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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Origem e significado de OK

     A propósito do ensino à distância, vários alunos têm respondido às instrução que lhes são dadas com um sempre estimulante e delicado OK.
     Sucede, porém, que há sempre quem queira inovar e um ou outro surpreende-nos com variações, como, por exemplo, okk.
     Ora bem, de acordo com Allan Metcalf, professor de Inglês no MacMurray College, a expressão OK surgiu pela primeira vez no jornal The Boston Morning Post, entretanto extinto, em 1839. Sucede que o periódico tinha como característica o uso de abreviações (por exemplo, gt era usada para significar "gone to Texas"). Neste contexto, o OK surgiu como uma abreviatura da expressão "oll korrekt", que derivava de "all correct", com o significado de «tudo certo».
     A expressão ganhou popularidade por volta de 1840, quando os apoiantes de Martin Van Buren, candidato à presidência dos EUA e natural da cidade de Kinderhook, sustentaram que OK! se referia a "Old Kinderhook", isto é, a "Velha Kinderhook".
     Atualmente, esta abreviatura é usada a torto e a direito com o sentido de aprovação e de afirmação.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Ensino a distância ou ensino à distância ?

     Surgiu nos documentos oficiais, a propósito da situação de pandemia que o mundo enfrenta por causa da COVID-19, a expressão «ensino a distância».
      
     Na nossa humílima opinião, a expressão correta é, precisamente, «ensino à distância».

     Muito melhor do que alguma vez nós seríamos capaz de fazer, a professora Regina Rocha explica porquê neste post do Ciberdúvidas:


     «À distância» é a expressão correcta por três razões.

     Deverá dizer-se «ensino à distância», ou «ensino a distância»?

     Considero que «ensino à distância» é a construção correcta.

     A expressão «à distância» ou constitui uma locução adverbial (ex.: «À distância, o general observava atentamente a movimentação das tropas»), ou faz parte de uma locução prepositiva (ex.: «Estavam à distância de 200 metros do quartel»).

     Não encontrei registos de, em Portugal, alguma vez haver dúvidas a este respeito. A gramática de maior divulgação em Portugal nas últimas décadas (Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova Gramática do Português Contemporâneo, João Sá da Costa, Lisboa, Junho de 1984) inclui a expressão «à distância» numa lista de locuções adverbiais de lugar (2.ª ed., Outubro de 1984, p. 541).

     No Brasil, os gramáticos de maior nomeada referem o mesmo.

     Argumentam os defensores da expressão «a distância» que haveria contracção da preposição com o artigo (à) apenas no caso de se tratar de uma locução prepositiva («à distância de»), isto é, quando a dimensão ou a natureza da distância fosse determinada pela expressão que se lhe seguisse (ex.: «à distância de um telefonema»). Não encontrei nenhuma regra gramatical que sustentasse esta posição.
Que razões levam a que, nesta resposta, se defenda a locução adverbial «à distância», e não «a distância»? Apresento três.

1.ª – A locução está cristalizada há muitas décadas, décadas de uso corrente na norma culta. Esta é a primeira e primordial razão, pois, mesmo que na sua origem tivesse havido uma formação indevida (que não considero ser o caso, como explicarei de seguida, no ponto 2, desde o momento em que a maioria dos falantes cultos a adoptou e as gramáticas a registaram, ela ganhou legitimidade.

2.ª – A expressão «à distância» contém um substantivo que pede um complemento do nome (expresso ou subentendido). Por exemplo, se se ouvir a frase «A distância foi percorrida em cinco segundos», é natural que se pergunte «Que distância?». Tal significa que está subentendido um complemento. Na expressão «ensino à distância» está subentendido um complemento («à distância dos alunos», «à distância de quem vai receber essas lições»).

Ora, quando uma locução adverbial contém um substantivo que admite um complemento implícito, terá de se utilizar a contracção da preposição, pois está precisamente subentendido esse complemento.

Exemplos:

a)    «conta à ordem» (subentendido «de alguém»), diferente de «conta a prazo» (simples natureza da conta);

b)    «proceder à revelia»; «julgamento à revelia» (subentendido «de alguém», sem a comparência «do arguido» — em direito);

c)    «desenho à vista»; «dinheiro à vista» (subentendido «de alguém»);

d)    «letra à cobrança»; «envio à cobrança» (subentendido «do devedor»).

3.ª – Não tenho conhecimento de argumentos linguisticamente pertinentes que destruam a legitimidade da locução adverbial «à distância».

Assim, considero correctas as seguintes expressões: «ensino à distância», «formação à distância», «cursos ministrados à distância», «comando à distância».»

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Origem e significado de corona e vírus

     Frederico Lourenço revela, neste seu texto [corona-e-vírus-em-tempo-de-corona-vírus] a o3igem das duas palavras, bem como o seu significado primitivo, além do erro que consiste a sua junção numa só palavra.

«Duas palavras gregas (com roupagem latina) dominam a actualidade mundial. Se, por um lado, a formulação que ouvimos todos os dias («coronavírus») fere os meus ouvidos de helenista/latinista – pois como é que um substantivo («corōna») pode qualificar outro substantivo («vīrus»)? -, por outro lado tenho-me entretido com os pensamentos ziguezagueantes sobre estas duas palavras, suscitados pela sua repetição permanente. Sentado ontem ao balcão de um pequeno restaurante de Coimbra, enquanto o noticiário televisivo repetia em tons histéricos o nome «coronavírus», dei por mim a pensar como as palavras têm a sua história; e como as pessoas a quem o ensino actual nega a possibilidade de estudar Grego e Latim passam ao lado dessa história. Por via da herança grega e latina, palavras como «corōna» e «vīrus» têm uma história milenar, cuja viagem (pelo menos a reconstruível) começa com Homero e tem ponto de passagem no Novo Testamento.
À partida, quando olhamos para as palavras latinas «corōna» e «vīrus», diríamos que nada têm a ver uma com a outra: a primeira tem como sentido primário «grinalda», «coroa»; a segunda tem como sentido primário «veneno». No entanto, na utilização mais antiga que se conhece destas duas palavras, elas estão estranhamente ligadas por um denominador comum: o arco do qual se disparam flechas.
À imagem do arco está associada a palavra grega «korōnē» (donde deriva em latim «corōna») desde a Ilíada, poema em que o termo serve para designar a ponta do arco.
Por seu lado, a palavra latina «vīrus» é a forma itálica da palavra grega «īós» (que no tempo de Homero talvez ainda se pronunciasse «wīós»). Esta palavra «īós», antepassada da nossa palavra «vírus», é objecto de fascínio para os helenistas, porque tem três sentidos à primeira vista diferentes: «flecha»; «veneno»; «ferrugem».
Podemos questionar hoje se, linguisticamente, a etimologia de «īós» no sentido de «flecha» é a mesma de «īós» no sentido de «veneno» e «ferrugem»; mas os antigos não tinham essa consciência. Se perguntássemos a Homero a razão de as palavras para «flecha» e «veneno» serem homógrafas, ele responder-nos-ia certamente que, muitas vezes, as flechas são portadoras de veneno pelo facto de serem envenenadas. O arco do qual a primeira flecha da Ilíada é disparada (arco esse, justamente, cuja descrição no Canto 4 nos dá a primeira atestação da palavra «korōnē») é tacitamente suspeito de disparar flechas envenenadas.
Porquê? Porque o médico militar nesse canto da Ilíada, «quando viu a ferida, onde embatera a seta aguda, / chupou dela o sangue e, bom conhecedor, nela pôs fármacos / apaziguadores» (Ilíada 4.217-219).
Depois de Homero, «korōnē» e «īós» seguiram caminhos divergentes. No que diz respeito a «korōnē», há que referir a sua acepção ornitológica («corvo»), o que terá talvez conduzido à acepção de «coroa», quiçá inspirada pela crista de algum pássaro. No entanto, em grego a acepção de «coroa» é rara. Quando os soldados romanos tecem uma coroa de espinhos para pôr na cabeça de Jesus, a palavra grega é «stéphanos» (στέφανος); na Vulgata, no entanto, lemos «corōna».
Por seu lado, a palavra grega «īós» («veneno»), correspondente a «vīrus» em latim, está praticamente ausente do Novo Testamento, embora surja de modo curioso na Epístola de Tiago, onde a primeira ocorrência aponta para a acepção de «veneno» (Tiago 3:8) e a segunda para a acepção de «ferrugem» (5:2). Note-se que a conotação associada a «īós» em grego é quase sempre negativa; mas temos uma excepção curiosa na expressão para designar o mel, que Píndaro inventa num dos seus poemas: «veneno [īós] inofensivo das abelhas».
Também em latim, «vīrus» tem quase sempre uma conotação negativa; contudo, o poeta Estácio, no séc. I d.C., surpreende-nos ao referir um «vírus benigno» com propriedades medicinais, que pode ser colhido «nos campos dos Árabes» (Estácio, «Silvae», 1.4.104).
Que «vīrus» será esse em concreto? Estácio não nos diz. O facto de lhe chamar «benigno» leva a crer que será bem diferente do nosso coronavírus, que, fiel à história mais antiga das palavras que o compõem, tem percorrido em flecha o mundo inteiro.
Um último pensamento: vários autores romanos (Horácio, Plínio [tio], Marcial) aplicaram ao substantivo «vírus» o adjectivo «grave». Esperemos que este vírus que agora nos ocupa se reveja mais na sua identidade homérica de flecha… e que acabe por se tornar, já agora, como escreveu Píndaro, ἀμεμφής: inofensivo.».

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Missa do galo

Primitivamente, havia apenas uma missa, que se celebrava no dia 25 de dezembro, na igreja de S. Pedro. Em meados do século V, começou a rezar-se uma outra missa, numa capela em Roma, chamada Santa Maria do Presépio, construída à imagem da gruta de Belém, e que se celebrava ainda de noite, mas quase ao romper do dia 25, quando os galos começavam a cantar. Daí surgiu a designação missa do galo.
Mais tarde, surgiu uma terceira missa, chamada missa da aurora, dedicada à mártir Santa Anastácia de Sírmio, cujo aniversário ocorria a 25 de dezembro. Esta missa foi intercalada entre a da noite (a missa do galo) e a do dia (a missa em S. Pedro), sendo a missa do galo progressivamente antecipada até à meia-noite. No século VIII, espalhou-se o uso das três missas no dia de Natal.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Acupunctura (origem e significado)

A palavra «acupunctura” provém da junção de dois termos latinos: acu (agulha) e punctura (picada). Ela designa um método de origem chinesa que consiste na introdução de agulhas muito finas em pontos específicos do corpo humano com vista ao tratamento de doenças.

TAVARES, Sandra Duarte, 500 Erros mais Comuns da Língua Portuguesa

"Acerca de", "cerca de", ou "há cerca de"?

Ambas as expressões existem na língua portuguesa, só que com significados e usos diferentes.

A expressão “acerca de” é uma locução prepositiva que significado «sobre», «a respeito de», «quanto a», «na opinião de»:
. Na aula, falámos acerca das nossas vidas.

Existe também a expressão “(a) cerca de”, que quer dizer «perto de», «cerca de», «próximo de», «junto de», «aproximadamente»:
. O navio naufragou a cerca de 200 milhas do Cabo Espichel.
. Cerca de 10 alunos invadiram o parque de merendas.

Por sua vez, a expressão “há cerca de” é constituída pela 3.ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo «haver» e pela locução «cerca de», que significa «aproximadamente», «perto de». Ela pode assumir dois valores semânticos:
1.º) um valor temporal, podendo ser substituída pela forma verbal «faz»:
. O desastre da Supertaça ocorreu há cerca de uma semana.
2.º) um valor especial, podendo ser substituída pela forma verbal «existem»:
. Há cerca de quarenta adeptos do Sporting em prisão domiciliária.


A datação das décadas e dos séculos


Afinal, hoje, 1 de janeiro de 2020, estamos ainda na segunda década do século XXI ou entrámos na terceira? Esta questão estende-se também à delimitação dos séculos.

Os séculos começam em 01 e terminam em 00, inclusive. Assim sendo, o século atual teve início a 1 de janeiro de 2001 e terminará no dia 31 de dezembro de 2100.

Quanto às décadas, se dividirmos os séculos em 10, a lógica é a mesma daqueles: o período de 2001 a 2010 constitui a primeira década do século XXI; o de 2011 a 2020 corresponde à segunda; o de 2021 a 2030 refere-se à terceira. Deste modo, atualmente ainda vivemos na segunda década do século XXI.

No entanto, se falarmos em anos, a questão é ligeiramente diferente. Assim, se nos referirmos aos anos 20 deste século, estaremos a falar de 2020 a 2029. O mesmo sucede, por exemplo, quando falamos da época de quinhentos: o século é o XVI (1501 a 1600), a época é a de quinhentos (de 1500 a 1599).

A razão que explica tudo isto reside no facto de não ter existido um ano 0, e o cálculo dos séculos parte desse princípio. De facto, grande parte do mundo ocidental utiliza o calendário gregoriano, que foi estabelecido pelo Papa Gregório XII em 1582 e que coloca o nascimento de Jesus Cristo como ano 1. Isto significa que saltamos do ano 1 antes de Cristo diretamente para o ano 1 depois de Cristo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Gertrudes: origem e significado do nome

O nome Gertrudes deriva do francês Gertrude, que, por sua vez, constituirá um empréstimo do alemão Gertrud por via alsaciana. O “s” que caracteriza o nome no português gterá sido um caso de paragoge surgido por via popular.
De acordo com José Machado, no seu Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, o nome é, portanto, de origem alemã, composto pelos elementos germânicos “gari-”, “ger-“ (“lança”) e “trud-“ (“fiel”). A sua popularidade deveu-se ao culto a Santa Gertrudes, cuja festa litúrgica é celebrada a 16 de novembro.
A santa nasceu na Alemanha a 6 de janeiro de 1256 e foi enviada para estudar no mosteiro beneditino de Helfta quando tinha 5 anos. Após a tomada de hábito na adolescência, tornou-se amiga de Santa Matilde de Hackeborn, sendo ambas devotas do Sagrado Coração de Jesus.
Santa Gertrudes é hoje venerada como a padroeira das pessoas místicas.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Origem e significado de Jesus Cristo

Cristo não é propriamente o sobrenome de Jesus. Com efeito, o termo constituiria um epíteto de origem grega dado a Jesus que significava ungido.
Jesus era um judeu, daí que o seu nome fosse de origem aramaica (o aramaico, derivado do hebraico, era a língua falada pelos judeus do século I da nossa era) Yehoshua (ou Yeshua) ben Youssef, isto é, Josué, filho de José.
Porém, Jesus também era conhecido como Jesus de Nazaré, ou Jesus o Nazareno, pois a sua cidade de origem era, precisamente, Nazaré. Quando foi batizado no rio Jordão por João Baptista, e reconhecido como o mensageiro de Javé que tinha vindo libertar o povo judeu da opressão romana (Yehoshua significa Javé salva), Jesus recebeu o epíteto de Mashiach (ou Mashiyac) (isto é, Messias), que em hebraico quer dizer ungido. Como o Novo Testamento foi redigido num grego tardio chamado koiné, o nome Yeshua Mashiach foi traduzido para Iesoûs ho Khristós, literalmente Jesus o Ungido.
Quando o Cristianismo se disseminou pelo Império Romano, levando a que o latim passasse a ser a língua oficial de Roma, o nome grego de Jesus Cristo foi latinizado para Iesus Christus (o latim não tinha artigos), daí derivando o português Jesus Cristo e as diferentes designações das demais línguas.
Falta apenas esclarecer um ponto. Se o vocábulo ungido em latim é unctus, por que razão Jesus não ficou conhecido em Roma como Iesus Unctus? Sucede que a língua grega tinha um enorme prestígio em Roma, e, como os Evangelhos tinham sido escritos em grego, o epíteto Khristós não foi traduzido e manteve-se, tendo sido apenas adaptado para Christus.


Significado de Natal em diversas línguas

O termo português Natal deriva da expressão latina dies natalis, com supressão do nome dia e substantivação do adjetivo natal.

O espanhol Navidad é um sinónimo de natividade, uma palavra que, em português, se aplica para designar o nascimento da Virgem Maria.

O francês Noël provém do francês antigo nael, mais próximo do étimo latino natalis.

O inglês Christmas é uma palavra composta pelo nome de Cristo e pelo nome mass, que significa missa, daí que o vocábulo queira dizer missa de Cristo.

O alemão Weihnachten, que quer dizer noites santas, referia-se na origem ao período de 12 dias (ou noites), situado entre 25 de dezembro e 5 de janeiro, correspondente aos 12 dias consecutivos ao solstício de inverno, durante os quais os antigos Germanos pagãos celebravam também a festa dos mortos.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Origem e significado de Natal

O termo natal começou por ser um adjetivo que significava «relativo ao nascimento», «onde se deu o nascimento», «natalício».
            A palavra provém do adjetivo latino natalis, formado a partir do verbo «nascor», que queria dizer «nascer».
            Do adjetivo «natal», formou-se o nome «natal», subentendendo-se a palavra «dia»: o dia natal significava o dia do nascimento e, daí, o próprio nascimento, mas esse termo normalmente apenas é usado para designar o nascimento de Jesus Cristo, iniciado por maiúscula (o Natal). Do latim natalis derivaram também as designações de várias outras línguas, como o francês (noël) ou o italiano (natale), entre outras.
            Deste modo, o vocábulo «Natal», escrito com maiúscula inicial, é o nome da festa religiosa cristã que celebra o nascimento de Jesus Cristo, a figura central da religião cristã; o termo «natal», com letra minúscula, significa «do nascimento» e refere-se ao nascimento ou ao local onde se deu o nascimento. Escrevem-se, igualmente, com maiúscula alguns topónimos, como o da cidade brasileira de Natal.
            Primitivamente, nas igrejas do Oriente, o nascimento de Jesus celebrava-se a 6 de janeiro. No entanto os Evangelhos não contêm qualquer referência à data exata desse nascimento. Foi o clero romano, algures entre 243 e 336, que definiu o dia 25 de dezembro como o da celebração do nascimento de Jesus, possivelmente graças ao papa Júlio I.
            A teoria mais aceite sugere que a comemoração do Natal teve origem em festas pagãs que ocorriam no mês de dezembro, durante o Império Romano, relacionadas com o solstício de inverno, para garantir a fertilidade e para celebrar o «renascimento do Sol», uma vez que o solstício de inverno era o dia mais curto do ano. De facto, a Roma pagã comemorava o Natale Solis Invicti, a festa solsticial consagrada ao Sol, precisamente no dia 25 de dezembro. De acordo com os cálculos da época, estava-se no solstício de inverno e esse era o dia em que o Sol estava mais fraco e, portanto, pronto para recomeçar a crescer e a trazer vida à natureza: era o nascimento do Sol invencível (Natale Solis Invicti), que prevalecia sobre a noite. Após a decisão do clero romano, gradualmente a celebração pagã deu lugar à cristã. Aliás, se tivermos em atenção as Escrituras, Jesus é apresentado como a verdadeira «luz do mundo», sendo frequente a associação de Deus ao Sol, Deus como a luz que ilumina a terra. De Roma, a celebração de 25 de dezembro propagou-se a todas as terras cristãs.
            Algumas vozes colocam o nascimento de Jesus no mês de abril, outras na festa dos Tabernáculos dos judeus, correspondente ao atual mês de setembro. Uma declaração de Clemente de Alexandria aponta mesmo várias datas: 15 de abril, 20 de abril, 21 de abril, 20 de maio. Enquanto a Igreja católica não fixou a data do Natal, este era comemorado em dias diferentes, dependendo da região, pois não se sabia com exatidão o dia do nascimento de Jesus. No entanto, para que passasse a constar do calendário litúrgico, bem como para marcar o ano I da nossa era (depois de Cristo) e ainda para permitir a conversão dos novos pagão sob o domínio do Império Romano, estabeleceu-se o dia 25 de dezembro, uma opção que terá sido ditada enquanto estratégia da Igreja para enfraquecer as comemorações pagãs que ocorriam nessa data, como, por exemplo, o Dies Natalis Solis Invicti ou a Saturnália, uma festa de homenagem ao deus Saturno. Assim, é muito provável que, gradativamente, durante os séculos III e IV, a comemoração do Natal no dia 25 de dezembro se tenha popularizado a ponto de o Papa Júlio I ter determinado que o nascimento de Jesus ocorrera, de facto, nessa data. Supostamente, o anúncio do papa teve lugar em 350.
            Relativamente à origem, alguns historiadores situam-na na antiga Babilónia, numa festa que comemorava o nascimento de Nimrode, um dos seus reis, e também no Egito, onde a data marcava o nascimento da deusa Ísis. De modo semelhante, a época, ainda antes do Cristianismo, era festejada no norte da Europa para marcar o fim dos dias curtos e o retorno do Sol. As antigas comemorações de Natal duravam até 12 dias, pois foi este o tempo que os três Reis Magos demoraram até chegar à cidade de Belém para entregarem os seus presentes (ouro, mirra e incenso) ao recém-nascido Jesus. Hoje, os enfeites de Natal são iniciados no começo de dezembro e terminam doze dias após o Natal.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

"O que"

A análise da questão colocada exige antes de mais que se faça a distinção entre duas realidades; a locução pronominal «o que» e a sequência «o que» formada por artigo, usado como “pronome demonstrativo” seguido de que1.
I. Esta última realidade está presente numa frase como (1):
(1) «Adorei o que me aconselhaste.» (Conversa sobre um livro)
Vários dados comprovam que o não faz parte do constituinte relativo:
(i) o é variável em género e número:
            (2) «Adorei os que me aconselhaste.» (conversa sobre livros)      
(3) «Adorei a que me aconselhaste.» (conversa sobre música)    
(4) «Adorei as que me aconselhaste.» (conversa sobre músicas)
(ii) pode ser substituído por outro determinante como aquele:
            (5) «Adorei aquele que me aconselhaste.»
(iii) introduz um nome omitido que se recupera pelo contexto:
            (6) «Adorei o livro que me aconselhaste.»
Neste caso, estamos assim perante uma oração relativa com antecedente implícito.
II. Estamos perante a locução relativa «o que» quando
(ii) o artigo o não pode ser substituído por um determinante:
            (7) «Ofereceu-me um livro, o que me deixou feliz.»
            (8) «*Ofereceu-me livro, aquilo que me deixou feliz.»
(ii) não flexiona em género e número:
            (9) «*Ofereceu-me prendas, as que me deixaram muito feliz.»2
(iii) não é possível inserir um nome entre que (porque se trata de uma locução):
            (9) «*Ofereceu-me um livro, o livro que me deixou muito feliz.»2
A diferença assinalada entre I e II tem implicações também no uso das preposições com os relativos. Como se sabe, no caso de o verbo da oração relativa reger preposição, esta será colocada no início da oração relativa, como em (10):
(10) «A festa de que gostei muito durou até tarde.»
No caso I, a preposição será colocada entre o artigo e o relativo:
(11) «Adorei o de que me falaste.»
No caso II, a preposição será colocada antes da locução relativa:
(12) «Fez uma apresentação tocante do livro, com o que me surpreendeu.
As frases apresentadas pelo consulente têm ainda a particularidade de constituírem construções clivadas ou de foco (cf. aqui). Uma frase na ordem normal (13) permite que um dos seus elementos seja colocado em destaque através da construção de clivagem (14) ou (15):
(13) «Muitos duvidam das suas possibilidades.»
(14) «O de que muitos começam a duvidar é das suas possibilidades.»
(15) «Do que muitos começam a duvidas é das suas possibilidades.»
Nos casos apresentados pelo consulente, estamos perante uma situação de interpretação dúbia, ou seja, tanto tratar-se de uma oração relativa com antecedente implícito como de uma construção com locução relativa. Esta dificuldade de interpretação deve-se ao facto de os traços semânticos da sequência «o que» serem semanticamente vagos. Daí ser difícil identificar o nome que se poderia colocar entre o e que. Porém, note-se que é possível substituir o por aquilo3.
Perante esta ambiguidade de interpretação, diremos que ambas as possibilidades apresentadas pelo consulente são possíveis: a colocação da preposição entre o artigo e o pronome ou a colocação da preposição antes da locução relativa.

Em nome do Ciberdúvidas, agradeço as gentis palavras que nos endereça.

*assinala agramaticalidade.
1. Para maior aprofundamento, cf. Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 2085-2089.
2. Note-se que esta frase seria possível como modificador do nome (adjunto do nome). Neste caso estaríamos, de novo, perante um caso de artigo seguido de que.
3. Esta mesma situação é discutida em Raposo et al., Ibidem, pp. 2088 – 2089, caixa [10].
Carla Marques 

Fonte: Ciberdúvidas

Construção clivada

Fala-se mais em construção clivada ou de clivagem do que em "oração clivada" (Ana Maria Brito e Inês Duarte, em M.ª Helena Mira Mateus et aliiGramática da Língua Portuguesa, 2003, págs. 685-694). Aparentada com as orações relativas, trata-se de uma construção em que participa o verbo ser com pronomes relativos ou a expressão é que e que permite pôr em destaque a maior parte dos constituintes de uma frase, a saber, sujeito, complementos e adjuntos do verbo (exceptuando advérbios de frase como provavelmente e orações adverbiais condicionais e concessivas). Por exemplo, a partir de uma frase como «a Rita comprou o vestido na feira», focam-se vários constituintes do seguinte modo:
1. Sujeito «a Rita»
(a) Foi a Rita que/quem comprou o vestido na feira.
(b) Quem comprou o vestido na feira foi a Rita.
A Rita foi quem comprou o vestido na feira.
A Rita é que comprou o vestido na feira.
2. Objecto directo
(a) Foi o vestido o que/que a Rita comprou na feira.
etc.
3. Adjunto adverbial
(a) Foi na feira que a Rita comprou o vestido.
etc.
Em (2) e (3), também se inclui, respectivamente, «A Rita comprou foi o vestido» e «A Rita comprou o vestido foi na feira», construção que não é possível com o sujeito — *«Comprou o vestido na feira foi a Rita.»
Carlos Rocha 
Fonte: Ciberdúvidas

domingo, 8 de dezembro de 2019

Pôr as barbas de molho

Noutros tempos, a barba era um sinal de prestígio, honra e poder.
D. João de castro, o quarto vice-rei da Índia, ficou registado nos livros de História como o protótipo do português antigo, de consciência reta e austera. No século XVI, enquanto exerceu o cargo mencionado, resistiu ao cerco montado a Diu em 1546 pelo sultão Mafamud, conservando assim a soberania portuguesa naquelas paragens do Oriente.
Após os confrontos, D. João de Castro teve de reconstruir a fortaleza de Diu para impedir novos ataques, mas faltava-lhe o dinheiro necessário pata executar a tarefa, por isso escreveu à câmara de Goa uma missiva em que solicitava um empréstimo de vinte mil pardaus, oferecendo em penhor as próprias barbas. E foi isso que aconteceu: o empréstimo foi-lhe concedido e a fortaleza refeita. Ora, na época, ter a barba cortada representava uma humilhação.
Note-se que a barba constituiu um atributo indispensável ao prestígio da magistratura. De facto, os magistrados usavam barba para conferir maior solenidade à função de julgar. Talvez por isso, em 17 de junho de 1716, o regedor do reino português ordenou que cada um dos desembargadores tivesse dez cruzados anuais para o barbeiro.
Várias línguas possuem provérbios que dão nota da importância da barba como sinal do valor de um homem. Um desses provérbios é de origem espanhola e reza o seguinte: «Cuando las barbas de tu vecino veas pelar, pon las tuyas a reojar», ou seja, “Quando vives as barbas do vizinho ficar sem pelos, põe as tuas de molho.”. Daí terá surgido o provérbio português, “Quando vires as barbas do vizinho a arder, põe as tuas de molho.», que significa observar o dano, o perigo na vizinhança e, em consequência, tomar precauções.
O uso popular adotou a parte final do provérbio: “pôr ou deitar as barbas de molho”, ou seja, acautelar-se, ficar de sobreaviso, precaver-se contra um perigo iminente.


Pronúncia de molho

Molho e molho são palavras homógrafas, isto é, escrevem-se da mesma maneira, mas pronunciam-se (e têm significados diferentes).
Assim, pronunciamos molho
com o o aberto (ó) quando é sinónimo de “feixe”, “punhado”:
- um molho de grelos
- um molho de erva
com o o fechado (ô) quando nos referimos a um tempero culinário:
- molho de carne
- molho de tomate

Quando a palavra surge no plural, a distinção de sons mantém-se:
- molhos (mólhos) de erva
- molhos (môlhos) de tomate

Plural de abaixo-assinado

Qual é o plural de abaixo-assinado? Abaixo-assinados ou abaixos-assinados?

Abaixo-assinado é uma palavra composta pelo advérbio abaixo e pelo particípio passado assinado. Só este segundo elementos deve ser flexionado no plural, visto que o primeiro elemento é um advérbio, logo é invariável.

Assim, a forma correta de plural é abaixo-assinados.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Acentuação das palavras terminadas em -inho ou -inha

     As palavras graves terminadas em -inho ou -inha (como rainha, campainha, ladainha, tainha, ventoinha, moinho) não têm acento gráfico.
     Tal sucede, porque a quebra do ditongo nem sempre se faz através do acento gráfico. De facto, ela pode ocorrer naturalmente, por força das letras que se encontram junto a um potencial ditongo, fazendo com que os seus elementos façam parte de sílabas diferentes.
     Nos exemplos apontados, a semivogal i vem seguida do dígrafo nh, que a anasala, levando-a a forma, por si só, uma sílaba.
     Quando o ditongo é seguido das consoantes r, l ou z, ele é quebrado e também não há lugar a acento gráfico: juiz, raiz, Raul, paul, cair, cairdes.
     O mesmo sucede quando vem seguido de m, n ou ns: ainda, Caim, ruim, ruins.

     São acentuadas, porém, as palavras que dele necessitam para que não se forma ditongo com a vogal anterior:  (diferente de ai), país (diferente de pais), caía (diferente de caia), caíra, saía (diferente de saia), juíza, juízo, Luís, Luísa, raízes, ruína, etc.

     Por regra, são acentuados graficamente o i e o u tónicos que não forma ditongo com a vogal anterior, desde que não formem sílaba com r, l, m, n ou z ou não sejam seguidos do dígrafo nh: cafeína, construído, distribuído, egoísta, faísca, heroína, juízo, peúga, proíbe, reúne, saúde, etc.

sábado, 23 de novembro de 2019

Paciência de Jó/Job

     Paciência de Jó significa revelar uma paciência, uma tolerância ou resignação acima dos limites razoáveis.
     Jó foi uma personagem do Antigo Testamento que viveu na terra de Uz, atual Iraque. Por causa de uma aposta entre Deus e o Diabo, foi vítima de muito sofrimento: perdeu a sua fortuna, a sua saúde e quase todos os seus parentes, para ver se ele mantinha a sua fé, a despeito de todas as adversidades.
     A sua esposa e os amigos incitaram-no a amaldiçoar Deus, porém Jó sofreu todas as provações a que foi sujeito, por isso, no final, Deus recompensou-o, devolvendo-lhe em dobro tudo o que perdera.

Bode expiatório

     Ser o bode expiatório de algo significa pagar pela culpa dos outros.
     De acordo com a tradição hebraica da época do Templo de Jerusalém, o bode expiatório era um animal separado do rebanho e deixado só no deserto, depois de os sacerdotes o terem carregado com as maldições que queriam desviar de cima do povo.
     Este costume fazia parte dos rituais do Yom Kippur, o Dia da Expiação, e é descrito com detalhes no livro do Levítico, no Velho Testamento.
     Em sentido figurado, um "bode expiatório" é uma pessoa, grupo de pessoas ou mesmo todo um povo, escolhido arbitrariamente para assumir sozinho a culpa de uma calamidade, crime ou qualquer evento negativo.

sábado, 2 de novembro de 2019

Concordância de "a gente"


            Qual é a frase correta?
. A gente vai ao cinema?
. A gente vamos ao cinema?
            A regra informa-nos que o predicado concorda em pessoa e número com o sujeito.
            «Gente» é um nome coletivo que designa um conjunto de pessoas. Como se encontra no singular, o verbo (núcleo do predicado) tem de estar também no singular, em concordância com a expressão.
            Assim sendo, a frase correta é a primeira: «A gente vai ao cinema?».
            A talhe de foice, esclareça-se também um erro cometido por muitos: a confusão entre a expressão «a gente» e o nome «agente», que designa uma pessoa que age:
. A gente vai ao cinema.
. O agente da polícia prendeu o ladrão.


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