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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

domingo, 5 de julho de 2026

Resumo de Os Insolentes,de Marguerite Duras

Marguerite Duras

    O excerto retrata o ambiente denso e sombrio no apartamento da família Grant-Taneran, situado no sétimo andar de um edifício com vista para um vale industrial, no dia em que a família é abalada por uma tragédia. A narrativa acompanha Maud, que observa o distanciamento emocional e a apatia dos seus familiares na sequência da morte repentina da sua cunhada, Muriel, num acidente de automóvel.

    Na sala de jantar, cujo espaço é dominado por um velho e banal aparador que sublinha a falta de gosto e a inércia da família, encontram-se amontoados os pertences de Jacques, o meio-irmão mais velho de Maud. Jacques, de quarenta anos, está fechado no quarto a chorar compulsivamente a perda da mulher, com quem havia casado há cerca de um ano. No entanto, a família deixa-o inteiramente entregue ao seu sofrimento, partilhando uma desconfiança desdenhosa por expressões de dor que serve de pretexto para o ignorarem e não o confortarem. Neste cenário de profundo silêncio e tensão, quebrado apenas pelos soluços que ecoam pelo corredor, a mãe — que sempre desaprovou o casamento do filho com Muriel — refugia-se na cozinha, num choro silencioso que se prolonga desde o meio da tarde. Entretanto, chega a casa o Sr. Taneran, o padrasto de Maud, um antigo professor de ciências com um ar abatido e solitário. Obrigado a regressar ao trabalho no Ministério da Educação aos sessenta anos para sustentar as avultadas despesas que o casamento lhe trouxe, ele usa a sua rotina profissional como uma forma de escapar à opressão familiar e ao terror constante que o enteado lhe inspira. Ao perceber imediatamente o ambiente anómalo na casa, e após um jantar rápido e taciturno servido por Maud, o Sr. Taneran pergunta e confirma o falecimento da nora em voz baixa. Após confessar de forma contida que, no fundo, não lhe queria mal nenhum, retira-se para o seu quarto, onde a sua inquietação se manifesta nos passos constantes que dá de um lado para o outro sobre o chão de madeira, que estala e chia suavemente debaixo dos seus pés durante muito tempo.

    O texto aprofunda o passado recente de Jacques, revelando a espiral de ruína financeira em que o seu casamento com Muriel mergulhara antes da tragédia. Habituado a esbanjar o dinheiro da mulher de forma inconsequente e a viver numa ociosidade fútil, o homem esgotara rapidamente a fortuna da esposa em esquemas duvidosos e dívidas. Desesperado, passara a mendigar dinheiro à família, encenando dramas para arrancar quantias pontuais à mãe, a Sra. Taneran, que controlava a ajuda financeira com uma mistura de amor e ódio para evitar ser totalmente explorada. O desespero de Jacques agravara-se com a chegada constante de cartas de cobrança de um banco, uma vergonha que ele se esforçava por esconder de Muriel, mantendo-a rigorosamente afastada da sua família. Por isso, a morte súbita da mulher, embora brutal, acaba por ser intimamente encarada pela mãe e pela família como a resolução de um suplício e de um problema financeiro insustentável.
    Por volta das dez da noite, o luto de Jacques atinge um momento de confissão quando chama a sua meia-irmã, Maud, ao quarto. Profundamente abatido e agarrado a uma madeixa de cabelo da mulher, ele relata os contornos bizarros e angustiantes daquela noite: os amigos tinham deixado Muriel em casa desmaiada, e ele passara a madrugada inteira a falar com ela enquanto o seu corpo arrefecia, apercebendo-se apenas com a luz da manhã de que o seu esgar era, na verdade, um sorriso estático. Só então a levou para o hospital, onde viria a falecer nessa mesma noite, deixando Jacques na dúvida sobre se teria sido um acidente.

    No entanto, a aparente vulnerabilidade e a partilha do luto genuíno são abruptamente estilhaçadas. Jacques, rebaixando-se e aproveitando-se do próprio infortúnio, pede dinheiro à irmã, alegando ter contraído dívidas para que Muriel fosse bem tratada. A jovem sente-se humilhada por aquela falsa intimidade e percebe de imediato a manipulação, reconhecendo a mistura perturbadora de dor real e cobiça nos olhos do irmão. Recuperando a frieza, avalia a situação com distanciamento e conta o pouco dinheiro que tem na carteira. Gélida e incomodada com a atitude do irmão, recusa-se a entregar-lhe as notas na mão, optando por pousá-las diretamente sobre o peito de Jacques antes de sair.
    No dia seguinte, Jacques enterra a mulher, acompanhado pela mãe, a Sra. Taneran. No regresso da triste cerimónia, ao caminharem por uma avenida soalheira que anuncia a chegada do verão, ambos partilham um momento de apaziguamento e de reconciliação tácita. Num misto de conforto e convalescença, ele deixa-se guiar, contentando-se em manter uma aparência enlutada apenas por um sentido de pudor. Aproveitando esta rara submissão do filho, a Sra. Taneran sugere-lhe uma viagem a Uderan, uma propriedade rural na Dordonha onde a família vivera no passado, longe de Paris e do Sr. Taneran. Embora a quinta se tenha revelado um enorme fracasso agrícola e a própria mãe tenha acabado por perder o interesse na lida do campo com a inconstância que a caracteriza, a propriedade permanece como um refúgio nostálgico e uma rede de segurança na memória familiar, para onde a matriarca deseja escapar sempre que o futuro lhe parece sombrio.
    Apesar desta invulgar proximidade com o filho mais velho, com quem habitualmente apenas partilha refeições marcadas pela tensão e por uma mútua detestação, a mãe não consegue sentir-se plenamente aliviada. A sombra da jovem recém-enterrada — e a suspeita perturbadora de que Muriel possa ter cometido suicídio — assombra-a, misturando-se com um profundo sentimento de culpa e de deceção face à maternidade. Ao contemplar Jacques, prestes a fazer quarenta anos e mergulhado no declínio resultante de sucessivos desvarios, a Sra. Taneran reflete sobre os seus próprios erros. Reconhece a forma como sempre lhe tolerou as fantasias, alimentando as suas ilusões de riqueza para evitar as suas habituais ameaças de abandono, e lamenta não o ter avisado do jogo perigoso em que se envolvera com o casamento.
    Perdida nestas reflexões, a matriarca pensa também na filha Maud, especulando se ela teria cedido aos pedidos de dinheiro do irmão, e constata que, sem a sua presença, a família se desmoronaria definitivamente. Sente-se a amargurada guardiã de um grupo disfuncional, composto por uma filha que considera ingrata, um filho perverso e um rapaz velho e arruinado. No íntimo, sonha em ser apenas uma velhinha tranquila com a sua missão terminada, livre daquela cidadela de indiferença. O peso desta tutela sufocante leva-a a questionar a razão de prolongar uma maternidade doentia e a dependência dos filhos, apercebendo-se com terror de que estes a consomem física e materialmente. Subitamente esmagada por um cansaço brutal e pela constatação da sua própria servidão, perde a força de aproveitar a manhã de sol. Interrompe abruptamente o passeio para chamar um táxi e, perante o olhar surpreendido e reprovador de Jacques, resigna-se e regressa docilmente à sua velha personagem.
    A dinâmica da família Grant-Taneran é marcada por um misto de repulsa e uma estranha atração magnética que os impede de se separarem definitivamente. Apesar de Maud fantasiar frequentemente com a ideia de fugir e nunca mais voltar a casa, acaba sempre por regressar, enredada naquele círculo estreito onde até as inimizades dão ocasionalmente lugar a tréguas que lhes permitem recuperar o fôlego. Após o jantar, a família costuma dispersar e o Sr. Taneran refugia-se no seu quarto, desfrutando de uma aparente solidão que, na verdade, depende do ruído e da presença constante dos enteados. Ele mantém a esperança teimosa de que a mulher, a quem ainda ama, volte a partilhar a intimidade consigo, usando frequentemente a futura estadia na propriedade rural de Uderan como pretexto para conversar com ela à noite. Por sua vez, a Sra. Taneran, desiludida com a propriedade e oprimida por medos supersticiosos em relação ao futuro, alimenta a ilusão de utilidade do filho mais velho, Jacques. Diz-lhe que ele será o responsável por Maud e pelo irmão mais novo, Henri, caso ela morra, garantindo assim que ele permanece dependente e sob a sua alçada.
    A convivência diária é pautada por humilhações e tensões constantes. Jacques trata o padrasto com um profundo e negligente desdém, embora Taneran sinta um prazer secreto e inconfessável nas raras ocasiões em que o enteado se vê forçado a rebaixar-se e a bater à sua porta para lhe pedir dinheiro. Quando tenta alertar a mulher para os maus caminhos de Henri e a indiferença de Maud, que se ri com escárnio das conversas dos adultos, a Sra. Taneran reage com irritação, defendendo cegamente a sua liberdade para educar os filhos como entende, recusando admitir o fracasso que já se evidenciara com Jacques. O ambiente denso é frequentemente assombrado por memórias de Uderan, reavivadas quando a mulher serve chá de tília ao marido para o consolar. Nessas recordações, a quinta surge como um lugar de isolamento e paranoia para Taneran, que, sentindo-se excluído pela cumplicidade entre a mãe e os filhos, costumava inquirir a pequena Maud, num tom cobarde e conspiratório, sobre o que os outros estariam a tramar na cozinha. Para a rapariga, a figura do padrasto fica intimamente associada a esse odor a tília, ao sorver ruidoso da bebida e à sua natureza amargurada.
    Qualquer frágil harmonia familiar é facilmente destruída, como acontece quando Jacques regressa a casa mais cedo do que o habitual, interrompendo as raras conversas noturnas entre a mãe, o padrasto e a irmã. Com a sua habitual arrogância, atira um jornal aos pés de Taneran e retira-se para o seu quarto, assobiando, indiferente à presença do velho. Em retaliação, este aproveita para culpar a mulher pela infelicidade que ela própria construiu com a sua postura, antes de se retirar para o seu quarto. Nestes momentos de tensão, Maud foge também para o seu quarto em silêncio. Despe-se às escuras para não ser notada, aceitando a sua existência esquecida e insignificante. Na escuridão, é tomada por uma raiva cega e solitária, agarrando-se à cama como um náufrago aos destroços, num desespero avassalador que, no entanto, acaba por se desvanecer rapidamente, tal como os seus antigos e irracionais medos infantis em Uderan desapareciam mal despontava o dia.
    A narrativa acompanha agora a chegada da família Taneran à sua propriedade rural de Uderan, situada na região agreste e desabitada do Alto Quercy. Tendo abandonado a casa principal há dez anos — agora reduzida a uma ruína inabitável onde a água entra e a erva cresce, tendo os móveis sido levados para Paris —, a família vê-se obrigada a instalar-se na casa dos vizinhos mais próximos, a família Pecresse. Estes são camponeses enriquecidos e ambiciosos que, ao longo do tempo, foram adquirindo parcelas da antiga herdade dos Taneran para construírem a sua própria fortuna. Entre os anfitriões destaca-se o filho, Jean Pecresse, um homem de trinta e três anos que leva uma existência solitária, avarenta e monótona. Após a morte da avó paterna, ficou subjugado ao afeto opressivo e agressivo da mãe e à figura cobarde e pacata do pai. Tímido e tratado frequentemente com desdém ou como um tolo pelos Taneran, Jean esconde, no entanto, um despertar emocional recente, provocado pelo encontro mágico com uma rapariga desconhecida e misteriosa junto ao rio, que o fizera sentir-se renascer.
    O contraste entre as duas famílias é evidente logo após a chegada. Os Taneran exibem o seu habitual ar de cansaço, tédio e superioridade silenciosa, não fazendo qualquer esforço para conversar, enquanto os Pecresse se mostram nervosos, emocionados e intimidados com o papel de anfitriões. À medida que a noite cai, Maud refugia-se no alpendre para contemplar a paisagem. Embora guarde poucas memórias do local, deixa-se envolver pela harmonia e pela paz intemporal que a natureza e os campos emanam. Jean aproxima-se dela em silêncio, sentindo-se oprimido, inadequado e constrangido no seu fato de caça. A rapariga, apercebendo-se da presença dele, sente-se irritada com a sua falta de naturalidade e com o esforço doloroso que ele faz para parecer algo que não é.
    Entretanto, Jacques é consumido por uma apatia e um aborrecimento brutais. A perspetiva de passar as férias no campo, privado das suas ilusões citadinas e rodeado por um silêncio que o aterroriza, aliena-o por completo, fazendo-o parecer inerte e quase ausente da própria vida. Mergulhado na letargia, reflete de forma cínica sobre a falecida mulher, Muriel. Admite que o relacionamento fora estragado pela constante necessidade de lhe esconder as dívidas e o dinheiro que esbanjava. A morte de Muriel não lhe traz um sofrimento amoroso autêntico, mas sim uma enorme deceção e um sentimento de abandono egoísta, uma vez que a tragédia lhe retirou a sua única fonte de sustento. Privado do propósito que encontrava em enganar a mulher, Jacques depara-se agora com um vazio absoluto, restando-lhe apenas a realidade implacável das dívidas e das letras do banco por pagar.
    A narrativa prossegue focada agora nas maquinações da Sra. Pecresse, uma mulher respeitada, mas secretamente consumida pela ambição de casar o filho, Jean, com Maud Grant. Para a camponesa, esta união representa muito mais do que um mero matrimónio; é a oportunidade ideal para adquirir definitivamente a propriedade de Uderan, um feito que conferiria uma certa nobreza à sua família. Embora Maud não seja considerada uma beleza clássica, a Sra. Pecresse fascina-se com a sua postura vagarosa e descomprometida, interpretando a sua ociosidade como um sinal de superioridade e uma marca de distinção em relação às raparigas da aldeia. À medida que o falatório entre os habitantes aumenta, assumindo que a ociosa Maud procura um marido para cultivar as terras, a Sra. Taneran pressente as intenções da anfitriã. Inesperadamente, a matriarca desenvolve um instinto protetor e veemente em relação à filha, confessando a Jacques que preferiria vê-la solteirona a casada com um Pecresse, consciencializando-se de que precisará de reunir energia para a salvar desse destino.
    Para consolidar os seus planos e estatuto, a família Pecresse organiza um grande jantar na velha propriedade de Uderan, convidando os notáveis e os camponeses da região. A casa abandonada é reaberta e perde um pouco do seu cheiro a mofo para a ocasião. De forma surpreendente, Maud decide que passará a noite lá, um pedido extravagante a que a sua mãe acede com uma indulgência invulgar. Fica decidido que Jean a acompanhe até à casa com uma lanterna. Durante o trajeto, num misto de tensão e nervosismo, o homem tenta perceber se a mãe já havia falado com a rapariga sobre os seus planos. Contudo, Maud, que ignora por completo a conspiração amorosa em seu redor, despede-o de forma abrupta e distante, afirmando conhecer o caminho. Esta rejeição provoca uma profunda frustração na Sra. Pecresse, que a tudo assistia de longe, fechando a janela do seu quarto com violência. Sozinha na noite, a jovem deixa-se encantar pelo silêncio compacto e misterioso do parque de Uderan. A sua quietude é subitamente quebrada pelo som invulgar de um cavalo que se aproxima. Um cavaleiro desconhecido passa muito perto dela na escuridão do caminho, um acontecimento perturbador e inexplicável, dado que os camponeses locais não costumam montar a cavalo. Após o som se afundar na noite, Maud entra em casa, deixando a porta aberta ao luar, e adormece num estado de sonolência inquieta.
    O jantar em Uderan decorre num ambiente inicialmente cerimonioso e tenso, marcado pelo fosso social entre os notáveis e os camponeses e por um silêncio constrangedor. No entanto, à medida que o velho vinho branco de Uderan, guardado pelo caseiro durante dez anos, começa a ser servido, as inibições desvanecem-se e a sala enche-se com uma algazarra ensurdecedora no dialeto local. Durante a refeição, Maud permanece totalmente alheada da festa, ignorando os esforços afetados da Sra. Pecresse para sublinhar as supostas atenções que Jean lhe dedica. O burburinho é interrompido quando os convidados decidem tentar integrar a rapariga na conversa, recordando em voz alta um episódio da sua infância.
    Sentindo-se o alvo de todos os olhares, e apercebendo-se do aborrecimento da mãe e do encolher de ombros desdenhoso dos irmãos, Maud reage de forma surpreendentemente agressiva. Em vez de alinhar na nostalgia inofensiva e apaziguadora, relata com frieza os detalhes do acidente de que falavam, lembrando de forma sangrenta uma vaca ferida, e aproveita para expor cruelmente a embriaguez de um dos camponeses presentes, Alexis, rebaixando-o perante todos. O seu tom cortante e implacável embaraça profundamente a assembleia, que por instinto toma o partido do homem humilhado, achando a atitude da jovem desconcertante. Percebendo de imediato o isolamento e o desconforto que gerou, Maud muda drasticamente de postura. Adota uma máscara de simpatia fútil e condescendente, distribuindo sorrisos e falsas aprovações para animar a mesa e reconquistar a benevolência dos convidados. Pouco depois, a alegria artificial dissipa-se e a festa, consumida pelo cansaço natural e pelo frio que se instala à medida que a lareira se apaga, chega silenciosamente ao seu fim, com os convidados a regressarem a casa na escuridão.
    No rescaldo do jantar em Uderan, onde Georges Durieux domina as atenções ao desencorajar os camponeses locais de adquirirem aquelas terras empobrecidas, torna-se evidente que Jean Pecresse perdeu qualquer esperança de conquistar Maud. Ao aperceber-se da atenção apaixonada com que a rapariga ouve Georges, Jean sente o seu desejo extinguir-se, abandonando a mesa amargurado e derrotado pelas maquinações vulgares da sua própria mãe. Nas semanas seguintes, Georges Durieux passa a visitar a propriedade quase diariamente. Fiel à sua dinâmica disfuncional, a família Grant-Taneran absorve o recém-chegado, e Durieux dá por si no centro das suas eternas discórdias, tentando inicialmente atuar como mediador até se deixar consumir pelo cansaço desse papel. Jacques, agora visivelmente apaziguado pelo aparente fim dos seus tormentos financeiros com o banco e exibindo uma amabilidade invulgar, aproxima-se rapidamente de Georges. Passa a acompanhá-lo em conversas e passeios, enquanto Maud mergulha numa espera passiva e dolorosa. Todos os dias a rapariga se senta sob um pinheiro, impondo a si mesma uma indiferença fingida, enquanto Georges a evita de forma deliberada e hesitante, dedicando a sua atenção a Jacques e à Sra. Taneran.
    Com a ausência cada vez mais frequente de Jacques e Georges, que passam a encontrar-se noutras paragens para escapar ao ambiente da propriedade, o tédio abate-se sobre Uderan. Em meados de junho, uma chuva persistente inunda a região durante uma semana, mas isso não detém Maud. Movida por uma obsessão tortuosa, ela passa os dias a vaguear pelos caminhos enlameados na esperança de vislumbrar Georges. Sofre em silêncio por ver o irmão monopolizar com facilidade o homem que ama, reconhecendo que Jacques exerce nos outros um fascínio quase marginal. Numa tarde, quando finalmente avista Georges à chuva, com um ar cansado e absorto, a cobardia paralisa-a e ela foge pelos campos sem se revelar, exasperada com a sua própria atitude.
    O isolamento e a melancolia culminam num final de tarde marcado por um denso nevoeiro. Ao descer em direção ao rio Dior à procura do irmão Henri, as memórias de infância de Maud são abruptamente interrompidas por uma visão aterradora nos juncos: o cadáver de uma mulher desconhecida. Após um primeiro grito abafado pelo medo, ela observa, perturbada, o corpo de tranças negras ser lentamente arrastado pela corrente, decidindo não alertar ninguém. Num estado de choque mudo, regressa apressadamente para junto da mãe. A Sra. Taneran, completamente alheia ao horror que a filha acabara de presenciar, queixa-se irritada de que a mãe de Jean Pecresse a viera visitar para propor formalmente o casamento entre os dois. Assoberbada pelo peso da imagem fúnebre do rio e pelas palavras vulgares da mãe, Maud não consegue conter o profundo desgosto e é consumida por uma insuportável vertigem. No final do jantar, Alexis, um criado que regressa do rio embriagado e com uma lanterna na mão, traz uma notícia trágica que se espalha de imediato: a jovem rapariga associada a Jean Pecresse, que trabalhava como criada na propriedade do Barque, cometeu suicídio. Ao ouvir a revelação, que lhe confirma a identidade do cadáver de tranças negras que encontrara na água, Maud permanece estática e impassível. Após a partida do criado, Dedde vira-se para a jovem com a intenção de a ilibar do peso daquela morte, revelando o que os rumores locais já dizem em voz alta: toda a gente acredita que foi a possibilidade de um compromisso com Maud que levou Jean a afastar-se da jovem. Tentando reconfortá-la, Dedde argumenta que o rapaz procurava apenas um pretexto para abandonar a pobre rapariga e nota, de forma cínica, que a ambiciosa Sra. Pecresse deve estar a suspirar de alívio com aquele desfecho trágico e conveniente para os seus planos. Mais tarde, nessa mesma noite, indiferente a todo o falatório em seu redor, Maud mantém o seu plano inicial e decide não regressar a Uderan, dirigindo-se em vez disso para o Barque.

Apreciação crítica de Contagem até zero

    Contagem até Zero destaca-se na obra de Agatha Christie pela sua estrutura narrativa inovadora e pela profunda exploração psicológica das personagens. A obra subverte a fórmula tradicional do romance policial ao propor, através da sabedoria do idoso advogado Mr. Treves, que o assassinato não é o ponto de partida da história, mas sim o seu culminar, a "hora zero" para onde convergem diversas circunstâncias, pequenas escolhas e indivíduos guiados pelo destino.
    O aspeto mais brilhante da trama é a desconstrução do próprio motivo do crime. A autora surpreende ao revelar que o brutal homicídio de Lady Tressilian é, na verdade, um crime secundário e meramente instrumental. O verdadeiro e maquiavélico objetivo de todo o plano é forjar provas de forma meticulosa para que Audrey Strange seja condenada à forca, num ato de vingança sádica por parte do seu ex-marido, Nevile.
    A caracterização joga constantemente com as perceções do leitor. Nevile Strange utiliza a sua imagem de desportista perfeito, calmo e carismático como uma máscara que oculta uma mente doentia e psicopata. Em contraste, Audrey é inicialmente vista como uma figura etérea, pálida e passiva, cuja apatia esconde afinal um terror profundo provocado por anos a viver sob a ameaça velada da loucura do ex-marido. A autora cria um excelente jogo de espelhos com as pistas do crime: o assassino planta indícios demasiado óbvios contra si mesmo para ser facilmente ilibado pela polícia, tornando assim as provas subsequentes contra Audrey muito mais credíveis e infalíveis.
    A obra ganha ainda uma camada filosófica invulgar através do arco de Angus MacWhirter. A jornada deste personagem, que começa num hospital após uma tentativa de suicídio por considerar a sua vida inútil, ilustra perfeitamente a tese central do livro de que todos têm um papel a desempenhar no grande xadrez da vida. A sua sobrevivência prova ter um propósito imprevisto, acabando por ser o acaso da sua presença no local exato a ditar a salvação de Audrey, utilizando o raciocínio lógico e a ousadia para enganar o próprio assassino.
    Em suma, trata-se de um brilhante exercício de suspense onde o elemento principal não é o "quem matou", mas sim a anatomia do ódio e a inexorabilidade do destino. O caso é desvendado confiando na análise da psicologia humana e orquestrando um clímax de tremenda pressão psicológica que destrói por completo a fachada de sanidade do antagonista.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Análise da cantiga "Bernal Fendudo, quero-vos dizer", de João Baveca

    Esta cantiga de maestria, da autoria de João Baveca, composta por três sétimas de versos decassílabos e rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema ABBACCA, aborda o tema da sodomia, associado a mouros. De facto, nela, dirigida provavelmente ao sodomita Bernal de Bonaval (o segrel cuja vida particular deu origem a várias sátiras por parte dos seus colegas trovadores), o autor brinca com os termos de guerra, relacionando-os com a lida sexual entre Bernal e os mouros que, no final, "morrerán enx vosso poder".

    No contexto da poesia trovadoresca, são cerca de 30 as cantigas que tratam da sodomia entre homens, a maioria produzida entre 1240 e 1350, o que coincide com o reinado de um dos grandes trovadores-mecenas daquele período (Afonso X) e com o acolhimento das cantigas provençais por parte de D. Afonso III, bem como com um ambiente de riso e festa — cuja principal manifestação é o Carnaval — que atravessa todo o tempo que vai de fins do século XII até meados do XIV. De acordo com a professora Graça Videira Lopes, a sodomia pode ser dividida em grupos de visados: altos funcionários, mouros, personagens vários e trovadores e jograis. Normalmente, usa-se o termo "sodomita" em vez de homossexual (séc. XIX) ou homoerótico (séc. XX) para designar estas práticas sexuais, porque é a palavra conhecida na época e registada em Las Siete Partidas, de Afonso X: "Sodomitico dizen al pecado en que caen los omes yaziendo unos con otros contra natura e costubre natural. E porque de tal pecado nacen muchos males en la tierra, do se faze, e es cosa q pesa mucho a Dios comel." Convém notar que a sodomia implicava um "deseo puramente anatomico", uma "transgressión de ordem físico", um "sujeito jurídico" que só a partir do século XIX passa a ser "uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida".

    Novamente segundo a professora Graça Videira Lopes, "muitos destes temas erótico-satíricos vão, aliás, desaparecer completamente da literatura 'oficial', pelo menos até ao séc. XIX, o que torna ainda mais notável este conjunto de poemas medievais. O caso da homossexualidade masculina é, nesta matéria, sintomático. Se [...] não encontramos nenhuma referência autobiográfica, sendo mesmo, em geral, a atitude condenatória, de notar-se, que esta condenação se processa, nos Cancioneiros, com uma boa dose de humor [...]. A homossexualidade não nos surge assim aqui como aquele «crime nefando» passível de pena de morte, que vemos referido nos documentos oficiais da igreja e mesmo das instituições civis."

    A maioria das cantigas satíricas sobre sodomitas está ligada ao funcionalismo da corte (21 cantigas), sendo aqueles "acusados" de manterem relações com subordinados, de se obstinarem sexualmente, de inverterem os papéis (de passivo para ativo), de serem cruéis nas relações, de agirem com hipocrisia, de desejarem casar-se com homens ou de contraírem doenças. Cada um destes motivos encerraria uma sátira ao desempenho e não à natureza da sexualidade. Convém notar que, apenas nos séculos XII e XIII, se olha para a homossexualidade como fenómeno contrário à natureza. Em contraste com certa gravidade e melancolia de cantigas sobre traições de vassalos, sobre a avareza e sobre o mundo às avessas, à maneira de sirventeses morais, nas cantigas sobre sodomitas predomina o humor brincalhão e obsceno (tal como sucede nas cantigas dedicadas a soldadeiras e clérigos), frequentemente equívoco (26 cantigas). Estas cantigas exploram também as questões da moral privada, mostrando a que ponto os tabus sexuais são violados, sem que se saiba o partido dos trovadores.

    No "incipit", encontramos um nome próprio (Bernal) e um apelido (Fendudo), o qual, por meio da "interpretatio nominis", nos coloca no campo da atividade homossexual, entendendo esse apelido como significando "fendido", "fissurado". “Fendudo” faz referência a estar separado em dois, facto que pode resultar das práticas sexuais que Bernal realiza com outros homens. O sujeito poético parece querer aconselhar essa figura sobre como agir perante o desejo de lhe darem armas e chama, "dona selvage". Esta expressão deverá constituir uma alusão aos "cavaleiros selvagens", personagens bravias e hirsutas, habituais nas novelas de cavalaria, aqui usada para feminizar o visado pela cantiga. O conselho surge nos quatro versos finais da cobla: Bernal Fendudo deverá resistir para se defender num hipotético combate armado contra os mouros. Note-se que, na fase mais profícua da poesia trovadoresca, grande parte dos textos assumem ironicamente quer as formas do género judicial (simula-se a defesa), quer as do género deliberativo (aconselham-se ou desaconselham-se enormidades), quer as formas do género epidíctico (simula-se, geralmente, o louvor). No caso desta cantiga, o autor usa o género deliberativo, pois é aconselhado a adotar um determinado comportamento: sofrer os mouros, pois todos o atacarão ("sofiede-os, ca / todos vos ferran"), todos lhe baterão até se cansarem e ele, então, vencê-los-á. Ora, subtilmente, o trovador está a referir-se, sob a capa de uma grande capacidade de resistência aos ataques, a uma desaforada capacidade sexual, isto é, sob a forma do equívoco - conselhos a um combate com os mouros - o trovador alude aos alegados gostos homossexuais de Bernal Fendudo.

    Em suma, a sátira ao sodomita inicia-se logo no verso inicial com a referência ao apelido "Fendudo", que pode ser interpretado como uma referência sexual, remetendo para a ideia de uma pessoa fendida ou aberta, o que indicia que o visado desempenha o papel passivo na relação homoerótica. A sátira prossegue com a referência ao facto de lhe quererem dar armas (símbolo tradicional de poder e masculinidade, símbolo fálico) e, por isso, o chamarem "dona", numa clara feminilização. A ideia de sofrer os mouros, que o "ferram", pode ser lida como ser penetrado por todos os mouros, reforçando-se, assim, a sua passividade nessas relações. Por seu turno, o vocábulo "todos" indicia a intensa capacidade e atividade sexual de Bernal. O cansaço dos atacantes ("cansaram"), sugere a intensidade da atividade sexual, que deixa os "atacantes" num estado de quase exaustão. O derradeiro verso da estrofe assenta na ironia e no duplo sentido do verbo "vencer", que pode ser entendido como uma referência ao prazer obtido por Bernal dessas relações sexuais: ao "sofrer", não perde, mas "vence", transformando o ato numa fonte de prazer.

    A segunda estrofe remete novamente para um ambiente de combate ("E ali log', u s' ha lide a volver"), que, num contexto homoerótico, pode ser interpretado como uma metáfora para uma atividade sexual intensa. Nesse contexto, o nome "lide" (luta) evocaria o esforço, a troca ou confronto, sugerindo uma relação física carregada de tensão e intensidade. No local da luta, vários mouros virão golpeá-lo ("colpar"). Ora, o ato de golpear implica uma ação rigorosa e repetitiva que, num contexto homossexual, aludirá ao ato sexual. Os versos 10 e 11 são bastante irónicos, ao sugerir que, outros "inimigos" o "cometerão", isto é, o penetrarão, por outro lado, ou seja, por detrás, numa clara alusão ao ato sexual homossexual. Neste cenário, o trovador repete o conselho, no sentido de Bernal suportar as investidas, venham elas de onde vierem — ataquem os mouros por trás ou pela frente. Os dois versos finais da segunda estrofe repetem os equivalentes da primeira, nomeadamente a ideia de que, se Bernal suportar/aguentar os ataques dos inimigos, vencê-los-á pelo cansaço. Note-se a referência a "bem fazer", característico da cantiga de amor, aqui claramente carnalizado, porque associado às armas, metáfora do órgão sexual masculino: "se vos deus em armas bem fazer, / ferindo em vós, hiam eles de can.". Os inimigos, depois de o "ferirem" repetidamente (alusão à penetração) sucumbirão ao cansaço e ao clímax e ele triunfará.

    A terceira estrofe retoma a ideia da intensidade e da frequência com que Bernal pratica o ato sexual, quase uma atividade coletiva, tantos são os participantes que o desejam (“Pero, com’há mui gram gente a seer”) e que o derrubarão “Muitas vezes”, repetidamente. Porém, ele sempre irá recuperar forças, enquanto os “inimigos” «ham mais a enfranquecer». Observe-se esta antítese, que sugere o frenesim sexual em que o satirizado se envolve, incansável e sempre disponível e disposto para o ato sexual, bem como a oposição entre o cansaço e o desgaste dos outros em contraste com a sua vitalidade e o prazer contínuo. Metaforicamente, o trovador afirma que Bernal continuará a relacionar-se sexualmente de forma repetida e intensa: “Pero nom quedarán de vos ferir de todas partes”. A conjunção coordenativa “Mais” introduz a nota dissonante que já encontrámos nas estrofes anteriores: “Mais, ao fiir, todos morrerám em vosso poder”. “Fiir”, ou fim, pode ser interpretado como o clímax dos atos sexuais descritos, e a alusão a que “todos morrerám "em vosso poder" inverte por completo as reações tradicionais de submissão e derrota. A "morte" pode ser interpretada simbolicamente como o clímax sexual, em que Bernal, apesar de passivo ou submisso durante o ato sexual, é quem sai vitorioso, pois os outros sucumbem ao desejo e ao cansaço, enquanto ele permanece triunfante.

    Em suma, esta cantiga compreende uma sátira a um certo Bernal Fendudo (provavelmente o trovador Bernal de Bonaval), que é satirizado pela homossexualidade e relações sexuais com múltiplos homens, nas quais desempenhava um papel passivo. A conselho do trovador, deve lutar contra os muitos mouros e deixar-se atacar por todos os lados para os deixar exaustos e moribundos. Ou seja, do princípio ao fim, estamos perante uma óbvia sátira sexual, dirigida a uma figura masculina que é feminizada.

    Por outro lado, toda a composição poética está impregnada de um vocabulário pertencente ao registo bélico e que pode ser interpretado com um segundo sentido obsceno. Num primeiro momento, o trovador não deixa dúvidas sobre o alcance da sua sátira ao afirmar que querem dar armas ao visado no verso 3, ou seja, penetrar. Além disso, o escarnecido é apelidado "dona selvage", alcunha que faz alusão à passividade da personagem no momento do coito. De seguida, o trovador adverte-o de que estas práticas terão consequências, pois será "ferido", mais, à base de "receber golpes", isto é, de que será penetrado, todavia vencerá, por os adversários caírem vítimas do cansaço produzido pelo culminar do ato sexual, da expulsão do sémen, que é o que perdem. Na luta, entendida, de acordo com esta leitura, como um combate sexual, no momento mais intenso da refrega ("u s'a lide a volver"), uns tentarão "golpeá-lo" pela frente (v. 9) e outros por detrás ("alhur" - v. 11), ferindo-o metaforicamente (v. 12), mas os adversários, ao penetrá-lo, perderão (vv. 13-14).

    Durante os encontros sexuais, Bernal será derrubado (v. 16), ou seja, será vítima do cansaço sexual, porém será vencedor no final do ato homoerótico, pois, apesar de sair ferido (entendido no sentido de ter sido penetrado – vv. 19-21), todos os oponentes morrerão às suas mãos, já que ele sempre recupera, enquanto os adversários enfraquecem ("mais sempre vos avedes a cobrar / e eles an mais a enfraquecer" - vv. 17-18). Estes dois versos podem ser interpretados da seguinte forma: os mouros ficam debilitados ao realizar o ato sexual, já que uma vez que este se consuma, eles ejaculam, ficando sem forças, e é aqui que Bernal sai vencedor, pois desempenhou um papel passivo durante o sexo e, além de receber o sémen dos oponentes, não tem o mesmo desgaste físico que aqueles.

Análise da cantiga "Bem me cuidei eu, Maria Garcia", de Afonso Anes do Cotom

                Esta cantiga de escárnio e maldizer, da autoria de Afonso Anes do Cotom, constituída por quatro sextilhas singulares, de rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema ABBCCA, e versos decassilábicos, apresenta-nos um sujeito poético que quer ser pago pelos serviços sexuais prestados a uma mulher chamada Maria Garcia e que jura que não voltará a fazer serviços de graça. E acrescenta que tal se justifica pelo facto de não lhe ter amor, enquanto ela recebia prazer. No fundo, estamos perante uma composição poética que constitui uma sátira a uma soldadeira velha.

                O primeiro verso explicita diretamente, através de uma apóstrofe, o alvo da sátira: uma mulher chamada Maria Garcia. O sítio cantigas.fcsh.unl.pt aventa a hipótese, impossível de documentar, de se tratar de Maria Garcia de Sousa, irmã do trovador Fernão Garcia Esgaravunha, um dos mais fiéis partidários do futuro D. Afonso III. A referida senhora foi barregã de D. Gil Sanches, irmão bastardo de D. Sancho II, falecido em 1236. A expressão que abre o poema ("Bem me cuidei eu") indicia um engano ou uma expectativa frustrada por parte do "eu". De facto, ele fodeu ("quando vos fodi") a mulher e esperava receber um pagamento por isso, porém voltou de "mão vazia", metáfora que indica que nada recebeu em troca dos favores sexuais prestados. A presença do nome "serviço" não deixa dúvidas de que estamos na presença de um negócio, uma troca, uma barganha: o "eu" prestou um serviço sexual e esperava ser pago por ele, no entanto nada recebeu, nem um simples soldo (moeda antiga de pouco valor) que pagasse uma refeição ("sequer um soldo que ceass'um dia" - v. 7).

                A partir da leitura da primeira estrofe, podemos concluir estar na presença de um texto que aborda uma visão utilitária do sexo: um homem satisfaz sexualmente uma mulher e espera ser pago por isso. Por outro lado, podemos ser levados a pensar na prostituição masculina, uma temática cujo tratamento poético não é muito comum na nossa literatura. Além disso, é interessante constatar que estamos nos antípodas do esquema conceptual da cantiga de amor, dado que nesta o homem colocava-se ao serviço da dama como seu vassalo, servindo-a sem qualquer queixume, algo que não sucede na presente cantiga, visto que o sujeito masculino reclama por não ter recebido a contrapartida financeira que esperava.

                No primeiro verso da segunda cobla, o trovador refere ter aprendido a lição ("Mais desta serei eu escarmentado" — o verbo "escarmentar" sugere exatamente essa ideia segundo a qual se aprende com a experiência frustrante descrita na primeira): no futuro, não voltará a foder "outra tal molher", exceto se for pago antes do ato ("se m' ant' algo na mão nom poer, / ca nom hei porque foda endoado"). À letra: nunca voltarei a foder outra mulher, se antes não me puser algo na mão (nova metáfora, semelhante à já destacada), pois não tenho por que foder de graça. Estes versos confirmam, por outro lado, que não há qualquer traço de relação; o foco não é o amor, mas uma troca negocial associada ao ato sexual. Os três versos que encerram esta estrofe acentuam a ironia: Maria Garcia, se quiser voltar a foder e sem pagar, terá de o fazer com outros homens ("se vós, se assi queredes foder, / sabedes como: ide-o fazer / com quem teverdes vistid' e calçado."). Note-se que a construção "sabedes como" implica que a mulher já conhece as condições para a concretização da transação. Por outro lado, o último verso é profundamente irónico, visto que indicia que Maria Garcia estava acostumada a manter relações com outros homens, a quem pagaria os serviços sexuais que lhe prestavam. Se considerarmos que a mulher não paga a ninguém, então o trovador está a dizer-lhe que, caso continue a não pagar o ato sexual, deixará de ter relações sexuais.

                A terceira estrofe reafirma a causa inicialmente para, posteriormente, explicitar o facto ou consequência. Como Maria Garcia não o provê materialmente ("ca me nom vistides nem me calçades"), nem ele vive em sua casa ("nem ar soj/ eu eno vosso casal"), isto é, o trovador não está sujeito à sua autoridade ou poder doméstico, nem ela tem qualquer poder que o leve a fodê-la ("nem havedes sobre mim poder tal / por que vos foda"), só se relacionará sexualmente com a mulher se for bem pago ("se me nom pagades / ante mui bem"). Os últimos dois versos e metade do antepenúltimo podem ter, na nossa opinião, duas leituras. Assim, por um lado, podemos considerar que constituem a afirmação, por parte do "eu", de que não teme ser forçado ou submetido a qualquer tipo de imposição proveniente da mulher. Por outro lado, nos referidos versos, o sujeito poético declara que não receia a "força" que Maria Garcia lhe faça, isto é, ser violado por ela.

                A derradeira estrofe abre de forma curiosa. Assim, inicia-se com uma apóstrofe dirigida à "mia dona", um senhal característico da cantiga de amor, usado para ocultar a identificação da dama e que remetia para a vassalagem amorosa que o trovador lhe prestava, numa atitude de submissão generosa e desinteressada materialmente. Todavia, essa apóstrofe e a cortesia que implica na cantiga de amor é profundamente irónica neste poema, desde logo porque não existe qualquer sentimento amoroso entre ambos, bem como pelo facto de o homem ter interesse material na relação, esperando obter proventos económicos dela. Além disso, no cantar de amor, o trovador tratava a "dona" com mesura, respeito e cortesia, ora, nesta cantiga, aponta-lhe o dedo, acusa-a de praticar sexo casual e de (não) pagar para manter relações sexuais (isto é, recorrendo à prostituição), além de a tratar com desdém e ironia. Introduz, de seguida, um provérbio popular ("quem pregunta nom erra") serve para introduzir um desafio irónico que o "eu" lança à mulher: questionar aos habitantes do lugar onde vive se já fizeram relações sexuais em qualquer situação — em paz ou em guerra — sem ser por interesse ou por amor. Ou seja, o sujeito lírico afirmas que as pessoas só praticam o ato sexual por dois motivos – dinheiro ou amor –, o que constitui uma forma subtil de enquadrar realisticamente as relações entre ambos: entre ambos, não há amor; ela apenas quer o prazer, enquanto ele dinheiro. É uma simples troca comercial. O «eu», insinuando que não apenas ele havia sido alvo dos desejos de Maria Garcia, com o seu pedido apela ao senso comum e, dessa forma, mostra como as convenções do amor cortês se distanciavam da realidade da vida.

                A cantiga termina de forma profundamente sarcástica, como não poderia deixar de ser: o «eu» manda-a tratar da vida, pois, graças a Deus, “rei há na terra”, ou seja, haveria muitos homens disponíveis para manter relações sexuais, os da sua hoste. Manuel Rodrigues Lapa entende que os versos 27 e 28 significam o seguinte: “Ide tratar da vossa vida, senhora, dai o corpo a troco dinheiro, que, graças a Deus, tendes renda suficiente para isso.

                Em suma, nesta cantiga atrevida e grosseira, marcada pelo calão, o trovador sustenta que o homem, nas suas relações com a mulher, obedece a dois sentimentos: o interesse material e o amor. Não havendo amor neste caso, entende que tem o direito de censurar Maria Garcia por não lhe ter pago os momentos de prazer sexual que ele dera.

                No que diz respeito à técnica versificatória, cada estrofe divide-se em duas partes: nos primeiros quatro versos, o "frons" da lírica occitânica, expõe o seu propósito e a sua queixa; nos últimos três, a cauda, dá o seu conselho zombeteiro a Maria Garcia. Este esquema repete-se, grosso modo, nas quatro cobras da cantiga. Paralelamente a esta divisão interna das estrofes, a composição também se separa em duas metades graças ao recurso a cobras capfinidas (que consistem em usar palavras do verso anterior) entre a segunda e a terceira estrofes (vv. 14-15), ou seja, a meio da cantiga, anunciando que a partir deste ponto se iniciará um desenvolvimento da situação exposta anteriormente. Assim, as duas cobras iniciais apresentam a situação vivida pelo trovador e as duas últimas exprimem as consequências dessa situação e lançam um desafio à mulher.

                Por outro lado, como já sugerimos noutros pontos desta análise, esta composição poética caracteriza-se pela inversão do padrão do relacionamento amoroso da cantiga de amor, na qual o trovador suplica o favor da dama e sofre a coita de amor, isto é, experimenta o sofrimento causado pela recusa e indiferença dela. Neste poema, pelo contrário, quem requesta o amor não é o homem, mas a mulher.

                O tipo feminino que mais se prestava à ironia e à sátira era a soldadeira, porém, neste texto, Maria Garcia, o alvo visado pelo trovador, é retratada como a "senhor", diante da qual ele se encontraria numa posição de inferioridade, tal como sucedia no cantar de amor. Todavia, a superioridade feminina não se refere ao plano moral, tão caro às cantigas de amor, visto que a figura feminina enganou o homem, recusando-lhe pagar-lhe os serviços sexuais prestados. A separação existente entre as duas personagens é de caráter social: é por isso que o trovador reclama o seu pagamento. De facto, ele dirige-se-lhe recorrendo à forma de tratamento habitual — "senhor" —, num contexto que remete para o cantar de amor, mas também alude à ideia de "pedido". Ora, tendo em conta os versos 27 e 28 e a referência à "renda", é possível fazer uma leitura diferente da apresentada anteriormente. Nesta segunda hipótese, Maria Garcia seria uma proprietária rural que possuiria rendas de terras. Para esta noção contribui igualmente o uso do nome "dona", já que significa "dama", "mulher", "senhora casada", em oposição a "donzela" ou "menina", sendo o masculino "dom", um título nobiliárquico. Além disso, a alusão ao seu "casal" (v. 16) ("casa de campo", segundo Manuel Rodrigues Lapa) parece indiciar que estamos na presença de um membro da nobreza rural.

                A este propósito, convém relembrar que Afonso Eanes do Coton, noutros poemas, demonstra não considerar importante o estatuto social da mulher quando o assunto é o amor, contrariamente à doutrina do amor cortês. Na composição "As mias jornadas vedes quaes son", por exemplo, afirma ironicamente que a mulher que o fazia sofrer poderia ser de qualquer classe ou condição, insinuando que teria vários amantes ("E a dona que m' assi faz andar / casad' e, ou viuv' ou solteira, / ou touquinegra, ou monja ou freira"). Na cantiga "Veeron-m' agora dizer", finge-se surpreendido quando o informam de que a sua amante estaria grávida. Além disso, tudo leva a crer que não se trataria da dama das cantigas de amor, mas provavelmente de uma jovem vilã solteira, à qual se refere sempre por "molher", nunca por uma forma de tratamento mais formal ou cerimoniosa.

                Por outro lado, a relação de vassalagem sugerida nesta cantiga satírica não se insere apenas nos planos espiritual e literário, como sucede na cantiga de amor. De facto, o trovador apresenta uma mulher cuja superioridade é concreta e essencialmente material (social e financeira), visto que dá a entender que se sujeitou a relacionar-se sexualmente com ela exclusivamente por motivos financeiros. O próprio vocabulário cortês é afetado por esse olhar realista e materialista do poeta. Por exemplo, os nomes "senhor" e "dona" não possuem o significado que lhes é atribuído no cantar de amor, passando a designar aspetos da realidade social; o serviço que o trovador alega ter prestado não se inscreve exclusivamente no plano idealizado proposto pelo receituário do amor cortês, onde se revestia de três formas fundamentais: a mesura, a fidelidade e o segredo. Ora, Afonso Eanes não respeita nenhum destes preceitos: como referimos logo no início deste texto, a cantiga começa desrespeitando a norma do segredo, dado que, logo no primeiro verso, desvenda o nome da mulher que o enganou; as reclamações/queixas que faz ao longo da cantiga estão bem longe da mesura com que o trovador deveria tratar a sua indiferente "senhor"; o serviço a que alude é claramente de natureza sexual, configurando um "equivocatio" que serve de fundamento para a compreensão de toda a cantiga.

                Tal como o contrato entre suserano e vassalo previa compensações pelo cumprimento das obrigações a que o segundo estava obrigado, também o trovador reivindica o que lhe fora prometido por Maria Garcia. É neste contexto que entra o campo semântico dos interesses materiais: soldo, vestuário, calçado e hospedagem (vv. 7, 14-15 e 16) são aquilo que ele espera do relacionamento com a mulher. E acrescenta que não mais a satisfará sexualmente "se m' ant' algo na mão não poser". O nome "mão" surge duas vezes na cantiga, sempre associado à ideia de que o homem espera receber algum bem material pelos serviços prestados. Em vez do caráter abstrato e do idealismo do amor cortês, encontramos a negação a servir "endoado", ou seja, gratuitamente.

                A relação dita amorosa é, deste modo, rebaixada do plano elevado do cantar de amor para outro bem mais baixo: o do dinheiro. Nos versos 17 e 18, o trovador declara que a figura feminina não possui o poder suficiente para que ele atenda aos seus desejos se ela não pagar ("se me nom pagades"). O verbo "pagar" tem vários sentidos. A sua etimologia remonta ao latim "pacare", que significa "pacificar", "apaziguar". Através de uma associação de ideias, chegou-se à noção de "pagar alguma quantidade", já que o pagamento contentava o credor (Viterbo, no Elucidário, apresenta dois verbetes com o verbo "pagar": "Pagar-se de alguma coisa: agradar-se dela" e "Pagado: pacífico, sossegado, em paz, sem dúvida ou contradição alguma"). Afonso do Cotom aproveita a ambiguidade semântica do verbo "pagar" na época, nesta cantiga: o verso 18 pode, assim, ser interpretado de duas formas — pagamento como retribuição material, ou "pagar" como "satisfazer", "contentar". Deste modo, podemos fazer outra leitura da composição: Maria Garcia não possuía os atrativos físicos necessários para levar o trovador a relacionar-se com ela sem nada em troca.

                Em suma, esta cantiga de escárnio e maldizer subverte os códigos e o discurso amoroso do cantar de amor e do amor cortês. Partindo da queixa habitual do trovador pela falta de retribuição pelo serviço prestado à dama, ele opõe à vassalagem amorosa a inferioridade social; ao casto e sempre recusado pedido do trovador, a vulgaridade do oferecimento da mulher; à gratuitidade e espiritualidade, o interesse material. Ou seja, Cotom faz o discurso amoroso descer do pedestal da espiritualidade e do idealismo à materialidade das coisas, dos relacionamentos e dos interesses.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O desempenho dos alunos é [ainda] pior do que se pensa


 

    Nas últimas semanas, mais de 1 800 professores de matemática e ciências da Universidade da Califórnia, um dos maiores e melhores sistemas universitários públicos dos Estados Unidos, assinaram uma carta aberta em que detalham um problema complexo. Segundo eles, os estudantes do primeiro ano de licenciatura chegam, cada vez mais, sem as competências básicas necessárias para terem sucesso. 

    No campus de Berkeley, escrevem eles, cerca de 20 a 30% dos estudantes que frequentam um curso introdutório de cálculo apresentam «graves lacunas de preparação». O desafio tornou-se tão grande, acrescentam, que os docentes estão a ter de voltar a ensinar matemática do ensino básico.

    A carta é o mais recente contributo para um debate cada vez mais alargado sobre o ensino superior, as práticas de admissão nas universidades — e a capacidade intelectual dos jovens americanos. Segue-se a um relatório surpreendente divulgado em novembro no campus de San Diego do sistema universitário da Califórnia. Os académicos locais observaram que o número de estudantes do primeiro ano que ingressavam com competências matemáticas abaixo do nível do ensino secundário tinha aumentado quase trinta vezes em cinco anos, atingindo quase um em cada oito. Cerca de 70% dos estudantes com atrasos, argumentaram, não apresentavam um desempenho ao nível esperado de um aluno de 14 anos.

    As preocupações com as competências matemáticas dos estudantes de licenciatura juntam-se à consternação de longa data face à queda dos níveis de literacia. Os docentes alertam para o facto de os estudantes de literatura parecerem incapazes de terminar livros. Não é apenas na costa oeste, nem nas universidades públicas, que estes problemas são relatados. 

    Em Harvard, alguns professores de ciências humanas e sociais afirmam sentir-se obrigados a encurtar os textos, de acordo com um relatório divulgado ao corpo docente em outubro. Os estudantes chegam à universidade mais famosa dos Estados Unidos «com menos experiência na leitura de prosa complexa e menos capacidade de concentração e atenção sustentada». Eles «têm dificuldades com leituras que os estudantes concluíam com facilidade há apenas dez anos».

    Os professores têm-se queixado dos estudantes desde que existem as torres de marfim. Pode ser difícil corroborar as histórias com dados abrangentes. Após o ensino secundário, os alunos raramente realizam exames padronizados a nível nacional ou regional. Os investigadores dependem, assim, em grande medida de relatórios esporádicos do corpo docente, como os da Califórnia, que se sentem compelidos a dar o alarme.

    Mas os observadores que procuram compreender as tendências globais — e o lugar dos Estados Unidos no seu seio — não precisam de avançar completamente às cegas. Pelo menos algumas pistas podem ser extraídas de um teste realizado uma vez por década pelos analistas da OCDE, um clube composto principalmente por países ricos. O seu «Inquérito às Competências dos Adultos» visa avaliar em que medida os cidadãos de dezenas de países possuem as competências de literacia e numeracia necessárias para prosperar no mundo real.

    Na sua forma mais simples, os testes avaliam a capacidade das pessoas de compreender as instruções num frasco de comprimidos ou de calcular a quantidade de papel de parede necessária para redecorar uma divisão. Em níveis mais avançados, exploram a capacidade das pessoas de tirar conclusões válidas a partir de análises e gráficos complexos.

    Os participantes são divididos em cinco níveis de aptidão, em cada disciplina. O nível 1 deve ser alcançável por um aluno de um país rico no final do ensino básico, afirma Andreas Schleicher, da OCDE.

    Cerca de 160 000 pessoas de todas as idades foram testadas na última ronda (cujos resultados foram publicados no final de 2024). A revista «The Economist» solicitou à OCDE dados relativos apenas aos menores de 35 anos que frequentavam o ensino «superior» na altura em que realizaram os testes. Isso inclui estudantes de todas as universidades, bem como alunos da maioria dos tipos de institutos de ensino superior (mas apenas aqueles que frequentavam cursos que, em teoria, são mais avançados do que os oferecidos no ensino secundário).

    Muitos deles têm um desempenho muito bom — mas uma percentagem impressionante apresenta resultados desastrosos (ver gráfico 1). Nos países ricos, cerca de 8% dos estudantes do ensino superior obtêm uma pontuação em literacia que não é superior à que se poderia esperar de uma criança de dez anos. A percentagem é praticamente a mesma no que diz respeito à numeracia. Pior ainda, a percentagem de estudantes que se situam neste nível ou abaixo dele aumentou desde a última vez que os testes foram realizados, há pouco mais de uma década. A percentagem de alunos com desempenho muito fraco em literacia mais do que duplicou.

    As pontuações a nível de cada país variam consideravelmente. Na Estónia, menos de 2% dos estudantes do ensino superior obtêm resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo. Esse valor sobe para um quinto na Polónia (em literacia) e para um quarto no Chile (em matemática). Os britânicos podem sentir-se razoavelmente otimistas, apesar do crescente desdém público pela academia; os resultados dos seus estudantes estão acima da média e a melhorar. As pontuações dos Estados Unidos, em contrapartida, estão entre as mais dececionantes. Um em cada sete dos seus estudantes do ensino superior obteve resultados iguais ou inferiores ao nível do ensino básico nos testes de literacia, um aumento em relação a cerca de um em cada vinte há uma década. A percentagem de estudantes com resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo em numeracia, por sua vez, foi de quase um em cada cinco.

    Todas as crianças ficaram para trás.

    O que se passa? Em parte, as faculdades e universidades estão a herdar problemas que tiveram origem nas escolas de todo o mundo. Não se pode subestimar o impacto da pandemia. Os países impuseram o encerramento das escolas a nível nacional, com uma duração média de 20 semanas. Os sistemas de turnos para o ensino presencial e as quarentenas para os «contactos próximos» vieram, depois, perturbar ainda mais as aulas. Nos anos imediatamente a seguir a esse desastre, era como se alguns alunos «não tivessem frequentado o ensino secundário», afirma Jessica Hooten Wilson, professora da Universidade Pepperdine, na Califórnia. «Na verdade, foi algo muito assustador de se ver.»

    No entanto, em muitos locais, a educação já estava a regredir quando a mega-pandemia surgiu. As notas no NAEP, o teste nacional de referência dos Estados Unidos, atingiram um pico no início da década de 2010 e têm vindo a descer gradualmente desde então. As notas do PISA, um exame internacional realizado por jovens de 15 anos, seguem a mesma tendência numa série de outros países (ver gráfico 2). Entre os países com declínios invulgarmente acentuados e prolongados contam-se a França, a Alemanha, os Países Baixos e a Nova Zelândia.

    As causas destas tendências são alvo de aceso debate. O aumento da migração é um fator relevante: os recém-chegados tendem a ser mais pobres do que os alunos nascidos no país e têm mais probabilidades de falar uma língua estrangeira em casa. 

    Entretanto, os tradicionalistas acusam os reformadores escolares de diluir os sistemas de avaliação e de responsabilização. E de substituir programas de estudos comprovados pelo tempo por currículos da moda que minimizam a aprendizagem de factos concretos em favor de competências «soft» que soam bem, mas são insípidas.

    As alegações de que as redes sociais têm vindo a «reprogramar» o cérebro das crianças têm fortes semelhanças com os pânicos do passado, como os que surgiram em relação à televisão e aos jogos de computador. 

    Mas não há muitas dúvidas de que os ecrãs de todos os tipos substituíram passatempos mais enriquecedores: a percentagem de crianças de nove anos nos Estados Unidos que afirmam ler livros por prazer caiu de quase 60 % na década de 1990 para 37 % atualmente. De facto, não são apenas os alunos do ensino básico ou os estudantes universitários que estão a registar um declínio na literacia: os testes da OCDE também revelam esta tendência entre as populações mais velhas, observa o Sr. Schleicher, talvez porque as pessoas têm menos prática do que no passado na leitura de textos longos e complexos.

    No entanto, as faculdades e universidades que afirmam ser meros observadores passivos desta situação estão a avaliar o seu próprio desempenho. Em muitos países, gozam de amplo controlo sobre as suas próprias políticas de admissão. Frequentemente, não têm aproveitado essas liberdades para manter padrões elevados.

    Há décadas que os críticos acusam os responsáveis das faculdades e universidades de baixarem os critérios de admissão para tirar partido da crescente procura. Atualmente, a dinâmica é um pouco diferente: em alguns países ricos, o número de jovens de 18 anos está a aproximar-se ou já ultrapassou o seu pico. Os gestores podem ter ainda mais dificuldade em resistir à tentação de baixar os padrões quando a alternativa é reduzir o número de alunos. De facto, a comparação dos dados da OCDE sobre as competências dos estudantes com a evolução do número de alunos nos sistemas de ensino superior revela uma correlação que merece um estudo mais aprofundado: os sistemas em contração são especialmente propensos a ter atraído muitos estudantes que obtêm resultados nos níveis mais baixos desses testes.

    A queda no desempenho escolar tem sido impulsionada principalmente por crianças que já se situavam na metade inferior das suas turmas, e não pelos alunos mais brilhantes no topo. Assim, o afluxo de estudantes mal preparados para algumas das melhores universidades dos Estados Unidos exige uma explicação adicional. 

    Os académicos indignados na Califórnia, e em muitas outras partes do país, atribuem a culpa à eliminação dos testes de admissão. Antes da pandemia, mais de metade das universidades que conferem licenciaturas nos Estados Unidos exigiam que os candidatos realizassem testes de raciocínio numérico e verbal — geralmente o SAT ou o ACT (estes testes ajudam a substituir os exames padronizados que existem em muitos outros países). Agora, essa percentagem é de apenas 10%.

    No auge da pandemia da COVID-19, as universidades americanas argumentaram que seria impossível realizar estes exames em segurança. Mas também se basearam em alegações de que os exames são tendenciosos contra estudantes negros e latinos, que têm tido um desempenho inferior à média nessas provas. 

    Os cínicos afirmam que a sua eliminação facilitou aos administradores continuar a moldar a composição étnica dos seus campus da forma que consideram mais justa — apesar de uma decisão do Supremo Tribunal, em 2023, que proibiu a ação afirmativa baseada na raça. Para as instituições de nível inferior, a eliminação dos exames provavelmente simplificou a tarefa mais premente de garantir simplesmente que houvesse alunos suficientes a ocupar as vagas.

Tudo isto fez com que os responsáveis pelas admissões nos Estados Unidos dependessem mais de sinais alternativos que se estão a tornar cada vez menos fiáveis. 

    As redações de candidatura já eram frequentemente escritas por pais e professores, mas agora valem quase nada, dada a facilidade com que podem ser elaboradas usando IA, afirma Mina Aganagic, professora de matemática em Berkeley e uma das autoras da carta aberta. 

    Quanto às notas do ensino secundário, têm vindo a inflar-se rapidamente. Nos últimos anos, muitos estados americanos baixaram os limites que os alunos do ensino secundário têm de atingir para obterem os certificados de conclusão do curso. Cerca de um quarto de todos os alunos que os professores de San Diego têm encaminhado para a sua turma de reforço de matemática, a mais fraca, tinham obtido notas perfeitas em matemática nos seus últimos anos de escola.

    O processo de admissão está a tornar-se uma «caixa negra», afirma o professor Aganagic. «Penso que a maioria das pessoas concordará que selecionar estudantes ao acaso não beneficia ninguém.»

    Uma questão fundamental para as faculdades e universidades não é apenas como irão responder a um número crescente de candidatos mal preparados, mas se elas próprias estão preparadas para continuar a impor expectativas elevadas. 

    A carta aberta na Califórnia alerta que, com o aumento do número de estudantes menos preparados, surgiu «uma pressão crescente para diluir o rigor quantitativo». Na Grã-Bretanha, os grandes exames nacionais atenuam, em certa medida, a inflação de notas no ensino secundário, mas isso não acontece no ensino superior. Embora as notas tenham descido ligeiramente em relação ao pico atingido durante a pandemia, em 2025 cerca de 30% dos estudantes de licenciatura na Grã-Bretanha obtiveram um diploma de primeira classe, contra 7% em 1995.

    Em Yale, 79% das notas foram A ou A- em 2022-23, em comparação com 67% em 2010-11. A taxa mais baixa registou-se nos cursos de economia, com cerca de 50%; situou-se acima dos 80% nas ciências humanas, nos estudos étnicos e nos estudos da educação, entre outros (ver gráfico 3). 

    Em abril, académicos de renome de Yale afirmaram, num ensaio que explorava as razões do declínio da confiança no ensino superior, que «décadas de inflação e compressão tornaram o sistema de classificação universitária quase sem sentido enquanto medida académica».

    Um relatório publicado no ano passado pelo decano dos estudos de licenciatura de Harvard contém um resumo admiravelmente franco das pressões que estão na origem da inflação das notas, com base em conversas com o corpo docente. Os estudantes que nunca receberam uma nota medíocre durante o seu percurso escolar tornaram-se mais confiantes na hora de contestar notas que não sejam perfeitas na universidade. 

    Os docentes de Harvard receiam que os estudantes evitem disciplinas ministradas por professores que atribuem notas rigorosas e que isso possa prejudicar as suas próprias carreiras. Percebem que os gestores estão a dar mais atenção ao que os estudantes escrevem nos formulários de avaliação no final das disciplinas. Isso constitui um incentivo adicional para tentar manter os alunos satisfeitos.

    Há uma década que Harvard tem vindo a «exortar o corpo docente a lembrar-se de que alguns estudantes chegam menos preparados para a universidade do que outros, que alguns enfrentam situações familiares difíceis ou outros desafios… e que quase todos sofrem de stress», de acordo com o relatório. Os académicos que lhes atribuem notas baixas nem sempre tiveram a certeza de que a universidade lhes «daria apoio». 

    As mudanças nas tendências do ensino também desempenham um papel importante. Os projetos de grupo são mais difíceis de avaliar objetivamente do que os exames. Alguns docentes chegam mesmo a referir interesse em conceitos como a «ausência de classificação» ou a «aprendizagem baseada em contratos», em que os estudantes obtêm notas A por concluírem todos os trabalhos atribuídos.

CheatGPT

    A tudo isto junta-se agora a IA, que parece estar a facilitar a fraude generalizada. 

    Cerca de 94% dos estudantes universitários no Reino Unido afirmam utilizar a IA para os ajudar nos trabalhos avaliados, de acordo com um inquérito divulgado em março pelo HEPI, um grupo de reflexão. Cerca de 12% admitiram colar texto gerado por IA diretamente nos trabalhos académicos, um aumento em relação aos 3% registados em 2024. Quase metade dos estudantes das áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) — e um quarto dos estudantes de ciências humanas — consideraram que o conteúdo gerado por IA lhes permitiria «obter uma boa nota» na sua disciplina (ver gráfico 4).

    Nos Estados Unidos, durante o ano letivo de 2023-24, cerca de dois terços dos estudantes de universidades públicas utilizavam IA, e estima-se que 9% deles a utilizassem para fazer batota, de acordo com uma investigação publicada em maio. A taxa de batota foi mais elevada — o que é irritante — entre os estudantes de economia (17%) e de jornalismo (16%). Os números são certamente muito mais elevados agora, afirma Igor Chirikov, de Berkeley, um dos autores do estudo.

    Por enquanto, a fraude compensa. Num segundo estudo publicado como documento de trabalho no mês passado, o Dr. Chirikov analisou 500 000 notas atribuídas por uma grande universidade (não identificada) no Texas entre 2018 e 2025. Descobriu que o número de notas máximas atribuídas em disciplinas que envolvem competências em que a IA se destaca, como redação e programação, disparou desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022.

    A percentagem de notas «A» nestas disciplinas aumentou 13 pontos percentuais, ou seja, cerca de 30 % em relação ao valor de referência. O investigador não constata um aumento semelhante nas disciplinas em que os robôs falantes provavelmente não são muito úteis.

    Os académicos têm pouca confiança nas ferramentas que afirmam detetar trabalhos escritos por IA e muito a perder ao lançarem acusações de fraude. Afirma o Dr. Chirikov: «Não se pode proibir uma ferramenta que também se espera que se ensine.» Muitos docentes estão a reintroduzir avaliações supervisionadas (durante a pandemia, tornaram-se populares os exames com consulta, que os estudantes podiam levar para casa e concluir num período de 24 horas). Mas isso pode encontrar resistência por parte dos administradores, que têm de encontrar espaço e pessoal para exames devidamente supervisionados.

    Para alguns, a IA induziu uma sensação de resignação. É cada vez mais comum ouvir académicos encolherem os ombros, dizendo que talvez os estudantes já não precisem de competências básicas sólidas, porque grande parte do trabalho que farão no futuro envolverá ajustar coisas criadas pela IA. Isso não é pragmatismo; é rendição.


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