domingo, 24 de fevereiro de 2013

"O Infante"

         Este é o primeiro poema da segunda parte de Mensagem, o que faz todo o sentido se tivermos em conta que o Infante D. Henrique foi o impulsionador dos Descobrimentos, por exemplo ao fundar a Escola de Sagres. Daí o título do texto: embora nele se refira a aventura marítima levada a cabo pelos portugueses, foi o Infante quem desempenhou um papel crucial nessa aventura, o de protagonista, de impulsionador, o de símbolo do início da construção do império. Daí que lhe caiba o papel de protagonista da «Possessio Maris» (Posse do Mar), dedicada à gesta dos Descobrimentos. Segundo António Quadros, o Infante foi o “descobridor da ideia de descoberta”.

         O Infante D. Henrique (1394 ‑ 1460) foi o quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre e é geralmente considerado o homem que mais decisivamente contribuiu para o impulso que levou à expansão ultramarina portuguesa. Por outro lado, ele é também, frequentemente, apresentado como símbolo das vontades e dos esforços anónimos de navegadores, cosmógrafos, mercadores e aventureiros que ajudaram o homem moderno a construir novas dimensões para a perspetiva do mundo.


Estrutura interna

. 1.ª parte (1.º verso) ‑ As três etapas que presidem à construção da obra humana, traduzidas pelo mote / aforismo «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce».
. Duas ações ‑‑‑ a vontade divina;
‑‑‑ o sonho do homem;
efeito: o nascimento / a concretização da obra.
. Os três «sujeitos» dependem mutuamente, numa relação de causa efeito: sem a vontade do primeiro, o segundo não sonharia e a obra não poderia nascer.
. O verso, constituído por três orações assindéticas justapostas (assíndeto e gradação), organiza-se em torno de formas verbais no presente do indicativo, de aspeto durativo, exprimindo realidade, atualidade, valor de lei, uma verdade universal.

. 2.ª parte (versos 2 a 8) ‑ Desenvolvimento do primeiro verso:

1) . Desejo de Deus (agente da vontade):
. a unidade da terra, através do mar, de forma a servir de elemento de união entre os continentes e os povos, daí a existência de um conjunto de palavras e expressões que sugerem a ideia de unidade: «uma», «unisse», «não separasse», «inteira»;
. o caráter navegável do mar, para que o ser humano tivesse acesso ao conhecimento da Terra.
. A colocação das formas verbais predominantemente no pretérito perfeito do indicativo sugere que o princípio em causa foi respeitado e se concretizou.

2) . A sagração do Infante: para o cumprimento dessa missão, Deus sagrou o Infante (a decisão de se aventurar no mar tem origem divina e não num qualquer capricho humano)), isto é, predestinou-o para os grandes feitos das descobertas («… em ti nos deu sinal.» ‑ v. 10). Foi, portanto, Deus (cuja vontade é impreterível) quem quis que o Infante (= os portugueses) sonhasse dominar os mares, desvendar o desconhecido e estabelecer a comunicação entre os povos e os continentes, a nível matéria e espiritual / cultural, isto é, que desse sonho nascesse a obra dos Descobrimentos.
           Assim, o Infante é o símbolo do herói, o agente por vontade divina, destinado a criar uma obra superior.
. A forma verbal «Sagrou» encerra grande expressividade:
‑contém conotações religiosas;
‑ evoca o nome próprio «Sagres», a escola de navegação fundada pelo Infante, símbolo do início da construção do império português;
‑ remete para o caráter mítico e predestinado do Infante, o escolhido por Deus para a execução da obra, daí que possamos também falar na sua divinização;
‑ traduz o caráter providencial e iniciático das Descobertas.
. O complexo verbal «foste desvendando» (v. 4) apresenta a ação como uma continuidade, como algo que se concretizou de modo progressivo; a forma verbal «desvendando» (desvendar = revelar, descobrir, mostrar), por outro lado, remete para a ideia de revelação de algo desconhecido.
. O sujeito poético dirige-se ao Infante na segunda pessoa do singular («Sagrou-te, e foste…» ‑ v. 4); «Quem te sagrou criou-te» ‑ v. 9; «Do mar e nós em ti…» ‑ v. 10), o que traduz uma relação de proximidade e de cumplicidade.

3) . A realização da obra, a sagração:
→ o início da navegação: «foste desvendando»;
→ a descoberta das ilhas da Madeira e dos Açores até à costa africana: «E a orla branca foi de ilha em continente»;
→ a passagem do Cabo das Tormentas: «até ao fim do mundo»;
→ o mar desconhecido a partir da zona do Cabo das Tormentas: «do azul profundo»;
→ a concretização:
. a união da terra: «E viu-se a terra inteira»;
. o seu caráter súbito: «de repente»;
. o aparecimento: «Surgir»;
. a ideia de origem, de profundidade; «azul profundo»;
. a presença do sinal (já na 3.ª estrofe).
. O percurso da obra:
a unificação do mundo alicerçou-se no mar (na «orla branca»);
por mar, atingiu-se uma ilha e depois um continente;
da escuridão se fez luz («clareou»), ou seja, da ignorância se passou ao conhecimento, a civilização ocidental encontrou-se com a oriental;
e assim se atingiu, «correndo», «o fim do mundo», assim se eliminaram as barreiras e os limites;
deste modo, do mar (do «azul profundo»), «de repente», irrompeu a unificação do mundo.
. A realização da obra é sugerida por Pessoa através do recurso a diversos recursos poético estilísticos:
. a gradação: começou por desvendar «ilha(s)» e «continente(s)», chegando ao «fim do mundo» e dando assim a conhecer «a terra inteira»;
. as metáforas e as sinédoques: «desvendando a espuma», «orla branca», «clareou, correndo»;
. a perifrástica «foste desvendando»;
. o gerúndio «correndo»;
. a locução adverbial «de repente»;
. as sugestões cromáticas e luminosas;
. a aliteração do /r/;
. o verbo «desvendar», que remete para a ideia de revelação;
. os adjetivos «inteira» e «redonda» aponta para a unificação da terra, concretizando-se assim o desejo expresso no verso 2. Por outro lado, «redonda» aponta para a «esfera», o símbolo da unidade e da perfeição cósmica.

3.ª parte (3.ª estrofe) – Conclusão:
. a transposição da glória do Infante para o povo português:
‑ Deus sagrou o Infante e criou-o português;
‑ enquanto tal, simboliza o povo a que pertence, o que significa que também ele foi assinalado, predestinado, escolhido por Deus para desvendar o mar desconhecido;
. o sonho cumpriu-se: o desvendar e a unificação dos mares e a criação do império (sonho simultaneamente nacionalista e universal);
. o sonho desfez-se: o império (do Oriente) desfez-se, pertence a outro tempo;
. a pátria, presentemente, não tem desígnio;
. o apelo ao cumprimento do destino mítico de Portugal: uma nova e espiritual missão («Senhor, falta cumprir-se Portugal!» ‑ v. 12). Trata-se do apelo a um novo sonho, de cariz espiritual, visto que a dimensão material do império já foi conseguida, ou seja, falta que Portugal se cumpra como pátria e entidade nacional (notar o uso do presente do indicativo para exprimir urgência). De notar que o sujeito poético se dirige agora diretamente a Deus, apontando para o desencadear de um novo ciclo que, no fundo, constitui o regresso ao início do poema: uma nova vontade divina, um novo sonho do homem e uma nova ação / obra.

         Mas, afinal, o que falhou em todo o processo? Porque se desfez o império? Deus quis, o homem sonhou e a obra nasceu, mas uma obra efémera, perecível, como tudo o que é material e humano. A culpa não é de Deus, já que ele sagrou e destinou o Infante e o povo português ao cometimento de feitos muito acima da sua condição de mortais. Mas como ser humano limitado, não houve continuidade para o império, que se desfez, daí que Pessoa aponte para a necessidade de Portugal se cumprir integralmente, de complementar com a dimensão espiritual a materialidade do império passado, novamente sob a predestinação divina.


A ação do Infante:
‑ representa o povo português («… e nós em ti nos deu sinal.» ‑ v. 10) e «foi desvendando [descobrindo, revelando] o mar», ultrapassando dificuldades;
‑ os seus esforços foram coroados de êxito («Cumpriu-se o Mar» ‑ v. 11); fisicamente, o mundo tornou-se um, a terra tornou-se una, os povos e continentes unificaram-se;
‑ o Infante é o herói que obtém a imortalidade através do cumprimento de um dever individual e pátrio;
‑ é também o herói que busca a universalidade, daí a utilização do artigo definido no título («O Infante») e em «o homem» (verso 1) com um valor universalizante;
‑ possui um caráter divino, dado que foi o eleito, o predestinado por Deus para o cumprimento desta missão; por extensão, como é português e representa o seu povo, a sua sagração significa a divinização do homem português;
‑ a sua sagração, a sua obra, tem como consequência o acesso ao conhecimento: dos limites geográficos do planeta, do mar, de outros povos, de outras culturas.


. Tom dramático do poema:
‑ a tensão emocional resultante da visão da terra redonda surgindo magicamente das profundezas do mar;
‑ as três personagens:
. o sujeito poético, que se dirige ao Infante e interpela Deus, significando este facto a existência de um diálogo (implícito), o que está de acordo com o caráter misterioso e messiânico do poema;
. Deus;
. o Infante.


Recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: três quadras.
. Métrica: versos decassilábicos heróicos, acentuados nas 6.ª e 10.ª sílabas.
. Ritmo predominantemente ternário, alternando com o ritmo binário.
. Rima:
. esquema rimático: abab / cdcd / efef;
. cruzada;
. consoante;
. grave e aguda;
. pobre e rica.
         A rima permite que certas palavras-chave se encontrem em posições de destaque: «nasce», «uma», «mundo», «português», «sinal», «Portugal».
. Transporte: vv. 7-8.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
‑ presente: discurso aforístico do primeiro verso;
‑ pretérito perfeito: narração de acontecimentos passados;
‑ regresso ao presente («Falta cumprir-se Portugal») a sugerir urgência, necessidade.
         Esta sucessão presente / passado / presente sugere a dialética hegeliana tese, antítese, síntese e seu retorno.
. Adjetivos: «redonda», «inteira» ‑ designam um mundo circular, fechado, uno, todo.
. Frases curtas, correspondendo seis a um verso.
. Assíndeto: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce».

3. Nível semântico
. Vocabulário de conotações simbólicas:
‑ «sagrou-te»: talvez ligada à palavra «Sagres», sugere a escolha do Infante para uma missão divina («Deus quer»);
‑ o uso de maiúsculas (Mar, Império);
‑ «mar»: simboliza o desconhecido, o mistério, daí as expressões «desvendar a espuma», isto é, desfazer o mistério, descobrir, ultrapassando as dificuldades que se lhe deparam; é, pois, o traço de união de ilhas e continentes (vv. 2-3); «nos deu sinal», ou seja, dar a chave para decifrar o mistério;
‑ «espuma» (branca), «orla branca» (é o sulco de espuma deixado pelos navios portugueses; simboliza o longo percurso que tiveram de percorrer para que a empresa dos Descobrimentos se concretizasse), «clareou», «surgir» (sair das sombras, revelar-se, conhecer), «do azul profundo» (do mar imenso e profundo, é o símbolo do desconhecido, em oposição ao «clarear», que é o revelado): estas expressões sugerem a passagem do mistério para a descoberta, para o conhecimento, passagem caracterizada como repentina, espetacular, miraculosa; assim o sugere a expressão «E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir redonda…»;
‑ a visão da «terra redonda», surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é a realização de um plano divino. O redondo, a esfera. É o símbolo da perfeição cósmica, da unidade (do mundo), da obra completa e perfeita que Deus quis: «Deus quer… / Deus quis que a terra fosse toda uma…»;
‑ as cores:
. azul: ligada ao mistério, ao desconhecido (o mar);
. branco da espuma vem clarear e revelar a «terra inteira, de repente»;
‑ o Infante: representa o povo português, mas também surge como o símbolo do homem universal, o herói que realizou um sonho que era vontade de Deus.
. Imagem e personificação: «E a orla branca (…) correndo, até ao fim do mundo», a sugerir a rapidez imparável das Descobertas.
. Gradação: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», para explicar a lógica da relação Deus / Homem / obra. De acordo com as segunda e terceira estrofes, a obra nasceu, o mar passou a unir em vez de separar, o império cumpriu-se e desfez-se.
. Apóstrofe: «Senhor».

"D. Sebastião"

1. A figura de D. Sebastião

         No século XVI, o príncipe D. João, herdeiro do trono português, casou-se com D. Joana de Áustria, irmão de D. Filipe II de Espanha. Deste matrimónio nasceu um único filho, D. Sebastião, que nasceu a 2 de janeiro de 1554, dezoito dias após a morte de seu pai, o príncipe D. João.
         O rei D. João III, avô de D. Sebastião, faleceu em 1557, quando o neto tinha três anos de idade. A criança recebeu de imediato a coroa e a sua avó passou a regente do reino. Assim, D. Catarina governou de 1557 a 1562, seguindo-se-lhe o seu tio-avô D. Henrique, cardeal-arcebispo de Lisboa e inquisidor-mor, de 1562 a 1568.
         Aos 14 anos de idade, D. Sebastião tomou conta do governo. Enfermo no corpo e no espírito, importava-se pouco com a governação, perdido antes em sonhos de conquista e de expansão da Fé. Conquistar Marrocos era a sua ambição número um, mas outros projetos de imperialismo em terras pagãs preenchiam-lhe a imaginação. Ousado até aos limites da loucura, o novo rei não atribuía grande importância ao planeamento cuidadoso, à estratégia ou à retirada, considerando essas preocupações medo ou cobardia. Desprezava os velhos, os prudentes, os sábios e os experientes, preferindo rodear-se de um grupo de jovens aristocratas, quase tão loucos e pouco maduros como ele próprio. Além disso, não aceitava palavras de aviso nem encarava a realidade e a verdade como eram.
         Por outro lado, o jovem monarca dividia o seu tempo por caçadas, exercícios religiosos e leitura de livros de História. Adorava desafiar o perigo. Em dias de temporal, embarcava nas galés para fora da barra e contemplar o mar enfurecido. De acordo com o escritor Fernando Dacosta, «Era um pouco louco; tinha dificuldade em separar a ficção da realidade». Porém, quando Lisboa foi assolada pela peste de 1569, abandonou a cidade, facto que parece comprovar que a sua coragem era apenas temperamental e não um valor consciente e assumido.
         Relativamente à sua vida íntima, nunca casou, não obstante a insistência da corte para que escolhesse uma noiva entre as casas reais europeias e desse um sucessor à coroa. Em determinada altura, negociou casamento com Margarida de Valois e com a arquiduquesa Isabel de Áustria, que acabou por desposar Filipe II. O despeito pelo episódio, provavelmente artificial, serviu de pretexto para que recusasse a encetar novas negociações, o que lhe permitia estar completamente livre para se dedicar àquilo que mais o fascinava: a guerra.
         A pedido do cardeal Alexandrino, enviado pelo Papa, esteve para participar numa cruzada contra os Turcos, mas, na impossibilidade de levar avante a ideia, projetou uma incursão na Índia. Dissuadido pelos conselheiros, decidiu, enfim, concentrar os seus esforços em África, chegando a navegar em segredo até Tânger em 1574. Provavelmente, terá sido por essa altura que começou a desenhar-se no seu espírito o desejo de invadir Marrocos a fim de reconquistar as terras, outrora portuguesas, devolvidas aos mouros por D. João III.
         Segundo um dos seus mais recentes biógrafos, o espanhol Baños-García, «D. Sebastião acreditava ser um capitão às ordens de Deus e da Igreja, montando a invasão de Marrocos para se tornar numa lenda vitoriosa.». Muitos tentaram demovê-lo, sobretudo os espanhóis D. Catarina e Filipe II, mas o soberano português tinha vestido a pele da luta pela independência nacional. Nada o faria mudar de ideias.
         Em 25 de Junho de 1578, após ter praticamente esvaziado os cofres do Estado, D. Sebastião partiu com uma armada de 800 velas e 18 mil homens ‑ a maioria mercenários estrangeiros e camponeses portugueses, incluindo um pequeno corpo de voluntários nobres bem treinados.


2. Análise do poema

         Num discurso de 1.ª pessoa, D. Sebastião autocaracteriza-se como louco, assumindo orgulhosamente essa loucura (atentar na reiteração do adjetivo “louco”, enfatizada pela presença do advérbio de afirmação “sim”). Notar que, no poema, «loucura» significa «sonho», «ideal», «utopia».
         A causa dessa loucura é o desejo de grandeza (o ideal, a utopia, o sonho), que o sujeito poético assume, como acima referido, com orgulho, a qual não é trazida pela «Sorte», mas conquistada com esforço, coragem e determinação. Porém, o desejo de grandeza teve um preço: a morte do «louco», do sonhador, isto é, de D. Sebastião (vv. 4 e 5), que se deixou morrer, portanto, pelo seu ideal no areal de AlcácerQuibir, no norte de África. E a razão desse sacrifício reside no facto de o rei não ter sido capaz de realizar essa tarefa, que era superior às suas capacidades: «Não coube em mim minha certeza» (v. 3).
         Porém, no areal, ficou apenas o que nele havia de mortal, o ser físico, o corpo («Ficou meu ser que houve»), tendo sobrevivido o ser que há, que permanece, que é imortal, isto é,a alma, o sonho, o ideal («o que há») ‑ loucura ‑, de querer grandeza, de devolver a glória à Pátria, que continua vivo e por concretizar, daí o apelo que faz na segunda estrofe. Recorde-se que o sonho «original» do rei consistia no engrandecimento de Portugal através da conquista de terras aos mouros no norte de África e da expansão da fé de Cristo.
         Além disso, nestes versos finais da primeira estrofe, Pessoa faz conjugar, na figura de D. Sebastião, história e mito. De facto, historicamente, o rei pereceu no areal de Alcácer Quibir (o «ser que houve» ficou «onde o areal está»), mas o que tem primazia para Pessoa é o mito («o que há»).
         No início da segunda estrofe, o sujeito poético apela a «outros» que tomem e prossigam a sua loucura, o seu sonho, isto é, que concretizem, no presente / futuro, aquilo que ele sonhou e idealizou no passado, o seu grande projeto nacional.
         A interrogação retórica final é muito significativa:
. faz referência à loucura enquanto energia criativa que poderá ser canalizada para a reconstrução nacional;
. a loucura ‑ o sonho ‑ é essencial ao homem e é o que o distingue do animal: Pessoa compara o homem que não sonha com um animal que se limita a procriar; sem possuir a capacidade de sonhar, sem possuir um ideal a cumprir, o ser humano fica reduzido à condição de animal irracional (nasce, procria e morre) e está condenado à morte e ao esquecimento; assim, a existência humana não tem sentido nem valor;
. através da loucura, o ser humano projeta-se no futuro e, por isso, não morre (com efeito, perante o sonho / a loucura, a morte não passa de contingência física que não pode impedir que aquele(a) prossiga noutras mãos);
. é a loucura que leva o homem a partir em busca de grandes realizações (como  fizeram os Argonautas e Vasco da Gama, para quem «Navegar é preciso / Viver não é preciso») ‑ e, de facto, foi a louca temeridade de D. Sebastião que esteve na origem do desastre de Alcácer Quibir, mas também serviu de exemplo aos vindouros.

         Nota-se, ao longo do poema, uma viva admiração de Pessoa pela loucura de D. Sebastião e um claro desprezo pelo homem «besta sadia», que vive sem ideais, sem grandes sonhos ou projetos, contentando-se com a mediocridade e com o «gozo materialista».
         Por outro lado, Pessoa associa a loucura ao génio. Na verdade, o louco é também o símbolo da inspiração, do poeta, de todo aquele que está para além do comum da sociedade.


3. Estrutura interna

         Relativamente à estrutura interna do poema, este pode dividir-se em dois momentos:
. 1.ºmomento (1.ª estrofe) ‑ O sujeito poético (o Rei):
- autocaracteriza-se como louco;
- explicita a razão da sua loucura: a busca de grandeza / glória;
- e as consequências / o preço da mesma: a morte.
. 2.º momento (2.ª estrofe) ‑ O sujeito poético:
- faz o elogio da loucura, traço que distingue o homem do animal irracional;
- exorta a que outros deem continuidade ao seu sonho.

         O poema insere-se na 1.ª parte de Mensagem, «Brasão», uma vez que esta compreende os antepassados fundadores da nacionalidade. Por outro lado, a inserção nas Quinas prende-se com o facto de D. Sebastião ter perdido a vida no contexto do cumprimento de uma tarefa para que foi escolhido por Deus.


4. Valor simbólico de D. Sebastião

         Atente-se nas palavras dos autores do manual Expressões ‑ 12.º ano sobre o valor simbólico do rei D. Sebastião na obra de Fernando Pessoa: “D. Sebastião adquire em Mensagem um valor simbólico que ultrapassa a sua figura histórica. São os valores da determinação e da coragem que ele corporiza que funcionam como mito inspirador e, nessa aceção, «fecundam a realidade»: «É Esse que regressarei.» O Sebastianismo em Mensagem não se liga, pois, ao caso específico e concreto de D. Sebastião, que não poderá, obviamente, voltar, mas à ideologia que lhe está subjacente. Depois de «ser que houve» e que ficou no «areal» com a «morte», regressará a força inspiradora de D. Sebastião necessária ao ressurgimento anímico da nação. O próprio Pessoa refere: «No sentido simbólico D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico (…)».”


5. Intertextualidade

         Comparemos, por último, a forma como a figura de D. Sebastião é tratada em Os Lusíadas e na Mensagem:
. Os Lusíadas:
‑ Camões dedica-lhe o seu poema épico (Canto I);
‑ Retrato: traça um retrato histórico do soberano, com referências à situação de Portugal e à atuação do rei;
‑ Valores: representa a segurança, a liberdade e a esperança do povo português no sentido de fazer ressurgir a Pátria da apatia e decadência do presente, continuando a tradição dos antigos heróis nacionais, dilatando a fé e afirmando o império.
. Mensagem:
‑ é o mito organizador e articulador da obra, já que representa o sonho que presidirá ao ressurgimento de Portugal da crise em que se encontra mergulhado;
‑ Retrato: o seu retrato é mítico, assente sobretudo no seu traço de «loucura» criadora e inspiradora;
‑ Valores: D. Sebastião representa o mito regenerador e metáfora da «loucura», do sonho.

"Mar Português"

. Título: no título, constituído por duas palavras, há a destacar o adjetivo «português», que remete para a conquista e o domínio dos mares pelos Portugueses, que os ligaram e fizeram com que existisse apenas o «mar» conhecido. Essa união foi o resultado do sofrimento e da coragem dos lusitanos; daí o mar ser «português». Por outro lado, apesar de os Portugueses já não cruzarem o mar no presente, o título deixa entender que ele será sempre lusitano.


. Tema: o mar, glória e desgraça do povo português.


. Estrutura interna

. 1.ª parte (1.ª estrofe) – Interpelação do sujeito poético ao mar, a que, relembra o preço (os sacrifícios) pago pelos Portugueses para conquistarem o mar.



         Os sacrifícios necessários para que os Portugueses conquistassem o mar traduzem-se na morte de muitos dos que partiram e no sofrimento dos que ficaram em terra, daí que o poeta dê realce, através do uso de uma linguagem emotiva (marcada pelas exclamações e pelo uso da 2.ª pessoa, que estabelece uma relação afetiva com o mar) e do campo lexical de sofrimento («lágrimas», «choraram», «rezaram»), ao amor familiar: o amor maternal («quantas mães choraram»), o amor filial (as orações dos filhos) e o amor das noivas que ficaram por casar (notar a construção em anáfora dos versos 3, 4 e 5 e o uso de quantificadores ‑ «quantas mães», «Quantos filhos», «Quantas noivas» ‑, que aumentam o dramatismo das situações evocadas, pondo em desta       que o número de vidas perdidas). Deste modo, realça-se o facto de o sacrifício afetar as famílias já constituídas e as que o seriam, mas não o serão mais, em razão da morte dos «noivos». Observe-se, por outro lado, as potencialidades da forma verbal «cruzarmos»: (1) sugere a causa da dor (a conquista do mar); (2) tem na sua composição a palavra «cruz», símbolo do sacrifício e da morte.
         Outra ideia que ressalta da 1.ª estrofe é a de que o mar é português, tão alto foi o custo que a sua conquista implicou. E notemos que é o mar, não os mares, o que traduz a ideia de unificação do mar, a qual se ficou a dever ao empenhamento lusitano. Outra forma de mitificação de Portugal operada nesta estrofe consiste na atribuição ao sal do mar de uma origem portuguesa, mitificando-se a dor lusa.
         O sofrimento pertence ao passado, daí as formas verbais no pretérito perfeito do indicativo, mas também o infinitivo pessoal «cruzarmos» (v. 3), exprimindo determinação continuada, persistência. Porém, o facto de isso se ter verificado no passado e de os Portugueses já não cruzarem o mar não significa que ele tenha deixado de ser português. De facto, os laços estabelecidos foram tão fortes, revestiram de tanta dor e sofrimento, o sal que o mar comporta é em tal quantidade, oriundo das lágrimas derramadas pelos Portugueses (v. 2), que ele será sempre português.
         Em síntese, as consequências da saga das descobertas são a dor, o sofrimento (consequências emocionais), o desamparo das famílias (consequências sociais e económicas), o despovoamento do reino (consequências políticas).
         Por outro lado, esta estrofe assume um claro cariz épico, uma vez que nela predomina a valorização do sofrimento e do espírito de sacrifício dos Portugueses, capazes de superar provações extremas e de, desse modo, provar a sua grandeza espiritual. Tudo começa e acaba no mar.

. 2.ª parte (2.ª estrofe) ‑ Balanço / justificação dos sacrifícios: os grandes feitos (a conquista e o domínio do mar) pressupõem sofrimento, mas todo o esforço e dor arrastam consigo alguma compensação, daí que o esforço e o sacrifício dos Portugueses não tenham sido em vão.

         Esta segunda estrofe assenta na apresentação da resposta, através de três frases declarativas, à interrogação inicial que introduz a reflexão:

. «Valeu a pena?», isto é, valeu a pena, justificou-se tanto sacrifício?

. «Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena»: todos os sacrifícios são justificáveis se o objetivo que estiver na sua base for nobre e se se agir com ousadia, coragem, determinação e abnegação; tudo vale e pena para atingir o ideal sonhado, a heroicidade.

. «Quem quer passar além do Bojador(1) / Tem que passar além da dor»: quem quer alcançar o objetivo desejado tem de superar os obstáculos que se lhe depararem e a própria dor, indo além dela (notar que o Bojador é, aqui, a metáfora dos objetivos a alcançar e simboliza o ultrapassar do medo, do desconhecido, o primeiro passo para o conhecimento). É necessário superar os limites da frágil condição humana.

. «Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu»: quem superar, sofrendo, os perigos do mar, alcançará a glória suprema, que é o mesmo que dizer que tudo o que é verdadeiramente custoso tem o seu preço (1.ª estrofe) e a sua compensação (último verso). O «mar» é símbolo de sofrimento e morte («perigo» e «abismo»), mas também símbolo de realização do sonho, de glória e imortalidade, já que foi nele que deus fez «espelhar» o céu. Quem conquistar o mar ascenderá ao plano divino. Se, na 1.ª estrofe, se lamentou o preço pago pela conquista do mar, na segunda, anuncia-se o prémio.

         Nestas três frases, estão compreendidos os elementos atitéticos fundamentai para a compreensão do poema: o negativo (pena, dor, perigo) e o positivo (céu). Quer isto dizer que a dor é sempre o preço da glória.
         Nesta segunda estrofe, o tempo verbal predominante é o presente do indicativo, que está de acordo com a dimensão axiomática das afirmações. Excetuam-se os dois últimos versos, que se encontram no pretérito perfeito do indicativo, para recuperar a ideia de ultrapassagem das adversidades como forma de alcançar a imortalidade.


. Tom dramático do poema

. As duas faces dos Descobrimentos: a tragédia ‑ os aspetos desastrosos (1.ª estrofe) ‑ e a glória (2.ª estrofe, embora também haja nela uma referência ao lado trágico).

. A apóstrofe inicial e a do 6.º verso, que confere uma certa circularidade à estrofe.

. A interrogação retórica da segunda estrofe.


. Caráter épico-lírico do poema

. Vertente lírica: a expressão comovida dos sentimentos do sujeito poético (o lamento do lado negativo das Descobertas) e a descrição da dor e do sofrimento dos que viveram a saga das descobertas (vv. 2, 3, 4 e 5).

. Vertente épica: a valorização e o entusiasmo que anima a alma humana para concretizar os seus sonhos, ideais elevados e com isso ascender ao patamar da divindade e da imortalidade.
         A coexistência dos dois planos justifica-se pelo misto de epopeia e de lirismo que se encontra no poema. «Para realizar a glorificação da Pátria, os Portugueses tiveram de sofrer a dor e as privações, o preço a pagar pelos feitos sublimes que praticaram


. Intertextualidade com o episódio do Velho do Restelo

Velho do Restelo

“Mar Português”
. Referência à «dura inquietação d’alma».

. «Se a alma não é pequena».
. O choro das mães, esposas e filhos.

. O choro das mães, a reza dos filhos, as noivas que ficaram por casar.
. A consciência do perigo: o ambiente de dor e pessimismo provocado pela antecipação dos perigos que os que vão embarcar enfrentarão.

. A consciência do perigo, causadora igualmente de dor e sofrimento, mas com traços de otimismo: a dor é encarada como um meio necessário para alcançar o sonho e a glória.
. O sofrimento é necessário para a realização de grandes feitos.

. Idem.
. Reflexo da mentalidade renascentista, o episódio é crítico dos Descobrimentos.

. O poema é, essencialmente, laudatório.
. O herói é mais humano e terreno.

. O herói é mítico e lendário.


. Linguagem e recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: duas sextilhas, o que se adapta á contraposição dos aspetos desagradáveis (1.ª estrofe) e agradáveis (2.ª estrofe).
. Métrica: alternância de versos decassílabos e octossílabos, com alguma irregularidade.
. Rima:
‑ esquema rimático: aabbcc;
‑ emparelhada;
‑ aguda e grave;
‑ consoante;
‑ pobre e rica;
‑ as palavras rimantes são, na maior parte, palavras-chave do poema: sal, Portugal, choraram, rezaram, Bojador, dor, céu, realçando-se, com a posição em final de verso, a sua expressividade.
. Ritmo: binário, largo, típico da meditação lírica.
. Assonância: predomínio da vogal áspera ou forte /a/ (1.ª estrofe).
. Alternância de sons fechados (ê, ô) e sons abertos (á, é).
. Transporte: vv. 1-2, 5-6, 7-8, 9-10.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
‑ pretérito perfeito: evoca os acontecimentos trágicos e os sofrimentos do passado;
‑ presente: remete para os valores intemporais como a bravura, a tenacidade, a coragem o espírito de luta, o desejo de vencer, isto é, os valores que fazem os heróis;
‑ infinitivo pessoal «cruzarmos» exprime determinação e persistência.
. Pobreza de adjetivos, apenas dois: «salgado» e «pequena».
. Predominância de verbos e substantivos, como convém às características do tema desenvolvido:
‑ «mar», «Bojador»: as dificuldades, os perigos enfrentados pelos Portugueses para alcançarem a glória;
‑ «sal»: símbolo do sofrimento, das tragédias provocadas pelo mar;
‑ «lágrimas»: vide 1.ª estrofe;
‑ « céu»: é o símbolo do sonho realizado, da glória, da recompensa que espera o homem que supera os maiores perigos e sofrimentos e conquista o seu sonho; é o símbolo do prémio supremo do herói: a imortalidade.
. Anáfora e quantificadores: «Quantos filhos», «Quantas noivas» ‑ realçam o número de vidas afetas pelas desgraças causadas pelo domínio do mar.
. Função emotiva, traduzida pelas exclamações.
. As três frases declarativas.

3. Nível semântico
. Apóstrofe e personificação do «mar», tratado na 2.ª pessoa e responsável por todo o drama e sofrimento, mas também proporcionador da glória.
. Metáfora e hipérbole: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal», uma síntese das desgraças que o mar causou.
. Reiteração:
‑ dos quantificadores (vide);
‑ da forma verbal «passar» (versos 9 e 10): realça a relação necessária entre a dor e o heroísmo.
. Exclamações (1.ª estrofe): servem o tom épico-dramático do poema e exprimem o que há de mais sagrado nas relações humanas: o amor familiar, isto é, o sofrimento que custou a conquista do mar.
. Interrogação «Valeu a pena?»: chama a atenção para as contrapartidas que o destino reserva aos navegadores e inicia o balanço ou a reflexão sobre a utilidade dos sacrifícios.
. Caráter aforístico dos versos 7-8, 9-10.
. O sentido metafórico de alguns vocábulos e expressões: «cruzarmos», «Bojador», «espelhou», «céu» (é o símbolo do sonho realizado, da glória; se o mar é o local de todos os perigos e medos, também é o espelho do céu, uma vez conquistado).
. A antítese entre o lado trágico e o glorioso dos Descobrimentos.
. Os dois primeiros versos resumem a história passada e presente do povo português e, consequentemente, exemplificam a capacidade de síntese e aproveitamento das potencialidades expressivas das palavras mais banais, processo característico de Fernando Pessoa.



            (1) O Bojador, cabo de difícil acesso situado na costa ocidental africana, terá sido dobrado por Gil Eanes, em 1434, depois de numerosas (fala-se em cerca de 15) tentativas anteriores. Tal dobragem significou um importante passo em frente nos descobrimentos portugueses, já que esse cabo simbolizou, durante muito tempo, o limite do conhecido, e a sul havia muitas riquezas à espera.
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