Este poema
data de 1916 e foi escrito na capital francesa.
O texto
gira em torno de um tema que se pode sintetizar do seguinte modo: encontrar
sentido apenas na morte e através dela. O sujeito poético confere à sua morte e
ao seu funeral o tom grotesco que lhe rira a dignidade, como para mais
achincalhar-se.
Começando a
análise pelo título, nota-se nele uma espécie de humor satânico que se estende
a toda a composição. O sujeito poético expressa o desejo de o seu post-mortem,
o seu funeral, ser marcado pelo bater de latas, berros, pinotes e palhaços,
desejo esse que sugere uma autorridicularização. É uma sugestão irreverente que
deixa escapar um profundo autodesprezo. Por outro lado, a performance circense
de palhaços e acrobatas conota uma alegria no encontro com a morte.
As ideias
de teatralidade e representação são conferidas pela presença precisamente dos
palhaços e acrobatas, típicas figuras do espetáculo circense, que resume a
faceta de clandestinidade, de transgressão incutida na excentricidade do último
desejo, o de um funeral à moda andaluza. Esta arte de rua, marginal, constitui
também o tema de “Partida de Emigrantes”, um triplico de Almada Negreiros. Num
dos quadros, os saltimbancos de rua dominam a cena do cais representado. A sua
presença representa a transgressão, a marginalidade que pode ser ignorada,
desprezada e ostracizada, mas não suprimida, porque existe. No poema em
análise, o sujeito lírico, na última jornada da sua existência, transforma o
que deveria ser um cerimonial triste e pesaroso, de acordo com as convenções
ocidentais, numa festa de rua, dominada pelo clima de festa, provocatória. O
fim é celebrado e transformado numa comemoração de vida, a pretexto da morte, e
acompanhado por artistas marginais com quem comunga o mesmo sentido transgressor.
O ato caricato
de transportar o caixão sobre um burro sugere a irreverência diante da morte e
traduz também uma ideia de escárnio pelo próprio fim. Além disso, tem os
enfeites à moda da Andaluzia, que devem ser vibrantes, vistosos.
Quanto ao
burro, no texto simboliza a obscuridade. Note-se que, na Índia, o animal serve
de montaria para divindades funestas, como Nairrita, guardião da região dos
mortos, o que só confirma a ideia de que o poema aponta para a figura do fim.
A figura do
palhaço, para Chevalier e Gheerbrant, é a representação do rei assassinado.
Simboliza a inversão da compostura régia nas suas palavras e atitudes. A
majestade é substituída pela irreverência; a soberania pela ausência de toda a
autoridade; o temor pelo riso; a vitória pela derrota; as cerimónias sagradas
pelo ridículo; a morte pela zombaria. O palhaço é como o reverso da medalha, o
contrário da realeza, a paródia encarnada.
Por um lado,
a composição remete para um deboche numa ocasião cercada de solenidade; por
outro, as atitudes a que ele incita traduzem uma celebração pela sua morte,
como se se tratasse de um benefício para o mundo, talvez para si mesmo. O
corolário do cortejo reside na sua exigência de que o caixão seja transportado
sobre um burro, um claro menosprezo do seu próprio funeral, revelando, deste
modo, a pouca importância atribuída a si mesmo e à sua vida.
Em suma, a
estruturação mental do poema é clara. De facto, o sujeito poético deixa um
conjunto de indicações bastante precisas sobre:
● o tipo de
funeral: à andaluza;
● o meio de
transporte para o levar à sua última morada: um burro;
● as ações
a desempenhar pelos acompanhantes da sua cerimónia fúnebre: bater em latas,
romper aos berros e aos pinotes, fazer estalar chicotes no ar;
● os
participantes e responsáveis pela animação do evento: palhaços e acrobatas.
A nota final é clara: esta é a sua vontade expressa, pois a
um morto nada se recusa.
Bibliografia:
- Neusa
Sorrenti, “Mário de Sá Carneiro, poeta: um Narciso entre Eros e Tânatos”;
- Carlos
Ferreira, Mário de Sá Carneiro: Do Percurso do Poeta às Práticas no Programa
de Português do Ensino Secundário.