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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

"Sedia-m'eu na ermida de San Simion"


· Assunto: uma donzela formosa espera, na ermida de San Simion, o regresso do seu amigo embarcado. Obcecada pela ideia desse regresso, aliena-se da realidade circundante e só se apercebe de que nem o amigo virá nem poderá fugir dali quando se vê cercada pelas águas do mar (após a maré encher). Só lhe resta então esperar pela morte, crescendo a sua angústia ao pensar que vai morrer sem reencontrar o amigo.


· Tema: a saudade e o desespero, em virtude da demora do amigo.


· Estrutura interna

         O tema desenvolve-se através de um monólogo da donzela, que constitui uma micro-narrativa dos vários acontecimentos que a donzela vive na ermida.




OUTRA DIVISÃO

u 1.ª parte (estr. 1 a 4) - A donzela descreve, num monólogo, a sua situação: obcecada pelo regresso do amigo, a jovem, desesperada, apercebe-se tardiamente da subida da maré, sem ter barca nem marinheiro para fugir às águas do mar.

u 2.ª parte (estr. 5 e 6) - A donzela toma consciência da certeza da chegada da morte.

u Refrão: A angústia e a saudade obsessiva na espera do amigo, pois conclui que vai morrer sem o voltar a ver.



· Esquema-síntese

. ausência do amigo          ü                                        ì. exclamações
          (refrão)                  ï                                        ï. relação morte/juventude
              +                        ý  desespero da donzela      í. jogo dos tempos verbais
. hostilidade do ambiente  ï                                        ï. referência ao impasse
        (caract. do mar)        þ                                        î



· Elementos narrativos do poema

n Acção: a amiga espera o amigo que não chega.

n Espaço: ermida de San Simion, em Val de Prados.

n Tempo: tempo da espera do amigo, coincidente com a subida da maré.

Personagens:   - donzela;
                       - amigo (ausente, mas sempre presente).


· Relação Natureza                       /                     Donzela (estado psíquico)

. ondas que crescem
. maré que sobe
. mar alteroso
. possível afogamento



=
sentimento amoroso
. emoção crescente
. "a maré alta da paixão"
. obsessão amorosa
. angústia de que o amigo não venha / de que não consiga fugir ao arrebatamento amoroso quando ele chegar



· Caracterização da donzela:
- bela
- jovem

NOTAS

         1. Os dois sentimentos que dominam o espírito da amiga são:
                   à o receio de que o amigo não regresse;
                   à o receio de perecer afogada.

         2. Todavia, verdadeiramente o grande desespero da jovem reside na ausência do amigo; ou seja, a possível perda do seu amor é que é realmente a sua perdição, o seu naufrágio na vida. A donzela, nesta cantiga, afinal pressente o seu naufrágio, a saber: o fim da sua relação amorosa. O segundo receio é, pois, metáfora do primeiro.

         3. Os sentimentos da amiga assentam num crescendo de intensidade dramática. De facto, nas duas primeiras coplas, a donzela exprime apenas um receio longínquo, como se tivesse já passado (notar o emprego do passado: sedia-me e cercaron-mi). Na terceira e na quarta copla, a jovem constata que "Non hei barqueiro, nem ar son remador" (notar o uso do presente verbal e do ponto de exclamação, quando, nos versos equivalentes das duas estrofes iniciais, não tinha sido usado, o que revela já a emoção dela perante o perigo), isto é, que o perigo é iminente. Este avolumar da emoção da donzela culmina nas duas últimas coplas, com o uso do futuro a traduzir a certeza da morte: "E morrerei, fremosa, no alto mar".



· Papel da Natureza
. cenário: enquadraria um hipotético encontro amoroso;
¯
. oponente ® realmente: separa a donzela do seu amor e impede o relacionamento amoroso, sendo, portanto, culpada da "morte" da amiga;
 ® metaforicamente: ameaça engolir a jovem.



· Recursos poético-estilísticos

         1. Nível fónico

         A composição é constituída por 6 coplas heterométricas formadas por dois versos (dístico monórrimo) hendecassílabos agudos e dois versos octossílabos graves, obedecendo a rima ao esquema AABB / CCBB / AABB / CCBB / AABB / CCBB, isto é, a rima é toda emparelhada. Temos também rima consoante ("Simion" / "son") e toante ("son" / "remador"), aguda e grave (no refrão), rica ("Simion" / "son") e pobre ("altar" / "mar"). O ritmo é acentuadamente binário, contribuindo para exprimir a cadência das ondas, até porque há uma natural entoação ascendente até ao meio do verso e descendente na segunda metade. Este ritmo, enriquecido pelo paralelismo e que pode traduzir também toda a rápida escalada emocional vivida pela donzela, contrasta com o ritmo do refrão, lento (uso do gerúndio), sugerindo a espera, numa atitude continuada, obsessiva, absorta; por outro lado, pode ainda significar a inutilidade da sua espera ansiosa. Além disso, o refrão repete-se, é iterativo, ao longo do poema e em si mesmo, em cada estrofe, repetição que acentua a ideia de que a grande causa da angústia da donzela é a ausência do amigo. Na última estrofe, o refrão, após o verso "e morrerei, fremosa, no alto mar", sugere que a donzela morria à espera do seu amigo e sem esperanças de o recuperar. A composição é uma cantiga paralelística perfeita, com leixa-prem. De notar que a presença do refrão e do paralelismo aponta claramente para a origem popular das cantigas de amigo, feitas para serem cantadas, algumas delas por dois cantores (repetições paralelísticas, como nas cantigas à desgarrada) e por um coro (refrão). Existem também aliterações, por exemplo em s ("Sedia-m' eu na ermida de San Simion") e de sons fechados e nasais, sugerindo tristeza, e também assonâncias em ô / á.


         2. Nível morfossintáctico

         O uso do ponto de exclamação (frases exclamativas/função expressiva) aponta para a emoção que se começa a apoderar da donzela perante o perigo.
         Há um predomínio de substantivos e verbos que traduzem objectividade e acção. A nível dos tempos verbais, devemos destacar os seguintes:
. o pretérito imperfeito remete para a atitude estática da rapariga na sua longa espera;
. o gerúndio do refrão reforça a ideia traduzida pelo imperfeito e também a obsessão, a ânsia e a angústia da jovem;
. o pretérito perfeito apresenta o facto consumado: "cercaron-mi as ondas";
. o presente revela-nos a constatação, por parte da donzela, da trágica situação em que se encontra e da impossibilidade de salvação no momento presente: "non ei i barqueiro, nem remador!";
. o futuro exprime a antevisão da morte sem encontrar o amigo: morrerei...".
Ou seja, a donzela posiciona-se no presente, refere, através do passado e do gerúndio, a longa espera do amigo e a angústia a ela associada, e prevê o desenlace da situação em que se encontra.
         A nível da adjectivação, é de destacar a expressividade do adjectivo "fremosa", pois permite-nos concluir que o que afinal a donzela receava não eram propriamente as ondas do mar, mas o não regresso do amigo. E ela ali permanecia, frente ao mar por onde ele tinha partido, mas ainda "fremosa", como quando o seduzira. Ou seja, a sua formosura era, afinal, a causa do grande amor e, agora, do grande desespero. O comparativo da penúltima estrofe informa-nos da subida das águas com uma imagem de sentido hiperbólico.
         Além do paralelismo perfeito, encontramos outras formas de paralelismo:
- semântico: "grandes son" / "ondas grandes", ... ;
- anafórico;
- estrutural.
         A função da linguagem predominante é a expressiva:
- os pontos de exclamação / frases exclamativas;
- a adjectivação;
- o refrão;
- a reiteração.
         A ausência de conjunções a estabelecer a relação das orações confere às frases um carácter emocional, adquirido já no facto de serem do tipo exclamativo. As próprias orações subordinadas relativas explicativas, em "que grandes son", pela sua função aproximada de aposto, prolongam o sentido emotivo daquele momento.
         A anáfora, o hipérbato e a reiteração (por exemplo, no refrão) são outros recursos presentes.


         3. Nível semântico

         A gradação é o recurso estilístico mais importante do poema (vide nota 3).
         As ondas do mar funcionam como metáfora. De facto, elas são a causa do seu pânico crescente; mas também significam a paixão amorosa que a levou à ilha e cujas consequências podem ser a morte, mesmo estando "ant' o altar", sob a protecção do santo e do santuário. O medo que as ondas suscitam na donzela é complexo:
® medo de morrer afogada nas ondas ou na própria emoção (ondas da emoção);
® medo de não conseguir escapar ao ímpeto amoroso do amigo se ele chegar, de não resistir à força do amor;
® medo da "maré alta" da paixão que essa chegada representará;
® medo da espera indefinida do amigo, de não chegar e ela morrer sem o ver.
         Por último, destaquemos a hipérbole, quer no que diz respeito à grandeza das ondas, quer á subida da maré e ao perigo iminente que rodeia a amiga.

         O poema pertence, logicamente, ao género lírico, mas está contaminado pelo género dramático (além do narrativo, como já vimos); as acções avançam cronológica e progressivamente, intensificando o dramatismo que envolve a situação da donzela: "sedia-m' eu na ermida" ® "cercaron-mi as ondas" ® "non ei barqueiro, nem sei remar" ® "morrerei fremosa".


· Classificação

1. Cantiga de amigo.

1.1. Temática:
. barcarola / marinha: cantiga que contém referências ao mar (1);
. de romaria.
         (1) Os temas das barcarolas são geralmente de grande singeleza. Afora um certo número em que a donzela vai apenas banhar-se ao rio, ou da margem vê o barco deslizar pelas águas, nas barcarolas ela geralmente lamenta-se do amigo, ou, durante a sua ausência, pede às ondas notícias dele, ou ainda, ansiosa, vai esperar os navios que chegam, para voltar a vê-lo.

1.2. Formal:
. paralelística perfeita;
. de refrão.






"Ai flores, ai flores do verde pino"


. Assunto: a donzela dialoga com as flores, procurando saber novas do paradeiro do amigo, e estas respondem-lhe de forma a tranquilizá-la.


s Tema: as saudades do amigo ausente.


s Estrutura interna  -  diálogo donzela / flores

. 1.ª parte (estr. 1-4) - A donzela, enamorada, pergunta às flores:
- onde e como se encontra o amigo?;
- regressará como combinado?

. 2.ª parte (estr. 5-8) - Resposta tranquilizadora das flores à donzela:
- o amigo encontra-se bem;
- regressará antes do prazo estabelecido.

            Na 1.ª parte do diálogo, a donzela traduz o seu estado de espírito e a saudade pelo amigo.
            Na 2.ª, é a natureza que tranquiliza a donzela.




s Sentimentos da donzela:
. amor                    ü
. saudade               ý ansiedade
. sentimento de     ï ciúme
abandono               þ



s Papel da Natureza

l Natureza ¾¾¾¾ cenário
¯
interveniente no drama sentimental (confidente)
mensageira
s Simbologia

Flores
½
½
beleza
delicadeza
sensibilidade
feminilidade
aroma
½
¯
a donzela
Verde
½
½
imaturidade
juventude
esperança
½
½
½
¯
a relação entre os dois jovens, cheios de esperança
Pino
½
½
força
apoio
segurança
robustez
masculinidade
braços ¾¾ ramos
¯
o amigo


s Recursos poético-estilísticos

            1. Nível fónico

. Estrofes: oito tercetos heterométricos, compostos por um dístico e um refrão monóstico.
. Metro: versos decassílabos nos dísticos;
                 versos pentassílabos no refrão.
. Ritmo binário, em sintonia com os elementos semânticos, visualiza o esvoaçar dos ramos do pinheiro, para cá e para lá, numa amplitude contida.
. Rima      - AAR / BBR;
- emparelhada;
- consoante ("amigo" / "comigo") e toante ("pino" / "amigo");
- rica ("amigo" / "comigo") e pobre ("pino" / "amigo");
- grave / feminina.
. Refrão: é um refrão interrogativo que, na 1.ª parte, traduz a ansiedade da donzela por não ter novas do amigo; porém, a sua persistência interrogativa na 2.ª parte é mais complexa:
. lamento convencional, esquecido, absurdo no novo contexto?
. repetição irónica, imitação desmoralizadora da ansiedade da donzela?
. porque nem tudo é revelado, a pergunta continua, ansiando por mais respostas?
. Aliteração: "se sabedes novas".
. Musicalidade: o poema apresenta uma musicalidade ondulatória, como um vento que transporta versos inteiros para estrofes futuras.
. Assonância em á e i.


            2. Nível morfossintáctico

. Estrutura paralelística perfeita repartida em dois sistemas.
. Leixa-prem.
. Travessão: divide a cantiga em duas partes, pois é a marca que introduz a fala da donzela e, seguidamente, a resposta das flores.
. Frases:
- construção oracional: oração condicional  -  "se sabedes novas do meu amigo"  -  consiste num lançamento contido da questão da donzela;
- tipos:
. exclamativo: frustra a pergunta;
. interrogativo: recupera a pergunta;
- 2.ª parte: a resposta, expressa através de frases afirmativas no segundo verso de cada estrofe, encadeada na pergunta da 1.ª parte através do discurso indirecto, é prejudicada pela persistência interrogativa do refrão.
. Interjeição "Ai": exprime a inquietação da donzela.
. Substantivos:      flores ® as confidentes da donzela, que a tranquilizam;
pino ® simboliza a masculinidade do amigo.
. Adjectivo verde: caracteriza as flores do pino e a simboliza a imaturidade e também a esperança depositada no amor de ambos.
. Discurso directo: diálogo entre a donzela e as flores, introduzido pelo travessão.
. Discurso indirecto, através do qual a resposta das flores é encadeada na pergunta transportada da 1.ª parte.
. Vocativo: "Ai flores".
. Anáfora: "Ai flores...
                       Ai flores...".


            3. Nível semântico

. Apóstrofe: "Ai flores".
. Personificação: atribuição de qualidades humanas às flores, que dialogam com a donzela, facto que lhes confere o estatuto de confidentes.
. Exclamação: transmite todas as emoções (saudade, angústia, preocupação) da donzela.



s Classificação

1. Cantiga de amigo.

1.1. Formal:      - cantiga dialogada / tenção;
- cantiga de refrão;
- cantiga paralelística perfeita.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

O leixa-prem da cantiga de amigo

                No processo de leixa-prem:
• o 1.º dístico emparelha com o segundo dístico, mudando a palavra rimante, mas reproduzindo o sentido;
• no 3.º dístico, o 1.º verso retoma o 2.º veros do 1.º dístico (processo de leixa-prem, propriamente dito), acrescentando um verso novo;
• o 4.º dístico retoma o 2.º verso do 2.º dístico (leixa-prem) e repete, com variação, o 2.º verso do 3.º dístico;
• a progressão do pensamento faz-se sempre no 2.º verso das estrofes/coblas ímpares, culminando na penúltima e estrofe/cobla.

                paralelismo perfeito se o número de estrofes/coblas for par.

                Há várias cantigas de amigo que são paralelísticas perfeitas, isto é, que obedecem ao seguinte esquema de construção:


terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Levad', amigo que dormides as manhanas frias"


Assunto: a donzela chama o amigo e lembra-lhe que agora, nas manhãs frias, já não a procura de madrugada. Quando ele vinha, as aves cantavam as alegrias daquele amor.
      O amor arrefeceu da parte do amigo e tudo se transformou: as aves deixaram os ramos e as fontes.


 Tema: o amor desfeito:
- a ferida do abandono, da falta de atenção por parte do amigo;
- a acusação / apelo, não em nome próprio, mas em nome das aves, dos ramos, das manhãs, das fontes;
- a ausência do amor e o seu reflexo destrutivo na natureza.


 Estrutura interna




Tudo se modifica pela ausência do amigo e o espaço fica vazio, sem a presença das aves, tal como o espaço do seu coração está vazio sem a presença do amigo = amor.
O refrão, na segunda parte, adquire um sentido humorístico-trágico, uma vez que a alegria da donzela já não existe.

                Esta cantiga é uma alba, ou seja, a acção ocorre nas primeiras horas da manhã e põe fim a uma noite de amor entre a donzela e o amigo.
                Quando fala no presente, estamos perante uma relação que acabou, que, de ardente, se tornou fria. Ocorre-lhe então a lembrança do amor feliz da Primavera. O pretérito perfeito marca a ideia de que ele é que cortou os ramos e secou as fontes do amor de ambos. Em suma, o pretérito perfeito marca a irreversibilidade da situação.
                De acordo com os autores do manual Entre nós e as palavras 10, o apelo da donzela, expresso logo no verso 1 da cantiga, traduzirá o seu apelo dirigido ao amigo, para que este se levante depois de terem passado a noite juntos. Assim sendo, não obstante o facto de o amigo se ter vindo a distanciar gradualmente da donzela e da relação entre ambos, é possível considerar que ela ainda se mantém no presente.
                Por outro lado, o pormenor de as manhãs serem caracterizadas como «frias» significará o arrefecimento da relação amorosa, pelo que o apelo da donzela poderá representar, simbolicamente, o seu desejo de que o amigo deixe de dormir (isto é, de assumir um papel passivo) e faça algo no sentido de reverter o processo de destruição da relação amorosa. (Alexandre Pinto e Patrícia Nunes, in Entre nós e as palavras 10, Santillana, pág. 34).


● Dupla leitura do texto

                O gesto do amigo, ao tirar os ramos onde estavam as fontes e ao secar as fontes onde bebiam e tomavam banho, poderá significar que pretendia afastá-las, de modo que o amor existente entre si e a donzela se mantivesse secreto.
                Por outro lado, esses atos podem significar o fim do seu amor pela donzela e, consequentemente, da relação entre ambos.


Cenário: natural ® aves, ramos, fontes.


Relação amor/natureza

                Esta cantiga evidencia um tópico/tema que posteriormente será desenvolvido por autores como Petrarca ou Camões: a natureza reflete a relação amorosa entre o par amoroso – canta e espalha a alegria amorosa; reflete o esfriar amoroso, através das "manhãs frias", da queda dos ramos e da secagem das fontes.
                Por outro lado, está também presente a oposição clássica entre a mudança cíclica da natureza e a irreversibilidade da mudança do sentimento amoroso. De facto, essas ações e o desaparecimento das aves remete para a destruição de um cenário primaveril, conotado com a juventude, o amor, a esperança e a harmonia, e a sua redução a um espaço de tom invernal, associado à tristeza, à solidão, ao abandono, à esterilidade e à morte. Assim se sugere a destruição do amor por parte do amigo.


● Simbologia das aves

                As aves, através do seu canto, simbolizam o amor e a felicidade dele resultante. Por outro lado, também através do canto, poderiam divulgar o amor vivido entre a donzela e o amigo, daí surgirem personificadas.


Recursos poético-estilísticos

                1. Nível fónico

. Estrofes: oito estrofes heterométricas de 3 versos.
. Metro: versos de 12 sílabas e 8 no refrão.
. Rima         - AAR / BBR;
- emparelhada;
- toante ("frias" / "diziam") e consoante ("dizian" / "havian");
- rica ("frias" / "dizian") e pobre ("dizian" / "havian");
- grave.
. Ritmo binário, lento, de acordo com a tristeza da donzela pela indiferença do amigo.
. Refrão: na 1.ª parte, traduz a alegria da donzela por amar e ser amada e feliz; na 2.ª parte, adquire um sentido humorístico-trágico, uma vez que a alegria da donzela já não existe.
. Aliteração: repetição das consoantes v e s.
. Assonância em i e á.


                2. Nível morfossintáctico

. Paralelismo perfeito.
. Leixa-prem.
. Substantivos: aves ® refletem a felicidade amorosa, cantando o amor, e a ausência do amor;
aves, manhãs, ramos, fontes ® substantivos que refletem, num primeiro momento, a felicidade amorosa, e, num segundo momento, a ausência e o seu reflexo destrutivo na natureza.
. Adjetivos: frias ® caracteriza a frieza amorosa presente, isto é, a ausência do amor;
leda ® refere-se, na 1.ª parte, à felicidade da donzela e, na 2.ª, adquire um tom irónico.
. Funções da linguagem:
. apelativa:
- verbos no imperativo;
- vocativos;
. expressiva:
- adjetivos;
- refrão.
. Verbos:
. modos:
® indicativo: o modo da realidade;
® imperativo: o apelo da donzela ao amigo para que se levante, ou seja, que retome o amor por ela;
. tempos:
® pretérito imperfeito             - "as aves cantavan" \ nosso amor  -  Primavera
- "en ment' avian"    /
® pretérito perfeito            - "vós lhi tolhestes os ramos" \ destruição do amor
- "vós lhi secastes as fontes"   /
® presente       - "levade"       \ manhãs frias  -  Inverno
                                - "dormides" /
. Anáfora.
. Hipérbato.
. Frases: declarativas.
. Construção oracional: predomínio da coordenação.


                3. Nível semântico

. Apóstrofe dirigida ao amigo, apelando-lhe ao retorno e ao amor.
. Personificação das aves, que reflectem a relação amorosa, nos bons e maus momentos.
. Metáforas:
- "vós lhi tolhestes os ramos em que siian" \ significam que o amigo destruiu o amor
- "e lhis secastes as fontes u se banhavam"  / de ambos, destruiu o sustento e a habitação do amor.
. Hipérbole: “todalas aves do mundo” – o canto melodioso das aves sugere a intensa alegria causada pela paixão.


Classificação

                1. Cantiga de amigo.

1.1. Temática: alba / alvorada /serena.

1.1.1. Relação com as albas provençais: a alba tem como cenário o amanhecer, que desperta os amantes, acordados pelo corneteiro da corte ou por um amigo do amante. Por isso se diz que a lírica provençal fala de um amor adúltero.
                Na lírica galego-portuguesa, não há albas como na lírica provençal e, como tal, a sua designação é difícil. Na lírica galego-portuguesa, fala-se do amanhecer, mas nunca da relação adúltera e da separação dos amantes.

1.2. Formal:
- cantiga paralelística perfeita;
- cantiga de refrão.
                O refrão mantém-se inalterado ao longo da cantiga, não obstante o seu valor ser diferente em casa uma das partes.
                Com efeito, na primeira, ele traduz a alegria e a felicidade vividas pela donzela, a evocação dos momentos idílicos da relação amorosa, enquanto na segunda traduzem o lamento amargurado da jovem face à destruição progressiva do relacionamento.
                Por outro lado, a ênfase posta na alegria por parte da donzela poderá sugerir que esta ainda não perdeu totalmente a esperança de reverter a situação e de regressar à alegria e felicidade experimentadas no passado.

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