domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Ode a um certo Gonçalo Estremanho
Quando chega a hora do teste,
Mostra enorme inspiração:
Olha para o norte, para o este,
À espera de uma salvação.
Diz que estudou a noite inteira,
Que até perdeu o sono,
Mas, perante a pergunta primeira,
Fica a contemplar o outono.
Se a inteligência fosse nota,
Teria muito que penar;
Mas, se contasse a lorota,
Já podia até doutorar!
Ó Gonçalo, grande mestre façanhudo,
Da desculpa e do improviso,
Tens resposta para tudo
Menos para o que vem no aviso!
E quando sai a pauta,
Há silêncio no corredor:
«Professor, deve haver engano…
Eu merecia era mais valor!»
Mas cuidado tem, Estremanho,
Prepara bem a lição,
Apanhar vais um entalão
Se a copiar no teste te apanho.
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
Travessão
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Análise da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
a) Ação
A ação da cena estrutura-se em três momentos de crescente intensidade dramática:
A inquietação no quarto matrimonial e o monólogo místico de Cabot: a cena inicia-se no piso superior, com Cabot e Abbie no quarto de casal e Eben no quarto contíguo. Enquanto o patriarca reafirma com obsessão a necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu legado, a distância afetiva da esposa é manifesta. Pressionado pela apatia desta, o velho homem entrega-se a uma longa confissão retrospetiva: relata a sua chegada à terra árida há cinquenta anos, a sua luta contra o solo pedregoso, a conceção de um Deus duro e a profunda solidão que sempre o acompanhou. Subitamente, é assaltado por uma sensação sufocante de frio e por sombras invisíveis que parecem povoar os cantos da casa, o que o leva a abandonar o leito conjugal para ir dormir no estábulo junto do calor dos animais.
A transgressão do espaço e o abraço: com a saída de Cabot, Abbie abandona o seu quarto e invade o espaço privado de Eben. Vencendo a imobilidade e a agitação contida do jovem, lança-se ao seu pescoço num abraço apaixonado e cobre-o de beijos. Ele cede num primeiro momento, mas a vaga de culpa puritana impele-o a repeli-la brutalmente, declarando que o beijo lhe soube a peçonha e tentando mentir a si próprio ao afirmar que imaginava estar com outra mulher.
O duelo: Abbie desmascara a hipocrisia de Eben, confrontando-o com o ardor da sua própria resposta física. Perante a resistência do enteado, a madrasta inverte a tática: insulta-o, afirma que nunca o amou e que apenas o usou como instrumento para assegurar o domínio da herdade, reduzindo-o à condição de mero jornaleiro. Para consolidar a sua vitória, anuncia que vai descer para abrir e iluminar a sala de visitas — mantida fechada e consagrada ao luto desde a morte da mãe de Eben —, convidando-o a juntar-se a ela. O impacto psicológico e a profanação do espaço materno destroem a força de vontade do rapaz, que, num estado de transe e desorientação, se veste mecanicamente e caminha para a sala atrás de Abbie, invocando em vão o espírito da mãe falecida.
b) Espaço
A ação decorre no andar superior da habitação, que está dividido em dois quartos contíguos, separados por uma ténue parede de tábuas de madeira. O espaço é tétrico, caracterizado por tetos baixos com vigas expostas e uma iluminação parca proporcionada por velas frouxas. Mais tarde, a ação desloca-se virtual e fisicamente para a sala de visitas no piso inferior, um espaço encerrado há anos que funciona como o santuário da falecida mãe de Eben.
No andar superior, há uma divisão simultânea e claustrofóbica através de dois quartos contíguos, iluminados pela luz fraca e bruxuleante de velas de sebo. À esquerda, situa-se o quarto austero de Eben, marcado pelo isolamento e pela angústia; à direita, encontra-se o quarto de casal ocupado por Ephraim Cabot e Abbie, dominado pela presença monumental de uma antiga cama de quatro colunas com colchão de penas. A separação física entre estes dois compartimentos é assegurada por uma fina parede divisória de madeira que, em vez de isolar os habitantes, funciona como um refrator de tensões e desejos reprimidos. Através da parede, a escuta atenta e o alinhamento dos corpos convertem a barreira arquitetónica num canal de atração magnética, onde os olhares de Abbie e Eben parecem cruzar-se e encontrar-se na própria madeira que os divide, antecipando a invasão e a violação física desse espaço pessoal.
Para além das paredes da habitação, o espaço exterior da herdade surge definido pela aridez agressiva do solo da Nova Inglaterra. A paisagem é dominada pela presença esmagadora da pedra e pelos extensos muros erguidos manualmente ao longo de décadas. Este ambiente exterior mineral funciona como a extensão da própria psique de Cabot: a terra pedregosa e os muros desenham os limites de uma propriedade conquistada pelo suor, mas operam simultaneamente como uma fortaleza e uma prisão existencial. Os muros de pedra, concebidos para vedar e proteger o domínio patriarcal, isolam o velho do resto do mundo, convertendo a herdade num território estéril onde a natureza hostil impõe uma disciplina impiedosa.
No interior da própria casa, manifesta-se uma atmosfera de opressão e reatividade espiritual que afasta o próprio patriarca do seu leito conjugal. A sensação de um frio que penetra pelas ombreiras e a perceção de sombras e presenças que se agitam nos cantos escuros transformam o espaço doméstico num ambiente inóspito e ameaçador. Esta hostilidade do interior conduz a uma deslocação espacial significativa: Cabot abandona o leito de casal e procura refúgio no estábulo, optando por dormir junto do calor dos animais. O estábulo emerge, assim, como um contraponto térmico e existencial à casa de pedra, representando um espaço de paz primitiva e acolhedora em contraste com o clima de suspeita e cobiça que envenena o espaço doméstico.
No andar inferior, a sala de visitas (parlor) representa o santuário simbólico e o núcleo emocional da casa. Mantida na escuridão e inviolável desde o velório da falecida mãe de Eben, a sala condensa a memória do sofrimento materno e a interdição do sagrado. O encerramento prolongado deste compartimento funciona como o último baluarte da resistência moral da família. Quando Abbie decide descer, acender as luzes e tomar posse desse espaço fechado, convidando o enteado a entrar para consumar a aproximação, opera-se uma profanação deliberada da geografia do luto. O acender da luz na janela da sala de visitas assinala a conquista territorial definitiva da casa e a transformação do santuário do luto no palco central da transgressão e do desejo.
Quanto ao espaço social, este é dominado pelo patriarca, que encarna a autoridade incontestada do proprietário privado que fundamenta o seu poder numa teologia puritana rigorista e inflexível. Para ele, a posição do homem mede-se pela capacidade de submeter a terra e impor a sua vontade sobre os demais. Sob o seu domínio, a estrutura familiar deixa de ser um espaço de afetos para se converter num sistema de exploração de mão de obra. Para tal, não importa se rebaixa os próprios filhos à condição de subordinados e servidores, negando-lhes qualquer autonomia e impondo um isolamento social em relação à comunidade exterior, que o perceciona com temor e rejeição.
A posição de Eben ilustra a tragédia da alienação socioeconómica no seio do próprio lar. Embora seja o filho da antiga detentora dos direitos sobre a terra e se considere o herdeiro legítimo da propriedade, vive aprisionado numa contradição social profunda: é tratado na prática como um mero jornaleiro (atente-se nas palavras de Abbie na parte final desta cena), um trabalhador assalariado sem direitos nem voz. Esta degradação do seu estatuto gera um sentimento corrosivo de injustiça e exploração, exacerbado pela convicção de que o pai esgotou a sua mãe até à morte através do trabalho braçal. A sua busca pela posse da terra representa, por isso, uma tentativa desesperada de emancipação e de restauração da dignidade roubada.
A entrada de Abbie Putnam na herdade introduz um elemento de rutura e reconfiguração radical na dinâmica do espaço social. Vinda de um passado de miséria e privação, ingressa na família através de um casamento de conveniência com o patriarca idoso, movida pela necessidade imperiosa de alcançar segurança material e um lugar próprio no mundo. Ao reivindicar o controlo do lar, a nova esposa choca diretamente contra o direito de herança de Eben, utilizando o seu estatuto legal de senhora da casa como arma de dominação. Contudo, ao perceber que a posse definitiva da propriedade depende da procriação de um herdeiro masculino, subverte as regras da ordem patriarcal: seduz o enteado e transforma o próprio rival no instrumento da sua consolidação social.
O espaço social da peça é ainda caracterizado pela incomunicabilidade e pelo estigma da transação mercantil aplicado à intimidade. O matrimónio, a paternidade e os laços de filiação surgem despidos de calor humano, reduzidos a acordos utilitários e a lutas de poder. A cobiça e a paranoia dominam o quotidiano da casa, onde cada habitante vê no outro um rival a abater. Esta atmosfera de conflito doméstico atinge o seu auge na transgressão do tabu do incesto e do adultério: ao unirem-se, Eben e Abbie desafiam não apenas o poder do patriarca, mas todas as convenções e interditos da moralidade puritana envolvente, criando um espaço clandestino e marginal no seio do próprio domínio familiar.
Relativamente ao espaço psicológico, é visível uma atmosfera de clausura, presente no confinamento dos compartimentos e na iluminação sombria e vacilante das velas de sebo. A casa da herdade não funciona como um espaço de proteção ou aconchego, mas como uma estrutura opressiva onde cada divisão encarcera uma obsessão particular: a ganância do patriarca, o desespero de afirmação da nova esposa e o luto suspenso do filho. A escuridão envolvente e a contenção física dos quartos geram um clima de vigília permanente, no qual a mente das personagens se encontra encurralada pelo peso do passado e pela iminência da transgressão. A parede de tábuas de madeira que separa o quarto de Eben do leito conjugal opera como o grande símbolo da fluidez psíquica da cena. Mais do que uma barreira arquitetónica, a parede atua como uma membrana permeável através da qual a hostilidade, a culpa e o desejo erótico circulam livremente. A indicação cénica em que Abbie e Eben fixam a superfície de madeira, direcionando os olhares um para o outro como se a matéria se tornasse transparente, materializa a atração magnética clandestina. O espaço físico entre os dois quartos converte-se, assim, na arena psíquica onde a tensão se acumula e o tabu é violado na imaginação antes de se consumar no plano corporal. O frio persistente que invade o quarto de casal e a perceção de sombras e presenças que «remexem no escuro» traduzem a rejeição espiritual da própria casa em relação à figura de Ephraim Cabot. Este frio não possui uma natureza meramente atmosférica; é o sintoma somático do isolamento absoluto do patriarca e da falência da sua autoridade afetiva. Sentindo a hostilidade invisível que emana das paredes e a esterilidade do leito conjugal, Cabot é tomado por uma profunda inquietação que o impele a abandonar a habitação e a procurar refúgio no estábulo. Esta deslocação assinala a sua expulsão do espaço psíquico da casa, relegando o velho tirano para a companhia dos animais, a única realidade que ainda se alinha com a sua religiosidade dura e mineral. O quarto de Eben constitui o reduto do seu sofrimento e da sua ambivalência moral. É o espaço onde o jovem cultiva o ressentimento contra o pai e a lealdade à memória da mãe falecida. A invasão deste território por Abbie precipita o colapso das defesas psicológicas do enteado. O pânico de contaminação moral, verbalizado na tentativa de classificar o beijo como um veneno, expõe o pavor do incesto e o peso do superego puritano. Contudo, perante a intensidade do olhar da mulher, a resistência racional cede lugar ao impulso primário, reduzindo o espaço do quarto ao palco de uma rendição visceral e animalizada. A sala de visitas (parlor) representa o núcleo emocional e a geografia sagrada do trauma materno. Mantida na escuridão e no fecho estrito desde o velório da mãe de Eben, a sala condensa a interdição do pecado e o vínculo espiritual que prende o filho ao passado. Ao acender a luz na janela da sala de visitas e reivindicar a posse desse compartimento, Abbie procede à profanação deliberada do altar psíquico do luto. A reação do jovem — vestir-se mecanicamente em estado de transe sombrio enquanto clama no vazio pela mãe — expõe a dissolução final do seu autocontrolo. Ao caminhar para a sala de visitas, cruza o limiar psicológico definitivo, onde a busca desesperada pelo afeto materno e a rendição ao desejo proibido se fundem na mesma tragédia interior.
c) Tempo
O tempo cronológico desta cena é extremamente concentrado,
contínuo e linear, desenrolando-se no decurso de uma única noite quente de
verão. A ação avança em tempo real, sem saltos nem interrupções na linha
temporal, acompanhando o passar sequencial das horas desde o início da noite
até ao aproximar da madrugada.
A cena tem início no andar superior da casa, numa hora já avançada da noite, quando as velas de sebo iluminam fracamente os dois quartos contíguos. A sequência cronológica começa com a conversa entre Ephraim Cabot e Abbie no quarto de casal e com a decisão do velho patriarca de abandonar a habitação para ir dormir no estábulo, procurando aí o calor que não encontra na própria casa. Imediatamente a seguir, sem qualquer pausa no tempo da narrativa, a mulher atravessa o corredor até ao quarto de Eben, dando início ao confronto apaixonado entre ambos. O diálogo, a aproximação física, a discussão e a capitulação do jovem acontecem todos de forma direta e ininterrupta ao longo dessa mesma noite.
O ambiente histórico da cena é profundamente moldado pela
teologia puritana tradicional, que sobrevivia com grande vigor nas comunidades
agrícolas isoladas. Nesta época e contexto, a mundividência dominante assentava
na crença num Deus austero, exigente e punitivo, que valorizava o sacrifício, o
trabalho físico esgotante e o domínio sobre uma natureza agreste. A figura do
patriarca surgia investir de uma autoridade absoluta e inquestionável, sendo o
único titular dos direitos de propriedade, enquanto a família funcionava como
uma unidade de produção económica onde os filhos eram encarados como mão de
obra e os laços afetivos ficavam subordinados à disciplina do trabalho.
Paralelamente, o tempo histórico reflete a condição de
extrema vulnerabilidade jurídica e económica da mulher na sociedade
oitocentista. Numa época em que as oportunidades de independência financeira
para as mulheres eram praticamente inexistentes, a busca de segurança material
através do casamento constituía, muitas vezes, uma estratégia imperiosa de
sobrevivência. A posição da nova esposa na herdade ilustra precisamente essa
dependência histórica: o matrimónio com o patriarca idoso surge como o único meio
de obter teto e estatuto social, o que explica a ferocidade com que a posse do
lar e a necessidade de gerar um herdeiro são disputadas.
Por outro lado, o contexto de meados do século XIX assinala
também um momento de transição e fratura entre gerações. Enquanto a velha ordem
se apega aos valores do puritanismo rígido e à posse obsessiva da terra, a
geração mais jovem vive o choque entre a moralidade tradicional e o desejo de
emancipação individual. As convenções e os tabus sociais da época — como o
horror ao incesto, ao adultério e à profanação do leito paterno — atuam como
forças de contenção históricas que tornam a transgressão dos amantes ainda mais
violenta e trágica, confrontando o rigorismo puritano do século XIX com a
irrupção incontrolável da paixão humana.
A iluminação desempenha um papel determinante na atmosfera
dramática da cena, funcionando como um prolongamento visual e sensorial dos
conflitos interiores das personagens. O ambiente dos quartos no andar superior
é dominado pela luz vacilante e escassa de velas de sebo, que lançam sombras
trémulas sobre as paredes de madeira e acentuam a penumbra dos cantos. Esta
luminosidade reduzida e imperfeita constrói um espaço de confinamento e
segredo, propício ao adensar das obsessões e ao amadurecimento dos desejos
reprimidos. A penumbra não esconde as personagens, mas expõe a sua fragilidade:
sob a luz fraca da vela, o isolamento de Eben no seu quarto e a agitação de
Cabot e Abbie no compartimento contíguo ganham uma densidade íntima e
sufocante.
Em contraponto à iluminação frágil do andar superior, a sala
de visitas no piso inferior encontra-se mergulhada numa escuridão total,
preservada intacta desde o velório e a morte da mãe do jovem. Esta ausência
absoluta de luz simboliza a imobilidade da memória, a paralisia do passado e a
interdição do sagrado. Quando Abbie anuncia a determinação de descer as escadas
e acender as luzes nesse compartimento fechado, o ato de iluminações transforma-se
num gesto deliberado de profanação. Iluminar a sala de visitas significa romper
a escuridão do luto, expor o santuário materno à invasão do desejo carnal e
reivindicar a posse absoluta da habitação, convertendo a geografia do
sofrimento no palco definitivo da transgressão.
A síntese global deste momento do Ato II revela a
articulação perfeita entre a linguagem figurada, a cenografia e a gestão do
tempo na construção do conflito trágico. As metáforas e recursos expressivos
que pontuam o diálogo — desde a chama do olhar e o ardor dos lábios até à
contaminação da peçonha, à animalização dos corpos arquejantes e ao
rebaixamento social a jornaleiro — traduzem a metamorfose violenta da paixão em
agressividade, culpa e capitulação. Estas figuras de estilo ganham vida na
própria arquitetura da casa, onde a parede de tábuas atua como uma membrana
permeável entre o interdito e a tentação, e onde o frio interior e a perceção
de sombras inquietantes expulsam o patriarca do leito conjugal para a solidão
do estábulo.
À medida que o tempo cronológico da noite avança rumo à
madrugada, o tempo psicológico acelera e esmaga a capacidade de resistência
moral de Eben. Desarmado pela provocação de Abbie e impotente perante a força
hipnótica do seu olhar, o jovem entra num estado de transe e dissociação
interior. A apóstrofe desesperada à figura materna marca o colapso final do seu
autocontrolo, enquanto o ato autómato e mecânico de se vestir o impele a cruzar
o limiar do quarto. Deste modo, a penumbra das velas, a opressão da habitação e
a marcha inexorável das horas fundem-se para selar a rendição do indivíduo
perante a força avassaladora do desejo e do destino.
d) Caracterização Aprofundada das Personagens
Nesta cena, Ephraim Cabot revela-se num estado de exaltação
quase febril, profundamente dominado pela ideia fixa de conceber um filho que
assegure a continuidade do seu domínio. Instalado na penumbra do quarto de
casal, o patriarca manifesta uma mente na qual a figura da nova esposa se
confunde e funde com a própria terra. Para ele, a geração de um herdeiro não
decorre de um impulso de afeto conjugal ou de ternura, mas antes de uma
exigência imperiosa e quase biológica da própria herdade. Trata-se de uma necessidade
de erguer uma barreira contra a cobiça dos filhos, a quem ele considera fracos,
moles e incapazes de compreender a dimensão sagrada do solo que ele desbravou.
A caracterização de Cabot adensa-se através do seu monólogo
interior e confessional, no qual formula a sua teologia pessoal e implacável.
Ao evocar os cinquenta anos de combate contra a aridez da Nova Inglaterra, o
patriarca define a sua identidade através do confronto com a pedra. Orgulha-se
de ter feito nascer trigo da rocha onde outros sucumbiram ou fugiram para a
facilidade do Oeste. Cabot rejeita categoricamente a ideia de um Deus fácil ou
condescendente, abraçando em vez disso uma divindade austera que habita na
dureza do mundo mineral. A sua rigidez de caráter surge, assim, não como um
defeito, mas como uma vocação espiritual e um escudo de sobrevivência; a dureza
de que todos o acusam é assumida por ele como a prova do seu cumprimento do
dever divino.
Contudo, por trás dessa fachada inabalável, a cena expõe a
tragédia de uma solidão crónica e incurável. Ao percorrer a sua trajetória de
vida, o patriarca revela o drama de um homem que ergueu muros de pedra ao longo
de décadas, mas que nunca conseguiu estabelecer uma ponte de comunicação
autêntica com qualquer outro ser humano. Recorda com amargura as esposas
anteriores — a primeira, trabalhadora mas alheia à sua essência; a segunda,
bonita mas frágil, cuja presença tornou a casa mais solitária do que o inferno
— e lamenta o abismo de ódio que o separa dos filhos. Mesmo quando tenta ver na
nova esposa uma promessa de redenção para o seu deserto interior, vê-se
confrontado com a indiferença e a distância do seu olhar, percecionando com
azedume que permanece um estranho absoluto para quantos o rodeiam.
O desfecho da presença do patriarca nesta cena assinala o
colapso da sua autoridade e o desnudamento da sua vulnerabilidade. Perante a
impossibilidade de encontrar comunhão, Cabot começa a sentir a própria
habitação como um espaço gélido, inóspito e habitado por sombras e presenças
invisíveis que se movem no escuro. Esta perturbação somática e espiritual
expulsa-o do leito conjugal, levando-o a vestir-se apressadamente para procurar
abrigo no estábulo. Ao afirmar que só junto dos animais encontra o calor, a paz
e a compreensão que o mundo humano lhe nega, Cabot revela a extensão do seu
isolamento. A sua caminhada trôpega para o exterior, coroada por um clamor
torturado a Deus no meio da noite, consagra a imagem de um homem tragicamente
encarcerado na sua própria dureza, expulso do lar e reduzido ao refúgio
primitivo do estábulo.
Abbie Putnam:
Física: Jovem, atraente, dotada de uma sensualidade
magnética e vigorosa que contrasta abertamente com a decadência de Cabot.
Psicológica: Determinada, calculista, astuta e dotada de uma
vontade implacável. Combina a ambição material de possuir um lar com uma
capacidade avassaladora de entrega erótica e paixão genuína por Eben.
Social: Mulher de origem humilde e desapossada que procurou
no casamento com o velho patriarca a segurança económica, lutando ferozmente
para erguer o seu domínio na casa.
Eben Cabot:
Física: Jovem, forte e em pleno vigor físico, apresentando
ao longo da cena uma agitação motora constante — descalço e em roupa interior
—, que reflete a sua febre interior.
Psicológica: Imaturo, conflituoso e emocionalmente instável.
É dominado por um complexo edipiano em relação à mãe falecida e por um
sentimento de culpa puritano que o divide entre o dever filial, o ódio ao pai e
a atração fatal por Abbie.
Social: O filho mais novo da casa, desprovido de herança e
remetido à condição de trabalhador explorado na própria terra que considera sua
por direito materno.
e) Linguagem e Figuras de Estilo
O paralelismo presente em "A herdade precisa de um
filho. Eu preciso de um filho", dito por Cabot e Abbie respetivamente,
mostra que, para ele, um filho constitui um instrumento de continuidade do
nome, da propriedade e do trabalho, ou seja, a criança não vale por si, mas
pela garantia de que o património não caia em mãos alheias; por seu turno, a
jovem esposa mostra que um filho constituirá para si uma arma de afirmação de
poder, o instrumento para anular a sua condição de "estranha" e para
garantir a posse definitiva da casa. Embora partilhem as mesmas palavras nas
suas frases, os dois falam linguagens diferentes.
A declaração de Ephraim "Às vezes tu és a herdade, e às
vezes a herdade és tu." reduz Abbie à própria terra, sendo encarada pelo
marido não como indivíduo, mas como extensão da sua propriedade e instrumento
de fertilidade. A figura do quiasmo ("tu" / "herdade" ≠
"herdade" / "tu") fecha o pensamento de Cabot num círculo
perfeito e obsessivo, onde não existe separação moral ou conceptual entre a
esposa e a propriedade agrícola. Ao equacioná-la com a terra, a metáfora opera
um processo de reificação (isto é, redução da pessoa a coisa). Ela é desprovida
da sua individualidade, subjetividade e autonomia enquanto mulher; não é
encarada como uma parceira humana para ser absorvida na categoria de bem
imóvel, tornando-se uma extensão física e jurídica dos campos pedregosos que
Cabot desbravou ao longo de cinquenta anos. Mais: Abbie é simultaneamente o
refúgio contra o seu isolamento e o instrumento de fertilidade indispensável
para garantir que o seu sangue perpetua o domínio sobre a propriedade.
Atente-se, porém, na reação da esposa: "É melhor dormires. Estás a
misturar as coisas todas." Enquanto diz isto, conserva o olhar pregado na
parede divisória do quarto contíguo, no qual está Eben, para quem ela dirige o
seu desejo latente.
A personificação "Eu e a herdade temos de ter um
filho!" humaniza a propriedade como uma parceira na procriação. Ela
humaniza o solo agrícola, atribuindo-lhe a capacidade de gerar uma criança.
Assim, a terra deixa de ser um mero bem imóvel para se transformar numa
entidade viva. Na visão de Ephraim, o trabalho da lavoura, a religião e a
sexualidade fundem-se. Aparentemente, a procriação não constitui um ato de
afeto entre dois seres humanos (neste caso, dois cônjuges), mas antes um ritual
sagrado e agrícola em simultâneo. A herdade é elevada a uma espécie de consorte
na conceção do herdeiro, dado que, por contraponto, rebaixa a presença real de
Abbie, que se torna o recetáculo passivo ou o meio físico através do qual se
consuma a união entre o proprietário e o seu solo.
Abbie responde-lhe que ele está a "misturar as coisas
todas" e Ephraim retorque que o seu espírito "está límpido como o
cristal". Esta comparação significa que o patriarca está convencido de que
possui uma mente purificada de incertezas, guiada pelas suas convicções
religiosas e patrimoniais. Curiosa e ironicamente, é precisamente neste
momento, em que o velho reivindica estar plenamente lúcido, que, na realidade,
se encontra num estado de completa cegueira em relação à realidade que o
envolve, manipulado astutamente pela esposa. Note-se, por último, que o
cristal, além de transparente, é rígido e quebradiço, o que equivale a dizer
que a sua "lucidez" representa a incapacidade de escutar o outro,
culminando na amarga constatação seguinte: "Tu não me conheces, e é o que
é".
Segue-se uma didascália na qual fica bem visível a tensão
não-verbal da cena e a paixão reprimida entre madrasta e enteado: "Os
olhares ardentes de ambos parecem encontrar-se através da parede." Por um
lado, a sinestesia "olhares ardentes" enfatiza a emoção segundo a
qual o desejo entre os dois os consome interiormente, projetando calor e
incandescência no ambiente sufocante daquela noite de verão. Ao descrever os
olhares como algo que consegue "encontrar-se através da parede", o
texto indicia que a parede, que deveria funcionar como uma fronteira moral e
arquitetónica entre o leito conjugal do casal e o espaço privado de Eben,
converte-se em algo permeável. Dito de outra forma, a imagem sugere que o
contacto físico entre madrasta e enteado é inevitável. A barreira espacial é
impotente perante a força do desejo. Neste contexto, note-se como o rapaz
estende os braços "inconscientemente" em direção à parede, impelido
pelo impulso sexual.
A hipérbole "dez vezes mais forte e cinquenta vezes
mais rijo que o Eben" exagera a virilidade e a resistência de Ephraim na
juventude, servindo, por contraste, para diminuir a figura do filho. Esta
declaração do patriarca surge no âmbito da sua retrospetiva autobiográfica, em
que ele evoca a sua juventude e luta denodada para desbravar o solo pedregoso
da herdade. Repare-se no exagero dos números, que traduz o orgulho desmedido (hybris)
do
Enumeração das Figuras de Estilo Presentes na Cena:
Metáfora
Comparação
Antítese
Personificação
Hipérbole
Apóstrofe
Gradação
Repetição / Anáfora
f) Características da Tragédia Clássica Grega
Hybris (A Desmedida e a Soberba): Manifesta-se na cegueira
de Cabot, que se considera o escolhido de Deus e o senhor absoluto da terra e
da vida, julgando-se acima da velhice e das necessidades afetivas dos que o
rodeiam.
Hamartia (O Erro Trágico): O erro fatal de Cabot ao
introduzir uma jovem esposa na casa e ao ignorar a força da natureza, bem como
a transgressão moral cometida por Eben e Abbie ao cederem ao desejo proibido.
Anagnorisis e Peripeteia (Reconhecimento e Inversão): O
momento em que Cabot pressente que a casa o rejeita através do frio e das
sombras, e a súbita inversão de poder no quarto de Eben, onde a rejeição
inicial se transforma em capitulação total.
Ananké (A Fatalidade e o Destino): O determinismo biológico
e ambiental que esmaga as personagens. Elas são joguetes de forças superiores a
si próprias: o desejo carnal incoercível, o peso da terra, a hereditariedade e
o chamamento do espírito da mãe falecida.
Mito Edipiano e Incesto Simbólico: A reconstituição da
tragédia de Édipo e de Fedra, onde o filho se une à madrasta no espaço
sacralizado da mãe morta, consumando a vingança contra o pai e a violação do
tabu ancestral.
g) Elementos Simbólicos
A Parede Divisória: Simboliza a barreira moral e a
interdição do incesto, mas funciona simultaneamente como um condutor
psicológico que aproxima as mentes de Abbie e Eben.
A Sala de Visitas (Parlor): Representa o santuário mudo da
falecida mãe de Eben. A sua reabertura e iluminação simbolizam a profanação do
luto, o local do sacrifício e o palco definitivo do incesto.
O Frio e as Sombras: O frio inexplicável que penetra no
quarto de Cabot simboliza a ausência de amor, a esterilidade da sua conduta e a
presença espiritual vingativa da segunda esposa.
As Pedras e o Deus de Pedra: Representam a dureza inflexível
de Cabot e o puritanismo esterilizante que rejeita a facilidade e a compaixão
em favor do sofrimento e da posse.
O Estábulo e as Vacas: Simbolizam o refúgio na natureza
bruta e animal, onde o calor e a paz simples dos animais oferecem o conforto
que a casa dos homens recusa a Cabot.
A Vela e a Luz na Janela: A luz vacilante das velas evoca a
precariedade moral e a penumbra da consciência, enquanto o brilho que emana da
sala de visitas assinala o acender do fogo trágico.
h) Análise Ideológica da Cena
A cena desenvolve uma rigorosa desconstrução dos pilares
fundacionais da sociedade puritana e americana do século XIX. Em primeiro
lugar, procede a uma crítica profunda ao puritanismo dogmático e ao calvinismo,
demonstrando como a conceção de um Deus duro e punitivo gera seres humanos
emocionalmente mutilados, incapazes de criar laços de afeto genuínos e
condenados a uma solidão trágica.
Em segundo lugar, expõe as contradições do materialismo
patriarcal e do culto da propriedade. A terra e o património surgem como
obsessões que reificam os indivíduos: as mulheres são tratadas como
instrumentos de reprodução para assegurar herdeiros e os filhos como mão de
obra servil. A luta pelo domínio da herdade converte a família num campo de
batalha onde o amor é instrumentalizado como arma de conquista económica.
Por fim, a cena afirma o triunfo do determinismo biológico e
da Natureza sobre a Lei e a Moral. O desejo erótico entre Abbie e Eben e a
necessidade de reparação do trauma materno revelam-se forças primitivas e
incontroláveis, capazes de fazer ruir todas as interdições religiosas, sociais
e legais. O incesto surge, assim, não apenas como um pecado, mas como uma forma
trágica de libertação e vingança contra a tirania do patriarca.
Resumo da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
A ação desta cena desenrola-se no andar superior da casa, durante uma noite abafada de Verão, onde o interior de dois quartos iluminados por velas frouxas expõe uma intensa divisão psicológica. Num dos quartos, Cabot e Abbie encontram-se sentados na cama de casal, tomados pela ideia fixa da necessidade de gerar um herdeiro para a herdade. O marido expressa uma fusão obsessiva entre a esposa e a terra, declarando que ambos têm de produzir um filho, ao passo que ela acolhe as suas afirmações com frieza e enfado. No quarto contíguo, Eben levanta-se e passeia desvairadamente, descalço e em roupa interior, consumido pela perturbação e pelo calor. Através da parede divisória, estabelece-se uma ligação invisível entre ele e a madastra, cujos olhares e gestos se procuram num desejo sufocado, até que o jovem se atira para a cama num gesto de desespero e praga contra si próprio.
Incapaz de obter uma verdadeira resposta afetiva da esposa, Cabot inicia um longo e amargo monólogo sobre a sua trajetória de vida e o seu isolamento. Recorda ter chegado àquela terra há cinquenta anos, confrontando um solo árido coberto de pedras que levou outros à fuga ou à morte. O velho patriarca relata como se endureceu à imagem de um Deus rigoroso que habita nas pedras, recusando a vida fácil nas planícies do Oeste, porque uma voz interior o mandou regressar para erguer muros com o próprio suor. Evoca com amargura os seus casamentos anteriores: a primeira esposa, com quem viveu duas décadas sem que ela o compreendesse, e a mãe de Eben, cuja fraqueza e disputa familiar sobre os direitos da herdade apenas aprofundaram a sua solidão. Cabot confessa que, após anos de ressentimento mútuo com os filhos, interpretou o chamamento divino como uma ordem para procurar Abbie, a sua «Rosa de Sião», na esperança de encontrar alívio para a sua eterna solidez e isolamento.
Perante o olhar frio da mulher, que promete de forma enigmática vir a ter um filho dele, o patriarca é subitamente acometido por um calafrio e por uma sensação desagradável de frio e sombras que remexem nos cantos escuros da casa. Procurando o sossego e o calor que não encontra no lar, o velho veste-se e decide ir dormir para o estábulo junto das vacas. Após clamar a Deus sob o céu noturno, afasta-se. Ficando sozinhos no andar de cima, a tensão entre Abbie e Eben atinge o ponto de rutura. Dominada pelo desejo, ela abandona o seu quarto e entra resolutamente no quarto do enteado. Perante a imobilidade tensa do jovem, a madrasta lança-se ao seu pescoço num abraço apaixonado e cobre-o de beijos, aos quais ele, num primeiro momento, cede e retribui com igual ardor.
Contudo, a consciência do ódio e da culpa faz com que a empurre subitamente, afirmando com dureza que o beijo soube a peçonha e tentando convencer-se de que pensava noutra mulher. Abbie confronta-o com a falsidade da sua negação, lembrando o ardor dos seus lábios, e a conversa degenera num confronto verbal violento. A mulher insulta-o e declara com orgulho manipulador que nunca esteve apaixonada por ele, tendo-o apenas procurado para assegurar o domínio sobre a casa e a propriedade, reduzindo-o à condição de mero jornaleiro. Para consolidar o seu poder, anuncia que vai descer e abrir a sala de visitas — mantida fechada desde a morte da mãe do rapaz —, convidando-o a juntar-se a ela. Perante o olhar fixo e a vontade implacável de Abbie, a resistência dele desmorona-se. Assim que a luz surge na janela da sala no piso inferior, Eben, num estado de profunda desorientação, veste mecanicamente o fato e o chapéu, permanecendo descalço, e lança um apelo desolado à falecida mãe antes de caminhar lentamente em direção à porta.
sábado, 10 de outubro de 2026
Análise de Desejo sobre os Ulmeiros, de Eugene O'Neill
I. Biografia de Eugene O'Neill
II. Relação da peça com a tragédia grega
III. Resumo da peça
IV. Resumo das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
V. Análise das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV.
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
VI.
VII. Questionários



