Português: Viagens na Minha Terra
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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Retrato de Frei Dinis

▪ Antes de se ter tornado frade, Frei Dinis era simplesmente Dinis de Ataíde, um importante magistrado, representante da vida mundana.

▪ “Católico sincero e frade no coração”, era o “frade mais austero e pregador mais eloquente daquele tempo”.

▪ Tratava-se de um “homem extraordinário que juntava a uma erudição imensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo”.

▪ É austero e inflexível: “homem de princípios austeros, de crenças rígidas e de uma lógica inflexível e teimosa”.

▪ “Um ser de mistério e terror”, “o cúmplice e o verdugo de um grande crime”, encarna a ideia cristã da penitência, vive para expiar os seus pecados, sendo objeto de uma cólera divina.

▪ Figura ominosa, agente de um destino inexorável, cuja função na economia da obra é criar uma atmosfera de terror, fazendo prever ao leitor uma fatalidade iminente e um mistério terrível que o cerca.

▪ Atormentado pelo remorso, perseguido pelo mundo na cela do seu convento, abomina as doutrinas liberais e a heresia.

▪ Neste sentido, simboliza as ideias absolutistas (o Portugal Velho), segundo as quais o poder régio é legado por Deus para governar a nação seguindo os preceitos evangélicos.

▪ É uma personagem aparentemente rigorosa e malévola, como era característico do frade romântico, o que, de certa forma, confirma: é o destruidor da família do Vale e o protótipo do mal.

▪ A sua transformação em Frei Dinis representa a rutura com o material e a ligação ao espiritual, traço em que é o oposto de seu filho, Carlos.

▪ Visita a casa do Vale todas as sextas-feiras.

▪ Acaba por entrar em conflito ideológico com Carlos, de quem é pai, que o considera um intruso.

Antes de ser frade, Dinis de Ataíde era materialista, dominado por paixões que levarão ao nascimento de Carlos, à morte de sua mãe e ao assassínio do pai de Joaninha e do marido da mãe de Carlos, crimes que o levarão a professar, abandonando a vida materialista e mundana para se tornar espiritualista.
Em contramão, Carlos segue um percurso inverso: quando jovem, era idealista (daí a adesão ao Liberalismo), desprendido das coisas materialistas (espiritualista), porém, com a instalação do Novo Regime (Liberalismo), a sociedade torna-se profundamente materialista e ele torna-se barão, o símbolo mais perfeito do materialismo burguês.


Retrato de Joaninha

1. Retrato físico

▪ Joaninha é uma jovem órfã de 16 anos, pele branca e olhos verdes, como a Natureza pura, com a qual ela está em harmonia.

▪ O seu retrato começa por ser físico e só depois é caracterizada psicologicamente.

2. Retrato psicológico

▪ Joaninha é uma adolescente natural, impoluta, misto de criança e mulher, ideal de espiritualidade.

▪ É definida pela estabilidade e pela fidelidade ao espaço onde cresceu – o Vale de Santarém – a cujos valores permanece fiel: a harmonia, a perfeição, a simplicidade, a espiritualidade, a naturalidade e a pureza original (a cor verde dos olhos) de um espaço que exclui os vícios sociais.

▪ É sentimental, ingénua e pura, não corrompida pelos vícios da sociedade; enlouquece e morre, vítima inocente, ao ser confrontada com as injustiças e crueldades sociais.

▪ Personifica a graça, a fragilidade, o espírito de sacrifício, o encanto feminino segundo a conceção do autor.

▪ Polariza todas as mulheres que Carlos amou, todas as suas paixões e anseios amorosos.

▪ Apresenta traços de excecionalidade, de diferença.

▪ Está-lhe associado o rouxinol, que prenuncia, por associação com o rouxinol da Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, o sofrimento amoroso, a desilusão e a morte vividos

▪ É o retrato da mulher ideal, da mulher-anjo, constantemente superlativada.


Retrato de Carlos

▪ Caracterizado direta (pelo narrador) e indiretamente (a partir dos diálogos e da carta final), é uma personagem modelada, rica de vida interior, sofrendo evolução psicológica ao longo da obra.
▪ É a personagem central, o protagonista, em quem Garrett vazou a sua própria personalidade, procurando justifica-la e tomando a sua defesa: “Leitor amigo e benévolo, caro leitor meu indulgente, não acuses, não julgues à pressa o meu pobre Carlos” (cap. XXII).
▪ É o modelo da galeria romântica dos homens fatais, que espalham o sofrimento e a destruição à sua volta.
▪ Começa por ser caracterizado fisicamente e só depois psicologicamente, numa perspetiva que parte do geral para o particular. Como sucede frequentemente com diversas personagens, as suas características físicas indiciam as psicológicas.

1. Retrato físico

• Carlos tem aproximadamente 30 anos.
• É de estatura média, corpo delgado, mas com peito largo e forte (alberga um grande coração).
• Tem olhos pardos e expressivos.
• A boca, embora pequena, é igualmente expressiva.
• Os olhos e a boca projetam o temperamento e o caráter de Carlos: a nobreza, a lealdade, a generosidade, mas também a afetividade, a emotividade e a tendência para o arrebatamento (cap. XX).

2. Retrato psicológico

• É franco, leal e generoso.
• Por outro lado, é vaidoso e mentiroso, temperamental e difícil de entender.
• É egoísta até à comiseração que sente por si mesmo, sorve dos outros aquilo que lhe podem dar, sem jamais retribuir, porque é incapaz disso: “Quero contar-te a minha história: verás nela o que vale um homem. Sabe que os não há melhores que eu: e tão bons, poucos. Olha o que será o resto!” (cap. XLIV).
• Era possuidor de um coração puro que a sociedade transformou num cético, um sentimental arrastado por um coração demasiado grande e sensível que não sabia obedecer à razão ou à vontade.
• Possuidor de um caráter inconstante, que o impede de encontrar-se a si próprio, de identificar-se com o seu verdadeiro «eu», simbolizado por Joaninha, é incapaz de vencer uma tendência mórbida para a volubilidade.
• Representa as ideias liberais e, simultaneamente, as opiniões pessoais do autor sobre o liberalismo e a sua aplicação prática.
• Incapaz de vencer a indeterminação, cai no indiferentismo, engorda, enriquece e faz-se barão.
• Encarna a instabilidade sentimental do romântico: sofre por não poder dar-se inteiro e para sempre no amor, mas não deixa de se envaidecer por ter um coração “grande de mais”.
• É uma personagem marcada por traços de excecionalidade típicos do herói romântico:
» a superioridade;
» as antinomias (“fácil na ira, fácil no perdão”);
» o pendor para a marginalidade;
» o pendor para o isolamento existencial.
• Contrariamente a Joaninha, é dominado por uma tendência para a mudança/instabilidade:
» a partida do Vale;
» o exílio;
» o regresso ao Vale;
» a partida definitiva do Vale;
» dividido entre o chamamento do Amor e o empenhamento no combate pelo Liberalismo, empreende um percurso instável de sucessivos desenganos amorosos (com Júlia, com Laura e com Georgina na Inglaterra; com Soledad na Ilha Terceira, com Joaninha no Vale);
» o empenhamento na causa liberal também se resolve em termos de mudança, já que esse empenhamento significa o envolvimento de uma personagem originariamente boa e pura (porque proveniente do espaço paradisíaco do Vale de Santarém) na teia das convenções sociais que a vão degradando, acabando poe ceder ao materialismo e se tornar barão.

3. Carlos enquanto herói romântico (síntese)

A longa carta que Carlos escreve a Joaninha permite identificar as características que fazem dele um herói romântico:
▪ individualista, narcisista e egoísta, vivendo um drama interior;
▪ temperamento contraditório e dominado pelo sentimento;
▪ marginal, solitário e sofredor;
▪ fracassado a nível social e amoroso: passa do idealismo ao materialismo, de Adão natural transforma-se em Adão social, seguindo um percurso oposto ao do pai, Frei Dinis;
▪ megalómano;
▪ sedutor;
▪ sentimento de superioridade;
▪ excecional e excessivo;
▪ revolucionário;
▪ instável e constantemente móvel (partida do Vale, exílio, regresso, nova partida, etc.);
▪ ser corrompido;
▪ amante: ama todas as mulheres, revelando-se incapacitado para o amor;
▪ herói fatal: causa a perdição daqueles que o amam ou que o rodeiam.

4. Percurso de Carlos

▪ Infância na casa do Vale.
▪ Formatura em Coimbra.
▪ Adesão às ideias liberais.
▪ Emigração para Inglaterra em 1830, onde vive um período de grandes paixões e mentiras.
▪ Regresso ao Vale de Santarém como oficial liberal, durante a guerra civil que opôs liberais a absolutistas.
▪ Reencontro com Joaninha.
▪ Incapacidade de corresponder ao amor de Joaninha.
▪ Ferimento numa batalha e mudança para o convento de Frei Dinis, em Santarém.
▪ Fuga a compromissos (Joaninha versus Georgina).
▪ Incapacidade de enfrentar a revelação do passado da sua família.
▪ Incapacidade para lidar com o destino trágico: a avó cega, de tanto chorar, fica como morta; Frei Dinis é um cadáver vivo; Georgina professara; Joaninha enlouquecera e morrera.
▪ Entrada na política: torna-se barão.

Este percurso de Carlos simboliza a fraqueza do Homem. Ele personifica o trajeto de um jovem bom que, ao sair do edénico Vale de Santarém, onde fora criado, na casa da avó Francisca, ao lado de Joaninha, vigiado por Frei Dinis, perde a sua pureza original e se transforma, tornando-se, no final, barão.
Almeida Garrett parece identificar-se com o Carlos herói romântico, que, no entanto, ao longo da obra acaba por se transformar num anti-herói que desiste por não conseguir resolver os seus dilemas. O fracasso da sua vida amorosa coincide com o triunfo do Liberalismo, no entanto a desistência de todos os seus ideais condu-lo ao ceticismo, tornando-se barão. De facto, o jovem, originalmente puro e bom (o Adão natural), cede ao materialismo e às convenções sociais que o transformam e o fazem barão (Adão social). Estamos, afinal, na presença da teoria do “bom selvagem”, de Rousseau, segundo a qual o Homem nasce naturalmente bom (Adão natural), mas é corrompido pela sociedade (Adão social).

5. Posicionamento do narrador relativamente a Carlos

▪ à primeira vista, os termos em que caracteriza Carlos propendem a fazer dele uma figura de destaque que sugere uma apreciação positiva;
▪ noutros momentos, deparamos com reações de teor irónico, tendendo a desdramatizar atitudes da personagem marcadas pelo excesso;
▪ no final, o narrador declara-se antigo camarada de Carlos, o que leva a pensar que aquele também se julga a si mesmo num registo autocrítico.

domingo, 19 de abril de 2020

Momentos fundamentais da novela da “Menina dos Rouxinóis”

▪ 1883: Joaninha vive no Vale de Santarém com a avó cega.

▪ Todas as sextas-feiras, Frei Dinis visita o vale.

▪ Carlos, primo de Joaninha, que tinha abandonado o vale em atitude de rebeldia para com Frei Dinis, suspeitando que este era o assassino do seu pai e do de Joaninha, regressa ao vale enquanto membro das tropas liberais.

▪ Carlos e Joaninha reencontram-se e apaixonam-se.

▪ Carlos escreve um poema em prosa sobre os olhos de Joaninha.

▪ Carlos começa a revelar a sua faceta de mentiroso, enquanto Joaninha é espontânea e pura.

▪ Carlos é ferido em combate, internado no Convento de S. Francisco, em Santarém, e tratado por Georgina, que amara em Inglaterra.

▪ Carlos tenta matar Frei Dinis, mas a avó impede-o, contando-lhe que ele é seu pai e que matara em legítima defesa o marido da mãe e o pai de Joaninha.

▪ Carlos parte e escreve uma carta justificativa a Joaninha.

▪ Carlos torna-se barão; Joaninha enlouquece e morre; Georgina ingressa num convento; da família restam Frei Dinis e a avó Francisca.

Estrutura trágica da novela da "Menina dos Rouxinóis"


A novela das Viagens apresenta uma estrutura trágica, conforme o próprio Almeida Garrett reconhece no final do capítulo XXVI:
– “Porquê? já se acabou a história de Carlos e Joaninha?” diz talvez a amável leitora.
– “Não, minha senhora”, responde o autor mui lisonjeado da pergunta: “não, minha senhora, a história não acabou, quase se pode dizer que ainda agora ela começa: mas houve mutação de cena. Vamos a Santarém, que lá se passa o segundo ato.”

● De facto, a estrutura da novela aproxima-se da estrutura trágica:
▪ o 1.º ato (introdutório) (caps. XI a XVIII):
- localiza-se na casa do Vale;
- nele são apresentadas as personagens e as suas inquietações:
. Carlos, o protótipo do herói romântico, símbolo do Portugal Novo, liberal;
. Joaninha, exemplo da conceção romântica da mulher (-anjo);
. a Avó, testemunha trágica do mistério da família;
. Frei Dinis, símbolo da ideologia absolutista do Portugal Velho;
. Georgina, testemunha da génese romântica de Carlos;
▪ o 2.º ato (caps. XIX a XXV):
- tem como cenário o Vale, onde a guerra civil “parecia cansada”;
- dá-se o reencontro de Carlos e Joaninha (cap. XX), o amor surge e, desde logo, se presente todo o dramatismo que a divisão interior do herói irá acarretar;
▪ o 3.º ato (caps. XXXII a XXXV):
- decorre numa cela do Convento de S. Francisco de Santarém, onde se reúnem todas as personagens (Carlos, Joaninha, a Avó, Fr. Dinis e Georgina) e se assiste ao reconhecimento do frade como pai de Carlos;
- este reconhecimento constitui o clímax da ação trágica: em risco de vida por ferimentos na guerra civil, profundamente abalado pela revelação do mistério da família, Carlos acaba por fugir.
O destino final das personagens é-nos posteriormente revelado:
-» Carlos: “… um belo dia caiu no indiferentismo absoluto”, fez-se “o que chamam cético”, morreu-lhe “o coração para todo o afeto generoso” e deu “em homem político ou em agiota” (= barão) (cap. XXXVI);
-» Joaninha morre;
-» Frei Dinis e a Avó morrem para o mundo-

Esquema da estrutura trágica da novela



A par desta estrutura existem outros elementos característicos da tragédia:

● A ação: uma tragédia de família, apresentada no seu momento mais crítico, em que os mistérios são desvendados e as faltas do passado marcam o destino de todos os intervenientes.

● A redução progressiva do espaço, até se confinar a uma cela: Vale de >Santarém, hospital, convento, cela.

● O tempo relativamente curto, a sucessão rápida e tensa de cenas, com recurso ao “suspense”, provocando o retardamento de dados.

● As cenas (diálogos teatrais).

● O reduzido número de personagens, cujo sofrimento (pathos) é intenso e crescente.

● Os presságios (as visitas de Frei Dinis ocorrem sempre à sexta-feira, dia aziago).

● O fatalismo (anankê) que atinge inexoravelmente as personagens.

● A anagnórise ou reconhecimento: a cena na cela do Convento de S. Francisco, na qual Carlos fica a saber que é filho de Frei Dinis.

● O adensar do conflito até ao clímax.

● As peripécias, que conduzem ao desenlace fatal:
» a partida de Carlos para o estrangeiro;
» o seu regresso;
» a guerra civil;
» a batalha;
» etc.

● O sofrimento (pathos) das personagens, que aumenta gradualmente até ao desenlace, em que todos morrem física ou espiritualmente.

● A compaixão (éleos) e o terror (fobós) que se apoderam do narratário (o leitor).

● A presença do coro na carta final de Carlos a Joaninha, espécie de biografia psicológica; vestígios do coro em certos comentários, quer de Frei Dinis quer do narrador.

● O desenlace trágico (catástrofe):
- Joaninha (vítima) enlouquece e morre;
- Georgina morre para o mundo (faz-se abadessa de um convento que ela própria funda);
- a Avó fica afásica e abúlica (morta para o mundo);
- Fr. Dinis aguarda a morte, expiando as culpas;
- Carlos destrói-se (cai no indiferentismo e torna-se barão).

● A fuga às descrições demoradas e aos longos retratos das personagens.

● A utilização da terminologia teatral nas referências à própria construção da novela (por exemplo, no final do capítulo XXVI).

domingo, 8 de março de 2020

Análise do capítulo XLIV de Viagens na Minha Terra


● Contextualização do capítulo

A carta de Carlos a Joaninha, datada de 1843, ocupa vários capítulos (XLIV-XLVIII) e é lida pela narrador-viajante e cronista da obra, em 1843, quando a recebe das mãos de Frei Dinis, que reencontra ao passar pelo vale de Santarém de regresso a Lisboa.
A carta é, sem simultâneo, uma carta-punhal e um texto autobiográfico e memorialístico, e evoca a tragédia familiar, que termina na mor, física ou moral, de todos os intervenientes.


● Estrutura do capítulo XLIV

▪ 1.ª parte (linha 1 – “Olha o que será o resto!”): Considerações gerais sobre o passado e a personalidade de Carlos.

▪ 2.ª parte (“Tu não ignoras…” – “e não guardei verdade a ninguém.”): Análise da situação da família e dos erros cometidos.

▪ 3.ª parte (“Mas espera, ouve…” – Exílio de Carlos em Inglaterra e a sua devoção às três filhas da família que o acolhe.


● Mudança de narrador e narratário

▪ Narrador: Carlos → autodiegético (1.ª pessoa), com uma dimensão de relato autobiográfico.

▪ Narratário: Joaninha (2.ª pessoa).


● Retrato de Carlos

▪ Carlos mostra confusão emocional («confunde-se, perde-se-me esta cabeça nos desvarios do coração.»), algum desespero («Eu estou perdido.») e sentimento de culpa.

▪ Carlos perdeu a sua pureza e o seu idealismo quando integrou a vida em sociedade e aceitou as suas convenções.

▪ Possui uma grande ânsia de viver («excessos»), mas, em simultâneo, sente uma grande frustração existencial por não ser quem sonhou.

▪ Quando se refere ao passado familiar, Carlos mostra-se:
» amargurado («e imaginei-a poluída de um enorme crime…»);
» enraivecido e revoltado («não o podia ver, hoje que sei o que ele me é… Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!»);
» ressentido («… ainda o posso ver menos!») e incapaz de perdoar («… eu, como lhe hei de perdoar eu…»).

▪ No amor, Carlos é uma figura volúvel, egoísta e mentirosa (mente às mulheres que o amam).

▪ Afirma-se «perdido», por duas razões: a sua natureza incorrigível → energia em excesso e coração demasiado ardente; a perda da sua integridade pessoal e da sua honestidade, passando a reger-se pelas convenções, pelos interesses e pelas manhas sociais, o que o deixa profundamente angustiado e a sensação de que falhou.

▪ Duvida que Joaninha o compreenda, pois é mulher, e ele acredita que as mulheres, como são diferentes dos homens, jamais entenderão os seus excessos. No entanto, conta-lhe a verdade, destruindo-lhe as ilusões, para que ela, conhecedora da verdade da natureza masculina, se prepare para as armadilhas do amor/coração.

▪ A sua partida do vale ficou a dever-se ao crime que manchou a casa paterna (a morte do seu suposto pai), ignorando que o verdadeiro era Frei Dinis.

▪ Por outro lado, julgava que a avó tinha sido cúmplice do crime e, não o sendo, culpa-a de omissão e confessa que não consegue também perdoar o adultério da mãe.

▪ Confessa a Joaninha que a amou, mas o seu coração não era inteiramente livre e mentiu-lhe (e a si próprio), ainda que involuntariamente, por isso não se considera merecedor do seu amor.


● A carta como analepse e como digressão sobre o amor

2.1. A carta como analepse:
. escrita em maio de 1834 – lida em 1843:
- a juventude de Carlos;
- o exílio em Inglaterra;
- a relação com as três irmãs inglesas;
- regresso a Portugal.

2.2. A carta como digressão sobre o amor:
. o drama amoroso de Carlos:
- a sua paixão (correspondida por Laura);
- a impossibilidade dessa paixão (Laura é comprometida);
- a recordação de Joaninha;
- a aproximação a Júlia;
- a paixão por Georgina;
- a separação, com a partida para os Açores;
. a evolução do sentimento de Carlos;
- “Em breve eu amava perdidamente uma delas” (Laura);
- “… pois nesse mesmo instante distintamente me apareceu diante dos olhos de alma a única imagem que podia chamá-la do abismo: era a tua, Joana!”;
- “Júlia era parte de nós, era uma porção do nosso amor… E já as confundia ambas por tal modo no meu coração, que me surpreendia a não saber a qual queria mais.”;
- “Uma delas, jovem, ardente, apaixonada, quis tomar a empresa de me consolar. (…) Era Soledad. (…) Eu não amei Soledad.”;
. “… todo o passado me esqueceu assim que te vi. Amei-te.” (Joaninha).


● Visão de Joaninha segundo Carlos

▪ É generosa: «tens generosidade».

▪ Não o compreende, por causa da sua natureza de mulher.

▪ É jovem e inexperiente, vista como de outro tempo, que destoa no mundo moderno: «Tu és jovem e inexperiente, a tua alma está cheia de ilusões doces.»

▪ Vive cheia de ilusões: «a tua alma está cheia de ilusões doces».

▪ É uma vítima de ter amado um herói perseguido por um destino adverso: «Tu não compreendes isto, Joaninha, não me entendes decerto; e é difícil».


● Visão de Carlos da mulher e da génese do amor

1. Visão romântica da mulher
» natureza diferente do homem: «… as mulheres não entendem os homens.»;
» é um «produto» social e natural que suscita admiração, desejo, amor: «Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, a mulher que se ama.»;
» a mulher-anjo: «E era um anjo…».

2. A génese do amor
- a admiração
- a beleza
- o espírito → «os dotes de alma e do corpo»
- a graça
- o amor romântico:
. é indefinível («O amor não está definido nem o pode ser nunca»);
. distingue-se do flirt, da admiração, do desejo.


● Informações sobre o passado da família

▪ A mãe de Carlos manteve uma relação adúltera com Frei Dinis.

▪ Dessa relação nasceu Carlos.

▪ A avó escondeu essa relação dos olhos do mundo.


● A vida de Carlos em Inglaterra

▪ No início, Carlos estranhou os hábitos da aristocracia inglesa, protegida e artificial, no entanto depressa se lhe moldou, revelando a maleabilidade do seu caráter.

▪Adaptou-se também à arte da sedução, aprendendo a flartar, de modo inconsequente, com as três irmãs. No seu caso, a emoção dominava a razão, e ele enganava-se a si mesmo, interiormente.


● Carlos, o herói romântico: «Tenho energia demais, tenho poderes demais, no coração».

▪ Carlos luta pelo ideário liberal, pela liberdade.

▪ Temperalmente, é impulsivo, intenso, não admite injustiças nem afrontas.

▪ Sentimentalmente, é um homem sensível, com alma de poeta, que se entrega ao amor de forma excessiva e se deixa dominar pelo coração, pelo sentimento, que coloca à frente da razão.


● Recursos expressivos

▪ Metáfora:
- «sabia-a [à casa materna] manchada de um grande pecado, e imaginei-a poluída de um enorme crime»: os erros («pecado», «crime») cometidos por membros da família de Carlos a uma sujidade que conspurca aquele lar para dar conta de que a pureza inicial foi «manchada» e «poluída» pelos comportamentos ilícitos do pai, da mãe e da avó do protagonista;
- «afiz-me a vegetar docemente na branda atmosfera artificial daquela estufa sem perder a minha natureza de planta estrangeira.»: Carlos tinha confessado a Joaninha que a amava, no entanto, pela leitura da carta, declara que amava outra mulher e que ficara fascinado ainda por outras duas. Revela-se, assim, um marialva, egoísta e desonesto no amor, ou seja, um D. Juan.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Análise do capítulo XX de Viagens na Minha Terra

● Estrutura do capítulo

▪ 1.ª parte (do início até “à menina do seu nome”): Apresentação de um quadro idílico: Joaninha, adormecida, no meio da natureza.

▪ 2.ª parte (de “Com o aproximar dos soldados” até “há dois anos?”): Caracterização de Carlos.

▪ 3.ª parte (de “Dizendo isto” até “Agora vamos, Carlos”): Encontro e conversa entre Carlos e Joaninha.

▪ 4.ª parte (de “E falando assim” até ao fim do texto): As personagens dirigem-se para o vale de Santarém.


● Retrato de Joaninha

▪ Joaninha é uma jovem campestre, simples e de sentimentos e intenções puros, e revela-se espontânea na forma de agir, bem como terna e afetuosa.

▪ Fisicamente, possui um corpo esbelto (“formas graciosas”) e o rosto “expressivo”.

▪ Joaninha representa a pureza, a autenticidade e a simplicidade da Natureza. Por essa razão, Garrett mostra grande cuidado na descrição do cenário que a envolve, onde predomina a verdura.

▪ Joaninha, adormecida, surge como um elemento indissociável (isto é, enquadrado) do espaço em que se encontra; personagem e espaço parecem fundir-se num todo, iluminadas pela luz do crepúsculo, de modo que é difícil distinguir os limites de uma dos da outra. Este enquadramento da personagem na natureza serve para estabelecer uma relação de afinidade e sintonia entre ambas, de perfeita harmonia e sintonia, que permite sugerir que Joaninha é natural, autêntica (sem o artifício de outras mulheres) e simples.

▪ De facto, a sua apresentação de Joaninha é associada a um quadro de naturalidade. Desde logo, é apresentada como alguém com quem o narrador se deparou por acaso e é descrita exatamente dessa forma: adormecida, nem sentada nem deitada, num tufo de erva, com as formas do corpo realçadas pelo assento natural em que se encontra. Além disso, a expressão «sem arte nem estudo» sugere exatamente essa naturalidade do quadro de Joaninha adormecida.

▪ Joaninha tem os olhos verdes, o que constitui uma alusão à esperança e à fecundidade da terra verdejante. No fundo, representa a própria terra-mãe, ao mesmo tempo que evoca um passado que constitui uma espécie de paraíso perdido: «Sobre uma espécie de banco rústico de verdura, tapeçado de gramas e de macela brava, Joaninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente”.

▪ O rouxinol:
a) Simboliza o sentimento amoroso: Joaninha, adormecida, era embalada pelo canto harmonioso do rouxinol, que a acompanhava. O barulho dos soldados silenciou-o, mas a chegada do misterioso oficial inspirou-lhe o canto, que se tornou um prelúdio do amor. Símbolo, como Joaninha, da pureza do Vale, o rouxinol faz-se aqui eco do sentimento a despertar nela.

b) Representa a graciosidade e o caráter natural de Joaninha; surge como o prolongamento metonímico da natureza e da personagem que se lhe associa. A “torrente de melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e admiráveis de irregularidade e invenção, como as bárbaras endeixas de um poeta selvagem das montanhas” não constitui uma mera função de enquadramento decorativo: essas melodias trazem consigo os sentidos da espontaneidade, da naturalidade e da criatividade anticonvencional que se concentram nos olhos verdes de Joaninha.
c) Serve para preparar o encontro amoroso entre Joaninha e Carlos.

▪ Características românticas:
» Joaninha representa a mulher-anjo;
» a paisagem serve de enquadramento ao reencontro de Carlos e Joaninha;
» o rouxinol: inspira premonições como o sofrimento, a desilusão amorosa, a morte (Menina e Moça).


● Retrato de Carlos

▪ Num segundo momento, verifica-se a entrada em cena de uma nova personagem (um oficial), procedendo o narrador, de seguida, à elaboração do seu retrato, enquanto Joaninha permanece adormecida.

▪ Antes de introduzir Carlos, o narrador dirige-se familiarmente, num registo coloquial, às «amáveis leitoras» (narratário), pois serão as que maior interesse terão em conhecer o oficial. Por um lado, mais uma vez a mulher é «chamada» quando se vão tratar questões do foro amoroso; por outro, o narrador consegue interessar quem o lê na história, quase levando a que sejam também parte dos acontecimentos.

▪ A utilização da expressão «entrada em cena de um novo ator» reflete a novidade da escrita das Viagens, visto que o narrador interpela constantemente o leitor, optando por uma escrita de caráter conversacional e informal. Por outro lado, a forma como a novela é introduzida no relato da viagem, o predomínio do diálogo e a constante interação com o leitor assemelham a obra a um texto dramático, acentuando o seu hibridismo.

▪ Este retrato é feito a partir do aspeto físico para o espiritual.

▪ O narrador apresenta a personagem envolta em grande anonimato e mistério, designando-o meramente por “O oficial”, estratégia que favorece a curiosidade das “amáveis leitoras”.

▪ Idade: menos der 30 anos.

▪ Fisicamente:
» é um jovem militar, mas já com feições de homem feito/aspeto de adulto e um rosto marcado pela vida e pelas preocupações;
» é magro, mas de peito largo e forte;
» é de estatura mediana;
» tem barba e cabelos pretos;
» tez / pele clara;
» os olhos são vivos, pardos e não muito grandes, mas eloquentes;
» a boca é pequena;
» a testa é alta;
» tem um busto clássico;
» está vestido com uma farda militar.

▪ Psicologicamente:
» é gentil e determinado;
» é elegante e de passo enérgico;
» a compleição e os olhos pardos e grandes indiciavam que se tratava de um homem de talento e com a nobreza de um «caráter franco, leal e generoso», isto é, inteligência, talento e alguma irreflexão;
» tem uma personalidade «pouco vulgar»;
» é impulsivo, arrebatado e orgulhoso, ora sério, ora alegre.

▪ A componente física do retrato serve como veículo de acesso às características psicológicas e emocionais.

▪ A descrição de Carlos é feita de forma gradual e entremeada de divagações. O narrador começa pela sua estatura, o vestuário, os olhos, a boca, o rosto, o cabelo, o busto e termina com uma síntese que remete para a excecionalidade da personagem: «Daquele busto clássico e verdadeiramente moldado pelos tipos da arte antiga, podia o estatutário fazer um filósofo, um poeta, um homem d’estado, ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d’expressão que lhe desse». As divagações que acompanham a descrição acentuam-lhe os traços românticos.

▪ O narrador foca especialmente os olhos e o olhar de Carlos: «Os olhos pardos e não muito grandes». Ora, o olhar do homem romântico vê coisas que os outros não podem/conseguem ver e transcende a realidade comum. Daí que os olhos da personagem se caracterizem por «uma luz e viveza imensa, [que] denunciava o talento, a mobilidade do espírito».

▪ Por outro lado, o narrador valoriza em especial certos pontos estratégicos da fisionomia, em grande parte coincidentes com o que em Joaninha é também descrito: os olhos, lugar preferencial de projeção do temperamento e das emoções, a boca e o rosto.

▪ A comparação «mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre» destaca a importância que o coração assume para o homem romântico. Por outro lado, a antítese entre o «corpo delgado» e o «peito largo» da personagem realça a valorização dos sentimentos, associada à ideia de um coração grande e generoso.

▪ A fisionomia revela uma personagem marcada por traços de excecionalidade bem típicos do herói romântico:
» a superioridade e impulsividade;
» o viver pelo sentimento;
» a luta por causas;
» as antinomias (“fácil na ira, fácil no perdão, etc., mas sobretudo a oscilação entre os polos da mobilidade e da gravidade);
» o pendor da marginalidade e para o isolamento existencial que se adivinham no “caráter pouco vulgar e dificilmente bem entendido”;
» ser incompreendido e com características de uma certa genialidade.

▪ Estes factos são confirmados pela trajetória biográfica de Carlos: ao contrário de Joaninha, ele é dominado por uma sistemática tendência para a mudança – a partida do vale de Santarém, a experiência no exílio, o regresso ao vale, seguido de nova partida (definitiva), as mudanças no campo amoroso e, por fim, no campo social.

▪ Crítica: o retrato é interrompido pelo narrador para criticar o desprezo a que foi votado o uniforme militar nacional (patriotismo romântico): “Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações…”.


● Encontro entre Carlos e Joaninha

▪ Joaninha acorda e não quer crer que é Carlos quem está à sua frente, porque tinha sonhado que ele morrera, tal como a avó (presságio de tragédia), daí a grande emoção que evidencia, traduzida pelas pausas no seu discurso, marcadas pelas reticências, pelas exclamações e pelas repetições de palavras ou expressões.

▪ É revelado o parentesco entre as duas personagens: são primos (“– Carlos, meu primo…”) e de algo que ultrapassa o mero parentesco familiar entre primos (“… sonhava com aquilo em que só penso… em ti.”; “e abraçaram-se num longo, longo abraço – com um longo, interminável beijo…”).

▪ As duas personagens começam por se tratar por «prima(o)» e «irmã(o)» e por exprimir a saudade que sentiam um do outro, mas acabam por manifestar o amor que nutrem mutuamente, selado por um beijo.

▪ Os sentimentos expressos por Carlos e Joaninha estão em consonância com o espaço em que se reencontram – o ambiente natural do vale. Assim, é com naturalidade e espontaneidade que manifestam os sentimentos puros que nutrem um pelo outro.

▪ São também bem visíveis os preconceitos sociais que os envolvem: a preocupação com a honra (“E sós, sozinhos aqui a esta hora! (…) E que dirão? (…) Mas quem não souber, pode dizer…”).

▪ A felicidade absoluta e perfeita das duas personagens não pode continuar, porque tudo é efémero. Se assim não fosse, «os anjos» trocariam o céu pelo paraíso que seria a terra: «Senão… invejariam os anjos a vida na terra”.

▪ Um outro facto relevante consiste na revelação a Carlos da cegueira da avó.


● Informações sobre a família

▪ Introdução de duas novas personagens: Frei Dinis e a avó, cega.

▪ Joaninha e Carlos são primos.

▪ A cegueira da avó tem uma causa triste, não revelada ainda.

▪ Carlos desconhece coisas, que Joaninha contará mais tarde.

▪ Joaninha e a avó pensavam que Carlos tinha morrido.


● Linguagem e recurso expressivos

▪ Sinédoque: “o trato das armas” – é uma sinédoque da vida militar, visto que se associa a parte (as armas) ao seu todo (o exército, a carreira militar, na qual as armas são elemento essencial).

▪ Estrangeirismos: demi-jour, coquette, boudoir, great coat.

▪ Metáforas:
- «quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras»: designa o ato da escrita.

▪ Comparação:
- com «pintores da Idade Média», que escreviam uma espécie de legendas por baixo das pinturas que pintavam, para que estas fossem mais bem compreendidas – o narrador faz o mesmo e as suas divagações correspondem às suas legendas.

▪ Tom coloquial: «Voltemos ao nosso retrato».

▪ Caracterização pela negativa: «Os olhos pardos e não muito grandes…».

▪ Frases curtas.

▪ Pontuação expressiva:
» frases exclamativas: «Carlos, meu primo… meu irmão!»;
» frases interrogativas: «Pois tu sonhavas?»;
» frases interrompidas pelo uso de reticências: «Tu não morreste…».

▪ Vocativos: «Carlos, Carlos!».

Os últimos recursos referidos estão presentes, neste capítulo, de forma a recriar a linguagem oral e, simultaneamente, sugerir o estado de espírito de Joaninha, colhida de surpresa pelo inesperado encontro com o primo.

▪ Mistura da cultura erudita e popular: por um lado, faz-se uso de formas de relacionamento informal com o interlocutor e, por outro, recorre a referências artísticas que só o leitor culto acompanha: o teatro, a pintura, a escultura.

▪ Digressão: «Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações – que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram do exército… por muito português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfândega, reformaram-no em uniforme da bicha!».

▪ Coloquialidade: «Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela o meu retrato».

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