Português

terça-feira, 31 de maio de 2011

Pólos estruturadores

          A acção de Memorial do Convento estrutura-se a partir da construção de três núcleos.

          O primeiro desses núcleos refere-se ao universo dos DOMINANTES, aqueles que detêm o poder e dele fazem uso em seu proveito pessoal. É constituído pela realeza e pelo clero, mais concretamente o alto clero, que, sucessivamente, nos é retratado em termos caricaturais (por exemplo, a relação sexual entre os monarcas, ou a cena em que é descrita a fuga precipitada de um frade, apanhado, em plena relação sexual, por um marido enganado).

          O segundo diz respeito ao universo dos DOMINADOS, contemplando quer os operários que trabalham na construção do convento de Mafra - cujo trabalho denodado e sacrificado o narrador não se cansa de exaltar e, em simultâneo, condenar, por resultar da vaidade e da megalomania do rei -, quer as sequências em que são denunciados a guerra, a fome, a mendicidade, a prostituição, a criminalidade, a opressão, as desigualdades sociais, etc.

          O último núcleo engloba as situações ALTERNATIVAS, isto é, a da construção do convento e a da passarola, bem como a relação amorosa vivida por Baltasar e Blimunda.

Velho do Restelo - IV, 94-104

domingo, 29 de maio de 2011

Mitificação do herói

VII, 78-87 - Correcção

1.º momento (estância 78):
  1. A invocação: "Vós, Ninfas do Tejo e do Mondego";
  2. Objectivo: pedir às Ninfas que lhe dêem inspiração para a composição da obra ("Vosso favor invoco");
  3. Razões do pedido: o receio de que, sem a inspiração das Ninfas, não seja capaz de cumprir o seu propósito ("Que, se não me ajudais, hei grande medo / Que o meu fraco batel se alague cedo").


2.º momento (estância 79 - 81): Argumentos do poeta:
  1. O poeta já cantou "o vosso Tejo e os vossos Lusitanos";
  2. Trabalhos e danos que enfrentou:
a) os perigos do mar (79, v. 5);
b) os perigos da guerra (79, v. 6);
c) a pobreza sofrida no Oriente (80, v. 1);
d) os trabalhos passados em regiões estranhas (80, v. 2);
e) as esperanças e as desilusões (80, vv. 3-4);
f) os perigos da navegação: o naufrágio que sofreu (80, vv. 5-8);
g) a ingratidão (81) dos senhores (82, v. 1) que o Poeta cantava e que, em vez de honra e glória, lhe inventaram novos trabalhos (81, vv. 7-8), levando os poetas do futuro a desistir de cantar os feitos que mereçam "ter eterna glória".


3.º momento (estâncias 82 a 86): Crítica ao exercício do poder:




4.º momento (estância 87): Intenções do poeta: cantar apenas aqueles que, arriscando a vida por Deus e pelo seu rei, merecem a imortalidade.

VII, 78-87

          Complete o esquema fornecido.


1.º momento (estância 78):
  1. A invocação: "_____________________";
  2. Objectivo: _______________________;
  3. Razões do pedido: __________________________ ("Que, se não me ajudais, hei grande medo / Que o meu fraco batel se alague cedo").

2.º momento (estância 79 - ___): Argumentos do poeta:
  1. O poeta já cantou "___________________";
  2. Trabalhos e danos que enfrentou:
a) __________ (79, v. 5);
b) __________ (79, v. 6);
c) __________ (80, v. 1);
d) __________ (80, v. 2);
e) __________ (80, vv. 3-4);
f) os perigos da navegação: __________ (80, vv. 5-8);
g) __________ (81) dos senhores (82, v. 1) que o Poeta cantava e que, em vez de honra e glória, lhe inventaram novos trabalhos (81, vv. 7-8), levando os poetas do futuro a __________ de cantar os feitos que mereçam "ter eterna glória".


3.º momento (estâncias ___ a 86): Crítica ao exercício do poder:




4.º momento (estância 87): Intenções do poeta: _______________________________

VI, 95-99 - Correcção

          Nestas estâncias, o Poeta reflecte sobre a Fama e a Glória.

          O texto pode dividir-se em quatro momentos. No primeiro, constituído pelos quatro primeiros versos da estância 95, Camões refere, genericamente, como se alcançam a imortalidade ("honras imortais") e as maiores distinções ("graus maiores"): através da capacidade de luta e de sofrimento, como fica visível nas seguintes expressões textuais: "hórridos perigos" e "trabalhos graves e temores".
          Um segundo momento localiza-se entre o verso cinco da estância 95 e o verso quatro da estância 98. Aí, são apontados os obstáculos à fama e à glória e os meios para os atingir:


          O terceiro momento, situado entre o verso cinco da estância 98 e o verso quatro da estância 99, sintetiza as qualidades necessárias àqueles que buscam a virtude: o "calo honroso" no peito, que despreza as honras e o dinheiro trazidos pela "ventura" e não pela "vertude", o entendimento esclarecido e temperado pela experiência e a libertação dos interesses mesquinhos ("baixo trato humano embaraçado").
          E o Poeta conclui, nos últimos quatro versos da estância 99, as suas reflexões, clarificando que só quem tiver percorrido este caminho poderá e deverá ascender ao poder ("ilustre mando"), sempre contra a sua vontade e nunca a seu pedido.

          Em suma, é digno de louvor e merecedor de glória aquele que se dignifica através do seu esforço, da sua capacidade de sofrimento, perseverança e humildade, bem como através do desprezo das honras e do dinheiro conquistado graças à sorte e não ao mérito pessoal. Só quem "preencher estes requisitos" poderá conquistar o "ilustre mando", não porque o peça, mas contra a sua vontade. Tal significa que só a honra e a glória alcançadas por mérito próprio poderão ser valorizadas.

VI, 95-99

          Nestas estâncias, o Poeta reflecte sobre a Fama e a Glória.
          O texto pode dividir-se em quatro momentos. No primeiro, constituído pelos _____ versos da estância 95, Camões refere, genericamente, como se alcançam a _____ (“honras imortais”) e as maiores distinções (“_____”): através da capacidade de _____ e de _____, como fica visível nas seguintes expressões textuais: “_____” e “_____”.
          Um segundo momento localiza-se entre o verso _____ da estância 95 e o verso _____ da estância ___. Aí, são apontados os obstáculos à fama e à glória e os meios para os atingir:


          O terceiro momento, situado entre o verso _____ da estância 98 e o verso quatro da estância ___, sintetiza as qualidades necessárias àqueles que buscam a virtude: o “calo honroso” no peito, que despreza as _____ e o _____ trazidos pela “_____” e não pela “vertude”, o entendimento esclarecido e temperado pela _____ e a libertação dos _____ (“baixo trato humano embaraçado”).
          E o Poeta conclui, nos últimos _____ versos da estância 99, as suas reflexões, clarificando que só quem tiver percorrido este caminho poderá e deverá ascender ao poder (“_____”), sempre contra a sua _____ e nunca a seu _____.

          Em suma, é digno de louvor e merecedor de glória aquele que se dignifica através do seu _____, da sua capacidade de _____, _____ e _____, bem como através do desprezo das _____ e do _____ conquistado graças à sorte e não ao mérito pessoal. Só quem “preencher estes requisitos” poderá conquistar o “ilustre mando”, não por-que o peça, mas contra a sua vontade. Tal significa que só a honra e a glória alcançadas por _____ próprio poderão ser valorizadas.

Tempo do discurso

          O tempo do discurso é revelado através da forma como o narrador relata os acontecimentos. Ele pode apresentá-los de forma linear, optar por retroceder no tempo em relação ao momento da narrativa em que se encontra ou antecipar situações.


1. Analepses
  • a referência a 1624: a explicação, em parte, da construção do convento como consequência do desejo expresso nesse ano, pelos franciscanos, de possuírem um convento em Mafra;
  • a referência à batalha de Jerez do los Caballeros, em "Outubro do ano passado";
  • D. Maria Ana Josefa "chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa...";
  • D. João V é "um homem que ainda não fez vinte e dois anos...";
  • "S. Francisco anda pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzentos e onze." (esta analepse e a anterior permitem deduzir a data de 1711 como a que marca o início da acção - 1211 + 500 = 1711; D. João V nasceu em 1689 + 22 anos = 1711);
  • a referência ao facto de o primeiro auto-de-fé ter acontecido "dois anos depois de se queimarem pessoas em Lisboa", que remete para 1709;
  • o regresso da nau de Macau, que partiu "há vinte meses", ainda Sete-Sóis andava na guerra;
  • o nascimento e baptizado da infanta Maria Bárbara ou do infante D. Pedro, que morrerá com dois anos;
  • o nascimento do futuro do rei D. José em 1714.


2. Prolepses
  • as mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D. Pedro;
  • a morte de Álvaro Diogo, que viria a cair de uma parede durante a construção do convento;
  • o prenúncio da morte da filha do Visconde de Mafra para daí a dez anos: "... não vai haver muita música na vida desta criança (...) daqui a dez anos morrerá e será sepultada na igreja de santo António...";
  • a informação sobre os bastardos que o rei iria gerar, filhos das freiras que seduzia: "... por isso se diverte tanto com as freiras (...) que quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados...";
  • as referências aos cravos (outrora, nas pontas das varas dos capelães; muito mais tarde, símbolos da revolução do 25 de Abril);
  • a associação entre os possíveis voos da passarola e o facto de os homens irem à lua no século XX;
  • a alusão ao tipo de diversões típicas do século XVII;
  • a referência à futura existência de cinema e aviões: "... para vir o cinema ainda faltam duzentos anos, quando houver passarolas a motor, muito custa o tempo a passar...".


3. Sumários
  •  "Tornou o padre aos estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarda.";
  • "Aí está Junho".


4. Elipses
  • alguns períodos em que Baltasar e Blimunda estão em Mafra ou em S. Sebastião da Pedreira;
  • as viagens do padre Bartolomeu de Gusmão ao estrangeiro, nomeadamente à Holanda;
  • o período que o padre passou em Coimbra a estudar;
  • o período de nove anos, correspondente à procura de Baltasar por parte de Blimunda: "Durante nove anos, Blimunda procurou Baltasar. (...) Milhares de léguas andou...".

VIII, 96-99

1. Indique a razão por que o capitão das naus (Vasco da Gama) nelas permaneceu tranquilamente.

2. Nos quatro versos finais da estância 96, o Poeta faz uma advertência / constatação. Especifique-a.

3. Entre o quinto verso da estância 96 e a estância 99, o Poeta enumera os efeitos negativos do dinheiro. Indique-os pormenorizadamente.

     3.1. Sintetize os vícios provocados pela ambição do ouro em cinco traços.


4. Na estância 97, o Poeta apresenta três casos que exemplificam o poder negativo do dinheiro e do ouro. Comente-os.

VIII, 96-99 - Correcção

1. Indique a razão por que o capitão das naus (Vasco da Gama) nelas permaneceu tranquilamente.

          O capitão permaneceu nas naus porque já não confiava no Regedor, visto que este já o traíra, era muito ambicioso ("cobiçoso"), corrupto ("corrompido") e "pouco nobre".


2. Nos quatro versos finais da estância 96, o Poeta faz uma advertência / constatação. Especifique-a.

          O Poeta adverte para o efeito corruptor do dinheiro que tanto sujeita os ricos como os pobres.

3. Entre o quinto verso da estância 96 e a estância 99, o Poeta enumera os efeitos negativos do dinheiro. Indique-os pormenorizadamente.

          Os efeitos negativos do dinheiro são os seguintes:
  • corrompe o pobre e o rico;
  • leva ao assassínio;
  • conduz à traição e à falsidade entre os amigos;
  • transforma o mais nobre em vilão;
  • corrompe os puros;
  • corrompe as ciências, os juízes e as consciências;
  • distorce a realidade;
  • manipula as leis e a justiça;
  • fomenta o perjúrio;
  • fomenta a tirania nos reis;
  • corrompe os sacerdotes.

     3.1. Sintetize os vícios provocados pela ambição do ouro em cinco traços.

          Em síntese, os vícios são os seguintes: a traição ("Faz tredores e falsos os amigos"); a corrupção ("Este corrompe virginais purezas"), a censura ("Este interpreta mais que sutilmente / Os textos..."), a mentira / perjúrio ("Este causa os perjúrios entre a gente") e a tirania ("E mil vezes tiranos torna os Reis".


4. Na estância 97, o Poeta apresenta três casos que exemplificam o poder negativo do dinheiro e do ouro. Comente-os.

          O primeiro exemplo refere-se ao rei da Trácia, que assassinou Polidoro, filho de Príamo, com o único fito de lhe roubar o ouro.
          O segundo caso remete para Dánae, filha de Acriso, que foi encerrada numa torre para que não concebesse. Porém, Júpiter metamorfoseou-se em chave de ouro, entrou na torre e engravidou-a.
          O último exemplo alude à cidade de Tarpeia, que se entregou aos Sabinos, tendo ficado soterrada debaixo do ouro que exigia para se render.

IX, 92-95 - Correcção

1. Preencha o quadro proposto:


2. Explique o conteúdo dos versos 7 e 8 da estância 93.

          Os versos significam que é preferível não possuir as honras que os seus actos lhe faziam merecer do que tê-las sem as merecer.


3. Qual é o prémio reservado a quem trilhar o caminho apontado?

          Todos aqueles que actuarem da forma descrita terão direito a ser recebidos na "Ilha de Vénus" e tornados divinos pelas relações com as ninfas, alcançando o estatuto de Heróis: "(...) e numerados / Sereis entre os Heróis esclarecidos, / E nesta Ilha de Vénus recebidos." (est. 95, vv. 6 a 8).

IX, 92-95

          Nestas estâncias, o Poeta reflecte sobre o verdadeiro caminho para atingir a fama. Esse caminho passa por um conjunto de actos (a evitar e a praticar).

1. Preencha o quadro proposto:
2. Explique o conteúdo dos versos 7 e 8 da estância 93.

3. Qual é o prémio reservado a quem trilhar o caminho apontado?

Princesa Maria Bárbara

          A princesa, com "dezassete anos feitos", prepara-se para se casar com Fernando de Castela.
          Tem "cara de lua cheia" e a pele "bexigosa", mas é "boa rapariga" e "... musical a quanto pode chegar uma princesa..." (p. 297).
          Nascida a 4 de Dezembro de 1711 em Lisboa, D. Maria Teresa Bárbara de Bragança era filha de D. Maria Ana de Áustria e de D. João V. Tornou-se rainha de Espanha após o seu casamento, em Lisboa, por procuração, em 1729, com o futuro Fernando VI, na altura príncipe das Astúrias.
          D. Maria Bárbara desempenhou um papel fundamental nas boas relações que o seu marido manteve com Portugal. Um exemplo da influência exercida por ela foi o Tratado de Madrid de 1750, que terminou com a discórdia sobre a pertença dos territórios da América do Sul a Portugal ou a Espanha.
          Muito querida no seu país de adopção, era, segundo os cronistas, não muito bela, mas possuía um carácter encantador. O dispendioso palácio de Vendas Novas foi construído por D. João V de propósito para o séquito de D. Maria Bárbara aquando do seu casamento, tão sumptuoso era o seu enxoval. Dona de grande cultura e inteligência e promotora de caridade, foi compositora, aluna de cravo de Domenico Scarlatti, protectora e incentivadora de cantores e da música, favorecedora dos jesuítas. Em 1750, criou o convento das Salésias Reais.
          Toda a vida teve uma saúde frágil, acabando por falecer em Madrid a 27 de Agosto de 1758, o que desesperou o marido e o levou à reclusão e demência evolutiva.

Povo

          A personagem colectiva povo é uma personagem anónima constituída pela gente que construiu o convento de Mafra, isto é, que trabalhou e sofreu às mãos do rei e dos seus desejos megalómanos, de cumprir uma promessa, em suma, da sua vaidade.
          O povo, humilde e trabalhador, vive na mais completa miséria, física e moral, daí que não se estranhe o facto de o narrador o elogiar e enaltecer constantemente, procurando, desse modo, tirá-lo do anonimato e individualizá-lo em várias personagens (por exemplo, atribui-lhe um nome para cada letra do alfabeto - pág. 242). E episódio da Epopeia da Pedra simboliza, precisamente, os trabalhos e as dificuldades que teve de enfrentar na construção do convento.
          Assim, o povo constitui o verdadeiro herói da obra, ainda que um herói diferente do habitual, porque deficiente, feio, rude e às vezes violento: "(...) não tardaria que se começasse a dizer que isto é uma terra de defeituosos, um marreco, um maneta, um zarolho, e que estamos a exagerar a cor da tinta, que para heróis se deverão escolher os belos e formosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos, assim o tínhamos querido, porém, verdades são verdades..." (pág. 242).
          No fundo, o que o narrador pretende ao inaugurar esta nova visão do povo é apresentar uma interpretação diversa da que a História registou, ou seja, destacar os operários (cerca de 40 000) que, humildemente, sofreram e procuraram sobreviver à construção do convento: "Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixem, com perdão da anacrónica voz..." (pág. 257). Dito de outra forma, o narrador pretende que os verdadeiros heróis que estiveram na génese dos grandes feitos e das grandes obras não sejam, ao contrário do que registam os livros de História, os reis e os líderes, mas aqueles que, com o seu esforço, a sua dedicação e a sua coragem, foram o braço indispensável à realização desses feitos e dessas obras.

sábado, 28 de maio de 2011

Domenico Scarlatti

          Scarlatti vem para Portugal depois de ser contratado por D. João V para ensinar música à sua filha. Não obstante, acaba por se tornar uma figura incómoda para o rei em virtude do seu espírito livre e do poder libertador e subversivo da sua música.
          Embora não esteja directamente envolvido no projecto da passarola, nele participa a convite do padre Bartolomeu, assumindo-se como uma espécie de cúmplice silencioso. De facto, o músico é o quarto elemento que se vem juntar ao trio Bartolomeu, Baltasar e Blimunda e dos seus esforços conjugados nasce o projecto da passarola: à força física de Baltasar, à magia de Blimunda. traduzida na capacidade de recolher vontades, à ciência do padre, vem unir-se a arte do italiano ("Senhor Scarlatti, quando o enfadar o paço, lembre-se deste lugar. Lembrarei, por certo, e se com isso não perturbar o trabalho de Baltasar e Blimunda, trarei para cá um cravo e tocarei para eles e para a passarola, talvez a minha música possa conciliar-se dentro das esferas com esse misterioso elemento..." - pp. 170-171). O narrador mostra, desta forma, que a ciência e a arte são reveladoras de um espírito de inovação, de tolerância e de abertura ao progresso e à modernidade.
          Assim sendo, tratando-se do quarto elemento, Scarlatti associa-se ao simbolismo do número 4, o número da terra, dos pontos cardeais, das fases da lua, das estações do ano, das etapas da vida humana, representando, portanto, a plenitude, a totalidade. Com efeito, estas quatro personagens remetem para a ideia de deificação do Homem, uma vez que são capazes de se libertar da materialidade.
          Por outro lado, a sua música assume grande importância em determinados passos do romance. De facto, ela inspira os construtores da passarola e cura Blimunda da sua estranha doença, causada pela exaustão na recolha das duas mil vontades. Assim, a música que sai do cravo de Scarlatti simboliza o ultrapassar, por parte do ser humano, da materialidade excessiva e o atingir da plenitude da vida. Não se infira daqui, contudo, a constituição de um «quarteto» no que concerne ao projecto da passarola, que o italiano não segue até ao seu desenlace, visto que apenas assiste à sua partida. Após a partida, o seu cravo repousa, escondido, no fundo de um poço (p. 198), enquanto a passarola permanecerá, longo tempo, escondida na serra de Monte Junto.
          Por fim, Scarlatti é também o mensageiro da má nova, porque é ele que informa Baltasar e Blimunda da morte do padre Bartolomeu de Gusmão.

          Nas palavras de Adelina Moura, «Scarlatti personifica a arte (pp. 162-163) que, aliada ao sonho, permite a cura de Blimunda (pp. 186-187) e possibilita a conclusão e o voo da passarola (p. 173)».
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