Português

domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

sábado, 11 de julho de 2026

Resumo de A Dama do Lago, de Raymond Chandler

Raymond Chandler
    A Dama do Lago (The Lady in the Lake) é um romance policial da autoria do escritor Raymond Chandler.
    O início da história acompanha o detetive privado Philip Marlowe, que se desloca aos luxuosos escritórios da empresa de cosméticos Gillerlain para se encontrar com o rígido e arrogante empresário Derace Kingsley, após a recomendação de um tenente.
    Após um primeiro contacto tenso e uma breve negociação sobre honorários e confidencialidade, Kingsley revela o motivo da reunião: quer contratar Marlowe para encontrar a sua mulher, Crystal, que está desaparecida há cerca de um mês. O último local onde esteve foi na propriedade do casal nas montanhas, junto a um lago (Little Fawn Lake).
    Kingsley explica que recebeu um telegrama de Crystal, oriundo de El Paso, a informar que iria para o México tratar do divórcio para se casar com um homem chamado Chris Lavery, descrito como um conquistador. O mistério adensa-se quando Kingsley conta que se cruzou acidentalmente com Lavery há poucos dias e este lhe garantiu que não fugiu com Crystal nem a via há dois meses.
    Temendo um escândalo e sabendo que a mulher tem um comportamento bastante errático e extravagante quando bebe (incluindo roubar em lojas), Kingsley confia a investigação a Marlowe, temendo que algo de grave lhe possa ter acontecido.
    O detetive traça logo o seu plano de ação: interrogar Chris Lavery e fazer uma visita à propriedade na montanha. Antes de sair, pede a morada de Lavery à elegante secretária do empresário, Miss Fromsett, que reage com evidente nervosismo e desconforto ao ouvir o nome do homem, dando assim o mote para o arranque da investigação.
    Dando seguimento à investigação, o detetive dirige-se à casa de Chris Lavery. Após alguma insistência, este acaba por deixá-lo entrar, mas mostra-se arrogante e esquivo. Nega ter fugido com Crystal para El Paso e garante que não a vê desde que estiveram juntos na montanha, não adiantando qualquer pista sobre o seu paradeiro. Ao sair da casa, Marlowe decide ficar a observar a rua a partir do seu carro e depara-se com uma situação suspeita na vivenda em frente, que pertence a um médico chamado Dr. Albert Almore, que se apercebe da sua presença e se mostra bastante nervoso, espreitando por entre as cortinas e fazendo um telefonema.
    Pouco depois, surge um detetive da polícia, o tenente Degarmo, que confronta o detetive de forma hostil. O polícia assume imediatamente que Marlowe está ali para vigiar ou chantagear o Dr. Almore, lançando-lhe avisos em tom de ameaça e indicando que o último homem que tentou fazer o mesmo teve um desfecho infeliz. O investigador esconde os seus verdadeiros motivos, afasta-se e regressa ao escritório. De seguida, telefona a Derace Kingsley para o informar sobre o encontro infrutífero com Lavery e relata-lhe o estranho episódio com o vizinho. O empresário revela então um detalhe intrigante: o Dr. Almore foi médico de Crystal no passado, tratando-a nos seus episódios de embriaguez, e a própria mulher do médico cometeu suicídio há algum tempo. Perante este novo mistério que parece cruzar-se com o seu caso, o detetive decide avançar para a fase seguinte do seu plano e informa Kingsley de que irá viajar até à propriedade do casal nas montanhas para tentar descobrir o que realmente aconteceu a Crystal.

Na aula (LXX): D. Duarte contra o assassino da língua

Texto de aluno

    A resposta que se reproduz pertence, naturalmente, a um aluno do 12.º ano, que respondia a uma pergunta sobre um poema de Mensagem sobre a figura do rei D. Duarte.
    Lida a resposta, imagina-se o desgraçado do monarca a revolver-se na tumba, confuso consigo mesmo e o seu reinado. 
    Há quem considere de extrema dificuldade a interpretação dos textos de Fernando Pessoa, porém este texto supera largamente tudo o que de mais hermético o poeta lisboeta escreveu na sua relativa curta vida. Solicita-se, urgentemente, um exegeta...

Na aula (LXIX): O eclipse gramatical


    A criatura humana queria escrever elipse, mas... estava um dia solarengo e quente. Foi isso...

Apreciação crítica de O Amante, de Marguerite Duras

    A obra O Amante (1984), que rendeu a Marguerite Duras o prestigiado Prémio Goncourt e se tornou um fenómeno literário mundial, não é apenas um sucesso de vendas, mas um divisor de águas na narrativa do século XX. Trata-se de uma obra que desafia categorizações rígidas, inserindo-se no território híbrido da autoficção, um espaço onde o pacto autobiográfico se funde irremediavelmente com a invenção romanesca. Ao recusar as amarras do memorialismo cronológico e do realismo burguês, Duras reconstrói o seu passado na Indochina colonial através de uma poética da memória e do desejo. 
    Em O Amante, a memória não é um depósito passivo de factos, mas sim um fluxo errático e imprevisível. A narrativa constrói-se sobre uma temporalidade não-linear, operando através de saltos, retrocessos e sobreposições. O tempo do relato é o tempo do trauma e da lembrança, onde o presente da mulher idosa, já com o seu "rosto devastado", se sobrepõe ao passado da jovem de quinze anos e meio. A estrutura do livro gravita em torno do que a crítica literária tem vindo a designar como um "álbum fotográfico sem fotografias". O núcleo do romance é uma imagem absoluta que nunca foi registada fisicamente por uma câmara: o momento inaugural da travessia do rio Mekong na barcaça, quando a protagonista e o amante chinês se cruzam pela primeira vez. A ausência do suporte físico da fotografia é colmatada pela própria linguagem, demonstrando que o ato de narrar em Duras serve para conferir visibilidade àquilo que se perdeu ou foi silenciado pela história. O rio Mekong atua como uma metáfora dupla: representa tanto o fluir incontrolável da memória como a imobilidade paralisante do trauma.
    Estilisticamente, a obra assinala o apogeu do que a própria autora chamou de "escrita corrente" (écriture courante). O texto é pautado por um minimalismo extremo, frases curtas, parataxe (ausência de subordinação) e, sobretudo, por uma engenharia sofisticada de repetições. A reiteração sistemática de sonoridades, palavras e frases atua como uma estrutura de sustentação num enredo propositadamente esburacado, criando uma musicalidade ofegante que mimetiza a respiração e a pulsação do corpo que é marcado pelo desejo. Além das pausas e dos silêncios, que funcionam ativamente como operadores de sentido, o romance caracteriza-se por uma profunda instabilidade enunciativa. A narradora oscila continuamente entre a primeira pessoa ("eu") e a terceira pessoa ("ela", "a criança", "a jovem branca"). Esta clivagem pronominal traduz uma crise do sujeito e da identidade: a narradora desdobra-se, observando-se a si mesma com um distanciamento quase cinematográfico, o que reforça o carácter autoficcional do texto ao desconstruir a ilusão de um "eu" unitário.
    Outra questão abordada pela obra centra-se no sublime feminino e a na subversão dos papéis de género. Na filosofia tradicional, o conceito de sublime estava frequentemente associado ao masculino (o transcendente, o ilimitado), enquanto ao feminino restava o domínio do "belo" (o finito, o doméstico). Duras opera uma revolução conceptual ao erigir um "sublime feminino", no qual a experiência do limite e do absoluto se funde intrinsecamente com a carne e com o corpo. Neste espaço, a jovem recusa a passividade e assume uma agência transgressora. A sua identidade é cristalizada logo no início através de uma indumentária altamente simbólica: um vestido de seda usado, sapatos em lamê dourado e um insólito chapéu masculino de feltro rosa. A apropriação deste chapéu de homem num corpo infantil subverte as expectativas patriarcais, convertendo a sua fragilidade num instrumento consciente de sedução e de poder. A iniciação sexual não é descrita com romantismo dócil, mas como uma torrente incontrolável, um ato de vontade em que ela impõe os seus termos, dominando a situação do princípio ao fim.
    Duras aborda, igualmente, a temática das assimetrias coloniais. Assim, a paixão clandestina em O Amante é indissociável da violenta teia de opressão racial e de classe que estrutura a Indochina dos anos 1920. O romance expõe um retrato impiedoso das hierarquias coloniais, operando uma inversão radical das dinâmicas tradicionais de poder na relação entre o casal. Por um lado, o amante possui a riqueza e o estatuto de herdeiro capitalista, provendo o sustento que salva a família francesa da miséria. Contudo, ele é profundamente marginalizado pela sua raça e encontra-se subjugado à vontade de um pai tirânico e tradicionalista. A sua fragilidade é exposta não só socialmente, mas também fisicamente: ele chora, é descrito como imberbe, fraco e submisso perante o amor. Por outro lado, a jovem pobre, protegida pelo prestígio simbólico e pela arrogância da sua "branquitude", exerce uma soberania inabalável. O clímax desta tensão ocorre nos infames jantares nos restaurantes mais luxuosos, onde a família branca devora banquetes pagos pelo amante, mas recusa-se a olhar para ele ou a dirigir-lhe a palavra, aplicando-lhe a violência suprema da invisibilidade e do racismo estrutural.
    O refúgio no desejo erótico surge, fundamentalmente, como uma estratégia de evasão e de corte com um núcleo familiar doente. A narrativa familiar de Duras é quase trágica, dominada por uma mãe exausta que sucumbe à loucura após o desastre financeiro de investir em terras constantemente inundadas pelo Pacífico. O ambiente é agravado pela tirania silenciosa de um irmão mais velho violento (por quem a mãe nutre uma predileção patológica e até incestuosa) e pelo amor desesperado ao irmão mais novo, que acabará por morrer tragicamente. A travessia na barcaça e a entrada na luxuosa limusina preta figuram como verdadeiras "experiências de limiar" ou ritos de passagem irreversíveis. A jovem aceita mergulhar na infâmia da colónia, transformando-se num corpo "prostituído" aos olhos das restantes famílias brancas, mas garantindo, com isso, a sua emancipação mental e física.
    O Amante é uma obra que provoca um necessário desconforto no leitor. Longe das facilidades do melodrama ou do psicologismo explicativo, Marguerite Duras transforma a matéria brutal do trauma e do vazio familiar numa experiência poética de alto calibre. Ao fazer colidir a lucidez impiedosa, as tensões raciais do colonialismo e a força absoluta do desejo, afirma-se como um marco incontornável de como a linguagem, nas suas falhas, ecos e silêncios, pode circunscrever e redimir as zonas mais insondáveis da existência humana.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Terá-la-á: pena efetiva de prisão para o assassino da língua


    Cá estamos mais uma vez no Inferno do assassinato, sem dó nem piedade, da língua portuguesa.
    Quem é professor já ouviu milhares de vezes, passe a hipérbole corriqueira, afagos como «fizestesio», «terala», «compraria-o», etc., provenientes na boca e das falanges dos alunos.
    Qual o espanto, portanto, ao encontrar peças como a exposta nesta imagem, na qual um jornalista (?) do "Correio da Manhã" escreve alegremente «terá-la-á»? Zero! Nenhum! Bola!

    Existem duas formas corretas de produzir essa frase, dependendo da ênfase pretendida:
    1. uso da próclise: no contexto da frase, a conjunção "que" ("...relata que Maria Lisboa...") atrai o pronome para antes do verbo. Assim, a forma correta e mais fluida é: "a terá perseguido".
    2. uso da mesóclise: se o objetivo fosse manter a mesóclise (embora o "que" a desencoraje aqui), a regra dita que o pronome se insere entre o infinitivo do verbo e a terminação. Para o verbo "ter", conjugado no futuro, a forma correta seria: "tê-la-á" (ter + la + á). Neste caso, dá-se a queda do /r/ e a acentuação da sílaba /tê/
    Assim sendo, o trecho correto deveria ser: "...a ex-agente relata que Maria Lisboa a terá perseguido, agredido e ainda vandalizado...".

Autópsia a um texto mal pontuado

    A notícia reporta um acontecimento trágico e nada dado a humor. Já o texto redigido e publicado é um hino à ignorância no que diz respeito à pontuação.

    Passemos à sua identificação e correção:
        1. Falta de vírgula a seguir a "De imediato".
            - Errado: "De imediato foram acionados...".
            - Correto: "De imediato, foram acionados...".

        2. Falta de vírgula antes de "que ali chegaram".
            - Errado: "para o local que ali chegaram...".
            - Correto: "para o local, que ali chegaram...".
            - Nota: a vírgula justifica-se, porque estamos na
                         presença de uma oração subordinada
                         adjetiva relativa explicativa, que é sempre
                                                                 isolada por vírgula.

 
        3. Falta de vírgula em "No local, além da PSP esteve também...".
            - Errado: "... No local, além da PSP estiveram também...".
            - Correto: "No local, além da PSP, estiveram também...".

        4. Falta de vírgula no penúltimo parágrafo:
            - Errado: "A área está agora interdita para investigação que deverá ser entregue, 
                              entretanto, à Polícia Judiciária...".
            - Correto: "A área está agora interdita para investigação, que deverá ser entregue, 
                                entretanto, à Polícia Judiciária...".
            - Nota: a oração relativa é explicativa e deve ser isolada por vírgula.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Resumo de O Amante, de Marguerite Duras

    O início da obra é marcado por um tom profundamente introspetivo e confessional, onde a narradora reflete sobre o seu passado na Indochina e as zonas ocultas da sua juventude.

    O relato abre com uma constatação sobre a passagem do tempo e o seu próprio rosto, que envelheceu de forma súbita e brutal logo aos dezoito anos, tornando-se uma fisionomia devastada que a definiu ao ponto de um homem lhe confessar preferir essa face destruída à sua beleza de juventude. A partir desta reflexão, a narrativa ancora-se numa memória central: a travessia do imponente rio Mekong numa barcaça, aos quinze anos e meio, quando a narradora viajava num autocarro de Sa Déc para o seu pensionato e liceu em Saigão. É neste cenário que se destaca a descrição da sua aparência insólita e transgressora, vestindo um decotado vestido de seda natural usado que pertencera à mãe, sapatos de saltos altos em lamê dourado comprados em saldos e, o elemento mais peculiar e marcante, um chapéu de homem de feltro cor de pau-rosa com uma fita preta. Esta combinação ambígua teve um efeito transformador, convertendo a sua magreza infantil, sentida como um defeito da natureza, numa escolha deliberada e provocatória que a expôs ao olhar dos outros e ao despertar do desejo.      

    Paralelamente a esta imagem indelével cristalizada na barcaça, o texto faz incursões sombrias pelo seio da sua família, pintando um retrato de profunda miséria e disfuncionalidade, marcado por uma pobreza endémica em que passavam fome, vergonha e chegavam a alimentar-se de pequenas aves e jacarés cozinhados pelo empregado. A figura materna emerge como uma mulher exausta, atravessada por um desespero puro e um desencorajamento crónico perante a vida, que, ainda assim, mantinha uma obsessão férrea pelo futuro académico dos filhos, forçando a narradora a estudar Matemática como tábua de salvação, e tomando atitudes erráticas, como a compra de casas desnecessárias enquanto o marido se encontrava moribundo. Este ambiente opressivo era agravado pelo medo constante que a jovem sentia do irmão mais velho, cuja presença é comparada a uma "lei animal" que lançava um véu negro sobre a família, levando a narradora a desejar a sua morte para poder salvar o irmão mais novo e a mãe daquele sofrimento.

    Durante a travessia do rio Mekong, a narradora, de quinze anos e meio, aguarda na barcaça. Ela descreve detalhadamente a sua aparência peculiar, desde a maquilhagem improvisada aos vestidos disformes feitos pela mãe, que contrastam de forma provocatória com o chapéu masculino e os sapatos em lamê dourado. A força enlameada e imponente do rio serve de cenário para um encontro que ditará o seu futuro: ao lado do seu autocarro de transporte público encontra-se uma luxuosa limusina preta onde viaja um homem muito elegante, um chinês mais velho e herdeiro de uma grande fortuna. Intimidado, mas fascinado pela presença de uma jovem branca com um visual tão insólito naquele contexto colonial, ele aproxima-se, mete conversa, oferece-lhe um cigarro inglês e acaba por convidá-la a seguir viagem com ele até ao seu pensionato em Saigão. Paralelamente à tensão silenciosa deste primeiro encontro, a narrativa mergulha na história de ruína e loucura da família da protagonista. Através de avanços e recuos no tempo, a narradora recorda o desespero crónico da mãe, marcado pela miséria da sua concessão no Camboja (inundada pelas águas salgadas), por investimentos completamente desastrosos e pela morte do marido. O relato expõe as dinâmicas de uma família consumida pela pobreza e pelos afetos extremos, antecipando tragédias futuras como a morte trágica do amado irmão mais novo e a conduta abusiva e destrutiva do irmão mais velho.

    O ato de entrar na limusina preta representa, assim, um rito de passagem profundo e um ponto de não retorno. A jovem aceita o seu destino, perfeitamente consciente de que essa decisão a introduz no mundo do desejo, do dinheiro e da emancipação. É uma escolha que marca o início da sua vida adulta e que a afasta irremediavelmente da miséria familiar, mesmo sabendo, desde o primeiro instante, que as diferenças raciais e a dependência financeira que o homem tem do pai inviabilizarão qualquer futuro tradicional para os dois.
    O excerto que se segue ao encontro na barcaça foca-se no desenvolvimento da relação clandestina e visceral entre a jovem narradora de quinze anos e o seu amante chinês, aprofundando a complexa teia de desejo, dependência financeira, preconceito racial e violência psicológica, sempre sob a sombra opressiva da família da rapariga. A narrativa transporta-nos para o quarto (o garçonnière) do amante em Cholon, o vibrante bairro chinês. O espaço, escuro e isolado por persianas, é constantemente invadido pelo ruído ensurdecedor, pelas multidões e pelos cheiros a incenso, jasmim, amendoins e comida da cidade que fervilha lá fora. É neste cenário contrastante que a jovem vivencia a sua iniciação sexual. O encontro é marcado por uma forte assimetria emocional: o corpo do homem é descrito como frágil, imberbe e vulnerável, e ele entrega-se a um amor desesperado e submisso, chegando a chorar e a confessar a sua solidão. Por sua vez, a jovem, após a dor inicial, descobre um prazer arrebatador e observa a fragilidade dele com uma lucidez e uma frieza precoces.
    Contudo, a tragédia familiar que conhecemos do início do relato nunca abandona a jovem, invadindo até a intimidade do quarto. Ela acaba por chorar diante do amante, confessando a ruína da sua casa, a fome, a ausência de amor e o desespero crónico da mãe, cuja infelicidade se tornou a herança principal da filha. A relação emerge, assim, tanto como um despertar como uma fuga a esse ambiente asfixiante. No entanto, é uma relação sem futuro: o amante chinês, apesar do dinheiro e de ter estudado em Paris, confessa a sua total cobardia face ao pai ultrarrico. Ele admite que o seu servilismo à fortuna paterna é maior do que o seu amor, não tendo coragem para enfrentar a família e casar com uma jovem branca e pobre. A dinâmica de poder e dinheiro inverte-se de forma brutal e humilhante quando o amante passa a convidar a família da rapariga para jantares nos restaurantes mais luxuosos. Nesses banquetes, o racismo e a disfuncionalidade da família branca ficam expostos na sua forma mais cruel. A mãe e os irmãos devoram as refeições caríssimas, mas recusam-se a dirigir a palavra ou a olhar para o homem que paga a conta. Tratam-no como invisível, numa negação absoluta ditada pelo preconceito. A presença do irmão mais velho — a tal figura violenta e opressora — domina estes momentos, transformando o amante chinês numa "terra queimada". A própria narradora, dominada pelo medo do irmão mais velho e pelo pacto silencioso de ódio que une a família, acaba por ignorar o amante durante esses encontros, comunicando com ele apenas como intermediária das exigências dos irmãos, como quando estes exigem ir beber e dançar para bares noturnos.
    A narrativa aprofunda a dicotomia entre a violência opressiva do seio familiar e a libertação encontrada no desejo, alternando constantemente entre o tempo da juventude na Indochina e reflexões sobre o futuro trágico das personagens. O ambiente familiar atinge novos picos de toxicidade. A mãe, consumida pela suspeita da relação da filha com o homem chinês, protagoniza cenas de extrema violência física e psicológica. Instigada pelo filho mais velho, que escuta e vigia por trás das portas, a mãe espanca a narradora, chamando-lhe prostituta, num misto de fúria e desespero perante a desonra. Neste núcleo, o irmão mais velho consolida-se como a figura do mal absoluto, um tirano que rouba e aterroriza a família. Ele exerce uma crueldade silenciosa sobre o irmão mais novo, que vive num estado de medo constante. Apesar desta monstruosidade, a narradora revela a dinâmica doentia da mãe, que nutre uma adoração cega e quase inconfessável pela força bruta deste filho primogénito, desprezando a fraqueza do mais novo. O destino trágico destes dois irmãos é antecipado: o irmão mais novo, amado pela narradora, acabará por morrer precocemente, enquanto o mais velho seguirá um caminho de ruína, roubando a própria mãe no leito de morte, falsificando o testamento, esbanjando tudo no ópio e no jogo, para acabar os seus dias na solidão e na miséria. Ainda assim, é com este filho destrutivo que a mãe escolhe ser enterrada.
    Em contraste com a asfixia familiar, surge a rotina no pensionato e no quarto do amante. A narradora, astuta e consciente da sua impunidade (protegida pela cor da pele e pela loucura conhecida da mãe), chantageia a direção do liceu para ter total liberdade de entradas e saídas, passando a viver o pensionato como um hotel e entregando-se ao amante sem restrições. É também introduzida a figura de Hélène Lagonelle, uma colega do pensionato por quem a protagonista desenvolve um fascínio intenso e quase erótico e que representa uma inocência pura e uma beleza corporal esplêndida, mas inconsciente de si mesma. A narradora sente-se tão esgotada pelo desejo de Hélène que fantasia levá-la ao quarto do amante, desejando fundir os dois corpos e vivenciar o prazer do amante através da sua amiga.
    O texto intercala ainda estas memórias indochinesas com saltos temporais para a Paris da Segunda Guerra Mundial, descrevendo o vazio e a alienação dos salões de figuras como Marie-Claude Carpenter e Betty Fernandez, mulheres estrangeiras e misteriosas que atravessam a época da Resistência e do colaboracionismo com uma estranha indiferença.
    A impossibilidade de futuro para a jovem e o amante chinês torna-se absoluta e declarada. O homem confessa o seu desespero, revelando que chegou a implorar ao pai, o milionário de Cholon, para que lhe permitisse viver aquela paixão única por mais algum tempo, sabendo que nunca mais voltaria a sentir tal amor. A resposta do pai é implacável: prefere vê-lo morto a aceitar o seu envolvimento contínuo com a rapariga branca. Perante esta condenação, os encontros físicos de ambos ganham uma urgência fúnebre, descritos como um "gozo inconsolável". Nos seus momentos de intimidade, choram juntos, perfeitamente conscientes de que a partida dela e a separação são o único destino possível. O amante, submisso à vontade paterna, adora o corpo da jovem com uma reverência quase paternal e uma ferocidade que a fascina, enquanto ela assiste a tudo com uma lucidez fria, ciente do poder que exerce sobre ele.
    O escândalo da sua relação transborda para o espaço público, acentuando o seu isolamento. No liceu, as outras raparigas brancas recebem ordens para não lhe dirigirem a palavra. O seu chapéu masculino, os sapatos de lamê e as viagens diárias na limusina preta assumem-se como símbolos de uma "prostituição declarada". A narradora traça, então, um paralelo sombrio entre si e uma outra figura marginalizada da colónia, a "Senhora de Vinh Long", uma mulher que se entregara a amantes no bairro de Cholon. Ambas são descritas como rainhas isoladas da sua própria desgraça, votadas ao descrédito e assumindo sem vergonha a infâmia do corpo.
    No seio familiar, a reação da mãe oscila entre a humilhação e uma cumplicidade cínica. Ao mesmo tempo que fala, em lágrimas e aos gritos, do escândalo e da desonra da filha perante a cidade, acaba por aceitar a realidade da situação, notando com ironia o anel de diamantes oferecido pelo chinês e lembrando à filha que aquele é um amor sem qualquer viabilidade de casamento na colónia. A mãe continua a ser descrita através de uma lente de loucura e inadequação, sendo frequentemente associada pela narradora a mendigas errantes e a um apagamento súbito da razão. A sua obsessão pela imagem reflete-se no hábito bizarro de fotografar compulsivamente os filhos para provar à família em França que crescem normalmente, e na forma como, já na velhice, manda retocar os seus próprios retratos para apagar as marcas do sofrimento.
    No entanto, o clímax emocional e o verdadeiro ponto de rutura desta secção é a chegada a Paris, anos após o seu regresso a França, de um telegrama de Saigão com a notícia da morte do irmão mais novo. A narradora, que nutria um amor profundo e protetor por este irmão frágil, calado e aterrorizado pela vida, é completamente destroçada. Ela via o "irmãozinho" como depositário de uma forma de imortalidade, uma pureza intocável. A sua perda não é descrita apenas como um luto comum, mas como um "escândalo" à escala do Universo, uma dor tão violenta que a narradora sente que o irmão, ao morrer, a amalgamou a si e a levou com ele.
    O desfecho da obra foca-se na inevitável separação dos amantes e na ressonância eterna desse amor ao longo do tempo, encerrando a narrativa com uma melancolia profunda. O relato transporta-nos para o momento da partida definitiva. A jovem embarca no navio que a levará de volta a França, deixando a Indochina para trás. No cais, isolada das multidões e daqueles que choram as despedidas, permanece a silhueta solitária da grande limusina preta. A rapariga encosta-se à amurada, exatamente como fizera na barcaça do rio Mekong, sabendo que o amante a observa em segredo a partir da penumbra do carro. Ela reprime as lágrimas de forma férrea, ocultando a sua dor da mãe, do irmão e das convenções coloniais, que ditavam não ser digno chorar por um amante chinês.
    Em retrospetiva, a narradora evoca os últimos dias passados no quarto em Cholon. Diante da partida iminente, o corpo do amante cedera à exaustão e a uma impotência física. Ele sente-se incapaz de possuir aquela que em breve o abandonará, como se o seu próprio corpo recusasse a traição da despedida. Ele aceita essa morte interior com doçura, confessando que ama a dor e a imagem dela com uma intensidade devastadora.
    A viagem marítima é longa e marcada por uma atmosfera de isolamento e tragédia, ilustrada pelo momento em que um jovem passageiro se atira subitamente ao mar, perdendo a vida. É durante esta travessia noturna do oceano que a protagonista vive uma epifania. Ao ouvir uma valsa de Chopin ecoar pelo navio sob o céu estrelado, é subitamente invadida pela certeza lúcida de que amara verdadeiramente o homem de Cholon. Esse amor, que se perdera no meio da brutalidade da sua história familiar e da transação económica, revela-se agora em toda a sua pureza e dimensão, levando a rapariga finalmente às lágrimas.
    Enquanto a protagonista segue para a Europa, o texto relata o destino do amante. Submisso, ele cumpre a ordem do pai milionário e casa-se com uma jovem chinesa de boas famílias, herdeira de fortunas. Contudo, na intimidade do casamento, ele é descrito como um homem consumido pela ausência, transferindo para a esposa o desejo febril e a ternura inesgotável que guardava pela rapariga branca.
    O livro encerra com um salto temporal de muitos anos. Após a guerra, casamentos, divórcios e uma vida dedicada a escrever livros, a narradora recebe em Paris um telefonema do antigo amante, que se encontra de visita à cidade com a esposa. Com a voz ainda marcada pelo tremor e pela intimidação do passado, ele confessa-lhe que o tempo nada apagou. Diz-lhe que é o mesmo homem de sempre e que nunca a poderia deixar de amar, prometendo amá-la até à morte. Este telefonema final cristaliza a paixão clandestina da juventude como o grande evento intemporal e fundador de toda a sua existência.

A notícia sobre exames que comeu a vírgula à oração temporal

Trovoada desafia o calendário: chega depois de domingo... na madrugada de sábado

Tempo virado

Uma tempestade de erros

Jornal Expresso

     Este texto, chamemos-lhe assim por simpatia, está mais grávido de erros do que a gata da minha vizinha.

    Enumerá-los até se torna fastidioso:

  • Erro de concordância verbal: utilização de "era" em vez de "eram" na frase "não era alinhados", falhando a concordância com o sujeito no plural ("escritores e artistas").
  • Erro ortográfico: a palavra "neorealista" está incorretamente escrita. A grafia correta, com a duplicação da consoante após o prefixo, é "neorrealista".
  • Falta de vírgula antes de conjunção adversativa: no excerto "...não era alinhados com o regime ditatorial mas, também, não se reviam...", falta uma vírgula antes do "mas". O correto seria "...regime ditatorial**,** mas...".
  • Falta de pontuação no final: O último período termina de forma abrupta com "...em Portugal em 2024", faltando o ponto final (.) obrigatório para encerrar a frase.

Sporting perde Taça para o Torreense e «A Bola» perde a noção

Perde Taça de Portugal

     O jornalista sportinguista que escreveu esta notícia ficou tão afetado pela derrota leonina no final da Taça de Portugal que se fartou de agredir a escrita: desconhece-se o motivo por que travou a conjunção adversativa «mas» com uma vírgula e a visão e as falanges perturbadas levaram-no a trocar «deve» por «vede». Nós vimos... e foi giro. Carrega, Torreense!

O jornal Expresso não reflete

Expresso

     Por norma, os pronomes átonos surgem após a forma / o complexo verbal: «Comprei uma mesa.» ⇢ «Comprei-a.» No entanto, há exceções, muitas exceções. No caso deste texto jornalístico, o pronome reflexo «se», porque integrado numa oração subordinada adjetiva, antecede a forma verbal.

    Assim sendo, deveria aparecer «que se divorciou». 

O jornal Público não sabe pontuar

Jornal Público

    A oração rodeada a vermelho é subordinada adverbial temporal e surge encaixada noutra oração. Quando tal sucede, tem de ser isolada por vírgula. O jornalista não sabe isso.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Informando sobre o verbo "informar"


      Vamos ignorar outras bacoradas presentes no texto.
     O verbo "informar" é transitivo direto, isto é, exige um complemento direto, não indireto ou lá o que é aquilo.
     Assim sendo, o saxofonista informou "o público", não "ao público".
     Outra coisa é "dar uma informação ao público"...
     Enfim, é o que temos.

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