a) Ação
A quarta cena abre no
interior da cozinha, onde Eben medita carrancudamente diante do prato intacto,
enquanto Simeon e Peter terminam a refeição e o provocam sobre a sua noitada
com Min. O caçula revela estar dominado por uma premonição febril sobre o regresso
iminente do pai. Subitamente, os dois irmãos mais velhos recusam-se a continuar
o trabalho agrícola, declarando a sua intenção de viver como os lírios do
campo. Tomado por uma excitação quase mística, Eben proclama que a quinta
pertence de novo à sua falecida mãe e sai para o exterior, contemplando a
propriedade com um desejo obsessivo de posse. No exterior, Simeon e Peter bebem
uísque, acendem os cachimbos e observam a alvorada, avistando ao longe a
carroça em que Ephraim Cabot regressa acompanhado pela nova noiva. Eben corre
ansioso ao encontro dos irmãos para anunciar a chegada da velha mula e da
noiva. Antes da chegada do pai, os dois mais velhos recolhem as trouxas e exigem o
pagamento prometido; o mais jovem retira debaixo do soalho da cozinha, junto ao fogão,
o saco de lona com as moedas de ouro de vinte dólares deixadas pela progenitora. Após a
contagem cuidadosa dos seiscentos dólares e a assinatura da renúncia aos
direitos da herdade, Eben guarda o documento como um troféu de restauração
moral.
No portão da quinta, desenrola-se o confronto de despedida: Simeon
arranca a cancela dos gonzos, declarando abolidos todos os portões e barreiras,
enquanto Ephraim e Abbie Putnam chegam à propriedade. Ao verem a nova madrasta, acolhem a chegada com sarcasmo e escárnio, lançando provocações
diretas ao progenitor, executando uma absurda dança de guerra ao redor do velho
petrificado e atirando pedras que partem os vidros da janela da sala. Os dois
irmãos partem jubilosos pela estrada fora, cantando a canção da Califórnia.
Entretanto, Abbie entra na cozinha e depara-se com Eben. A nova esposa observa
o jovem com uma avaliação calculista da sua força e com uma atração física
incontestável, tentando seduzi-lo sob o pretexto de quererem ser amigos e
partilhando o seu passado de privações e servidão. O rapaz debate-se numa violenta
luta interna entre o ódio visceral e a atração física irresistível, acabando
por precipitar-se para fora da casa após Abbie afirmar o seu domínio absoluto
sobre o lar e o quarto superior. No exterior, Ephraim invoca o Deus dos
Exércitos para amaldiçoar os filhos, sendo desafiado por Eben num aceso combate
verbal de acusações e blasfémias. A cena encerra com a partida de pai e filho em direção ao estábulo para o trabalho diário, enquanto a voz distante dos
irmãos se apaga na estrada e Abbie começa triunfalmente a lavar a louça na sua
nova cozinha.
b) Espaço
O espaço físico articula-se entre o interior da cozinha — centrado
na mesa de refeições, no fogão e no soalho que escondia o ouro — e o exterior
imediato da casa, dominado pelo portão com o muro de pedra e pela estrada que
conduz ao Oeste. No plano social, a quinta representa o microssistema agrário e
patriarcal da Nova Inglaterra do século XIX, fundamentado na servidão familiar,
no isolamento geográfico e na exploração do trabalho. No plano psicológico, o
espaço transforma-se num território de conquista e profanação. A cozinha,
antigo santuário da mãe de Eben, converte-se no palco onde Abbie afirma a sua
soberania e onde a tensão erótica entre madrasta e enteado é selada. O portão
de pedra deixa de ser uma mera divisória de propriedade para encarnar a
barreira da escravidão; o seu desmantelamento físico por Simeon simboliza o
romper da prisão doméstica, abrindo passagem para a estrada como espaço
psicológico de utopia, evasão e liberdade.
c) Tempo
O tempo da ação decorre durante o nascer do sol e o
início da manhã, marcando a transição da luz cinzenta da alvorada para a
luminosidade plena do dia. O tempo do discurso é extremamente dinâmico e polifónico,
alternando entre a celebração ruidosa e carnavalesca dos irmãos mais velhos, o
ritmo pausado, denso e sedutor do diálogo entre Abbie e Eben na cozinha, e a
violência verbal cortante da disputa final exterior. No plano histórico, a ação
fixa-se rigorosamente no ano de 1850, em plena febre do ouro na Califórnia,
ambiente evocado pela canção popular e pela ilusão de enriquecimento rápido. No
plano psicológico, o tempo adquire uma dupla dimensão: para Simeon e Peter, o
tempo estagnado de décadas de servidão explode numa vertigem de libertação onde
o futuro é conquistado em instantes; para Eben e Abbie, o tempo condensa-se num
presente suspenso e ameaçador, onde o passado de trauma e a urgência do desejo
futuro se chocam inevitavelmente.
d) Caracterização das personagens
Eben Cabot surge como um jovem
de 25 anos dotado de uma beleza rústica e de uma força física notável, mas
profundamente dividido no seu foro íntimo. Psicologicamente, é dominado por uma
obsessão patrimonial e por uma devoção quase religiosa à memória da mãe
falecida, acreditando ter cumprido a sua missão ao recuperar o ouro e os papéis
da quinta. Contudo, ao ser confrontado com Abbie, revela a sua extrema
vulnerabilidade, lutando desesperadamente entre a repulsa moral pela usurpadora
e uma atração erótica incontrolável. Socialmente, passa de servo explorado a
suposto proprietário legítimo da herdade.
Abbie Putnam, com 35 anos, é
caracterizada por um ar alegre, cara cheia e bonita, impregnada de uma
sensualidade vigorosa e um olhar determinado e duro. Tendo sofrido um passado
miserável de orfandade, servidão e perdas pessoais, é movida por um instinto de
sobrevivência e por uma necessidade visceral de possuir um lar. Revela-se
calculista, sedutora e dominadora, consciente do seu poder sobre o velho
Ephraim e capaz de reconhecer em Eben uma alma gémea em termos de energia e
obstinação. Abbie Putnam apresenta-se com trinta e cinco anos, sendo
quarenta anos mais jovem do que Ephraim Cabot. Exibe um rosto cheio e bonito,
marcado por uma sensualidade um tanto grosseira e por um ar de vitalidade
transbordante. A sua expressão denota força e obstinação visíveis no queixo,
acompanhadas por uma determinação dura nos olhos. Estes traços revelam uma
afinidade temperamental direta com o jovem Eben, uma vez que partilha com ele
as mesmas características desesperadas, irrequietas e indomáveis.
O seu percurso é profundamente marcado por um passado
traumático de miséria e servidão. Tendo ficado órfã muito cedo, serviu em casas
alheias e casou-se com um homem alcoólico. Após perder o filho e ver o marido
adoecer e morrer, viu-se forçada a regressar ao trabalho doméstico explorado,
quase perdendo a esperança de vir a ter um espaço próprio. É precisamente este
percurso doloroso que explica a motivação do seu casamento com Ephraim Cabot,
de setenta e cinco anos, o qual aceitou movida exclusivamente pela necessidade
vital de encontrar segurança e a garantia de um teto seu.
Ao chegar à quinta, demonstra a atitude firme de uma
conquistadora que saboreia com orgulho a ideia de posse sobre a habitação.
Reivindica categoricamente a soberania sobre o espaço perante a oposição dos
enteados, assumindo o domínio da casa, da cozinha e do quarto principal no
andar superior, onde concretiza simbolicamente a sua autoridade ao assumir com
orgulho as tarefas domésticas.
Nas suas relações, revela um jogo complexo de poder e
sentimentos. Em relação a Ephraim Cabot, sobressai o controlo e a manipulação
através da sedução, demonstrando um odiento sentido de poder sobre o velho,
embora não consiga dissimular uma profunda repulsa física perante a ideia do
leito conjugal partilhado. Já perante Eben, a sua atitude oscila entre a
avaliação calculista e a sedução: ao encontrá-lo a sós na cozinha, pondera
friamente a força física do jovem, mas deixa-se envolver pelo desejo despertado
pela sua juventude e boa aparência. Alterna o papel provocatório de nova mãe
com a proposta de uma aliança estratégica como amigos, tentando desarmar a
hostilidade do rapaz. Acima de tudo, identifica em Eben um reflexo do seu
próprio sofrimento, procurando construir uma ponte de empatia e união fundada
na dor partilhada pela perda da mãe.
Ephraim Cabot, aos 75 anos, mantém um corpo alto, seco e de costas
curvadas pelo trabalho contínuo, apresentando um rosto duro como xisto e olhos
míopes. Representa a rigidez do patriarca puritano, cuja autoridade se
fundamenta numa teologia severa e num orgulho inflexível; apesar de traído pela
debandada dos filhos e ridicularizado, tenta manter a postura de tirano inabalável.
Simeon e Peter, libertados da sujeição agrícola, encarnam a transformação do
embrutecimento animal na euforia infantil da alforria, entregando-se a um
comportamento subversivo, sarcástico e festivo antes da partida definitiva.
e) Linguagem
A linguagem da cena é caracterizada por um registo coloquial
e rústico, rico em termos do vocabulário agrícola, interjeições de desafio e
celebração, expressões de tom bíblico e imprecações inflamadas. A oralidade é
intensificada pela presença de cânticos populares e por diálogos rápidos e
sobrepostos.
A comparação "viver como os lírios do campo",
proferida por Simeon no início da cena, evoca a passagem do Sermão da Montanha
(Mateus 6:28-29), na qual Cristo exorta os discípulos a confiarem na
Providência divina e a libertarem-se do materialismo: "Olhai os lírios do
campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam". Porém, colocada na boca
da personagem Simeon, remete para a tirania da teologia calvinista e puritana
implacável, ditada pelo patriarca Ephraim, segundo o qual Deus é um ente "duro
e solitário" que só aprecia o trabalho contínuo, a abnegação e o
sofrimento físico no cultivo da terra estéril. Ao usar as próprias Escrituras
para justificar a recusa em pegar na enxada ou ir ordenhar as vacas, Simeon usa
a Palavra de Deus contra a própria autoridade do pai. Ao afirmar que passará a
viver como os lírios do campo, ele reivindica pela primeira vez o direito à
contemplação, ao descanso e à desvinculação da lógica da produtividade,
marcando a transição da servidão cega para o exercício de uma soberania
pessoal, onde os dois irmãos se recusam a continuar a ser o "estrume"
que fertiliza a propriedade do pai.
A metáfora "Oeste Dourado" funciona como a
antítese perfeita do solo estéril da Nova Inglaterra. Enquanto a herdade de
Ephraim é descrita como um cárcere de "muros de pedra" onde os
homens foram reduzidos a escravos, a Califórnia surge como uma utopia de
abundância e salvação. O ouro deixa de ser um mero recurso económico e
converte-se no símbolo da libertação do jugo paterno. Por outro lado, o
movimento do astro ("É o sol que vem connosco para o Oeste Dourado")
projeta a ilusão de que a própria natureza abençoa e acompanha a fuga dos
irmãos.
Outra metáfora ("Estrume de primeira é que eu tenho
sido para ti"), proferida por Simeon ao dirigir-se à terra da quinta,
expressa de forma crua a desumanização causada por décadas de trabalho agrícola
escravo. Em vez de o ser humano ser o sujeito digno que domina e cultiva a
terra para o seu sustento, é rebaixado à condição de insumo biológico cuja
única utilidade é fertilizar o solo de Ephraim. A propriedade não nutre os
homens; são estes que alimentam a terra com a sua própria vida. A metáfora
denuncia como a quinta funcionou como um organismo parasitário que devorou a
juventude e a energia dos irmãos mais velhos, sugando-os até os converter em
resíduos antes de os descartar.
A metáfora "Escravos destes muros de pedra",
proferida por Peter, sintetiza o drama da servidão física e da opressão
psicológica vivida pelos filhos na quinta. Ephraim submeteu a família, ao longo
de anos, à remoção de rochas do solo estéril e à construção interminável de
delimitações para a herdade. Assim, esses muros de pedra, erguidos pelos
próprios filhos, deixam de ser simples barreiras de propriedade para se
tornarem as muralhas de uma prisão a céu aberto que os enclausura e consome.
A metáfora "A velha mula", dita pelos
irmãos referindo-se ao pai e à sua chegada na carroça, despoja-o de qualquer
respeitabilidade — um homem que se autoproclama um eleito de Deus e que sempre
governou a quinta com mão de ferro é rebaixado à condição de um animal de carga
idoso, rústico e desgastado. Por outro lado, a figura da mula está associada à
teimosia inflexível e à esterilidade biológica e, ao associar esta imagem a
Cabot, expõe a essência do seu caráter: um velho de 75 anos, cego na sua
obstinação em dominar a terra e a vida dos filhos. Além disso, a incapacidade
de gerar vida reflete o regime patriarcal de Ephraim, um modelo severo que não
produziu afeto nem comunhão, mas apenas ressentimento, esterilidade afetiva e a
debandada dos dois herdeiros mais velhos. Por último, a metáfora mostra que os
filhos deixaram de temer e ser subservientes ao pai e eles montam um espetáculo
de escárnio e provocação aquando da sua chegada.
A metáfora "O cabresto rebentou! A albarda foi ao
ar!" remete para o facto de Simeon e Peter serem frequentemente
associados a "animais de tração" ou "bois de arado",
embrutecidos pelo esforço físico diário. O cabresto (as rédeas que travam e
guiam o animal) e a albarda (o arreio de carga colocado no lombo para suportar
o peso) funcionam como os instrumentos da sua domesticação. Ao anunciarem que o
cabresto rebentou e a albarda voou, os irmãos proclamam a recusa em continuarem
a ser tratados como gado ao serviço do patriarca, recuperando simbolicamente a
sua condição humana. O cabresto representa a autoridade castradora exercida por
Ephraim e o seu "rebentar" simboliza que o medo e a capacidade de
intimidação do pai deixaram de surtir efeito. Se o cabresto representa o
controlo, a albarda encarna o peso esmagador da herdade: a remoção de rochas, a
lida do gado e o trabalho sem recompensa. Lançar a albarda "ao ar"
traduz a sensação visceral de alívio e desmaterialização da carga. Os corpos,
curvados pelo trabalho agrícola, libertam-se do fardo para enfrentarem o
caminho aberto.
A metáfora "A ti te há de ele comer, velhote!"
reaviva a disputa pela herdade a um ato de ferocidade física e sobrevivência
animal. Ao garantir que Eben há de "comer" o pai, Simeon antecipa que
o filho mais novo não só se limitará a reivindicar a herança legalmente; ele
irá consumir gradualmente a autoridade, os bens, o orgulho e a energia vital do
velho patriarca. A posse da quinta exige a aniquilação moral do opressor,
transformando o conflito familiar numa luta de predadores onde o mais jovem
devora o mais velho. No plano mitológico e psicanalítico, a expressão ressoa
com o mito de Édipo e com a dinâmica da destruição do pai. Para que Eben afirme
a sua virilidade e conquiste o território que considera que pertence
legitimamente à sua mãe, o patriarca tem de ser despojado do seu poder e
símbolo concreto "despojado". A convivência pacífica entre ambos é
impossível; a afirmação da identidade de Eben passa inevitavelmente pela
destruição da soberania de Ephraim. E, de facto, esta espécie de profecia
concretizar-se-á de forma particularmente devastadora: o filho irá suplantar o
pai ao unir-se sexualmente à sua nova esposa, Abbie, gerando com ela um filho
na própria casa de Ephraim.
A interrogação metafórica "Onde diabo a
desenterrou?" possui uma forte carga de profanação, rejeição e
presságio trágico. O uso da forma verbal "desenterrou" retirou a
Abbie a condição de um ser humano vivo com uma origem social legítima,
equiparando a sua "descoberta" à exumação de um cadáver ou à
libertação de uma criatura das profundezas da terra. Além disso, ao associar a
expressão à figura do "diabo", os irmãos insinuam que Ephraim não
encontrou uma esposa através de uma união abençoada, mas antes realizou uma espécie de pacto profano, trazendo das
profundezas uma presença negra para a quinta. Para Simeon e Peter, a nova
madrasta é vista como uma intrusa que vem perturbar a ordem familiar, sendo,
assim, despojada de qualquer dignidade ou autoridade materna, transformando a
sua chegada num acontecimento objeto que causa repulsa e estranheza aos filhos
do patriarca. Por outro lado, esta imagem contém um caráter premonitório, visto
que, ao sugerirem que a mulher foi "desenterrada" da sepultura, os
irmãos profetizam inconscientemente a atmosfera de morte e tragédia que Abbie
trará consigo. A nova esposa, que vem em busca de vida e de um lar, levará a
casa à ruína, ao infanticídio e à destruição moral, provando que, ao
"desenterrá-la", Ephraim trouxe a própria cova para dentro da sua
herdade.
Ao catalogar Abbie como uma "porca"
("ordená-la no chiqueiro com as outras porcas") e ao destinar-lhe o
"chiqueiro" como habitação legítima, Peter rebaixa a mulher à
condição de animal doméstico associado à imundície, à voracidade e à abjeção. O
chiqueiro contrasta com a noção de habitação e de espaço sagrado do lar. Ao
sugerirem que devia ser recolhida entre os suínos, os irmãos negam a Abbie
qualquer direito de soberania sobre a cozinha, sobre os quartos ou sobre a
herdade. A imagem funciona como um ato de rejeição preventiva: antes mesmo de
ela cruzar o limiar da porta, os enteados recusam-se a vê-la como autoridade
materna ou parceira do pai. Convém considerar, no entanto, que esta espécie de
insulto também atinge o velho Ephraim, dado que o facto de a nova esposa ser
apelidada de "porca" destrói a fachada de respeitabilidade do
matrimónio.
Ao ameaçar os filhos ("Ficam como os ossos num
feixe!"), Ephraim recorre a uma imagem da lida agrícola e florestal: o ato
de atar gravetos ou lenha seca num fardo. Desta forma, traduz-se a fúria cega
do velho e o seu desejo de castigar fisicamente a insubordinação de Simeon e
Peter. A imaginação do homem não concebe uma punição através de abstrações
morais ou espirituais, mas apenas por meio da força bruta e da
agressividade/violência. Não obstante, apesar da ameaça, os filhos reagem com
gargalhadas, danças de escárnio e pedradas às janelas da casa, evidenciando,
assim, a inutilidade do discurso de intimidação.
Quando fica a sós com Abbie na cozinha, Eben exclama: "Velha
bruxa!". Confrontado com a presença sensual e provocadora da mulher, o
rapaz sente-se atraído por ela, o que o deixa perturbado, reagindo com
insultos. Por outro lado, ele procura, desta forma, racionalizar o que sente,
tendo em conta também que a sua lealdade à memória da mãe e os ditames da moral
puritana com que tinha sido criado proibiam qualquer impulso sexual pela esposa
do pai. Deste modo, o desejo não é assumido como uma pulsão própria, mas
explicado como um feitiço ou encantamento maligno lançado por uma entidade
demoníaca — a própria madrasta. A mulher sedutora é vista como o agente do
Diabo que enreda o homem inocente: se Abbie é uma bruxa dotada de poderes de
sedução, Eben não passa de uma vítima indefesa da tentação e não um cúmplice
consciente da profanação do leito paterno.
Na iconografia bíblica (como no Salmo 23 ou no mito do Bom
Pastor), a relação entre o pastor e as ovelhas simboliza o cuidado, a proteção
espiritual e a condução amorosa do rebanho em direção à salvação e aos pastos
verdes. Eben inverte completamente esta alegoria: o Deus severo invocado por
Ephraim ("Atraindo as suas ovelhas ao pecado!") atua como um falso
pastor perverso que, em vez de proteger o rebanho, atrai e empurra
deliberadamente as suas "ovelhas" (os filhos) para o abismo do pecado
e da transgressão. Assim, a metáfora funciona como uma crítica à hipocrisia do
puritanismo de Cabot, pois, ao invocar constantemente um Deus duro, vingativo e
cruel para sancionar a sua tirania e avareza, o patriarca criou um ambiente
doméstico sufocante, desprovido de afeto e repressivo, de tal forma que a única
resposta possível para os filhos é a rebeldia e a profanação. Deste modo, Eben
expõe a hipocrisia do pai: a religião de Ephraim não salva nem purifica; antes
é um instrumento de opressão que semeia o ódio e incita à perdição moral. Além
disso, convém recordar que as ovelhas são animais indefesos que foram
explorados e manipulados sob a ameaça do castigo divino, pelo que, ao proferir
esta metáfora, Eben rompe com a imagem do cordeiro vulnerável conduzido ao matadouro:
ele recusa-se a aceitar a culpa que o pai lhe tenta impor e devolve a
responsabilidade moral da corrupção da família ao próprio patriarca. Por
último, ao acusar o pai de levar os filhos ao pecado, Eben, sem disso ter
consciência, profetiza o pesadelo em que se vai afundar. Ao trazer Abbie para a
quinta como sua esposa, Ephraim é o próprio a introduzir no lar a tentação que
conduzirá o filho mais novo ao pecado do "incesto".
A metáfora "Nunca chegaste a homem inteiro!",
posta na boca de Ephraim Cabot, reduz Eben à condição de um ser fraco,
incompleto e infantilizado que é incapaz de exercer a autoridade ou demonstrar
a têmpera necessária para governar a sua própria vida e a propriedade. No
momento em que o desafia e reivindica a legitimidade da herdade, o patriarca
tenta desarmar o filho atacando diretamente o seu orgulho masculino. Claro que
este "ataque" tem consequências: Ephraim atiça o ressentimento do
filho e alimenta o seu desejo obsessivo de provar a sua masculinidade. É
precisamente para desafiar esta negação paterna e demonstrar que é um
"homem inteiro" que Eben se lançará nos braços de Abbie, visando na
ligação à madrasta a validação da sua força e a usurpação definitiva do lugar
do pai.
Quando confronta o pai na cozinha, e ataca a legitimidade do
casamento, exclama: "E comprou-a... como quem compra uma pega!",
equiparando-o à compra de uma prostituta ou de uma mercadoria vulgar e
reduzindo a união sagrada do matrimónio a uma mera transação comercial de
prostituição. Na perspetiva do jovem, a madrasta vendeu o seu corpo e a sua
liberdade a um velho em troca do teto e do sustento. Por outro lado, ao
degradar Abbie à condição de mercadoria comprada, o jovem tenta desarmar o
poder de fascinação que ela começa a exercer sobre si, mascarando a sua
vulnerabilidade sob a capa do desprezo. Por seu turno, Abbie assume friamente
que casou por necessidade de ter um lar e usa essa mesma transação para afirmar
o seu domínio absoluto sobre a cozinha e sobre a herdade, mostrando que a
"comprada" é quem passará a controlar a casa.
Ao avistar Simeon e Peter, Abbie afirma: "Estão dois
homens espreitados ao portão a olhar para mim como um par de porcos para a
bolota." Ao comparar a atitude dos dois enteados ao olhar fixo e
famélico dos porcos perante o seu alimento ("bolota"), a mulher
desumaniza-os, devolvendo-lhes a linguagem degradante e animalizada com que
estes costumam classificar as mulheres (reduzidas a "gado",
"fêmeas" ou "vacas" nas cenas anteriores). Os homens, que
se consideravam dominadores, são rebaixados pela nova madrasta à condição de
animais famintos e impotentes no portão. Ao identificar-se metaforicamente com
uma bolota, Abbie demonstra ter consciência da forma como é percecionada na
quinta. De facto, para Simeon e Peter, ela não é uma pessoa, mas um mero objeto
de apetite e uma ameaça patrimonial, um bem apetecível que o pai adquiriu e que
vem usurpar a herança. A atração erótica, a fome física e a disputa pela posse da terra
reduzem-se ao mesmo impulso biológico e instintivo de sobrevivência. Além
disso, em vez de se mostrar intimidada pelo olhar de desprezo que lhe é
dedicado, a nova esposa dedica-lhes apenas desdém e sarcasmo, desarmando a
atitude ameaçadora dos dois filhos mais velhos.
Através de outra comparação ("Tenho a impressão de
que se aproxima... sinto-o chegar, como se sente o arrepio das febres, antes de
elas começarem"), Eben compara a chegada do pai aos sintomas de uma
doença: o calafrio que antecede um surto febril. O patriarca atua no organismo
do filho como um vírus ou uma infeção iminente, fazendo o seu corpo tremer e
adoecer antes mesmo do confronto presencial. A aproximação física da carroça
funciona como uma epidemia que vem desestabilizar o ambiente doméstico e
arrastar as personagens para a vertigem da loucura e da destruição. Por sua
vez, Simeon diz sobre Eben o seguinte: "É duro como um
marmeleiro!". Esta comparação significa que o filho mais jovem herdou
e reproduz a mesma obstinação e inflexibilidade do patriarca, apesar do repúdio
que mostra относительно ao pai. O "marmeleiro" funciona como a
metáfora vegetal do próprio sangue dos Cabot, mostrando que Eben é feito da
mesma matéria resistente e intransigente do pai. Além disso, a comparação
traduz a sua compleição física e o seu caráter, moldados pelo esforço diário na
terra estéril da quinta. A sua força não é delicada ou polida, mas rústica,
calejada e preparada para a lida e para o confronto. No entanto, debaixo da
carcaça inflexível do "marmeleiro", o jovem esconde a ferida aberta
do trauma associado à perda da mãe.
Numa didascália, podemos ler o seguinte: "O rosto é
duro, como se tivesse sido esculpido num seixo...". Esta comparação
estabelece uma equivalência entre a fisionomia do velho patriarca e a matéria
mineral inerte ("seixo"). Ephraim não é apresentado com feições
humanas suaves ou expressivas, mas como um homem cuja cara foi esculpida pela
dureza da rocha. Esta comparação traduz a calcificação da sua alma: 75 anos de
fanatismo puritano, aridez afetiva e isolamento moral transformaram o seu
caráter numa estrutura rígida, insensível e totalmente impermeável à compaixão.
Ao longo da peça, é visível que existe uma profunda identificação entre a
figura de Cabot e a própria terra que ele cultivou obstinadamente ao longo de
décadas. As pedras e as rochas que abundam na quinta — e que aprisionaram a
família na servidão agrícola — surgem agora impressas no próprio rosto do
patriarca. Este mineralizou-se à imagem e semelhança da sua propriedade; Cabot
tornou-se a personificação física do solo agreste que exige o sacrifício de
todos em seu redor. Por outro lado, a fisionomia "esculpida num
seixo" antecipa a reação do patriarca perante o confronto com os filhos e
a nova realidade do lar: um rosto feito de pedra não cede, não chora, não
reconhece a culpa nem expressa ternura. A comparação sinaliza a impossibilidade
absoluta de reconciliação interpessoal: perante o escárnio de Simeon e Peter e
a rivalidade com Eben, o velho permanece petrificado na sua obstinação,
encarando o mundo com a mesma aridez inabalável com que enfrentou a terra.
Em determinado momento, Peter equipara as mãos calejadas,
engrossadas e gretadas dos homens da família aos cascos dos animais de arado e
de carga: "As mãos parecem cascos!". A comparação evidencia
como o esforço físico contínuo, a remoção de pedras do solo e a lida diária
desfiguraram a própria anatomia humana, destruindo a delicadeza e a
sensibilidade do toque. Ter mãos que "parecem cascos" significa que o
corpo dos filhos foi gradualmente modificado pela rotina agrícola para
funcionar como o do próprio gado da herdade, aproximando os seres humanos da
condição das bestas de tração. As mãos transformadas em "cascos"
servem unicamente para agarrar a enxada, empurrar o arado ou ordenhar as vacas,
tornando-se incapazes de gestos de afeto, ternura ou consolo. A comparação
resume a tragédia da família Cabot: a aridez da terra e a brutalidade do
trabalho estiolaram a capacidade de amar, deixando no seu lugar apenas a
rigidez, o calo e a deformação física.
Quando celebram a sua partida da quinta, Simeon e Peter
entregam-se a uma dança característica dos índios em torno do pai: "Livres
como Injuns! Teus garotos que a gente não te escalpela!". Estar livre
como um Injun significa rejeitar as vedações, os muros de pedra e a servidão
agrícola imposta por Ephraim. Desta forma, os irmãos apropriam-se do
estereótipo do "selvagem" para efetivar a rutura com a ordem
doméstica patriarcal e celebrar a alforria rumo à liberdade.
Quando Eben contempla a herdade com um brilho de posse nos
olhos e exclama que as vacas e a quinta lhe pertencem, Simeon comenta "Tal
e qual o pai", ao que Peter acrescenta "Escrito e
escarrado!". Mais à frente, Simeon reforça: "O Eben é o pai
escrito e escarrado! Sai a si! É duro como um marmeleiro!". Estes
excertos evidenciam a contradição central na personalidade do caçula. Embora
este professe um ódio mortal pelo pai e invoque a memória da mãe falecida para
legitimar a sua causa, o seu "desejo de posse" revela a mesma avareza
e obstinação territorial que caracterizam Ephraim. Por seu lado, a expressão
popular "escrito e escarrado" enfatiza a impossibilidade de Eben
escapar ao determinismo familiar. O rapaz acredita que está a agir por amor e
vingança materna, mas os irmãos mais velhos percebem que ele reproduz
inconscientemente os traços da índole paterna, prometendo perpetuar a mesma
lógica de tirania sobre a terra.
Ao refletirem com alguma nostalgia sobre o gado e os animais
da herdade que criaram ao longo de trinta anos, Simeon declara: "A nós,
conhecem-nos como irmãos... e gostam de nós! (...) Não os criámos até serem de
primeira ordem, prémios de exposição?". Esta comparação estabelece um
laço de fraternidade e afeto genuíno entre os trabalhadores e o gado, que
contrasta com a frieza e hostilidade das relações humanas dentro de casa.
Simeon e Peter sentem maior empatia e cumplicidade com os animais do que com o
próprio pai. Por outro lado, o recurso expressivo revela a única dimensão
gratificante de décadas de sacrifício: o orgulho de ter criado o vivo e mantido
os animais com zelo. Contudo, como os irmãos reconhecem com resignação, até
essa fraternidade com a bicharada precisa de ser cortada para poderem
conquistar a alforria e partir para a Califórnia.
Quando Peter avisa Abbie de que vai encontrar Eben na
cozinha e sugere não o provocar Ephraim intervém com desprezo: "Não
precisas de poupar o Eben. O Eben é um pateta... como a mãe... pacato e
simplório!" Desta forma, o patriarca rebaixa o filho mais novo,
associando a sua índole à alegada passividade e subserviência da sua falecida
segunda esposa. Para a visão de mundo puritana de Ephraim, centrada na dureza e
aridez, a sensibilidade e a doçura são vistas como falhas morais desprezíveis.
Além disso, a comparação expõe a incapacidade do patriarca de avaliar o perigo
real. Ao rotular o filho mais novo como "pacato e simplório", Cabot
subestima o ressentimento e a violência que fermentam no íntimo do jovem, caindo
numa falsa sensação de segurança que facilitará a aproximação entre Eben e
Abbie.
Antes de abandonar a quinta, Simeon bate com o pé no chão e
dirige-se diretamente ao solo: "... Teus trinta anos de mim enterrados
em ti... espalhados por ti... sangue e ossos e suor... podres... a
estrumarem-te... a fazerem de ti boa terra... Santo Deus, estrume de primeira é que eu tenho sido
para ti!!". Neste caso, a terra é personificada como uma entidade
vampírica e insaciável. Em vez de ser apresentada como um monstro devorador que
"suga" a juventude, a energia e o corpo dos trabalhadores, reduzindo
os seres humanos à condição de "estrume", sugerindo o profundo
ressentimento de Simeon por três décadas de escravidão agrícola sob o domínio
paterno.
Ao projetarem a viagem, Peter desabafa: "É o Sol que
vem connosco para o Oeste Dourado". Neste caso, deixa de ser um mero
astro e passa a ser encarado como um companheiro de viagem e guia ativo,
simbolizando a fuga dos irmãos, marchando ao seu lado rumo à liberdade, à luz e
à promessa do ouro no Oeste.
Noutro passo, Peter e Simeon atribuem uma vontade opressora
às estruturas da quinta ao afirmarem: "Temos sido escravos destes muros
de pedra" e "As cercas foram abaixo! Os muros caem aos
bocados!!". Neste caso, os muros de pedra são personificados como
carcereiros petrificados. Eles encarnam a própria figura de Ephraim Cabot e a
sua teologia puritana rigorosa. Quando Simeon celebra a queda dos muros e
arranca a calçada dos guias, a destruição destas entidades personificadas
simboliza a conquista da autonomia moral e o fim da prisão doméstica.
Os dois espaços referidos na cena representam valores
opostos. Assim, a vida de árdua labuta e sujeição dentro dos muros de pedra da
quinta opõe-se radicalmente ao sonho de liberdade, sol e riqueza representado
pela Califórnia. Este contraste é estabelecido entre o confinamento sufocante
da herdade e a ânsia de liberdade dos dois irmãos mais velhos. Ao contraporem a
aridez do solo escuro à luminosidade do sol nascente ("É o Sol que vem
connosco para o Oeste Dourado"), Simeon e Peter assinalam a rutura definitiva
com o trabalho escravo e com a tirania do pai.
Outra antítese é estabelecida entre a reivindicação ao
património de Ephraim. De facto, Eben proclama que a herdade e o gado lhe
pertencem por herança da falecida mãe ("É outra vez a quinta da mãe! É
minha!"), em oposição direta à afirmação categórica e desafiadora de
Abbie: "Esta herdade é minha! É o meu lar! E esta é a minha
cozinha!"). Esta antítese traduz o conflito patrimonial e territorial
no coração da família Cabot, colocando em confronto duas legitimidades
antagónicas — a legitimidade do sangue / herança materna de Eben versus a
legitimidade legal e oportunista de Abbie —, desencadeando a disputa pelo
espaço físico da casa que levará à tragédia.
Outra antítese é estabelecida entre a aridez de Cabot e a
sensualidade e vitalidade de Abbie. O rosto "esculpido num seixo",
o fato preto sombrio dos domingos e a rigidez envelhecida do patriarca de 75
anos opõem-se à juventude / ao "ar alegre, cheio de vitalidade"
e à "sensualidade um tanto grosseira" de uma esposa com menos
40 anos, cuja entrada traz consigo uma onda de calor e desejo a um ambiente
doméstico calcificado pela aridez moral do patriarca, antecipando a desordem
que sobrevirá.
Por outro lado, a violência verbal, o desprezo e as
acusações de Eben ("Velha bruxa!", "... comprou-a...
como quem compra uma pega!") contrapõem-se à perturbação física e à
atração irresistível que a presença e o toque sedutor de Abbie lhe despertam,
enfatizando o conflito psicológico interior que o jovem experimenta. Enquanto a
sua mente tenta erguer um escudo de repulsa moral fundamentado na fidelidade à
memória da mãe, o seu corpo sucumbe à sedução e ao poder hipnótico de Abbie,
prenunciando a profanação.
O fervor religioso e as invocações solenes de Cabot ao "Deus
dos Exércitos" e "Deus dos patriarcas" opõem-se à
acusação de Eben de que o pai perverte os princípios religiosos ("Atraindo
as suas ovelhas ao pecado!") e ao apetite materialista que domina as
relações no lar. Este contraste põe a nu a hipocrisia e a esterilidade do
puritanismo de Ephraim. A religiosi dade rígida do velho opõe-se à realidade moral
da casa, revelando que a sua fé serve apenas como pretexto para mascarar a sua
tirania e avareza.
A hipérbole "... sangue e ossos e suor... a
estrumar-te... estrume de primeira é que eu tenho sido para ti!"
traduz a brutalidade da exploração agrícola, redefinindo trinta anos de vida e
sofrimento à condição objeta de "estrume". Por outro lado, o exagero
das sensações corporais exprime o alívio do momento de rutura. Após uma vida
inteira sob a rigidez puritana do pai, a perspetiva de fuga provoca uma reação
física extrema de gargalhada descontrolada e sensação de levitação: "Até
me parece que rebento de riso!", "Sinto a cabeça no ar e os
pés leves!"
Através da hipérbole "... esta porcaria deste monte
de pedras que é esta herdade...", Peter reduz a propriedade — objeto
de obsessão e disputa feroz para Cabot e Eben — a um insignificante monte de
pedras. A figura de estilo acentua a libertação mental de Peter, para quem a
terra perdeu todo o valor patrimonial. Já a imagem hiperbólica da aniquilação
pelo fogo ("Podes ficar com isto e deitar-lhe o fogo! Ou enterrar
tudo!") expressa a violência do ressentimento acumulado, mostrando que
a destruição total da obra do pai é preferível à perpetuação da servidão.
Já "Lavar muito ouro sem fim!" remete para
o exagero da promessa da corrida ao ouro na Califórnia ("sem fim"),
projetando um mito de abundância ilimitada. A hipérbole serve de contraponto
idealizado à miséria, escassez e aridez vividas na casa de lavoura dos Cabot.
Por sua vez, Ephraim, na sua fúria, eleva o conflito familiar a uma
escala bíblica e cósmica, implorando a Deus a destruição e aniquilação moral
dos próprios filhos através da "pior das maldições", revelando a
dimensão fanática e implacável do seu puritanismo: "... esmaga esses
filhos sem vergonha com a pior das tuas maldições!". Com a hipérbole "Eu
valho por dez de vós, velho como sou!", Cabot exagera desmesuradamente
a sua própria capacidade física e vigor de trabalho perante Eben. Deste modo,
reafirma a sua autoridade e orgulho descomunal, recusando aceitar a velhice (75
anos) ou qualquer vulnerabilidade perante a rebeldia dos filhos.
O recurso à animalização retrata o embrutecimento das
personagens, a degradação das relações familiares e a redução do ser humano à
condição instintiva e biológica da vida agrícola. Simeon autoriza a submissão
dos dois irmãos mais velhos ao pai, comparando a ingenuidade e a docilidade com
que suportaram anos de exploração à figura do asno: "Tu és um asno,
Pete... e eu também!". A imagem funciona como um ponto de viragem
psicológica: a tomada de consciência da própria "estupidez" impele-os
a cruzar os braços e a recusar o trabalho.
A animalização e comparação "As mãos parecem
cascos!" denunciam a deformação física do corpo humano provocada pela
lida contínua da terra. As mãos perdem a delicadeza e a sensibilidade do toque,
tornando-se queratinizadas e engrossadas como os cascos das bestas de tração. A
frase expressa a transformação do trabalhador no próprio gado de arado da
herdade.
Em "A velha mula mais a noiva!", Eben reduz
o próprio pai à figura de uma "velha mula", animalizando Cabot e
ressaltando a sua teimosia xucra, a inflexibilidade do seu caráter e a
esterilidade afetiva de um patriarca de 75 anos que conduz a jovem noiva ao
lar
Simeon ("O cabresto rebentou! A albarda foi ao
ar!") equipara a servidão dos irmãos à condição de animais de trabalho
subjugados por arreios. O "cabresto" simboliza a contenção da
autoridade paterna; a "albarda" encarna o peso esmagador do trabalho
na quinta. A rutura destes instrumentos agrícolas assinala o sacudir da
sujeição animal e a conquista da alforria.
Por sua vez, Abbie animaliza os seus enteados: "...
a olhar para mim como um par de porcos..." para a bolota". Ao comparar a atitude cobiçosa de
Simeon e Peter ao olhar do gado suíno perante a comida, a nova esposa devolve
aos homens a linguagem de curral, desarmando a hostilidade dos dois e afirmando
a sua superioridade e frio domínio sobre o espaço.
O recurso ao provérbio popular "Dentada de cão
cura-se com pelo do mesmo cão." animaliza o conflito entre Eben e
Ephraim. A disputa pelo poder e pela posse da casa é encarada como uma luta
instintiva entre cães da mesma matilha / sangue, onde a ferocidade de um só é
neutralizada pela mesma agressividade do outro.
Outro recurso relevante é a metonímia. Quando Simeon
desabafa "... teus trinta anos de mim enterrados em ti... sangue e
ossos e suor... podres... a estrumarem-te...", substitui a abstração
do trabalho agrícola e da juventude sacrificada pelos componentes biológicos e
fluidos corporais tangíveis (sangue, ossos, suor), para exprimir de forma crua
a desumanização dos trabalhadores: a energia vital e a existência física dos
irmãos foram dissolvidas no solo ao longo de muitos anos, reduzindo a vida
humana a adubo orgânico.
Noutro passo, Peter declara "Temos sido escravos
destes muros de pedra" e refere-se à quinta como "esta
porcaria deste monte de pedras que é esta herdade". As pedras e os
muros que delimitam a propriedade tomam o lugar de toda a herdade e do sistema
opressivo criado por Ephraim. A metonímia reduz a quinta à sua matéria mais
estéril e dura, enfatizando a ideia de que a propriedade não representa um lar
acolhedor, mas antes uma prisão mineral e um monumento ao trabalho escravo.
No momento em que os irmãos mais velhos brindam "ao
ouro da Califórnia", observam que "o dourado está agora a
leste" e celebram que vão a caminho do "ouro da
Califórnia". O nome "ouro" ou o adjetivo "dourado"
são empregues metonimicamente para designar toda a viagem, a Califórnia e o
novo horizonte de alforria e prosperidade. A luminosidade do metal precioso
contrapõe-se metonimicamente à escuridão da terra batida e das pedras da Nova
Inglaterra.
Noutro ponto, Peter exige a Eben, antes de assinar o papel
atestando o pagamento pela parte da herança que caberia aos irmãos mais velhos:
"Primeiro vejamos a cor dessa dinheirama, e a gente depois
assina." A "cor" (o brilho do ouro das moedas) designa a
presença física e imediata do dinheiro vivo. A metonímia reflete o pragmatismo
calejado dos irmãos mais velhos: para quem passou a vida a trabalhar sem grande
compensação, somente a visão concreta e o toque do metal garantem a realidade
do negócio.
Na didascália que marca a entrada de Ephraim, constatamos
que "Está vestido com o seu fato preto, sombrio, dos domingos."
O traje dominical negro substitui a própria atitude moral e religiosa do
patriarca. A veste de caráter formal funciona como uma metonímia da sua
autoridade patriarcal, do seu fervor puritano e do caráter solene e austero com
que regressa ao lar acompanhado da nova esposa.
Abbie afirma com firmeza: "Esta herdade é minha! É o
meu lar! E esta é a minha cozinha!", acrescentando mais tarde "E
agora vou lavar a..." minha louça"**. A "cozinha", a
"cama" e o ato de "lavar a louça" surgem como metonímias do
domínio territorial e da legitimidade como senhora da casa. Ao tomar conta da
cozinha (o núcleo do lar) e ao realizar as tarefas domésticas que pertenceram à
falecida mãe de Eben, Abbie concretiza metonimicamente a usurpação do poder e o
triunfo sobre o enteado.
A cena IV inicia-se no "pardo da alvorada"
com uma vela acesa na cozinha; progride quando "o céu começa a
colorir-se com o nascer do Sol" e atinge o auge na iluminação plena da
manhã: "É o Sol que vem connosco para o Oeste Dourado". Esta
gradação acompanha a transformação interior de Simeon e Peter. A transição do
cinzento da madrugada para a claridade do astro simboliza o despertar da
consciência dos irmãos: passam do torpor e encarceramento da vida na quinta
para o entusiasmo radioso e luminoso da alforria rumo à Califórnia.
Simeon descreve a sua vida no solo em escala descendente: "...
trinta anos de mim enterrados em ti... espalhados por ti... sangue e ossos e
suor... podres... a estrumarem-te... estrume de primeira é que eu tenho sido
para ti!". A sequência intensifica o processo de destruição física e
biológica do trabalhador. Parto do esforço fluido (suor), passa pelos tecidos e
estrutura corpórea (sangue e ossos), atinge a decomposição (podres) e culmina
na perda absoluta de humanidade ("estrume de primeira"). Estamos na
presença do auge do ressentimento acumulado por quem foi reduzido a adubo
orgânico ao longo de três décadas de exploração agrícola.
A apropriação, por parte de Abbie, da propriedade vai
evoluindo ao longo da cena: começa com o deslumbramento hesitante ("É
lindo... custa-me a crer que seja meu!"); passa pela disputa de
autoridade com o marido ("Teu? Meu!... Nosso... talvez!" / "Uma
mulher tem de ter um lar!"); segue para a imposição categórica a Eben ("Esta
herdade é minha!... É o meu lar! E esta é a minha cozinha!"); e culmina na
conquista do espaço íntimo ("... lá em cima... é o meu quarto... e a minha
cama!"**). Esta gradação espelha o avanço da ambição e do domínio de Abbie
sobre a casa. Ela marca a sua afirmação progressiva como senhora da
propriedade, expandindo o seu controlo desde o pórtico exterior até ao centro
da casa (cozinha) e, finalmente, ao território do desejo e do leito conjugal.
Ao ficar perante a madrasta pela primeira vez, Eben começa
por rejeitar, de forma insolente e agressiva ("Não! Vai pró Diabo!");
passa pela fúria de ressentimento patrimonial ("... comprou-a... como quem
compra uma pega!"); hesita momentaneamente, hipnotizado, ao sentir o toque
da mulher ["Eben (estupidificado, como que hipnotizado): Sim!..."]; e
reage com uma explosão de defesa desesperada ("Não, velha bruxa! Tenho-te
ódio!"). Esta gradação revela a perda de controlo psicológico e o combate
interior (psicomaquia) do jovem. À medida que a sedução de Abbie se
intensifica, o facto de se escudar na arrogância verbal vai ruindo, forçando o
caçula a recorrer a uma explosão de ódio e insulto para não sucumbir
imediatamente ao desejo incestuoso.
Após o regresso, a reação de Ephraim à situação com que se
depara em casa vai evoluindo ao longo da cena. Assim, começa por se mostrar
espantado e irritado perante a falta de trabalho ("Por que não estão a
trabalhar?"); depois gagueja e mostra-se atrapalhado face à insolência
dos filhos; evolui para a fúria cega de ameaças e rogo de pragas ("A
minha maldição vos cubra!" / "ficam com os ossos num
feixe!"); e culmina numa espécie de delírio teológico e desespero
fanático ("Senhor Deus dos Exércitos, esmaga esses filhos sem vergonha
com a pior das Tuas maldições!" / "Eu valho por dez de
vós..."). Esta gradação mostra o desmantelamento da figura omnipotente
do patriarca. O seu poder e controlo degrada-se até se converter em gritos
impotentes ao céu, revelando a aridez, a solidão e o isolamento em que o velho
de 75 anos fica confinado após o abandono dos filhos.
Ao contemplar a propriedade com o desejo de posse e erguer a
cabeça para o céu, Eben interpela a presença invisível da mãe: "Olinha,
estás a ouvir? Minha!". O jovem dirige-se ao espírito da mãe como se
esta estivesse presente no espaço cénico. A apóstrofe evidencia a obsessão
edipiana do jovem e a sua necessidade de validação materna: ao reclamar a posse
da quinta, o caçula fala diretamente com a falecida para lhe oferecer a vitória
patrimonial como reparação pelas injustiças que ela sofreu em vida.
Perante a rebeldia e fuga dos filhos, Ephraim ergue os
braços ao céu e interpela a figura divina, no sentido de os castigar
fortemente: "Senhor Deus dos Exércitos, esmaga esses filhos sem
vergonha com a pior das Tuas maldições!"; "Deus dos
patriarcas! Deus dos solitários!". Estes excertos expressam o
fanatismo religioso, a solidão existencial e a rigidez do patriarca. Ao invocar a divindade, Cabot procura ancorar
a sua autoridade abalada numa sanção divina, evidenciando a sua incapacidade de
afeto humano e a sua aridez espiritual.
Enquanto se afastam pela estrada, abandonando a casa
paterna, Simeon e Peter cantam festivamente: "Oh! Califórnia, | Tu és a
terra pra mim! / Vou-me já pra Califórnia! / Lavar muito ouro sem fim!".
Os dois irmãos dirigem-se à Califórnia como se fosse uma terra prometida e
libertadora. A apóstrofe sacraliza o mito do Oeste Dourado, funcionando como um
cântico de alforria que celebra o fim do confinamento na Nova Inglaterra e a
conquista da liberdade e da independência. Pela parte dos irmãos, ao cruzarem o
portão, interpelam diretamente o pai de forma desrespeitosa e injuriam-no,
dessacralizando a autoridade paterna: o tirano que dominava a herdade é
reduzido a um "velho coiro", impotente perante a partida
definitiva dos filhos ("Tu, meu velho coiro! Adeus!").
No início da cena, diante do silêncio emburrado de Eben ao
pequeno-almoço, Simeon atira sarcasticamente a Peter: "Lamentando os
seus pecados da carne!". Desta forma, troça com a culpa puritana de
Eben após ter estado com a prostituta Min. O sarcasmo desvaloriza o dilema
moral do caçula, reduzindo o seu sofrimento existencial a um motivo de piada
material entre os irmãos mais velhos.
Na ausência do pai, Eben demonstra um certo entusiasmo por
se julgar o novo senhor da propriedade, mas Simeon adverte-o com ironia: "És
o dono... até ele chegar... Pois és só um criado de lavoura que és tu!".
A ironia expõe a ilusão do poder de Eben e põe a nu a contradição entre a
megalomania do jovem (que se julga herdeiro da quinta) e a crua realidade da
sua condição: na prática, ele continua a ser um mero "criado de
lavoura" sem qualquer autoridade real perante a figura esmagadora do
patriarca.
Enquanto esperam por Ephraim no portão antes de partirem
para a Califórnia, Peter exclama com um riso trocista: "E para lhe
darmos a ele o beijo da despedida!". O "beijo da
despedida" atua como uma ironia mordaz e sarcástica. A expressão evoca
um gesto tradicional de afeto, respeito ou reconciliação familiar, quando, na
verdade, os irmãos se preparam para desconsiderar o pai, executando uma dança
de guerra zombeteira e atirando-lhe pedras às janelas da casa. Quando o
patriarca surge de surpresa e questiona a falta de trabalho na quinta, Simeon
responde com frieza e sarcasmo: "Estávamos à sua espera para o
receber... e à noiva!". Ele simula uma atitude de cortesia e
celebração familiar para mascarar a provocação e o desprezo. A ironia
desconcerta o velho patriarca de 75 anos, transformando a chegada da nova
esposa num espetáculo de escárnio público.
Em resposta às acusações de Cabot de que os filhos foram
corrompidos pela "cobiça do ouro, do pecaminoso e fácil ouro da
Califórnia"), Simeon desafia: "E não gostavas de que a gente te
mandasse algum desse ouro pecaminoso, ó pecador encardido?". O filho
apropria-se do vocabulário puritano do pai ("pecaminoso",
"pecador") para lhe devolver uma estocada irónica e sarcástica.
Desmascara a hipocrisia de Ephraim, sugerindo que, apesar de todo o seu fervor
religioso, o velho avarento não recusaria o ouro vindo do "pecado".
Perante Abbie, o pai procura desqualificá-lo, afirmando com
desprezo: "Não precisas de poupar o Eben. O Eben é um pateta... como a
mãe... pacato e simplório!". Cabot julga que o filho é inofensivo e
incapaz de rebelião, no entanto a realidade é que esse "pateta"
acabará por se unir sexual e afetivamente a Abbie, consumar a usurpação do
leito conjugal e destruir o império moral do progenitor.
Simeon avisa o pai de que a rivalidade entre Eben e Ephraim
não terminará bem: "Dentada de cão cura-se com pelo do mesmo cão. A
ti te há de ele comer, velhote!"**. Embora Simeon profira esta frase num
tom de deboche e risada sardónica, pressagiando com precisão a destruição do
velho patriarca através do filho mais novo, que devorará a autoridade e o
património do progenitor ao conquistar o amor e o corpo da madrasta.
No primeiro encontro a sós na cozinha, Abbie aproxima-se de
Eben com um tom sedutor e declara: "És... o Eben? Eu sou a Abbie...
(Ri-se.) Quer dizer... a tua nova mãe!". A madrasta usa a designação
de "nova mãe" com uma ironia provocatória e sensual. Ela brinca
deliberadamente com o tabu do incesto, usando a máscara da autoridade materna
não para educar ou acolher o enteado, mas como um jogo erótico de manipulação e
dominação sobre o jovem.
Por último, quando Ephraim chama solenemente ao "Deus
dos patriarcas", Eben interrompe com troça: "Atraindo as suas
ovelhas ao pecado! O seu Deus que vá para o Inferno!". O caçula
recorre ao sarcasmo para desmantelar a religiosidade do pai. Ao parodiar a
metáfora do Bom Pastor e mandar o Deus puritano "para o Inferno",
Eben nega qualquer autoridade moral ao patriarca, assinalando a falência
espiritual do lar dos Cabot.
f) Características da tragédia clássica grega
A quarta cena acolhe elementos estruturantes do drama trágico
clássico. A hybris (insolência e desmedida) manifesta-se tanto no fanatismo
religioso e orgulho cego de Ephraim, como no desejo possessivo e absoluto de
Abbie e Eben pela conquista da casa. A anagnórise e a peripécia ocorrem com a
chegada da nova esposa e a partida dos irmãos, alterando radicalmente a
estrutura de poder da quinta. A atração imediata e perturbadora entre Eben e a
sua madrasta reencarna o mito trágico de Fedra e Hipólito, insinuando a
inevitabilidade de um incesto trágico imposto pelo Fado (Moira). A maldição
paterna lançada ao céu por Ephraim retoma a tradição das pragas familiares e
das teias de culpa hereditária. Além disso, o comportamento ritualístico de
Simeon e Peter ao arrancarem o portão, executarem uma dança de guerra e
partirem os vidros mimetiza um ato de profanação e rutura com a ordem sagrada
do lar doméstico.
g) Elementos simbólicos
Os
elementos cénicos e materiais da quarta cena possuem uma elevada carga
simbólica. O portão e a cancela de pedra representam a opressão, a demarcação
da propriedade e a escravidão secular dos filhos; o ato de arrancar a cancela
dos gonzos e levá-la sob o braço simboliza a destruição física das cadeias do
patriarcado e a conquista da liberdade. As moedas de ouro de vinte dólares,
retiradas do esconderijo sob o soalho junto ao fogão, simbolizam o sangue e a
herança espiritual da mãe falecida de Eben, funcionando como a moeda de
alforria dos irmãos e o instrumento de reparação histórica. A janela da sala
quebrada pelas pedras representa a destruição da fachada de respeitabilidade e
puritanismo da casa. A cozinha e o fogão funcionam como o centro sagrado da
memória materna, que é profanado e tomado por Abbie quando esta começa a lavar
a sua louça. Finalmente, a canção da Califórnia atua como o hino de evasão e
símbolo da promessa dionisíaca de utopia e prosperidade no Oeste.
h) Análise ideológica da cena
Sob a
perspetiva ideológica, a cena apresenta uma crítica devastadora ao materialismo
possessivo e à falência moral da sociedade puritana e patriarcal. O'Neill expõe
como a obsessão pela propriedade privada e pelo domínio da terra reduz todas as
relações humanas a meros vínculos de troca, exploração e poder. A retórica
religiosa de Ephraim Cabot é desmascarada como uma ideologia de
autojustificação que utiliza o nome de Deus para sancionar a tirania
doméstica, a ganância e a opressão dos filhos. Paralelamente, o relato
autobiográfico de Abbie introduz uma contundente crítica social à condição da
mulher no século XIX, mostrando que a sua conduta implacável resulta da
miséria, da exploração do trabalho feminino e da urgência de obter a posse de um
lar para garantir a sobrevivência. Por fim, a partida de Simeon e Peter para a
Califórnia estabelece o contraste entre o Feudalismo Agrário sufocante da Nova
Inglaterra e o Mito da Fronteira do Capitalismo nascente, onde a busca do ouro
surge como a única via de libertação individual face ao jugo da autoridade
paterna.