domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Análise da cantiga "Bernal Fendudo, quero-vos dizer", de João Baveca
Esta cantiga de maestria, da autoria de João Baveca, composta por três sétimas de versos decassílabos e rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema ABBACCA, aborda o tema da sodomia, associado a mouros. De facto, nela, dirigida provavelmente ao sodomita Bernal de Bonaval (o segrel cuja vida particular deu origem a várias sátiras por parte dos seus colegas trovadores), o autor brinca com os termos de guerra, relacionando-os com a lida sexual entre Bernal e os mouros que, no final, "morrerán enx vosso poder".
No contexto da poesia trovadoresca, são cerca de 30 as cantigas que tratam da sodomia entre homens, a maioria produzida entre 1240 e 1350, o que coincide com o reinado de um dos grandes trovadores-mecenas daquele período (Afonso X) e com o acolhimento das cantigas provençais por parte de D. Afonso III, bem como com um ambiente de riso e festa — cuja principal manifestação é o Carnaval — que atravessa todo o tempo que vai de fins do século XII até meados do XIV. De acordo com a professora Graça Videira Lopes, a sodomia pode ser dividida em grupos de visados: altos funcionários, mouros, personagens vários e trovadores e jograis. Normalmente, usa-se o termo "sodomita" em vez de homossexual (séc. XIX) ou homoerótico (séc. XX) para designar estas práticas sexuais, porque é a palavra conhecida na época e registada em Las Siete Partidas, de Afonso X: "Sodomitico dizen al pecado en que caen los omes yaziendo unos con otros contra natura e costubre natural. E porque de tal pecado nacen muchos males en la tierra, do se faze, e es cosa q pesa mucho a Dios comel." Convém notar que a sodomia implicava um "deseo puramente anatomico", uma "transgressión de ordem físico", um "sujeito jurídico" que só a partir do século XIX passa a ser "uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida".
Novamente segundo a professora Graça Videira Lopes, "muitos destes temas erótico-satíricos vão, aliás, desaparecer completamente da literatura 'oficial', pelo menos até ao séc. XIX, o que torna ainda mais notável este conjunto de poemas medievais. O caso da homossexualidade masculina é, nesta matéria, sintomático. Se [...] não encontramos nenhuma referência autobiográfica, sendo mesmo, em geral, a atitude condenatória, de notar-se, que esta condenação se processa, nos Cancioneiros, com uma boa dose de humor [...]. A homossexualidade não nos surge assim aqui como aquele «crime nefando» passível de pena de morte, que vemos referido nos documentos oficiais da igreja e mesmo das instituições civis."
A maioria das cantigas satíricas sobre sodomitas está ligada ao funcionalismo da corte (21 cantigas), sendo aqueles "acusados" de manterem relações com subordinados, de se obstinarem sexualmente, de inverterem os papéis (de passivo para ativo), de serem cruéis nas relações, de agirem com hipocrisia, de desejarem casar-se com homens ou de contraírem doenças. Cada um destes motivos encerraria uma sátira ao desempenho e não à natureza da sexualidade. Convém notar que, apenas nos séculos XII e XIII, se olha para a homossexualidade como fenómeno contrário à natureza. Em contraste com certa gravidade e melancolia de cantigas sobre traições de vassalos, sobre a avareza e sobre o mundo às avessas, à maneira de sirventeses morais, nas cantigas sobre sodomitas predomina o humor brincalhão e obsceno (tal como sucede nas cantigas dedicadas a soldadeiras e clérigos), frequentemente equívoco (26 cantigas). Estas cantigas exploram também as questões da moral privada, mostrando a que ponto os tabus sexuais são violados, sem que se saiba o partido dos trovadores.
No "incipit", encontramos um nome próprio (Bernal) e um apelido (Fendudo), o qual, por meio da "interpretatio nominis", nos coloca no campo da atividade homossexual, entendendo esse apelido como significando "fendido", "fissurado". “Fendudo” faz referência a estar separado em dois, facto que pode resultar das práticas sexuais que Bernal realiza com outros homens. O sujeito poético parece querer aconselhar essa figura sobre como agir perante o desejo de lhe darem armas e chama, "dona selvage". Esta expressão deverá constituir uma alusão aos "cavaleiros selvagens", personagens bravias e hirsutas, habituais nas novelas de cavalaria, aqui usada para feminizar o visado pela cantiga. O conselho surge nos quatro versos finais da cobla: Bernal Fendudo deverá resistir para se defender num hipotético combate armado contra os mouros. Note-se que, na fase mais profícua da poesia trovadoresca, grande parte dos textos assumem ironicamente quer as formas do género judicial (simula-se a defesa), quer as do género deliberativo (aconselham-se ou desaconselham-se enormidades), quer as formas do género epidíctico (simula-se, geralmente, o louvor). No caso desta cantiga, o autor usa o género deliberativo, pois é aconselhado a adotar um determinado comportamento: sofrer os mouros, pois todos o atacarão ("sofiede-os, ca / todos vos ferran"), todos lhe baterão até se cansarem e ele, então, vencê-los-á. Ora, subtilmente, o trovador está a referir-se, sob a capa de uma grande capacidade de resistência aos ataques, a uma desaforada capacidade sexual, isto é, sob a forma do equívoco - conselhos a um combate com os mouros - o trovador alude aos alegados gostos homossexuais de Bernal Fendudo.
Em suma, a sátira ao sodomita inicia-se logo no verso inicial com a referência ao apelido "Fendudo", que pode ser interpretado como uma referência sexual, remetendo para a ideia de uma pessoa fendida ou aberta, o que indicia que o visado desempenha o papel passivo na relação homoerótica. A sátira prossegue com a referência ao facto de lhe quererem dar armas (símbolo tradicional de poder e masculinidade, símbolo fálico) e, por isso, o chamarem "dona", numa clara feminilização. A ideia de sofrer os mouros, que o "ferram", pode ser lida como ser penetrado por todos os mouros, reforçando-se, assim, a sua passividade nessas relações. Por seu turno, o vocábulo "todos" indicia a intensa capacidade e atividade sexual de Bernal. O cansaço dos atacantes ("cansaram"), sugere a intensidade da atividade sexual, que deixa os "atacantes" num estado de quase exaustão. O derradeiro verso da estrofe assenta na ironia e no duplo sentido do verbo "vencer", que pode ser entendido como uma referência ao prazer obtido por Bernal dessas relações sexuais: ao "sofrer", não perde, mas "vence", transformando o ato numa fonte de prazer.
A segunda estrofe remete novamente para um ambiente de combate ("E ali log', u s' ha lide a volver"), que, num contexto homoerótico, pode ser interpretado como uma metáfora para uma atividade sexual intensa. Nesse contexto, o nome "lide" (luta) evocaria o esforço, a troca ou confronto, sugerindo uma relação física carregada de tensão e intensidade. No local da luta, vários mouros virão golpeá-lo ("colpar"). Ora, o ato de golpear implica uma ação rigorosa e repetitiva que, num contexto homossexual, aludirá ao ato sexual. Os versos 10 e 11 são bastante irónicos, ao sugerir que, outros "inimigos" o "cometerão", isto é, o penetrarão, por outro lado, ou seja, por detrás, numa clara alusão ao ato sexual homossexual. Neste cenário, o trovador repete o conselho, no sentido de Bernal suportar as investidas, venham elas de onde vierem — ataquem os mouros por trás ou pela frente. Os dois versos finais da segunda estrofe repetem os equivalentes da primeira, nomeadamente a ideia de que, se Bernal suportar/aguentar os ataques dos inimigos, vencê-los-á pelo cansaço. Note-se a referência a "bem fazer", característico da cantiga de amor, aqui claramente carnalizado, porque associado às armas, metáfora do órgão sexual masculino: "se vos deus em armas bem fazer, / ferindo em vós, hiam eles de can.". Os inimigos, depois de o "ferirem" repetidamente (alusão à penetração) sucumbirão ao cansaço e ao clímax e ele triunfará.
A terceira estrofe retoma a ideia da intensidade e da frequência com que Bernal pratica o ato sexual, quase uma atividade coletiva, tantos são os participantes que o desejam (“Pero, com’há mui gram gente a seer”) e que o derrubarão “Muitas vezes”, repetidamente. Porém, ele sempre irá recuperar forças, enquanto os “inimigos” «ham mais a enfranquecer». Observe-se esta antítese, que sugere o frenesim sexual em que o satirizado se envolve, incansável e sempre disponível e disposto para o ato sexual, bem como a oposição entre o cansaço e o desgaste dos outros em contraste com a sua vitalidade e o prazer contínuo. Metaforicamente, o trovador afirma que Bernal continuará a relacionar-se sexualmente de forma repetida e intensa: “Pero nom quedarán de vos ferir de todas partes”. A conjunção coordenativa “Mais” introduz a nota dissonante que já encontrámos nas estrofes anteriores: “Mais, ao fiir, todos morrerám em vosso poder”. “Fiir”, ou fim, pode ser interpretado como o clímax dos atos sexuais descritos, e a alusão a que “todos morrerám "em vosso poder" inverte por completo as reações tradicionais de submissão e derrota. A "morte" pode ser interpretada simbolicamente como o clímax sexual, em que Bernal, apesar de passivo ou submisso durante o ato sexual, é quem sai vitorioso, pois os outros sucumbem ao desejo e ao cansaço, enquanto ele permanece triunfante.
Em suma, esta cantiga compreende uma sátira a um certo Bernal Fendudo (provavelmente o trovador Bernal de Bonaval), que é satirizado pela homossexualidade e relações sexuais com múltiplos homens, nas quais desempenhava um papel passivo. A conselho do trovador, deve lutar contra os muitos mouros e deixar-se atacar por todos os lados para os deixar exaustos e moribundos. Ou seja, do princípio ao fim, estamos perante uma óbvia sátira sexual, dirigida a uma figura masculina que é feminizada.
Por outro lado, toda a composição poética está impregnada de um vocabulário pertencente ao registo bélico e que pode ser interpretado com um segundo sentido obsceno. Num primeiro momento, o trovador não deixa dúvidas sobre o alcance da sua sátira ao afirmar que querem dar armas ao visado no verso 3, ou seja, penetrar. Além disso, o escarnecido é apelidado "dona selvage", alcunha que faz alusão à passividade da personagem no momento do coito. De seguida, o trovador adverte-o de que estas práticas terão consequências, pois será "ferido", mais, à base de "receber golpes", isto é, de que será penetrado, todavia vencerá, por os adversários caírem vítimas do cansaço produzido pelo culminar do ato sexual, da expulsão do sémen, que é o que perdem. Na luta, entendida, de acordo com esta leitura, como um combate sexual, no momento mais intenso da refrega ("u s'a lide a volver"), uns tentarão "golpeá-lo" pela frente (v. 9) e outros por detrás ("alhur" - v. 11), ferindo-o metaforicamente (v. 12), mas os adversários, ao penetrá-lo, perderão (vv. 13-14).
Durante os encontros sexuais, Bernal será derrubado (v. 16), ou seja, será vítima do cansaço sexual, porém será vencedor no final do ato homoerótico, pois, apesar de sair ferido (entendido no sentido de ter sido penetrado – vv. 19-21), todos os oponentes morrerão às suas mãos, já que ele sempre recupera, enquanto os adversários enfraquecem ("mais sempre vos avedes a cobrar / e eles an mais a enfraquecer" - vv. 17-18). Estes dois versos podem ser interpretados da seguinte forma: os mouros ficam debilitados ao realizar o ato sexual, já que uma vez que este se consuma, eles ejaculam, ficando sem forças, e é aqui que Bernal sai vencedor, pois desempenhou um papel passivo durante o sexo e, além de receber o sémen dos oponentes, não tem o mesmo desgaste físico que aqueles.
Análise da cantiga "Bem me cuidei eu, Maria Garcia", de Afonso Anes do Cotom
Esta
cantiga de escárnio e maldizer, da autoria de Afonso Anes do Cotom, constituída
por quatro sextilhas singulares, de rima emparelhada e interpolada, de acordo
com o esquema ABBCCA, e versos decassilábicos, apresenta-nos um sujeito poético
que quer ser pago pelos serviços sexuais prestados a uma mulher chamada Maria
Garcia e que jura que não voltará a fazer serviços de graça. E acrescenta que
tal se justifica pelo facto de não lhe ter amor, enquanto ela recebia prazer.
No fundo, estamos perante uma composição poética que constitui uma sátira a uma
soldadeira velha.
O
primeiro verso explicita diretamente, através de uma apóstrofe, o alvo da
sátira: uma mulher chamada Maria Garcia. O sítio cantigas.fcsh.unl.pt aventa a
hipótese, impossível de documentar, de se tratar de Maria Garcia de Sousa, irmã
do trovador Fernão Garcia Esgaravunha, um dos mais fiéis partidários do futuro
D. Afonso III. A referida senhora foi barregã de D. Gil Sanches, irmão bastardo
de D. Sancho II, falecido em 1236. A expressão que abre o poema ("Bem me
cuidei eu") indicia um engano ou uma expectativa frustrada por parte do
"eu". De facto, ele fodeu ("quando vos fodi") a mulher e
esperava receber um pagamento por isso, porém voltou de "mão vazia",
metáfora que indica que nada recebeu em troca dos favores sexuais prestados. A
presença do nome "serviço" não deixa dúvidas de que estamos na
presença de um negócio, uma troca, uma barganha: o "eu" prestou um
serviço sexual e esperava ser pago por ele, no entanto nada recebeu, nem um
simples soldo (moeda antiga de pouco valor) que pagasse uma refeição ("sequer
um soldo que ceass'um dia" - v. 7).
A
partir da leitura da primeira estrofe, podemos concluir estar na presença de um
texto que aborda uma visão utilitária do sexo: um homem satisfaz sexualmente
uma mulher e espera ser pago por isso. Por outro lado, podemos ser levados a
pensar na prostituição masculina, uma temática cujo tratamento poético não é
muito comum na nossa literatura. Além disso, é interessante constatar que
estamos nos antípodas do esquema conceptual da cantiga de amor, dado que nesta
o homem colocava-se ao serviço da dama como seu vassalo, servindo-a sem
qualquer queixume, algo que não sucede na presente cantiga, visto que o sujeito
masculino reclama por não ter recebido a contrapartida financeira que esperava.
No
primeiro verso da segunda cobla, o trovador refere ter aprendido a lição
("Mais desta serei eu escarmentado" — o verbo "escarmentar"
sugere exatamente essa ideia segundo a qual se aprende com a experiência
frustrante descrita na primeira): no futuro, não voltará a foder "outra
tal molher", exceto se for pago antes do ato ("se m' ant' algo na mão
nom poer, / ca nom hei porque foda endoado"). À letra: nunca voltarei a
foder outra mulher, se antes não me puser algo na mão (nova metáfora,
semelhante à já destacada), pois não tenho por que foder de graça. Estes versos
confirmam, por outro lado, que não há qualquer traço de relação; o foco não é o
amor, mas uma troca negocial associada ao ato sexual. Os três versos que
encerram esta estrofe acentuam a ironia: Maria Garcia, se quiser voltar a foder
e sem pagar, terá de o fazer com outros homens ("se vós, se assi queredes
foder, / sabedes como: ide-o fazer / com quem teverdes vistid' e
calçado."). Note-se que a construção "sabedes como" implica que
a mulher já conhece as condições para a concretização da transação. Por outro
lado, o último verso é profundamente irónico, visto que indicia que Maria
Garcia estava acostumada a manter relações com outros homens, a quem pagaria os
serviços sexuais que lhe prestavam. Se considerarmos que a mulher não paga a
ninguém, então o trovador está a dizer-lhe que, caso continue a não pagar o ato
sexual, deixará de ter relações sexuais.
A
terceira estrofe reafirma a causa inicialmente para, posteriormente, explicitar
o facto ou consequência. Como Maria Garcia não o provê materialmente ("ca
me nom vistides nem me calçades"), nem ele vive em sua casa ("nem ar
soj/ eu eno vosso casal"), isto é, o trovador não está sujeito à sua
autoridade ou poder doméstico, nem ela tem qualquer poder que o leve a fodê-la
("nem havedes sobre mim poder tal / por que vos foda"), só se
relacionará sexualmente com a mulher se for bem pago ("se me nom pagades /
ante mui bem"). Os últimos dois versos e metade do antepenúltimo podem
ter, na nossa opinião, duas leituras. Assim, por um lado, podemos considerar
que constituem a afirmação, por parte do "eu", de que não teme ser
forçado ou submetido a qualquer tipo de imposição proveniente da mulher. Por
outro lado, nos referidos versos, o sujeito poético declara que não receia a
"força" que Maria Garcia lhe faça, isto é, ser violado por ela.
A
derradeira estrofe abre de forma curiosa. Assim, inicia-se com uma apóstrofe
dirigida à "mia dona", um senhal característico da cantiga de amor,
usado para ocultar a identificação da dama e que remetia para a vassalagem
amorosa que o trovador lhe prestava, numa atitude de submissão generosa e
desinteressada materialmente. Todavia, essa apóstrofe e a cortesia que implica
na cantiga de amor é profundamente irónica neste poema, desde logo porque não
existe qualquer sentimento amoroso entre ambos, bem como pelo facto de o homem
ter interesse material na relação, esperando obter proventos económicos dela.
Além disso, no cantar de amor, o trovador tratava a "dona" com
mesura, respeito e cortesia, ora, nesta cantiga, aponta-lhe o dedo, acusa-a de
praticar sexo casual e de (não) pagar para manter relações sexuais (isto é,
recorrendo à prostituição), além de a tratar com desdém e ironia. Introduz, de
seguida, um provérbio popular ("quem pregunta nom erra") serve para
introduzir um desafio irónico que o "eu" lança à mulher: questionar
aos habitantes do lugar onde vive se já fizeram relações sexuais em qualquer
situação — em paz ou em guerra — sem ser por interesse ou por amor. Ou seja, o
sujeito lírico afirmas que as pessoas só praticam o ato sexual por dois motivos
– dinheiro ou amor –, o que constitui uma forma subtil de enquadrar
realisticamente as relações entre ambos: entre ambos, não há amor; ela apenas
quer o prazer, enquanto ele dinheiro. É uma simples troca comercial. O «eu»,
insinuando que não apenas ele havia sido alvo dos desejos de Maria Garcia, com
o seu pedido apela ao senso comum e, dessa forma, mostra como as convenções do
amor cortês se distanciavam da realidade da vida.
A cantiga
termina de forma profundamente sarcástica, como não poderia deixar de ser: o «eu»
manda-a tratar da vida, pois, graças a Deus, “rei há na terra”, ou seja,
haveria muitos homens disponíveis para manter relações sexuais, os da sua
hoste. Manuel Rodrigues Lapa entende que os versos 27 e 28 significam o
seguinte: “Ide tratar da vossa vida, senhora, dai o corpo a troco dinheiro,
que, graças a Deus, tendes renda suficiente para isso.
Em
suma, nesta cantiga atrevida e grosseira, marcada pelo calão, o trovador
sustenta que o homem, nas suas relações com a mulher, obedece a dois
sentimentos: o interesse material e o amor. Não havendo amor neste caso,
entende que tem o direito de censurar Maria Garcia por não lhe ter pago os
momentos de prazer sexual que ele dera.
No que
diz respeito à técnica versificatória, cada estrofe divide-se em duas partes:
nos primeiros quatro versos, o "frons" da lírica occitânica, expõe o
seu propósito e a sua queixa; nos últimos três, a cauda, dá o seu conselho
zombeteiro a Maria Garcia. Este esquema repete-se, grosso modo, nas quatro
cobras da cantiga. Paralelamente a esta divisão interna das estrofes, a
composição também se separa em duas metades graças ao recurso a cobras
capfinidas (que consistem em usar palavras do verso anterior) entre a segunda e
a terceira estrofes (vv. 14-15), ou seja, a meio da cantiga, anunciando que a
partir deste ponto se iniciará um desenvolvimento da situação exposta
anteriormente. Assim, as duas cobras iniciais apresentam a situação vivida pelo
trovador e as duas últimas exprimem as consequências dessa situação e lançam um
desafio à mulher.
Por
outro lado, como já sugerimos noutros pontos desta análise, esta composição
poética caracteriza-se pela inversão do padrão do relacionamento amoroso da
cantiga de amor, na qual o trovador suplica o favor da dama e sofre a coita de
amor, isto é, experimenta o sofrimento causado pela recusa e indiferença dela.
Neste poema, pelo contrário, quem requesta o amor não é o homem, mas a mulher.
O tipo
feminino que mais se prestava à ironia e à sátira era a soldadeira, porém,
neste texto, Maria Garcia, o alvo visado pelo trovador, é retratada como a
"senhor", diante da qual ele se encontraria numa posição de
inferioridade, tal como sucedia no cantar de amor. Todavia, a superioridade
feminina não se refere ao plano moral, tão caro às cantigas de amor, visto que
a figura feminina enganou o homem, recusando-lhe pagar-lhe os serviços sexuais
prestados. A separação existente entre as duas personagens é de caráter social:
é por isso que o trovador reclama o seu pagamento. De facto, ele dirige-se-lhe
recorrendo à forma de tratamento habitual — "senhor" —, num contexto
que remete para o cantar de amor, mas também alude à ideia de
"pedido". Ora, tendo em conta os versos 27 e 28 e a referência à
"renda", é possível fazer uma leitura diferente da apresentada
anteriormente. Nesta segunda hipótese, Maria Garcia seria uma proprietária
rural que possuiria rendas de terras. Para esta noção contribui igualmente o
uso do nome "dona", já que significa "dama",
"mulher", "senhora casada", em oposição a "donzela"
ou "menina", sendo o masculino "dom", um título
nobiliárquico. Além disso, a alusão ao seu "casal" (v. 16)
("casa de campo", segundo Manuel Rodrigues Lapa) parece indiciar que
estamos na presença de um membro da nobreza rural.
A este
propósito, convém relembrar que Afonso Eanes do Coton, noutros poemas,
demonstra não considerar importante o estatuto social da mulher quando o
assunto é o amor, contrariamente à doutrina do amor cortês. Na composição
"As mias jornadas vedes quaes son", por exemplo, afirma ironicamente
que a mulher que o fazia sofrer poderia ser de qualquer classe ou condição,
insinuando que teria vários amantes ("E a dona que m' assi faz andar /
casad' e, ou viuv' ou solteira, / ou touquinegra, ou monja ou freira"). Na
cantiga "Veeron-m' agora dizer", finge-se surpreendido quando o
informam de que a sua amante estaria grávida. Além disso, tudo leva a crer que
não se trataria da dama das cantigas de amor, mas provavelmente de uma jovem
vilã solteira, à qual se refere sempre por "molher", nunca por uma
forma de tratamento mais formal ou cerimoniosa.
Por
outro lado, a relação de vassalagem sugerida nesta cantiga satírica não se
insere apenas nos planos espiritual e literário, como sucede na cantiga de
amor. De facto, o trovador apresenta uma mulher cuja superioridade é concreta e
essencialmente material (social e financeira), visto que dá a entender que se
sujeitou a relacionar-se sexualmente com ela exclusivamente por motivos
financeiros. O próprio vocabulário cortês é afetado por esse olhar realista e
materialista do poeta. Por exemplo, os nomes "senhor" e
"dona" não possuem o significado que lhes é atribuído no cantar de
amor, passando a designar aspetos da realidade social; o serviço que o trovador
alega ter prestado não se inscreve exclusivamente no plano idealizado proposto
pelo receituário do amor cortês, onde se revestia de três formas fundamentais:
a mesura, a fidelidade e o segredo. Ora, Afonso Eanes não respeita nenhum
destes preceitos: como referimos logo no início deste texto, a cantiga começa
desrespeitando a norma do segredo, dado que, logo no primeiro verso, desvenda o
nome da mulher que o enganou; as reclamações/queixas que faz ao longo da
cantiga estão bem longe da mesura com que o trovador deveria tratar a sua
indiferente "senhor"; o serviço a que alude é claramente de natureza
sexual, configurando um "equivocatio" que serve de fundamento para a
compreensão de toda a cantiga.
Tal
como o contrato entre suserano e vassalo previa compensações pelo cumprimento
das obrigações a que o segundo estava obrigado, também o trovador reivindica o
que lhe fora prometido por Maria Garcia. É neste contexto que entra o campo
semântico dos interesses materiais: soldo, vestuário, calçado e hospedagem (vv.
7, 14-15 e 16) são aquilo que ele espera do relacionamento com a mulher. E
acrescenta que não mais a satisfará sexualmente "se m' ant' algo na mão
não poser". O nome "mão" surge duas vezes na cantiga, sempre
associado à ideia de que o homem espera receber algum bem material pelos
serviços prestados. Em vez do caráter abstrato e do idealismo do amor cortês,
encontramos a negação a servir "endoado", ou seja, gratuitamente.
A
relação dita amorosa é, deste modo, rebaixada do plano elevado do cantar de
amor para outro bem mais baixo: o do dinheiro. Nos versos 17 e 18, o trovador
declara que a figura feminina não possui o poder suficiente para que ele atenda
aos seus desejos se ela não pagar ("se me nom pagades"). O verbo
"pagar" tem vários sentidos. A sua etimologia remonta ao latim
"pacare", que significa "pacificar", "apaziguar".
Através de uma associação de ideias, chegou-se à noção de "pagar alguma
quantidade", já que o pagamento contentava o credor (Viterbo, no
Elucidário, apresenta dois verbetes com o verbo "pagar":
"Pagar-se de alguma coisa: agradar-se dela" e "Pagado: pacífico,
sossegado, em paz, sem dúvida ou contradição alguma"). Afonso do Cotom
aproveita a ambiguidade semântica do verbo "pagar" na época, nesta
cantiga: o verso 18 pode, assim, ser interpretado de duas formas — pagamento
como retribuição material, ou "pagar" como "satisfazer",
"contentar". Deste modo, podemos fazer outra leitura da composição:
Maria Garcia não possuía os atrativos físicos necessários para levar o trovador
a relacionar-se com ela sem nada em troca.
Em suma, esta cantiga de escárnio e maldizer subverte os códigos e o discurso amoroso do cantar de amor e do amor cortês. Partindo da queixa habitual do trovador pela falta de retribuição pelo serviço prestado à dama, ele opõe à vassalagem amorosa a inferioridade social; ao casto e sempre recusado pedido do trovador, a vulgaridade do oferecimento da mulher; à gratuitidade e espiritualidade, o interesse material. Ou seja, Cotom faz o discurso amoroso descer do pedestal da espiritualidade e do idealismo à materialidade das coisas, dos relacionamentos e dos interesses.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
O desempenho dos alunos é [ainda] pior do que se pensa
Todas as crianças ficaram para trás.
Tudo isto fez com que os responsáveis pelas admissões nos Estados Unidos dependessem mais de sinais alternativos que se estão a tornar cada vez menos fiáveis.
CheatGPT
"Exames coloniais" ou uma mente retorcida a debitar aquilo que se sabe
João Moreira da Silva
Funcionamento do aparelho fonador
O aparelho fonador
a) os pulmões, os brônquios e a traqueia, órgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria-prima da fonação;
b) a laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala;
c) as cavidades supralaríngeas (a faringe, a boca e as fossas nasais), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos órgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinónimo de "idioma".
Quase todos os sons da nossa fala são produzidos na expiração. A inspiração normalmente funciona como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução. Há outras línguas, como, por exemplo, o hotentote, o zulo, o boximane e outros idiomas africanos, que apresentam uma série de consoantes articuladas na inspiração, os ruídos que se denominam cliques. No caso da língua portuguesa, praticamos alguns cliques, mas sem valor fonémico: o beijo, que é uma bilabial inspiratória; o estalido línguo-dental com que animamos o andar das cavalgaduras; e uns poucos mais.
(c) Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo
Os sons da fala
Fonologia
terça-feira, 30 de junho de 2026
Literatura popular: atualidade
Nos últimos largos anos, a literatura popular tem vindo a empobrecer gradualmente, essencialmente por causa da generalização de modelos graças aos meios de comunicação e à Internet. Já em 1933 Leite de Vasconcelos proclamava: "Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem, vivendo hoje, houvesse nascido nos meados do século XIX lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona — e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer da tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares... estudemos tudo, busquemos ou continuemos a buscar paralelos ao que estiver, abalancemo-nos à compreensão genérica dos factos, e assim daremos provas, nós, Portugueses, de que desejamos acompanhar as nações cultas neste campo de atividade científica."

