e ele passara a madrugada inteira a falar com ela enquanto o seu corpo arrefecia, apercebendo-se apenas com a luz da manhã de que o seu esgar era, na verdade, um sorriso estático. Só então a levou para o hospital, onde viria a falecer nessa mesma noite, deixando Jacques na dúvida sobre se teria sido um acidente.

    No entanto, a aparente vulnerabilidade e a partilha do luto genuíno são abruptamente estilhaçadas. Jacques, rebaixando-se e aproveitando-se do próprio infortúnio, pede dinheiro à irmã, alegando ter contraído dívidas para que Muriel fosse bem tratada. A jovem sente-se humilhada por aquela falsa intimidade e percebe de imediato a manipulação, reconhecendo a mistura perturbadora de dor real e cobiça nos olhos do irmão. Recuperando a frieza, avalia a situação com distanciamento e conta o pouco dinheiro que tem na carteira. Gélida e incomodada com a atitude do irmão, recusa-se a entregar-lhe as notas na mão, optando por pousá-las diretamente sobre o peito de Jacques antes de sair.
    No dia seguinte, Jacques enterra a mulher, acompanhado pela mãe, a Sra. Taneran. No regresso da triste cerimónia, ao caminharem por uma avenida soalheira que anuncia a chegada do verão, ambos partilham um momento de apaziguamento e de reconciliação tácita. Num misto de conforto e convalescença, ele deixa-se guiar, contentando-se em manter uma aparência enlutada apenas por um sentido de pudor. Aproveitando esta rara submissão do filho, a Sra. Taneran sugere-lhe uma viagem a Uderan, uma propriedade rural na Dordonha onde a família vivera no passado, longe de Paris e do Sr. Taneran. Embora a quinta se tenha revelado um enorme fracasso agrícola e a própria mãe tenha acabado por perder o interesse na lida do campo com a inconstância que a caracteriza, a propriedade permanece como um refúgio nostálgico e uma rede de segurança na memória familiar, para onde a matriarca deseja escapar sempre que o futuro lhe parece sombrio.
    Apesar desta invulgar proximidade com o filho mais velho, com quem habitualmente apenas partilha refeições marcadas pela tensão e por uma mútua detestação, a mãe não consegue sentir-se plenamente aliviada. A sombra da jovem recém-enterrada — e a suspeita perturbadora de que Muriel possa ter cometido suicídio — assombra-a, misturando-se com um profundo sentimento de culpa e de deceção face à maternidade. Ao contemplar Jacques, prestes a fazer quarenta anos e mergulhado no declínio resultante de sucessivos desvarios, a Sra. Taneran reflete sobre os seus próprios erros. Reconhece a forma como sempre lhe tolerou as fantasias, alimentando as suas ilusões de riqueza para evitar as suas habituais ameaças de abandono, e lamenta não o ter avisado do jogo perigoso em que se envolvera com o casamento.
    Perdida nestas reflexões, a matriarca pensa também na filha Maud, especulando se ela teria cedido aos pedidos de dinheiro do irmão, e constata que, sem a sua presença, a família se desmoronaria definitivamente. Sente-se a amargurada guardiã de um grupo disfuncional, composto por uma filha que considera ingrata, um filho perverso e um rapaz velho e arruinado. No íntimo, sonha em ser apenas uma velhinha tranquila com a sua missão terminada, livre daquela cidadela de indiferença. O peso desta tutela sufocante leva-a a questionar a razão de prolongar uma maternidade doentia e a dependência dos filhos, apercebendo-se com terror de que estes a consomem física e materialmente. Subitamente esmagada por um cansaço brutal e pela constatação da sua própria servidão, perde a força de aproveitar a manhã de sol. Interrompe abruptamente o passeio para chamar um táxi e, perante o olhar surpreendido e reprovador de Jacques, resigna-se e regressa docilmente à sua velha personagem.
    A dinâmica da família Grant-Taneran é marcada por um misto de repulsa e uma estranha atração magnética que os impede de se separarem definitivamente. Apesar de Maud fantasiar frequentemente com a ideia de fugir e nunca mais voltar a casa, acaba sempre por regressar, enredada naquele círculo estreito onde até as inimizades dão ocasionalmente lugar a tréguas que lhes permitem recuperar o fôlego. Após o jantar, a família costuma dispersar e o Sr. Taneran refugia-se no seu quarto, desfrutando de uma aparente solidão que, na verdade, depende do ruído e da presença constante dos enteados. Ele mantém a esperança teimosa de que a mulher, a quem ainda ama, volte a partilhar a intimidade consigo, usando frequentemente a futura estadia na propriedade rural de Uderan como pretexto para conversar com ela à noite. Por sua vez, a Sra. Taneran, desiludida com a propriedade e oprimida por medos supersticiosos em relação ao futuro, alimenta a ilusão de utilidade do filho mais velho, Jacques. Diz-lhe que ele será o responsável por Maud e pelo irmão mais novo, Henri, caso ela morra, garantindo assim que ele permanece dependente e sob a sua alçada.
    A convivência diária é pautada por humilhações e tensões constantes. Jacques trata o padrasto com um profundo e negligente desdém, embora Taneran sinta um prazer secreto e inconfessável nas raras ocasiões em que o enteado se vê forçado a rebaixar-se e a bater à sua porta para lhe pedir dinheiro. Quando tenta alertar a mulher para os maus caminhos de Henri e a indiferença de Maud, que se ri com escárnio das conversas dos adultos, a Sra. Taneran reage com irritação, defendendo cegamente a sua liberdade para educar os filhos como entende, recusando admitir o fracasso que já se evidenciara com Jacques. O ambiente denso é frequentemente assombrado por memórias de Uderan, reavivadas quando a mulher serve chá de tília ao marido para o consolar. Nessas recordações, a quinta surge como um lugar de isolamento e paranoia para Taneran, que, sentindo-se excluído pela cumplicidade entre a mãe e os filhos, costumava inquirir a pequena Maud, num tom cobarde e conspiratório, sobre o que os outros estariam a tramar na cozinha. Para a rapariga, a figura do padrasto fica intimamente associada a esse odor a tília, ao sorver ruidoso da bebida e à sua natureza amargurada.
    Qualquer frágil harmonia familiar é facilmente destruída, como acontece quando Jacques regressa a casa mais cedo do que o habitual, interrompendo as raras conversas noturnas entre a mãe, o padrasto e a irmã. Com a sua habitual arrogância, atira um jornal aos pés de Taneran e retira-se para o seu quarto, assobiando, indiferente à presença do velho. Em retaliação, este aproveita para culpar a mulher pela infelicidade que ela própria construiu com a sua postura, antes de se retirar para o seu quarto. Nestes momentos de tensão, Maud foge também para o seu quarto em silêncio. Despe-se às escuras para não ser notada, aceitando a sua existência esquecida e insignificante. Na escuridão, é tomada por uma raiva cega e solitária, agarrando-se à cama como um náufrago aos destroços, num desespero avassalador que, no entanto, acaba por se desvanecer rapidamente, tal como os seus antigos e irracionais medos infantis em Uderan desapareciam mal despontava o dia.
    A narrativa acompanha agora a chegada da família Taneran à sua propriedade rural de Uderan, situada na região agreste e desabitada do Alto Quercy. Tendo abandonado a casa principal há dez anos — agora reduzida a uma ruína inabitável onde a água entra e a erva cresce, tendo os móveis sido levados para Paris —, a família vê-se obrigada a instalar-se na casa dos vizinhos mais próximos, a família Pecresse. Estes são camponeses enriquecidos e ambiciosos que, ao longo do tempo, foram adquirindo parcelas da antiga herdade dos Taneran para construírem a sua própria fortuna. Entre os anfitriões destaca-se o filho, Jean Pecresse, um homem de trinta e três anos que leva uma existência solitária, avarenta e monótona. Após a morte da avó paterna, ficou subjugado ao afeto opressivo e agressivo da mãe e à figura cobarde e pacata do pai. Tímido e tratado frequentemente com desdém ou como um tolo pelos Taneran, Jean esconde, no entanto, um despertar emocional recente, provocado pelo encontro mágico com uma rapariga desconhecida e misteriosa junto ao rio, que o fizera sentir-se renascer.
    O contraste entre as duas famílias é evidente logo após a chegada. Os Taneran exibem o seu habitual ar de cansaço, tédio e superioridade silenciosa, não fazendo qualquer esforço para conversar, enquanto os Pecresse se mostram nervosos, emocionados e intimidados com o papel de anfitriões. À medida que a noite cai, Maud refugia-se no alpendre para contemplar a paisagem. Embora guarde poucas memórias do local, deixa-se envolver pela harmonia e pela paz intemporal que a natureza e os campos emanam. Jean aproxima-se dela em silêncio, sentindo-se oprimido, inadequado e constrangido no seu fato de caça. A rapariga, apercebendo-se da presença dele, sente-se irritada com a sua falta de naturalidade e com o esforço doloroso que ele faz para parecer algo que não é.
    Entretanto, Jacques é consumido por uma apatia e um aborrecimento brutais. A perspetiva de passar as férias no campo, privado das suas ilusões citadinas e rodeado por um silêncio que o aterroriza, aliena-o por completo, fazendo-o parecer inerte e quase ausente da própria vida. Mergulhado na letargia, reflete de forma cínica sobre a falecida mulher, Muriel. Admite que o relacionamento fora estragado pela constante necessidade de lhe esconder as dívidas e o dinheiro que esbanjava. A morte de Muriel não lhe traz um sofrimento amoroso autêntico, mas sim uma enorme deceção e um sentimento de abandono egoísta, uma vez que a tragédia lhe retirou a sua única fonte de sustento. Privado do propósito que encontrava em enganar a mulher, Jacques depara-se agora com um vazio absoluto, restando-lhe apenas a realidade implacável das dívidas e das letras do banco por pagar.
    A narrativa prossegue focada agora nas maquinações da Sra. Pecresse, uma mulher respeitada, mas secretamente consumida pela ambição de casar o filho, Jean, com Maud Grant. Para a camponesa, esta união representa muito mais do que um mero matrimónio; é a oportunidade ideal para adquirir definitivamente a propriedade de Uderan, um feito que conferiria uma certa nobreza à sua família. Embora Maud não seja considerada uma beleza clássica, a Sra. Pecresse fascina-se com a sua postura vagarosa e descomprometida, interpretando a sua ociosidade como um sinal de superioridade e uma marca de distinção em relação às raparigas da aldeia. À medida que o falatório entre os habitantes aumenta, assumindo que a ociosa Maud procura um marido para cultivar as terras, a Sra. Taneran pressente as intenções da anfitriã. Inesperadamente, a matriarca desenvolve um instinto protetor e veemente em relação à filha, confessando a Jacques que preferiria vê-la solteirona a casada com um Pecresse, consciencializando-se de que precisará de reunir energia para a salvar desse destino.
    Para consolidar os seus planos e estatuto, a família Pecresse organiza um grande jantar na velha propriedade de Uderan, convidando os notáveis e os camponeses da região. A casa abandonada é reaberta e perde um pouco do seu cheiro a mofo para a ocasião. De forma surpreendente, Maud decide que passará a noite lá, um pedido extravagante a que a sua mãe acede com uma indulgência invulgar. Fica decidido que Jean a acompanhe até à casa com uma lanterna. Durante o trajeto, num misto de tensão e nervosismo, o homem tenta perceber se a mãe já havia falado com a rapariga sobre os seus planos. Contudo, Maud, que ignora por completo a conspiração amorosa em seu redor, despede-o de forma abrupta e distante, afirmando conhecer o caminho. Esta rejeição provoca uma profunda frustração na Sra. Pecresse, que a tudo assistia de longe, fechando a janela do seu quarto com violência. Sozinha na noite, a jovem deixa-se encantar pelo silêncio compacto e misterioso do parque de Uderan. A sua quietude é subitamente quebrada pelo som invulgar de um cavalo que se aproxima. Um cavaleiro desconhecido passa muito perto dela na escuridão do caminho, um acontecimento perturbador e inexplicável, dado que os camponeses locais não costumam montar a cavalo. Após o som se afundar na noite, Maud entra em casa, deixando a porta aberta ao luar, e adormece num estado de sonolência inquieta.
    O jantar em Uderan decorre num ambiente inicialmente cerimonioso e tenso, marcado pelo fosso social entre os notáveis e os camponeses e por um silêncio constrangedor. No entanto, à medida que o velho vinho branco de Uderan, guardado pelo caseiro durante dez anos, começa a ser servido, as inibições desvanecem-se e a sala enche-se com uma algazarra ensurdecedora no dialeto local. Durante a refeição, Maud permanece totalmente alheada da festa, ignorando os esforços afetados da Sra. Pecresse para sublinhar as supostas atenções que Jean lhe dedica. O burburinho é interrompido quando os convidados decidem tentar integrar a rapariga na conversa, recordando em voz alta um episódio da sua infância.
    Sentindo-se o alvo de todos os olhares, e apercebendo-se do aborrecimento da mãe e do encolher de ombros desdenhoso dos irmãos, Maud reage de forma surpreendentemente agressiva. Em vez de alinhar na nostalgia inofensiva e apaziguadora, relata com frieza os detalhes do acidente de que falavam, lembrando de forma sangrenta uma vaca ferida, e aproveita para expor cruelmente a embriaguez de um dos camponeses presentes, Alexis, rebaixando-o perante todos. O seu tom cortante e implacável embaraça profundamente a assembleia, que por instinto toma o partido do homem humilhado, achando a atitude da jovem desconcertante. Percebendo de imediato o isolamento e o desconforto que gerou, Maud muda drasticamente de postura. Adota uma máscara de simpatia fútil e condescendente, distribuindo sorrisos e falsas aprovações para animar a mesa e reconquistar a benevolência dos convidados. Pouco depois, a alegria artificial dissipa-se e a festa, consumida pelo cansaço natural e pelo frio que se instala à medida que a lareira se apaga, chega silenciosamente ao seu fim, com os convidados a regressarem a casa na escuridão.
    No rescaldo do jantar em Uderan, onde Georges Durieux domina as atenções ao desencorajar os camponeses locais de adquirirem aquelas terras empobrecidas, torna-se evidente que Jean Pecresse perdeu qualquer esperança de conquistar Maud. Ao aperceber-se da atenção apaixonada com que a rapariga ouve Georges, Jean sente o seu desejo extinguir-se, abandonando a mesa amargurado e derrotado pelas maquinações vulgares da sua própria mãe. Nas semanas seguintes, Georges Durieux passa a visitar a propriedade quase diariamente. Fiel à sua dinâmica disfuncional, a família Grant-Taneran absorve o recém-chegado, e Durieux dá por si no centro das suas eternas discórdias, tentando inicialmente atuar como mediador até se deixar consumir pelo cansaço desse papel. Jacques, agora visivelmente apaziguado pelo aparente fim dos seus tormentos financeiros com o banco e exibindo uma amabilidade invulgar, aproxima-se rapidamente de Georges. Passa a acompanhá-lo em conversas e passeios, enquanto Maud mergulha numa espera passiva e dolorosa. Todos os dias a rapariga se senta sob um pinheiro, impondo a si mesma uma indiferença fingida, enquanto Georges a evita de forma deliberada e hesitante, dedicando a sua atenção a Jacques e à Sra. Taneran.
    Com a ausência cada vez mais frequente de Jacques e Georges, que passam a encontrar-se noutras paragens para escapar ao ambiente da propriedade, o tédio abate-se sobre Uderan. Em meados de junho, uma chuva persistente inunda a região durante uma semana, mas isso não detém Maud. Movida por uma obsessão tortuosa, ela passa os dias a vaguear pelos caminhos enlameados na esperança de vislumbrar Georges. Sofre em silêncio por ver o irmão monopolizar com facilidade o homem que ama, reconhecendo que Jacques exerce nos outros um fascínio quase marginal. Numa tarde, quando finalmente avista Georges à chuva, com um ar cansado e absorto, a cobardia paralisa-a e ela foge pelos campos sem se revelar, exasperada com a sua própria atitude.
    O isolamento e a melancolia culminam num final de tarde marcado por um denso nevoeiro. Ao descer em direção ao rio Dior à procura do irmão Henri, as memórias de infância de Maud são abruptamente interrompidas por uma visão aterradora nos juncos: o cadáver de uma mulher desconhecida. Após um primeiro grito abafado pelo medo, ela observa, perturbada, o corpo de tranças negras ser lentamente arrastado pela corrente, decidindo não alertar ninguém. Num estado de choque mudo, regressa apressadamente para junto da mãe. A Sra. Taneran, completamente alheia ao horror que a filha acabara de presenciar, queixa-se irritada de que a mãe de Jean Pecresse a viera visitar para propor formalmente o casamento entre os dois. Assoberbada pelo peso da imagem fúnebre do rio e pelas palavras vulgares da mãe, Maud não consegue conter o profundo desgosto e é consumida por uma insuportável vertigem. No final do jantar, Alexis, um criado que regressa do rio embriagado e com uma lanterna na mão, traz uma notícia trágica que se espalha de imediato: a jovem rapariga associada a Jean Pecresse, que trabalhava como criada na propriedade do Barque, cometeu suicídio. Ao ouvir a revelação, que lhe confirma a identidade do cadáver de tranças negras que encontrara na água, Maud permanece estática e impassível. Após a partida do criado, Dedde vira-se para a jovem com a intenção de a ilibar do peso daquela morte, revelando o que os rumores locais já dizem em voz alta: toda a gente acredita que foi a possibilidade de um compromisso com Maud que levou Jean a afastar-se da jovem. Tentando reconfortá-la, Dedde argumenta que o rapaz procurava apenas um pretexto para abandonar a pobre rapariga e nota, de forma cínica, que a ambiciosa Sra. Pecresse deve estar a suspirar de alívio com aquele desfecho trágico e conveniente para os seus planos. Mais tarde, nessa mesma noite, indiferente a todo o falatório em seu redor, Maud mantém o seu plano inicial e decide não regressar a Uderan, dirigindo-se em vez disso para o Barque.
    Na Estalagem Barque, um velho moinho transformado num espaço de diversão noturna, a entradada jovem surpreende os presentes, nomeadamente os seus irmãos, Henri e Jacques, e ainda Georges Durieux. O ambiente no local é dominado por uma tensão estranha e silenciosa. Jacques, exibindo a sua habitual atitude cínica e arrogante, manda a irmã ir embora, informando-a de que já pagou a despesa dela, antes de subir para o apartamento do proprietário. A rapariga, no entanto, recusa-se a obedecer e acaba por se aproximar de Georges, que fica perplexo com a sua audácia ao confessar que se deslocou à estalagem apenas para o ver. A atração e a intimidade entre os dois tornam-se evidentes, e os seus bloqueios começam a ceder. Contudo, Georges tenta afastar-se, mencionando o rumor de que Maud estará noiva do camponês Jean Pecresse, um casamento que Jacques andaria a promover secretamente por motivos financeiros.
    O clima festivo da estalagem é repentinamente quebrado quando Jean Pecresse entra na sala com um ar completamente devastado e aterrorizado. A música pára e o pânico instala-se entre as pessoas. Jean acusa Jacques de ser o causador da sua desgraça e este desce as escadas, pálido e embriagado, e adota uma postura hipócrita e manipuladora, tentando consolar e apaziguar oseu acusador, ao mesmo tempo que o subjuga. Descobre-se então o motivo da tragédia: a jovem criada da estalagem, com quem Jean estivera envolvido, cometeu suicídio e o seu corpo foi encontrado preso nos juncos do rio Dior.
    No regresso a casa, pela estrada escura, Georges junta-se a Maud. Ele perdeu a sua habitual indiferença e expressa uma raiva profunda contra Jacques, acusando-o abertamente de ter arruinado a vida da pobre rapariga e de se preparar para explorar, mais uma vez, a confiança e a vulnerabilidade de Jean Pecresse. Já na propriedade de Uderan, sozinhos e exaustos na sala de jantar, decide confessar-lhe um segredo pesado: na noite anterior, após a tempestade, ela própria vira a rapariga perto do prado, no exato local onde esta acabou por se afogar, mas escolhera não dizer nada. Nesse momento, ouvem os passos de Jacques a regressar. Georges, de imediato, tapa a boca de Maud com a mão para impedir que ela fale. Do corredor, Jacques faz deslizar um pequeno bilhete por debaixo da porta. Na mensagem, aconselha a irmã a não revelar a ninguém o que viu e ouviu naquela noite, sublinhando que a mãe deles nunca poderá saber de nada. O episódio termina com Georges a constatar que Jacques, à sua maneira demente, age assim para proteger a figura materna, enquanto Maud reage com revolta perante a capacidade do irmão para destruir a vida de todos ao seu redor.
    O capítulo seguinte acompanha a tradicional e penosa caminhada dominical da família Grant — composta por Maud, os irmãos Henri e Jacques, e a mãe, a Sr.ª Taneran — até à aldeia do Pardal para assistirem à missa e visitarem o Sr. Briol, um velho professor reformado. Durante o trajeto pelas terras e vinhas, as tensões familiares tornam-se evidentes. A mãe, cansada e queixosa da caminhada, é tratada com dureza e impaciência por Jacques. Maud observa criticamente a dinâmica entre os dois, notando a submissão cega da mãe perante a tirania e a natureza que ela agora considera desprezível do irmão, que, por sua vez, parece cada vez mais inquieto e com vontade de abandonar a propriedade de Uderan, usando uma carta do banco como pretexto, embora a sua perda de influência desde o recente suicídio da criada seja notória.
    Pelo caminho, a família cruza-se com algumas figuras locais, nomeadamente Pellegrain, prima dos Pecresse, que exibe uma indumentária inapropriada para o domingo, e discutem a situação de um trabalhador surdo-mudo que é marginalizado e explorado. Já na igreja do Pardal, os Grant mantêm uma fachada calculada, sentando-se nas primeiras filas para reafirmar a sua posição social, enquanto a mãe reza de forma distraída. É durante a missa que os pensamentos de Maud se voltam intensamente para Georges Durieux. Ela reflete sobre o envolvimento amoroso entre os dois e ganha uma nova clareza emocional: percebe que o seu amor por ele a liberta da teia tóxica e do mistério que envolvia o comportamento do irmão. Esta epifania enche-a de um entusiasmo silencioso, levando-a a sentir pena da mãe e a segurar-lhe a mão num raro momento de compaixão.
    Após a missa, a obrigatória visita à casa do Sr. Briol revela-se um fardo enfadonho, suportado apenas por imposição da mãe. O almoço e o convívio decorrem num ambiente de tédio absoluto, com os irmãos a mostrarem-se desinteressados e indiferentes às tentativas do velho professor de animar a tarde com memórias do passado.
    O dia culmina com o regresso exausto da família a casa. Para quebrar o silêncio e evitar mais tensões, a Sr.ª Taneran anuncia que, se tudo correr bem, irão todos embora de Uderan no final da semana. A notícia cala os filhos e deixa Maud invadida por uma vaga melancolia, rapidamente atenuada por uma imensa sensação de desprendimento, ao consciencializar-se de que nunca gostara verdadeiramente daquele lugar, enquanto caminham em direção à moradia hostil da Sr.ª Pecresse.
    Durante um jantar, a Sr.ª Taneran anuncia a partida iminente da família de Uderan, notícia que deixa a Sr.ª Pecresse profundamente inquieta e apreensiva em relação ao futuro do seu filho, Jean. Com a reputação do rapaz arruinada após o suicídio da sua amante, a mãe teme o pior e tenta, a todo o custo, mostrar-se amável com os Grant, nutrindo a esperança secreta de que Maud acabe por ficar na aldeia, o que apaziguaria o filho. Nessa mesma noite, a jovem decide abandonar o convívio mais cedo e inicia o caminho de regresso a Uderan. Ao longo da caminhada solitária, é tomada por uma forte sensação de libertação e por uma impaciência crescente. Movida por um impulso incontrolável e ignorando o medo de ser repreendida pela mãe, decide desviar-se do seu destino e caminha em direção à casa de Georges Durieux. Este, que se preparava para sair a cavalo, recebe-a com surpresa. No interior da habitação, um espaço modesto preenchido com móveis ingleses e livros velhos, a tensão acumulada desvanece-se. Maud desabafa de forma tempestuosa sobre a exaustão que sente em relação à atitude da sua família e confirma que se irão embora na semana seguinte. Georges acalma-a, abandona a sua habitual postura distante e confessa que, no fundo, a esperava. O conflito dá lugar à intimidade e os dois acabam por passar a noite juntos, consumando a atração que os unia.
    Na manhã seguinte, Maud desperta com uma sensação inédita de paz, sentindo uma harmonia profunda e tranquila no seu corpo e espírito. Observa Georges a dormir serenamente ao seu lado, antes de decidir regressar a Uderan sozinha, de madrugada. Durante o percurso de volta, vislumbra uma figura humana a afastar-se bruscamente das imediações da casa do amante, mas afasta rapidamente qualquer suspeita ou mau presságio. Ao chegar finalmente ao seu quarto, observa o próprio reflexo no espelho, reconhecendo em si uma beleza nova e livre de culpa, antes de mergulhar num sono profundo e reparador.
    A narrativa prossegue com o regresso de Maud à casa dos Pecresse na noite seguinte. Ao entrar, depara-se com um ambiente opressivo, tenso e marcado por um silêncio propositado e acusador por parte de todos os presentes. A ausência da sua mãe, a Sr.ª Taneran, que habitualmente já estaria em casa àquela hora, deixa-a dominada por uma apreensão e um medo crescentes. Quando questiona os presentes sobre o seu paradeiro, depara-se com um mutismo obstinado, até que a Sr.ª Pecresse, incapaz de conter a sua impaciência e malícia, a informa de que a velha senhora saiu desde o meio-dia à sua procura, deambulando já exausta. A rapariga de 20 anos apercebe-se então de que a Sr.ª Pecresse e o seu irmão Jacques formaram uma aliança contra si. Jacques pretende usar a ausência prolongada da irmã como argumento para a culpabilizar e, em simultâneo, forçar a mãe a abandonar Uderan definitivamente, desviando assim as atenções da sua própria responsabilidade no recente suicídio da jovem criada.
    O clima calculista e hostil que se vive na sala é abruptamente quebrado pela voz abafada e suplicante, vinda do exterior escuro e tempestuoso, da Sr.ª Taneran a clamar desesperadamente pela filha. A voz ecoa repetidamente, destruindo a conspiração e a tranquilidade aparente dos presentes. Petrificada, Maud imagina com uma lucidez dolorosa o calvário da mãe, visualizando-a a procurá-la durante horas a fio pelas estradas, pelos campos e junto às brumas das margens do rio Dior. Consumida pelo sofrimento de assistir àquele desespero, Maud chora silenciosamente. Incapaz de suportar mais o som daquele apelo angustiante, tapa os ouvidos, solta um grito e acaba por desmaiar.
    A narrativa retoma com a rapariga a recuperar os sentidos já quase ao cair da noite, deitada na cama da mãe. Sente-se fraca e apreensiva, enquanto no exterior se forma uma violenta tempestade de verão. Ao escutar as vozes no andar de baixo e ao perceber que a sua mãe já tem conhecimento da sua "fuga", é invadida por um profundo sentimento de solidão e terror, temendo que a tranquem no quarto. Apesar do medo, ganha coragem para descer e enfrentar a família, afastando deliberadamente da memória a imagem reconfortante do seu amante para conseguir lidar com a realidade hostil que a espera. Ao entrar na sala, abate-se um silêncio pesado. A sua mãe, Jacques e a família Pecresse encontram-se perto da lareira e da mesa. A atmosfera é asfixiante; Maud é forçada a sentar-se à mesa enquanto todos a observam de forma impiedosa e julgadora, escrutinando cada um dos seus gestos num escândalo silencioso que a paralisa. Essa imobilidade e tensão opressivas culminam num confronto aberto. Jacques, com a sua habitual postura cruel, ataca-a verbalmente e tenta destruí-la aos olhos da mãe, trazendo à tona uma acusação sobre dinheiro ligada à morte de Muriel, a criada que se suicidara. Maud defende-se de imediato, justificando que o dinheiro em causa fora um empréstimo para a sua pulseira, mas Jacques, possesso, chama-lhe mentirosa. Perante este ataque insuportável, toma uma decisão repentina e foge a toda a velocidade para longe da propriedade, em direção ao vale e ao rio Dior, enquanto, atrás de si, as vozes misturadas de Jacques, Henri e da Sr.ª Pecresse rasgam a noite com insultos e gritos a chamarem o seu nome.
    Exausta, encharcada pela chuva e a tremer de frio, decide procurar abrigo na casa de Uderan, rejeitando tanto a ideia de regressar à moradia hostil dos Pecresse como o pensamento de bater à porta de Georges e correr o risco de ser mal interpretada. Contudo, ao chegar à residência, depara-se com as portas trancadas. Nesse momento de frustração, é surpreendida por Georges Durieux, que andava à sua procura. Com a ajuda de uma barra de ferro, ele consegue forçar a entrada de um espaço abandonado na propriedade. No interior de um quarto de aspeto luxuoso, mas agora decadente e coberto de pó, Maud está demasiado exausta e perturbada para dar explicações. Ignorando as perguntas inquisitivas de Georges sobre a sua fuga, deita-se na cama e adormece quase de imediato.
    Na manhã seguinte, recomposta e sob um belo dia de sol, a jovem caminha pela herdade e encontra Dedde, a mulher do caseiro, que insinua que a Sr.ª Pecresse tem andado a espalhar boatos maliciosos sobre a família Grant pela região e menciona que Louise Rivière, uma rapariga da aldeia que fora amiga de infância de Maud, está de regresso de férias. Para passar o tempo e evitar o tédio, esta decide visitá-la. O reencontro na casa das Rivière é pautado por uma alegria forçada e um ambiente denso. Louise, que perdeu o ar doentio da infância e adquiriu uma certa elegância calculista, mostra-se impaciente. Acaba por arrastar Maud para o exterior para lhe fazer uma confidência surpreendente: tem um encontro amoroso marcado com Jacques, o irmão da «amiga», à saída da missa das vésperas. A revelação culmina num desfecho abrupto e violento. Quando os sinos da igreja do Pardal começam a tocar, a postura de Louise transforma-se, revelando uma hostilidade implacável. Antes de partir a correr para o seu encontro, ataca Maud verbalmente, revelando que Jacques lhe contou tudo, e acusa-a não só de ser o motivo pelo qual a propriedade vai ser vendida e de ser a namorada de Jean Pecresse, mas também de ter assistido deliberadamente ao suicídio da jovem criada da estalagem Barque, vendo-a atirar-se ao rio Dior sem fazer absolutamente nada para a impedir.
    Ao cair da noite, Maud pondera regressar para junto da sua mãe, mas o terror e a profunda repulsa que sente pelo irmão Jacques paralisam-na. Entretanto, Louise regressa da aldeia visivelmente frustrada, revelando que aquele a ignorou por completo devido à presença da mãe. Após dirigir novos insultos a Maud, chamando à sua família "porcos", afasta-se definitivamente. Na escuridão, exausta e recusando-se a voltar para junto da família, a rapariga decide caminhar até à casa de Georges Durieux. Ao chegar, percebe que ele tem visitas. Sentindo-se suja, desgrenhada e miserável, esconde-se no exterior, aguardando que os convidados de Bordéus se vão embora. Dali, consegue ouvir os cães de caça de Uderan ao longe, compreendendo que a sua família continua ativamente à sua procura.
    Passam-se mais de quinze dias. Maud permanece oculta na casa de Georges, mergulhada num estado de torpor e letargia, agravado pelo calor opressivo do verão. Ninguém da sua família a vai procurar e a aldeia mantém um silêncio cúmplice sobre o seu paradeiro. Ele, embora saia para a aldeia, opta inicialmente por lhe esconder as informações que vai descobrindo, mantendo por vezes uma postura distante. O isolamento é quebrado num fim de tarde, quando Georges, cansado, lhe conta que se encontrou com Jacques e que a herdade de Uderan está não só à venda, como, na verdade, já foi praticamente comprada pela família Pecresse. Ele expõe a ruinosa gestão financeira da mãe de Maud, detalhando o acumular de dívidas, os acordos financeiros falhados com a família dos caseiros (os Dedde) e até o pagamento de indemnizações à família da jovem criada que se suicidara.
    Maud passa a viver na casa de Georges, mas o ambiente deteriora-se. Ela permanece isolada no seu quarto durante várias semanas, dominada por uma fadiga extrema, enquanto Georges começa a evitá-la, passando a dormir na sala. Mergulhada num tédio profundo, acaba por se aperceber de que está grávida. O seu isolamento é abruptamente quebrado numa manhã, quando a sua mãe surge de surpresa para a levar embora de vez. Enquanto caminham em direção à estação para apanhar o comboio para Bordéus, a mãe revela com naturalidade que vendeu a propriedade de Uderan à família Pecresse. Maud sofre um pequeno colapso físico no caminho, o que leva a mãe a desconfiar da sua gravidez. A Sr.ª Taneran confessa então que os cinquenta mil francos resultantes da venda da propriedade foram, na sua esmagadora maioria, usados para saldar as avultadas dívidas de Jacques. Tenta ainda tranquilizar a filha, garantindo que Georges Durieux irá ter com ela a Paris mais tarde.
    A mãe, Maud e Henri apanham o comboio e regressam a Paris. Já na capital, durante a viagem de táxi para casa, de forma agressiva, Jacques exige mais dinheiro à mãe, que cede. Ao chegarem finalmente ao prédio da família, deparam-se com mais uma má notícia: a porteira informa-os de que a polícia esteve lá à procura de Jacques. No interior do apartamento, encontram o velho Sr. Taneran, a quem a mãe se vê obrigada a anunciar a venda irremediável da propriedade.
    A narrativa foca-se nos momentos finais de tensão e transição na vida de Maud. Num ambiente marcado por alguma proximidade física, mas com um distanciamento emocional constante, a relação entre si e a sua mãe atinge um ponto de resignação. A Sr.ª Taneran, embora demonstre breves gestos de afeto pela filha, debate-se com a desilusão e a amargura. Defende obstinadamente o seu filho Jacques, justificando que o dever de uma mãe é dedicar-se ao filho mais infeliz e abandonado. Apesar do seu próprio sofrimento e de chorar a miséria da sua vida, acaba por tranquilizar Maud, assegurando-lhe que será feliz ao lado de Georges Durieux.
    Durante a noite, num cenário de malas desarrumadas e com o resto da família a dormir, Maud não consegue conciliar o sono. A mãe tenta acalmar-se arrumando incessantemente as bagagens. No silêncio, a rapariga reflete sobre o seu futuro: o casamento, a ida para Bordéus para viver com Georges e o alívio de deixar para trás o ódio da família Pecresse e o desprezo dos camponeses de Uderan. Mais tarde, surge a deambular sozinha, sentindo-se fisicamente fraca e desorientada. Procura refúgio num café, mas os olhares curiosos dos outros clientes deixam-na enervada e defensiva, levando-a a abandonar o local com uma profunda sensação de vazio. Confrontada com as horas vagas, sente-se perdida, recordando a asfixia e a letargia dos dias que passara isolada no quarto em Uderan.
    O desfecho aproxima-se com o cair da noite. Ao observar a vida a passar à sua volta, as suas angústias começam a dissipar-se. A fome traz-lhe alguma clareza e o seu pensamento volta-se para a criança que carrega no ventre, uma presença fantasmagórica que, curiosamente, a apazigua. Maud reflete sobre o seu irmão Jacques e conclui que o destino dele não depende da sua vontade. Vai denunciá-lo à polícia, mas o agente que a recebe informa-o de que, afinal, o irmão foi burlado e não deve nada, antes foi roubado.
    Liberta finalmente do seu martírio interior e de qualquer vergonha, Maud aceita que o seu tempo ali terminou. Com uma curiosidade serena sobre como será a vida ao lado de Georges e sem carregar qualquer fardo além da criança que cresce dentro de si, levanta-se e caminha tranquilamente em direção à escuridão.
    Três dias após a partida de Maud para Paris, Georges recebe uma longa carta da Sr.ª Taneran. Na missiva, ela reflete sobre as dinâmicas conturbadas da sua família, admitindo a sua própria cegueira e impotência perante os acontecimentos recentes. Justifica o temperamento fechado da filha com a solidão e o ambiente opressivo em que esta cresceu, abdicando de qualquer rancor. Além disso, a Sr.ª Taneran informa Georges de que a filha chegará no comboio de sexta-feira à noite. Apesar da tristeza e do sentimento de castigo pela separação, a mãe expressa um amor profundo, pungente e doloroso pela filha. Entrega-lha com um pedido comovente: que ele a acolha, a proteja do frio e da tristeza e lhe dê a felicidade e a doçura que ela merece. Aconselha-os ainda a não permanecerem muito tempo em Uderan e a casarem-se longe dali, prometendo visitá-los no futuro, assim que a situação familiar e o escândalo acalmarem.
    Após a leitura da carta, Georges dirige-se para a estação muito antes da hora prevista. Quando o comboio chega, Maud desembarca pálida, ansiosa e agasalhada, acompanhada apenas por uma mala nova, um último gesto de generosidade e despedida da mãe. O reencontro traz-lhe um alívio imediato ao ver que ele a foi esperar.
A obra termina com a viagem de carro de ambos em direção a Bordéus. Enquanto viajam num descapotável, fustigados por um vento frio e cortante e deixando a silhueta de Uderan para trás ao luar, Maud comenta com alguma ironia que a sua mãe levou o acordo avante e recebeu os cinquenta mil francos. É neste momento que se dá a última revelação: Georges confirma a Maud que os cinquenta mil francos estão, de facto, pagos e dá a entender que foi ele próprio quem disponibilizou o dinheiro para resolver os problemas da família dela. Quando Maud, surpreendida, lhe pergunta se ele fez isso para lhes dar prazer, Georges responde com uma simplicidade desarmante que sim, porque não havia motivo para não o fazer.
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