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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise de Desejo sobre os Ulmeiros, de Eugene O'Neill

I. Biografia de Eugene O'Neill


II. Relação da peça com a tragédia  grega


III. Resumo da peça


IV. Resumo das cenas

    . 1.ª parte:

        . Cena I

        . Cena II

        . Cena III


V. Análise das cenas

    . 1.ª parte:

        . Didascália inicial

        . Cena I

        . Cena II

        . Cena III


V. 

Resumo da cena II da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

    A segunda cena inicia-se com a transição para o crepúsculo, revelando o interior austero da cozinha da casa de lavoura dos Cabots. O espaço apresenta-se limpo e arrumado, mas a sua atmosfera assemelha-se mais à de um acampamento de homens do que à de um verdadeiro lar, destacando-se na parede um grande cartaz que anuncia a viagem para a sonhada Califórnia. À mesa, os três irmãos reúnem-se para jantar; contudo, enquanto Simeon e Peter devoram o presunto e as batatas com a bruteza resignada de animais do campo, Eben depenica a comida sem apetite, observando os meio-irmãos com um desdém mal disfarçado.
    O silêncio é quebrado quando os irmãos mais velhos censuram Eben por ter desejado a morte do pai. Ele reage com violência, rejeitando qualquer laço de filiação com o patriarca e proclamando com orgulho que se identifica inteiramente com a sua falecida mãe, saindo a ela até à última gota de sangue. A conversa evoca a memória da antiga madrasta, cuja bondade é recordada com saudade pelos irmãos, mas Eben explode de ressentimento, acusando Ephraim de a ter escravizado e assassinado lentamente através do trabalho físico extenuante. Perante a passividade de Simeon e Peter, que justificam o silêncio do passado com o peso sufocante das tarefas agrícolas quotidianas como lavrar, sachar ou ordenhar, o irmão mais novo interrompe-os amargamente. Numa poderosa imagem de petrificação, ele descreve a construção interminável dos muros de pedra da quinta como um processo que endurece e transforma os próprios corações dos homens em rocha.
    A dor de Eben revela-se de natureza obsessiva e espectral. Ele partilha a convicção de que o espírito da sua mãe continua sem paz, pairando junto ao fogão da cozinha, incapaz de descansar na cova devido às injustiças sofridas em vida. Movido por um desejo de vingança implacável, o jovem jura fazer com que o pai pague pelos seus atos para que a mãe possa finalmente repousar. A conversa desvia-se então para a enigmática partida de Ephraim na primavera, com Simeon a recordar o comportamento altivo do pai, que partiu em busca de uma mensagem divina ostentando um riso desdenhoso de mula e garantindo com desdém que viveria cem anos, ordenando aos filhos que regressassem ao arado.
    O apelo da Califórnia volta a acender a imaginação dos irmãos mais velhos, que lamentam o absurdo do esforço inútil acumulado naquelas terras ingratas, afirmando que os passos dados a lavrar seriam suficientes para chegar à Lua. Eben, contudo, confronta-os friamente com a realidade, acusando-os de estarem presos à quinta apenas à espera da morte do pai para garantirem a herança. Quando Simeon reclama o direito de ambos a dois terços da propriedade, Eben levanta-se num sobressalto de fúria e declara que a quinta pertencia legitimamente à sua mãe e que, por isso, é inteiramente sua. Simeon desafia-o, com ironia, a proferir tais palavras diretamente ao patriarca quando este regressar, e a tensão abranda temporariamente quando os irmãos mais velhos saem para as tarefas da noite no estábulo.
    Ficando sozinho, Eben sente uma força e uma revolta incontroláveis a crescerem no seu peito, decidindo sair para caminhar pela estrada. Ao perceberem que o destino do jovem é a aldeia para visitar a prostituta Min — a quem Peter apelida desdenhosamente de "Mulher Escarlate" em referência ao estigma puritano —, os irmãos mais velhos começam a troçar dele. A provocação atinge o ponto de rutura quando Simeon e Peter revelam que ambos, bem como o próprio pai, já partilharam os favores sexuais de Min no passado, chamando-lhes ironicamente de "herdeiros em tudo". Enfurecido com a revelação deste incesto simbólico e com a partilha forçada da mesma mulher, Eben bate com a porta e precipita-se para o exterior.
    Na cozinha, os irmãos mais velhos soltam um riso escarninho, comentando que Eben é o retrato escrito e escarrado do pai, antes de apagarem a vela e recolherem ao quarto. No exterior, sob a noite estrelada, Ele ergue os braços num gesto de rebeldia contra o céu e entrega-se a um belíssimo solilóquio lírico e dionisíaco. Contemplando o firmamento, ele liberta o seu desejo e compara Min à própria noite de verão — definindo-a como macia, quente e com o aroma fértil de um campo lavrado —, legitimando a pureza da sua paixão carnal ao afirmar desafiadoramente que o seu pecado tem tanto valor como o de qualquer outro, desaparecendo de seguida a passos largos pela estrada fora.

Análise da cena II da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) Ação
    A ação dramática nesta cena desenrola-se no plano verbal e psicológico, enquanto os três irmãos — Eben, Simeon e Peter — se reúnem em redor da mesa para jantar. O conflito estala imediatamente através da discussão sobre a figura do pai, Ephraim Cabot, cuja ausência prolongada é motivo de especulação e rancor. Eben acusa abertamente o pai de ter assassinado a sua mãe, trabalhando-a até à exaustão física, uma acusação que os irmãos mais velhos tentam relativizar devido à dureza geral da vida no campo. A tensão escala quando Eben revela o seu plano de visitar Min, a prostituta local mais velha com quem o pai e os próprios irmãos mais velhos já se deitaram. O deboche e as provocações de Simeon e Peter precipitam a saída furiosa de Eben, que, antes de partir, reafirma a pureza e a legitimidade da sua própria rebeldia sob a luz crepuscular.
b) Espaço
    A ação desta cena decorre na cozinha, um espaço desenhado com uma austeridade quase monástica, contendo apenas uma mesa com quatro cadeiras ao centro, um fogão a lenha e um cartaz publicitário da corrida ao ouro na Califórnia afixado na parede.
    No plano social, este espaço minimalista e prático ilustra a aridez e a crueza da sobrevivência rural da época, onde não há lugar para o supérfluo, o conforto ou a beleza estética.
    No plano psicológico, a cozinha funciona como uma câmara de opressão familiar. A cadeira vazia à mesa evoca a sombra constante e castradora do patriarca ausente, ao mesmo tempo que o fogão simboliza o antigo domínio da falecida mãe de Eben, cujo sacrifício físico ainda assombra o lar. O cartaz da Califórnia introduz um contraste psicológico crucial, representando uma janela mental de evasão e de libertação para os dois irmãos mais velhos, que contrasta com o sentimento de Eben de que a quinta é um território sagrado que ele tem o dever de reconquistar.
c) Tempo
    O tempo da ação decorre de forma contínua em relação à cena anterior, avançando para o cair da noite e para a hora da refeição, um período que propicia o confronto direto após o desgaste do trabalho diurno.
    O tempo do discurso é pesado, fragmentado por pausas para comer e por réplicas curtas e rudes, que refletem a fadiga física e a incapacidade das personagens de expressarem plenamente os seus sentimentos.
    No plano histórico, o ano de 1850 situa o drama no auge da corrida ao ouro, um contexto de transição que introduz a promessa de riqueza fácil e de fuga à rigidez da Nova Inglaterra.
    No plano psicológico, o tempo é vivido de forma fraturada: Eben encontra-se fixado no passado traumático da morte da sua mãe, agindo sob um imperativo de vingança, enquanto os seus irmãos vivem numa suspensão ansiosa, medindo o tempo pela iminência da morte do pai e pela esperança de fuga representada pelo Oeste.
d) Caracterização das personagens
    Eben Cabot mostra-se nesta cena como um jovem de 25 anos dominado pelo ressentimento e por uma fixação materna extrema. Socialmente, sente-se uma vítima explorada pelo pai, e psicologicamente exibe uma sensibilidade ferida que se traduz em impulsividade e agressividade defensiva.
    Simeon e Peter, ambos já perto dos quarenta anos, são caracterizados por um pragmatismo cínico e por uma rudeza física que evoca animais de tração. Socialmente resignados à sua condição de servos do pai, justificam a sua inação passada em relação à madrasta com o cansaço do trabalho implacável.
    O pai, Ephraim Cabot, embora ausente, é caracterizado através do ódio dos filhos como um tirano de 75 anos, cuja força física extraordinária e cegueira mística o levaram a partir em busca de uma revelação divina, governando a família com uma autoridade religiosa inflexível e desprovida de qualquer compaixão.
    Min é uma prostituta, a encarnação da tentação carnal na comunidade, tendo mantido relações sexuais com todos os homens mais velhos da família Cabot, sendo desejada igualmente por Eben. Peter e Simeon apelidam-ma de "Mulher Escarlate", usando o termo para desvalorizar o irmão mais novo, ridicularizando o seu desejo e reduzindo-o a uma mera partilha de luxúria familiar,
e) Linguagem
    A linguagem da cena assenta num dialeto rural rústico e seco, repleto de coloquialismos e contrações que acentuam a inexpressividade poética das personagens. No entanto, o texto é densificado por recursos estilísticos de grande força expressiva. A personificação manifesta-se no discurso filosófico de Simeon quando este afirma enigmaticamente que "ninguém nunca mata ninguém. É sempre qualquer coisa. Esse é que é o assassino", transformando o meio hostil e o destino numa força homicida invisível. A metáfora surge quando Eben descreve a morte da mãe, acusando o pai de a ter assassinado "centímetro a centímetro" através do trabalho, uma imagem que intensifica a crueldade doméstica do patriarca. A comparação implícita das personagens a animais é reforçada pela descrição do apetite e dos movimentos pesados dos irmãos, que se dirigem à comida como bois ao estábulo. Finalmente, o contraste e a ironia marcam o final da cena, quando as provocações sobre as visitas de Eben a Min são respondidas pelo protagonista com um lirismo desafiador, comparando o seu pecado à beleza do pôr do sol ao afirmar que o seu desejo é tão "belo como qualquer um dos deles", elevando a sua rebeldia carnal a um ato de afirmação estética e espiritual face à sordidez da quinta.
    Uma das figuras de estilo mais presentes na segunda cena da primeira parte é a comparação, usada frequentemente para acentuar o caráter primitivo e o embrutecimento físico das personagens. O ambiente doméstico da cozinha é definido desde logo pelo facto de a sua atmosfera se assemelhar mais à "de um acampamento de homens que a de uma casa", marcando a aridez e a falta de afeto que ali se vivem. Os dois irmãos mais velhos, Simeon e Peter, são apresentados a comer "com o à-vontade de animais do campo", uma "comparação animal" que ilustra a sua resignação e a sua redução ao papel de bestas de carga moldadas pela rotina do trabalho agrícola. Noutro momento da cena, Simeon socorre-se de comparações muito depreciativas para descrever a astúcia e, ao mesmo tempo, a insensibilidade do patriarca, Ephraim Cabot, cujos olhos se assemelham a "olhinhos de cobra velha a brilharem ao sol" e cujo riso desdenhoso é caracterizado como um "risinho de mula". Além disso, ele é comparado a uma "nogueira seca que só serve para o lume", uma imagem que concretiza a aridez espiritual e a esterilidade afetiva do velho latifundiário.
    Pelo oposto, a atração erótica de Eben pela prostituta Min é poetizada quando a personagem declara que ela é "como esta noite... é macia, é quente". Esta comparação mostra que Eben não vê a mulher como uma figura decadente e degradada, mas como uma força natural, harmoniosa e acolhedora. Esta associação a elementos naturais é consolidada quando ele acrescenta que Min "cheira como o ardor de um campo lavrado", que transforma o ato carnal numa celebração da fertilidade e da terra dionísica (suave, fecunda, vital), opondo-se à aridez estéril e "dura" do puritanismo do pai, simbolizada pelos implacáveis muros de pedra da quinta.
    Por outro lado, a comparação traduz a fixação materna de Eben. De facto, vivendo num lar dominado pelo ódio, pelo ressentimento e pela dureza materialista de Ephraim, no qual não existe qualquer espaço para o afeto ou ternura, o filho mais novo encontra-se emocionalmente desamparado e traumatizado pela morte da mãe. A procura de uma mulher que é "macia" e "quente" representa a sua necessidade infantil e inconsciente de recuperar o aconchego, o carinho e a proteção do útero materno. Assim sendo, Min funciona como esse refúgio temporário contra a hostilidade do pai. Ao proclamar que "o meu pecado vale tanto como os dos outros", Eben usa o calor da noite para validar a sua própria humanidade e rebeldia contra a opressão da quinta, preparando o caminho para a paixão ainda mais avassaladora e trágica que viverá mais tarde com Abbie.
    A metáfora traduz a violência doméstica e a desumanização gerada pela ganância. Eben acusa repetidamente o pai de ter "assassinado aos poucos" ou "escravizado até à morte" a sua mãe, referindo com raiva que ele lhe "pagou matando-a", metaforizando o trabalho físico extenuante como um crime lento. A bestialidade das personagens é acentuada quando Simeon "ri consigo mesmo, num latido sem alegria". Outra metáfora está presente quando Eben descreve o trabalho de erguer as demarcações da propriedade da seguinte forma: "fazer muros... pedra sobre pedra... muros e muros até o coração ser uma pedra que se tira do caminho para uma pessoa se tornar uma pedra!" Esta imagem representa a total perda de sensibilidade e humanidade de quem vive sujeito à lei implacável do pai, mimetizando a transformação do ser humano em mineral.
    Além disso, Eben é metaforizado como "escrito e escarrado" o pai, sugerindo a herança psicológica que partilham, ao passo que as suas futuras visitas a Min são descritas por Peter como uma atração pela "Mulher Escarlate". Na Nova Inglaterra da época colonial, as mulheres adúlteras e, por extensão, as prostitutas usavam uma letra escarlate bordada na roupa, uma metáfora histórica e bíblica para a transgressão e a luxúria. Essa prática histórica da letra escarlate, que visava a humilhação pública e a marcação física e visual do "pecado" carnal, demonstra como a sociedade colonial puritana punia e isolava a luxúria. Apelidar Min de "Mulher Escarlate" significa, no fundo, inseri-la diretamente nesse registo histórico de marginalização social, transformando o seu corpo e a sua sexualidade num símbolo vivo de desonra e transgressão comunitária.
    Indo mais fundo, a peça Desejo sob os Ulmeiros está imbuída de uma Teologia calvinista, segundo a qual a moralidade e a lei são ditadas por um Deus "duro e solitário". Esta influência bíblica e dogmática manifesta-se nos nomes e nas referências bíblicas (O'Neill recorre a nomes bíblicos para as suas personagens para evocar as suas personagens para evocar as antigas e severas relações familiares do Velho Testamento; além disso, o patriarca Ephraim Cabot cita frequentemente as Escrituras) e na luxúria como transgressão (num ambiente governado por uma doutrina que encara a carne como algo pecaminoso e glorifica apenas o trabalho físico implacável e estéril, a "Mulher Escarlate" evoca as grandes metáforas bíblicas de transgressão e corrupção espiritual, associadas tradicionalmente à figura bíblica do Apocalipse que personifica a sedução, o pecado e a decadência). De forma trágica, Simeon constata que eles são "herdeiros dele [do pai] em tudo", uma metáfora de duplo sentido que antecipa a partilha das mesmas mulheres.
    Por outro lado, a estrutura cíclica e asfixiante do trabalho no campo é construída através de anáforas, paralelismo e enumerações. A ladainha infindável dos deveres quotidianos é enumerada pelos irmãos numa cadência rítmica repetitiva: "Ou havia que lavrar. Ou que secar o feno. Ou que estrumar. Ou que sachar. Ou que podar. Ou que ordenhar." Esta anáfora construída a partir da expressão "Ou que..." simula o trabalho infindável que têm de desempenhar, a falta de alternativa e o automatismo a que estão sujeitos. De igual modo, Eben reconstitui o martírio da mãe falecida recorrendo a uma enumeração anafórica que expressa a impossibilidade do seu descanso: "Ela havia de voltar para me ajudar... voltar para descascar as batatas... voltar para fritar o presunto... voltar para cozer o pão... voltar, cheia de dores, para atiçar o lume...", enfatizando o facto de a mãe não se conseguir sentir livre "nem mesmo na cova". A determinação obsessiva de Eben em a vingar é também marcada por uma tripla anáfora de compromisso: "Hei de dizer-lhe... Hei de berrar-lhas... Hei de conseguir que a minha mãe repouse...".
    Por seu turno, a hipérbole ilustra a frustração existencial face à esterilidade da quinta. Ao lamentar a tremenda distância física e mental que os separa da liberdade, Peter afirma que, se colocassem uns atrás dos outros todos os passos inúteis que deram a lavrar aquela terra ingrata, "até chegávamos à Lua!", um claro exagero dramático que traduz a futilidade e o absurdo do esforço imposto pelo patriarca da família. No plano da lealdade familiar, Eben faz uso da hipérbole ao declarar que se identifica com e sai à mãe "até à última gota de sangue", consolidando a sua fixação freudiana absoluta.
    Por fim, no solilóquio que encerra a cena, Eben evidencia a sua sensibilidade reprimida através do polissíndeto e da sinestesia. A repetição da conjunção coordenativa "e" ("e não sei onde está ele, e eu aqui, e Min... E se eu a beijar? E que me rala...") confere à fala um ritmo flutuante, sensual e lento, que reflete o seu devaneio carnal. Este ritmo é preenchido por uma sinestesia que caracteriza Min: "cheira como o ardor de um campo lavrado". A mistura de sensações alia a sexualidade da prostituta à fertilidade dionísica da terra cultivada, mostrando que, por trás da dureza puritana dos muros de pedra, a vida pulsa e o desejo "cresce e cresce" até "rebentar".
f) Características da Tragédia Clássica Grega
    A rivalidade primordial entre Eben e Ephraim pelo amor da mãe e pelo controlo da terra evoca o Complexo de Édipo. A partilha da mesma mulher, Min, introduz um elemento de incesto simbólico e contaminação familiar que remete para as teias de maldição hereditária das linhagens míticas. O espírito da mãe falecida atua como uma Erínia, uma força sobrenatural invisível que exige vingança e reposição da justiça contra a insolência (hybris) do pai. A reflexão de Simeon de que "é sempre qualquer coisa" que mata reflete a noção clássica de Fado (moira), sugerindo que as personagens estão presas a um determinismo cósmico e psicológico do qual não podem escapar, caminhando inevitavelmente para a sua própria ruína.
g) Elementos Simbólicos
    Os elementos cénicos da cozinha estão carregados de simbolismo dramático. A mesa com quatro cadeiras, apresentando um lugar vazio, simboliza a omnipresença opressiva da autoridade patriarcal de Ephraim, que continua a governar e a vigiar as mentes dos filhos mesmo quando não se encontra fisicamente presente. O fogão a lenha evoca o sacrifício e a herança da mãe de Eben, cujo quotidiano doméstico a consumiu até à morte. O cartaz da Califórnia na parede funciona como o símbolo da tentação material e do apelo à fuga, oferecendo um contraste direto com a aridez estéril das pedras da quinta. O pôr do sol que Eben contempla ao sair simboliza a beleza trágica e a paixão dionisíaca, uma força de rebeldia que se recusa a ser sufocada pela escuridão do puritanismo severo da casa.
h) Análise Ideológica da Cena
    No plano ideológico, a cena constitui uma crítica profunda ao materialismo possessivo e à ética puritana do trabalho que moldaram a sociedade americana. O'Neill denuncia a forma como a obsessão pela propriedade e pela acumulação de riqueza destrói os laços humanos e familiares mais básicos. A quinta dos Cabots não é um lar, mas sim uma empresa de exploração económica onde tudo é mercantilizado: a força de trabalho dos filhos, o sacrifício das esposas e a própria sexualidade. Ao mostrar que os irmãos mais velhos preferiram o trabalho contínuo à defesa da madrasta, e que o pai utilizou a religião para justificar a opressão, a peça expõe a falência espiritual de um sistema que coloca o valor material acima da dignidade e dos afetos, mostrando que a ganância cega apenas gera solidão, sofrimento e isolamento.

Análise da cena I da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

a) A ação
    O jovem Eben Cabot realiza gestos quotidianos e rituais — como tocar o sino do jantar, contemplar o pôr do sol e interagir com os seus meio-irmãos mais velhos, Simeon e Peter. Contudo, estes atos simples servem de pretexto para exteriorizar os profundos conflitos latentes: a revolta contra a tirania do pai ausente, a dor indómita pela morte da mãe e a disputa surda pela posse da quinta. O verdadeiro motor da ação é a revelação dos "desejos" conflituosos de cada personagem, que começam a colidir imediatamente, estabelecendo a inevitabilidade da rutura familiar e a iminência da partida dos irmãos mais velhos para a Califórnia.
b) O espaço
  • Espaço físico: a ação decorre no exterior e no interior da casa de lavoura dos Cabots, na Nova Inglaterra. Trata-se de uma habitação cinzenta, austera, a necessitar de pintura e rodeada por um duro muro de pedra. O cenário é dominado fisicamente por dois gigantescos ulmeiros que abraçam e sufocam a casa, criando uma atmosfera de clausura e isolamento.
  • Espaço social: representa a aridez da vida rural profunda do século XIX, marcada pela pobreza espiritual, pelo isolamento comunitário e pela rotina esmagadora do trabalho agrícola. É um ambiente onde a sobrevivência material exige um esforço físico brutal, moldando homens rudes que encaram a terra não como um espaço de comunhão, mas como um objeto de conquista e exploração.
  • Espaço psicológico: a quinta e a casa funcionam como uma autêntica prisão emocional ou um túmulo onde os afetos foram soterrados. O espaço está saturado pelas memórias traumáticas e pelo fantasma da mãe falecida de Eben. Os ulmeiros projetam uma presença maternal opressiva e ciumenta sobre a habitação, enquanto os muros de pedra simbolizam a barreira intransponível da autoridade paterna e a repressão dos instintos mais básicos das personagens.
c) O tempo
  • Tempo da ação: situa-se ao entardecer, na transição para a noite, durante o início do verão. O crepúsculo e a luz dourada do pôr do sol funcionam como um limiar simbólico que marca o fim de um ciclo de opressão e o início de uma noite de paixões violentas.
  • Tempo do discurso: caracteriza-se por um ritmo lento, pesado e repetitivo, mimetizando a cadência do trabalho no campo. Os diálogos são compostos por frases curtas e silêncios grávidos de subentendidos, revelando a incapacidade das personagens de comunicarem verdadeiramente.
  • Tempo histórico: o ano é 1850. Esta data é crucial pois coincide com a corrida ao ouro na Califórnia. O contexto histórico oferece uma alternativa de fuga fácil e rápida ao puritanismo e à dureza da Nova Inglaterra, servindo de catalisador para a partida de Simeon e Peter.
  • Tempo psicológico: É um tempo estagnado e assombrado pelo passado. Eben vive em permanente suspensão, fixado na infância e na dor da perda da mãe, enquanto os seus irmãos vivem na ansiosa expectativa da morte do pai para poderem herdar a terra ou partir. O presente é vivido como uma "jaula" de onde todos tentam escapar.
d) Caracterização das personagens
  • Eben Cabot: Fisicamente, é um rapaz de 25 anos, alto, ágil e atraente, possui cabelos escuros e um olhar desafiador que evoca um animal selvagem em cativeiro. No plano psicológico, mostra-se profundamente ressentido, defensivo e obsessivo; sofre de uma fixação materna extrema e de um ódio visceral pelo pai, a quem acusa de ter matado a sua mãe de exaustão. Socialmente, é um trabalhador explorado na própria quinta da família, dividindo-se entre a sensibilidade dionisíaca (herdada da mãe) e a ganância apolínea de posse (herdada do pai).
  • Simeon e Peter: Fisicamente mais velhos (na casa dos trinta anos), são descritos através de comparações bovinas; são homens rústicos, corpulentos e pesados, assemelhando-se a bois de tração. Psicologicamente, são pragmáticos, cansados da labuta implacável e movidos por um materialismo direto e sem as complexidades emocionais de Eben. Socialmente, são servos do pai que anseiam por uma libertação rápida através da riqueza material.
  • Ephraim Cabot (ausente na cena): Caracterizado através do discurso dos filhos como um patriarca de 75 anos, duro como um rochedo, inflexível e extremamente míope. É o símbolo vivo da autoridade tirânica, do puritanismo implacável e de um orgulho cego na sua própria força física e espiritual.
e) Linguagem
    A linguagem utilizada na cena é de um realismo cru e poético. O diálogo apoia-se num dialeto rústico e coloquial, marcado por contrações, repetições e uma sintaxe simplificada que traduz a inexpressividade poética destas personagens rurais. Apesar da sua aparente crueza, a linguagem é profundamente lírica, recorrendo a imagens sensoriais poderosas — como a beleza do pôr do sol adjetivada simplesmente como "belo" ou o cheiro animalesco do bacon que atrai os irmãos para a cozinha —, revelando que por trás da dureza das palavras fervem paixões e desejos indomáveis.
    A comparação sublinha o caráter primitivo, instintivo e quase animal dos três irmãos, alinhando-se com a estética naturalista: o olhar de Eben, com "olhos escuros e desafiadores [que] lembram os de um animal selvagem em cativeiro" / e os irmãos Simeon e Peter, que se movem de forma pesada e desajeitada "como dois bois amigáveis" em direção à comida. No caso de Eben, a comparação com o "animal selvagem" reforça a sua vitalidade reprimida e o sentimento de aprisionamento na quinta. No caso dos irmãos mais velhos, a comparação com os bois evidencia a sua resignação e o embrutecimento devido ao trabalho agrícola contínuo; no fundo, eles agem como bestas de carga moldadas pela terra.
    A metáfora intensifica a carga trágica e a sensação de inevitabilidade. Na longa didascália que antecede a cena I, a água da chuva que cai sobre a casa é descrita como "lágrimas [que] escorrem monotonamente e apodrecem no telhado", o que significa que representam a dor acumulada e o luto eterno que assombram a casa, atuando fisicamente para "apodrecer" a estrutura do lar dos Cabots. Por sua vez, a metáfora da jaula ("cada dia é uma jaula na qual ele se sente encurralado") explicita a barreira psicológica e o determinismo que impedem Eben de se libertar do seu destino familiar e da sua fixação materna.
    A antítese entre o "verde vibrante e brilhante" das folhas dos ulmeiros e o tom "pardo-sujo" das paredes da casa com as persianas "verdes desbotadas" é particularmente significativa. A cor verde e viva dos ulmeiros representa a força vital, a fertilidade e a paixão sensual (o dionisíaco), enquanto o tom cinzento, sujo e desbotado da casa simboliza a esterilidade, a decadência moral e a repressão puritana (o apolíneo). Por seu turno, o muro de pedra" contra o pôr do sol ilustra o choque entre a dureza implacável da lei do pai e a atração idealizada pela liberdade ou pelo ouro.
    Ao associar sensações visuais (as cores), térmicas (o calor abafado) e táteis (o verde dos ulmeiros "brilha" em contraste com o aspeto pálido e sem vida da casa, combinado com a descrição do calor sufocante e a atração física das personagens que se torna "uma força palpável que vibra no ar quente"), O'Neill cria uma atmosfera densa e asfixiante. A sinestesia desvenda a pressão psicológica e o desejo reprimido que pairam sobre o cenário antes mesmo de qualquer grande confronto verbal a acontecer.
f) Características da tragédia clássica grega
    O'Neill atualiza de forma brilhante os moldes da tragédia clássica nesta cena inicial:
  • Determinismo e Fado: as personagens estão presas a um destino inevitável imposto pela hereditariedade, pelo meio ambiente hostil e pelas suas próprias fixações psicológicas.
  • O Complexo de Édipo: A rivalidade primordial entre o filho (Eben) e o pai (Ephraim) pelo amor e pela memória da mãe prefigura a estrutura mítica de Édipo Rei.
  • A presença do sobrenatural: O espírito da mãe falecida atua como uma força invisível, semelhante às divindades ou aos fantasmas das tragédias de Ésquilo e Sófocles, exigindo vingança e justiça contra o opressor.
  • A hybris: O orgulho desmedido e a obsessão pela posse absoluta da terra conduzem inevitavelmente à queda trágica das personagens.
g) Elementos Simbólicos
  • Os ulmeiros representam a força dionisíaca da natureza, a fertilidade e a presença espectral, protetora e simultaneamente sufocante da mãe falecida.
  • O muro de pedra e as pedras simbolizam a lei apolínea do pai, a herança material, o puritanismo estéril e a prisão física e espiritual que impede o florescimento dos afetos.
  • O pôr do Sol e o ouro encarnam a tentação do desejo absoluto, a promessa de uma beleza e de uma facilidade que contrastam com a dureza cinzenta da quinta dos Cabots.
h) Análise Ideológica da Cena
    No plano ideológico, a cena inicial constitui uma crítica contundente ao Mito do Progresso Americano e à ética puritana do trabalho. O'Neill expõe como a obsessão capitalista pela propriedade privada e pela acumulação de riqueza destrói os laços familiares e corrompe a dignidade humana. A quinta, que deveria ser um lar, é revelada como um espaço de exploração económica onde as relações humanas são mercantilizadas: o pai escraviza as esposas e os filhos em nome de um Deus austero, e os filhos encaram o pai como um obstáculo financeiro a abater. A peça denuncia assim a falência espiritual de uma sociedade assente na posse material, mostrando que a ganância desmesurada aprisiona o ser humano numa solidão eterna e autodestrutiva.

Resumo da cena I da 1.ª parte de Desejo sob os Ulmeiros

    A ação começa ao entardecer de um dia de início de verão, em 1850, numa quinta isolada na Nova Inglaterra. No centro do palco, ergue-se a casa de lavoura da família Cabot: uma habitação cinzenta, visivelmente negligenciada e a precisar de pintura, com persianas verdes desbotadas. O espaço é delimitado à frente por um rígido e austero muro de pedra com um portão de madeira ao centro.
    Dominando toda a paisagem, dois ulmeiros colossais de cada lado da casa estendem os seus ramos sobre o telhado, exercendo uma presença quase humana, sufocante e de uma "maternidade sinistra", que parece ao mesmo tempo proteger e subjugar a habitação com uma força ciumenta e esmagadora.
    O jovem Eben Cabot, de 25 anos, caracterizado por um olhar selvagem e desafiador de um animal encurralado, sai à porta e toca vigorosamente o sino do jantar. Ao olhar para o pôr do sol brilhante, deixa-se levar momentaneamente pela sensibilidade e exclama: "Deus! Que belo!". Logo a seguir, contudo, a sua amargura e revolta regressam; cospe no chão com desprezo e volta para o interior da cozinha.
    Os seus meio-irmãos mais velhos, Simeon e Peter, aproximam-se da casa cansados do trabalho bruto na terra. Ambos também contemplam a beleza dourada do entardecer, mas projetam nela os seus desejos íntimos. Para Simeon, o brilho dourado evoca a memória da sua falecida esposa, Jenn, que tinha cabelos loiros como o ouro; para Peter, o pôr do sol representa o ouro literal recentemente descoberto na Califórnia.
    Os dois irmãos mais velhos debatem o seu futuro na quinta. Discutem se devem continuar a trabalhar arduamente naquelas terras cheias de pedras à espera que o pai de 75 anos morra — sabendo que o velho se gaba de que ainda viverá muito tempo — ou se devem partir rumo ao Oeste para enriquecer. Eben, ouvindo a conversa a partir da janela da cozinha, intervém com raiva, afirmando que gostaria que o pai estivesse morto e acusando-o de ter matado a sua mãe de tanto trabalhar, chamando-os de seguida para a refeição.
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