Numa reviravolta psicológica inesperada, Shylock dissimula o seu rancor e propõe um pacto de aparente amizade, oferecendo-se para emprestar a soma pretendida sem cobrar qualquer juro. Em contrapartida, sugere uma escritura a assinar perante o tabelião, estipulando que, caso a dívida não seja liquidada na data exata, Shylock terá o direito de cortar uma libra de carne humana de qualquer parte do corpo de António. Apesar dos alertas e protestos desesperados de Bassânio, que prefere manter-se na pobreza a ver o seu amigo assinar um contrato tão macabro, António aceita a condição com extrema autoconfiança, assegurando que os seus navios retornarão com lucros muito superiores um mês antes do vencimento. Para desarmar as suspeitas, Shylock ridiculariza a desconfiança dos cristãos, argumentando que uma libra de carne humana não possui qualquer valor comercial ou utilidade prática quando comparada com a carne de vaca, cabra ou carneiro. António despede-se de Shylock apelidando-o de "judeu obsequioso" e especulando sobre a sua eventual conversão ao cristianismo, numa demonstração de soberba e cegueira trágica que contrasta com a premonição final de Bassânio, que continua a desconfiar profundamente das intenções ocultas por trás de tão repentina generosidade.
Como justifica Shylock moralmente a cobrança de juros? Ele fundamenta a justificação moral da cobrança de juros recorrendo a uma importante narrativa bíblica do Antigo Testamento, centrada na figura de Jacob, neto do patriarca Abraão. Reconta o episódio em que Jacob, enquanto pastoreava os rebanhos do seu tio Labão, estabeleceu um acordo contratual pelo qual todos os cordeiros que nascessem listrados ou malhados lhe pertenceriam por direito. Através de uma estratégia astuta, Jacob colocou varas descascadas diante das ovelhas no momento da conceção, influenciando a gestação dos animais de modo a que estes dessem à luz crias malhadas, multiplicando assim a sua riqueza de forma inteligente. A partir deste exemplo, Shylock extrai a sua máxima moral mais importante: a de que todo o lucro que não proceda de roubo direto é abençoado pelo Céu. Para ele, a astúcia e a capacidade de fazer frutificar os recursos disponíveis não constituem um pecado ou uma fraude, mas sim uma forma de esforço e engenho que merece ser recompensada e abençoada, tal como a providência divina abençoou a multiplicação dos rebanhos de Jacob. Quando confrontado com o argumento de que o ouro e a prata são metais estéreis e que, ao contrário de carneiros e ovelhas, não possuem a capacidade natural de se reproduzir, rejeita esta distinção moral e filosófica. Ele responde com pragmatismo que o seu único objetivo é fazer com que os seus bens produzam e se multipliquem, vendo no capital financeiro um recurso ativo que, sob a égide de contratos claros e da habilidade pessoal, pode e deve ser gerado para criar riqueza legítima.
Como as ofensas passadas influenciam a atitude de Shylock nesta cena? Essas ofensas moldam profundamente a atitude do agiota, atuando como o combustível emocional e psicológico que dita o seu ressentimento, a sua ironia e a sua estratégia de vingança. No plano interno, os abusos sofridos no Rialto — onde António frequentemente gozava da sua pessoa, das suas transações financeiras e dos seus lucros legítimos, apelidando-o de usurário — alimentam um ódio antigo e visceral. Shylock sente que estas ofensas não são apenas ataques pessoais, mas também uma agressão direta à sua religião e à sua comunidade, o que o leva a jurar solenemente que nunca perdoará o mercador, sob pena de amaldiçoar a sua própria tribo. No confronto direto, a memória dessas humilhações transforma-se numa poderosa arma retórica que Shylock utiliza para expor a extrema hipocrisia de António. Com um sarcasmo cortante, o judeu recorda detalhadamente como o mercador lhe chamou herege e cão danado, como cuspiu na sua capa hebraica e como o pontapeou para fora da sua presença como se de um animal vadio se tratasse. Ao ser agora abordado por esse mesmo homem que lhe vem pedir um favor financeiro, Shylock confronta-o com o absurdo da situação, questionando ironicamente se um cão tem capacidade para emprestar três mil ducados ou se ele deveria curvar-se de forma servil e agradecer a saliva que lhe molhou o rosto na quarta-feira anterior. Esta humilhação sofrida no passado justifica, na mente de Shylock, a dureza com que aborda a negociação, recusando-se a assumir uma postura arrogante de superioridade moral sem antes expor as feridas abertas pelo comportamento do mercador. Finalmente, estas ofensas são a causa direta da armadilha mortal que o agiota decide armar. Embora finja desejar a reconciliação e a amizade de António ao oferecer um empréstimo sem juros para supostamente esquecer os agravos passados, a escolha da terrível penalidade de uma libra de carne humana revela o seu verdadeiro plano. A exigência de cortar um pedaço do próprio corpo de António em caso de incumprimento é a tradução física e literal do desejo de Shylock de saciar o seu antigo rancor, utilizando a própria lei de Veneza para punir o homem que tanto o humilhou e desprezou publicamente.
Como Shylock descreve os riscos dos negócios de António? O judeu descreve os negócios e os haveres de António como sendo de uma natureza essencialmente eventual e incerta, devido à enorme exposição a múltiplos fatores imprevisíveis. Ele salienta que a fortuna do mercador não está salvaguardada num local seguro, mas sim dispersa pelo mundo em frotas comerciais que navegam rumo a destinos longínquos como Trípoli, Índia, México e Inglaterra, além de outras embarcações espalhadas por diferentes pontos do globo. Para demonstrar a fragilidade desta estrutura comercial, Shylock desconstrói a aparente solidez das frotas ao lembrar, com grande pragmatismo, que os navios não passam de tábuas de madeira e que os marinheiros são apenas homens, estando ambos sujeitos à destruição e à fragilidade humana. A esta vulnerabilidade material, ele acrescenta as ameaças físicas e humanas que rondam os bens de António, observando que existem ratos na terra e ratos no mar, bem como ladrões em terra e ladrões no mar, identificando estes últimos diretamente como piratas prontos a saquear as riquezas. Por fim, Shylock destaca as forças destrutivas da própria natureza, como os perigos do vento, das águas do mar e dos escolhos traiçoeiros que podem afundar as embarcações a qualquer instante. No entanto, mesmo após mapear minuciosamente toda esta teia de perigos iminentes, ele conclui a sua avaliação considerando que, apesar de tudo, António possui capacidade financeira suficiente para que a sua fiança seja aceite.