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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

terça-feira, 28 de julho de 2026

Apreciação crítica do conto "A Aventura sem Paralelo de um tal Hans Pfaall", de Edgar Allan Poe

    A Aventura sem Paralelo de um tal Hans Pfaall, publicada originalmente em junho de 1835 por Edgar Allan Poe, não é apenas um marco na vasta e diversificada obra do autor norte-americano, mas constitui, de forma indiscutível, um dos pilares fundadores daquilo que viria a ser conhecido como a ficção científica moderna. Contudo, classificar esta obra num único espartilho genérico seria manifestamente redutor. O conto afirma-se como um artefacto literário de uma complexidade ímpar, operando numa instável zona de fronteira onde a verosimilhança científica, o embuste literário (o hoax comercial), e a sátira social e jornalística se cruzam e se digladiam. Através de uma engenhosa dualidade de registos, Poe convida o leitor para um jogo epistemológico que questiona de forma cáustica as fronteiras entre o facto e a ficção, a verdade e a mentira, a ciência e a imaginação.
    O cerne da genialidade de Poe neste conto reside na sua apropriação e manipulação exímia do discurso científico empírico. Numa época fortemente marcada pelo avanço vertiginoso da revolução industrial, pela exploração de novas fronteiras geográficas e pela proliferação das publicações de massas, o público oitocentista encontrava-se cada vez mais ávido de descobertas científicas e relatos de viagens. Poe capta este zeitgeist com precisão clínica e constrói a narrativa de Hans Pfaall utilizando uma retórica de "empirismo ingénuo". O protagonista não viaja para a Lua sustentado em pura fantasia, invocações mágicas ou intervenções de carácter divino, mas sim através da aplicação rigorosa – ainda que baseada em premissas fantasiosas – de princípios da física, da mecânica celeste e da pneumática. A suposta descoberta de um gás revolucionário (trinta e sete vezes e meia mais leve que o hidrogénio), o cálculo meticuloso da distância real da Terra à Lua, as constantes referências aos valores do barómetro na medição da rarefação do ar, bem como a conceção mecânica e vital do aparelho condensador de oxigénio, são elementos que conferem ao texto uma profunda ilusão de realidade. Poe utiliza o jargão científico, as medições quantitativas exatas e um diário de bordo com datas e horas marcadas para anestesiar o ceticismo natural do leitor, obrigando-o a suspender a sua descrença. Neste prisma, a ciência não é o alvo principal da sátira, mas sim a ferramenta magistral através da qual a ficção se legitima e ganha lastro, provando como uma retórica estruturalmente factual pode ser usada para suportar a mais absoluta impossibilidade.
    No entanto, a extrema seriedade e o tom documental do relato de Hans chocam frontalmente com a moldura narrativa que envolve a história, revelando a heterogeneidade tonal que atua como o verdadeiro motor crítico do conto. A odisseia espacial não nos é apresentada de forma pura ou direta; chega-nos antes através de um manuscrito selado, deixado cair do céu por uma bizarra criatura lunar em forma de anão atarracado e sem orelhas, no meio de uma multidão de burgueses atónitos na cidade de Roterdão. Todo o cenário inicial, pontuado pela figura caricata do professor Rubadub e do burgomestre Superbus von Underduk, é de um burlesco descarado. Poe pinta a população holandesa com traços de grande estupidez, inércia e credulidade, descrevendo-os a deixar cair os cachimbos da boca num uníssono ridículo perante a visão do insólito. Mas talvez o detalhe mais revelador e metalinguístico da obra seja o material utilizado na construção do próprio balão de Hans Pfaall: ele é feito de jornais sujos. Esta não é uma escolha estética acidental. Através deste elemento, Poe lança uma farpa extremamente cortante à cultura da penny press (a imprensa barata dos centavos) que emergia de forma explosiva nos Estados Unidos e no mundo, sugerindo metaforicamente que a sociedade da sua época se deixava elevar e ludibriar por narrativas insufladas, ocas e fabricadas pelos periódicos. A ficção de Poe critica assim um espaço público que se tornara incapaz de distinguir o rigor metódico da ciência autêntica do mero sensacionalismo de folhetim.
    Este aspeto literário e crítico ganha contornos ainda mais fascinantes quando devidamente enquadrado no seu contexto histórico de publicação. Escassas semanas após o lançamento deste conto, o jornal New York Sun publicou aquele que viria a ser o célebre "Embuste da Lua" (Great Moon Hoax) do jornalista Richard Adams Locke, um falso mas muito convincente relato de alegadas descobertas de seres lunares que enganou milhares de pessoas em todo o mundo. Poe, que se viu subitamente ultrapassado em popularidade pelo sucesso estrondoso da farsa de Locke, chegou a acusá-lo inicialmente de plágio. Contudo, a reflexão final de Poe – expressa numa extensa e rigorosa nota apensa a edições posteriores do seu próprio conto – revela uma perspetiva muito peculiar sobre a literatura. Para Poe, a falha central do embuste de Locke residia não na mentira em si, mas na sua flagrante falta de rigor científico, ótico e de lógica interna, defeitos que o público iletrado não soube detetar. O autor de "Hans Pfaall" não queria apenas enganar ou ludibriar as massas; o seu desiderato superior era criar uma verdadeira obra de arte alicerçada na verosimilhança total. Ele defendia que uma narrativa estruturada em premissas cientificamente impossíveis devia ser desenvolvida com um rigor analítico e logístico inatacável, emulando o método empírico ao pormenor. Assim, o conto transcende a mera brincadeira para se instituir como um ensaio estético, proclamando que a "verdade" num texto ficcional não dimana da plausibilidade do tema central, mas sim do método exato com que ele é narrado.
    Apesar da forte componente irónica e metalinguística, seria um erro ignorar o denso subtexto existencial que humaniza o protagonista e escurece os contornos da viagem. A fuga de Hans Pfaall não é, de todo, motivada por anseios épicos de exploração do desconhecido ou por glória científica. Pelo contrário, Pfaall é arrastado para os céus pelo mais negro desespero, pela pobreza franciscana e pela opressão asfixiante de três credores diários e implacáveis. O planeta Terra tornou-se para ele um fardo insuportável, um palco de humilhação diária, levando-o mesmo a flertar com a ideia do suicídio. Esta viagem inaudita pelo vácuo do espaço atua assim como a derradeira metáfora para o desejo humano de aniquilação dos problemas profanos. A sua ascensão solitária, em que se depara com o sofrimento atroz de dores e sangramentos devido à falta de oxigénio, o frio de gelar o sangue e o silêncio fúnebre do universo, reveste-se de contornos fortemente góticos e opressivos. Poe substitui os corredores sombrios dos castelos medievais pela vastidão indiferente do cosmos. Torna-se um relato de resiliência onde a razão (a máquina condensadora, a câmara isoladora, o engenho da água a pingar) é o único escudo frágil contra a esmagadora hostilidade da natureza e a loucura do vazio absoluto.
    Em suma, "A Aventura sem Paralelo de um tal Hans Pfaall" afirma-se como um texto que exige e recompensa múltiplas camadas de leitura. Assume-se, em simultâneo, como uma paródia demolidora aos exageros dos antigos relatos de viagens exóticas, como um brilhante ensaio de embuste orquestrado para expor as fissuras na credulidade pública contemporânea, e como um dos primeiríssimos passos na edificação formal da ficção científica. Ao casar de forma magistral a precisão cirúrgica de uma pretensa documentação astronómica com uma fantasia quase alucinatória, e ao temperar o desespero existencial com uma comédia burlesca e absurda, Edgar Allan Poe subverteu e testou todas as categorias da sua época. O conto permanece hoje, tal como no século XIX, como um notável atestado ao poder infinito do discurso literário — essa capacidade rara da linguagem para forjar universos, suspender as leis da gravidade física e moral, e questionar, em última análise, a própria consistência do que chamamos realidade. Um feito ímpar, escrito por um arquiteto do assombro, que investiga com brilhantismo a nossa eterna vontade de fugir — seja fechando-nos entre as páginas ruidosas de um jornal sujo, seja erguendo voo solitário na direção da Lua.

Resumo do conto "A Aventura sem Paralelo de um tal Hans Pfaall", de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe
    A narrativa começa na cidade de Roterdão, que entra em alvoroço com a aparição nos céus de um balão bizarro, construído com jornais sujos e tripulado por uma criatura de aspeto peculiar. Esse ocupante deixa cair um manuscrito destinado às autoridades, assinado por Hans Pfaall, um humilde reparador de foles da cidade que se encontrava misteriosamente desaparecido há cinco anos, tal como três dos seus credores.
    Através do manuscrito, Pfaall relata como a pobreza extrema e a perseguição diária e insuportável desses credores o levaram ao desespero. Inspirado pela leitura de um livro de astronomia e pneumática, decide conceber um plano de fuga audacioso: constrói um balão gigante em segredo, utilizando um novo gás por si descoberto, que é imensamente mais leve do que o hidrogénio. Para concretizar a partida, engana os credores, pedindo-lhes ajuda nos preparativos finais. Durante a descolagem, aciona um mecanismo com pólvora que resulta numa enorme explosão; o impacto não só atira o balão violentamente para os céus, como elimina os três credores que tinham ficado no chão.
    A viagem começa de forma quase fatal, com Pfaall a ficar acidentalmente pendurado de cabeça para baixo, do lado de fora da barquinha, na sequência do solavanco da explosão inicial. Após um esforço agonizante e terror extremo, consegue finalmente içar-se de volta para o interior do cesto. À medida que ganha altitude, Hans reflete sobre a miséria e o desespero em Roterdão que o levaram a preferir esta arriscada fuga pelo espaço ao suicídio. O relato é pautado por constantes observações científicas e raciocínios matemáticos sobre a distância da Terra à Lua, a atração gravítica e a densidade da atmosfera.
    Ao atingir camadas mais elevadas, o protagonista depara-se com um sofrimento físico atroz devido à rarefação do ar, sofrendo de espasmos, inchaço e sangramentos severos nos ouvidos, nariz e olhos. Para escapar à morte iminente, coloca em prática a sua invenção salvadora: envolve toda a barquinha num invólucro hermético de borracha e ativa um engenho condensador capaz de purificar o ar rarefeito do exterior, permitindo-lhe voltar a respirar com facilidade e aliviando as suas dores.
    O resto do trajeto descrito alterna entre a contemplação fascinada do espaço e da Terra escurecida, e as tragédias e desafios logísticos diários. Entre eles, destaca-se a perda acidental da sua gata e respetivos gatinhos, que caem do balão, e a necessidade de inventar um sistema de alarme mecânico com água para o acordar a espaços regulares (hora a hora) durante a noite, garantindo que opera o condensador de ar e não morre asfixiado enquanto dorme. O estratagema adotado por Hans Pfaall para purificar o ar e conseguir respirar na atmosfera altamente rarefeita consistiu na criação de um ambiente totalmente isolado, associado a um aparelho de condensação. Para o efeito, envolveu toda a barquinha do balão e a si próprio num resistente e flexível saco de goma-elástica, perfeitamente hermético. No interior desta câmara improvisada, instalou a sua máquina condensadora, cujo extenso tubo comunicava com o exterior através de uma abertura no invólucro. Este aparelho criava um vácuo que aspirava a atmosfera rarefeita circundante, condensando-a para que se misturasse com o ar leve já presente no habitáculo, tornando a atmosfera própria para respiração após a operação ser repetida diversas vezes. No entanto, como o ar num espaço tão confinado ficava rapidamente viciado pelo uso dos pulmões, Pfaall instalou uma pequena válvula no fundo da barquinha para o evacuar. Para evitar o efeito nefasto e potencialmente fatal de criar um vácuo total no interior da câmara, esta purificação nunca era feita de súbito, mas sim de maneira gradual: abria a válvula apenas por alguns segundos para expelir o ar denso e viciado, fechando-a de seguida para que a bomba do condensador introduzisse e repusesse uma quantidade correspondente de ar fresco processado.
    Durante a sua odisseia, Pfaall mantém um diário rigoroso das suas observações astronómicas e geográficas, como o achatamento dos polos da Terra e uma profunda concavidade no Polo Norte. Para sobreviver à viagem, relata o uso de um engenhoso sistema de alarme feito com água, que o desperta hora a hora para operar a sua máquina de purificação de ar e evitar a asfixia. À medida que se aproxima do destino, os desafios intensificam-se. Ele sobrevive à quase colisão com gigantescos fragmentos vulcânicos e meteoritos e descreve um momento de pânico absoluto quando a atração gravitacional se inverte, fazendo com que a Lua passe a estar subitamente debaixo dos seus pés e a Terra por cima de si.

    A descida para a superfície lunar é perigosamente veloz. Apesar de a atmosfera lunar o ajudar a travar, Pfaall vê-se forçado a desmantelar a sua câmara protetora, atirar borda fora todo o seu equipamento e pendurar-se na rede do próprio balão para sobreviver ao impacto. Aterra finalmente no coração de uma cidade de aspeto fantástico, habitada por criaturas pequenas, feias, sem orelhas e que não comunicam pela fala. A narrativa destes excertos culmina com a revelação de que Hans Pfaall sobreviveu e reside na Lua há já cinco anos, oferecendo-se agora para partilhar com os astrónomos da Terra todos os profundos mistérios, costumes e segredos geológicos do satélite que teve a oportunidade de explorar.
    O manuscrito termina com Hans a solicitar um perdão oficial às autoridades de Roterdão pelo homicídio dos seus credores aquando da partida do balão. Em troca deste perdão, ele oferece conhecimentos profundos e revolucionários sobre a ciência física e metafísica. Hans revela ainda que o mensageiro bizarro que entregou a carta é, na verdade, um habitante da Lua que ele convenceu a viajar até à Terra, ficando agora a aguardar o seu regresso com o tão desejado perdão.
    Após a leitura, as autoridades locais, representadas pelo professor Rubadub e por Mynheer Superbus von Underduk, ficam estupefactas, mas concordam em perdoar o crime. Contudo, apercebem-se de que o mensageiro lunar, mortalmente assustado com a aparência da população, tinha desaparecido, impossibilitando assim que o perdão chegasse às mãos de Hans.
    Quando o conteúdo da carta é tornado público, gera-se uma onda de especulação e ceticismo, com várias pessoas sensatas a considerarem tudo um enorme embuste. Os céticos baseiam-se em factos muito práticos: o suposto extraterrestre assemelhava-se a um anão sem orelhas que desaparecera recentemente da cidade de Bruges; o balão tinha sido fabricado com jornais impressos em Roterdão; e, como prova final da farsa, o próprio Hans Pfaall e os três credores que ele alegava ter assassinado tinham sido vistos, escassos dias antes, a beber numa taberna local, acabados de regressar de uma viagem por mar e com dinheiro nos bolsos.

    O final propriamente dito do conto é seguido de uma extensa Nota que o encerra, uma espécie de reflexão crítica e literária do próprio Edgar Allan Poe. Nesta secção, o escritor defende a originalidade da sua obra, fazendo questão de sublinhar que "Hans Pfaall" foi publicado cerca de três semanas antes do célebre "Embuste da Lua", uma fraude literária de Richard Adams Locke que se tornou famosa na época. Poe dedica grande parte do texto a criticar a facilidade com que o público se deixou enganar por esse embuste, dissecando os seus erros científicos absurdos e a falta de rigor astronómico e ótico.
    Para além desta crítica, o autor compara o seu conto a outras obras clássicas sobre viagens à Lua. Ele resume enredos de outros livros, detendo-se particularmente na história de um homem que viaja até ao satélite terrestre numa máquina puxada por enormes pássaros migratórios (ganzas). Menciona ainda as histórias satíricas de Cyrano de Bergerac e de outras personagens que voam em águias, apontando sistematicamente as falhas e o total desrespeito pela física e pela astronomia nestes relatos.
    O texto destas páginas culmina com a conclusão final de Poe sobre o seu próprio trabalho. Ele afirma que, ao contrário de todos os outros autores de panfletos e brochuras lunares — que visavam apenas a sátira e nunca se preocuparam com a plausibilidade —, o grande objetivo e originalidade de "Hans Pfaall" é a busca pela verosimilhança. A sua história demarca-se por aplicar princípios científicos reais de forma a dar uma aparência de total credibilidade e realismo a uma viagem profundamente fantasiosa.

domingo, 26 de julho de 2026

Apreciação crítica de O Eterno Marido

    A novela O Eterno Marido (1870) consolida-se como uma das obras mais complexas e psicologicamente densas de Fiódor Dostoiévski. O seu grande trunfo reside na subversão radical do modelo clássico do romance de adultério. Em vez de focar a narrativa na figura da mulher infiel e na sua eventual punição moral — como acontece em obras canónicas como Madame Bovary —, a história tem início apenas após a morte da esposa adúltera, Natália. O foco desloca-se, de forma inédita, para o embate tenso, doentio e claustrofóbico entre o viúvo traído, Pável Pávlovitch Trussótski, e o antigo amante, Alexei Veltchaninov, englobando também o destino trágico da pequena Liza, fruto dessa relação extraconjugal.
    A dinâmica entre os dois protagonistas é o verdadeiro motor da obra, pautada por uma ambivalência extrema onde o amor, o ódio, a culpa e o ressentimento se entrelaçam de forma indissociável. Os papéis de "vítima" e "vilão" não são estanques, sendo frequentemente invertidos ao longo da trama. Veltchaninov, inicialmente apresentado como um aristocrata hipocondríaco e vaidoso, revela laivos de afeto paternal na tentativa desesperada de proteger Liza; em contrapartida, Trussótski, que surge como a figura patética do viúvo submisso, demonstra uma crueldade vingativa ao torturar psicologicamente a criança e ao atentar contra a vida do rival.
    Numa leitura psicanalítica, Trussótski funciona como o "retorno do recalcado" na vida de Veltchaninov, emergindo como um sintoma vivo e acusador da culpa suprimida pelo antigo amante e do seu passado amoral. À luz da teoria mimética de René Girard, esta dinâmica ganha contornos ainda mais profundos: a obsessão de Trussótski transcende a mera sede de vingança. Movido por um desejo metafísico, ele persegue o rival no intuito de se apropriar da sua "essência" sedutora e do seu donjuanismo. Trussótski encarna na perfeição o arquétipo do "eterno marido" — o homem estruturalmente submisso, cuja inserção e validação social dependem da figura feminina, e que desenvolve uma necessidade neurótica de se aproximar dos próprios homens que o traem, idolatrando-os e odiando-os em simultâneo.
    No plano formal e estrutural, o romance é uma ilustração brilhante dos conceitos de dialogismo e polifonia, célebres na teoria de Mikhail Bakhtin. A narrativa dispensa um narrador dotado de uma verdade absoluta ou intenção moralizadora. As consciências das personagens chocam em pé de igualdade, atirando o leitor para o centro de um complexo jogo psicológico. Os diálogos são labirínticos, construídos sobre insinuações venenosas, subentendidos e discursos bivocais, onde a verdade nunca é entregue de forma direta, mantendo uma atmosfera de permanente suspense.
    Através desta colisão de neuroses, Dostoiévski tece também uma crítica feroz à racionalidade estrita e ao utilitarismo da sua época. O autor prova que o ser humano não é uma máquina movida exclusivamente pela lógica ou pelo benefício próprio, agindo frequentemente contra os seus próprios interesses, arrastado por instintos autodestrutivos, pulsões caóticas e pelas complexas teias do subsolo da mente humana.

Resumo de O Eterno Marido

Dostoiévski
   Veltchanínov é um hipocondríaco de 38/39 anos, com uma educação esmerada, vaidoso, progressivamente solitário e cismático, perde a memória de coisas recentes e recorda, sob um novo ponto de vista, factos remotos (as duas fortunas desbaratadas, o filho tido de um popular — ambos abandonados, comportamentos "criminosos", calúnia de pessoas), desliga-se por vezes da realidade. Mantém um litígio em tribunal. Toda a angústia e perturbação que sente, conclui, fica a dever-se a uma série de encontros, na rua, com um misterioso homem, de chapéu com fita de luto, que parece persegui-lo.
    Uma noite, sonha que assassinou um homem e ocultou o crime. Outro homem, outrora muito familiar a Veltchanínov, já falecido, está em sua casa e dele depende a sua condenação ou absolvição. Subitamente, desperta e encontra à porta de casa o homem com a fita de luto no chapéu. O homem é, afinal, Pável Pávlovitch Trussótski, um velho conhecido de Veltchanínov, viúvo há pouco tempo. A mulher, Natália Vassílievna fora, então, sua amante, por quem ele faria qualquer loucura que ela desejasse: era uma mulher sedutora, escravizante e dominadora. Após a partida dele, ela teve novo amante: Bagaútov. Trussótski era o "eterno marido", ou seja o homem que casa para ser "cornudo" sem o saber. O poder dela era tal que quem acabava as relações era Vassílievna.
    Trussótski vive em Peterburgo, numa casa miserável, com uma criança de 8 anos, Liza, sua filha. Por isso, Veltchaninov convida-o para sua casa e a enviar a filha para uma casa de seus conhecidos para o tempo que eles ainda estão ali, onde será bem tratada. A criança nasceu cerca de oito meses depois de Veltchanínov ter saído de T... Ora, uma das razões invocada por Natália para acabar o romance com ele foi precisamente a suspeita de uma gravidez deste.
    Veltchanínov confidencia à sua amiga Klávdia Petrovna Pogoréltsev, a mãe de família que acolhera temporariamente Liza, estar convencido que esta é sua filha e que Trussótski o visitou por despeito, para se "vingar" do romance que manteve com Natália. Trussótski sabe que Bagaútov foi amante da falecida mulher, porque esta deixou uma caixinha contendo, entre outras coisas, a sua correspondência com o amante. Veltchanínov suspira de alívio por nunca ter escrito uma carta amorosa que fosse a Natália; por outro lado, fica a saber que trata Liza com grande crueldade, beliscando-a, apelidando-a de bastarda, ameaçando que um dia se enforcará e que a culpa será dela.
    Enfim, Liza adoece e pede a Veltchanínov que a leve de casa dos Pogoréltsev, o que lhe é impossível. Ao décimo dia na casa destes, a criança morre. Veltchanínov passa os últimos dias à cabeceira da sua cama; depois parte em busca de Trussótski, que encontra, mais uma vez, bêbedo, numa casa de passe, dizendo-lhe que o verdadeiro pai de Liza era um alferes de artilharia. Trussótski simula a doença e envia uma carta de agradecimento aos Pogoréltsev, juntamente com 300 rublos para pagar as despesas da estadia e do funeral, mas estes utilizam apenas o necessário para o funeral e devolvem-lhe o restante. Veltchanínov erra pela cidade, desmazelando a sua pessoa por completo (é-lhe indiferente, por exemplo, o facto de ter sido solucionado o litígio que mantinha de forma positiva para si).
    Tempo depois, Trussótski anuncia-lhe o intuito de se casar com uma menina de 15 anos, filha de Zakhlebinin, conselheiro de estado que agia em favor da parte contrária no litígio de Veltchanínov. Trata-se de uma família sem grandes possibilidades de acumular riqueza, constituída por vários filhos, pelo que é necessário casá-los com alguém de posses. Daí o interesse mútuo no casamento; para Trussótski o que o atrai também é a inocência da menina. Ele vem convidar Veltchanínov para o acompanhar à casa de campo da família, para o apresentar a esta. Este apercebe-se de imediato que a pretendida, Nádia, odiava o pretendente e aceita muito a custo a pulseira que lhe oferece. Pelo contrário, o saber estar e conversar em sociedade de Veltchanínov logo o guindam ao centro das atenções, a todos agradando. Nas brincadeiras que efectuam, os jovens troçam e ridicularizam diversas vezes Trussótski que, furioso, "obriga" Veltchanínov a abandonar a casa de Zakhlebinin, perante a estupefacção geral, ao dar-se conta que Veltchanínov conquistara o coraçãosinho de Nádia.
    Quando estão em casa de Veltchanínov, recebem a visita de um jovem de 19 anos, Aleksandr Lóbov, que está comprometido com Nádia, e vice-versa, tendo a mesma já pedido em casamento, apesar da oposição do pai dela, e que vem solicitar a Trussótski que abandone o ignóbil intento de desposá-la. Veltchanínov é acometido de uma crise de fígado durante a noite, tem um sonho semelhante ao que lhe ocorrera algum tempo atrás e, quando desperta, é vítima de uma tentativa de assassinato por parte de Trussótski, com uma navalha da barba. De manhã, Veltchanínov expulsa-o de sua casa.
    No dia seguinte, Lóbov informa Veltchanínov de que Trussótski partiu, de regresso, para T... e entrega-lhe uma carta que ele lhe deixou. Dentro do sobrescrito existe uma carta escrita por Natália para Veltchanínov, mas que ela não enviou afinal e substituiu pela outra. Nessa carta, Natália dizia-lhe estar apaixonada por Veltchanínov e estar grávida dele, Veltchanínov.
    Dois anos depois, Veltchanínov viaja até Odessa para visitar um amigo e na esperança de ser apresentado a uma determinada senhora. É um homem, agora, que recuperou o seu gosto pelo convívio social. Numa paragem do comboio na estação, há um episódio em que uma senhora é ofendida por um comerciante bêbedo e Veltchanínov vai em seu socorro. Ora, essa senhora é "apenas" a nova esposa de Trussotski, que aparece pouco depois. Ele é dominado pela mulher, de quem tem medo, e vive atormentado pela possibilidade de ser novamente atraiçoado.
    Veltchanínov, de mau humor, causado pela despedida intempestiva de Trussotski, acaba por não visitar a sua senhora conhecida, o que provoca um comentário final do narrador pleno de suspense: "Mas ele o viria a lamentar, mais tarde !!!"

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Resumo de A Dama do Lago, de Raymond Chandler

Raymond Chandler
    A Dama do Lago (The Lady in the Lake) é um romance policial da autoria do escritor Raymond Chandler.
    O início da história acompanha o detetive privado Philip Marlowe, que se desloca aos luxuosos escritórios da empresa de cosméticos Gillerlain para se encontrar com o rígido e arrogante empresário Derace Kingsley, após a recomendação de um tenente.
    Após um primeiro contacto tenso e uma breve negociação sobre honorários e confidencialidade, Kingsley revela o motivo da reunião: quer contratar Marlowe para encontrar a sua mulher, Crystal, que está desaparecida há cerca de um mês. O último local onde esteve foi na propriedade do casal nas montanhas, junto a um lago (Little Fawn Lake).
    Kingsley explica que recebeu um telegrama de Crystal, oriundo de El Paso, a informar que iria para o México tratar do divórcio para se casar com um homem chamado Chris Lavery, descrito como um conquistador. O mistério adensa-se quando Kingsley conta que se cruzou acidentalmente com Lavery há poucos dias e este lhe garantiu que não fugiu com Crystal nem a via há dois meses.
    Temendo um escândalo e sabendo que a mulher tem um comportamento bastante errático e extravagante quando bebe (incluindo roubar em lojas), Kingsley confia a investigação a Marlowe, temendo que algo de grave lhe possa ter acontecido.
    O detetive traça logo o seu plano de ação: interrogar Chris Lavery e fazer uma visita à propriedade na montanha. Antes de sair, pede a morada de Lavery à elegante secretária do empresário, Miss Fromsett, que reage com evidente nervosismo e desconforto ao ouvir o nome do homem, dando assim o mote para o arranque da investigação.
    Dando seguimento à investigação, o detetive dirige-se à casa de Chris Lavery. Após alguma insistência, este acaba por deixá-lo entrar, mas mostra-se arrogante e esquivo. Nega ter fugido com Crystal para El Paso e garante que não a vê desde que estiveram juntos na montanha, não adiantando qualquer pista sobre o seu paradeiro. Ao sair da casa, Marlowe decide ficar a observar a rua a partir do seu carro e depara-se com uma situação suspeita na vivenda em frente, que pertence a um médico chamado Dr. Albert Almore, que se apercebe da sua presença e se mostra bastante nervoso, espreitando por entre as cortinas e fazendo um telefonema.
    Pouco depois, surge um detetive da polícia, o tenente Degarmo, que confronta o detetive de forma hostil. O polícia assume imediatamente que Marlowe está ali para vigiar ou chantagear o Dr. Almore, lançando-lhe avisos em tom de ameaça e indicando que o último homem que tentou fazer o mesmo teve um desfecho infeliz. O investigador esconde os seus verdadeiros motivos, afasta-se e regressa ao escritório. De seguida, telefona a Derace Kingsley para o informar sobre o encontro infrutífero com Lavery e relata-lhe o estranho episódio com o vizinho. O empresário revela então um detalhe intrigante: o Dr. Almore foi médico de Crystal no passado, tratando-a nos seus episódios de embriaguez, e a própria mulher do médico cometeu suicídio há algum tempo. Perante este novo mistério que parece cruzar-se com o seu caso, o detetive decide avançar para a fase seguinte do seu plano e informa Kingsley de que irá viajar até à propriedade do casal nas montanhas para tentar descobrir o que realmente aconteceu a Crystal.
    Dando continuidade à investigação, Marlowe viaja até à remota propriedade dos Kingsley nas montanhas, perto de San Bernardino, no isolado Little Fawn Lake. Lá, depara-se com Bill Chess, o caseiro do local, um homem rude, amargurado e com forte tendência para a bebida. Durante a conversa, este confirma que Crystal Kingsley partiu para a cidade há cerca de um mês e não voltou a ser vista. Contudo, o caseiro acaba por desabafar e partilha um detalhe trágico e coincidente: a sua própria mulher, Muriel, também o abandonou exatamente na mesma altura. Após uma discussão motivada pela infidelidade de Bill, Muriel desapareceu, deixando-lhe apenas um bilhete a dizer que preferia a morte a continuar a viver com ele. O detetive aproveita a oportunidade para revistar a cabana de Kingsley em busca de pistas sobre a fuga de Crystal, investigando as roupas e pertences deixados para trás. No entanto, é no exterior que a investigação sofre uma reviravolta chocante e macabra.
    Enquanto os dois homens contemplam as águas do lago a partir de um pontão, reparam numa forma estranha presa debaixo de água, sob uma antiga estrutura de madeira. Bill atira uma pesada pedra para quebrar as tábuas submersas, libertando o que lá estava preso. O corpo afogado e em avançado estado de decomposição de uma mulher loira vem flutuar à superfície. Ao reconhecer o colar de pedras verdes que a vítima traz ao pescoço, Bill Chess entra em absoluto desespero, percebendo que a mulher morta no lago é afinal a sua esposa, Muriel. Após a macabra descoberta do corpo, Marlowe deixa-o sozinho e em estado de choque junto ao lago, dirigindo-se à povoação para alertar as autoridades locais.
    Lá, o detetive encontra Jim Patton, um homem corpulento, mais velho e de modos muito pacatos, que acumula as funções de xerife e delegado daquela jurisdição e que se encontra em plena campanha eleitoral para manter o cargo. Marlowe relata-lhe o aparecimento do cadáver na propriedade dos Kingsley, confirmando que, a julgar pelas roupas e pelos indícios, se trata de Muriel Chess.
Marlowe partilha também os detalhes da descoberta: o facto de o corpo estar submerso e preso debaixo do pontão há cerca de um mês, e a existência do bilhete de despedida que sugere um possível suicídio.
Sem demonstrar qualquer sobressalto ou pressa excessiva, o pragmático xerife Patton aceita a gravidade da situação e prepara-se para intervir. Antes de arrancarem nos respetivos carros em direção a Little Fawn Lake, Patton retira estrategicamente uma garrafa de uísque da sua secretária para ajudar a acalmar Bill Chess e informa que irá contactar o médico local, o doutor Hollis, dando assim início às diligências oficiais da investigação. Apesar da insistência do viúvo de que a mulher se suicidou atirando-se à água e ficando propositadamente presa debaixo do pontão, tanto o médico como o pragmático xerife mostram-se céticos em relação à teoria de um simples afogamento. Confrontado com as dúvidas das autoridades e com o facto de o bilhete de despedida ter a data de 12 de junho (há um mês), Bill Chess sofre um violento esgotamento emocional. Num acesso de fúria e desespero, agride-se a si próprio no rosto até sangrar e grita para que o prendam, culpando-se pela morte da mulher devido às suas infidelidades, embora negue veementemente tê-la assassinado. Mantendo a calma, Patton decide levá-lo para a vila para ser interrogado de forma oficial.
    Mais tarde, na vila de Puma Point, Marlowe é abordado junto ao seu carro por Birdie Keppel, uma bem-disposta cabeleireira local que também trabalha como jornalista para o jornal da terra. Após o detetive partilhar alguns dos detalhes que já são do conhecimento das autoridades sobre a descoberta no lago, Birdie decide partilhar uma pista crucial que introduz uma nova peça no puzzle. A jornalista revela que, há algumas semanas, um polícia de Los Angeles com tiques de valentão, chamado De Soto, andou pela zona a mostrar a fotografia de uma mulher chamada Mildred Haviland. Birdie reparou que a mulher da fotografia, apesar de ter a cor de cabelo e as sobrancelhas diferentes, era incrivelmente parecida com Muriel Chess. A suspeita adensa-se quando a jornalista confessa que chegou a comentar o episódio com a própria Muriel, notando que esta tentou disfarçar, mas não conseguiu ocultar um evidente nervosismo. Com esta revelação, Marlowe percebe que a pacata esposa do caseiro assumira uma falsa identidade e esconde segredos obscuros que a ligam à polícia de Los Angeles. No final da conversa, Birdie afasta-se na escuridão e o detetive dirige-se à central telefónica da vila.
    Após descobrir a pista sobre a falsa identidade de Muriel, Marlowe telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre o caso e aproveita para o questionar sobre o nome "Mildred Haviland", mas o empresário reage de forma defensiva e nega qualquer conhecimento sobre essa mulher. Nessa mesma noite, o detetive regressa furtivamente à propriedade em Little Fawn Lake e decide arrombar uma janela para investigar o interior da casa de Bill Chess. Para sua surpresa, depara-se com o pragmático xerife Jim Patton, que o aguardava calmamente às escuras no interior da habitação. Os dois homens acabam por partilhar informações e teorias sobre o crime. Quando Marlowe menciona a semelhança entre Muriel e a mulher procurada pela polícia de Los Angeles, Patton admite que também ele tinha sido abordado pelo mesmo detetive com a fotografia, mas que na altura optou por não dizer nada.
    Em seguida, o xerife partilha um avanço crucial na investigação: antes de regressar à cidade, foi investigar as redondezas de um lago vizinho e isolado, chamado Coon Lake. Lá, escondido num barracão de uma estância de verão abandonada, Patton encontrou o carro de Muriel com as suas malas e roupas empacotadas. Além disso, mostra a Marlowe uma prova muito peculiar encontrada no local: um fio de ouro de tornozelo, cortado, que estava cuidadosamente escondido no meio de pó branco, dentro de uma caixa de açúcar. Perante este cenário tão engenhoso e calculado, ambos concordam que Bill Chess dificilmente teria a frieza, a astúcia ou até a capacidade de planeamento para ocultar o carro e as provas com aquele nível de detalhe. Esta conclusão levanta sérias dúvidas sobre a culpa do caseiro e adensa ainda mais o mistério em torno do passado obscuro de Muriel e de quem a quereria ver morta.
    A investigação de Philip Marlowe sofre um novo avanço quando este decide revistar minuciosamente a cabana de Bill Chess. Escondida no fundo de uma caixa de açúcar em pó, o detetive encontra uma pequena medalha de ouro em forma de coração com uma dedicatória de "Al" para "Mildred". Esta prova confirma definitivamente que a falecida Muriel Chess e a procurada Mildred Haviland são a mesma pessoa. O detetive partilha a descoberta com o xerife Patton, sugerindo a teoria de que o assassino será alguém do passado da vítima que a conseguiu raptar, e não o caseiro Bill.
    Dando seguimento à busca pela esposa do seu cliente, desloca-se a um hotel em San Bernardino, onde o carro de Crystal Kingsley havia sido guardado. Após instalar-se num quarto e subornar os funcionários do hotel para obter informações sobre a noite de 12 de junho, faz uma descoberta crucial: ao mostrar uma fotografia, um dos empregados reconhece Chris Lavery como sendo o homem que abordou a mulher loira no átrio do hotel. O funcionário confirma ainda que os dois jantaram juntos e partiram no mesmo táxi. Esta revelação destrói o álibi do indivíduo, que garantira a Marlowe e a Kingsley não ver Crystal há largos meses. Com esta nova e comprometedora pista em mãos, o detetive regressa a casa, em Hollywood, exausto e assombrado por pesadelos com o cadáver da mulher no lago, preparando-se para o próximo confronto.
    Na manhã seguinte, Marlowe recebe a visita do Tenente Greer, que o interroga e se mostra bastante desconfiado com a coincidência de o detetive estar presente no momento em que o corpo da mulher foi retirado do lago. Após este encontro, ele telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre as suas descobertas. Tenta também contactar a esquadra para localizar De Soto (o misterioso polícia que andara à procura de Mildred Haviland), mas informam-no de que não existe nenhum agente com esse nome.
    Seguindo a pista do homem que se encontrou com Crystal, o investigador dirige-se à casa de Chris Lavery em Bay City. Encontra a porta de entrada destrancada e, ao entrar, depara-se com uma mulher invulgar a descer as escadas com uma arma na mão, que se identifica como Mrs. Fallbrook, a senhoria de Lavery, justificando a sua presença com rendas em atraso e alegando ter encontrado o revólver abandonado nos degraus. Ela entrega-lhe a arma e ele percebe que esta cheira a pólvora por ter sido disparada há pouco tempo. Sozinho, Marlowe começa a investigar as divisões. No quarto, encontra vestígios da presença recente de uma mulher e descobre um lenço escondido debaixo de uma almofada com as iniciais "A. F." (que coincidem com Adrienne Fromsett, a secretária de Kingsley). Contudo, o momento mais chocante dá-se quando força a entrada na casa de banho, que se encontrava trancada. Lá dentro, descobre o corpo de Chris Lavery caído no polibã, brutalmente assassinado com vários tiros. Fiel ao seu estilo de não se comprometer antes do tempo, limpa as suas impressões digitais, guarda o lenço como prova e abandona a cena do crime sem alertar as autoridades, partindo para se encontrar pessoalmente com Derace Kingsley. No escritório deste, confronta a secretária Adrienne Fromsett, mostrando-lhe o lenço perfumado que encontrou debaixo da almofada de Lavery. Ao revelar que o homem foi brutalmente assassinado na casa de banho, a secretária fica em choque e nega qualquer envolvimento no crime, sugerindo que alguém deixou lá o lenço de propósito para a incriminar. Marlowe decide guardar segredo e poupá-la, por agora, a esse escândalo.
    Após esta conversa, o detetive regressa à casa de Lavery, em Bay City. Posiciona a arma que retirara à misteriosa mulher e telefona finalmente à polícia local para relatar o homicídio. A cena do crime é rapidamente invadida por agentes, destacando-se a chegada do Capitão Webber e do robusto Tenente Degarmo, o mesmo polícia hostil que já havia ameaçado Marlowe quando este vigiava a casa do Dr. Almore. Durante o tenso interrogatório que se segue, é forçado a abrir o jogo: revela que é detetive privado e que foi contratado por Derace Kingsley para encontrar a sua mulher, Crystal, que alegadamente teria fugido com o falecido. Relata também as suas recentes descobertas na montanha, incluindo o aparecimento da mulher afogada, ligando assim os dois casos. No entanto, a revelação mais comprometedora surge quando admite que as roupas de senhora que estão no quarto de Lavery correspondem exatamente à descrição da roupa que Crystal Kingsley usava recentemente. Para os polícias, especialmente para Degarmo, as provas parecem claras e a desaparecida passa a ser considerada a principal suspeita do homicídio de Lavery.
    Enquanto a equipa forense e o médico legista chegam para examinar o corpo, Marlowe não resiste a testar as águas e confronta diretamente o Tenente Degarmo com a morte da mulher do vizinho, o Dr. Almore. O detetive aponta a estranha coincidência de ter sido o próprio Lavery a encontrar o corpo na altura e o facto de a polícia de Bay City ter abafado o caso. A menção a este assunto deixa Degarmo tenso, frio e na defensiva, adensando a suspeita de que a polícia local esconde segredos obscuros.
    De regresso ao seu escritório, Marlowe encontra um bilhete da secretária Adrienne Fromsett com a morada dos pais da falecida mulher do Dr. Almore, os Grayson. O detetive decide visitá-los no seu apartamento para obter mais informações sobre a morte suspeita da filha, Florence, e tentar descobrir o paradeiro do detetive privado que o casal havia contratado no passado, um homem chamado Talley. Durante a conversa, os Grayson revelam que acreditam que o clínico é um médico corrupto, envolvido no fornecimento de narcóticos a pacientes viciados, e partilham a convicção de que ele terá assassinado a própria mulher. Explicam ainda que Florence era insubmissa e desconfiava que o marido mantinha um caso amoroso com a enfermeira do seu consultório. O momento mais revelador do encontro surge quando a Sra. Grayson recorda o nome dessa enfermeira: Mildred Haviland. Esta descoberta é uma peça central para Marlowe, pois liga de forma inegável o passado obscuro e os encobrimentos em Bay City à mulher encontrada morta no lago nas montanhas (Muriel Chess, a mulher do caseiro, que assumira essa mesma identidade).
    Após Marlowe deixar os Grayson em choque com a notícia de que Chris Lavery — o homem que "convenientemente" encontrou o corpo de Florence — foi assassinado a tiro nessa mesma manhã, o casal cede-lhe a morada da mulher de Talley. A narrativa prossegue então com o detetive a dirigir-se de imediato a essa morada em Bay City. A meio da noite, bate à porta da pequena casa na esperança de localizar o antigo detetive, cujas investigações passadas parecem conter a chave para desvendar toda a teia de homicídios. A visita é violentamente interrompida por dois polícias corruptos de Bay City, que o agridem física e verbalmente, o forçam a beber uísque para o poderem prender sob a falsa acusação de condução sob o efeito de álcool e o atiram para uma cela. Mais tarde, é levado para interrogatório perante o Capitão Webber e o hostil Tenente Degarmo. Longe de se deixar intimidar, o detetive denuncia a armadilha de que foi alvo e revela abertamente que estava a investigar as pontas soltas do caso Almore. Ao perceber que tinha sido Degarmo a enviar os agentes para o intimidar e encobrir o passado, o Capitão Webber repreende o tenente e expulsa-o do gabinete.
    A sós com o Capitão, Marlowe expõe toda a teia que une os vários mistérios: explica a intrincada ligação entre o assassinato de Chris Lavery (o homem que "descobriu" o corpo da mulher do Dr. Almore) e a verdadeira identidade do cadáver encontrado no lago nas montanhas. Ele revela que a vítima do lago, Muriel Chess, era na verdade Mildred Haviland, a antiga enfermeira do médico e a principal suspeita de ter estado envolvida na morte da mulher do médico. Perante o peso destas "coincidências" fundamentais e inegáveis que ligam os acontecimentos de Bay City à remota propriedade nas montanhas, Webber rende-se aos factos. Decide que já não é possível ignorar o passado, concorda em integrar o caso Almore na atual investigação de homicídio e pede a Marlowe que se sente para discutirem os próximos passos.
    Na sequência da sua conversa com o Capitão, o detetive detalha as provas que tinham sido recolhidas no passado pelo investigador privado Talley, nomeadamente a descoberta de um sapato de baile escondido que pertencia à falecida Florence Almore. Esse detalhe provava que o corpo da mulher tinha sido vestido e movido após a sua morte, encobrindo um assassinato. O detetive reforça assim a teoria de que Mildred Haviland (a ex-enfermeira do Dr. Almore e a verdadeira identidade da mulher morta no lago) está no centro de toda a teia criminal, sublinhando que o seu único objetivo é provar que a esposa do seu cliente, Crystal Kingsley, não assassinou Chris Lavery.
    Após deixar a esquadra e regressar ao seu hotel em Hollywood, o descanso de Marlowe é interrompido a meio da noite por um telefonema de Derace Kingsley. Poucos minutos depois, o empresário e a sua secretária, Miss Fromsett, surgem no quarto do detetive. O empresário, com um aspeto exausto e perturbado, revela que Crystal telefonou para Miss Fromsett a pedir urgentemente 500 dólares, justificando o pedido com o facto de recear que a polícia já tenha emitido um mandado de captura contra si, o que a impede de levantar dinheiro num banco ou trocar cheques. As suas instruções foram claras: alguém teria de lhe entregar o dinheiro num bar em Bay City chamado Peacock Lounge e, para que pudesse identificar o mensageiro, este deveria usar um vistoso cachecol verde e amarelo que pertence ao marido. Apesar de estar quase convencido de que Crystal foi a responsável pela morte de Lavery, Kingsley não a quer abandonar e pede a Marlowe que faça a entrega do dinheiro para a ajudar a escapar. Este aceita a arriscada missão, recebe o envelope com os 500 dólares e o espalhafatoso cachecol e sai na calada da noite rumo a Bay City para o encontro com a mulher que procura desde o início da investigação.
    Marlowe chega ao bar Peacock Lounge, mas acaba por ser abordado no exterior por uma mulher misteriosa de cabelo escuro. Ela exige que lhe entregue os quinhentos dólares, mas o detetive recusa-se a fazê-lo sem obter respostas primeiro. A contragosto, ela diz-lhe para se encontrarem no quarto 618 do Hotel Granada. Aí, começa a interrogá-la sobre os seus passos desde a suposta fuga. Durante a conversa, o detetive revela que a polícia encontrou o corpo de Muriel Chess no lago há um mês e que esta era, na verdade, Mildred Haviland, a antiga enfermeira do Dr. Almore. A mulher finge não saber de nada e mostra-se surpreendida,mas Marlowe confronta-a e desmascara-a por completo. O detetive revela que percebeu o seu teatro e que sabe que ela é a mesma pessoa que se fez passar por "Mrs. Fallbrook" (a suposta senhoria) na casa de Chris Lavery. Sem rodeios, acusa-a do assassinato de Lavery. Com uma frieza impressionante, a mulher confessa o crime, justificando que o matou porque este lhe tinha roubado o dinheiro todo da carteira. De imediato, saca de um revólver e aponta-o a Marlowe. Este tenta usar um truque para a distrair, avisando-a de que a arma está travada, o que lhe dá uma aberta para se atirar a ela e tentar desarmá-la. No entanto, enquanto os dois lutam pelo revólver, um homem misterioso surge subitamente de trás de uma cortina do quarto e atinge o investigador violentamente na cabeça que o faz perder os sentidos.
    Quando recupera os sentidos no chão do quarto de hotel, depara-se com um cenário macabro: a mulher que interrogara está morta na cama, brutalmente estrangulada, e ele próprio está encharcado em gin. Com os seus quinhentos dólares ainda no bolso do casaco, percebe que o verdadeiro assassino armou o cenário para o incriminar. Ouvindo passos e murros na porta, percebe que não tem tempo a perder. Numa fuga arriscada, escapa pela janela da casa de banho e trepa pelo parapeito exterior do edifício até conseguir invadir o apartamento contíguo. Aí, veste uma camisa limpa pertencente ao morador ausente e tenta sair tranquilamente pela porta principal, passando-se pelo vizinho. No entanto, o plano falha quando dá de caras no corredor com um agente da polícia e com o implacável Tenente Degarmo. Este percebe de imediato o embuste, nota o cheiro a gin e acusa o detetive do homicídio da mulher. Contudo, em vez de o deter formalmente, o tenente, que pelos vistos se encontra suspenso, decide contornar as regras. Com a ajuda do seu agente subordinado (Shorty), leva Marlowe em segredo até à garagem do prédio, evitando cruzar-se com o seu superior, o Capitão Webber. Pelo caminho, manda o outro agente sair da viatura, preferindo conduzir o interrogatório a sós e à margem dos regulamentos oficiais.
    Durante a viagem noturna de carro, o investigador privado conta a sua versão dos acontecimentos a Degarmo: explica o encontro com a mulher, a luta pela arma e o ataque surpresa do misterioso homem corpulento escondido atrás da cortina. O detetive partilha ainda o cachecol de Kingsley e sugere que o empresário teria fortes motivos (financeiros e pessoais) para querer a mulher morta. Intrigado com a teoria de Marlowe ou talvez movido pela sua própria agenda, o policial muda de rumos e os dois dirigem-se a Beverly Hills para confrontar diretamente Derace Kingsley.
    O detetive e o tenente Degarmo dirigem-se a meio da noite ao apartamento de Adrienne Fromsett, a secretária do empresário, informa-a de que a misteriosa mulher do hotel foi estrangulada e mostra-lhe o cachecol verde e amarelo deixado na cena do crime. Embora acabe por admitir que Kingsley não tem um álibi para a hora do homicídio, Miss Fromsett recusa-se a acreditar que ele seja um assassino. Sem saber o seu paradeiro exato, sugere que o empresário possa ter procurado refúgio na sua cabana isolada em Little Fawn Lake. Marlowe usa o telefone da secretária para contactar o xerife Jim Patton, pedindo-lhe que verifique se o suspeito se encontra na propriedade da montanha. De seguida, ele e Degarmo fazem-se à estrada numa longa viagem de carro em direção à serra.
    Durante a viagem, ocorre uma revelação chocante: Degarmo confessa a Marlowe que a mulher encontrada morta no lago (Mildred Haviland, que usava a falsa identidade de Muriel Chess) tinha sido sua companheira e que o seu homicídio o deixou completamente transtornado e cego de raiva. Aproveitando a vulnerabilidade do polícia, o detetive confronta-o com toda a teia que finalmente conseguiu desvendar: Degarmo sempre soube que tinha sido Mildred a assassinar a mulher do Dr. Almore no passado. Cego pelos seus sentimentos, o tenente encobriu o crime, ajudou-a a fugir para a montanha e silenciou o detetive privado que tentou investigar o caso. A situação acabou por se descontrolar mais tarde, quando Mildred, farta da vida com o rude caseiro Bill Chess, tentou extorquir dinheiro ao médico, levando a que as pontas soltas do passado se voltassem a cruzar. Encurralado pelas deduções precisas do detetive, Degarmo não nega as acusações e admite estar metido numa embrulhada sem saída. Marlowe, por sua vez, reitera que o seu único objetivo é provar a inocência do seu cliente, Derace Kingsley. Sem mais segredos entre ambos, os dois prosseguem a sua tensa viagem em direção a San Bernardino e ao derradeiro confronto nas montanhas.
    Os dois homens chegam finalmente à cabana em Little Fawn Lake, onde se reúnem com o xerife Jim Patton e encontram o empresário Derace Kingsley, que está embriagado e alheio a tudo. É neste cenário tenso que Marlowe desvenda a verdade final e chocante sobre toda a teia de crimes. O detetive explica a todos os presentes que o corpo encontrado no lago, afinal, não era de Muriel Chess (a verdadeira identidade da ex-enfermeira Mildred Haviland), mas sim da própria Crystal Kingsley. Mildred assassinara Crystal, vestira-lhe as suas roupas e atirara-a ao lago para encenar a sua própria morte, garantindo assim tempo e anonimato para escapar aos crimes que cometera no passado. A partir daí, Mildred assumiu a identidade da rica Crystal e acabou por assassinar Chris Lavery, pois este reconhecera-a no hotel e ameaçava expor o seu disfarce. Marlowe expõe ainda o derradeiro segredo que liga todas as pontas: o responsável pela morte de Mildred (quando esta se fazia passar por Crystal) no quarto de hotel em Bay City foi o próprio tenente Degarmo. Movido pelo ódio e pela repulsa face aos sucessivos crimes e traições da ex-mulher, o polícia decidiu silenciá-la com as próprias mãos, encenando depois o local para incriminar Marlowe.
    Encurralado pela verdade, o polícia saca do seu revólver num ato de desespero para tentar fugir. No entanto, surpreendendo todos, o pacato e experiente xerife Patton consegue desarmá-lo com um movimento brusco e preciso. Derrotado e ciente de que não tem escapatória legal, Degarmo abandona a cabana perante a passividade temporária de Patton e foge ao volante do carro de um dos polícias locais.
    Sabendo que o tenente não tem por onde escapar nas montanhas, Patton alerta de imediato por telefone os guardas militares que vigiam a barragem da região. Na sua fuga alucinada, Degarmo recusa-se a acatar as ordens de paragem no dique. Um dos sentinelas é forçado a disparar, o que faz com que o tenente perca o controlo do veículo descapotável, precipitando-se por uma ravina rochosa. A história encerra assim de forma trágica com a morte de Degarmo no fundo do desfiladeiro, colocando um ponto final na complexa teia de corrupção, enganos e homicídios.
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