domingo, 28 de outubro de 2018

Substratos


                A língua portuguesa pertence ao grupo das línguas românicas, também chamadas neolatinas, resultado das transformações que ocorreram no latim vulgar que chegou à Península Ibérica. O latim é uma língua que nasceu na Itália, numa região chamada Lácio (Latium), pequeno distrito situado na margem do rio Tibre e foi levado para o território ibérico pelas legiões romanas.
                Antes da ocupação romana da Península Ibérica, os povos que a habitavam eram numerosos e apresentavam língua e cultura bastante diversificadas. Havia duas camadas de população muito diferenciadas: a mais antiga – Ibéria – e outra mais recente – os Celtas, que tinham o seu centro de expansão nas Gálias. Em suma, antes de se falar latim na Península Ibérica, nela falavam-se muitas línguas que influenciaram, em maior ou menor grau, a língua latina e, consequentemente, as novas línguas que se viriam a formar a partir dele.


Os substratos

                Antes de os romanos conquistarem a Península Ibérica, povos indo-europeus como os lígures, ilíricos e ambro-ilíricos habitaram-na no II milénio a.C., bem como os celtas, um povo também indo-europeu, que terá aqui chegado no séc. VII a.C.
                Mais tarde, outros povos além destes se instalaram ou frequentaram o território peninsular: egípcios, fenícios, cretenses, cartagineses, tartéssios (no estuário do Guadalquivir), talvez afins do etrusco.
                Posteriormente, quando os romanos ocuparam, efetivamente, a Península, esta já era habitada por outros povos:
. iberos (vindos do norte de África;
. fenícios (em entrepostos comerciais na costa sul);
. gregos (na costa catalã);
. bascos (vindos, provavelmente, da Ásia Menor ou do norte de África);
. celtas, pertencentes a vários tribos:
- cantabros, ásturese galaicos (a norte do rio Douro);
- lusitanos (entre os rios Douro e Mondego);
- cónios, etc.
                Esses povos falavam línguas próprias que, quando os romanos impuseram o latim na Península, a partir do século III a.C., acabaram por se lhe submeter, deixando, no entanto, alguns vestígios no latim. São os chamados substratos: os contributos linguísticos deixados pelas línguas faladas pelos vários povos que habitaram a Península antes da romanização.

sábado, 27 de outubro de 2018

Belenenses - 2 Benfica - 0

     O comentário ao desempenho do treinador do Benfica hoje não é meu, daí a inveja que sinto:
"Hoje nada a dizer, fizemos o que pudemos contra uma excelente equipa. O Belenenses é uma equipa fantástica e, como tal, fizemos o que nos era possível. 2-0 acaba por ser um resultado positivo e que dará motivação para o futuro. Acredito que depois do jogo de hoje a equipa tenha muita revolta. Eu que injustamente já me fartei de criticar o Sr. Rui Vitória, hoje não tenho nada a apontar: muito bem montada a equipa, muito bem a rodar alguns jogadores e devo dizer que esteve genial nas substituições. Felizmente, teve capacidade para perceber que não deveria desmontar a linha de 4 defesas, se não poderíamos ter levado mais. Orgulho, muito orgulho neste Benfica! Parabéns, rapazes, grande esforço frente a esta super equipa. Carrega, Benfica! 1904!

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Regência do verbo "parecer-se"

O verbo parecer-se, na aceção «ser semelhante», pode ser intransitivo:
  • «Toda a família se parece.»*
Pode também ser transitivo indireto, selecionando, neste caso, complemento oblíquo, introduzido pelas preposições a ou com:
  • «A crítica diz que este livro se parece ao anterior.»*
  • «Eu acho que os animais se parecem com os donos.»

*Casteleiro, João Malaca (dir.), Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses, Lisboa: Texto Editores, 2007

A euróbica faz bem à coluna


Predicativo do complemento indireto

     De acordo com o sítio Ciberdúvidas [aqui], existe, na língua portuguesa, um caso de predicativo do complemento indireto, que ocorre com o verbo chamar.

     Assim, de acordo com o post, na frase «Chamavam gulosa à Maria.», o verbo «chamar» é transitivo indireto, exigindo a presença de um complemento indireto: à Maria. A este, está-lhe inerente o adjetivo gulosa, que é um caso (raro) de predicativo do complemento indireto, e que acontece apenas com o verbo chamar.

     Celso Cunha e Lindley Cintra, na Nova Gramática do Português Contemporâneo, p. 147, 2.ª edição, fazem notar que «somente com o verbo chamar pode ocorrer o predicativo do complemento indireto:

     «A gente só ouvia o Pancário chamar-lhe ladrão e mentiroso. (Castro Soromenho, Viragem)»

     «Chamam-lhe fascista por toda a parte. (Ciro dos Anjos, Montanha)»

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Dália


Do indo-europeu ao latim

                Nos finais do século XVIII, os europeus que começaram a contactar com a literatura tradicional da Índia deram conta que o sânscrito, língua clássica daquele país longínquo, era semelhante ao latim e ao grego a tal ponto que deveria ter uma origem comum. Nas décadas seguintes, compreendeu-se que também as línguas germânicas, celtas e eslavas, bem como o persa, língua falada no Irão, pertenciam à mesma família, a que se passou a chamar indo-europeu por a ela pertencerem quase todas as línguas da Europa, da Índia e de grande parte das regiões entre uma e outra.
                Foi Sir William Jones, jurista, filólogo e humanista inglês, quem demonstrou, em 1786, que o sânscrito, uma língua antiga da Índia, era inequivocamente próxima do grego, do latim e das demais línguas já referidas. No discurso dirigido à Sociedade Asiática, publicado em 1788, considerado o início da Linguística Histórico-Comparativa, afirmou o seguinte:
            O sânscrito, sem levar em conta a sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa: é mais perfeito que o grego, mais rico que o latim e mais extraordinariamente refinado do que ambos. Mantém, todavia, com estas duas línguas tão grande afinidade, tanto nas raízes verbais quanto nas formas gramaticais, que não é possível tratar-se do produto do acaso. É tão forte essa afinidade que qualquer filólogo que examine o sânscrito, o grego e o latim não pode deixar de acreditar que os três provieram de uma fonte comum, a qual talvez já não exista. Razão idêntica, embora menos evidente, há para supor que o gótico e o celta tiveram a mesma origem que o sânscrito. (ROBINS, 1983, p.107)
                O termo indo-europeu acabou por ser cunhado, em 1813, pelo polímata inglês Thomas Young.
                Em suma, dos diversos estudos dos filólogos, cientistas, gramáticos comparativos e humanistas, foi possível descobrir que o latim e o sânscrito eram aparentados o suficiente para terem uma origem comum, nos moldes em que dizemos que o francês e o português têm origem no latim. A suposta língua que deu origem ao latim, ao grego, ao sânscrito, ao protogermânico, etc., foi chamada protoindo-europeu (PIE). No entanto, não há praticamente nenhum resquício escrito da passagem do PIE para as línguas da família indo-europeia e a sua reconstituição é feita com base na comparação entre as diversas línguas indo-europeias e nas mudanças linguísticas atestadas historicamente.
                As línguas dos povos indo-europeus (que terão vivido cerca de 5000 a.C.) foram-se diferenciando e dando origem a diversos grupos de línguas:
. o anatólio (que se desenvolveu provavelmente por volta de 2000 a.C.);
. o indo-iraniano (cerca de 1400 a.C.);
. o balto-eslavo;
. o tocariano;
. o arménio;
. o albanês;
. o helénico (cerca de 1300 a.C.);
. o germânico;
. o céltico;
. o itálico (o latim era uma das línguas do grupo itálico).
                Assim, pode supor-se que o PIE terá sido falado provavelmente antes de 2500 a.C., mas as datações são todas muito difíceis de estabelecer e muito hipotéticas. Para termos ideia da extensão cronológica envolvida nas transformações entre as línguas indo-europeias, é lícito dizer-se que o latim teve origem em torno do século XI a.C. (as inscrições mais antigas encontradas datam do século VII, embora Roma tenha sido fundada por Rómulo, segundo a lenda, em 753 a.C.) e o sânscrito entre 1500 e 1000 a.C.
                O quadro seguinte ilustra as principais famílias linguísticas que tiveram origem no protoindo-europeu:


O símbolo (†) indica que se trata de uma língua que não tem mais falantes nativos, ou seja, trata-se de uma língua morta.
No quadro, estão representadas famílias de línguas que não pertencem ao indo-europeu.

                O indo-europeu não é, obviamente, a única família de línguas do planeta. Idiomas como o árabe, o chinês e o turco não são indo-europeus e cada um pertence a uma família linguística, respetivamente, o semítico, o sino-tibetano e o altaico (a inclusão deste último é incerta, mas esta família inclui também o coreano e o japonês, entre outras).

Fontes:
. Gramática de Português, Maria Regina Rocha (pág. 14);
. História da Língua, Rodrigo Gonçalves e Renato Basso.



terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Levad', amigo que dormides as manhanas frias"


Assunto: a donzela chama o amigo e lembra-lhe que agora, nas manhãs frias, já não a procura de madrugada. Quando ele vinha, as aves cantavam as alegrias daquele amor.
      O amor arrefeceu da parte do amigo e tudo se transformou: as aves deixaram os ramos e as fontes.


 Tema: o amor desfeito:
- a ferida do abandono, da falta de atenção por parte do amigo;
- a acusação / apelo, não em nome próprio, mas em nome das aves, dos ramos, das manhãs, das fontes;
- a ausência do amor e o seu reflexo destrutivo na natureza.


 Estrutura interna




Tudo se modifica pela ausência do amigo e o espaço fica vazio, sem a presença das aves, tal como o espaço do seu coração está vazio sem a presença do amigo = amor.
O refrão, na segunda parte, adquire um sentido humorístico-trágico, uma vez que a alegria da donzela já não existe.

                Esta cantiga é uma alba, ou seja, a acção ocorre nas primeiras horas da manhã e põe fim a uma noite de amor entre a donzela e o amigo.
                Quando fala no presente, estamos perante uma relação que acabou, que, de ardente, se tornou fria. Ocorre-lhe então a lembrança do amor feliz da Primavera. O pretérito perfeito marca a ideia de que ele é que cortou os ramos e secou as fontes do amor de ambos. Em suma, o pretérito perfeito marca a irreversibilidade da situação.
                De acordo com os autores do manual Entre nós e as palavras 10, o apelo da donzela, expresso logo no verso 1 da cantiga, traduzirá o seu apelo dirigido ao amigo, para que este se levante depois de terem passado a noite juntos. Assim sendo, não obstante o facto de o amigo se ter vindo a distanciar gradualmente da donzela e da relação entre ambos, é possível considerar que ela ainda se mantém no presente.
                Por outro lado, o pormenor de as manhãs serem caracterizadas como «frias» significará o arrefecimento da relação amorosa, pelo que o apelo da donzela poderá representar, simbolicamente, o seu desejo de que o amigo deixe de dormir (isto é, de assumir um papel passivo) e faça algo no sentido de reverter o processo de destruição da relação amorosa. (Alexandre Pinto e Patrícia Nunes, in Entre nós e as palavras 10, Santillana, pág. 34).


● Dupla leitura do texto

                O gesto do amigo, ao tirar os ramos onde estavam as fontes e ao secar as fontes onde bebiam e tomavam banho, poderá significar que pretendia afastá-las, de modo que o amor existente entre si e a donzela se mantivesse secreto.
                Por outro lado, esses atos podem significar o fim do seu amor pela donzela e, consequentemente, da relação entre ambos.


Cenário: natural ® aves, ramos, fontes.


Relação amor/natureza

                Esta cantiga evidencia um tópico/tema que posteriormente será desenvolvido por autores como Petrarca ou Camões: a natureza reflete a relação amorosa entre o par amoroso – canta e espalha a alegria amorosa; reflete o esfriar amoroso, através das "manhãs frias", da queda dos ramos e da secagem das fontes.
                Por outro lado, está também presente a oposição clássica entre a mudança cíclica da natureza e a irreversibilidade da mudança do sentimento amoroso. De facto, essas ações e o desaparecimento das aves remete para a destruição de um cenário primaveril, conotado com a juventude, o amor, a esperança e a harmonia, e a sua redução a um espaço de tom invernal, associado à tristeza, à solidão, ao abandono, à esterilidade e à morte. Assim se sugere a destruição do amor por parte do amigo.


● Simbologia das aves

                As aves, através do seu canto, simbolizam o amor e a felicidade dele resultante. Por outro lado, também através do canto, poderiam divulgar o amor vivido entre a donzela e o amigo, daí surgirem personificadas.


Recursos poético-estilísticos

                1. Nível fónico

. Estrofes: oito estrofes heterométricas de 3 versos.
. Metro: versos de 12 sílabas e 8 no refrão.
. Rima         - AAR / BBR;
- emparelhada;
- toante ("frias" / "diziam") e consoante ("dizian" / "havian");
- rica ("frias" / "dizian") e pobre ("dizian" / "havian");
- grave.
. Ritmo binário, lento, de acordo com a tristeza da donzela pela indiferença do amigo.
. Refrão: na 1.ª parte, traduz a alegria da donzela por amar e ser amada e feliz; na 2.ª parte, adquire um sentido humorístico-trágico, uma vez que a alegria da donzela já não existe.
. Aliteração: repetição das consoantes v e s.
. Assonância em i e á.


                2. Nível morfossintáctico

. Paralelismo perfeito.
. Leixa-prem.
. Substantivos: aves ® refletem a felicidade amorosa, cantando o amor, e a ausência do amor;
aves, manhãs, ramos, fontes ® substantivos que refletem, num primeiro momento, a felicidade amorosa, e, num segundo momento, a ausência e o seu reflexo destrutivo na natureza.
. Adjetivos: frias ® caracteriza a frieza amorosa presente, isto é, a ausência do amor;
leda ® refere-se, na 1.ª parte, à felicidade da donzela e, na 2.ª, adquire um tom irónico.
. Funções da linguagem:
. apelativa:
- verbos no imperativo;
- vocativos;
. expressiva:
- adjetivos;
- refrão.
. Verbos:
. modos:
® indicativo: o modo da realidade;
® imperativo: o apelo da donzela ao amigo para que se levante, ou seja, que retome o amor por ela;
. tempos:
® pretérito imperfeito             - "as aves cantavan" \ nosso amor  -  Primavera
- "en ment' avian"    /
® pretérito perfeito            - "vós lhi tolhestes os ramos" \ destruição do amor
- "vós lhi secastes as fontes"   /
® presente       - "levade"       \ manhãs frias  -  Inverno
                                - "dormides" /
. Anáfora.
. Hipérbato.
. Frases: declarativas.
. Construção oracional: predomínio da coordenação.


                3. Nível semântico

. Apóstrofe dirigida ao amigo, apelando-lhe ao retorno e ao amor.
. Personificação das aves, que reflectem a relação amorosa, nos bons e maus momentos.
. Metáforas:
- "vós lhi tolhestes os ramos em que siian" \ significam que o amigo destruiu o amor
- "e lhis secastes as fontes u se banhavam"  / de ambos, destruiu o sustento e a habitação do amor.
. Hipérbole: “todalas aves do mundo” – o canto melodioso das aves sugere a intensa alegria causada pela paixão.


Classificação

                1. Cantiga de amigo.

1.1. Temática: alba / alvorada /serena.

1.1.1. Relação com as albas provençais: a alba tem como cenário o amanhecer, que desperta os amantes, acordados pelo corneteiro da corte ou por um amigo do amante. Por isso se diz que a lírica provençal fala de um amor adúltero.
                Na lírica galego-portuguesa, não há albas como na lírica provençal e, como tal, a sua designação é difícil. Na lírica galego-portuguesa, fala-se do amanhecer, mas nunca da relação adúltera e da separação dos amantes.

1.2. Formal:
- cantiga paralelística perfeita;
- cantiga de refrão.
                O refrão mantém-se inalterado ao longo da cantiga, não obstante o seu valor ser diferente em casa uma das partes.
                Com efeito, na primeira, ele traduz a alegria e a felicidade vividas pela donzela, a evocação dos momentos idílicos da relação amorosa, enquanto na segunda traduzem o lamento amargurado da jovem face à destruição progressiva do relacionamento.
                Por outro lado, a ênfase posta na alegria por parte da donzela poderá sugerir que esta ainda não perdeu totalmente a esperança de reverter a situação e de regressar à alegria e felicidade experimentadas no passado.

sábado, 13 de outubro de 2018

Coerência textual


         A coerência textual é a propriedade que confere sentido global a um texto / enunciado, dizendo respeito às relações de sentido que se estabelecem no texto e ao modo como ele se apresenta lógico. As situações e as ideias veiculadas têm de ser lógicas e adequadas ao conhecimento que os falantes têm da realidade, como, por exemplo, as situações de ordenação temporal ou as relações de causalidade (Não saí porque chovia.).

         A coerência textual resulta de vários fatores:
(a) o género e a tipologia do texto[1];
(b) as relações intertextuais (as relações com outros textos);
(c) os temas;
(d) a intencionalidade comunicativa do autor do texto;
(e) a capacidade interpretativa do leitor / recetor;
(f) o princípio da cooperação entre emissor e recetor;
(g) do conhecimento do mundo e do grau em que este conhecimento deve ser ou é compartilhado pelos interlocutores;

         Por outro lado, como a coerência está dependente da organização das ideias de um texto e à forma como elas se interligam a nível da lógica e do sentido, esse texto deve obedecer a um conjunto de requisitos para estar bem estruturado e produzir sentido:
(a) a unidade de conteúdo: o texto deve tratar um tema central, que depois é desenvolvido e analisado;
(b) a continuidade[2]: o texto contém unidade de tema garante que existe um fio condutor;
(c) a progressão: diz respeito ao desenvolvimento das ideias e dos acontecimentos e ao aparecimento de nova informação;
(d) a estrutura (normalmente, um texto apresenta uma estrutura tripartida: Introdução, Desenvolvimento, Conclusão);
(e) do domínio das regras que regulam a língua, o que permite as várias combinações dos elementos linguísticos;

         Para que um texto tenha coerência, é necessário também ter em conta alguns mecanismos:

Mecanismos
Exemplos
Na coordenação, os factos descritos são apresentados segundo a ordem por que acontecem.
A calçada portuguesa nasceu em Lisboa, espalhou-se pelo país, alastrou pelo mundo.
Seria incoerente dizer: A calçada portuguesa nasceu em Lisboa, alastrou pelo mundo, espalhou-se pelo país.
Na subordinação, é possível reconhecer uma relação de causa-efeito, de condição ou consequência entre os acontecimentos descritos.
Faltam calceteiros profissionais, porque a Escola de Calceteiros formou poucos.
Relação de causa-efeito (causa: a Escola de Calceteiros formou poucos calceteiros; efeito: faltam calceteiros profissionais.
Os calceteiros são tão poucos que não chegam para fazer a manutenção da calçada.
Relação de consequência.
Se houvesse mais calceteiros, as calçadas estariam em melhor estado.
Relação de condição.
A ordenação é feita de acordo com relações lógicas (ex.: classe-elemento, todo-parte) ou segundo a forma como percecionamos a realidade.
Faltam calceteiros profissionais que façam a calçada como manda a tradição: pedras bem cortadas, com o máximo de dois milímetros de separação, coladas com areia lavada pelo rio.
Primeiro apresenta-se o todo (“calçada”), depois as partes – “pedras” (parte que percecionamos em primeiro lugar) e “areia” (parte que percecionamos em segundo lugar).

         Atentemos nas palavras de Vilas-Boas e Vieira (Entre Palavras 11, pág. 21):

  “Ao leres o capítulo I do Sermão pudeste observar que:
nada nele vai contra o que conheces do mundo, em geral, e do mundo do século XVII, em particular; por outras palavras, o ouvinte do sermão ou o leitor do mesmo reconheceria, ao ouvi-lo ou ao lê-lo nesse século, as coordenadas religiosas, culturais ou sociais do seu mundo como corretas;
ele se apresenta ordenado logicamente, seguindo uma progressão evidente, que começa na constatação de que a terra está corrupta e na indagação das causas deste estado; o texto progride, criticando os maus pregadores e os maus ouvintes; apresenta depois o exemplo de Santo António e da sua pregação aos peixes, dado não ter audiência humana, e termina com a resolução do pregador em pregar também aos peixes, uma vez que nada espera dos homens.
Por estes motivos, o texto apresenta coerência textual, a propriedade dos textos que:
representam a normalidade do mundo;
se apresentam logicamente ordenados;
progridem através de relações lógicas internas ou intratextuais – de causa, de consequência, etc.;
não apresentam informação contraditória entre si.

         A coerência textual ocorre quando as ideias e os conceitos transmitidos pelo texto estão de acordo com o conhecimento que o leitor tem do mundo e quando o texto possui uma lógica interna e respeita os princípios da relevância, da não contradição e da não tautologia.


         Existem diferentes tipos de coerência.

A. Coerência lógico-conceptual: uma frase ou um texto é coerente se as situações nele criadas estiverem de acordo com aquilo que sabemos acerca do mundo e se forem respeitados alguns princípios que orientam a expressão do pensamento bem estruturado.

· «O carro está amolgado porque não bateu.»
¯
Esta frase é incoerente porque estabelece uma relação de causalidade que se opõe ao conhecimento que temos do mundo.


         Os princípios a que um texto tem de obedecer para ser coerente são os seguintes:

1.º) Princípio da não contradição: um texto coerente não deve representar situações incompatíveis ou contraditórias entre si; devem ser compatíveis entre si e com o mundo (quer no que está explícito quer no que se pode inferir) – por exemplo, a pessoa ou os tempos verbais não se devem contradizer:

· O número três é ímpar e é par. [texto incoerente]

· Estar vivo é estar morto. [texto incoerente]

· Estão 40 graus lá fora. Vou vestir um sobretudo. [texto incoerente]

· Entrei no consultório. Havia revistas de capas coloridas. Uma pequena mesa estava debaixo delas.
¯
A frase é incoerente, pois a ordenação lógica dos elementos descritos não corresponde ao modo como geralmente os percecionamos na realidade.

· Entrei no escritório. Havia revistas de capas coloridas em cima de uma pequena mesa.
¯
A frase é coerente.

· Entrei no consultório. Primeiro vi revistas de capas coloridas. Só depois reparei na pequena mesa que estava debaixo delas.
¯
A frase é coerente, pois as formas linguísticas «primeiro» e «só depois» determinam a ordem pela qual a realidade foi percecionada.


2.º) Princípio da relevância:
– um texto coerente deve apresentar informações (situações e acontecimentos) que estejam relacionadas entre si, por meio de relações intratextuais (organização temporal, relações de semelhança, de oposição, de causa-efeito, de parte-todo ou todo-parte, de geral-particular ou particular-geral, de classe-elemento ou elemento-classe, de compatibilidade / incompatibilidade entre um tema e as informações remáticas a ele ligadas);
– o que é transmitido deve ser compatível com o conhecimento que os leitores têm do mundo;
– um texto seleciona apenas aquilo que é importante para a sua progressão temática, para a consecução do objetivo da comunicação, devendo, pois, suprimir-se o que não é relevante ou o que é facilmente dedutível.

· Estou a estudar gramática. O meu irmão gosta de rebuçados. A coerência é uma matéria interessante. [texto incoerente]

· Gostei muito deste livro porque amanhã vou sair. ® A frase não é coerente porque não há uma relação de causa / consequência entre os eventos descritos.

· «A mesa dançou toda a noite.»
¯
A frase é incoerente, pois as propriedades atribuídas ao objeto «mesa» não são conformes à nossa visão do mundo. Poderá, no entanto, assumir coerência se, enquadrada num determinado contexto, funcionar com valor estilístico – por exemplo, de personificação.

· «A Ernestina dançou toda a noite com o namorado.»
¯
A frase é coerente.


3.º) Princípio da não redundância ou tautologia: para que seja coerente, um texto deve conter informação nova (progressão temática), ou seja, novos tópicos de conteúdo, evitando as repetições ou redundâncias desnecessárias/inúteis. A repetição das mesmas ideias por palavras diferentes torna o texto excessivo e rebuscado.

· Estar vivo é o contrário de estar morto.

· O Afonso chegou atrasado por causa do pai. O seu pai foi o responsável pelo seu atraso. Por isso ele não chegou cedo. ® O texto é incoerente, pois transmite uma informação quase nula, uma vez que esta é repetida constantemente.



B. Coerência pragmático-funcional: o texto é construído e articulado com coerência quando se adequa à situação de comunicação, de acordo com

Ä a articulação entre atos ilocutórios;

Ä a adequação à situação de comunicação (ao contexto e aos interlocutores);

Ä a intenção comunicativa.

· «Declaro-vos marido e mulher.»
¯
O enunciado só será coerente se for proferido pela pessoa institucionalmente adequada (ex.: um padre), no contexto apropriado.

· A ‑ «Vamos à praia amanhã?»
B ‑ «Tenho de estudar.»
¯
A resposta dada à pergunta formulada em A só será coerente se o locutor proceder a uma inferência pragmática, ou seja, se do enunciado de B inferir uma resposta negativa ao convite.



C. Isotopia

         A isotopia (do grego isó = mesmo, igual + tópos = tópico, lugar) é outra forma de conferir coerência a um texto e remete para a presença de uma temática que se manifesta em diferentes expressões da mesma área de sentido, isto é, a repetição de palavras e expressões semanticamente equivalentes ao longo da sequência textual.
         Por exemplo, no soneto “A formosura desta fresca serra”, Camões aborda a isotopia da dor / saudade causada pela ausência da mulher amada através de um conjunto de palavras ou expressões semanticamente equivalentes: tristeza, magoando, enoja, aborrece, tristeza.



D. Pontuação

         A pontuação é um elemento decisivo na construção da coerência de um texto. De facto, um texto mal pontuado é difícil de perceber ou torna-se mesmo incompreensível.
Ex.: Um homem tinha um cão e a mãe do homem era também o pai do cão.
¯
A ausência de pontuação torna a frase ininteligível. Porém, se a pontuação for acrescentada, ela adquire sentido: Um homem tinha um cão e a mãe; do homem era também o pai do cão. (= o homem tinha três cães: pai, mãe e filho).




[1] A coerência textual depende também dos géneros de textos:
- há géneros textuais em que a liberdade interpretativa do leitor é limitada:
Ex.: artigo de divulgação científica, exposição sobre um tema.
- há géneros textuais em que a liberdade interpretativa do leitor é alargada:
Ex.: discurso político, apreciação crítica, anúncio publicitário.
[2] A coerência textual tem como característica a continuidade de sentido,
- resultando das estruturas existentes no texto (graças à criatividade, à técnica e à intencionalidade do autor);
- relacionando-se com as relações de intertextualidade, as relações intratextuais, os campos lexicais e semânticos e os mecanismos sintáticos.

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