. Análise estância a
estância
. Estância 92
.
É agradável (“doce”) ouvir os elogios dos outros quando os nossos feitos são
divulgados (“soados” – v. 2).
. Qualquer
pessoa de valor (“nobre”) esforça-se por igualar ou superar a glória dos seus
antepassados.
. A admiração (“envejas”)
dos feitos dos outros/antepassados constitui um estímulo, um incentivo para
realizar atos mais sublimes (hipérbole “Fazem mil vezes feitos sublimados.” –
v. 6). De facto, o canto, o louvor, incita à realização dos feitos: “Louvor
alheio muito o esperta e incita.” (v. 8) – o exemplo origina a ação.
. Estância 93: Heróis da Antiguidade que se dedicaram à poesia ou à cultura.
. Alexandre
Magno apreciava os versos melodiosos de Homero (mais do que os próprios feitos
de Aquiles).
. Temístocles invejava os monumentos às vitórias
do general Milcíades.
. Temístocles gostava de
ouvir cantar os feitos de Milcíades.
Apreço dos Antigos pelos seus poetas
e importância dada à cultura
↓
Consequência
↓
Conciliação entre as armas e as letras
. Estância 94
.
Vasco da Gama esforça-se por mostrar que a sua viagem à Índia (“que o Céu e a
Terra espanta.”) merece mais glória e louvor do que as célebres navegações de
Ulisses e Eneias, embora estes tenham sido imortalizados porque Virgílio foi valorizado
por um “Herói” (v. 21), Otávio César Augusto.
↓
O Poeta enaltece o
Herói clássico pela sua atitude
. Crítica implícita aos portugueses:
Camões canta os feitos dos portugueses, tal como Virgílio, e não há um herói que
reconheça o seu valor. Quem imortaliza Vasco da Gama e os seus feitos é o
Poeta.
. Estâncias 95 e 96
.
Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e Augusto,
mas…
.
Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est.
95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a
quem falta cultura e dons artísticos.
. Exemplos de heróis cultos:
1.
Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia belos versos,
tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um poema, depois de Marco
António a ter abandonado por Glafira.
2.
César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo
erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em
simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as
armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a ciência;
/ Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.
3.
A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à escrita de
comédias.
4.
Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero que o considerava
seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à cabeceira”.
. Estância 97
.
No passado, não houve, entre os romanos, gregos ou povos bárbaros, um grande
guerreiro que não se revelasse culto e interessasse pela escrita.
.
Pelo contrário, os guerreiros portugueses desprezam a cultura e a poesia:
“Senão da Portuguesa tão somente” (v. 4).
.
Camões sente vergonha pela ignorância dos líderes do seu tempo, que menosprezam
as letras, cujo valor deve ser compatível com as artes guerreiras.
.
Quem não pratica a poesia não lhe sabe dar i verdadeiro valor: “Porque quem não
sabe arte, não na estima.” (v. 8).
. Estância 98
. Consequências da ignorância e do menosprezo pela cultura e da falta de
incentivos à poesia:
1.ª) Não haverá poetas épicos como Virgílio e Homero.
2.ª) Não serão cantados heróis, como Eneias e Aquiles, nem os seus feitos.
3.ª) Perder-se-ão exemplos virtuosos da História de Portugal.
4.ª) Perder-se-á a identidade nacional.
Mas pior do
que a ignorância
é o
desprezo por ela
↓
os heróis
nacionais não se importam de ser ignorantes
↓
perplexidade
desencanto
indignação
.
Os heróis portugueses contemporâneos de Camões são rudes, toscos, incultos e
pouco inteligentes. Porém, “o pior de tudo” é que não percebem que são
ignorantes.
. Estâncias 99 e 100
.
Vasco da Gama deve agradecer às Musas o patriotismo que as move a cantar os
feitos do seu povo, porque Calíope e as Tágides não são tão amigas da
descendência dele que deixassem as finas telas de ouro que tecem para louvar em
verso épico os feitos dos Portugueses.
. Fugindo
à leitura literal da estância 99, Camões sugere que Vasco da Gama deve
agradecer ao mesmo Camões a inspiração e o patriotismo que o levaram a deixara
poesia lírica para escrever uma epopeia onde mitifica os heróis e os feitos da
História de Portugal, embora ninguém lhe reconheça importância cultural.
.
Exortação final do Poeta: haverá sempre recompensa para quem realize feitos
valorosos, pelo que é necessário haver quem os continue a perseguir.
. Intencionalidade
crítica do excerto
Nesta
reflexão, Camões tece uma crítica:
a.
à ignorância e ao desprezo pelas artes/letras por parte dos seus
contemporâneos;
b.
à falta de guerreiros como os do passado, que conciliavam as armas e as letras;
c.
à falta de coragem dos heróis nacionais para realizarem feitos sublimes.
. Ideal de herói
O ideal de
herói sugerido por Camões nestas estâncias é aquele que alia as armas às
letras, a fim de vencer ou igualar as façanhas dos seus antepassados.

