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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Amor de Perdição no cinema

    O primeiro filme baseado em Amor de Perdição foi uma película muda, da autoria de George Pallu, um realizador francês que se tinha fixado no Porto, realizado num estúdio da cidade invicta chamado Invicta Filmes, em 1921.
    Em 1942, António Lopes Ribeiro fez uma adaptação da obra. Em 1978, Manoel de Oliveira fez uma nova versão do romance. Em 2008, encontramos uma adaptação mais livre, refletida logo no título: Um Amor de Perdição. O determinante artigo indefinido «Um» mostra como esta adaptação é, de facto, mais livre e uma transposição para a atualidade: a história de Simão, Teresa e Mariana transporta para a atualidade. O realizador é Mário Barroso, que trabalhou com Manoel de Oliveira como ator e chegou mesmo a interpretar o papel de Camilo Castelo Branco pelo menos em dois filmes do falecido realizador portuense baseados na figura do escritor: O Dia do Desespero (sobre os últimos tempos de vida de Camilo), bem como noutra película anterior, baseada na adaptação de uma obra de Agustina Bessa Luís. Entretanto, Mário Barroso passou a dedicar-se mais à realização e é, portanto, o realizador da mais recente adaptação até ao momento de Amor de Perdição.
    Aquando do início da abordagem de Amor de Perdição no 11.º ano, talvez seja interessante acompanhar a leitura e análise dos capítulos propostos com o visionamento de excertos fílmicos, nomeadamente da versão realizada por António Lopes Ribeiro. Outra estratégia possível de ser adotado é análise de imagens alusivas ao texto, seja de capas das várias edições, seja de outras referentes aos filmes. Neste contexto, o cartaz referente ao filme de 1942 é muito interessante. O seu autor, seguindo o que a película pretendia pôr em evidência, estabelece a ligação entre o autor e o romance, daí que, em primeiro plano, vejamos a figura de Camilo Castelo Branco a escrever, bem como uma série de figuras e de cenas referentes ao Amor de Perdição – as grades, o convento, a prisão, a figura de Simão a correr à paulada uma série de homens (alusão ao episódio do desacato em Viseu, junto à fonte de São Francisco, no qual interveio o filho de Domingos Botelho, que partiu cabeças e cântaros), a personagem de Teresa ladeada por outras que a estão a confortar (religiosas ou primas), trajes de fidalgos, pessoas a cavalo, etc. Ora, não é uma casualidade a presença de Camilo no cartaz. De facto, é uma forma de o realizador dizer que, no seu filme, está a seguir fielmente aquilo que o escritor escreveu e quis mostrar a ligação autobiográfica, que está presente na própria novena, logo na Introdução, entre Camilo e a própria história.
    O início do filme mostra exatamente isso. Ele baseia-se precisamente na Introdução que faz parte do Amor de Perdição, mas não só, pois também há elementos – frases, etc. – que não constam dessa Introdução. Então onde estão esses elementos? Neste ponto, há que convocar outros textos para estabelecer adequadamente a género da obra. Já sabemos que Camilo escreveu esta obra na prisão, nas circunstâncias conhecidas, mas há outro livro que ele escreveu, igualmente baseado nessa experiência de cárcere e na qual faz referências ao Amor de Perdição, nomeadamente a passagem em que diz que escreveu a obra em 15 dias, os dias mais atormentados da sua existência. Esta menção está presente numa obra intitulada Memórias do Cárcere.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Cena icónica de Aconteceu no Oeste

Cena icónica
 

    Esta fotografia a preto e branco dos bastidores de Era uma Vez no Oeste (1968) transporta-nos de volta à magia da realização cinematográfica. Sob um arco de tijolos envelhecido, o diretor de produção Claudio Mancini assume o papel do irmão mais velho de Harmónica, dando vida a um dos momentos mais inquietantes do filme. Era o início de agosto de 1968, e a equipa trabalhava entre Monument Valley e Mexican Hat, no Utah, captando um flashback que definiria para sempre os temas de dor e vingança da obra.

    Na imagem, um membro da equipa segura a claquete, com Era uma Vez no Oeste escrito, marcando mais uma tomada desta cena inesquecível. Cada detalhe, desde as vastas paisagens até à forma como Sergio Leone enquadrava cada plano, transformou esta sequência em pura poesia cinematográfica. E, claro, a banda sonora assombrosa de Ennio Morricone garantiu que a cena permanecesse connosco muito depois do final dos créditos.

(c) Fãs de Spaghetti Western

segunda-feira, 3 de março de 2025

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Análise do filme "Parasita"

 I. Introdução
 
                Parasita é um filme sul-coreano de 2019, realizado por Bong Joon-ho. Trata-se de uma película que mistura vários géneros, que vão desde o thriller à comédia.

 
 
II. Ficha técnica
 
Título: Parasita.

Ano de produção: 2019.

Data de lançamento: maio de 2019.

País de origem: Coreia do Sul.

Realizador: Bom Joon-ho.

Género: thriller, drama e comédia.

Duração: 132 minutos.

Classificação: maiores de 16 anos.

Prémios:

- Oscar de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme Estrangeiro.

- Palma de Ouro de Cannes.

 
 
III. Sinopse
 

                O filme retrata a vida da família Kim, pobre, que manipula os Park, ricos, na tentativa de encontrar um trabalho e uma remuneração. Graças a um conjunto de mentiras e planos mirabolantes, os Kim infiltram-se na mansão da família abastada, de forma semelhante à adotada pelos parasitas, que vivem num corpo sem que o hospedeiro se aperceba.

                De facto, a película centra-se na família Kim, que leva uma vida abaixo do nível de pobreza. Ela é constituída pelos progenitores – Ki-taek e Chung-sook – e pelos seus dois filhos – Ki-woo, o filho, e Ki-jeong, a filha –, os quais vivem num pequeno apartamento subterrâneo, localizado numa zona perigosa da cidade. Os quatro membros sobrevivem dobrando caixotes que vendem para uma pizaria local.

                Min-hyuk é um universitário que se prepara para ir estudar no estrangeiro e sugere a Ki-woo, seu amigo, fique com o seu trabalho como tutor de uma adolescente rica. O jobem forja um diploma e candidata-se ao emprego, que acaba por obter, graças ao interesse que a rapariga – Da-hye – demonstra por ele.

                Do outro lado da barricada temos a família Park, que vive numa mansão rica, rodeada de luxo e conforto. Dong-ik é o CEO de uma empresa informática e a sua esposa, Yeon-gyo, divide a vida entre os filhos, Da-hye e Da-song. A Sr.ª Park refere casualmente ao novo tutor da filha, que está à procura de uma professora de arte para o filho. O tutor diz-lhe que conhece uma rapariga que acabou de regressar dos Estados Unidos, onde estudou Belas Artes, que podem desempenhar a função. Deste modo, Ki-jeong passa a trabalhar para os Park.

                Posteriormente, os dois jovens desenvolvem um plano tendente ao despedimento do motorista e da criada da família Park, permitindo que os seus pais sejam contratados para os seus lugares, passando todos a conviver sob o mesmo teto, fingindo que não se conhecem.

                Certa noite, quando os donos da casa se encontram fora, a antiga empregada, Gook Moon-gwang, surge de surpresa e insiste em ir buscar algo à cave. É deste modo que os Kim descobrem que a mansão possui um bunker onde está escondido o marido da ex-criada há cerca de quatro anos, porque está cheio de dívidas e receia ser morto por causa disso.

                O casal e a família acabam por se envolver numa luta em que disputam um lugar na mansão. Entrementes, os Park regressam, o que obriga os Kim a amarrar Gook Moon-gwang e Geun-sae na cave. A antiga criada, durante o processo, sofre uma pancada na cabeça e morre.

                Por outro lado, nessa mesma noite desaba uma tempestade enorme e, quando os Kim regressam a sua casa, encontram-no inundado até ao teto, completamente destruído, o que os obriga a pernoitar num local público, com os demais desalojados.

                No dia seguinte, no intuito de proteger a família, Ki-woo desloca-se ao bunker para se livrar dos reféns, mas é atacada por Geun-sae. Depois de cerca de quatro anos preso, o homem pega numa faca e irrompe na festa de aniversário de Da-song, o filho de Park. Começa por esfaquear Ki-jeong e, depois, ataca Dong-ik, que reage com nojo ao seu cheiro. Depois de ver a filha morrer, Ki-taek pega na faca, mas, em vez de atacar o assassino, mata o patrão.

                De seguida, foge e esconde-se no bunker. Posteriormente, a família Kim é julgada e condenada, os Park vendem a mansão e o patriarca dos Kim permanece escondido na cave. Para combater a solidão, tenta comunicar em código morse com o seu filho, piscando as luzes todas as noites.

 
 
IV. Temas
 
4.1. Contrastes sociais e relações familiares
 

                Parasita constitui um retrato bastante crítico da sociedade sul-coreana contemporânea, focado nas diferenças sociais e nas desigualdades económicas entre as diversas classes.

                Assim, as famílias Park e Kim simbolizam os dois extremos: aquela é milionária e esta vive abaixo do limiar de pobreza. Para sobreviver, os segundos trabalham em conjunto, engendrando diferentes esquemas. De facto, todos contribuem para o sustento da família, seja de que forma for.

                Em contrapartida, os Park parecem não comungar da união dos Kim: opai passa imenso tempo longe de casa e a mãe preocupa-se com tudo, enquanto os filhos são super-protegidos e se preocupam apenas com os seus estudos. Se pensarmos noutras obras, de outros géneros, percebemos como a superproteção não traz bons resultados futuros. É o caso das personagens Pedro da Maia e Eusebiozinho Silveira, de Os Maias. O primeiro é um fraco e suicida-se, incapaz de suportar a traição e fuga da esposa, e o segundo vive num permanente estado de inferioridade física e psicológica.

 
4.2. O parasitismo
 
                Como já foi referido, o filme retrata a forma como aquela família desfavorecida, como última e desesperada estratégia de sobrevivência, se infiltra na casa e vida de uma família abastada.

                Quando a personagem Ki-woo começa a trabalhar para os Park, os Kim descobrem o caminho para um espaço luxuoso, requintado e confortável, exatamente o oposto da sua realidade. No momento em que os patrões abandonam a mansão para acampar, subitamente os desvalidos veem-se sozinhos, rodeados de tudo aquilo que nunca possuíram nem sonharam obter.

                Os “novos senhores” descobrem que existe um bunker onde se encontra, trancado, o marido da antiga empregada dos Park, Geun-sae, há vários anos, porque estava cheio de dívidas que colocavam em risco a sua vida. Assim sendo, é fácil concluir que este casal compartilhava do desespero dos Kim, embora por motivos diferentes. Por outro lado, também para ele a habitação constituía um refúgio. Quando o par descobre a tramoia dos Kim, envolve-se numa luta com estes, luta essa que perdem, acabando por ficar presos no bunker. No fundo, esta luta simboliza uma disputa pelo lugar de parasita da mansão e da família.

 
4.3. A sobrevivência
 
                A questão financeira (a posse ou a ausência de dinheiro) está no centro da película e é ela que constitui um dos seus fios condutores.

                Neste contexto, a família Kim parece configurar a vilã da história, por causa dos esquemas e atos criminosos que praticam, manipulando, mentindo, invadindo a habitação e a vida de outra família e ameaçando a sua existência. Deste modo, quando, no final, são castigados, o espectador pode ser levado a concluir que se fez justiça.

                No entanto, por outro lado, se considerarmos que os parasitas – quer os Kim quer o casal do bunker – apenas agem da forma como agem por necessidade extrema, pelo instinto de sobrevivência, o olhar do espectador pode ser caracterizado por alguma empatia por estas personagens. Confrontados com a miséria extrema e o desespero que esta acarreta, sem saídas, elas agarram-se ao que podem, independentemente do que seja – lícito ou criminoso. A única coisa que interessa é sobreviver, seja de que forma for. É isso que demonstra a atitude do marido da antiga empregada que, ao ser descoberto pelos Kim, implora que o deixem continuar lá, onde se sente seguro e confortável, ao contrário da vida no exterior.

 
4.4. Conflitos de classes sociais
 
                Ao longo da obra, vamos assistindo a um conflito entre patrões e empregados, sobretudo o motorista.

                Fazendo parte de uma sociedade capitalista que se caracteriza (também) pelos extremos sociais – muito ricos versus muito pobres –, os empregados observam o dia a dia dos Park, o seu conforto e luxo, e constatam como as suas vidas são muito mais difíceis e infelizes. É isso que os Kim constatam ao observar a forma despreocupada e feliz como os Park vivem, pois não têm preocupações e a sua existência é extremamente facilitada pela riqueza. É com base nisto que a família procura justificar os seus atos criminosos: estão a tentar viver mais um dia.

                Quando os Park regressam a casa, o motorista e os filhos dos Kim têm de se esconder debaixo da mesa e é a partir daí que escutam a conversa entre Dong-ik e Yeon-gyo sobre os empregados, marcada por um tom de superioridade e desprezo, até nojo. Exemplo disto é o modo como o marido se refere ao seu motorista e à sua roupa, que cheira mal. Isto provoca a fúria e a revolta de Ki-taek, que aumenta quando, no dia seguinte, ao transportar o patrão, observa o gesto deste, que tapa o nariz com a mão por causa do cheiro do motorista.

                Durante a festa de aniversário do filho mais novo dos Park, Ki-woo liberta inadvertidamente o prisioneiro do bunker. Durante os anos que passou preso naquele espaço, Geun-sae idolatrava o pai Park, chegando a orar para uma foto sua todas as noites; contudo, ao ver-se livre, esfaqueia Ki-jeong, que segurava o bolo de aniversário, e, de seguida, ataca o patriarca. O motorista, que parece anestesiado perante a cena, ouve as ordens que o patrão lhe grita, e, ao observar a sua expressão de nojo perante o cheiro e a imagem de Geun-sae, agarra na faca e, em vez de atacar o assassino da filha, mata o patrão, foge e esconde-se na casa.

                Deste modo, Dong-ik deixa de ser um simples homem e representa o privilégio de classe e a injustiça, de uma organização social prenhe de contrastes profundos.

 
4.5. A mentira e os esquemas criminosos
 
                A vida da família Kim muda a partir do momento em que Min-hyuk, um amigo, lhes oferece um presente: um talismã – uma pedra – que atrai a riqueza. Em simultâneo, traz uma oferta de trabalho, propondo a Ki-woo que se faça passar por professor e o substitua nessa função.

                O facto de ser militar faz com que o jovem saiba falar inglês, o que facilita o plano. A sua irmã falsifica, então, um diploma de uma universidade conceituada. Deste modo, ele é contratado, descobre que existe uma vaga para uma professora de arte e fornece os dados à irmã, que finge também ser outra pessoa, de nome Jennifer.

                Ki-jeong é uma jovem muito inteligente, habituada a trabalhar como atriz em velórios e a enganar os outros. Após uma rápida pesquisa no Google, ela descobre vários argumentos para convencer a mãe Park de que o filho necessita de fazer sessões de arteterapia.

                É assim que os Kim se introduzem na mansão e na vida dos Park. Ki-woo aproveita o trabalho como tutor e inicia uma relação secreta com a filha adolescente, enquanto Ki-jeong engendra um plano para que os Park despeçam o seu motorista: durante uma boleia, ela deixa a sua «lingerie» no banco traseiro do automóvel para o patrão encontrar e deduzir que o motorista mantém relações sexuais no veículo. De facto, Dong-ik encontra a peça de vestuário, conta à esposa e ambos despedem o funcionário. Para o seu posto, contratam Ki-taek, que usa para o efeito o nome Mr. Kevin.

                Falta, então, encontrar emprego para a mãe, o que implica livrarem-se da empregada dos Park. Sabendo que a mulher é alérgica a pêssegos, eles vão colocando a penugem da fruta nos seus pertences, o que faz com que aquela tenha várias crises alérgicas, cada vez mais graves. Ao mesmo tempo, os Kim convencem a patroa de que Goak Moon-gwang sofre de tuberculose. Deste modo, a mulher é despedida. O patrão comenta depois com o novo motorista que precisa de contratar uma nova empregada, pois a anterior «comia por duas».

                É assim que Chung-sook entra na mansão dos Park. Deste modo, os quatro membros da família Kim passam a trabalhar para os mesmos patrões e a conviver na mesma casa, agindo como desconhecidos.

 
 
V. O humor
 
                Não obstante os momentos trágicos com várias mortes sangrentas, o filme possui uma vertente cómica bem marcada, um humor negro e macabro que faz rir o espectador mesmo nos momentos mais trágicos e que configura um processo de crítica social e política. Nada disto é estranho ou incomum no mundo dos Artes. Por exemplo, já Gil Vicente, no século XV, utilizava o cómico com um duplo sentido: cómico e crítico.

                Entre os vários momentos cómicos, merecem destaque as «alfinetadas» à vizinha Coreia do Norte e ao seu regime, nomeadamente à questão nuclear, sendo de destacar uma cena em que Gook Moon-gwang imita o seu líder, Kim Jong-un, ridicularizando-o.

 
 
VI. Significado do desenlace do filme
 
                Depois de Ki-taek ter assassinado o patrão e se ter escondido no bunker, a sua esposa e o seu filho, que fica com sequelas psicológicas decorrentes do ataque de que foi vítima por Geun-sae, são julgados.

                Durante a noite, ele vai ver a mansão e nota que as luzes estão a piscar, acabando por perceber que é o seu pai a tentar comunicar consigo através de código morse. As últimas cenas da película mostram-nos o seu monólogo, no qual promete que irá estudar, enriquecer e comprar uma casa. Contudo, o final do filme apresenta-nos o jejum no pequeno apartamento da família, o que significa que os seus sonhos jamais se concretizarão e nunca sairá daquela existência precária. Não obstante todos os esquemas maquinados e os crimes cometidos, a família Kim volta ao ponto de partida, com a particularidade de ter perdido dois dos seus membros.

 

domingo, 11 de julho de 2021

Análise do filme «O Rei Leão»

I. Introdução

 
            “O rei leão” é um filme de animação, lançado pela Walt Disney em 1994, com a duração de 1 hora e 29 minutos e sob a direção de Roger Allers e Rob Minkoff.
 
 
 II. Sinopse
 
            Mufasa, o leão que governa Pedra do Rei, tem um filho, Simba, e apresenta-o ao povo. Na cerimónia não está presente Scar, tio do recém-nascido príncipe, tornando clara a sua sede poder.

            A educação do jovem príncipe baseia-se em valores que o preparam para um dia vir a ser rei, sucedendo no trono ao seu pai. Porém, o leãozinho, como criança que é, só pensa em se divertir e procurar aventuras.

            Sabendo que um grupo de hienas acabou de chegar à região, Scar vai em busca do sobrinho e aconselha-o a visitar um lugar proibido, para provar a sua coragem. Inocentemente, Simba segue o desafio do tio e, na companhia de nala, sua amiga, dirige-se para o local. Aí, ambos são atacados pelas hienas e só não são mortos porque no Mufasa surge em cena e os salva.

            Gorada esta armadilha, Scar não desiste e prepara uma nova cilada: deixa o leãozinho num caminho por onde passa uma manada de búfalos e faz com que o irmão saiba do perigo que Simba corre e o vá salvar de novo. Quando Mufasa fica suspenso numa ribanceira, pede ajuda a Scar, mas este limita-se a empurrá-lo. Simba assiste a cena e depara com um pai morto.

            Seguidamente, Scar convence o sobrinho de que a culpa foi sua, por isso deve abandonar o reino para sempre. Simba parte e é encontrado por Timon e Pumba no deserto, desmaiado. O suricate e o javali decidem adotá-lo e ajudá-lo a sobreviver. Assim, o leão cresce com os dois novos amigos, sem preocupações, até que um dia reencontra Nala e fica a saber por ela que o reino está em perigo por causa do tio Scar. Inspirado pelas palavras do pai, que lhe aparece nas estrelas, resolve regressar.

            Regressado ao Reino, Simba reencontra a mãe, que estava convencida de que o filho tinha morrido. O jovem leão luta com o tio, que confessa a morte de Mufasa e acaba por ser morto pelas hienas, quando as tenta culpabilizar pelo passamento do irmão.

            Simba e nala casam e, no final do filme, regressamos a uma cena análoga da primeira: os dois apresentam a sua filha ao povo. Este celebra, novamente unido, em paz e em harmonia.

 
 
III. Personagens
 

3.1. Mufasa

 
            Mufasa é um rei consciente e dedicado e um pai afetuoso e carinhoso. A sua atenção e preocupação estáo absolutamente focadas em Simba e na sua educação para um dia lhe suceder no trono. A sua morte dá-se quando tenta salvar o filho de ser esmagado por uma manada de búfalos, episódio que configura mais uma armadilha de Scar. Apesar de perder o pai, Simba segue os seus ensinamentos e regressa ao reino depois de o progenitor lhe surgir nas estrelas para o aconselhar.
 
 
3.2. Simba
 
            Simba é o protagonista do filme, cujo crescimento acompanhamos até derrotar o tio e se tornar rei. O seu nome, em suaíli, significa “leão”. Na infância, as suas brincadeiras e a busca aventuras acabam por o enredar em problemas e confusões. Inocente, deixa-se enganar pelo tio e cair em armadilhas paradas por ele, uma das quais conduz à morte do pai. Enquanto adulto, mostra-se um líder nato e é o seu Coração forte e generoso e a sua coragem que resgatam o reino das mãos de Scar e salvam o povo da ruína.
 
 
3.3. Scar
 
            Scar é o irmão de Mufasa e tio do Simba. Ele sente inveja do irmão e ambiciona derrubá-lo e ser rei. Com a ajuda das hienas, consegue matar Mufasa e afastar Simba do reino durante vários anos.

            Trata-se de uma personagem traidora, cruel, ardilosa e maléfica, que não hesita em assassinar o irmão. Além disso, revela se um péssimo rei que conduz o povo à miséria e o reino ao caos.

 
 
3.4. Timon e Pumba
 
            Timon e Pumba são, respetivamente, um suricate e um javali, dois amigos que vivem a vida de forma descontraída e solta: “sem problemas”.

            Timon é um nome grego histórico que significa “aquele que respeita”. Podemos também encontrá-lo numa peça de Shakespeare (Timão de Atenas). Uma outra explicação possível para a sua atribuição à personagem de “O Rei Leão” terá a ver com o filósofo grego Tímon, um discípulo de Pirro, o fundador da escola cética.

            Timon é um suricate perspicaz e egocêntrico que reivindica as ideias de Pumba como suas. Ao contrário do animal real, Timon anda sobre as patas traseiras, enquanto que o verdadeiro se desloca sobre as quatro patas e apenas consegue ficar de pé nas traseiras.

Timon Sofre de flatulência; é um guerreiro feroz e destemido que avança para a batalha de peito aberto. Quando o chamam “porco”, sente-se ofendido. O seu nome deriva do idioma suaíli da África Oriental e significa “tolo, fraco, descuidado, negligente”.

            Quando os dois amigos encontram o jovem Simba quase morto no deserto, resolvem adotá-lo e cuidar dele. O leão cresce feliz com ambos, sendo influenciado pela forma otimista como encaram a vida. Quando Simba regressa ao reino, os dois animais acompanham-no.

 
 
3.5. Nala
 
            Nala é a amiga de infância de Simba e também a sua companheira de brincadeiras e aventuras. Ela é uma personagem inteligente e forte, sempre encorajadora e gentil com Simba, mesmo quando este comete erros, alimentando a amizade que surgiu entre ambos e sofrendo imenso com seu desaparecimento.

            Ambos voltam a reencontrar-se, já adultos, quando Nala tenta caçar Pumba e Simba surge em defesa dele. Os dois reconhecem-se e é a leoa que chama o protagonista à razão, convencendo-o a regressar, pois o reino necessita dele. Após o regresso, Nala acompanha-o e luta ao seu lado. Derrotado o tio e recuperado o reino, Nala passa a ser sua esposa e mãe da sua filha.

 
 
3.6. Rafiki
 
            Rafiki é um babuíno xamã batiza Simba e, anos mais tarde, a sua filha, e que é responsável pela proteção das gerações futuras. O seu nome, derivado do suaíli, significa “amigo”, que se adequa à sua ação no filme, pois é ele quem ajuda Simba a ver o pai nas estrelas e a trilhar o caminho que o conduzirá à vitória.
 
 
IV. Ação
 
4.1. O reino de Mufasa e a infância de Simba
 
            Temporalmente, o filme tem início num dia ao nascer do sol, quando os animais da selva acordam, se juntam e cantam em conjunto. Num local alto, encontram-se Mufasa, o rei, Sarabi, a sua esposa, e Simba, o filho bebé de ambos. Rafiki, o babuíno xamã, apresenta o jovem leão ao seu povo, que comemora efusivamente.

            As cenas iniciais da película descrevem-nos a infância e a educação de Simba, a cargo do seu pai, que o procura preparar para um dia ser rei. Numa das várias cenas monumentais do filme, do alto do topo de uma colina, Mufasa mostra ao filho a extensão do reino (“tudo o que o Sol toca”), mas alerta-o para o facto de existir um lugar perigoso onde ele jamais deverá ir. Porém, o leãozinho é curioso e destemido, por isso, quando o tio o desafia a visitar o cemitério dos elefantes, dizendo-lhe que só os leões mais corajosos aí vão, Simba desobedece ao pai e dirige-se para lá, desconhecendo que se tratava de uma armadilha preparada por Scar para que seja morto pelas hienas. Acompanhado pela amiga Nala e por Zazu, a ave que é mordomo de Mufasa, que o avisa de que estão a arriscar a vida, mas é ignorado: «Perigo? Eu rio na cara do perigo.» (responde Simba). A aventura termina de forma positiva, quando o rei surge e os salva das hienas, aproveitando para dar uma lição ao filho, explicando-lhe que ser valente não é sinónimo de procurar problemas. Para o convencer, afirma mesmo que até os reis têm medo. Antecipando uma cena posterior, Mufasa diz-lhe que os reis que morrem ficam nas estrelas e que um dia também ele estará no céu.

            São estes valores que o pai lhe transmite que nortearão a vida de Simba, apesar de o ter perdido muito cedo.

 

4.2. A traição de Scar
 
            São evidentes as semelhanças entre O Rei Leão e Hamlet, a famosa peça de Shakespeare.

            A obra do dramaturgo inglês retrata o percurso de um príncipe, Hamlet, que se tenta vingar do tio, Cláudio, visto que este envenenou o rei para ocupar o trono. Após a sua morte, este surge ao filho como fantasma para o guiar, tal como Mufasa faz com Simba, surgindo nas estrelas e dirigindo-lhe a palavra.

            Na peça, o protagonista é dado como louco e é exilado, mas no final não vence a contenda, ao contrário do que sucede com Simba, que triunfa sobre o tio e ocupa o trono. A cena mais célebre da peça consiste no monólogo de Hamlet, durante o qual este segura um crânio e profere a famosa frase: «Ser ou não ser, eis a questão». No filme da Disney, encontramos uma cena na qual Scar fala, sozinho, segurando um crânio de um animal na pata.

            Scar, cicatriz em português, é um leão que inveja o poder do irmão e o deseja substituir no trono, por isso odeia-o e a Simba e decide ataca-los com armadilhas preparadas com a ajuda das hienas. O seu caráter negro fica bem evidenciado quando avisa os outros de que é melhor não lhe voltarem as costas. O auge da sua crueldade é, provavelmente, atingido na cena em que Mufasa está pendurado de um penhasco e estende a pata, pedindo ajuda ao irmão. Scar não hesita e empurra-o para a morte. De seguida, convence Simba de que este é o culpado da morte do pai, forçando-o a abandonar o reino.

 

4.3. O valor da amizade
 
            Devastado pela morte do pai, Simba abandona o reino e é encontrado em muito mau estado (inconsciente, rodeado de urubus) por Timon e Pumba. O suricate e o javali hesitam por momentos sobre o que fazer por estarem na presença de um leão, um seu predador, mas decidem ajudá-lo.

            Timon e Pumba andam sozinhos, guiados pela sorte, vivendo a forma de forma descontraída, como uma grande aventura. Quando se apercebem de que Simba foi abandonado, tornam-se seus amigos, criam-no e transmitem-lhe a sua filosofia de vida: «Hakuna Matata». E acrescentam que, quando o mundo nos vira as costas, nós devemos virar as costas ao mundo. É uma forma descontraída e sem regras de viver, tendente a esquecer o passado e deixar de sofrer, que, no entanto, pode ser encarada como um meio de fugir aos problemas, em vez de os enfrentar. Trata-se de uma questão abordada noutras obras, como, por exemplo, n’Os Maias, com a personagem de Pedro da Maia, com as consequências trágicas que se conhecem.

            Seja como for, a verdade é que um Simba traumatizado e sentindo-se responsável pela morte do pai acaba por recuperar a alegria de viver e acaba por ter uma infância feliz.

 

4.4. O poder e a responsabilidade
 
            Já adulto, Simba contempla as estrelas na companhia de Timon e Pumba, pensa no pai e fica triste, o que significa que, embora seguindo a filosofia dos amigos e evitando as memórias do passado, acaba por não o conseguir totalmente.

            Esse passado acaba mesmo por o apanhar quando reencontra Nala, a amiga de infância, que tenta caçar Pumba. O reencontro proporciona o surgimento do amor entre os dois leões: «Domado está o leão».

            Na qualidade de leoa, Nala é uma das felinas que caça para o grupo, tendo de dividir a comida com Scar e as hienas. Ela explica, então, a Simba que o seu povo vive miseravelmente por causa da má gestão do tio.

            Por outro lado, o reencontro desperta nele o sentido do dever, do qual está afastado há muito tempo. Quando era criança, o que mais desejava era ser rei, porém, no presente, não se sente preparado para assumir o trono. Recorda, então, as lições do pai, segundo as quais um rei deve ir além da sua vontade. Mufasa era um bom monarca e respeitado, pois respeitava todos os animais do reino, que viviam num equilíbrio delicado.

            Scar é o oposto do irmão: preguiçoso, mau, cruel e autoritário. Para alcançar e, posteriormente, manter o poder, associa-se às hienas, um grupo oportunista e extremamente perigoso.

 

4.5. O valor da família, a memória e a eternidade
 
            Rafiki, o xamã, graças aos seus poderes misteriosos, toma consciência de que Simba está vivo e vai à sua procura. Quando o encontra, repete-lhe insistentemente uma pergunta: «Quem és tu?». Ele próprio responde à questão: «O filho de Mufasa». O jovem leão fica confuso, mas segue o babuíno, que promete levá-lo até ao pai.

            O xamã mostra-lhe o seu próprio reflexo num lago e afirma: «Ele vive em ti». Isto significa que o que Simba aprendeu com o pai e essa aprendizagem servir-lhe-á de bússola na sua ação. Por outro lado, a mensagem é clara: os ensinamentos e a memória dos que amamos acompanha-nos ao longo da vida, serve-nos de guia, de orientação.

            Quando Mufasa aparece ao filho no céu, entre as estrelas, diz-lhe que Simba se esqueceu do pai e de quem é, querendo dizer, no fundo, que deve seguir as lições do passado, em vez de continuar a fugir. Após essas aparições, o jovem leão enche-se de coragem e determinação e regressa ao reino, motivado pelo exemplo do pai.

 
 
5. Mensagem do filme
 
            Uma das questões que o filme aborda é a importância dos amigos e da família. Simba não vence sozinho; pelo contrário, necessita do apoio dos amigos – Nala, Timon e Pumba.

            Outra relaciona-se com a aprendizagem e o crescimento interior. Ao longo da película, assistimos à evolução de Simba, desde o momento em que surge nos braços de Rafiki até ao triunfo sobre Scar. Durante o tempo que medeia entre os dois marcos, o leão enfrenta vários obstáculos, sofre revezes, perdas e é assaltado por dúvidas existenciais. Mas é tudo isso que o faz crescer e tornar-se adulto. Neste sentido, podemos ver aqui os dilemas e as dificuldades da juventude.

            Tal como Mufasa diz ao filho, todos temos de ocupar o nosso lugar no ciclo da vida. Além disso, temos de ter orgulho de quem somos e não podemos fugir de nós mesmos. Mesmo assaltados pelo medo e por dúvidas, receando fracassos ou refeições, temos de lutar e encontrar o nosso lugar no mundo.

 

quarta-feira, 29 de maio de 2019

"Deborah's Theme"


     Uma peça magistral do compositor italiano Ennio Morricone, em mais uma das muitas colaborações com o realizador Sergio Leone, neste caso no filme "Once Upon a Time in America".

     Foi preciso chegarmos à segunda década do século XXI para Ennio ver reconhecido o seu incomensurável talento pela Academia de Hollywood.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A Desaparecida" ("The Searchers")



     Uma excecional reflexão sobre o filme "A Desaparecida", de 1956, dirigido por John Ford e protagonizado por John Wayne, da autoria de David Furtado.

     Pode ser encontrada aqui: Thewandrinstar.

domingo, 20 de agosto de 2017

RIP: Jerry Lewis

hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

     Foram muitas tardes de férias de Natal e Páscoa na sessões de cinema da antiga RTP2.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O dia em que um James Bond e o Santo partiram

Roger Moore (1927 - 2017)

     Faleceu na terça-feira, 23 de maio, o ator Roger Moore, célebre por ter encarnado, entre outras, as figuras do Santo (na TV) e James Bond (no cinema).

     Moore trouxe à personagem do espião mais célebre do mundo uma feição aristocrática, sucedendo a Sean Connery como o famoso 007, tendo protagonizado sete filmes da série.

     Nos últimos anos, tinha-se dedicado essencialmente a causas humanitárias enquanto embaixador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RIP Gorden Kaye

Gorden Kaye (07/04/1941 - 23/01/2017)

     Faleceu o ator que deu vida à personagem René Artois, o dono do Café René, o centro da ação da série televisiva "Alô, Alô!".

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Richard Kiel


     Faleceu aos 74 anos, no passado dia 17, o ator Richard Kiel, famoso por ter encarnado a personagem Jaws em dois filmes da saga James Bond.
     Com os seus dentes de aço e 2,2 metros de altura, o ator estava afastado dos ecrãs há alguns anos, após um acidente de trator que o forçou a locomover-se auxiliado por muletas e, posteriormente, o prendeu a uma cadeira de rodas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Tema de James Bond, John Williams; «Kingston Calypso», de Byron Lee

   

«Dr. No» (1962)

     A 5 de outubro de 1962 estreava o primeiro filme de James Bond, o espião mais famoso do cinema: «Dr. No».

sábado, 11 de junho de 2011

"O Homem que matou Liberty Valance"

"O Homem que matou Liberty Valance", de John Ford

Ransom Stoddard: You're not going to use the story, Mr. Scott?
Maxwell Scott: No, sir. This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend.

          A mensagem de Ulisses, de Fernando Pessoa (in Mensagem)...

terça-feira, 7 de junho de 2011

"JOANA"


          Trabalho produzido em 2010 pela turma do 7.º C, supervisionada pelo professor Paulo D'Alva e que acabou de vencer o o Grande Prémio do Festival de Cinema de Portel.
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