domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Análise da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
a) Ação
A ação da cena estrutura-se em três momentos de crescente intensidade dramática:
A inquietação no quarto matrimonial e o monólogo místico de Cabot: a cena inicia-se no piso superior, com Cabot e Abbie no quarto de casal e Eben no quarto contíguo. Enquanto o patriarca reafirma com obsessão a necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu legado, a distância afetiva da esposa é manifesta. Pressionado pela apatia desta, o velho homem entrega-se a uma longa confissão retrospetiva: relata a sua chegada à terra árida há cinquenta anos, a sua luta contra o solo pedregoso, a conceção de um Deus duro e a profunda solidão que sempre o acompanhou. Subitamente, é assaltado por uma sensação sufocante de frio e por sombras invisíveis que parecem povoar os cantos da casa, o que o leva a abandonar o leito conjugal para ir dormir no estábulo junto do calor dos animais.
A transgressão do espaço e o abraço: com a saída de Cabot, Abbie abandona o seu quarto e invade o espaço privado de Eben. Vencendo a imobilidade e a agitação contida do jovem, lança-se ao seu pescoço num abraço apaixonado e cobre-o de beijos. Ele cede num primeiro momento, mas a vaga de culpa puritana impele-o a repeli-la brutalmente, declarando que o beijo lhe soube a peçonha e tentando mentir a si próprio ao afirmar que imaginava estar com outra mulher.
O duelo: Abbie desmascara a hipocrisia de Eben, confrontando-o com o ardor da sua própria resposta física. Perante a resistência do enteado, a madrasta inverte a tática: insulta-o, afirma que nunca o amou e que apenas o usou como instrumento para assegurar o domínio da herdade, reduzindo-o à condição de mero jornaleiro. Para consolidar a sua vitória, anuncia que vai descer para abrir e iluminar a sala de visitas — mantida fechada e consagrada ao luto desde a morte da mãe de Eben —, convidando-o a juntar-se a ela. O impacto psicológico e a profanação do espaço materno destroem a força de vontade do rapaz, que, num estado de transe e desorientação, se veste mecanicamente e caminha para a sala atrás de Abbie, invocando em vão o espírito da mãe falecida.
b) Espaço
Espaço Físico: A cenografia apresenta o andar superior da
habitação dividido em dois quartos contíguos, separados por uma ténue parede de
tábuas de madeira. O espaço é tétrico, caracterizado por tetos baixos com vigas
expostas e uma iluminação parca proporcionada por velas frouxas. Mais tarde, a
ação desloca-se virtual e fisicamente para a sala de visitas no piso inferior,
um espaço encerrado há anos que funciona como o santuário da falecida mãe de
Eben.
Espaço Social: Retrata a comunidade rural e puritana da Nova
Inglaterra de meados do século XIX, um ambiente isolado onde a vida comunitária
é inexistente e as relações humanas são moldadas pela ética do trabalho árduo,
pelo valor da propriedade privada e pela dominação patriarcal.
Espaço Psicológico: O cenário converte-se num território de
profunda claustrofobia e opressão. A parede de tábuas atua como uma membrana
permeável através da qual o desejo reprimido e a hostilidade circulam. O frio
interior que atormenta Cabot simboliza a rejeição espiritual da casa em relação
à sua presença, enquanto o quarto de Eben e a sala de visitas assumem a
dimensão de um espaço psíquico onde o trauma materno e o impulso incestuoso se
defrontam.
Espaço cénico: didascálias.
c) Tempo
Tempo da Ação: Desenrola-se durante uma noite abafada e
sufocante de Verão, concentrando-se num intervalo contínuo de poucas horas
durante o período noturno.
Tempo do Discurso: Sofre uma desaceleração marcada durante o
longo monólogo autobiográfico de Cabot, onde o tempo presente da cena se dilata
para dar lugar ao tempo da memória e da retrospetiva histórica.
Tempo Histórico: Circunscreve-se a meados do século XIX
(década de 1850) no meio rural dos Estados Unidos, refletindo as condições
económicas e o rigor religioso do período.
Tempo Psicológico: É denso, estagnado e doloroso. Para
Cabot, o tempo é a contagem acumulada de cinquenta anos de solidão e
decrepitude biológica; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se na urgência
absoluta do desejo represado e no peso de um passado não resolvido.
d) Caracterização Aprofundada das Personagens
Ephraim Cabot:
Física: Idoso de setenta e cinco anos, de estatura rija e
ossatura rija temperada pelo trabalho na lavoura, mas revelando a
vulnerabilidade do envelhecimento na sua extrema sensibilidade ao frio da casa.
Psicológica: Fanático, orgulhoso, dominador e profundamente
solitário. O seu rigor religioso esconde uma trágica incapacidade de amar ou de
se conectar com os outros, refugiando-se num Deus duro e inflexível.
Social: Patriarca autoritário e proprietário absoluto da
herdade, figura temida e respeitada pela sua força de trabalho, mas totalmente
isolada no plano interpessoal.
Abbie Putnam:
Física: Jovem, atraente, dotada de uma sensualidade
magnética e vigorosa que contrasta abertamente com a decadência de Cabot.
Psicológica: Determinada, calculista, astuta e dotada de uma
vontade implacável. Combina a ambição material de possuir um lar com uma
capacidade avassaladora de entrega erótica e paixão genuína por Eben.
Social: Mulher de origem humilde e desapossada que procurou
no casamento com o velho patriarca a segurança económica, lutando ferozmente
para erguer o seu domínio na casa.
Eben Cabot:
Física: Jovem, forte e em pleno vigor físico, apresentando
ao longo da cena uma agitação motora constante — descalço e em roupa interior
—, que reflete a sua febre interior.
Psicológica: Imaturo, conflituoso e emocionalmente instável.
É dominado por um complexo edipiano em relação à mãe falecida e por um
sentimento de culpa puritano que o divide entre o dever filial, o ódio ao pai e
a atração fatal por Abbie.
Social: O filho mais novo da casa, desprovido de herança e
remetido à condição de trabalhador explorado na própria terra que considera sua
por direito materno.
e) Linguagem e Figuras de Estilo
A linguagem da cena caracteriza-se pelo tom coloquial, cru e
dialetal próprio da zona rural, cruzado com a solenidade arcaica e rítmica do
discurso bíblico nas falas de Cabot.
Enumeração das Figuras de Estilo Presentes na Cena:
Metáfora
Comparação
Antítese
Personificação
Hipérbole
Apóstrofe
Gradação
Repetição / Anáfora
f) Características da Tragédia Clássica Grega
Hybris (A Desmedida e a Soberba): Manifesta-se na cegueira
de Cabot, que se considera o escolhido de Deus e o senhor absoluto da terra e
da vida, julgando-se acima da velhice e das necessidades afetivas dos que o
rodeiam.
Hamartia (O Erro Trágico): O erro fatal de Cabot ao
introduzir uma jovem esposa na casa e ao ignorar a força da natureza, bem como
a transgressão moral cometida por Eben e Abbie ao cederem ao desejo proibido.
Anagnorisis e Peripeteia (Reconhecimento e Inversão): O
momento em que Cabot pressente que a casa o rejeita através do frio e das
sombras, e a súbita inversão de poder no quarto de Eben, onde a rejeição
inicial se transforma em capitulação total.
Ananké (A Fatalidade e o Destino): O determinismo biológico
e ambiental que esmaga as personagens. Elas são joguetes de forças superiores a
si próprias: o desejo carnal incoercível, o peso da terra, a hereditariedade e
o chamamento do espírito da mãe falecida.
Mito Edipiano e Incesto Simbólico: A reconstituição da
tragédia de Édipo e de Fedra, onde o filho se une à madrasta no espaço
sacralizado da mãe morta, consumando a vingança contra o pai e a violação do
tabu ancestral.
g) Elementos Simbólicos
A Parede Divisória: Simboliza a barreira moral e a
interdição do incesto, mas funciona simultaneamente como um condutor
psicológico que aproxima as mentes de Abbie e Eben.
A Sala de Visitas (Parlor): Representa o santuário mudo da
falecida mãe de Eben. A sua reabertura e iluminação simbolizam a profanação do
luto, o local do sacrifício e o palco definitivo do incesto.
O Frio e as Sombras: O frio inexplicável que penetra no
quarto de Cabot simboliza a ausência de amor, a esterilidade da sua conduta e a
presença espiritual vingativa da segunda esposa.
As Pedras e o Deus de Pedra: Representam a dureza inflexível
de Cabot e o puritanismo esterilizante que rejeita a facilidade e a compaixão
em favor do sofrimento e da posse.
O Estábulo e as Vacas: Simbolizam o refúgio na natureza
bruta e animal, onde o calor e a paz simples dos animais oferecem o conforto
que a casa dos homens recusa a Cabot.
A Vela e a Luz na Janela: A luz vacilante das velas evoca a
precariedade moral e a penumbra da consciência, enquanto o brilho que emana da
sala de visitas assinala o acender do fogo trágico.
h) Análise Ideológica da Cena
A cena desenvolve uma rigorosa desconstrução dos pilares
fundacionais da sociedade puritana e americana do século XIX. Em primeiro
lugar, procede a uma crítica profunda ao puritanismo dogmático e ao calvinismo,
demonstrando como a conceção de um Deus duro e punitivo gera seres humanos
emocionalmente mutilados, incapazes de criar laços de afeto genuínos e
condenados a uma solidão trágica.
Em segundo lugar, expõe as contradições do materialismo
patriarcal e do culto da propriedade. A terra e o património surgem como
obsessões que reificam os indivíduos: as mulheres são tratadas como
instrumentos de reprodução para assegurar herdeiros e os filhos como mão de
obra servil. A luta pelo domínio da herdade converte a família num campo de
batalha onde o amor é instrumentalizado como arma de conquista económica.
Por fim, a cena afirma o triunfo do determinismo biológico e
da Natureza sobre a Lei e a Moral. O desejo erótico entre Abbie e Eben e a
necessidade de reparação do trauma materno revelam-se forças primitivas e
incontroláveis, capazes de fazer ruir todas as interdições religiosas, sociais
e legais. O incesto surge, assim, não apenas como um pecado, mas como uma forma
trágica de libertação e vingança contra a tirania do patriarca.
Resumo da cena II da 2.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros
A ação desta cena desenrola-se no andar superior da casa, durante uma noite abafada de Verão, onde o interior de dois quartos iluminados por velas frouxas expõe uma intensa divisão psicológica. Num dos quartos, Cabot e Abbie encontram-se sentados na cama de casal, tomados pela ideia fixa da necessidade de gerar um herdeiro para a herdade. O marido expressa uma fusão obsessiva entre a esposa e a terra, declarando que ambos têm de produzir um filho, ao passo que ela acolhe as suas afirmações com frieza e enfado. No quarto contíguo, Eben levanta-se e passeia desvairadamente, descalço e em roupa interior, consumido pela perturbação e pelo calor. Através da parede divisória, estabelece-se uma ligação invisível entre ele e a madastra, cujos olhares e gestos se procuram num desejo sufocado, até que o jovem se atira para a cama num gesto de desespero e praga contra si próprio.
Incapaz de obter uma verdadeira resposta afetiva da esposa, Cabot inicia um longo e amargo monólogo sobre a sua trajetória de vida e o seu isolamento. Recorda ter chegado àquela terra há cinquenta anos, confrontando um solo árido coberto de pedras que levou outros à fuga ou à morte. O velho patriarca relata como se endureceu à imagem de um Deus rigoroso que habita nas pedras, recusando a vida fácil nas planícies do Oeste, porque uma voz interior o mandou regressar para erguer muros com o próprio suor. Evoca com amargura os seus casamentos anteriores: a primeira esposa, com quem viveu duas décadas sem que ela o compreendesse, e a mãe de Eben, cuja fraqueza e disputa familiar sobre os direitos da herdade apenas aprofundaram a sua solidão. Cabot confessa que, após anos de ressentimento mútuo com os filhos, interpretou o chamamento divino como uma ordem para procurar Abbie, a sua «Rosa de Sião», na esperança de encontrar alívio para a sua eterna solidez e isolamento.
Perante o olhar frio da mulher, que promete de forma enigmática vir a ter um filho dele, o patriarca é subitamente acometido por um calafrio e por uma sensação desagradável de frio e sombras que remexem nos cantos escuros da casa. Procurando o sossego e o calor que não encontra no lar, o velho veste-se e decide ir dormir para o estábulo junto das vacas. Após clamar a Deus sob o céu noturno, afasta-se. Ficando sozinhos no andar de cima, a tensão entre Abbie e Eben atinge o ponto de rutura. Dominada pelo desejo, ela abandona o seu quarto e entra resolutamente no quarto do enteado. Perante a imobilidade tensa do jovem, a madrasta lança-se ao seu pescoço num abraço apaixonado e cobre-o de beijos, aos quais ele, num primeiro momento, cede e retribui com igual ardor.
Contudo, a consciência do ódio e da culpa faz com que a empurre subitamente, afirmando com dureza que o beijo soube a peçonha e tentando convencer-se de que pensava noutra mulher. Abbie confronta-o com a falsidade da sua negação, lembrando o ardor dos seus lábios, e a conversa degenera num confronto verbal violento. A mulher insulta-o e declara com orgulho manipulador que nunca esteve apaixonada por ele, tendo-o apenas procurado para assegurar o domínio sobre a casa e a propriedade, reduzindo-o à condição de mero jornaleiro. Para consolidar o seu poder, anuncia que vai descer e abrir a sala de visitas — mantida fechada desde a morte da mãe do rapaz —, convidando-o a juntar-se a ela. Perante o olhar fixo e a vontade implacável de Abbie, a resistência dele desmorona-se. Assim que a luz surge na janela da sala no piso inferior, Eben, num estado de profunda desorientação, veste mecanicamente o fato e o chapéu, permanecendo descalço, e lança um apelo desolado à falecida mãe antes de caminhar lentamente em direção à porta.
sábado, 10 de outubro de 2026
Análise de Desejo sobre os Ulmeiros, de Eugene O'Neill
I. Biografia de Eugene O'Neill
II. Relação da peça com a tragédia grega
III. Resumo da peça
IV. Resumo das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
V. Análise das cenas
. 1.ª parte:
. Cena I
. Cena II
. Cena III
. Cena IV.
. 2.ª parte
. Cena I
. Cena II
VI.
VII. Questionários



