quinta-feira, 24 de março de 2011

"Nevoeiro", Fernando Pessoa

          O primeiro-ministro (em minúsculas) demitiu-se; a dívida pública e privada é gigantesca; os juros exigidos pelos empréstimos que contraímos são descomunais; a crise está aí em todo o seu esplendor.

          Sobre a CRISE, ou crises, escreveu Pessoa na Mensagem o poema «Nevoeiro», precisamente o que encerra a obra:


NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo - fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!


          O poema aponta claramente para um clima de degradação da pátria, de melancolia e tristeza, enfatizado pelo recurso a palavras e expressões que revelam negatividade ("Nem rei nem lei"; "Brilho sem luz", etc.), em suma, um ambiente de crise a vários níveis: político ("Nem rei nem lei, nem paz nem guerra"); moral ("Ninguém sabe que coisa quer, / (...) nem o que é mal, nem o que é bem"); de identidade ("ninguém conhece que alma tem"). A situação de Portugal era, portanto, de incerteza e indefinição. Ontem, tal como hoje: "Ó Portugal, hoje és nevoeiro...".

          Assim sendo, as circunstâncias exigem um golpe de asa, um esforço conjunto de resgate da situação disfórica que se vive. Parafraseando Pessoa, «É a hora!».

Populares

          O povo / os populares configura(m) uma personagem colectiva relevante na peça, como não poderia deixar de acontecer.
          O povo não possui qualquer poder nem um líder - embora deposite enormes esperanças no general -, o que faz com que surja na peça oprimido e completamente indefeso.
          O seu espaço privilegiado é a rua, retrato da sua miséria - fome, desemprego, ausência de habitação condigna ["Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. (...) E tu, qu enão comes desde ontem (...) Nenhum de vocês tem um tecto que os abrigue no Inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto (...)"] -, da ignorância e do analfabetismo ("Talvez, se o ensinassem a ler..." - p. 36), da opressão e do terror, da desilusão e ausência de perspectivas.
           Nas palavras de Vicente, a sua miséria é tal que dirige a sua preocupação para o quotidiano e para a sobrevivência diária ("Interessa-lhe mais o preço do pão... Talvez, se o ensinassem a ler, tomasse conhecimento do «Eclesiastes»..." - p. 36), escasseando-lhe tempo para questões da filosofia política ou religiosa ("... e pouco se preocupa com a origem do poder." - p. 36).
          Não obstante todas as circunstâncias que marcam o seu quotidiano, o povo tem um grande sentido de justiça e de dignidade e uma elavada consciência. À semelhança do que sucede com Manuel, vê no general Gomes Freire o libertador da opressão, do medo e da miséria em que vive, depositando na sua acção toda a esperança, daí não ser de estranhar o desespero e a desilusão que o assalta quando toma conhecimento sua prisão e posterior condenação à morte.

          Por outro lado, esta personagem desempenha diferentes funções ao longo da peça:



  1. Coro, dado que as suas falas têm o valor de informação ou comentário dos acontecimentos;
  2. Inicia os dois actos, estabelecendo, no I, a ligação entre a acção e o espectador e relatando, no II, a prisão de Gomes Freire e o desespero de Matilde;
  3. Situa o espectador no tempo histórico, através das suas interrogações ("Onde aprendeu vocessemecê isso? Em Campo d'Ourique - já lá vão dez anos..." - pág. 18);
  4. No acto II, as falas populares revestem o carácter de informação / comentário sobre os episódios ao nível da acção dramática: "Passaram toda a noite a prender gente por essa cidade..."; "É por pouco tempo, amigo, espera pelo clarão das fogueiras..." (pág. 80).
          Em suma, o povo é uma personagem colectiva que representa o «grupo dos deserdados pela sorte e pelo berço», dos que servem e são explorados, que recebem esmola e são tratados indignamente pela classe dominante, que trabalham e são explorados.

Principal Sousa

          Principal Sousa, a figura que representa o poder religioso, é, em nossa opinião, de todas, a personagem mais odiosa da peça. Porquê? Desde logo, porque deveria representar o BEM e, por isso, estar ao lado do povo humilhado, explorado, oprimido e ignorante. No entanto, pelo contrário, Principal Sousa personifica uma Igreja contrária aos princípios cristãos e ao exemplo de Jesus Cristo: autocrática, dogmática, conservadora nos usos e costumes, falsa e hipócrita, defensora dos seus interesses, daí o seu comprometimento com o poder político (a equivalência à relação, em determinados períodos do Estado Novo, entre a Igreja católica, representada pelo Cardeal Cerejeira, e o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar).

          Defensor do despotismo iluminado ("É de origem divina o poder dos reis e é portanto a sua - e não a do povo - a voz de Deus." - p. 36), é um obscurantista, na medida em que defende a manutenção do povo na ignorância para que, desse modo, o poder opressivo e tirânico possa manter o seu reinado livremente. É uma forma de assegurar o sufocar da revolta popular ("... a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! Ambas podem afastar o homem de Deus e do seu caminho." - p. 36) - que receia (p. 40) -, pois a ignorância impede que o povo seja capaz de reflectir sobre si, sobre a sua existência, sobre os mecanismos do poder opressivo e de os questionar. Assim, também não é de estranhar que ele odeie os ideais revolucionários e os franceses ("... perdoe o ódio que tenho aos Franceses..." - p. 39), acusando-os de serem responsáveis pelo espírito revolucionário que germina e que poderá contribuir para o fim do seu consulado.

          Por outro lado, dá voz a determinadas ideias do Salazarismo: a conservação de um povo «pobre mas feliz» (pág. 40). Odeia Beresford ("O principal não gosta de Beresford..." - p. 41), que considera um herege (pág. 41), mas aceita e submete-se à sua presença porque tem consciência de que precisa do seu auxílio para manter o poder (p. 59). Além disso, é vingativo, pretendendo justificar a condenação do general com uma ofensa que este terá praticado relativamente ao seu irmão ("Agora me lembro de que há anos, em Campo d'Ourique, Gomes Freire prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!" - p. 72).

          Adopta, sucessivamente, uma postura calculista e cínica. Por exemplo, mostra-se falsamente preocupado com a possibilidade de se condenar um inocente (p. 60), mas é denunciado por Beresford, que lhe diz que está nas suas mãos impedi-lo. Faz uso constante de uma linguagem pejada de termos religiosos, invocando periodicamente a figura divina para justificar os seus actos, como se agisse em seu nome. Não obstante, o seu inconsciente parece atormentá-lo: sonhou com o seu julgamento e com a sua condenação à forca (p. 68), o que o deixa aterrado e sem dormir.

          Vive deformado pelo fanatismo religioso, evidenciando uma ausência aflitiva de valores éticos e um paternalismo falso, oco e beato. Daí a sua linguagem estereotipada, paternalista e falsamente compreensiva. Acaba por ser Matilde a desmascará-lo e humilhá-lo.

          Em suma, a figura de principal Sousa representa:
  1. o conluio entre a Igreja e o Poder;
  2. a política do orgulhosamente sós, princípio em que se espelha, mais uma vez, o Salazarismo;
  3. o não cumprimento da sua missão, evidenciada pela hipocrisia, pela ausência de valores éticos e morais consonantes com a ética cristã e pela cobertura que dá à injustiça.
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