Português

domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Literatura popular: Do Renascimento a Almeida Garrett

    Se os trovadores medievais olhavam para a poesia popular e a consideravam irregular e tosca, os escritores do Renascimento foram-lhe muito mais avessos. As escolas eram escassas e só acessíveis a religiosos, nobres e burgueses ricos. Assim sendo, o vulgo continuou alheio às letras, embora estas ecoassem os sofrimentos que o afligiam, sujeito às prepotências de uma hierarquia desumana. O texto seguinte, "Carta a D. João III", da autoria de Sá de Miranda, reflete exatamente a denúncia dessas injustiças:
                Então tristes das mulheres,
                tristes dos órfãos, coitados,
                e a pobreza dos mesteres,
                que nem falar são ousados
                diante os mores poderes.
    A "Écloga Montano a João Rodrigues de Sá e Meneses" aborda o mesmo tema:
                Tudo é contra os pequenos!
                Destas leis tais arrenego!
                A justiça não na vemos
                senão no manco ou no cego,
                em nós, que pouco valemos!
    Nesta época, as constituições dos bispados proibiram festas populares, cantos, danças, autos profanos, que tradicionalmente se realizavam dentro e no adro das igrejas, ainda que, sem malícia, a elas se aliasse o mau clero. O tom destas proibições se acentuou com o advento da Inquisição. Para agravar a situação, as leis civis reforçaram as religiosas: D. Manuel proibiu serenatas e D. João III, para defender a Fé e a honra da universidade, os estudantes de Coimbra de fazerem música e autos durante a noite. Gil Vicente, no preâmbulo da tragicomédia Triunfo do Inverno, alude à crise de alegria que caracterizava Portugal nos últimos anos do reinado de D. Manuel e no de D. João III:
                Em Portugal vi eu já
                em cada casa pandeiro
                e gaita em cada palheiro;
                e de vinte anos a cá
                não há hi gaita nem gaiteiro.
                A cada porta um terreiro,
                cada aldeia dez folias,
                cada casa atabaqueiro;
                e agora penúrias
                he nosso tamborileiro.
    No entanto, diversos documentos dão-nos conta de folguedos do povo. João Baptista Venturino, que acompanhava o legado do Papa, cardeal Alexandrino, na sua visita ao rei de Portugal, em 1571, conta que o povo de Évora os recebeu com danças e cantos, aludindo a uma folia composta de "homens vestidos à portuguesa, com gaitas e pandeiros acordes e com guizos nos artelhos, pulavam à volta de um tambor, cantando na sua língua «cantigas de folgar»", de que obteve cópia. Por sua vez, um autor chamado Soropita, nos finais do século XVI, refere-se, com desdém, a cantores "janeireiros" e "reiseiros", de quem diz que "são vilões ruins que essas noites vos perseguem, porque, quando vós não percebais, achai-los à porta com seu pandeirinho furado já do serão e com mais sarna na garganta do que os cães dos frades Loyos...".
    Em suma, na época, ninguém se preocupou em reunir e publicar a literatura oral produzida entre o século XVI e o primeiro quartel do XIX. Até aos nossos dias, chegaram apenas coleções de provérbios, que continuam uma prática antiga. A mais velha compilação que se conhece é a parte portuguesa que Hernán Núñez juntou aos seus Refranes (1555). Nos séculos seguintes, encontramos os Adágios Portugueses, de António Delicado (1651), O Florilégio dos Modos de Falar e Adágios da Língua, de Bento Pereira (1655), a porção deles que Bluteau inclui no Vocabulário (1712-1728) e os publicados por Francisco Rolland em 1780.

    a) A poesia

    Os poetas do Renascimento, apesar do fascínio pela medida nova e formas poéticas que lhe estavam associadas, continuaram a poetar na redondilha tradicional. Além disso, usam versos populares em motes desenvolvidos em vilancetes e cantigas. Todavia, a grande fonte da poesia popular quinhentista foi Gil Vicente. Trata-se de cantigas ordenadas em chacota ou folia, vilancetes, romances onde pulsam o amor, o encanto da natureza e da vida serrana, a devoção religiosa. Ou seja, estamos na presença de um povo que se diverte, que canta e baila, vivo, alegre, ruidoso.
    O romance veio de Espanha, como o comprovam os espanholismos que encontramos nos escritos em Portugal. Este fenómeno é perfeitamente compreensível entre dois países que partilham uma longa fronteira, com monarquias que regularmente trocavam entre si príncipes e princesas, rainhas e fidalgos e respetivos séquitos. Por exemplo, um sétimo das composições do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende são escritas em castelhano; dos renascentistas portugueses, apenas António Ferreira não escreveu também em castelhano; o povo canta romances e endechas espanholas, como documentam textos vicentinos, entre outros. Durante o domínio filipino (1580-1640), esta tendência acentuou-se. Na época, estiveram em voga, por exemplo, o Conde Claros, D. Gaifeiros, a Bela Mal Maridada e Durandarte. O género, em Portugal, já era cultivado na segunda metade do século XV. Garcia de Resende, no prólogo do Cancioneiro Geral, do começo do século XVI, alude a romances. A maioria era cantada em castelhano, mas rapidamente começaram a circular versões portuguesas.
    No século XVII, o gosto pelos romances ou baladas cantados à viola ou à guitarra, acentuou-se, enquanto o XVIII vê morrer, entre a classe aristocrática, o gosto pelo romance popular, preferindo antes as modinhas brasileiras, os ballets, as comédias espanholas e as óperas italianas. Em contraste, o povo continuou a ouvir e a cantar os seus romances. Nesses dois séculos, continuaram a ser cultivadas cantigas tradicionais, que podem ser encontradas no teatro de cordel e autores como Nuno Marques Pereira, no romance Peregrino da América (1728) e Xavier de Matos (1789). Teófilo Braga regista a opinião de dois viajantes estrangeiros a respeito da poesia popular setecentista. O autor da Viagem a Portugal do Duque de Chatelet diz que "as canções portuguesas são muito licenciosas; acompanham-se com uma guitarra que fazem ressoar com muita graça".
    Uma outra espécie de poesia popular surgiu durante o domínio filipino. Trata-se de uma poesia de resistência, panfletária, oral, manuscrita, impressa, nomeadamente de coplas e romances contra os Filipes, contra a nobreza e o clero que com eles se aliaram.
    De igual modo, foi cultivado o messianismo sebastianista, cujo maior representante seria Gonçalo Eanes, o célebre sapateiro de Trancoso mais conhecido pela alcunha de Bandarra. As suas profecias, publicadas pela primeira vez em 1644, foram uma âncora a que se agarraram todos aqueles que visionavam a milagrosa aparição de um salvador da Pátria. Um dos seus apaixonados seguidores, D. João de Castro, neto do herói da Índia, diz que ele era "mui ilustre por virtudes e nobreza de alma, estimado por cima das suas qualidades dos príncipes, senhores, prelados e personagens de muitas letras e religião". Não sabia ler nem escrever:
                Eu componho e não ponho
                As letrinhas no papel.
                O devoto Gabriel
                Vai riscando quanto eu sonho,
o que não invalidava o seu real talento e inspiração poética.

    b) A prosa

    As "estórias" continuam naturalmente a contar-se e delas nos dão notícia Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, Gil Vicente, Fernão Lobo Soropita (século XVI), D. Francisco Manuel de Melo, D. Fernando Correia de Lacerda (século XVII) e Bluteau (século XVIII). Com este nome concorrem os de patranhas - o que mais se lê - e contos. Na Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, a ama conta a Aónia um romance triste, em que se incluem os seguintes versos:
                A dita e a formosura
                Dizem patranhas antigas
                Que pelejaram um dia,
                Sendo dantes muito amigas.
    Gil Vicente, na Comédia de Rubena, põe a criada Benita a contar um conto a Rubena:
                Quiéroos decir un cuento.
                Diz que era un escudero,
                tenia la mujer tiñosa,
                y subiendo en un otero...
que Rubena interrompe, dizendo:
                Oh! quien no fuera nacida!
                Viendome salir da vida,
                paraste á contar patrañas?
    Sá de Miranda refere até uma dessas patranhas na Carta a António Pereira:
                Por toda esta grande Espanha,
                Froais que soião chamar
                Fez em Pereiras mudar
                Não do rei mouro a patranha
                Mas vosso antigo solar.
    Por sua vez, Soropita menciona o conto "As três cidras do amor" e D. Francisco Manuel de Melo, nas Cartas Familiares, alude à conhecida história de Maria Sabida, de que Adolfo Coelho apresenta uma variante nos seus Contos Populares. A história do pajem que um milagre salvou, de morrer queimado num forno por intrigas de quem, afinal, acabou por sofrer esse castigo, já contada por Afonso X, o Sábio, numa das suas Cantigas, é incluída pelo bispo do Porto, Correia de Lacerda, na lenda que escreveu a respeito da Rainha Santa Isabel. Já Bluteau apresenta uma versão da facécia O burro do azeiteiro, que anda na boca do povo, e Adolfo Coelho publica nos seus Contos. No entanto, se falarmos da reunião das narrativas de cariz popular, dos séculos XVI a XVIII, em volume, só existe os que Gonçalo Fernandes Trancoso publicou com o título de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, cuja primeira edição viu a luz do dia em 1575. Note-se que o título reflete o propósito do autor: apresentar uma obra de feição didática, moral e religiosa.

    c) Provérbios e adivinhas

    Existem diversos provérbios em autores como Gil Vicente, no romance Peregrino da América, da autoria de Nuno Marques Pereira (1728), bem como nas comédias de Sá de Miranda, António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos.
    Por outro lado, também houve escritores que publicaram adivinhas com cariz literário. São os casos de Francisco Lopes (Passatempo Honesto de Enigmas e Adivinhações - 1603), Bluteau (Prosas - 1728) e Maria do Céu (Enganos do Bosque). Em todas elas, há reminiscências da tradição oral.

    d) Teatro de cordel

    Quando falamos em literatura de cordel, estamos a referir-nos a folhas soltas, volantes ou folhetos, que se vendiam pendurados de um cordel ou barbante: peças de teatro, autos, glosados, romances e novelas. No século XVI, já eram abundantes, tendo-se multiplicado no seguinte. Estes textos acompanhavam as peças de teatro que populares e burgueses compravam para entender melhor as representações que viam ou conhecer as que não viam.
    Os locais de venda mais habituais na cidade de Lisboa eram a zona do Arsenal, o Rocio e a Rua dos Ourives da Prata. Os folhetos eram expostos às portas das livrarias ou então eram vendidos por vendedores ambulantes (cegos), de cujos braços pendiam e que às vezes possuíam o exclusivo da venda, como foi o caso de um indivíduo chamado Romão José, que ficava postado à esquina das casas dos Padres de S. Domingos ou vendia em sua casa a comédia A Amizade em Lance.
    No século XVIII, foram publicadas centenas de obras originais portuguesas, traduções e adaptações de Metastasio, Goldoni, Maffei, Molière, assinadas ou anónimas. Este teatro de cordel terá sido iniciado com a publicação de alguns autos de Gil Vicente, nomeadamente o Auto da Barca do Inferno, a Farsa de Inês Pereira, D. Duardos, Pranto de Maria Parda, Auto da Festa, Auto de Deus Padre, Justiça e Misericórdia, Obra da Geração Humana, tendo sido continuada por Chiado, Baltasar Dias e Afonso Álvares.
    O livro era muito caro no século XVI, pelo que edições baratas como os livros de cordel certamente constituíam um negócio chorudo para os editores da época, além de leitura corrente do leitor vulgar.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Literatura popular: Época medieval – Período pré-trovadoresco

    A literatura popular portuguesa é tão antiga como a língua portuguesa, mas não conseguimos datar com exatidão a sua existência, dado que (segundo Viegas Guerreiro) já no século IX se falava português, não obstante ser impossível fixar a data em que o latim vulgar evoluiu para o romance português (terá sido no século VI? No VII?). A existência de literatura popular nessa época é comprovada por diversos testemunhos: referências literárias, legislação civil e eclesiástica; atos de concílios (desde o século VI) e constituições de bispados atacavam momos e arremedilhos, cantos e danças profanas, tudo considerado atos torpes, lascivos e irreverentes. Assim eram consideradas, por exemplo, as carmina amatoria, turpia, nefaria, isto é, cantigas de mulheres, de índole amorosa, correntes na România. O povo, meio cristianizado, cantava e bailava dentro ou no adro das igrejas, em romarias e procissões, ruas e praças, bodas e enterros, o que era tido por abuso e artes do diabo pela alta hierarquia eclesiástica, ao contrário do que sucedia com o baixo clero, que se misturava com a plebe e folgava o corpo.

    Mucádam ben Muafa el Cabrí, o Cego, natural de Córdova, que viveu entre finais do século IX e princípios do X, criou uma variedade de poesia lírica, a moaxaha (muwaššaha), de versos curtos de cunho popular, que podia terminar em árabe vulgar ou na língua dos cristãos. Ou seja, um poeta árabe escrevia em romance moçarábico, inserindo provavelmente nas suas composições trechos poéticos da tradição cristã. No total, conhecemos atualmente quarenta e três moaxahas, escritas entre meados do século XI e fins do XIII. As coplazinhas que as fecham são as carjas (jaryas) ou saídas. Elas condensam o sentido da moaxaha, que, por outro lado, é também o resultado do seu desenvolvimento. Trata-se de cançõezinhas populares, ou trechos delas, espécie de vilancetes, postas na boca de raparigas andaluzas apaixonadas, que choram a ausência do amigo ou se queixam do seu desamor e infidelidade e desabafam as suas mágoas com a mãe ou com as irmãs. Menéndez Pidal e Dámaso Alonso associam-nas à origem da lírica castelhana quatrocentista e posterior, em que o vilancete, como mote, se desenvolve por meio de glosas, género que, por influência castelhana, teve igualmente grande voga em Portugal. Por outro lado, estes dois autores apresentam-nas também como uma das prováveis origens do lirismo galaico-português de cunho autóctone popular. Estas cantiguinhas constituem o género lírico mais antigo que se conhece no mundo neolatino.
    Como é que essa poesia influenciou a lírica trovadoresca portuguesa? Os cristãos, sob o jugo sarraceno, puderam manter a língua, os costumes e as crenças. Provavelmente, a língua e a cultura seriam mais homogéneas do que diversas no território andaluz. Apesar de os poetas das moaxahas pertençam ao Andaluz espanhol ou ainda tenham vivido, é provável que esses cantares nelas inseridos ou análogos se ouvissem no nosso andaluz, ou seja, que constituam património comum das duas nações peninsulares.
    Exemplifiquemos como isto sucedeu. Judá Ha-Levi, um judeu de Tudela ou Toledo, que viveu a maior parte da sua vida em Sevilha, Córdova e Granada, põe na boca de uma rapariga um canto de saudade incontida, cerca de 1075, mais de um século antes da mais antiga poesia trovadoresca dos três cancioneiros que albergam a poesia
            Garid vos, ay yermanelas
            Com' contener é meu mali?
            Sin el habib non vivreyu
            ed volarei demandari.
    Se traduzirmos os versos, encontraremos o seguinte: "Dizei-vos, ai irmãzinhas, como refrearei meu pesar? Sem o amigo eu não viverei e voarei a buscá-lo."
    Numa moaxaha de Josef ben Saddig, natural de Córdova, falecido em 1149, a figura materna surge como confidente, a quem a jovem pede conselho:
            Que farej, mamma?
            Meu-l' habib est ad yana.
Ou seja: "Que farei, mãe? O meu amigo está à porta."
    Em suma, o mais provável é que as moaxahas e a poesia peninsular tenham tido uma origem comum: um fundo romântico comum, que motivou o surgimento de um certo tipo de poesia feminina, florescida no andaluz, e a poesia nascida no noroeste da Península Ibérica Quer isto dizer, em suma, que um lirismo popular preexistiu à escola dos trovadores galego-portugueses e serviu-lhes de modelo, compondo estes concomitantemente cantares de amor à maneira provençal. Na sua estrutura mais simples — duas estrofes de dois versos que terminavam, cada uma delas, por refrão —, as cantigas paralelísticas decalcarão muitas vezes as similares do povo. Estes dados são exemplificados pela existência de variantes de uma mesma cantiga assinadas por mais de um poeta, como é o caso de duas versões da bailia das "Avelaneiras frolidas", uma assinada por João Zorro e outra por Airas Nunes. Este género continuou na boca do povo pelo tempo fora. De facto, podemos encontrá-lo nos cancioneiros musicais dos séculos XV e XVI, em português e castelhano, em Gil Vicente, em canções de trabalho de Trás-os-Montes, neste caso já em pleno século XIX. Por volta de 1932, são descobertas novas catorze canções, a que chamam ritmos. As primeiras quatro são provenientes de Rebordainhos e as restantes, recolhidas em Parada, Rebordainhos e Nozedo de Cima. Todas estas descobertas são obra de Leite de Vasconcelos. Os textos estão publicados no volume I do Cancioneiro Popular Português (1975), uma obra póstuma.
    O paralelismo, genuinamente popular, está presente nestas composições, mais especificamente dois dísticos, seguidos cada um deles de refrão; o segundo repete o primeiro com substituição da última palavra, a rima é assoante. Se a ideia se desenvolve com mais duas estrofes, o 1.º verso da 3.ª é o 2.º da 1.ª, seguido de verso novo; a 4.ª repete a 3.ª com substituição da última palavra. No cantar transmontano, observam-se repetições análogas. A rima é em -i, -a, como na Idade Média, e não falta a palavra amigo e a tradicional alternância a rima de amigo - amado. Estamos na presença de versos para serem cantados, de música para bailar e mais tarde para acompanhar trabalhos de campo. Repete-se a estrutura rítmica, varia o conteúdo, atualiza-se, sobretudo nos exemplares modernos. Porém, o mais interessante de tudo reside no facto de ainda hoje se manterem, com naturais alterações, letras medievais. Um texto recolhido por Leite de Vasconcelos em Parada, concelho de Bragança, cerca de 1932, diz o seguinte:
                As meninas todas três Marias
                Foram-se a colher as andrinas.
                As meninas todas três Joanas
                Foram-se a colher as maçanas.
                Quando lá chegaram, acharam-nas colhidas
                Quando lá chegaram acharam-nas talhadas
    Por outro lado, temos a letra anónima de uma música do Cancioneiro de Barbieri, datada dos séculos XV e XVI, que reza o seguinte:
                Tres morillas me enamoran
                En Jaen Axa y Fátima y Marien.
                Tres morillas tan garridas,
                Iban a coger olivas,
                Y hallabanlas cogidas,
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
                Y hallabanlas cogidas
                Y tornaban desmaiadas
                Y las colores perdidas
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien.
                Tres moricas tan lozanas,
                Tres moricas tan lozanas,
                Iban a coger manzanas
                En Jaen, Axa y Fátima y Marien
    O poema transcrito em castelhano é anónimo, o que pressupõe a sua origem popular, e evoca tempos de convívio entre cristãos e mouros. Talvez seja anterior ao século XV. O seu tema desenvolve-se sob a forma de zéjel castelhano, ao passo que na versão transmontana é de estrutura.

    a) A poesia
    A tradição lírica popular estendeu-se da Idade Média aos nossos dias, embora sejam escassos os textos que se podem inserir no elenco do povo entre os finais do século XII aos do século XV. Cantares anónimos, de invenção popular ou popularizados, encontramo-los, e poucos, em cancioneiros musicais. Algumas cantigas de amigo, sobretudo as paralelísticas, terão também andado na boca do povo, divulgadas pelos jograis, que eram os aedos ou rapsodos da Idade Média. Andavam de terra em terra, por cortes de reis, castelos de fidalgos, conventos abastados, por ruas, praças, feiras e romarias, tangendo na cítola ou violão, cantando obra própria ou alheia. Os reis colocaram-nos ao seu serviço e mais de um bobo deles nasceu. De igual modo, serviam trovadores para eles cantarem os versos. Aos olhos de pessoas privilegiadas (nobreza e alto clero), o ofício de jogral era desonroso, dado que recebiam dinheiro pela sua arte. Alguns, mais talentosos, também trovaram, o que desagradou aos autênticos trovadores, pois, no seu entendimento, uma arte nobre como a sua não cabia na insciência de jograis, pelo que as disputas, as "tensões" entre ambos foram bastantes.
    Os trovadores desdenhavam, portanto, da arte dos jograis, que o povo apreciava, para quem os primeiros também compunham, embora tivessem vergonha disso, pelo que não incluíam esses versos nas obras que publicavam. Foi o que aconteceu com Juan Ruiz, arcipreste de Hita, na primeira metade do século XIV, que confessa ter composto para cegos e outros cantores populares "muitos cantares ou romances".
    O reportório dos jograis variava com os ouvintes: nos palácios, entoavam cantigas de amor, sobretudo; quando o público era o povo, eram cantigas satíricas e bailadas. Os caçurros, mais pobres, tinham a plebe para os ouvir. Nenhum documento escrito do lirismo galego-português de meados do século XIV a meados do XV. Isto pode ter duas explicações: por um lado, as coleções perderam-se; por outro, faltaram compiladores. Constituem exceção os versos cantados pelas "moças sem nenhũ medo, apanhando pedras pelas herdades", durante o cerco montado a Lisboa, em 1385, por D. João de Castela, que Fernão Lopes colocou na 1.ª parte da Crónica de D. João I. Sucede, porém, pelo exposto, que esses versos não são integráveis na escola dos trovadores:
                Esta é Lisboa prezada,
                mirá-la e leixá-la.
                Se quiseres carneiro,
                qual deram ao Andeiro;
                se quiseres cabrito,
                qual deram ao Bispo.
    É nos cancioneiros castelhanos, sobretudo no organizado por João Afonso de Baena (1445), que encontramos continuidade do trovar galego-português, mas de inspiração frouxa. De facto, nesses textos, de cunho popular, pouco mais encontramos do que as formas métricas.
    Segue-se o Cancioneiro Geral, que Garcia de Resende publicou em 1516, e que reúne a produção poética posterior à primeira metade do século XV. Os textos nele incluídos são composições de circunstância, palacianas, aristocráticas, carregadas de "futilidades", elaboradas para entreter os cortesãos; "cousas de folgar e gentilezas", como lhes chama o próprio Garcia. O vulgo e a sua arte não marcam presença nesta compilação.

    b) A prosa
    Não restou nenhum códice da prosa popular medieval, o que era expectável, visto que o exercício de vilãos não cabia no interesse de gente letrada. No entanto, existe notícia dessa atividade literária na Península Ibérica. A segunda das Siete Partidas, um código atribuído ao rei Afonso X, o Sábio, avô de D. Dinis, menciona, entre as diversões de 1260, "... las historias e los romances e los otros libros que fablan de aquellas cosas de que los homes reciben alegria e placer"; "estórias e romances" que corriam na boca do povo. Mais tarde, D. Duarte (1391-1438) escreve no Leal Conselheiro que "... no tempo de orar e ouvir ofícios divinos, nos conselhos proveitosos, falamentos ou desembargos levantamos estórias, recontando longos exemplos". Nas pregações religiosas, nas práticas públicas, nas sentenças dos juízes, no dar de conselhos, contavam-se histórias, com longos exemplos, que o povo ouvia e recontava ou que dele provinham.
    Amostras de algumas narrativas deste género encontram-se nos Livros de Linhagens mais recentes, sobretudo no 4.º, da autoria de D. Pedro, Conde de Barcelos (1289-1354), e nas obras religiosas e morais. Andaram com o povo lendas como "A dona pé de cabra", "A lenda de Gaia" e a do "Rei Leir", esta ainda hoje corrente entre nós, todas incluídas no referido quarto Livro de Linhagens. No Orto do Esposo, um códice alcobacense do século XIV, de caráter apologético e místico, vêm várias histórias e de uma delas publica Adolfo Coelho uma versão contemporânea nos Contos Populares Portugueses.

    c) Provérbios e adivinhas
    Estamos perante géneros menores em prosa e em verso, o que não os torna menos significativos. Todas as classes usam provérbios e adivinhas e, apesar de terem uma presença assinalável na nossa literatura medieval, não chegou até nós qualquer coleção dessa época.
    Como exemplo temos uma cantiga de amigo de João Soares Coelho, composta na segunda metade do século XIII e rematada com um anexim. A história é simples: uma jovem decide ir ver o amigo contra a vontade da mãe:
                Pero m' o ela non quer outorgar,
                hir-o-ei veer aly hu m'el mandou,
                e per quanta coyta por mi levou,
                farey-lh' eu est' e quanto m' al roguar,
                e desy saya per hu deus quiser.
                Ca diz o vervo - ca non semeou
                milho quem passariños receou.
    Na forma atual, o provérbio é o seguinte:
                "Nunca milho semeou
                Quem passarinho receou."
    Atente-se no vocábulo "vervo", que significava "provérbio".
    Igualmente, não possuímos qualquer compilação de adivinhas.
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