domingo, 22 de outubro de 2084
Professor
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Análise da ação de O Senhor das Moscas
O eixo dramático de O Senhor das Moscas gravita em torno do embate entre Ralph e Jack. dois polos de liderança que encarnam visões inconciliáveis de organização humana. De um lado, Ralph, com a sua inclinação para a ordem, a deliberação coletiva e o amparo dos mais frágeis; do outro, Jack, cuja autoridade se funda na imposição, no medo e na sedução da violência. Se, num primeiro momento, Jack se curva, ainda que a contragosto, à escolha de Ralph como chefe, essa aceitação logo se revela provisória. A rivalidade latente cresce como uma chama mal contida, até consumir por inteiro a frágil estrutura social erguida pelos meninos.
Mais do que indivíduos, Ralph e Jack configuram arquétipos: são figuras simbólicas de impulsos antagónicos que habitam a própria natureza humana. À medida que o domínio de Ralph se dissolve, enfraquecido pela indisciplina, pela negligência e pelo fascínio que a caça exerce sobre os demais, torna-se cada vez mais evidente a precariedade da civilização. O colapso da sua liderança sugere que os instintos primitivos, quando liberados, tendem a subjugar as convenções sociais, revelando-as como construções delicadas, sempre à beira da ruína. O resgate final de Ralph por um oficial da marinha, representante de uma ordem maior, não chega a oferecer consolo pleno: ao contrário, o pano de fundo de uma guerra global insinua que a barbárie não é exclusividade da ilha, mas atravessa o mundo dito civilizado.
Inserido nesse contexto de conflito planetário, o romance funciona como advertência, tanto em relação ao poder destrutivo da tecnologia bélica quanto à instabilidade inerente ao espírito humano. Ao restringir a ação a um grupo de crianças isoladas, com escassas referências ao exterior, a narrativa adquire um caráter quase mítico, como se aquilo que ali se desenrola fosse inevitável e universal. O microcosmo da ilha torna-se, assim, espelho ampliado do mundo: um laboratório onde se expõem...
Continuação da análise aqui: »»».
Análise de O Senhor das Moscas
Resumo de O Senhor das Moscas
O Senhor das Moscas desenrola-se numa ilha deserta do Pacífico, durante uma guerra devastadora — frequentemente interpretada como nuclear —, após um avião que transportava um grupo de rapazes britânicos ser abatido. O piloto morre, e os sobreviventes ficam entregues a si próprios, sem qualquer supervisão adulta, num ambiente simultaneamente paradisíaco e hostil.
Entre os primeiros a surgir estão Ralph e Piggy, um rapaz intelectual, fisicamente frágil e frequentemente ignorado pelos outros. Na praia, Ralph encontra uma concha, e Piggy percebe o seu potencial: ao soprá-la, conseguem convocar os restantes sobreviventes. Reunidos, os rapazes organizam-se e tentam recriar uma ordem semelhante à sociedade de onde vieram. Elegem Ralph como líder, apoiado pelo conselho de Piggy, e atribuem a Jack, chefe do antigo coro, a responsabilidade pelos caçadores.
O grupo divide-se de forma geral entre os “pequeninos”, crianças de cerca de seis anos, e os mais velhos, entre os dez e os doze. Desde o início, Ralph estabelece como prioridade o resgate: decide que devem manter uma fogueira acesa no topo da montanha para sinalizar navios. O fogo é aceso com recurso aos óculos de Piggy, que concentram a luz solar. Contudo, a excitação e a irresponsabilidade dos rapazes fazem com que o incêndio...
Resumo completo: »»».
Contexto de O Senhor das Moscas
Quando O
Senhor das Moscas foi publicado pela primeira vez, o mundo procurava ainda
recompor-se da devastação humana provocada pela Segunda Guerra Mundial. Entre
civis e militares, este conflito ceifara cerca de 60 milhões de vidas, deixando
atrás de si uma memória de ruína e perda dificilmente mensurável.
O fim do
conflito foi, quase de imediato, sucedido pelo início da Guerra Fria. O bloco
comunista encontrava-se sob a liderança da União Soviética, que instaurara um
regime totalitário na sequência da revolução de 1917 — revolução essa
alicerçada nas teorias do socialismo. Este defendia a propriedade comum dos
recursos em benefício da comunidade, em oposição à expansão territorial que, na
prática, os líderes comunistas procuravam assegurar. Por sua vez, o Ocidente
capitalista, liderado pelos Estados Unidos, receava a disseminação do
comunismo. Com ambas as superpotências na posse de armamento nuclear, a Guerra
Fria tornou-se um tempo de tensão constante e latente. Ambos estes conflitos
históricos servem de pano de fundo a O Senhor das Moscas.
A
Segunda Guerra Mundial exerceu uma influência profunda sobre William Gerald
Golding. Ao serviço da Royal Navy, participou em combates no Atlântico Norte,
tomou parte na batalha que conduziu ao afundamento do navio de combate alemão
Bismarck, em 1941, e comandou uma embarcação lançadora de foguetes durante o
desembarque na Normandia, em 1944.
Aquilo
que testemunhou durante o conflito marcou profundamente a sua visão do ser
humano e da sociedade. Golding ficou abalado perante a extraordinária
capacidade humana para infligir dor e destruição. Num ensaio publicado em 1965,
intitulado “Fábula”, escreveu: “Comecei a perceber do que as pessoas eram
capazes”. Não foram apenas os horrores perpetrados pelos nazis sobre os
prisioneiros nos campos de concentração, nem os maus-tratos infligidos pelos
japoneses que o perturbaram. Também as ações dos Aliados o inquietaram:
justificavam a destruição em nome de princípios morais, mas essa justificação
abria uma inquietante zona cinzenta, onde o desumano podia tornar-se aceitável.
Todas estas contradições levaram Golding a conceber a natureza humana como algo
simultaneamente selvagem e implacável.
Os ecos
destas ideias percorrem O Senhor das Moscas. Jack e os seus caçadores,
em particular, tornam-se agentes da violência: começam por caçar animais, mas
acabam por matar e torturar seres humanos. Até Ralph, símbolo da ordem e da
sociedade, participa numa caçada e no assassinato de Simon. Tal como o texto
sugere, todos os seres humanos encerram em si a capacidade de praticar o mal.
O
Senhor das Moscas foi escrito durante a Guerra Fria, período em que a
humanidade viveu, pela primeira vez, sob a ameaça concreta de aniquilação
nuclear. As bombas atómicas tinham sido utilizadas duas vezes pelos Estados
Unidos para forçar a rendição do Japão, em 1945. Perante isso, os líderes da
União Soviética sentiram-se compelidos a desenvolver o seu próprio arsenal
nuclear, tanto por razões defensivas como ofensivas. Quando a União Soviética
se tornou oficialmente uma potência nuclear, em 1949, a Guerra Fria já estava em
curso.
Tal
como sucede no romance, onde os rapazes se dividem em grupos que passam a
desconfiar uns dos outros e a procurar a destruição mútua, também as nações se
fragmentaram em blocos. A maioria dos países alinhou-se sob a influência da
União Soviética e dos seus aliados comunistas, ou sob a esfera dos Estados
Unidos e do Ocidente. A tensão entre estes dois polos era elevada, dando origem
a conflitos indiretos, como a Guerra da Coreia — invasão da Coreia do Sul pela
Coreia do Norte entre 1950 e 1953 —, na qual os Estados Unidos apoiaram o Sul,
enquanto a China e a União Soviética apoiaram o Norte.
A
Guerra Fria, com o seu potencial de destruição em massa, bem como a paranoia
que dominava ambos os lados, encontra-se refletida na obra. A narrativa
inicia-se com os rapazes isolados numa ilha, após o avião em que viajavam ter
sido abatido. Acreditam que uma bomba nuclear destruiu o mundo e vivem com o
receio de serem encontrados pelos “Vermelhos”, termo frequentemente utilizado
no bloco ocidental para designar os comunistas.
Biografia de William Golding
Desde
cedo revelou inclinação para a escrita: começou a escrever aos sete anos e, aos
doze, já ensaiava o seu primeiro romance. Leitor precoce, mergulhou na poesia
de Alfred Tennyson e na obra de William Shakespeare, influências que o
acompanhariam ao longo da vida. Contudo, a sua infância não foi isenta de
sombras: há registos de que, em pequeno, podia ser agressivo, chegando a
maltratar outras crianças — traço que mais tarde ecoaria na complexidade moral
das suas personagens.
Em
1930, ingressou no Brasenose College, na University of Oxford. Seguindo a
vontade dos pais, iniciou estudos em ciências, mas, após dois anos, cedeu à sua
vocação e mudou para literatura inglesa. Ainda estudante, publicou o seu
primeiro livro — um volume de poesia — integrado na série da Macmillan
Publishers. Mais tarde, viria a desvalorizar essa obra, considerando-a juvenil;
no entanto, nela já se pressente a sua crescente desconfiança face ao
racionalismo herdado. Concluiu o curso em 1935, com um grau em Inglês e um
diploma em educação.
Após a
universidade, experimentou várias ocupações, trabalhando como escritor, ator e
produtor num pequeno teatro londrino, ao mesmo tempo que se sustentava como
assistente social. Considerava o teatro — em especial a tradição dos
tragediógrafos gregos e de Shakespeare — a sua influência literária mais
profunda. Acabaria por seguir o caminho do pai, tornando-se professor de Inglês
e Filosofia em Salisbury, na Bishop Wordsworth's School, onde viria também a
exercer funções de direção. O contacto diário com rapazes proporcionou-lhe uma
visão penetrante da natureza humana que, mais tarde, se revelaria decisiva para
a criação da sua obra mais célebre.
Em
1939, casou com Ann Brookfield, com quem teve dois filhos. No ano seguinte,
porém, interrompeu a vida civil para se alistar na Royal Navy, participando na
World War II. Durante cerca de seis anos, serviu no mar, tomou parte em
diversas missões e foi promovido a tenente, desenvolvendo uma duradoura ligação
ao oceano e à navegação. Terminada a guerra, regressou ao ensino e à escrita.
Foi em
1953 que concluiu Lord of the Flies (O Senhor das Moscas),
romance que viria a ser publicado em 1954, após ter sido rejeitado por vinte e
uma editoras. A receção inicial foi hesitante e as vendas modestas; chegou
mesmo a desaparecer do mercado nos Estados Unidos, embora se mantivesse
disponível no Reino Unido. Só em 1959, com a edição de bolso, a obra conheceu
um renascimento, vindo a afirmar-se como um clássico incontornável da
literatura contemporânea e presença habitual nos currículos escolares.
Ao
longo da sua carreira, Golding escreveu treze romances, além de poesia, peças
de teatro, ensaios e contos. O conjunto da sua obra valeu-lhe o Prémio Nobel da
Literatura em 1983, sendo ainda distinguido com o título de cavaleiro em 1988.
Em 1961, abandonou definitivamente o ensino para se dedicar por inteiro à
escrita.
Golding morreu a 19 de junho de 1993, na sua terra natal, Cornualha, encerrando uma vida marcada pela reflexão profunda sobre a natureza humana, onde a razão e a sombra convivem em tensão permanente.
Apresentação de O Senhor das Moscas
O romance é uma alegoria ,
ou seja, uma história em que personagens, cenários e eventos representam algo
maior do que eles próprios. Por exemplo, a ilha representa o mundo; Ralph e
Jack simbolizam diferentes abordagens à liderança.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
Mandarim não é só pudim
Por mais estranho que pareça, na China fala-se mandarim, a língua oficial do país. O chinês é outra "coisa". O jornalista não sabe. Oh, 😞 que surpresa!
terça-feira, 31 de março de 2026
Despacho Normativo n.º 3/2026
segunda-feira, 30 de março de 2026
Análise do poema "Quando era criança", de Fernando Pessoa
O poema é constituído por três
quadras de redondilha menor (versos de cinco sílabas) e rima interpolada e
emparelhada, segundo o esquema abba.
Na primeira estrofe, o sujeito
poético declara que, enquanto foi criança, viveu sem ter consciência dos
sentimentos (“Quando era criança / Vivi, sem saber” – vv. 1-2), pois não era
dominado pela consciência, pela racionalidade, pelo pensamento. Porém, agora
que é consciente (“Só para hoje” – v. 3), no presente, enquanto adulto, lembra
aquilo que foi no passado (“Aquela lembrança” – v. 4). A antítese entre esses
dois tempos – passado e presente – é marcada pelos tempos verbais (pretérito
imperfeito – “era” – e perfeito – “Vivi” – versus presente) e pelo
advérbio de tempo “hoje”.
A antítese prolonga-se na segunda quadra. Assim, afirma que, no presente (“hoje” – v. 5) reflete, tem consciência de que era feliz no passado, o que contrasta com a infelicidade que o caracteriza atualmente (“É hoje que sinto / Aquilo que fui.” – vv. 5-6). Nos versos 7 e 8, estabelece que “mente”, isto é, que finge, intelectualiza todos os seus...
Análise aqui: »»».
Biografia de Eurípides
Eurípides foi um dos três grandes dramaturgos Atenas clássica, conjuntamente com Sófocles e Ésquilo, tendo nascido por volta de 484 a.C. na atual capital grega, mais concretamente na ilha de Salamina, e falecido em 406 a.C. na Macedónia.
É complexo escrever sobre a vida de Eurípides, pela simples razão de que ele viveu há milhares de anos, numa época em que se estava apenas no início da escrita de História (Heródoto – 484 a.C. - 425 a.C. –, considerado o seu pai, foi contemporâneo próximo do escritor). Os homens daquela era já tinham começado a registar grandes eventos, no entanto não tinham entendido que o registo da vida de alguém implicava o trabalho de pesquisa sobre a figura em questão. Uma espécie de biografia começou a ser elaborada cerca de duas gerações depois, quando os discípulos de Aristóteles e Epicuro se preocuparam e empenharam em desvendar e registar as vidas dos seus mestres. Contudo, a biografo como a entendemos atualmente nunca foi praticada na Antiguidade, visto que, em regra, era constituída por excertos selecionados da vida do biografado, como, por exemplo, grandes feitos, grandiosos discursos, e concentrava-se nos últimos anos da sua vida, especialmente na sua morte. É isto que explica o facto de pouquíssimas datas de nascimento serem hoje conhecidas, ou o desconhecimento das primeiras obras e primeiros anos de vida dos grandes homens da época.
Por outro lado, a História era um ramo das “belas-letras” e não se preocupava grandemente com a exatidão do conteúdo. Regra geral, contentava-se com a data em que um homem se distinguia, o que constituía uma conceção muito vaga, convencionalmente fixada na época em que realizou a sua obra mais importante ou no ano em que alcançou a maturidade: a idade de quarenta anos.



