quinta-feira, 20 de junho de 2019

'Os Lusíadas': Canto V: estâncias 92 a 100

. Análise estância a estância

. Estância 92

. É agradável (“doce”) ouvir os elogios dos outros quando os nossos feitos são divulgados (“soados” – v. 2).

. Qualquer pessoa de valor (“nobre”) esforça-se por igualar ou superar a glória dos seus antepassados.

. A admiração (“envejas”) dos feitos dos outros/antepassados constitui um estímulo, um incentivo para realizar atos mais sublimes (hipérbole “Fazem mil vezes feitos sublimados.” – v. 6). De facto, o canto, o louvor, incita à realização dos feitos: “Louvor alheio muito o esperta e incita.” (v. 8) – o exemplo origina a ação.


. Estância 93: Heróis da Antiguidade que se dedicaram à poesia ou à cultura.

. Alexandre Magno apreciava os versos melodiosos de Homero (mais do que os próprios feitos de Aquiles).

. Temístocles invejava os monumentos às vitórias do general Milcíades.

. Temístocles gostava de ouvir cantar os feitos de Milcíades.


Apreço dos Antigos pelos seus poetas
e importância dada à cultura
Consequência
Conciliação entre as armas e as letras


. Estância 94

. Vasco da Gama esforça-se por mostrar que a sua viagem à Índia (“que o Céu e a Terra espanta.”) merece mais glória e louvor do que as célebres navegações de Ulisses e Eneias, embora estes tenham sido imortalizados porque Virgílio foi valorizado por um “Herói” (v. 21), Otávio César Augusto.
O Poeta enaltece o Herói clássico pela sua atitude

. Crítica implícita aos portugueses: Camões canta os feitos dos portugueses, tal como Virgílio, e não há um herói que reconheça o seu valor. Quem imortaliza Vasco da Gama e os seus feitos é o Poeta.


. Estâncias 95 e 96

. Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e Augusto, mas…

. Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est. 95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a quem falta cultura e dons artísticos.

. Exemplos de heróis cultos:

1. Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia belos versos, tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um poema, depois de Marco António a ter abandonado por Glafira.

2. César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a ciência; / Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.

3. A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à escrita de comédias.

4. Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero que o considerava seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à cabeceira”.


. Estância 97

. No passado, não houve, entre os romanos, gregos ou povos bárbaros, um grande guerreiro que não se revelasse culto e interessasse pela escrita.

. Pelo contrário, os guerreiros portugueses desprezam a cultura e a poesia: “Senão da Portuguesa tão somente” (v. 4).


. Camões sente vergonha pela ignorância dos líderes do seu tempo, que menosprezam as letras, cujo valor deve ser compatível com as artes guerreiras.

. Quem não pratica a poesia não lhe sabe dar i verdadeiro valor: “Porque quem não sabe arte, não na estima.” (v. 8).


. Estância 98

. Consequências da ignorância e do menosprezo pela cultura e da falta de incentivos à poesia:

1.ª) Não haverá poetas épicos como Virgílio e Homero.

2.ª) Não serão cantados heróis, como Eneias e Aquiles, nem os seus feitos.

3.ª) Perder-se-ão exemplos virtuosos da História de Portugal.

4.ª) Perder-se-á a identidade nacional.
Mas pior do que a ignorância
é o desprezo por ela
os heróis nacionais não se importam de ser ignorantes
perplexidade
desencanto
indignação

. Os heróis portugueses contemporâneos de Camões são rudes, toscos, incultos e pouco inteligentes. Porém, “o pior de tudo” é que não percebem que são ignorantes.


. Estâncias 99 e 100

. Vasco da Gama deve agradecer às Musas o patriotismo que as move a cantar os feitos do seu povo, porque Calíope e as Tágides não são tão amigas da descendência dele que deixassem as finas telas de ouro que tecem para louvar em verso épico os feitos dos Portugueses.

. Fugindo à leitura literal da estância 99, Camões sugere que Vasco da Gama deve agradecer ao mesmo Camões a inspiração e o patriotismo que o levaram a deixara poesia lírica para escrever uma epopeia onde mitifica os heróis e os feitos da História de Portugal, embora ninguém lhe reconheça importância cultural.

. Exortação final do Poeta: haverá sempre recompensa para quem realize feitos valorosos, pelo que é necessário haver quem os continue a perseguir.


. Intencionalidade crítica do excerto

            Nesta reflexão, Camões tece uma crítica:

a. à ignorância e ao desprezo pelas artes/letras por parte dos seus contemporâneos;

b. à falta de guerreiros como os do passado, que conciliavam as armas e as letras;

c. à falta de coragem dos heróis nacionais para realizarem feitos sublimes.


. Ideal de herói

            O ideal de herói sugerido por Camões nestas estâncias é aquele que alia as armas às letras, a fim de vencer ou igualar as façanhas dos seus antepassados.



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