domingo, 14 de novembro de 2010

Traição e Vingança

"Se depois de eu morrer"

                         Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
                         Não há nada mais simples
                         Tem só duas datas  a da minha nascença e a da minha morte.
                         Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

                         Sou fácil de definir.
                         Vi como um danado.
                         Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
                         Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
                         Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
                         Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
                         Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
                         Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

                         Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
                         Fechei os olhos e dormi.
                         Além disso, fui o único poeta da Natureza.

          Este poema (que não foi objecto de análise na sala de aula) pertence ao conjunto denominado Poemas Inconjuntos (o nome traduz o carácter desgarrado e sem fio condutor das composições que constituem a obra) e viu a luz do dia em 8 de Novembro de 1915.

          O sujeito poético começa por se referir à sua biografia, afirmando que a sua via possui somente duas datas: a do nascimento e a da morte. Todos os restantes dias são seus. Quer isto significar que apenas aquelas datas pertencem ao exterior, ao mundo que o rodeia: a do nascimento porque não o podia evitar; a da morte porque também esta constituirá uma data alheia que ele não pode controlar, à semelhança do nascimento. As restantes datas, os restantes dias pertencem-lhe por exclusivo e não fazem parte de qualquer biografia tradicional, pois a sua existência nada teve de comum, em nada se pareceu com a de um homem com uma vida normal.

          Na segunda estrofe, declara-se «fácil de definir». E concretiza a ideia proclamando que viu «como um danado» (comparação), assumindo-se mais uma vez como o poeta do olhar, das sensações visuais, que predominam sobre todas as outras («Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.» - verso 9), um observador da realidade, em suma. Além disso, não amou com sentimento, nem se deixou contaminar por grandes ambições ou sonhos grandiosos. Por outro lado, compreendeu a realidade das coisas e a diferença que existe entre elas, numa enorme diversidade, sem ligação entre si, ou seja, sem lhes atribuir um significado. Ou seja, o sujeito poético compreende com os olhos (com os sentidos), não com o pensamento. Isto impediu que ele tivesse uma vida semelhante à dos restantes, pois ele limitou-se a contemplar a realidade exterior, sem lhe atribuir outro significado que não o que lhe chagava através dos olhos.

          A estrofe final expressa o modo como desejaria que a morte chegasse, isto é, como o sono de uma criança (comparação e metáfora). Estes recursos estilísticos representam a posição que o sujeito poético (Alberto Caeiro) assume face à vida: deseja ser possuidor da inocência de uma criança, para quem o mundo constitui uma permanente descoberta que a fascina. Atente-se na forma como ele expressa a ideia de morte: através do eufemismo «sono» que um dia lhe «deu» e marcou o seu fim, serena e tranquilamente, como uma criança que se entrega ao seu sono quotidiano.

          E o poema finaliza com uma afirmação categórica - «Além disso, fui o único poeta da Natureza.» -, reveladora de um certo orgulho, vaidade e quase displicência.

Poema XXVIII ("O Guardador de Rebanhos")

          Neste poema, constituído por sete estrofes (três tercetos, dois dísticos, uma sétima e uma sextilha) de versos brancos e métrica irregular, o sujeito poético refere a sua reacção a uma leitura que efectuou. De facto, após ter lido «quase duas páginas / Do livro dum poeta místico» (note-se, desde já, a expressividade do vocábulo «quase» e o numeral «duas», que remetem para a dificuldade que teve em ler aquele livro), patenteia uma atitude simultânea de riso e de choro (comparação antítética «E ri como quem tem chorado muito.»). Estes estados de alma opostos encontram justificação no facto de o sujeito, perante o que acaba de ler, não saber se deve rir ou chorar face ao conteúdo da obra. No fundo, a sua dúvida oscila entre saber se o seu autor - um poeta místico - é merecedor da sua troça ou da sua piedade.

          Na segunda estrofe, apelida os poetas místicos de filósofos doentes e estes de homens doidos, o que remete para a noção de que o pensamento é uma doença. Essas afirmações são justificadas no terceto seguinte, por isso ela é iniciada pela conjunção subordinativa causal «porque», que assume um valor explicativo em relação ao conteúdo da estrofe anterior. O riso do sujeito poético é justificado, afinal, pelo facto de os poetas místicos atribuem sentimentos às flores, almas às pedras e testemunham êxtases dos rios ao luar. Para ele, isso é impensável, pois as pedras são apenas pedras, as flores apenas flores e os rios não têm alma nem êxtases ao luar. Os elementos da Natureza não são mais do que aquilo que os sentidos apreendem.

          O sujeito poético crê que a realidade que lhe é transmitida pelos sentidos é a única verdade e que a Natureza (representada pelo vento, pelas pedras, pelas flores e pelos rios) é somente aquilo que vemos, sem segundos sentidos ou intervenção do pensamento. Tudo o mais é «mentira», que reside em nós, e essa mentira é o pensamento, é o ver nas «coisas» algo mais do aquilo que os sentidos nos transmitem.

          A finalizar, o «eu» poético exprime o seu contentamento por não ver na Natureza algo para além do que os olhos lhe mostram («... compreendo a Natureza por fora...»), por não ser, portanto, como os poetas místicos, que a procuram compreender «por dentro». Este posicionamento reflecte-se na sua poesia que, de tão espontânea, se aproxima da prosa («... escrevo a prosa dos meus versos...».
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