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domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Análise da cantiga "Bernal Fendudo, quero-vos dizer", de João Baveca

    Esta cantiga de maestria, da autoria de João Baveca, composta por três sétimas de versos decassílabos e rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema ABBACCA, aborda o tema da sodomia, associado a mouros. De facto, nela, dirigida provavelmente ao sodomita Bernal de Bonaval (o segrel cuja vida particular deu origem a várias sátiras por parte dos seus colegas trovadores), o autor brinca com os termos de guerra, relacionando-os com a lida sexual entre Bernal e os mouros que, no final, "morrerán enx vosso poder".

    No contexto da poesia trovadoresca, são cerca de 30 as cantigas que tratam da sodomia entre homens, a maioria produzida entre 1240 e 1350, o que coincide com o reinado de um dos grandes trovadores-mecenas daquele período (Afonso X) e com o acolhimento das cantigas provençais por parte de D. Afonso III, bem como com um ambiente de riso e festa — cuja principal manifestação é o Carnaval — que atravessa todo o tempo que vai de fins do século XII até meados do XIV. De acordo com a professora Graça Videira Lopes, a sodomia pode ser dividida em grupos de visados: altos funcionários, mouros, personagens vários e trovadores e jograis. Normalmente, usa-se o termo "sodomita" em vez de homossexual (séc. XIX) ou homoerótico (séc. XX) para designar estas práticas sexuais, porque é a palavra conhecida na época e registada em Las Siete Partidas, de Afonso X: "Sodomitico dizen al pecado en que caen los omes yaziendo unos con otros contra natura e costubre natural. E porque de tal pecado nacen muchos males en la tierra, do se faze, e es cosa q pesa mucho a Dios comel." Convém notar que a sodomia implicava um "deseo puramente anatomico", uma "transgressión de ordem físico", um "sujeito jurídico" que só a partir do século XIX passa a ser "uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida".

    Novamente segundo a professora Graça Videira Lopes, "muitos destes temas erótico-satíricos vão, aliás, desaparecer completamente da literatura 'oficial', pelo menos até ao séc. XIX, o que torna ainda mais notável este conjunto de poemas medievais. O caso da homossexualidade masculina é, nesta matéria, sintomático. Se [...] não encontramos nenhuma referência autobiográfica, sendo mesmo, em geral, a atitude condenatória, de notar-se, que esta condenação se processa, nos Cancioneiros, com uma boa dose de humor [...]. A homossexualidade não nos surge assim aqui como aquele «crime nefando» passível de pena de morte, que vemos referido nos documentos oficiais da igreja e mesmo das instituições civis."

    A maioria das cantigas satíricas sobre sodomitas está ligada ao funcionalismo da corte (21 cantigas), sendo aqueles "acusados" de manterem relações com subordinados, de se obstinarem sexualmente, de inverterem os papéis (de passivo para ativo), de serem cruéis nas relações, de agirem com hipocrisia, de desejarem casar-se com homens ou de contraírem doenças. Cada um destes motivos encerraria uma sátira ao desempenho e não à natureza da sexualidade. Convém notar que, apenas nos séculos XII e XIII, se olha para a homossexualidade como fenómeno contrário à natureza. Em contraste com certa gravidade e melancolia de cantigas sobre traições de vassalos, sobre a avareza e sobre o mundo às avessas, à maneira de sirventeses morais, nas cantigas sobre sodomitas predomina o humor brincalhão e obsceno (tal como sucede nas cantigas dedicadas a soldadeiras e clérigos), frequentemente equívoco (26 cantigas). Estas cantigas exploram também as questões da moral privada, mostrando a que ponto os tabus sexuais são violados, sem que se saiba o partido dos trovadores.

    No "incipit", encontramos um nome próprio (Bernal) e um apelido (Fendudo), o qual, por meio da "interpretatio nominis", nos coloca no campo da atividade homossexual, entendendo esse apelido como significando "fendido", "fissurado". “Fendudo” faz referência a estar separado em dois, facto que pode resultar das práticas sexuais que Bernal realiza com outros homens. O sujeito poético parece querer aconselhar essa figura sobre como agir perante o desejo de lhe darem armas e chama, "dona selvage". Esta expressão deverá constituir uma alusão aos "cavaleiros selvagens", personagens bravias e hirsutas, habituais nas novelas de cavalaria, aqui usada para feminizar o visado pela cantiga. O conselho surge nos quatro versos finais da cobla: Bernal Fendudo deverá resistir para se defender num hipotético combate armado contra os mouros. Note-se que, na fase mais profícua da poesia trovadoresca, grande parte dos textos assumem ironicamente quer as formas do género judicial (simula-se a defesa), quer as do género deliberativo (aconselham-se ou desaconselham-se enormidades), quer as formas do género epidíctico (simula-se, geralmente, o louvor). No caso desta cantiga, o autor usa o género deliberativo, pois é aconselhado a adotar um determinado comportamento: sofrer os mouros, pois todos o atacarão ("sofiede-os, ca / todos vos ferran"), todos lhe baterão até se cansarem e ele, então, vencê-los-á. Ora, subtilmente, o trovador está a referir-se, sob a capa de uma grande capacidade de resistência aos ataques, a uma desaforada capacidade sexual, isto é, sob a forma do equívoco - conselhos a um combate com os mouros - o trovador alude aos alegados gostos homossexuais de Bernal Fendudo.

    Em suma, a sátira ao sodomita inicia-se logo no verso inicial com a referência ao apelido "Fendudo", que pode ser interpretado como uma referência sexual, remetendo para a ideia de uma pessoa fendida ou aberta, o que indicia que o visado desempenha o papel passivo na relação homoerótica. A sátira prossegue com a referência ao facto de lhe quererem dar armas (símbolo tradicional de poder e masculinidade, símbolo fálico) e, por isso, o chamarem "dona", numa clara feminilização. A ideia de sofrer os mouros, que o "ferram", pode ser lida como ser penetrado por todos os mouros, reforçando-se, assim, a sua passividade nessas relações. Por seu turno, o vocábulo "todos" indicia a intensa capacidade e atividade sexual de Bernal. O cansaço dos atacantes ("cansaram"), sugere a intensidade da atividade sexual, que deixa os "atacantes" num estado de quase exaustão. O derradeiro verso da estrofe assenta na ironia e no duplo sentido do verbo "vencer", que pode ser entendido como uma referência ao prazer obtido por Bernal dessas relações sexuais: ao "sofrer", não perde, mas "vence", transformando o ato numa fonte de prazer.

    A segunda estrofe remete novamente para um ambiente de combate ("E ali log', u s' ha lide a volver"), que, num contexto homoerótico, pode ser interpretado como uma metáfora para uma atividade sexual intensa. Nesse contexto, o nome "lide" (luta) evocaria o esforço, a troca ou confronto, sugerindo uma relação física carregada de tensão e intensidade. No local da luta, vários mouros virão golpeá-lo ("colpar"). Ora, o ato de golpear implica uma ação rigorosa e repetitiva que, num contexto homossexual, aludirá ao ato sexual. Os versos 10 e 11 são bastante irónicos, ao sugerir que, outros "inimigos" o "cometerão", isto é, o penetrarão, por outro lado, ou seja, por detrás, numa clara alusão ao ato sexual homossexual. Neste cenário, o trovador repete o conselho, no sentido de Bernal suportar as investidas, venham elas de onde vierem — ataquem os mouros por trás ou pela frente. Os dois versos finais da segunda estrofe repetem os equivalentes da primeira, nomeadamente a ideia de que, se Bernal suportar/aguentar os ataques dos inimigos, vencê-los-á pelo cansaço. Note-se a referência a "bem fazer", característico da cantiga de amor, aqui claramente carnalizado, porque associado às armas, metáfora do órgão sexual masculino: "se vos deus em armas bem fazer, / ferindo em vós, hiam eles de can.". Os inimigos, depois de o "ferirem" repetidamente (alusão à penetração) sucumbirão ao cansaço e ao clímax e ele triunfará.

    A terceira estrofe retoma a ideia da intensidade e da frequência com que Bernal pratica o ato sexual, quase uma atividade coletiva, tantos são os participantes que o desejam (“Pero, com’há mui gram gente a seer”) e que o derrubarão “Muitas vezes”, repetidamente. Porém, ele sempre irá recuperar forças, enquanto os “inimigos” «ham mais a enfranquecer». Observe-se esta antítese, que sugere o frenesim sexual em que o satirizado se envolve, incansável e sempre disponível e disposto para o ato sexual, bem como a oposição entre o cansaço e o desgaste dos outros em contraste com a sua vitalidade e o prazer contínuo. Metaforicamente, o trovador afirma que Bernal continuará a relacionar-se sexualmente de forma repetida e intensa: “Pero nom quedarán de vos ferir de todas partes”. A conjunção coordenativa “Mais” introduz a nota dissonante que já encontrámos nas estrofes anteriores: “Mais, ao fiir, todos morrerám em vosso poder”. “Fiir”, ou fim, pode ser interpretado como o clímax dos atos sexuais descritos, e a alusão a que “todos morrerám "em vosso poder" inverte por completo as reações tradicionais de submissão e derrota. A "morte" pode ser interpretada simbolicamente como o clímax sexual, em que Bernal, apesar de passivo ou submisso durante o ato sexual, é quem sai vitorioso, pois os outros sucumbem ao desejo e ao cansaço, enquanto ele permanece triunfante.

    Em suma, esta cantiga compreende uma sátira a um certo Bernal Fendudo (provavelmente o trovador Bernal de Bonaval), que é satirizado pela homossexualidade e relações sexuais com múltiplos homens, nas quais desempenhava um papel passivo. A conselho do trovador, deve lutar contra os muitos mouros e deixar-se atacar por todos os lados para os deixar exaustos e moribundos. Ou seja, do princípio ao fim, estamos perante uma óbvia sátira sexual, dirigida a uma figura masculina que é feminizada.

    Por outro lado, toda a composição poética está impregnada de um vocabulário pertencente ao registo bélico e que pode ser interpretado com um segundo sentido obsceno. Num primeiro momento, o trovador não deixa dúvidas sobre o alcance da sua sátira ao afirmar que querem dar armas ao visado no verso 3, ou seja, penetrar. Além disso, o escarnecido é apelidado "dona selvage", alcunha que faz alusão à passividade da personagem no momento do coito. De seguida, o trovador adverte-o de que estas práticas terão consequências, pois será "ferido", mais, à base de "receber golpes", isto é, de que será penetrado, todavia vencerá, por os adversários caírem vítimas do cansaço produzido pelo culminar do ato sexual, da expulsão do sémen, que é o que perdem. Na luta, entendida, de acordo com esta leitura, como um combate sexual, no momento mais intenso da refrega ("u s'a lide a volver"), uns tentarão "golpeá-lo" pela frente (v. 9) e outros por detrás ("alhur" - v. 11), ferindo-o metaforicamente (v. 12), mas os adversários, ao penetrá-lo, perderão (vv. 13-14).

    Durante os encontros sexuais, Bernal será derrubado (v. 16), ou seja, será vítima do cansaço sexual, porém será vencedor no final do ato homoerótico, pois, apesar de sair ferido (entendido no sentido de ter sido penetrado – vv. 19-21), todos os oponentes morrerão às suas mãos, já que ele sempre recupera, enquanto os adversários enfraquecem ("mais sempre vos avedes a cobrar / e eles an mais a enfraquecer" - vv. 17-18). Estes dois versos podem ser interpretados da seguinte forma: os mouros ficam debilitados ao realizar o ato sexual, já que uma vez que este se consuma, eles ejaculam, ficando sem forças, e é aqui que Bernal sai vencedor, pois desempenhou um papel passivo durante o sexo e, além de receber o sémen dos oponentes, não tem o mesmo desgaste físico que aqueles.

Análise da cantiga "Bem me cuidei eu, Maria Garcia", de Afonso Anes do Cotom

                Esta cantiga de escárnio e maldizer, da autoria de Afonso Anes do Cotom, constituída por quatro sextilhas singulares, de rima emparelhada e interpolada, de acordo com o esquema ABBCCA, e versos decassilábicos, apresenta-nos um sujeito poético que quer ser pago pelos serviços sexuais prestados a uma mulher chamada Maria Garcia e que jura que não voltará a fazer serviços de graça. E acrescenta que tal se justifica pelo facto de não lhe ter amor, enquanto ela recebia prazer. No fundo, estamos perante uma composição poética que constitui uma sátira a uma soldadeira velha.

                O primeiro verso explicita diretamente, através de uma apóstrofe, o alvo da sátira: uma mulher chamada Maria Garcia. O sítio cantigas.fcsh.unl.pt aventa a hipótese, impossível de documentar, de se tratar de Maria Garcia de Sousa, irmã do trovador Fernão Garcia Esgaravunha, um dos mais fiéis partidários do futuro D. Afonso III. A referida senhora foi barregã de D. Gil Sanches, irmão bastardo de D. Sancho II, falecido em 1236. A expressão que abre o poema ("Bem me cuidei eu") indicia um engano ou uma expectativa frustrada por parte do "eu". De facto, ele fodeu ("quando vos fodi") a mulher e esperava receber um pagamento por isso, porém voltou de "mão vazia", metáfora que indica que nada recebeu em troca dos favores sexuais prestados. A presença do nome "serviço" não deixa dúvidas de que estamos na presença de um negócio, uma troca, uma barganha: o "eu" prestou um serviço sexual e esperava ser pago por ele, no entanto nada recebeu, nem um simples soldo (moeda antiga de pouco valor) que pagasse uma refeição ("sequer um soldo que ceass'um dia" - v. 7).

                A partir da leitura da primeira estrofe, podemos concluir estar na presença de um texto que aborda uma visão utilitária do sexo: um homem satisfaz sexualmente uma mulher e espera ser pago por isso. Por outro lado, podemos ser levados a pensar na prostituição masculina, uma temática cujo tratamento poético não é muito comum na nossa literatura. Além disso, é interessante constatar que estamos nos antípodas do esquema conceptual da cantiga de amor, dado que nesta o homem colocava-se ao serviço da dama como seu vassalo, servindo-a sem qualquer queixume, algo que não sucede na presente cantiga, visto que o sujeito masculino reclama por não ter recebido a contrapartida financeira que esperava.

                No primeiro verso da segunda cobla, o trovador refere ter aprendido a lição ("Mais desta serei eu escarmentado" — o verbo "escarmentar" sugere exatamente essa ideia segundo a qual se aprende com a experiência frustrante descrita na primeira): no futuro, não voltará a foder "outra tal molher", exceto se for pago antes do ato ("se m' ant' algo na mão nom poer, / ca nom hei porque foda endoado"). À letra: nunca voltarei a foder outra mulher, se antes não me puser algo na mão (nova metáfora, semelhante à já destacada), pois não tenho por que foder de graça. Estes versos confirmam, por outro lado, que não há qualquer traço de relação; o foco não é o amor, mas uma troca negocial associada ao ato sexual. Os três versos que encerram esta estrofe acentuam a ironia: Maria Garcia, se quiser voltar a foder e sem pagar, terá de o fazer com outros homens ("se vós, se assi queredes foder, / sabedes como: ide-o fazer / com quem teverdes vistid' e calçado."). Note-se que a construção "sabedes como" implica que a mulher já conhece as condições para a concretização da transação. Por outro lado, o último verso é profundamente irónico, visto que indicia que Maria Garcia estava acostumada a manter relações com outros homens, a quem pagaria os serviços sexuais que lhe prestavam. Se considerarmos que a mulher não paga a ninguém, então o trovador está a dizer-lhe que, caso continue a não pagar o ato sexual, deixará de ter relações sexuais.

                A terceira estrofe reafirma a causa inicialmente para, posteriormente, explicitar o facto ou consequência. Como Maria Garcia não o provê materialmente ("ca me nom vistides nem me calçades"), nem ele vive em sua casa ("nem ar soj/ eu eno vosso casal"), isto é, o trovador não está sujeito à sua autoridade ou poder doméstico, nem ela tem qualquer poder que o leve a fodê-la ("nem havedes sobre mim poder tal / por que vos foda"), só se relacionará sexualmente com a mulher se for bem pago ("se me nom pagades / ante mui bem"). Os últimos dois versos e metade do antepenúltimo podem ter, na nossa opinião, duas leituras. Assim, por um lado, podemos considerar que constituem a afirmação, por parte do "eu", de que não teme ser forçado ou submetido a qualquer tipo de imposição proveniente da mulher. Por outro lado, nos referidos versos, o sujeito poético declara que não receia a "força" que Maria Garcia lhe faça, isto é, ser violado por ela.

                A derradeira estrofe abre de forma curiosa. Assim, inicia-se com uma apóstrofe dirigida à "mia dona", um senhal característico da cantiga de amor, usado para ocultar a identificação da dama e que remetia para a vassalagem amorosa que o trovador lhe prestava, numa atitude de submissão generosa e desinteressada materialmente. Todavia, essa apóstrofe e a cortesia que implica na cantiga de amor é profundamente irónica neste poema, desde logo porque não existe qualquer sentimento amoroso entre ambos, bem como pelo facto de o homem ter interesse material na relação, esperando obter proventos económicos dela. Além disso, no cantar de amor, o trovador tratava a "dona" com mesura, respeito e cortesia, ora, nesta cantiga, aponta-lhe o dedo, acusa-a de praticar sexo casual e de (não) pagar para manter relações sexuais (isto é, recorrendo à prostituição), além de a tratar com desdém e ironia. Introduz, de seguida, um provérbio popular ("quem pregunta nom erra") serve para introduzir um desafio irónico que o "eu" lança à mulher: questionar aos habitantes do lugar onde vive se já fizeram relações sexuais em qualquer situação — em paz ou em guerra — sem ser por interesse ou por amor. Ou seja, o sujeito lírico afirmas que as pessoas só praticam o ato sexual por dois motivos – dinheiro ou amor –, o que constitui uma forma subtil de enquadrar realisticamente as relações entre ambos: entre ambos, não há amor; ela apenas quer o prazer, enquanto ele dinheiro. É uma simples troca comercial. O «eu», insinuando que não apenas ele havia sido alvo dos desejos de Maria Garcia, com o seu pedido apela ao senso comum e, dessa forma, mostra como as convenções do amor cortês se distanciavam da realidade da vida.

                A cantiga termina de forma profundamente sarcástica, como não poderia deixar de ser: o «eu» manda-a tratar da vida, pois, graças a Deus, “rei há na terra”, ou seja, haveria muitos homens disponíveis para manter relações sexuais, os da sua hoste. Manuel Rodrigues Lapa entende que os versos 27 e 28 significam o seguinte: “Ide tratar da vossa vida, senhora, dai o corpo a troco dinheiro, que, graças a Deus, tendes renda suficiente para isso.

                Em suma, nesta cantiga atrevida e grosseira, marcada pelo calão, o trovador sustenta que o homem, nas suas relações com a mulher, obedece a dois sentimentos: o interesse material e o amor. Não havendo amor neste caso, entende que tem o direito de censurar Maria Garcia por não lhe ter pago os momentos de prazer sexual que ele dera.

                No que diz respeito à técnica versificatória, cada estrofe divide-se em duas partes: nos primeiros quatro versos, o "frons" da lírica occitânica, expõe o seu propósito e a sua queixa; nos últimos três, a cauda, dá o seu conselho zombeteiro a Maria Garcia. Este esquema repete-se, grosso modo, nas quatro cobras da cantiga. Paralelamente a esta divisão interna das estrofes, a composição também se separa em duas metades graças ao recurso a cobras capfinidas (que consistem em usar palavras do verso anterior) entre a segunda e a terceira estrofes (vv. 14-15), ou seja, a meio da cantiga, anunciando que a partir deste ponto se iniciará um desenvolvimento da situação exposta anteriormente. Assim, as duas cobras iniciais apresentam a situação vivida pelo trovador e as duas últimas exprimem as consequências dessa situação e lançam um desafio à mulher.

                Por outro lado, como já sugerimos noutros pontos desta análise, esta composição poética caracteriza-se pela inversão do padrão do relacionamento amoroso da cantiga de amor, na qual o trovador suplica o favor da dama e sofre a coita de amor, isto é, experimenta o sofrimento causado pela recusa e indiferença dela. Neste poema, pelo contrário, quem requesta o amor não é o homem, mas a mulher.

                O tipo feminino que mais se prestava à ironia e à sátira era a soldadeira, porém, neste texto, Maria Garcia, o alvo visado pelo trovador, é retratada como a "senhor", diante da qual ele se encontraria numa posição de inferioridade, tal como sucedia no cantar de amor. Todavia, a superioridade feminina não se refere ao plano moral, tão caro às cantigas de amor, visto que a figura feminina enganou o homem, recusando-lhe pagar-lhe os serviços sexuais prestados. A separação existente entre as duas personagens é de caráter social: é por isso que o trovador reclama o seu pagamento. De facto, ele dirige-se-lhe recorrendo à forma de tratamento habitual — "senhor" —, num contexto que remete para o cantar de amor, mas também alude à ideia de "pedido". Ora, tendo em conta os versos 27 e 28 e a referência à "renda", é possível fazer uma leitura diferente da apresentada anteriormente. Nesta segunda hipótese, Maria Garcia seria uma proprietária rural que possuiria rendas de terras. Para esta noção contribui igualmente o uso do nome "dona", já que significa "dama", "mulher", "senhora casada", em oposição a "donzela" ou "menina", sendo o masculino "dom", um título nobiliárquico. Além disso, a alusão ao seu "casal" (v. 16) ("casa de campo", segundo Manuel Rodrigues Lapa) parece indiciar que estamos na presença de um membro da nobreza rural.

                A este propósito, convém relembrar que Afonso Eanes do Coton, noutros poemas, demonstra não considerar importante o estatuto social da mulher quando o assunto é o amor, contrariamente à doutrina do amor cortês. Na composição "As mias jornadas vedes quaes son", por exemplo, afirma ironicamente que a mulher que o fazia sofrer poderia ser de qualquer classe ou condição, insinuando que teria vários amantes ("E a dona que m' assi faz andar / casad' e, ou viuv' ou solteira, / ou touquinegra, ou monja ou freira"). Na cantiga "Veeron-m' agora dizer", finge-se surpreendido quando o informam de que a sua amante estaria grávida. Além disso, tudo leva a crer que não se trataria da dama das cantigas de amor, mas provavelmente de uma jovem vilã solteira, à qual se refere sempre por "molher", nunca por uma forma de tratamento mais formal ou cerimoniosa.

                Por outro lado, a relação de vassalagem sugerida nesta cantiga satírica não se insere apenas nos planos espiritual e literário, como sucede na cantiga de amor. De facto, o trovador apresenta uma mulher cuja superioridade é concreta e essencialmente material (social e financeira), visto que dá a entender que se sujeitou a relacionar-se sexualmente com ela exclusivamente por motivos financeiros. O próprio vocabulário cortês é afetado por esse olhar realista e materialista do poeta. Por exemplo, os nomes "senhor" e "dona" não possuem o significado que lhes é atribuído no cantar de amor, passando a designar aspetos da realidade social; o serviço que o trovador alega ter prestado não se inscreve exclusivamente no plano idealizado proposto pelo receituário do amor cortês, onde se revestia de três formas fundamentais: a mesura, a fidelidade e o segredo. Ora, Afonso Eanes não respeita nenhum destes preceitos: como referimos logo no início deste texto, a cantiga começa desrespeitando a norma do segredo, dado que, logo no primeiro verso, desvenda o nome da mulher que o enganou; as reclamações/queixas que faz ao longo da cantiga estão bem longe da mesura com que o trovador deveria tratar a sua indiferente "senhor"; o serviço a que alude é claramente de natureza sexual, configurando um "equivocatio" que serve de fundamento para a compreensão de toda a cantiga.

                Tal como o contrato entre suserano e vassalo previa compensações pelo cumprimento das obrigações a que o segundo estava obrigado, também o trovador reivindica o que lhe fora prometido por Maria Garcia. É neste contexto que entra o campo semântico dos interesses materiais: soldo, vestuário, calçado e hospedagem (vv. 7, 14-15 e 16) são aquilo que ele espera do relacionamento com a mulher. E acrescenta que não mais a satisfará sexualmente "se m' ant' algo na mão não poser". O nome "mão" surge duas vezes na cantiga, sempre associado à ideia de que o homem espera receber algum bem material pelos serviços prestados. Em vez do caráter abstrato e do idealismo do amor cortês, encontramos a negação a servir "endoado", ou seja, gratuitamente.

                A relação dita amorosa é, deste modo, rebaixada do plano elevado do cantar de amor para outro bem mais baixo: o do dinheiro. Nos versos 17 e 18, o trovador declara que a figura feminina não possui o poder suficiente para que ele atenda aos seus desejos se ela não pagar ("se me nom pagades"). O verbo "pagar" tem vários sentidos. A sua etimologia remonta ao latim "pacare", que significa "pacificar", "apaziguar". Através de uma associação de ideias, chegou-se à noção de "pagar alguma quantidade", já que o pagamento contentava o credor (Viterbo, no Elucidário, apresenta dois verbetes com o verbo "pagar": "Pagar-se de alguma coisa: agradar-se dela" e "Pagado: pacífico, sossegado, em paz, sem dúvida ou contradição alguma"). Afonso do Cotom aproveita a ambiguidade semântica do verbo "pagar" na época, nesta cantiga: o verso 18 pode, assim, ser interpretado de duas formas — pagamento como retribuição material, ou "pagar" como "satisfazer", "contentar". Deste modo, podemos fazer outra leitura da composição: Maria Garcia não possuía os atrativos físicos necessários para levar o trovador a relacionar-se com ela sem nada em troca.

                Em suma, esta cantiga de escárnio e maldizer subverte os códigos e o discurso amoroso do cantar de amor e do amor cortês. Partindo da queixa habitual do trovador pela falta de retribuição pelo serviço prestado à dama, ele opõe à vassalagem amorosa a inferioridade social; ao casto e sempre recusado pedido do trovador, a vulgaridade do oferecimento da mulher; à gratuitidade e espiritualidade, o interesse material. Ou seja, Cotom faz o discurso amoroso descer do pedestal da espiritualidade e do idealismo à materialidade das coisas, dos relacionamentos e dos interesses.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

O desempenho dos alunos é [ainda] pior do que se pensa


 

    Nas últimas semanas, mais de 1 800 professores de matemática e ciências da Universidade da Califórnia, um dos maiores e melhores sistemas universitários públicos dos Estados Unidos, assinaram uma carta aberta em que detalham um problema complexo. Segundo eles, os estudantes do primeiro ano de licenciatura chegam, cada vez mais, sem as competências básicas necessárias para terem sucesso. 

    No campus de Berkeley, escrevem eles, cerca de 20 a 30% dos estudantes que frequentam um curso introdutório de cálculo apresentam «graves lacunas de preparação». O desafio tornou-se tão grande, acrescentam, que os docentes estão a ter de voltar a ensinar matemática do ensino básico.

    A carta é o mais recente contributo para um debate cada vez mais alargado sobre o ensino superior, as práticas de admissão nas universidades — e a capacidade intelectual dos jovens americanos. Segue-se a um relatório surpreendente divulgado em novembro no campus de San Diego do sistema universitário da Califórnia. Os académicos locais observaram que o número de estudantes do primeiro ano que ingressavam com competências matemáticas abaixo do nível do ensino secundário tinha aumentado quase trinta vezes em cinco anos, atingindo quase um em cada oito. Cerca de 70% dos estudantes com atrasos, argumentaram, não apresentavam um desempenho ao nível esperado de um aluno de 14 anos.

    As preocupações com as competências matemáticas dos estudantes de licenciatura juntam-se à consternação de longa data face à queda dos níveis de literacia. Os docentes alertam para o facto de os estudantes de literatura parecerem incapazes de terminar livros. Não é apenas na costa oeste, nem nas universidades públicas, que estes problemas são relatados. 

    Em Harvard, alguns professores de ciências humanas e sociais afirmam sentir-se obrigados a encurtar os textos, de acordo com um relatório divulgado ao corpo docente em outubro. Os estudantes chegam à universidade mais famosa dos Estados Unidos «com menos experiência na leitura de prosa complexa e menos capacidade de concentração e atenção sustentada». Eles «têm dificuldades com leituras que os estudantes concluíam com facilidade há apenas dez anos».

    Os professores têm-se queixado dos estudantes desde que existem as torres de marfim. Pode ser difícil corroborar as histórias com dados abrangentes. Após o ensino secundário, os alunos raramente realizam exames padronizados a nível nacional ou regional. Os investigadores dependem, assim, em grande medida de relatórios esporádicos do corpo docente, como os da Califórnia, que se sentem compelidos a dar o alarme.

    Mas os observadores que procuram compreender as tendências globais — e o lugar dos Estados Unidos no seu seio — não precisam de avançar completamente às cegas. Pelo menos algumas pistas podem ser extraídas de um teste realizado uma vez por década pelos analistas da OCDE, um clube composto principalmente por países ricos. O seu «Inquérito às Competências dos Adultos» visa avaliar em que medida os cidadãos de dezenas de países possuem as competências de literacia e numeracia necessárias para prosperar no mundo real.

    Na sua forma mais simples, os testes avaliam a capacidade das pessoas de compreender as instruções num frasco de comprimidos ou de calcular a quantidade de papel de parede necessária para redecorar uma divisão. Em níveis mais avançados, exploram a capacidade das pessoas de tirar conclusões válidas a partir de análises e gráficos complexos.

    Os participantes são divididos em cinco níveis de aptidão, em cada disciplina. O nível 1 deve ser alcançável por um aluno de um país rico no final do ensino básico, afirma Andreas Schleicher, da OCDE.

    Cerca de 160 000 pessoas de todas as idades foram testadas na última ronda (cujos resultados foram publicados no final de 2024). A revista «The Economist» solicitou à OCDE dados relativos apenas aos menores de 35 anos que frequentavam o ensino «superior» na altura em que realizaram os testes. Isso inclui estudantes de todas as universidades, bem como alunos da maioria dos tipos de institutos de ensino superior (mas apenas aqueles que frequentavam cursos que, em teoria, são mais avançados do que os oferecidos no ensino secundário).

    Muitos deles têm um desempenho muito bom — mas uma percentagem impressionante apresenta resultados desastrosos (ver gráfico 1). Nos países ricos, cerca de 8% dos estudantes do ensino superior obtêm uma pontuação em literacia que não é superior à que se poderia esperar de uma criança de dez anos. A percentagem é praticamente a mesma no que diz respeito à numeracia. Pior ainda, a percentagem de estudantes que se situam neste nível ou abaixo dele aumentou desde a última vez que os testes foram realizados, há pouco mais de uma década. A percentagem de alunos com desempenho muito fraco em literacia mais do que duplicou.

    As pontuações a nível de cada país variam consideravelmente. Na Estónia, menos de 2% dos estudantes do ensino superior obtêm resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo. Esse valor sobe para um quinto na Polónia (em literacia) e para um quarto no Chile (em matemática). Os britânicos podem sentir-se razoavelmente otimistas, apesar do crescente desdém público pela academia; os resultados dos seus estudantes estão acima da média e a melhorar. As pontuações dos Estados Unidos, em contrapartida, estão entre as mais dececionantes. Um em cada sete dos seus estudantes do ensino superior obteve resultados iguais ou inferiores ao nível do ensino básico nos testes de literacia, um aumento em relação a cerca de um em cada vinte há uma década. A percentagem de estudantes com resultados iguais ou inferiores ao nível mais baixo em numeracia, por sua vez, foi de quase um em cada cinco.

    Todas as crianças ficaram para trás.

    O que se passa? Em parte, as faculdades e universidades estão a herdar problemas que tiveram origem nas escolas de todo o mundo. Não se pode subestimar o impacto da pandemia. Os países impuseram o encerramento das escolas a nível nacional, com uma duração média de 20 semanas. Os sistemas de turnos para o ensino presencial e as quarentenas para os «contactos próximos» vieram, depois, perturbar ainda mais as aulas. Nos anos imediatamente a seguir a esse desastre, era como se alguns alunos «não tivessem frequentado o ensino secundário», afirma Jessica Hooten Wilson, professora da Universidade Pepperdine, na Califórnia. «Na verdade, foi algo muito assustador de se ver.»

    No entanto, em muitos locais, a educação já estava a regredir quando a mega-pandemia surgiu. As notas no NAEP, o teste nacional de referência dos Estados Unidos, atingiram um pico no início da década de 2010 e têm vindo a descer gradualmente desde então. As notas do PISA, um exame internacional realizado por jovens de 15 anos, seguem a mesma tendência numa série de outros países (ver gráfico 2). Entre os países com declínios invulgarmente acentuados e prolongados contam-se a França, a Alemanha, os Países Baixos e a Nova Zelândia.

    As causas destas tendências são alvo de aceso debate. O aumento da migração é um fator relevante: os recém-chegados tendem a ser mais pobres do que os alunos nascidos no país e têm mais probabilidades de falar uma língua estrangeira em casa. 

    Entretanto, os tradicionalistas acusam os reformadores escolares de diluir os sistemas de avaliação e de responsabilização. E de substituir programas de estudos comprovados pelo tempo por currículos da moda que minimizam a aprendizagem de factos concretos em favor de competências «soft» que soam bem, mas são insípidas.

    As alegações de que as redes sociais têm vindo a «reprogramar» o cérebro das crianças têm fortes semelhanças com os pânicos do passado, como os que surgiram em relação à televisão e aos jogos de computador. 

    Mas não há muitas dúvidas de que os ecrãs de todos os tipos substituíram passatempos mais enriquecedores: a percentagem de crianças de nove anos nos Estados Unidos que afirmam ler livros por prazer caiu de quase 60 % na década de 1990 para 37 % atualmente. De facto, não são apenas os alunos do ensino básico ou os estudantes universitários que estão a registar um declínio na literacia: os testes da OCDE também revelam esta tendência entre as populações mais velhas, observa o Sr. Schleicher, talvez porque as pessoas têm menos prática do que no passado na leitura de textos longos e complexos.

    No entanto, as faculdades e universidades que afirmam ser meros observadores passivos desta situação estão a avaliar o seu próprio desempenho. Em muitos países, gozam de amplo controlo sobre as suas próprias políticas de admissão. Frequentemente, não têm aproveitado essas liberdades para manter padrões elevados.

    Há décadas que os críticos acusam os responsáveis das faculdades e universidades de baixarem os critérios de admissão para tirar partido da crescente procura. Atualmente, a dinâmica é um pouco diferente: em alguns países ricos, o número de jovens de 18 anos está a aproximar-se ou já ultrapassou o seu pico. Os gestores podem ter ainda mais dificuldade em resistir à tentação de baixar os padrões quando a alternativa é reduzir o número de alunos. De facto, a comparação dos dados da OCDE sobre as competências dos estudantes com a evolução do número de alunos nos sistemas de ensino superior revela uma correlação que merece um estudo mais aprofundado: os sistemas em contração são especialmente propensos a ter atraído muitos estudantes que obtêm resultados nos níveis mais baixos desses testes.

    A queda no desempenho escolar tem sido impulsionada principalmente por crianças que já se situavam na metade inferior das suas turmas, e não pelos alunos mais brilhantes no topo. Assim, o afluxo de estudantes mal preparados para algumas das melhores universidades dos Estados Unidos exige uma explicação adicional. 

    Os académicos indignados na Califórnia, e em muitas outras partes do país, atribuem a culpa à eliminação dos testes de admissão. Antes da pandemia, mais de metade das universidades que conferem licenciaturas nos Estados Unidos exigiam que os candidatos realizassem testes de raciocínio numérico e verbal — geralmente o SAT ou o ACT (estes testes ajudam a substituir os exames padronizados que existem em muitos outros países). Agora, essa percentagem é de apenas 10%.

    No auge da pandemia da COVID-19, as universidades americanas argumentaram que seria impossível realizar estes exames em segurança. Mas também se basearam em alegações de que os exames são tendenciosos contra estudantes negros e latinos, que têm tido um desempenho inferior à média nessas provas. 

    Os cínicos afirmam que a sua eliminação facilitou aos administradores continuar a moldar a composição étnica dos seus campus da forma que consideram mais justa — apesar de uma decisão do Supremo Tribunal, em 2023, que proibiu a ação afirmativa baseada na raça. Para as instituições de nível inferior, a eliminação dos exames provavelmente simplificou a tarefa mais premente de garantir simplesmente que houvesse alunos suficientes a ocupar as vagas.

Tudo isto fez com que os responsáveis pelas admissões nos Estados Unidos dependessem mais de sinais alternativos que se estão a tornar cada vez menos fiáveis. 

    As redações de candidatura já eram frequentemente escritas por pais e professores, mas agora valem quase nada, dada a facilidade com que podem ser elaboradas usando IA, afirma Mina Aganagic, professora de matemática em Berkeley e uma das autoras da carta aberta. 

    Quanto às notas do ensino secundário, têm vindo a inflar-se rapidamente. Nos últimos anos, muitos estados americanos baixaram os limites que os alunos do ensino secundário têm de atingir para obterem os certificados de conclusão do curso. Cerca de um quarto de todos os alunos que os professores de San Diego têm encaminhado para a sua turma de reforço de matemática, a mais fraca, tinham obtido notas perfeitas em matemática nos seus últimos anos de escola.

    O processo de admissão está a tornar-se uma «caixa negra», afirma o professor Aganagic. «Penso que a maioria das pessoas concordará que selecionar estudantes ao acaso não beneficia ninguém.»

    Uma questão fundamental para as faculdades e universidades não é apenas como irão responder a um número crescente de candidatos mal preparados, mas se elas próprias estão preparadas para continuar a impor expectativas elevadas. 

    A carta aberta na Califórnia alerta que, com o aumento do número de estudantes menos preparados, surgiu «uma pressão crescente para diluir o rigor quantitativo». Na Grã-Bretanha, os grandes exames nacionais atenuam, em certa medida, a inflação de notas no ensino secundário, mas isso não acontece no ensino superior. Embora as notas tenham descido ligeiramente em relação ao pico atingido durante a pandemia, em 2025 cerca de 30% dos estudantes de licenciatura na Grã-Bretanha obtiveram um diploma de primeira classe, contra 7% em 1995.

    Em Yale, 79% das notas foram A ou A- em 2022-23, em comparação com 67% em 2010-11. A taxa mais baixa registou-se nos cursos de economia, com cerca de 50%; situou-se acima dos 80% nas ciências humanas, nos estudos étnicos e nos estudos da educação, entre outros (ver gráfico 3). 

    Em abril, académicos de renome de Yale afirmaram, num ensaio que explorava as razões do declínio da confiança no ensino superior, que «décadas de inflação e compressão tornaram o sistema de classificação universitária quase sem sentido enquanto medida académica».

    Um relatório publicado no ano passado pelo decano dos estudos de licenciatura de Harvard contém um resumo admiravelmente franco das pressões que estão na origem da inflação das notas, com base em conversas com o corpo docente. Os estudantes que nunca receberam uma nota medíocre durante o seu percurso escolar tornaram-se mais confiantes na hora de contestar notas que não sejam perfeitas na universidade. 

    Os docentes de Harvard receiam que os estudantes evitem disciplinas ministradas por professores que atribuem notas rigorosas e que isso possa prejudicar as suas próprias carreiras. Percebem que os gestores estão a dar mais atenção ao que os estudantes escrevem nos formulários de avaliação no final das disciplinas. Isso constitui um incentivo adicional para tentar manter os alunos satisfeitos.

    Há uma década que Harvard tem vindo a «exortar o corpo docente a lembrar-se de que alguns estudantes chegam menos preparados para a universidade do que outros, que alguns enfrentam situações familiares difíceis ou outros desafios… e que quase todos sofrem de stress», de acordo com o relatório. Os académicos que lhes atribuem notas baixas nem sempre tiveram a certeza de que a universidade lhes «daria apoio». 

    As mudanças nas tendências do ensino também desempenham um papel importante. Os projetos de grupo são mais difíceis de avaliar objetivamente do que os exames. Alguns docentes chegam mesmo a referir interesse em conceitos como a «ausência de classificação» ou a «aprendizagem baseada em contratos», em que os estudantes obtêm notas A por concluírem todos os trabalhos atribuídos.

CheatGPT

    A tudo isto junta-se agora a IA, que parece estar a facilitar a fraude generalizada. 

    Cerca de 94% dos estudantes universitários no Reino Unido afirmam utilizar a IA para os ajudar nos trabalhos avaliados, de acordo com um inquérito divulgado em março pelo HEPI, um grupo de reflexão. Cerca de 12% admitiram colar texto gerado por IA diretamente nos trabalhos académicos, um aumento em relação aos 3% registados em 2024. Quase metade dos estudantes das áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) — e um quarto dos estudantes de ciências humanas — consideraram que o conteúdo gerado por IA lhes permitiria «obter uma boa nota» na sua disciplina (ver gráfico 4).

    Nos Estados Unidos, durante o ano letivo de 2023-24, cerca de dois terços dos estudantes de universidades públicas utilizavam IA, e estima-se que 9% deles a utilizassem para fazer batota, de acordo com uma investigação publicada em maio. A taxa de batota foi mais elevada — o que é irritante — entre os estudantes de economia (17%) e de jornalismo (16%). Os números são certamente muito mais elevados agora, afirma Igor Chirikov, de Berkeley, um dos autores do estudo.

    Por enquanto, a fraude compensa. Num segundo estudo publicado como documento de trabalho no mês passado, o Dr. Chirikov analisou 500 000 notas atribuídas por uma grande universidade (não identificada) no Texas entre 2018 e 2025. Descobriu que o número de notas máximas atribuídas em disciplinas que envolvem competências em que a IA se destaca, como redação e programação, disparou desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022.

    A percentagem de notas «A» nestas disciplinas aumentou 13 pontos percentuais, ou seja, cerca de 30 % em relação ao valor de referência. O investigador não constata um aumento semelhante nas disciplinas em que os robôs falantes provavelmente não são muito úteis.

    Os académicos têm pouca confiança nas ferramentas que afirmam detetar trabalhos escritos por IA e muito a perder ao lançarem acusações de fraude. Afirma o Dr. Chirikov: «Não se pode proibir uma ferramenta que também se espera que se ensine.» Muitos docentes estão a reintroduzir avaliações supervisionadas (durante a pandemia, tornaram-se populares os exames com consulta, que os estudantes podiam levar para casa e concluir num período de 24 horas). Mas isso pode encontrar resistência por parte dos administradores, que têm de encontrar espaço e pessoal para exames devidamente supervisionados.

    Para alguns, a IA induziu uma sensação de resignação. É cada vez mais comum ouvir académicos encolherem os ombros, dizendo que talvez os estudantes já não precisem de competências básicas sólidas, porque grande parte do trabalho que farão no futuro envolverá ajustar coisas criadas pela IA. Isso não é pragmatismo; é rendição.


"Exames coloniais" ou uma mente retorcida a debitar aquilo que se sabe

Exames coloniais

    Ao analisar os enunciados dos exames de História A e de História da Cultura e das Artes, podemos extrair duas breves conclusões sobre escolhas ideológicas.

João Moreira da Silva

    Na semana passada, um teste realizado no Instituto Politécnico de Setúbal (IPS) gerou uma polémica que percorreu os noticiários do país. O enunciado falava de um partido chamado “Cheguei Chegando”, liderado por “André Aventuras”, que pretendia “erradicar imigrantes”. Consequentemente, o líder do Chega partilhou nas suas redes sociais uma fotografia do teste como prova de que o sistema está contra si. Com base neste teste, pintou-se como vítima de uma alegada perseguição ideológica “feita nas escolas”.

(c) Retirado daqui: IP azul

Funcionamento do aparelho fonador

    O ar expelido dos pulmões, através dos brônquios, penetra na traqueia e chega à laringe, onde, ao atravessar a glote, costuma encontrar o primeiro obstáculo à sua passagem.

    A glote, que se situa na altura da chamada maçã-de-adão, pomo-de-adão ou, no Brasil, gogó, é a abertura entre duas pregas musculares das paredes superiores da laringe, conhecidas pelo nome de cordas vocais. O fluxo de ar pode encontrá-la fechada ou aberta, em virtude de estarem aproximados ou afastados os bordos das cordas vocais. No primeiro caso, o ar força a passagem através das cordas vocais retesadas, fazendo-as vibrar e produzir o som musical característico das articulações sonoras. No segundo caso, quando as cordas vocais estão relaxadas, o ar escapa-se sem vibrações da laringe. As articulações produzidas denominam-se, então, surdas.
    A distinção entre sonora e surda pode ser claramente percebida na pronúncia de duas consoantes que quanto ao mais se identificam. Assim:
                                                                /b/ [ = sonoro ]         /p/ [ = surdo ]
    Ao sair da laringe, a corrente expiratória entra na cavidade faringe, uma encruzilhada, que lhe oferece duas vias de acesso ao exterior: o canal bucal e o nasal. Suspenso no entrecruzar desses dois canais fica o véu palatino, órgão que possui mobilidade capaz de obstruir ou não o ingresso do ar na cavidade nasal e, consequentemente, de determinar a natureza oral ou nasal de um som.
    Quando levantado, o véu palatino cola-se à parede posterior da faringe, deixando livre apenas o conduto bucal. As articulações assim obtidas denominam-se orais (adjetivo derivado do latim os, oris, isto é, "a boca"). Quando abaixado, o véu palatino deixa ambas as passagens livres. A corrente expiratória então divide-se, e uma parte dela escoa-se pelas fossas nasais, onde adquire a ressonância característica das articulações, por este motivo, também chamadas nasais.
    Compare-se, por exemplo, a pronúncia das vogais:
                                        /a/ [ = oral ]             /ã/ [ = nasal ]
em palavras como:
                                        lá / lã mato / manto
    É, porém, na cavidade bucal que se produzem os movimentos fonadores mais variados, graças à maior ou menor separação dos maxilares, das bochechas e, sobretudo, à mobilidade da língua e dos lábios.

O aparelho fonador


    O aparelho fonador é constituído pelas seguintes partes:

a) os pulmões, os brônquios e a traqueia, órgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria-prima da fonação;

b) a laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala;

c) as cavidades supralaríngeas (a faringe, a boca e as fossas nasais), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos órgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinónimo de "idioma".

    Quase todos os sons da nossa fala são produzidos na expiração. A inspiração normalmente funciona como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução. Há outras línguas, como, por exemplo, o hotentote, o zulo, o boximane e outros idiomas africanos, que apresentam uma série de consoantes articuladas na inspiração, os ruídos que se denominam cliques. No caso da língua portuguesa, praticamos alguns cliques, mas sem valor fonémico: o beijo, que é uma bilabial inspiratória; o estalido línguo-dental com que animamos o andar das cavalgaduras; e uns poucos mais.

(c) Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo

Os sons da fala

    Os sons da fala resultam quase todos da ação de certos órgãos sobre a corrente de ar proveniente dos pulmões.
    Para a sua produção, de acordo com Celso Cunha e Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), são necessárias três condições:
            a) a corrente de ar;
            b) um obstáculo encontrado por essa corrente de ar;
            c) uma caixa de ressonância.
    Estas condições são criadas pelos órgãos da fala, denominados, no seu conjunto, aparelho fonador.

Fonologia

    A fonologia tem como objeto de estudo as mais pequenas unidades da língua, os segmentos fonológicos, a sua organização em sistema e os processos e regras a que estão sujeitos esses segmentos. Os elementos do sistema fonológico são frequentemente denominados "fonemas".

terça-feira, 30 de junho de 2026

Literatura popular: atualidade

     Nos últimos largos anos, a literatura popular tem vindo a empobrecer gradualmente, essencialmente por causa da generalização de modelos graças aos meios de comunicação e à Internet. Já em 1933 Leite de Vasconcelos proclamava: "Acudamos a tudo, enquanto é tempo! De ano para ano extinguem-se ou transformam-se muitas cousas e surgem outras de novo em vez delas. Com a implantação da República em Portugal acabou o beija-mão no Paço, o trajo da corte, o fardamento dos archeiros. Não é preciso ser muito velho para notar grandes mudanças etnográficas sucedidas numa terra: quem, vivendo hoje, houvesse nascido nos meados do século XIX lidou com cruzados, patacos e peças, viu a liteira, ouviu a sanfona — e nada disto existe hoje! Os romances ou xácaras, como é sabido, vão a desaparecer da tradição... Empenhemo-nos por isso na investigação das tradições populares... estudemos tudo, busquemos ou continuemos a buscar paralelos ao que estiver, abalancemo-nos à compreensão genérica dos factos, e assim daremos provas, nós, Portugueses, de que desejamos acompanhar as nações cultas neste campo de atividade científica."

Literatura popular: continuadores de Almeida Garrett

    Neste capítulo, destacam-se os nomes de três grandes figuras da literatura portuguesa: Teófilo Braga, Adolfo Coelho e José Leite de Vasconcelos. Estes vultos foram os primeiros a dar rigoroso tratamento científico.

    Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, a 4 de fevereiro de 1843, na ilha de S. Miguel, nos Açores, e aí fez os primeiros estudos. Tirou o curso de Direito em Coimbra em 1868 e foi professor do Curso Superior de Letras, de Lisboa, de 1872 a 1924, data do seu passamento. Foi poeta e historiador, etnólogo e filósofo e simultaneamente político ativista, militante do Partido Republicano, tendo alcançado por duas vezes a suprema chefia do Estado (1910 e 1915).

    Na esteira de Almeida Garrett, dedicou-se ao estudo do povo e da sua literatura, tendo produzido uma vastíssima obra, que conta mais de trezentos títulos, dentre os quais avultam os volumes que dedicou à literatura popular. Em 1865, quando contava apenas vinte e quatro anos, fez publicar o Cancioneiro e o Romanceiro Geral Português, que viu uma nova e aumentada edição - de dois para três volumes - em 1906-1909, e ainda uma primeira edição da História da Poesia Popular Portuguesa, ampliada para dois volumes numa edição de 1902-1905. Além disso, publicou Contos Populares do Arquipélago Açoriano (1869), Parnaso Português Moderno (1877), Contos Tradicionais do Povo Português (1883), além de outras obras menores dispersas por jornais e revistas.

    A maioria dos textos que publicou chegou-lhe às mãos por meio de amigos ou de livros. Raramente se dedicou à recolha direta. Para evitar cometer os mesmos erros praticados por Almeida Garrett, reproduziu com fidelidade o que ouviu ou leu, tendo-nos deixado materiais abundantes e de boa qualidade. Deve-se-lhe o primeiro cancioneiro moderno e o romanceiro mais rico da História portuguesa.
    Por outro lado, Teófilo Braga continua a olhar para o povo como uma entidade mítica: um rebanho que vive pela tradição, emocionalmente, irrefletidamente, fazendo o que os outros fizeram, repetindo automaticamente comportamentos aprendidos, sob o império do sentimento, em estado de inconsciência. Além disso, apresenta-o como rude, inculto, ingénuo, uma classe baixa, inferior e ínfima.
    Sustentando-se em dados antropológicos inseguros, Teófilo Braga procura as origens da nossa poesia popular na raça proto-árica dos Lígures, anterior aos Celtas e mais civilizada do que estes. Além disso, não obstante a admiração que sustenta pela arte do povo, mantem a tradicional distinção entre poesia popular e poesia artística, quando, na realidade, sem a primeira não se chega à segunda. Face ao exposto, é fácil concluir que Teófilo Braga não se afasta das ideias aristocraticamente românticas de Garrett. No entanto, diferem na função que atribuem à poesia popular: Garrett queria renovar a literatura, ao passo que Teófilo sustenta que, cultivando-a, repetindo-a ao povo, se faria renascer o caráter nacional, e este, tomando consciência das suas virtualidades, ganharia novas forças e coragem para fazer a revolução.
    Francisco Adolfo Coelho nasceu em Coimbra a 1 de janeiro de 1847. Frequentou a Universidade e, ao fim de dois anos, abandonou-a desiludido, em busca por si da educação intelectual que não achara. Foi professor de Filologia e Pedagogia no Curso Superior de Letras, diretor da Escola Preparatória de Rodrigues Sampaio e da Escola Normal Superior de Lisboa e um dos promotores das Conferências do Casino, em 1871. Faleceu a 8 de fevereiro de 1919. Foi um cidadão de caráter íntegro, que sempre respeitou quem tinha um pensamento diverso do seu. Além disso, defendeu sistematicamente o que considera justo e verdadeiro, não olhando a pessoas nem a conveniências, granjeando, por isso, o respeito dos seus antagonistas.
    Aprendeu, ainda bastante jovem, a falar inglês e alemão, bem como francês, o que lhe proporcionou um contacto permanente com os progressos que as Ciências Humanas iam fazendo na Europa. Os seus mestres prediletos foram psicólogos e etnólogos alemães. Ao longo dos anos, adquiriu uma grande erudição e cultivou com mestria a Linguística, a Etnologia e a Pedagogia, as três áreas que sustentavam o seu ideal cívico: a educação do povo português. No que diz respeito à Etnologia e concretamente à literatura popular, a obra que realizou foi absolutamente notável. Colheu-a diretamente do povo, de livros e do contributo de amigos. Foi, no entanto, essencialmente um trabalhador de gabinete. Ao longo da sua vida, publicou contos, lendas, adágios, jogos, romances, ensalmos, rimas infantis, que acompanhou de estudos sobre a estrutura, a origem e a classificação.
    Os seus trabalhos e as suas pesquisas visavam sobretudo a ascensão das classes populares à educação e a democratização do ensino. De facto, esse ideal cívico constituiu uma constante do seu pensamento em todas as matérias a que se aplicou. À semelhança de Almeida Garrett, propôs que a literatura popular fosse fonte de inspiração e alfobre de formas e temas para os artistas contemporâneos, considerando que essa seria a única via por que produziriam uma verdadeira literatura, autenticamente nacional. Acima disso, a literatura popular constituiria o elemento fundamental na educação geral da nação.
    Para Adolfo Coelho, o povo é inculto e atrasado; vivendo dominado pelo sentimento e pelo instinto, o seu comportamento é predominantemente irrefletido; repetindo maquinalmente o que lhe vem da tradição e das suas "experiências brutas", não é capaz de organizar sistematicamente os seus conhecimentos. Se é verdade que não lhe faltava imaginação e capacidade de alcançar ideias gerais, não o é menos que a sua falta de cultura, sob o jugo de uma atividade permanentemente prática, o impede de subir às mais altas conceções teóricas. Assim, vive imerso em ideias comuns, num pensamento coletivo; a arte que cultiva não possui o cunho da individualidade, da originalidade e da complexidade. Esse era o privilégio das classes cultas. Pelo contrário, o vulgo, por causa da sua irreflexão, não escolhia as premissas certas para chegar a conclusões certas, ao passo que os estratos cultos cultivavam o logismo, a aptidão de eliminar o que não convém como base de conclusão segura.
    José Leite de Vasconcelos nasceu na Ucanha, concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Formou-se, no Porto, em Ciências Naturais e Medicina entre 1879 e 1886. Exerceu o ofício de médico durante um ano; depois exerceu a função de conservador da Biblioteca Nacional e, em 1911, tornou-se professor da Faculdade de Letras de Lisboa, onde ensinou principalmente a disciplina de Filologia Românica. Aposentou-se em 1929, mas não abandonou o seu trabalho científico, o que só sucedeu quando a morte o surpreendeu a 17 de maio de 1941. Embora tivesse cursado Ciências, a sua paixão eram as Letras, que cultivou desde cedo. O seu grande sonho era escrever uma história do povo português, um tratado de Etnografia. Para conseguir atingir esse objetivo, tornou-se arqueólogo e filólogo, fundou o Arqueólogo Português, a Revista Lusitana, o Boletim de Etnografia, o Museu Etnológico. No total, escreveu mais de trezentas obras.
    Nascido numa aldeia da Beira Alta, de família liberal, conviveu quotidianamente com o povo, foi discípulo de românticos e entusiasmou-se com o movimento científico do século, daí que não seja surpreendente o facto de se ter dedicado a estudos de literatura popular. Começou a coligi-la entre os dezassete e os dezoito anos e aos vinte publicou os seus primeiros artigos na Aurora do Cávado, uma revista editada em Barcelos. Recolheu e publicou romances, cantigas, rimas infantis, orações, contos, lendas, anedotas, provérbios, adivinhas, que acompanhou de notas e comentários nos quais refletia grande sabedoria e reflexão. Entre muitos estudos, destacam-se aqueles que versam a poesia popular, canções de berço, normalmente representar "o modo de ser de um só".
    Por outro lado, Leite de Vasconcelos é dos primeiros a explicar a identidade de tradições em diferentes países, nomeadamente de adágios e fábulas, pela transmissão de povo a povo, enquanto o resto da Europa se mantinha fiel à teoria evolucionista da invenção independente.
    Leite de Vasconcelos foi o primeiro etnólogo a sustentar a grande importância do trabalho de campo, da recolha direta, e a executá-lo. Para tal, percorreu o país de lés a lés, de caderno na mão, tomando notas de tudo, recolhendo da boca do povo quanto ele sabia.
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