Português

domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Análise da cena III do ato I de O Mercador de Veneza

    A cena III do primeiro ato de O Mercador de Veneza constitui um dos momentos de maior densidade dramática e ideológica da obra, onde as tensões financeiras, religiosas e pessoais da sociedade veneziana se cruzam numa praça pública. A ação inicia-se com a negociação direta de um empréstimo de três mil ducados por um prazo de três meses entre Bassânio e Shylock, garantido pela fiança de António. Desde os primeiros instantes, Shylock adota uma postura de extrema cautela e cálculo, repetindo sistematicamente os termos do acordo para avaliar minuciosamente a viabilidade financeira do fiador. Quando questionado por Bassânio sobre a solvabilidade de António, Shylock esclarece que, ao considerá-lo um homem "bom", refere-se estritamente à sua capacidade de pagamento no plano comercial, e não a uma avaliação de caráter moral. Ele procede a um levantamento detalhado e pragmático dos bens de António, observando que a fortuna do mercador se encontra dispersa de forma incerta por navios que navegam para destinos globais como Trípoli, Índia, México e Inglaterra. Esta análise fria expõe a fragilidade intrínseca do comércio marítimo da época, no qual Shylock compara navios a meras tábuas e marinheiros a homens vulneráveis aos perigos naturais e humanos, que incluem tempestades, escolhos, piratas e ladrões de terra e de mar. Apesar destes riscos inerentes, o agiota conclui que António é um garante viável e aceita a fiança.
    A dimensão do conflito religioso e cultural entre a comunidade judaica e a maioria cristã de Veneza surge de imediato através de uma recusa de convívio social. Convidado por Bassânio para jantar, Shylock rejeita veementemente a proposta, evocando as suas convicções alimentares e religiosas para recusar o consumo de carne de porco, animal associado ao episódio bíblico em que o Nazareno exorcizou demónios. Shylock estabelece de forma categórica as fronteiras da sua integração na sociedade veneziana, afirmando estar plenamente disponível para realizar transações comerciais, conversar e passear com os cristãos, mas recusando firmemente comer, beber ou orar com eles.
A chegada de António à praça pública precipita a revelação do ódio visceral e acumulado de Shylock, expresso inicialmente através de um aparte íntimo. O ressentimento do agiota tem raízes duplas: por um lado, uma aversão religiosa ao cristão; por outro, e de forma predominante, uma rutura ideológica e económica, uma vez que António empresta dinheiro gratuitamente, depreciando a taxa de juro praticada no mercado de Veneza. Adicionalmente, Shylock lamenta o desprezo público que António demonstra no Rialto em relação à sua pessoa, às suas operações e aos seus lucros, aos quais o mercador chama usura. Ele jura, por isso, saciar este antigo rancor e nunca perdoar o cristão, caso consiga obter alguma vantagem sobre ele.
    O diálogo que se segue converte-se num aceso debate teológico e ético sobre a usura e a legitimidade do lucro. António, embora declare que abomina a prática de cobrar ou pagar juros, justifica a sua cedência como uma exceção excecional destinada a socorrer as necessidades financeiras urgentes do seu amigo Bassânio. Shylock, por seu turno, recorre à história bíblica de Jacob e Labão para legitimar a cobrança de juros, argumentando que a astúcia utilizada por Jacob para multiplicar o seu gado malhado foi abençoada pelo Céu, estabelecendo um paralelo entre a proliferação biológica e a acumulação financeira. António rejeita vigorosamente esta analogia, contrapondo que o sucesso de Jacob resultou da providência divina e não do artifício humano, e questiona ironicamente se o ouro e a prata de Shylock são comparáveis a ovelhas e carneiros capazes de se reproduzirem. Em conversa paralela com Bassânio, António adverte-o de que o demónio é mestre em citar as Sagradas Escrituras para justificar as suas perversidades, comparando a hipocrisia de Shylock a um facínora risonho ou a um fruto belo que esconde a podridão interior.
    O clímax verbal da cena ocorre quando Shylock confronta António com a hipocrisia do seu pedido de ajuda, lembrando as agressões verbais e físicas que suportou pacientemente no Rialto, onde António o alcunhou de usurário, lhe chamou cão danado, escarrou na sua capa hebraica e o pontapeou. Diante deste historial de humilhações, Shylock questiona com sarcasmo e amargura se um cão teria capacidade para emprestar três mil ducados ou se deveria curvar-se servilmente para agradecer as ofensas passadas. Num gesto de soberba, António não só não demonstra qualquer arrependimento, como afirma que voltará a cuspir-lhe e a pontapeá-lo, exigindo que o dinheiro lhe seja emprestado não como a um amigo, mas como a um inimigo, o que facilitará a execução severa da lei em caso de incumprimento.
    Numa reviravolta psicológica inesperada, Shylock dissimula o seu rancor e propõe um pacto de aparente amizade, oferecendo-se para emprestar a soma pretendida sem cobrar qualquer juro. Em contrapartida, sugere uma escritura a assinar perante o tabelião, estipulando que, caso a dívida não seja liquidada na data exata, Shylock terá o direito de cortar uma libra de carne humana de qualquer parte do corpo de António. Apesar dos alertas e protestos desesperados de Bassânio, que prefere manter-se na pobreza a ver o seu amigo assinar um contrato tão macabro, António aceita a condição com extrema autoconfiança, assegurando que os seus navios retornarão com lucros muito superiores um mês antes do vencimento. Para desarmar as suspeitas, Shylock ridiculariza a desconfiança dos cristãos, argumentando que uma libra de carne humana não possui qualquer valor comercial ou utilidade prática quando comparada com a carne de vaca, cabra ou carneiro. António despede-se de Shylock apelidando-o de "judeu obsequioso" e especulando sobre a sua eventual conversão ao cristianismo, numa demonstração de soberba e cegueira trágica que contrasta com a premonição final de Bassânio, que continua a desconfiar profundamente das intenções ocultas por trás de tão repentina generosidade.
    Como justifica Shylock moralmente a cobrança de juros? Ele fundamenta a justificação moral da cobrança de juros recorrendo a uma importante narrativa bíblica do Antigo Testamento, centrada na figura de Jacob, neto do patriarca Abraão. Reconta o episódio em que Jacob, enquanto pastoreava os rebanhos do seu tio Labão, estabeleceu um acordo contratual pelo qual todos os cordeiros que nascessem listrados ou malhados lhe pertenceriam por direito. Através de uma estratégia astuta, Jacob colocou varas descascadas diante das ovelhas no momento da conceção, influenciando a gestação dos animais de modo a que estes dessem à luz crias malhadas, multiplicando assim a sua riqueza de forma inteligente. A partir deste exemplo, Shylock extrai a sua máxima moral mais importante: a de que todo o lucro que não proceda de roubo direto é abençoado pelo Céu. Para ele, a astúcia e a capacidade de fazer frutificar os recursos disponíveis não constituem um pecado ou uma fraude, mas sim uma forma de esforço e engenho que merece ser recompensada e abençoada, tal como a providência divina abençoou a multiplicação dos rebanhos de Jacob. Quando confrontado com o argumento de que o ouro e a prata são metais estéreis e que, ao contrário de carneiros e ovelhas, não possuem a capacidade natural de se reproduzir, rejeita esta distinção moral e filosófica. Ele responde com pragmatismo que o seu único objetivo é fazer com que os seus bens produzam e se multipliquem, vendo no capital financeiro um recurso ativo que, sob a égide de contratos claros e da habilidade pessoal, pode e deve ser gerado para criar riqueza legítima.
    Como as ofensas passadas influenciam a atitude de Shylock nesta cena? Essas ofensas moldam profundamente a atitude do agiota, atuando como o combustível emocional e psicológico que dita o seu ressentimento, a sua ironia e a sua estratégia de vingança. No plano interno, os abusos sofridos no Rialto — onde António frequentemente gozava da sua pessoa, das suas transações financeiras e dos seus lucros legítimos, apelidando-o de usurário — alimentam um ódio antigo e visceral. Shylock sente que estas ofensas não são apenas ataques pessoais, mas também uma agressão direta à sua religião e à sua comunidade, o que o leva a jurar solenemente que nunca perdoará o mercador, sob pena de amaldiçoar a sua própria tribo. No confronto direto, a memória dessas humilhações transforma-se numa poderosa arma retórica que Shylock utiliza para expor a extrema hipocrisia de António. Com um sarcasmo cortante, o judeu recorda detalhadamente como o mercador lhe chamou herege e cão danado, como cuspiu na sua capa hebraica e como o pontapeou para fora da sua presença como se de um animal vadio se tratasse. Ao ser agora abordado por esse mesmo homem que lhe vem pedir um favor financeiro, Shylock confronta-o com o absurdo da situação, questionando ironicamente se um cão tem capacidade para emprestar três mil ducados ou se ele deveria curvar-se de forma servil e agradecer a saliva que lhe molhou o rosto na quarta-feira anterior. Esta humilhação sofrida no passado justifica, na mente de Shylock, a dureza com que aborda a negociação, recusando-se a assumir uma postura arrogante de superioridade moral sem antes expor as feridas abertas pelo comportamento do mercador. Finalmente, estas ofensas são a causa direta da armadilha mortal que o agiota decide armar. Embora finja desejar a reconciliação e a amizade de António ao oferecer um empréstimo sem juros para supostamente esquecer os agravos passados, a escolha da terrível penalidade de uma libra de carne humana revela o seu verdadeiro plano. A exigência de cortar um pedaço do próprio corpo de António em caso de incumprimento é a tradução física e literal do desejo de Shylock de saciar o seu antigo rancor, utilizando a própria lei de Veneza para punir o homem que tanto o humilhou e desprezou publicamente.
    Como Shylock descreve os riscos dos negócios de António? O judeu descreve os negócios e os haveres de António como sendo de uma natureza essencialmente eventual e incerta, devido à enorme exposição a múltiplos fatores imprevisíveis. Ele salienta que a fortuna do mercador não está salvaguardada num local seguro, mas sim dispersa pelo mundo em frotas comerciais que navegam rumo a destinos longínquos como Trípoli, Índia, México e Inglaterra, além de outras embarcações espalhadas por diferentes pontos do globo. Para demonstrar a fragilidade desta estrutura comercial, Shylock desconstrói a aparente solidez das frotas ao lembrar, com grande pragmatismo, que os navios não passam de tábuas de madeira e que os marinheiros são apenas homens, estando ambos sujeitos à destruição e à fragilidade humana. A esta vulnerabilidade material, ele acrescenta as ameaças físicas e humanas que rondam os bens de António, observando que existem ratos na terra e ratos no mar, bem como ladrões em terra e ladrões no mar, identificando estes últimos diretamente como piratas prontos a saquear as riquezas. Por fim, Shylock destaca as forças destrutivas da própria natureza, como os perigos do vento, das águas do mar e dos escolhos traiçoeiros que podem afundar as embarcações a qualquer instante. No entanto, mesmo após mapear minuciosamente toda esta teia de perigos iminentes, ele conclui a sua avaliação considerando que, apesar de tudo, António possui capacidade financeira suficiente para que a sua fiança seja aceite.

Análise de O Mercador de Veneza

 I. Contexto


II. Resumos

    2.1. Resumo da peça

    2.2. Resumo das cenas

            2.2.1. Cena I, Ato I

            2.2.2. Cena II, Ato I

            2.2.3. Cena III, Ato I

            2.2.4. Cena I, Ato II

            2.2.5. 

    2.3. Análise das cenas

            2.3.1. Cena I, Ato I

            2.3.2. Cena II, Ato I

            2.3.3. Cena III, Ato I

            2.3.4. Cena I, Ato I

            2.3.5. 


III. Personagens

    3.1. Caracterização

            1. António

            2. Bassânio

            3. Pórcia

            4. Lourenço

            5. Graciano

            6. Salarino e Salânio

            7. Falconbridge

            8. Nerissa

            9. Sobrinho do duque de Saxe

            10. Criado de Pórcia


    3.2. Papel / Relevo

    3.3. Representatividade

    3.4. Relações entre as personagens

            1. António e Bassânio


IV. Espaço

    4.1. Físico / Geográfico

    4.2. Social

    4.3. Psicológico


V. Tempo

    5.1. Histórico

    5.2. Da ação

    5.3. Do discurso

    5.4. Psicológico


VI. Linguagem


VII. Elementos simbólicos


VIII. Temas

    8.1. A visão do estrangeiro


Resumo da cena III do ato I de O Mercador de Veneza

    A cena III do ato I decorre numa praça pública em Veneza, onde se inicia uma negociação financeira de alta tensão entre Bassanio e o agiota judeu Shylock. O primeiro tenta obter um empréstimo de três mil ducados por um prazo de três meses, oferecendo o seu amigo, o rico mercador António, como fiador da dívida. Shylock avalia minuciosamente a solvabilidade de António, observando que, embora a sua fortuna esteja dispersa em navios mercantes a caminho de destinos distantes como Trípoli, Índia, México e Inglaterra, o risco dos mares, dos piratas e dos rochedos torna os seus haveres incertos. Apesar disso, o agiota conclui que António é um garante viável e aceita a fiança.
    O conflito ideológico e religioso estala de imediato quando Bassanio convida Shylock para jantar. Este recusa terminantemente, invocando as suas convicções religiosas sobre a carne de porco e afirmando que, embora esteja disposto a comprar, vender e conversar com os cristãos, nunca comerá, beberá ou rezará com eles. Com a chegada física de António, Shylock revela num aparte o seu profundo ressentimento. Ele confessa aborrecer o mercador não só por ser cristão, mas principalmente porque António empresta dinheiro sem juros, depreciando a taxa de usura em Veneza. O judeu recorda também o ódio antigo que nutre por António devido às constantes humilhações públicas que este lhe infligiu no Rialto, onde frequentemente escarneceu dos seus negócios e o insultou.
    No confronto direto, o mercador esclarece que vai abrir uma exceção à sua regra rígida de nunca pedir nem emprestar com juros para acudir à necessidade urgente do seu amigo. Segue-se uma discussão teológica sobre a legitimidade do lucro financeiro: Shylock recorre à história bíblica de Jacob e dos rebanhos de Labão para justificar que a multiplicação de bens através da astúcia é abençoada. António descarta este argumento, afirmando que a prosperidade de Jacob foi obra da vontade divina e não da usura, alertando Bassanio, em voz baixa, de que até o demónio é capaz de citar as Sagradas Escrituras para justificar as suas más ações.
    A tensão atinge o clímax quando Shylock confronta diretamente António com o seu comportamento passado, lembrando-lhe de como este o chamou de cão, cuspiu na sua capa hebraica e o pontapeou, questionando agora com que direito lhe vem pedir dinheiro. António, longe de se retratar, responde com arrogância que voltará a cuspir-lhe e a pontapeá-lo, exigindo que o dinheiro lhe seja emprestado não como a um amigo, mas sim como a um inimigo, para que Shylock possa aplicar a lei com toda a severidade em caso de incumprimento.
    Para surpresa de todos, o agiota simula uma atitude de reconciliação e generosidade, propondo um pacto de amizade sem cobrança de juros. Em vez disso, sugere uma "escritura de brincadeira" a ser assinada perante um tabelião: se António não devolver a soma exata no dia estipulado, Shylock terá o direito a uma libra de carne humana, a ser cortada de qualquer parte do corpo do mercador que o agiota escolher. Apesar dos veementes protestos e suspeitas de Bassanio, que implora ao amigo para não assinar tal contrato, António aceita o acordo com confiança absoluta, assegurando que os seus navios regressarão com valores muito superiores um mês antes do prazo de vencimento. Shylock retira-se para recolher os ducados e preparar o documento, deixando António convencido da súbita benevolência do judeu, enquanto Bassanio permanece profundamente desconfiado das reais intenções por trás de tanta condescendência.

Linguagem de O Mercador de Veneza

    A linguagem na cena de abertura de O Mercador de Veneza destaca-se pela sua extraordinária riqueza metafórica, plasticidade poética e pela constante fusão entre o vocabulário das finanças e o da afetividade. Shakespeare utiliza diferentes registos e estilos retóricos para caracterizar as personagens e estabelecer os contrastes temáticos que guiarão toda a peça.
    O diálogo inicial entre Salarino, Salânio e António é dominado por uma linguagem altamente visual, hiperbólica e descritiva. Para expressar a magnitude dos negócios de António, Salarino recorre à personificação das forças da natureza e das próprias embarcações. Os navios mercantes são descritos com termos de nobreza e imponência, sendo chamados de "senhores do oceano" e "orgulhosos" na sua mastreação, enquanto as embarcações mais pequenas são vistas como súbditos humildes que lhes fazem vénias.
    A genialidade lírica desta exposição reside na forma como a linguagem transforma gestos domésticos e quotidianos em presságios de catástrofe marítima. O ato de soprar a sopa quente para a arrefecer transforma-se na imagem mental de um vento tempestuoso e destruidor; o olhar sobre a areia a escorrer numa ampulheta evoca de imediato os baixios arenosos e o naufrágio simulado de um navio que "beija a sua sepultura"; a visão das pedras de mármore de uma igreja evoca os rochedos perigosos que podem despedaçar as embarcações. Esta acumulação de imagens marinhas cria uma atmosfera de constante risco e suspense, onde a opulência e a miséria extrema estão separadas apenas pela fragilidade de uma tábua de madeira sobre as ondas.
    Em forte contraste com a expansão poética e ansiosa dos seus companheiros, a linguagem de António é caracterizada pela sobriedade, contenção e brevidade. António expressa-se através de frases diretas e de um tom lacónico que reflete o seu estado de espírito melancólico. Quando formula a célebre metáfora do theatrum mundi — o mundo como um palco onde cada um representa um papel —, fá-lo de forma resignada e fatalista, despindo a linguagem de qualquer ornamento desnecessário.
    Esta solenidade é vigorosamente desafiada pela linguagem exuberante, física e satírica de Graciano. Graciano utiliza uma retórica assente no corpo, na vitalidade e no humor, recorrendo a termos como "sangue quente", "fígado" e "riso" para combater a apatia. As suas comparações são grotescas e incisivas: compara o homem excessivamente solene a uma "inanimada estátua de alabastro de seu avô" ou a uma "água estagnada coberta de escuma". Através de uma sátira mordaz, Graciano desconstrói a autoridade do silêncio, ridicularizando aqueles que usam a gravidade artificial para parecerem "oráculos" imperturbáveis.
    Quando a sós com António, a linguagem de Bassânio assume uma vertente altamente retórica e persuasiva. Sendo um devedor a pedir mais capital ao seu principal credor, ele evita inicialmente a crueza dos termos financeiros através de analogias poéticas e narrativas de infância. A famosa "metáfora da seta" é um exemplo perfeito de como Bassânio utiliza uma linguagem lúdica e escolar para suavizar a realidade de um novo empréstimo de alto risco, transformando um ato de especulação financeira numa aventura romântica e justificada pela insistência.
    No entanto, o momento mais marcante do discurso de Bassânio ocorre quando ele descreve Pórcia. Aqui, a linguagem transita do registo pragmático da dívida para o universo elevado do mito e da Antiguidade Clássica. Bassânio utiliza uma rede de alusões mitológicas para idealizar a sua amada e a sua missão. Pórcia não é apenas uma mulher rica; ela é comparada à Pórcia romana, esposa de Bruto, e os seus cabelos loiros são descritos como um "velo de oiro" (o velocino de ouro). Consequentemente, a viagem a Belmonte deixa de ser uma mera tentativa de casamento por conveniência económica e passa a ser descrita como uma epopeia clássica, onde os pretendentes são "Jasões" em busca de uma conquista heroica na "nova Cólquida".
    Por fim, o aspeto linguístico mais revelador desta cena é a interpenetração constante entre os campos semânticos do afeto e do comércio. Ao longo de todo o diálogo, as palavras associadas à economia ("recursos", "dívidas", "credores", "fortuna", "crédito", "haveres") surgem lado a lado com termos de profunda intimidade emocional ("coração", "amizade", "dedicação", "afeto", "amor"). Quando Bassânio diz que é a António que a sua bolsa e o seu coração são mais devedores, ou quando António responde oferecendo a sua "bolsa", a sua "pessoa" e os seus "haveres", a linguagem mostra que, no universo da peça, os laços humanos e os laços financeiros estão indissociavelmente unidos. O amor e a amizade exprimem-se e validam-se através de conceitos de fiança, risco e compromisso material, antecipando a forma como toda a intriga dramática se estruturará em torno de um contrato de carne e de um anel de noivado.
    A cena inicial em Belmonte, situada num quarto privado do castelo de Pórcia, estabelece um forte contraste com a agitação mundana de Veneza ao introduzir um diálogo intimista e profundamente reflexivo. Confrontada com o cansaço de Pórcia perante a constante receção de pretendentes, Nerissa assume o papel de conselheira e apresenta a filosofia da mediania como a verdadeira chave para a felicidade, argumentando que o excesso de abundância apressa a velhice, enquanto o bem-estar moderado prolonga a existência. Pórcia elogia a lucidez desta máxima, mas contrapõe de forma realista sobre a fragilidade da natureza humana, lembrando que é infinitamente mais fácil ensinar aos outros o caminho da virtude do que ser um dos que o pratica. Para a herdeira, a razão dita regras frias aos sentidos, mas o temperamento ardente da juventude comporta-se como uma lebre audaz que salta com facilidade sobre as redes impotentes da razão.
    Este conflito entre a imposição racional e o desejo de liberdade culmina na angústia existencial de Pórcia de ter a sua vontade de filha viva inteiramente subjugada aos preceitos e ao testamento de um pai morto, o que a impede de escolher quem lhe agrada ou de rejeitar quem detesta. No entanto, Nerissa defende a virtude do falecido progenitor, sustentando que as almas santas têm boas inspirações no momento da morte, e que o teste por ele idealizado — a lotaria dos três cofres de oiro, prata e chumbo — garantirá que apenas o parceiro ideal conseguirá decifrar o mistério. A presença do número três nesta escolha encerra um profundo simbolismo moral e espiritual de provação, totalidade e integridade. Esta tríade metálica funciona como um filtro para a alma humana: o oiro representa a tentação material e o deslumbramento pelas aparências enganadoras; a prata simboliza a vaidade intelectual e a ilusão do mérito próprio; ao passo que o chumbo, pela sua humildade e peso, exige o despojamento absoluto, o sacrifício e a aceitação do risco, sendo o único material que encerra a essência do amor incondicional.
    Para testar a inclinação da sua senhora, Nerissa começa a nomear os pretendentes presentes no castelo, permitindo que Pórcia os analise através de uma sátira mordaz que desconstrói os estereótipos das nações europeias. O príncipe napolitano é ridicularizado como um jovem pretensioso cuja única obsessão é falar sobre o seu cavalo e gaba-se de o ferrar pessoalmente, levando Pórcia a insinuar que a sua mãe poderá ter tido amores com um ferrador. O conde palatino personifica a melancolia estéril, recusando esboçar um único sorriso mesmo diante das histórias mais divertidas, o que faz Pórcia preferir desposar uma caveira com um osso atravessado na boca a unir-se a um homem tão sombrio. O fidalgo francês, Monsieur Le Bon, surge como uma caricatura sem identidade própria que tenta imitar os piores hábitos de todos os outros; ele agita-se de forma errática, dançando ao ouvir o canto de um melro ou esgrimindo contra a sua própria sombra, o que, para Pórcia, equivaleria a casar com vinte maridos diferentes.
    O barão inglês, Falconbridge, embora seja reconhecido como uma bonita estampa de homem, é descrito como uma estátua muda devido a uma barreira linguística intransponível, não dominando o latim, o francês ou o italiano. A sua superficialidade é acentuada por um vestuário caótico que mistura de forma bizarra modas acumuladas em Itália, França e Alemanha. O lorde escocês é satirizado pela sua passividade e aparente cobardia ao tolerar uma bofetada do inglês com a mera promessa de uma retribuição futura, tendo o fidalgo francês como fiador fictício dessa vingança. Por fim, o jovem alemão, sobrinho do duque de Saxe, é retratado de forma inteiramente degradante como um bêbado abominável cuja existência é regulada pelo álcool, mostrando-se detestável logo pela manhã e piorando à tarde até se comportar como um animal irracional. Para evitar a desgraça de casar com uma esponja, Pórcia planeia sabotar a sua escolha sugerindo colocar um copo de vinho sobre o cofre errado, sabendo que ele capitulará perante a tentação sensorial.
    O alívio surge quando Nerissa revela que estes pretendentes decidiram regressar às suas pátrias sem realizar o teste por recusarem sujeitar-se às regras estritas do testamento. Pórcia reafirma a sua determinação em cumprir a vontade do pai, jurando que, mesmo que viva até à idade da profética sibila, preferirá morrer tão casta como a deusa Diana a casar-se fora das regras paternas. É neste momento de cumplicidade que recordam a figura de Bassânio, um veneziano instruído e valente que visitara outrora o castelo, sendo por ambas lembrado como o homem mais digno do amor de uma formosa donzela. No entanto, a entrada de um criado interrompe o recolhimento ao anunciar a despedida dos estrangeiros e a chegada iminente do príncipe de Marrocos. Pórcia encerra a cena exteriorizando as tensões raciais e estéticas da época, ao declarar que, mesmo que o recém-chegado possua as qualidades de um santo, a sua aparência escura a fará preferi-lo sempre como confessor do que como marido, retirando-se todas as personagens sob uma atmosfera de grande expectativa e pressão temporal.

Temas de O Mercador de Veneza

1. A visão do estrangeiro
    A sátira aos pretendentes estrangeiros na cena II do ato I constitui um dos momentos mais brilhantes da comédia shakespeariana, servindo para expor e ridicularizar, através do olhar aguçado e irónico de Pórcia, os principais estereótipos nacionais da Europa da época. Este jogo cómico inicia-se com a caracterização do príncipe napolitano, retratado como um jovem excessivamente pretensioso e cuja única obsessão reside na conversa sobre o seu cavalo e no orgulho que extrai da sua própria capacidade de o ferrar pessoalmente, o que leva Pórcia a ironizar maliciosamente que a mãe dele terá certamente tido amores com um ferrador. Logo a seguir, o conde palatino é satirizado pela sua melancolia extrema e incurável, apresentando sempre um semblante carregado e uma expressão taciturna que parece exigir de Pórcia uma escolha imediata; a sua total incapacidade de sorrir, mesmo diante das histórias mais divertidas, faz prever que ele se transformará num filósofo lacrimejante com o avançar da idade, levando a herdeira a declarar de forma dramática que preferiria desposar uma caveira com um osso atravessado na boca a unir-se a um homem tão sombrio.
    O fidalgo francês, Monsieur Le Bon, surge como uma caricatura da inconsistência e da falta de personalidade própria, sendo descrito como um homem que tenta imitar e agradecer os trejeitos de todos os outros sem possuir qualquer substância individual. Ele gaba-se de ter um cavalo melhor do que o do napolitano e exibe um semblante ainda mais carregado do que o do conde palatino, revelando-se uma colagem de hábitos dispersos que se agita ao mais pequeno estímulo, sendo capaz de começar a dançar ao ouvir o cantar de um melro ou de esgrimir entusiasticamente contra a sua própria sombra, o que faria com que desposá-lo equivalesse a casar com vinte maridos diferentes. Por sua vez, o barão inglês Falconbridge é ridicularizado pela sua total incapacidade de comunicação e pela ausência de traquejo cultural, uma vez que a barreira linguística impede qualquer diálogo substancial por ele não dominar o latim, o francês ou o italiano; embora Pórcia reconheça que ele é uma bonita estampa de homem, lamenta que conversar com ele seja o mesmo que falar com uma estátua muda. Esta superficialidade é acentuada pelo seu vestuário absurdo, que mistura modas acumuladas sem qualquer critério em Itália, França e Alemanha, revelando que os seus modos foram adquiridos de forma dispersa em cada país por onde passou.
    A sátira estende-se ainda ao lorde escocês, cuja suposta caridade e paciência encobrem, na verdade, uma postura de cobardia e dependência política, já que tolerou uma bofetada do inglês limitando-se a jurar que lhe retribuiria o golpe quando surgisse oportunidade, contando com o francês como fiador sob um nome suposto para garantir essa futura vingança. Finalmente, o jovem alemão, sobrinho do duque de Saxe, é retratado de forma inteiramente degradante como um bêbado abominável cuja existência é regulada pelo álcool, mostrando-se detestável logo pela manhã, quando ainda se encontra em jejum, e caindo num estado ainda pior durante a tarde, quando está ébrio. Nos seus melhores momentos de sobriedade, ele é considerado pouco menos do que um homem, enquanto nos seus piores estados de embriaguez mal se diferencia de um animal irracional; para contornar a ameaça de se casar com esta autêntica esponja incapaz de resistir às tentações sensoriais, Pórcia planeia sabotar a sua escolha ao sugerir colocar um copo grande de vinho sobre o cofre incorreto, garantindo assim que a fraqueza física o desviará do caminho certo. Através deste desfile de caricaturas espirituosas, a peça desconstrói a dignidade da aristocracia internacional, transformando a busca romântica num palco de crítica social implacável.

O tempo do discurso de O Mercador de Veneza

    O tempo do discurso na cena I do ato I de O Mercador de Veneza — ou seja, a forma como o tempo da história é organizado, acelerado, desacelerado ou projetado através das falas das personagens — apresenta uma estrutura narrativa rica e dinâmica. Sendo um texto dramático, a cena assenta em convenções temporais específicas que moldam o ritmo da receção por parte do espetador.
    Por se tratar de uma peça de teatro, no que diz respeito à isocronia (o tempo real do diálogo), o modo de discurso predominante é a cena dialogada. Nesta dimensão, o tempo do discurso coincide perfeitamente com o tempo da ação (isocronia). As conversas entre os amigos, as despedidas e os desabafos entre António e Bassânio acontecem "em tempo real" diante do público. Este ritmo direto confere imediatismo e naturalidade à exposição dos conflitos e das relações afetivas.
    Por outro lado, o tempo do discurso sofre desacelerações significativas quando as personagens se entregam a longas reflexões ou descrições poéticas. Nestes momentos, a ação física "congela" ou passa para segundo plano para dar lugar à expansão lírica ou filosófica:
  • A especulação imaginativa de Salarino: ao descrever o que sentiria se tivesse frotas no mar, Salarino expande o tempo do discurso ao detalhar ações quotidianas hipotéticas (soprar a sopa quente, olhar para a areia de uma ampulheta ou contemplar o mármore de uma igreja). Esta acumulação de imagens poéticas dilata o tempo verbal, transportando o espetador para um cenário mental de catástrofe que interrompe a linearidade da rua veneziana.
  • O sermão de Graciano sobre o silêncio: o seu longo discurso sobre os homens que cultivam uma gravidade artificial para parecerem sábios funciona também como uma pausa moralista e satírica, desacelerando o ritmo da cena para contrastar a vivacidade festiva com a apatia melancólica de António.
    Para que o público compreenda o contexto sem necessidade de representação direta de anos de acontecimentos, o discurso recorre ao sumário (onde um longo período de tempo é condensado em poucas palavras). É o caso da apresentação da situação atual e do histórico financeiro de Bassânio: a personagem resume toda a sua trajetória de vida recente — caracterizada por gastos excessivos, estilo de vida luxuoso e acumulação progressiva de dívidas — em escassas linhas de diálogo. Anos de comportamento pródigo são rapidamente sintetizados para focar a atenção do público na urgência do momento presente.
    Note-se, porém, que o discurso não se limita ao presente, antes viaja constantemente no tempo através de saltos cronológicos para trás e para a frente. Assim, encontramos uma analepse quando Bassânio evoca as suas memórias de infância («Quando andava na escola...») e o seu hábito de disparar uma segunda seta para recuperar a primeira. Esta viagem ao passado serve para dar uma base lógica e afetiva ao plano de risco que propõe a António no presente. Encontramos igualmente, na cena inaugural da peça, projeções futuras (analepses), como são os casos dos repetidos agendamentos para o jantar que ocorrerá mais tarde naquele dia ou do projeto de viagem a Belmonte e a disputa pela mão de Pórcia, comparada à busca pelo velocino de ouro. O próprio encerramento da cena projeta o discurso para o espaço exterior, enviando Bassânio a indagar de imediato onde obter crédito em Veneza.
    Na cena II do ato I, o resumo (ou sumário) assume um papel preponderante durante o desfile satírico dos pretendentes. Em escassas linhas de discurso, Pórcia condensa semanas de observação e comportamentos repetidos de cada um dos candidatos — como os hábitos diários de embriaguez do sobrinho do duque de Saxe ou as atitudes teatrais do fidalgo francês. Desta forma, o tempo do discurso acelera imenso em relação ao tempo real da história, sintetizando longas vivências em breves e certeiras caricaturas verbais. Além disso, o discurso liberta-se da linearidade cronológica através de anacronias. Ocorrem momentos de analepse (retrospetiva) quando Nerissa resgata a memória do passado para recordar a visita anterior de Bassânio, transportando momentaneamente o foco do discurso para um tempo anterior à morte do pai de Pórcia. Em sentido inverso, as prolepses (projeções futuras) marcam as discussões sobre as consequências da lotaria dos cofres, os juramentos de castidade de Pórcia e o planeamento da sabotagem ao pretendente alemão com o copo de vinho, antecipando ações e escolhas que ainda estão por vir. Por fim, as reflexões morais e os aforismos que abrem a cena funcionam como verdadeiras pausas reflexivas. Embora o diálogo continue a avançar fisicamente em palco, a ação dramática estagna temporariamente para dar lugar à contemplação filosófica sobre a mediania e as fraquezas da natureza humana, suspendendo o tempo cronológico em favor de um tempo psicológico e ético. No desfecho, a entrada do criado funciona como um catalisador que rompe esta elasticidade e repõe a urgência do tempo presente, precipitando a saída das personagens e restabelecendo o ritmo acelerado dos acontecimentos.

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