e) Linguagem
A linguagem da cena assenta num dialeto rural rústico e seco, repleto de coloquialismos e contrações que acentuam a inexpressividade poética das personagens. No entanto, o texto é densificado por recursos estilísticos de grande força expressiva. A personificação manifesta-se no discurso filosófico de Simeon quando este afirma enigmaticamente que "ninguém nunca mata ninguém. É sempre qualquer coisa. Esse é que é o assassino", transformando o meio hostil e o destino numa força homicida invisível. A metáfora surge quando Eben descreve a morte da mãe, acusando o pai de a ter assassinado "centímetro a centímetro" através do trabalho, uma imagem que intensifica a crueldade doméstica do patriarca. A comparação implícita das personagens a animais é reforçada pela descrição do apetite e dos movimentos pesados dos irmãos, que se dirigem à comida como bois ao estábulo. Finalmente, o contraste e a ironia marcam o final da cena, quando as provocações sobre as visitas de Eben a Min são respondidas pelo protagonista com um lirismo desafiador, comparando o seu pecado à beleza do pôr do sol ao afirmar que o seu desejo é tão "belo como qualquer um dos deles", elevando a sua rebeldia carnal a um ato de afirmação estética e espiritual face à sordidez da quinta.
Uma das figuras de estilo mais presentes na segunda cena da primeira parte é a comparação, usada frequentemente para acentuar o caráter primitivo e o embrutecimento físico das personagens. O ambiente doméstico da cozinha é definido desde logo pelo facto de a sua atmosfera se assemelhar mais à "de um acampamento de homens que a de uma casa", marcando a aridez e a falta de afeto que ali se vivem. Os dois irmãos mais velhos, Simeon e Peter, são apresentados a comer "com o à-vontade de animais do campo", uma "comparação animal" que ilustra a sua resignação e a sua redução ao papel de bestas de carga moldadas pela rotina do trabalho agrícola. Noutro momento da cena, Simeon socorre-se de comparações muito depreciativas para descrever a astúcia e, ao mesmo tempo, a insensibilidade do patriarca, Ephraim Cabot, cujos olhos se assemelham a "olhinhos de cobra velha a brilharem ao sol" e cujo riso desdenhoso é caracterizado como um "risinho de mula". Além disso, ele é comparado a uma "nogueira seca que só serve para o lume", uma imagem que concretiza a aridez espiritual e a esterilidade afetiva do velho latifundiário.
Pelo oposto, a atração erótica de Eben pela prostituta Min é poetizada quando a personagem declara que ela é "como esta noite... é macia, é quente". Esta comparação mostra que Eben não vê a mulher como uma figura decadente e degradada, mas como uma força natural, harmoniosa e acolhedora. Esta associação a elementos naturais é consolidada quando ele acrescenta que Min "cheira como o ardor de um campo lavrado", que transforma o ato carnal numa celebração da fertilidade e da terra dionísica (suave, fecunda, vital), opondo-se à aridez estéril e "dura" do puritanismo do pai, simbolizada pelos implacáveis muros de pedra da quinta.
Por outro lado, a comparação traduz a fixação materna de Eben. De facto, vivendo num lar dominado pelo ódio, pelo ressentimento e pela dureza materialista de Ephraim, no qual não existe qualquer espaço para o afeto ou ternura, o filho mais novo encontra-se emocionalmente desamparado e traumatizado pela morte da mãe. A procura de uma mulher que é "macia" e "quente" representa a sua necessidade infantil e inconsciente de recuperar o aconchego, o carinho e a proteção do útero materno. Assim sendo, Min funciona como esse refúgio temporário contra a hostilidade do pai. Ao proclamar que "o meu pecado vale tanto como os dos outros", Eben usa o calor da noite para validar a sua própria humanidade e rebeldia contra a opressão da quinta, preparando o caminho para a paixão ainda mais avassaladora e trágica que viverá mais tarde com Abbie.
A metáfora traduz a violência doméstica e a desumanização gerada pela ganância. Eben acusa repetidamente o pai de ter "assassinado aos poucos" ou "escravizado até à morte" a sua mãe, referindo com raiva que ele lhe "pagou matando-a", metaforizando o trabalho físico extenuante como um crime lento. A bestialidade das personagens é acentuada quando Simeon "ri consigo mesmo, num latido sem alegria". Outra metáfora está presente quando Eben descreve o trabalho de erguer as demarcações da propriedade da seguinte forma: "fazer muros... pedra sobre pedra... muros e muros até o coração ser uma pedra que se tira do caminho para uma pessoa se tornar uma pedra!" Esta imagem representa a total perda de sensibilidade e humanidade de quem vive sujeito à lei implacável do pai, mimetizando a transformação do ser humano em mineral.
Além disso, Eben é metaforizado como "escrito e escarrado" o pai, sugerindo a herança psicológica que partilham, ao passo que as suas futuras visitas a Min são descritas por Peter como uma atração pela "Mulher Escarlate". Na Nova Inglaterra da época colonial, as mulheres adúlteras e, por extensão, as prostitutas usavam uma letra escarlate bordada na roupa, uma metáfora histórica e bíblica para a transgressão e a luxúria. Essa prática histórica da letra escarlate, que visava a humilhação pública e a marcação física e visual do "pecado" carnal, demonstra como a sociedade colonial puritana punia e isolava a luxúria. Apelidar Min de "Mulher Escarlate" significa, no fundo, inseri-la diretamente nesse registo histórico de marginalização social, transformando o seu corpo e a sua sexualidade num símbolo vivo de desonra e transgressão comunitária.
Indo mais fundo, a peça Desejo sob os Ulmeiros está imbuída de uma Teologia calvinista, segundo a qual a moralidade e a lei são ditadas por um Deus "duro e solitário". Esta influência bíblica e dogmática manifesta-se nos nomes e nas referências bíblicas (O'Neill recorre a nomes bíblicos para as suas personagens para evocar as suas personagens para evocar as antigas e severas relações familiares do Velho Testamento; além disso, o patriarca Ephraim Cabot cita frequentemente as Escrituras) e na luxúria como transgressão (num ambiente governado por uma doutrina que encara a carne como algo pecaminoso e glorifica apenas o trabalho físico implacável e estéril, a "Mulher Escarlate" evoca as grandes metáforas bíblicas de transgressão e corrupção espiritual, associadas tradicionalmente à figura bíblica do Apocalipse que personifica a sedução, o pecado e a decadência). De forma trágica, Simeon constata que eles são "herdeiros dele [do pai] em tudo", uma metáfora de duplo sentido que antecipa a partilha das mesmas mulheres.
Por outro lado, a estrutura cíclica e asfixiante do trabalho no campo é construída através de anáforas, paralelismo e enumerações. A ladainha infindável dos deveres quotidianos é enumerada pelos irmãos numa cadência rítmica repetitiva: "Ou havia que lavrar. Ou que secar o feno. Ou que estrumar. Ou que sachar. Ou que podar. Ou que ordenhar." Esta anáfora construída a partir da expressão "Ou que..." simula o trabalho infindável que têm de desempenhar, a falta de alternativa e o automatismo a que estão sujeitos. De igual modo, Eben reconstitui o martírio da mãe falecida recorrendo a uma enumeração anafórica que expressa a impossibilidade do seu descanso: "Ela havia de voltar para me ajudar... voltar para descascar as batatas... voltar para fritar o presunto... voltar para cozer o pão... voltar, cheia de dores, para atiçar o lume...", enfatizando o facto de a mãe não se conseguir sentir livre "nem mesmo na cova". A determinação obsessiva de Eben em a vingar é também marcada por uma tripla anáfora de compromisso: "Hei de dizer-lhe... Hei de berrar-lhas... Hei de conseguir que a minha mãe repouse...".
Por seu turno, a hipérbole ilustra a frustração existencial face à esterilidade da quinta. Ao lamentar a tremenda distância física e mental que os separa da liberdade, Peter afirma que, se colocassem uns atrás dos outros todos os passos inúteis que deram a lavrar aquela terra ingrata, "até chegávamos à Lua!", um claro exagero dramático que traduz a futilidade e o absurdo do esforço imposto pelo patriarca da família. No plano da lealdade familiar, Eben faz uso da hipérbole ao declarar que se identifica com e sai à mãe "até à última gota de sangue", consolidando a sua fixação freudiana absoluta.
Por fim, no solilóquio que encerra a cena, Eben evidencia a sua sensibilidade reprimida através do polissíndeto e da sinestesia. A repetição da conjunção coordenativa "e" ("e não sei onde está ele, e eu aqui, e Min... E se eu a beijar? E que me rala...") confere à fala um ritmo flutuante, sensual e lento, que reflete o seu devaneio carnal. Este ritmo é preenchido por uma sinestesia que caracteriza Min: "cheira como o ardor de um campo lavrado". A mistura de sensações alia a sexualidade da prostituta à fertilidade dionísica da terra cultivada, mostrando que, por trás da dureza puritana dos muros de pedra, a vida pulsa e o desejo "cresce e cresce" até "rebentar".