domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Funcionamento do aparelho fonador
O aparelho fonador
a) os pulmões, os brônquios e a traqueia, órgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria-prima da fonação;
b) a laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala;
c) as cavidades supralaríngeas (a faringe, a boca e as fossas nasais), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos órgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinónimo de "idioma".
Quase todos os sons da nossa fala são produzidos na expiração. A inspiração normalmente funciona como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução. Há outras línguas, como, por exemplo, o hotentote, o zulo, o boximane e outros idiomas africanos, que apresentam uma série de consoantes articuladas na inspiração, os ruídos que se denominam cliques. No caso da língua portuguesa, praticamos alguns cliques, mas sem valor fonémico: o beijo, que é uma bilabial inspiratória; o estalido línguo-dental com que animamos o andar das cavalgaduras; e uns poucos mais.
(c) Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo
Os sons da fala
Fonologia
terça-feira, 30 de junho de 2026
Literatura popular: atualidade
Nos últimos largos anos, a literatura popular tem vindo a empobrecer gradualmente, essencialmente por causa da generalização de modelos graças aos meios de comunicação e à Internet. Já em 1933 Leite de Vasconcelos proclamava: "Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem, vivendo hoje, houvesse nascido nos meados do século XIX lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona — e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer da tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares... estudemos tudo, busquemos ou continuemos a buscar paralelos ao que estiver, abalancemo-nos à compreensão genérica dos factos, e assim daremos provas, nós, Portugueses, de que desejamos acompanhar as nações cultas neste campo de atividade científica."
Literatura popular: continuadores de Almeida Garrett
Literatura popular: Almeida Garrett e o Romanceiro
- Vida
sábado, 27 de junho de 2026
Análise do conto "O gato preto", de Egar Allan Poe
- Instigado por um impulso primitivo que chama de "espírito da perversidade", o narrador enforca Plutão no ramo de uma árvore a sangue-frio.
- Na mesma noite do enforcamento, um violento incêndio destrói por completo a sua casa e os seus bens, restando apenas uma parede divisória com a imagem assombrosa de um gigantesco gato enforcado gravada em baixo-relevo no estuque.
- Meses depois, numa taberna, o narrador encontra e adota um novo gato preto, em tudo idêntico a Plutão (também é invisual de um olho), diferenciando-se apenas por uma mancha branca no peito.
- O narrador desenvolve uma aversão incontrolável e um pavor absoluto por este novo felino, sentimentos que se intensificam à medida que a mancha branca no peito do animal adquire a forma nítida de uma forca (símbolo de morte e crime).
- A loucura atinge o limiar durante uma descida à cave: ao tentar desferir um golpe de machado no gato e ser travado pela mulher, o narrador assassina a esposa, cravando-lhe o machado no cérebro.
- De forma fria e calculista, oculta o cadáver da esposa emparedando-o numa falsa lareira da cave. Nos dias que se seguem, o gato desaparece e o narrador desfruta de um falso triunfo e alívio.
- Juventude (a docilidade): Nos seus primeiros anos, caracterizava-se por uma enorme ternura, docilidade e humanidade de temperamento. Era um indivíduo pacífico e extremamente afetuoso, encontrando a sua maior felicidade e prazer no amor altruísta e abnegado pelos animais.
- A Queda (o vício): Dominado pelo que chama de "demónio da intemperança" (o alcoolismo), a sua alma corrompe-se. Torna-se temperamental, irritável, rabugento e perde qualquer empatia pelos outros, passando a usar linguagem agressiva e a recorrer à violência física.
- A perversidade e a frieza: O narrador é progressivamente tomado pelo "espírito da perversidade" — um impulso primitivo e inexplicável que leva o ser humano a cometer o mal simplesmente pelo prazer de fazer o que é errado. É esta perversão que o faz mutilar e assassinar o seu amado gato a sangue-frio, perfeitamente consciente do peso moral do seu pecado.
- Paranoia e degradação final: Com a chegada do segundo gato, o narrador é consumido por uma fobia irracional, um pavor paralisante e pesadelos constantes. Os seus pensamentos tornam-se exclusivamente negros e sádicos. Após assassinar a esposa num acesso de fúria cega, revela traços de psicopatia: age de forma fria, metódica e calculista para esconder o corpo, sentindo um imenso alívio e dormindo tranquilamente sem qualquer vestígio de remorso ou culpa.
- Arrogância: O seu traço final é uma soberba e um excesso de confiança desmedidos. É o seu ego e a necessidade de se gabar da sua impunidade que o levam, num momento de euforia despropositada, a bater na parede do túmulo, provocando a sua própria ruína.
- Afinidade e Ternura: Apresenta uma disposição inicial pacífica e perfeitamente compatível com a do marido na juventude, partilhando plenamente a sua predileção e amor por animais de estimação. Revela uma humanidade de sentimentos constante, afeiçoando-se de imediato às criaturas, incluindo ao segundo gato preto, cuja presença tanto perturbava o narrador.
- Superstição Ligeira: Possui no íntimo alguns laivos de superstição, sendo ela quem recorda frequentemente a antiga crença popular de que os gatos pretos são, na verdade, feiticeiros disfarçados, embora não levasse essa ideia demasiado a sério.
- Paciência e Resignação: Torna-se a principal mártir da transformação demoníaca do marido. Apesar de ser alvo de uma linguagem destemperada e de violência física frequente, demonstra uma extrema resiliência, sendo descrita pelo narrador como a mais paciente das vítimas dos seus incontroláveis acessos de fúria.
- Coragem e Altruísmo: O seu último ato em vida denota uma bravura instintiva e protetora, uma vez que intervém fisicamente, esquecendo o medo, para travar o golpe de machado do marido e impedir a morte do gato. É este gesto altruísta de proteção que lhe acaba por custar a própria vida.
- Inteligência: Possui uma esperteza tão surpreendente que leva a esposa do narrador a recordar frequentemente a antiga superstição popular de que os gatos pretos seriam feiticeiros disfarçados.
- Lealdade e Afeto: Durante vários anos, demonstra uma dedicação, uma docilidade e um amor absolutos pelo seu dono, não lhe dando qualquer motivo para ser maltratado.
- Instinto e Medo: Após começar a ser vítima da crueldade e violência do narrador (culminando na mutilação do olho), o comportamento de Plutão altera-se por puro instinto de preservação. A sua antiga lealdade dá lugar a um terror profundo e a uma antipatia evidente, passando a fugir apavorado sempre que o dono se aproxima. É precisamente esta fuga e aversão compreensíveis que acabam por despertar o "espírito da perversidade" no protagonista, ditando a sentença de morte do inofensivo animal.
- O narrador: é o centro absoluto da história e a força motriz de todo o enredo. É a partir da sua mente e das suas ações que a narrativa se desenvolve, desde a sua fase dócil inicial até à sua completa degradação moral e condenação.
- A esposa do narrador: embora seja alvo direto das ações do protagonista e crucial para o clímax trágico do conto, a sua participação é maioritariamente passiva e reativa à loucura do marido.
- Plutão (o primeiro gato): assume um papel de enorme relevo na primeira metade da narrativa, funcionando como o companheiro inicial que acaba por se tornar a primeira grande vítima da crueldade do protagonista.
- O segundo gato preto: é um elemento vital para a segunda metade da ação, atuando quase como o antagonista do narrador. A sua presença e a sua "voz delatora" conduzem a história para o seu desfecho.
- A polícia (os agentes): têm uma intervenção com impacto direto na ação, uma vez que realizam a busca na cave, deitam a parede abaixo e desvendam o crime.
- O criado: a sua presença é ínfima, sendo referido apenas como um dos sobreviventes que conseguiu escapar da casa durante a noite do incêndio.
- O dono da taberna: surge num momento muito pontual para interagir com o narrador, limitando-se a declarar que nunca tinha visto o segundo gato e que nada sabia sobre ele.
- A multidão / os espectadores: atuam como uma massa coletiva e anónima. Aglomeram-se para observar o baixo-relevo do gato na parede destruída pelo fogo e, mais tarde, presenciam a macabra revelação do cadáver escondido.
- Os companheiros de infância: são evocados brevemente nas memórias do narrador como sendo aqueles que troçavam da sua excessiva docilidade e ternura de coração quando era mais novo.
