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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Análise de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

 I. Vida de José Mauro de Vasconcelos


II. Obras


III. Obra


IV. Época


V. Ação

        1. Resumo

        2. Estrutura

        3. Resumo dos capítulos

                3.1. Primeira parte

                        3.1.1. Primeiro capítulo

                        3.1.2. Segundo capítulo

                        3.1.3. Terceiro capítulo

                        3.1.4. Quarto capítulo

                        3.1.5. Quinto capítulo

                3.2. Segunda parte

                        3.2.1. Primeiro capítulo

                        3.2.2. Segundo capítulo

                        3.2.3. Terceiro capítulo

                        3.2.4. Quarto capítulo

                        3.2.5. Quinto capítulo

                        3.2.6. Sexto capítulo

                        3.2.7. Sétimo capítulo

                        3.2.8. Oitavo capítulo

                        3.2.9. Último capítulo


VI. Análise dos capítulos

        1. Título da 1.ª parte

        2. Capítulo I

                2.1. Título

                2.2. Ação

                2.3. Caracterização das personagens

                        a) Zezé

                        b) Totoca

                        c) Mãe

                        d) Tio Edmundo

                        e) Pai de Zezé

                2.4. Espaço

                2.5. Tempo

                2.6. Narrador

                2.7. Simbologia

                2.8. Temas

        3. Capítulo II

                3.1. Título

                3.2. Ação



O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

Caracterização do pai de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização psicológica
 
● Vive frustrado e apático por estar desempregado.
 
● Manifesta pouca paciência relativamente a Zezé, castigando-o pelas suas travessuras.
 
ii) Caracterização social
 
● Desempregado, sente-se humilhado pela pobreza e pelo facto de ser a esposa a sustentar a casa.
 
● É uma figura de autoridade distante, dura e cansada.
  

Caracterização do Tio Edmundo (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● Não é um parente biológico de Zezé, mas faz parte da vida da família, assumindo o papel semelhante ao de um tio.
 
● É um homem velho e reformado, de cabelo branco e óculos na ponta do nariz, que passa o seu tempo acompanhando Dindinha.
 
● Fala pausadamente, lê o jornal, adotando a postura de quem já não participa ativamente no mundo do trabalho.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Para Zezé, é um “sábio”, uma referência intelectual que admira pelo seu conhecimento.
 
● É visto pela família como “meio trongola”, meio excêntrico ou «maluco», porém, para o narrador, é o portador de uma sabedoria encantadora.
 
● Velho e separado da mulher, vive sozinho, apesar de ter cinco filhos, que não o visitam.
 
iii) Caracterização social
 
● Está aposentado: recebe pensão da Câmara Municipal.
 
● De condição modesta, é visto como «sábio» e respeitado por Zezé.
 
● É um transmissor de cultura: não sendo professor, é um mestre involuntário.
 

Caracterização da Mãe (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● É alta, magra, mas muito bonita, e tem a pele queimada pelo sol.
 

● Os seus cabelos são pretos, lisos e longos, caindo até à cintura.

 
● Usa um lenço na cabeça para se proteger do sol e um avental na cintura enquanto lava.
 
● A sua imagem surge associada ao tanque de lavar a roupa: as mãos na água, o sabão, a espuma e o estendal.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Reprime Zezé, mas não de forma tão dura como outros membros da família.
 
● Demonstra o seu afeto não por palavras, mas através de pequenos gestos, como, por exemplo, cantar para o filho enquanto trabalha.
 
● A canção que cantava ficou gravada no íntimo de Zezé como símbolo de consolo e memória afetiva.
 
iii) Caracterização social
 
É uma mulher do povo, casada, com vários filhos.
 
É uma mulher trabalhadora: sustenta a casa e a família com o escasso produto do seu trabalho – lava a roupa da família do Dr. Faulhaber.
 
Vive condicionada pelas circunstâncias: o marido está desempregado, as contas atrasadas, a luz cortada.

sábado, 11 de julho de 2026

Resumo de A Dama do Lago, de Raymond Chandler

Raymond Chandler
    A Dama do Lago (The Lady in the Lake) é um romance policial da autoria do escritor Raymond Chandler.
    O início da história acompanha o detetive privado Philip Marlowe, que se desloca aos luxuosos escritórios da empresa de cosméticos Gillerlain para se encontrar com o rígido e arrogante empresário Derace Kingsley, após a recomendação de um tenente.
    Após um primeiro contacto tenso e uma breve negociação sobre honorários e confidencialidade, Kingsley revela o motivo da reunião: quer contratar Marlowe para encontrar a sua mulher, Crystal, que está desaparecida há cerca de um mês. O último local onde esteve foi na propriedade do casal nas montanhas, junto a um lago (Little Fawn Lake).
    Kingsley explica que recebeu um telegrama de Crystal, oriundo de El Paso, a informar que iria para o México tratar do divórcio para se casar com um homem chamado Chris Lavery, descrito como um conquistador. O mistério adensa-se quando Kingsley conta que se cruzou acidentalmente com Lavery há poucos dias e este lhe garantiu que não fugiu com Crystal nem a via há dois meses.
    Temendo um escândalo e sabendo que a mulher tem um comportamento bastante errático e extravagante quando bebe (incluindo roubar em lojas), Kingsley confia a investigação a Marlowe, temendo que algo de grave lhe possa ter acontecido.
    O detetive traça logo o seu plano de ação: interrogar Chris Lavery e fazer uma visita à propriedade na montanha. Antes de sair, pede a morada de Lavery à elegante secretária do empresário, Miss Fromsett, que reage com evidente nervosismo e desconforto ao ouvir o nome do homem, dando assim o mote para o arranque da investigação.
    Dando seguimento à investigação, o detetive dirige-se à casa de Chris Lavery. Após alguma insistência, este acaba por deixá-lo entrar, mas mostra-se arrogante e esquivo. Nega ter fugido com Crystal para El Paso e garante que não a vê desde que estiveram juntos na montanha, não adiantando qualquer pista sobre o seu paradeiro. Ao sair da casa, Marlowe decide ficar a observar a rua a partir do seu carro e depara-se com uma situação suspeita na vivenda em frente, que pertence a um médico chamado Dr. Albert Almore, que se apercebe da sua presença e se mostra bastante nervoso, espreitando por entre as cortinas e fazendo um telefonema.
    Pouco depois, surge um detetive da polícia, o tenente Degarmo, que confronta o detetive de forma hostil. O polícia assume imediatamente que Marlowe está ali para vigiar ou chantagear o Dr. Almore, lançando-lhe avisos em tom de ameaça e indicando que o último homem que tentou fazer o mesmo teve um desfecho infeliz. O investigador esconde os seus verdadeiros motivos, afasta-se e regressa ao escritório. De seguida, telefona a Derace Kingsley para o informar sobre o encontro infrutífero com Lavery e relata-lhe o estranho episódio com o vizinho. O empresário revela então um detalhe intrigante: o Dr. Almore foi médico de Crystal no passado, tratando-a nos seus episódios de embriaguez, e a própria mulher do médico cometeu suicídio há algum tempo. Perante este novo mistério que parece cruzar-se com o seu caso, o detetive decide avançar para a fase seguinte do seu plano e informa Kingsley de que irá viajar até à propriedade do casal nas montanhas para tentar descobrir o que realmente aconteceu a Crystal.
    Dando continuidade à investigação, Marlowe viaja até à remota propriedade dos Kingsley nas montanhas, perto de San Bernardino, no isolado Little Fawn Lake. Lá, depara-se com Bill Chess, o caseiro do local, um homem rude, amargurado e com forte tendência para a bebida. Durante a conversa, este confirma que Crystal Kingsley partiu para a cidade há cerca de um mês e não voltou a ser vista. Contudo, o caseiro acaba por desabafar e partilha um detalhe trágico e coincidente: a sua própria mulher, Muriel, também o abandonou exatamente na mesma altura. Após uma discussão motivada pela infidelidade de Bill, Muriel desapareceu, deixando-lhe apenas um bilhete a dizer que preferia a morte a continuar a viver com ele. O detetive aproveita a oportunidade para revistar a cabana de Kingsley em busca de pistas sobre a fuga de Crystal, investigando as roupas e pertences deixados para trás. No entanto, é no exterior que a investigação sofre uma reviravolta chocante e macabra.
    Enquanto os dois homens contemplam as águas do lago a partir de um pontão, reparam numa forma estranha presa debaixo de água, sob uma antiga estrutura de madeira. Bill atira uma pesada pedra para quebrar as tábuas submersas, libertando o que lá estava preso. O corpo afogado e em avançado estado de decomposição de uma mulher loira vem flutuar à superfície. Ao reconhecer o colar de pedras verdes que a vítima traz ao pescoço, Bill Chess entra em absoluto desespero, percebendo que a mulher morta no lago é afinal a sua esposa, Muriel. Após a macabra descoberta do corpo, Marlowe deixa-o sozinho e em estado de choque junto ao lago, dirigindo-se à povoação para alertar as autoridades locais.
    Lá, o detetive encontra Jim Patton, um homem corpulento, mais velho e de modos muito pacatos, que acumula as funções de xerife e delegado daquela jurisdição e que se encontra em plena campanha eleitoral para manter o cargo. Marlowe relata-lhe o aparecimento do cadáver na propriedade dos Kingsley, confirmando que, a julgar pelas roupas e pelos indícios, se trata de Muriel Chess.
Marlowe partilha também os detalhes da descoberta: o facto de o corpo estar submerso e preso debaixo do pontão há cerca de um mês, e a existência do bilhete de despedida que sugere um possível suicídio.
Sem demonstrar qualquer sobressalto ou pressa excessiva, o pragmático xerife Patton aceita a gravidade da situação e prepara-se para intervir. Antes de arrancarem nos respetivos carros em direção a Little Fawn Lake, Patton retira estrategicamente uma garrafa de uísque da sua secretária para ajudar a acalmar Bill Chess e informa que irá contactar o médico local, o doutor Hollis, dando assim início às diligências oficiais da investigação. Apesar da insistência do viúvo de que a mulher se suicidou atirando-se à água e ficando propositadamente presa debaixo do pontão, tanto o médico como o pragmático xerife mostram-se céticos em relação à teoria de um simples afogamento. Confrontado com as dúvidas das autoridades e com o facto de o bilhete de despedida ter a data de 12 de junho (há um mês), Bill Chess sofre um violento esgotamento emocional. Num acesso de fúria e desespero, agride-se a si próprio no rosto até sangrar e grita para que o prendam, culpando-se pela morte da mulher devido às suas infidelidades, embora negue veementemente tê-la assassinado. Mantendo a calma, Patton decide levá-lo para a vila para ser interrogado de forma oficial.
    Mais tarde, na vila de Puma Point, Marlowe é abordado junto ao seu carro por Birdie Keppel, uma bem-disposta cabeleireira local que também trabalha como jornalista para o jornal da terra. Após o detetive partilhar alguns dos detalhes que já são do conhecimento das autoridades sobre a descoberta no lago, Birdie decide partilhar uma pista crucial que introduz uma nova peça no puzzle. A jornalista revela que, há algumas semanas, um polícia de Los Angeles com tiques de valentão, chamado De Soto, andou pela zona a mostrar a fotografia de uma mulher chamada Mildred Haviland. Birdie reparou que a mulher da fotografia, apesar de ter a cor de cabelo e as sobrancelhas diferentes, era incrivelmente parecida com Muriel Chess. A suspeita adensa-se quando a jornalista confessa que chegou a comentar o episódio com a própria Muriel, notando que esta tentou disfarçar, mas não conseguiu ocultar um evidente nervosismo. Com esta revelação, Marlowe percebe que a pacata esposa do caseiro assumira uma falsa identidade e esconde segredos obscuros que a ligam à polícia de Los Angeles. No final da conversa, Birdie afasta-se na escuridão e o detetive dirige-se à central telefónica da vila.
    Após descobrir a pista sobre a falsa identidade de Muriel, Marlowe telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre o caso e aproveita para o questionar sobre o nome "Mildred Haviland", mas o empresário reage de forma defensiva e nega qualquer conhecimento sobre essa mulher. Nessa mesma noite, o detetive regressa furtivamente à propriedade em Little Fawn Lake e decide arrombar uma janela para investigar o interior da casa de Bill Chess. Para sua surpresa, depara-se com o pragmático xerife Jim Patton, que o aguardava calmamente às escuras no interior da habitação. Os dois homens acabam por partilhar informações e teorias sobre o crime. Quando Marlowe menciona a semelhança entre Muriel e a mulher procurada pela polícia de Los Angeles, Patton admite que também ele tinha sido abordado pelo mesmo detetive com a fotografia, mas que na altura optou por não dizer nada.
    Em seguida, o xerife partilha um avanço crucial na investigação: antes de regressar à cidade, foi investigar as redondezas de um lago vizinho e isolado, chamado Coon Lake. Lá, escondido num barracão de uma estância de verão abandonada, Patton encontrou o carro de Muriel com as suas malas e roupas empacotadas. Além disso, mostra a Marlowe uma prova muito peculiar encontrada no local: um fio de ouro de tornozelo, cortado, que estava cuidadosamente escondido no meio de pó branco, dentro de uma caixa de açúcar. Perante este cenário tão engenhoso e calculado, ambos concordam que Bill Chess dificilmente teria a frieza, a astúcia ou até a capacidade de planeamento para ocultar o carro e as provas com aquele nível de detalhe. Esta conclusão levanta sérias dúvidas sobre a culpa do caseiro e adensa ainda mais o mistério em torno do passado obscuro de Muriel e de quem a quereria ver morta.
    A investigação de Philip Marlowe sofre um novo avanço quando este decide revistar minuciosamente a cabana de Bill Chess. Escondida no fundo de uma caixa de açúcar em pó, o detetive encontra uma pequena medalha de ouro em forma de coração com uma dedicatória de "Al" para "Mildred". Esta prova confirma definitivamente que a falecida Muriel Chess e a procurada Mildred Haviland são a mesma pessoa. O detetive partilha a descoberta com o xerife Patton, sugerindo a teoria de que o assassino será alguém do passado da vítima que a conseguiu raptar, e não o caseiro Bill.
    Dando seguimento à busca pela esposa do seu cliente, desloca-se a um hotel em San Bernardino, onde o carro de Crystal Kingsley havia sido guardado. Após instalar-se num quarto e subornar os funcionários do hotel para obter informações sobre a noite de 12 de junho, faz uma descoberta crucial: ao mostrar uma fotografia, um dos empregados reconhece Chris Lavery como sendo o homem que abordou a mulher loira no átrio do hotel. O funcionário confirma ainda que os dois jantaram juntos e partiram no mesmo táxi. Esta revelação destrói o álibi do indivíduo, que garantira a Marlowe e a Kingsley não ver Crystal há largos meses. Com esta nova e comprometedora pista em mãos, o detetive regressa a casa, em Hollywood, exausto e assombrado por pesadelos com o cadáver da mulher no lago, preparando-se para o próximo confronto.
    Na manhã seguinte, Marlowe recebe a visita do Tenente Greer, que o interroga e se mostra bastante desconfiado com a coincidência de o detetive estar presente no momento em que o corpo da mulher foi retirado do lago. Após este encontro, ele telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre as suas descobertas. Tenta também contactar a esquadra para localizar De Soto (o misterioso polícia que andara à procura de Mildred Haviland), mas informam-no de que não existe nenhum agente com esse nome.
    Seguindo a pista do homem que se encontrou com Crystal, o investigador dirige-se à casa de Chris Lavery em Bay City. Encontra a porta de entrada destrancada e, ao entrar, depara-se com uma mulher invulgar a descer as escadas com uma arma na mão, que se identifica como Mrs. Fallbrook, a senhoria de Lavery, justificando a sua presença com rendas em atraso e alegando ter encontrado o revólver abandonado nos degraus. Ela entrega-lhe a arma e ele percebe que esta cheira a pólvora por ter sido disparada há pouco tempo. Sozinho, Marlowe começa a investigar as divisões. No quarto, encontra vestígios da presença recente de uma mulher e descobre um lenço escondido debaixo de uma almofada com as iniciais "A. F." (que coincidem com Adrienne Fromsett, a secretária de Kingsley). Contudo, o momento mais chocante dá-se quando força a entrada na casa de banho, que se encontrava trancada. Lá dentro, descobre o corpo de Chris Lavery caído no polibã, brutalmente assassinado com vários tiros. Fiel ao seu estilo de não se comprometer antes do tempo, limpa as suas impressões digitais, guarda o lenço como prova e abandona a cena do crime sem alertar as autoridades, partindo para se encontrar pessoalmente com Derace Kingsley. No escritório deste, confronta a secretária Adrienne Fromsett, mostrando-lhe o lenço perfumado que encontrou debaixo da almofada de Lavery. Ao revelar que o homem foi brutalmente assassinado na casa de banho, a secretária fica em choque e nega qualquer envolvimento no crime, sugerindo que alguém deixou lá o lenço de propósito para a incriminar. Marlowe decide guardar segredo e poupá-la, por agora, a esse escândalo.
    Após esta conversa, o detetive regressa à casa de Lavery, em Bay City. Posiciona a arma que retirara à misteriosa mulher e telefona finalmente à polícia local para relatar o homicídio. A cena do crime é rapidamente invadida por agentes, destacando-se a chegada do Capitão Webber e do robusto Tenente Degarmo, o mesmo polícia hostil que já havia ameaçado Marlowe quando este vigiava a casa do Dr. Almore. Durante o tenso interrogatório que se segue, é forçado a abrir o jogo: revela que é detetive privado e que foi contratado por Derace Kingsley para encontrar a sua mulher, Crystal, que alegadamente teria fugido com o falecido. Relata também as suas recentes descobertas na montanha, incluindo o aparecimento da mulher afogada, ligando assim os dois casos. No entanto, a revelação mais comprometedora surge quando admite que as roupas de senhora que estão no quarto de Lavery correspondem exatamente à descrição da roupa que Crystal Kingsley usava recentemente. Para os polícias, especialmente para Degarmo, as provas parecem claras e a desaparecida passa a ser considerada a principal suspeita do homicídio de Lavery.
    Enquanto a equipa forense e o médico legista chegam para examinar o corpo, Marlowe não resiste a testar as águas e confronta diretamente o Tenente Degarmo com a morte da mulher do vizinho, o Dr. Almore. O detetive aponta a estranha coincidência de ter sido o próprio Lavery a encontrar o corpo na altura e o facto de a polícia de Bay City ter abafado o caso. A menção a este assunto deixa Degarmo tenso, frio e na defensiva, adensando a suspeita de que a polícia local esconde segredos obscuros.

Na aula (LXX): D. Duarte contra o assassino da língua

Texto de aluno

    A resposta que se reproduz pertence, naturalmente, a um aluno do 12.º ano, que respondia a uma pergunta sobre um poema de Mensagem sobre a figura do rei D. Duarte.
    Lida a resposta, imagina-se o desgraçado do monarca a revolver-se na tumba, confuso consigo mesmo e o seu reinado. 
    Há quem considere de extrema dificuldade a interpretação dos textos de Fernando Pessoa, porém este texto supera largamente tudo o que de mais hermético o poeta lisboeta escreveu na sua relativa curta vida. Solicita-se, urgentemente, um exegeta...

Na aula (LXIX): O eclipse gramatical


    A criatura humana queria escrever elipse, mas... estava um dia solarengo e quente. Foi isso...

Apreciação crítica de O Amante, de Marguerite Duras

    A obra O Amante (1984), que rendeu a Marguerite Duras o prestigiado Prémio Goncourt e se tornou um fenómeno literário mundial, não é apenas um sucesso de vendas, mas um divisor de águas na narrativa do século XX. Trata-se de uma obra que desafia categorizações rígidas, inserindo-se no território híbrido da autoficção, um espaço onde o pacto autobiográfico se funde irremediavelmente com a invenção romanesca. Ao recusar as amarras do memorialismo cronológico e do realismo burguês, Duras reconstrói o seu passado na Indochina colonial através de uma poética da memória e do desejo. 
    Em O Amante, a memória não é um depósito passivo de factos, mas sim um fluxo errático e imprevisível. A narrativa constrói-se sobre uma temporalidade não-linear, operando através de saltos, retrocessos e sobreposições. O tempo do relato é o tempo do trauma e da lembrança, onde o presente da mulher idosa, já com o seu "rosto devastado", se sobrepõe ao passado da jovem de quinze anos e meio. A estrutura do livro gravita em torno do que a crítica literária tem vindo a designar como um "álbum fotográfico sem fotografias". O núcleo do romance é uma imagem absoluta que nunca foi registada fisicamente por uma câmara: o momento inaugural da travessia do rio Mekong na barcaça, quando a protagonista e o amante chinês se cruzam pela primeira vez. A ausência do suporte físico da fotografia é colmatada pela própria linguagem, demonstrando que o ato de narrar em Duras serve para conferir visibilidade àquilo que se perdeu ou foi silenciado pela história. O rio Mekong atua como uma metáfora dupla: representa tanto o fluir incontrolável da memória como a imobilidade paralisante do trauma.
    Estilisticamente, a obra assinala o apogeu do que a própria autora chamou de "escrita corrente" (écriture courante). O texto é pautado por um minimalismo extremo, frases curtas, parataxe (ausência de subordinação) e, sobretudo, por uma engenharia sofisticada de repetições. A reiteração sistemática de sonoridades, palavras e frases atua como uma estrutura de sustentação num enredo propositadamente esburacado, criando uma musicalidade ofegante que mimetiza a respiração e a pulsação do corpo que é marcado pelo desejo. Além das pausas e dos silêncios, que funcionam ativamente como operadores de sentido, o romance caracteriza-se por uma profunda instabilidade enunciativa. A narradora oscila continuamente entre a primeira pessoa ("eu") e a terceira pessoa ("ela", "a criança", "a jovem branca"). Esta clivagem pronominal traduz uma crise do sujeito e da identidade: a narradora desdobra-se, observando-se a si mesma com um distanciamento quase cinematográfico, o que reforça o carácter autoficcional do texto ao desconstruir a ilusão de um "eu" unitário.
    Outra questão abordada pela obra centra-se no sublime feminino e a na subversão dos papéis de género. Na filosofia tradicional, o conceito de sublime estava frequentemente associado ao masculino (o transcendente, o ilimitado), enquanto ao feminino restava o domínio do "belo" (o finito, o doméstico). Duras opera uma revolução conceptual ao erigir um "sublime feminino", no qual a experiência do limite e do absoluto se funde intrinsecamente com a carne e com o corpo. Neste espaço, a jovem recusa a passividade e assume uma agência transgressora. A sua identidade é cristalizada logo no início através de uma indumentária altamente simbólica: um vestido de seda usado, sapatos em lamê dourado e um insólito chapéu masculino de feltro rosa. A apropriação deste chapéu de homem num corpo infantil subverte as expectativas patriarcais, convertendo a sua fragilidade num instrumento consciente de sedução e de poder. A iniciação sexual não é descrita com romantismo dócil, mas como uma torrente incontrolável, um ato de vontade em que ela impõe os seus termos, dominando a situação do princípio ao fim.
    Duras aborda, igualmente, a temática das assimetrias coloniais. Assim, a paixão clandestina em O Amante é indissociável da violenta teia de opressão racial e de classe que estrutura a Indochina dos anos 1920. O romance expõe um retrato impiedoso das hierarquias coloniais, operando uma inversão radical das dinâmicas tradicionais de poder na relação entre o casal. Por um lado, o amante possui a riqueza e o estatuto de herdeiro capitalista, provendo o sustento que salva a família francesa da miséria. Contudo, ele é profundamente marginalizado pela sua raça e encontra-se subjugado à vontade de um pai tirânico e tradicionalista. A sua fragilidade é exposta não só socialmente, mas também fisicamente: ele chora, é descrito como imberbe, fraco e submisso perante o amor. Por outro lado, a jovem pobre, protegida pelo prestígio simbólico e pela arrogância da sua "branquitude", exerce uma soberania inabalável. O clímax desta tensão ocorre nos infames jantares nos restaurantes mais luxuosos, onde a família branca devora banquetes pagos pelo amante, mas recusa-se a olhar para ele ou a dirigir-lhe a palavra, aplicando-lhe a violência suprema da invisibilidade e do racismo estrutural.
    O refúgio no desejo erótico surge, fundamentalmente, como uma estratégia de evasão e de corte com um núcleo familiar doente. A narrativa familiar de Duras é quase trágica, dominada por uma mãe exausta que sucumbe à loucura após o desastre financeiro de investir em terras constantemente inundadas pelo Pacífico. O ambiente é agravado pela tirania silenciosa de um irmão mais velho violento (por quem a mãe nutre uma predileção patológica e até incestuosa) e pelo amor desesperado ao irmão mais novo, que acabará por morrer tragicamente. A travessia na barcaça e a entrada na luxuosa limusina preta figuram como verdadeiras "experiências de limiar" ou ritos de passagem irreversíveis. A jovem aceita mergulhar na infâmia da colónia, transformando-se num corpo "prostituído" aos olhos das restantes famílias brancas, mas garantindo, com isso, a sua emancipação mental e física.
    O Amante é uma obra que provoca um necessário desconforto no leitor. Longe das facilidades do melodrama ou do psicologismo explicativo, Marguerite Duras transforma a matéria brutal do trauma e do vazio familiar numa experiência poética de alto calibre. Ao fazer colidir a lucidez impiedosa, as tensões raciais do colonialismo e a força absoluta do desejo, afirma-se como um marco incontornável de como a linguagem, nas suas falhas, ecos e silêncios, pode circunscrever e redimir as zonas mais insondáveis da existência humana.
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