quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

'Os Lusíadas': X, 144-156

         Na estância 144, narra-se o regresso dos marinheiros portugueses à sua pátria - concretamente a Lisboa (“Até que houveram vista do terreno / Em que naceram…”) ‑, numa viagem que decorreu tranquilamente, pois o tempo estava ameno (“Com vento sempre manso e nunca irado…” ‑ v. 2) e o mar calmo (“… cortando o mar sereno…” ‑ v. 1). Entre os versos 5 e 8, o poeta alude ao prémio e à glória que os marinheiros, com os seus feitos, alcançaram e que agora vêm entregar ao rei para seu engrandecimento e da Pátria (“E à sua pátria e Rei temido e amado / O prémio e glória dão (…) / E com títulos novos se ilustrou.” ‑ vv. 6-8).
         Nos primeiros quatro versos da estância 145, o poeta começa por se mostrar cansado, desiludido e incompreendido (“a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida” ‑ vv. 1-2), não pelo canto em si, mas por “Cantar a gente surda e endurecida” (v. 4) (isto é, gente que não escuta as suas palavras, não valoriza o seu canto, não reconhece o seu talento e mérito), visto que está corrompida pela “cobiça” e num estado de tristeza, desânimo e apatia (“… a pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.” ‑ vv. 6 a 8), o que origina uma ausência de fervor patriótico e ânimo: “Não tem um ledo orgulho e geral gosto, / Que os ânimos levanta de contino / A ter pera trabalhos ledo o rosto.” (vv. 2 a 4 da estância 146).
         O poeta mostra-se cansado e desiludido («Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida...» ‑ est. 145, vv. 9-10) por o seu canto não ser escutado pela «gente surda e endurecida», que não reconhece o seu talento e o mérito, ocupada que está na satisfação da «cobiça».
         Por outro lado, o poeta mostra-se orgulhoso dos «vassalos excelentes», pois representam a glória, a coragem e o espírito patriótico, dispondo-se a enfrentar os maiores perigos e a desenvolver os maiores sacrifícios somente para engrandecerem o Rei e a Pátria («Olhai (...) / Quais rompentes liões e bravos touros...» ‑ est. 147, vv. 25-26; «Por vos servir, a tudo aparelhados / De vós tão longe, sempre obedientes...» ‑ est. 148, vv. 33-34).
         Além disso, ele mostra-se espantado pela ausência de orgulho pátrio e de ânimo nos seus contemporâneos, bem como pela cobiça e corrupção que os dominam («No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.» ‑ est. 145, vv. 15-16).
         Perante este panorama, o sujeito poeta interpela o rei e exorta-o a reconhecer o valor dos seus “vassalos excelentes”, os quais possuem as qualidades / virtudes necessárias à restauração da grandeza e orgulho da Pátria:
a. coragem e determinação inexcedíveis (“Quais rompentes liões e bravos touros…” ‑ est. 147, v. 26);
b. espírito de sacrifício e de missão, que os leva a enfrentar os mais diversos perigos e obstáculos (fomes, vigias, guerras, climas adversos, naufrágios, a própria morte, para engrandecerem o Rei e a Pátria (“Que vendecor vos façam, não vencido.” ‑ est. 148, v. 40;
c. mostram-se sempre prontos, obedientes e felizes por poderem servir o rei (estância 148).
         Os vassalos são apresentados como “vassalos excelentes” (est. 146, v. 8), “ledos” (est. 147, v. 1) e caracterizados pela coragem e pelo espírito de sacrifício e de abnegação (est. 147). Além disso, mostram-se “sempre obedientes” (est. 148, v. 2) e preparados para responder ao chamado e aos desejos do seu rei, que executam “contentes” (est. 148, v. 4) e orgulhosos. Por outro lado, encarnam o espírito de cruzada (est. 151, vv. 1-4), revelando toda a sua coragem e resistência (est. 151, vv. 5-8).
         É evidente, neste passo, o contraste que o poeta estabelece entre a situação presente da Pátria ‑ caracterizada pela cobiça, pela falta de ânimo e pela apatia ‑ com o passado, representado pelos heróis que ele canta / celebra, que se sacrificaram, enfrentando guerras e os perigos vários enumerados na estância 147, incluindo a própria morte, para engrandecer o rei e a Pátria.

         Entre as estâncias 149 e 152, o poeta faz uma série de recomendações ao rei D. Sebastião:
a. recompensá-los, favorece-los e alegrá-los com a sua presença e trato alegre e humano;
b. aliviá-los de leis rigorosas, cruéis / injustas;
c. promover os mais experientes;
d. apoiá-los todos, sem distinção, nos seus ofícios (= profissões), que exercem segundo as suas aptidões, seja qual for a área em que se distinguem;
e. estimar os que expandiram a fé cristã e o império (apelo ao espírito de cruzada) sem temer os inimigos nem regatear esforços;
f. velar para que ninguém possa dizer que os Portugueses constituam uma nação servil, em vez de senhorial;
g. receber conselhos apenas dos homens experientes (neste passo, Camões valoriza o conhecimento prático em detrimento do saber livresco ‑ apesar de os estudiosos possuírem muitos conhecimentos teóricos, os experientes sabem mais do concreto).
         Este conjunto de características configura o perfil de líder, tendo em conta também o pedido do poeta ao rei para que não permita que os estrangeiros 8alemães, franceses, italianos e ingleses) desvalorizem a capacidade de os portugueses gerirem o seu destino.
         Com estes conselhos, o poeta espera que o rei ‑ neste caso, D. Sebastião ‑ saiba incentivar os seus vassalos, que apenas esperam a sua liderança para agir. Ele anseia que o monarca exerça o poder com humanidade e a humildade de quem procura aconselhamento junto dos mais sábios e mais experientes. Espera ainda que o soberano saiba estimular e aproveitar as energias latentes para dar continuidade aos feitos do passado e dar matéria a novo canto. Isto significa que a obra termina com uma mensagem globalizante que abarca o passado, o presente e o futuro, isto é, a glória do passado deverá ser tomada como exemplo no presente para construir um futuro grandioso (in Plural 12, texto adaptado).
        
         A estância 153 abre com uma alusão a Formião, filósofo grego que discursou diante do general Aníbal sobre a arte de combater e que foi escarnecido por este. Essa referência funciona como exemplo para constatar que a arte da guerra se aprende na prática, isto é, «vendo, tratando e pelejando» (v. 8), e não teoricamente (“Sonhando, imaginando ou estudando” ‑ v. 7).
         Na estância 154, Camões traça o seu autorretrato:
a. “humilde baxo e rudo”;
b. possuidor de “honesto estudo”;
c. misturado com “longa experiência”;
d. possuidor de “engenho” / talento;
e. disposto a servir o rei em combate;
f. disponível para cantar o rei e os seus feitos.
         Ora, este autorretrato corresponde ao do homem ideal do Renascimento:
i. possuidor de um saber feito de estudo e experiência (conciliação do saber teórico e do saber prático);
ii. detentor de talento e inspiração artísticos;
iii. possuidor da lealdade, da coragem e do desapego do bom soldado, sempre disponível para servir o seu rei.
         Falta apenas ao poeta ser aceite pelo monarca, pois possui virtudes que devem ser reconhecidas. De seguida, mostra a sua disponibilidade para cantar os seus feitos futuros (“… e o vosso peito / Dina empresa tomar de ser cantada” ‑ est. 155, vv. 5-6).
         Na última estância, o poeta incentiva o rei a prosseguir a guerra de cruzada no Norte de África e oferece-se para a cantar, assegurando-lhe que será cantado e os seus feitos em todo o mundo e que será mais temido em Marrocos que tudo (observar a comparação hiperbólica dos versos 1 e 2 ‑ Atlante teria sido transformado em pedra pela visão da cabeça de Medusa, uma das três Górgonas, que transformava quem a contemplasse em pedra). O próprio Alexandre Magno rever-se-ia em D. Sebastião, sem invejar a glória de Aquiles, pois a do soberano português seria muito superior.
         A finalizar a análise destas últimas estâncias do poema, ficam aqui as palavras de António José Saraiva, no prefácio de uma das edições da obra:
      “Na Dedicatória, o poeta convida o moço rei a «ver» os feitos dos seus vassalos, isto é, do Gama e seus companheiros, como se estivessem a ocorrer diante dos olhos de ambos. Há nela também referências ao tema da Cruzada. Só depois se segue a ação. E, no final do poema, o autor volta a dirigir-se ao rei numa longa conclusão de 10 estrofes e meia, em que outra vez o exorta a «olhar» os seus vassalos, lhe dá vários conselhos e o incita à guerra de cruzada próxima, que o autor se oferece para cantar. Assim, a narração insere-se entre as duas falas ao rei. O poema poderia ser interpretado como um longo discurso feito a D. Sebastião, que é diretamente interpelado no começo e no fim.”

'Os Lusíadas': VIII, 96-99

         Vasco da Gama permanece nas naus e decide não desembarcar, visto que já não confia no ambicioso Catual, pois já o traíra, era muito ambicioso («cobiçoso»), corrupto («corrompido») e «pouco nobre». Por outro lado, Gama espera vir a descobrir a verdade com o tempo, daí também a sua decisão.
         Ora, esta referência ao sucedido a Vasco da Gama é o exemplo que serve de ponto de partida para a reflexão do poeta, que adverte, a partir do verso 5 da estância 96, para o efeito corruptor do dinheiro, que tanto sujeita os ricos como os pobres.
         Na estância 97, o poeta apresenta três casos através dos quais pretende provar a sua tese enunciada na estância anterior, isto é, que exemplificam o poder negativo dos bens materiais – dinheiro e ouro ‑, que levam à adoção de atitudes inesperadas.
         O primeiro exemplo refere-se ao rei da Trácia, que assassinou Polidoro, filho de Príamo, rei de Troia, com o único fito de lhe roubar o ouro. De facto, para o salvar, quando a cidade estava prestes a cair em poder dos Gregos, o rei enviou-o com ouro ao rei da Trácia que, todavia, se apoderou do ouro e o assassinou.
         O segundo caso refere-se a Dánae, filha de Acrísio, rei de Argos (Grécia), que foi encerrada numa torre para que não procriasse e, deste modo, fosse anulada uma profecia de um oráculo que anunciou a morte do soberano às mãos de um neto. Porém, Júpiter metamorfoseou-se em chuva de ouro, introduziu-se na torre e engravidou-a. Desse ato nasceu Perseu, que, concretizando a profecia, assassinou o avô.
         O último exemplo alude a Tarpeia, uma jovem romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade. No entanto, os inimigos não a pouparam, esmagando-a sob as joias e os escudos, tendo assim ficado soterrada.
         Nas estâncias 98 e 99, o poeta prossegue a enumeração dos efeitos negativos do dinheiro:
a. corrompe o pobre e o rico (estância 96);
b. leva ao assassínio (exemplo do rei da Trácia);
c. conduz à traição (est. 98, v. 1): os soldados rendem-se quando as suas fortalezas ainda se encontram abastecidas;
d. conduz à traição e à falsidade entre os amigos;
e. transforma o mais nobre em vilão (est. 98, vv. 3 a 6): a ambição material pode levar nobres, capitães ou virgens a renderem-se ao seu poder, mesmo tendo consciência de que a sua honra ficará manchada;
f. corrompe as ciências, os juízes e as consciências, levando-as a agir contra os seus princípios morais e culturais (est. 98, vv. 7-8);
g. distorce / perverte a interpretação dos textos (est. 99, vv. 1-2);
h. manipula as leis e a justiça, que se aplicam arbitrariamente (est. 99, v. 2);
i. fomenta o perjúrio (est. 99, v. 3);
j. fomenta a tirania nos reis (est. 99, v. 4);
k. corrompe os membros do clero, ainda que sob uma capa de virtude.

         Em síntese, os vícios provocados pela ambição são os seguintes:
i. a traição (“Faz tredores e falsos os amigos”);
ii. a corrupção (“Este corrompe virginais purezas”);
iii. a arbitrariedade (“Este interpreta mais que subtilmente / Os textos…”);
iv. a mentira / o perjúrio (“Este causa os perjúrios entre a gente”);
v. a tirania (“E mil vezes [hipérbole] tiranos torna os Reis”).

         Relativamente à estrutura interna, é possível identificar dois momentos:
. 1.º momento (est. 96): apresentação da «tese» ‑ o poder corruptivo do dinheiro, a partir do sucedido com Vasco da Gama.
. 2.º momento (est. 97 a 99): os efeitos negativos da ambição pelo dinheiro / ouro.

'Os Lusíadas': VII, 78-87

         No início deste canto (estâncias 3 a 14), Camões elogia os portugueses, porém, no final, o seu tom é de crítica. Esta aparente contradição explica-se se tivermos em conta que os portugueses que o poeta elogia e apresenta como exemplo, são os heróis do passado, com Vasco da Gama à cabeça. No entanto, os portugueses criticados são os contemporâneos de Camões, que, aparentemente, esqueceram o heroísmo e a grandeza dos seus antepassados.

         Neste passo da obra, estamos no exato momento em que o Catual visita as naus portuguesas, sendo recebido por Paulo da Gama, enquanto seu irmão Vasco é recebido no palácio do Samorim. Ao ver as bandeiras com pinturas alusivas a feitos e heróis da História de Portugal, o chefe indiano mostra curiosidade em saber o que cada uma delas representa. Paulo da Gama prepara-se para satisfazer o desejo do Catual e narrar episódios da História de Portugal, no entanto Camões interrompe a narração e invoca as ninfas do Tejo e do Mondego para que o auxiliem nessa árdua tarefa.

         Na estância 78, o poeta autocaracteriza-se como «insano e temerário» (dupla adjetivação), aventureiro e receoso do «caminho tão árduo, longo e vário» (tripla adjetivação, exclamação e metáfora) por que se vai aventurar, isto é, narrar novos episódios da História de Portugal, agora pela voz de Paulo da Gama, ao Catual de Calecute, a pedido deste e a propósito dos símbolos das bandeiras. Assim, o poeta dirige-se às ninfas do Tejo e do Mondego (apóstrofe do verso 3, estância 78), solicitando-lhes inspiração para a tarefa. A leitura das restantes estâncias deste passo de Os Lusíadas sugere que, além do já exposto, o poeta se sente desalentado, por isso necessita de um reforço de inspiração.
         Nos últimos quatro versos desta estância, Camões faz uso de uma imagem para “justificar” a invocação («Vosso favor invoco» ‑ v. 5) dirigida às ninfas: a sua empresa / tarefa reveste-se de tal grandiosidade e é de tal monta que, se as ninfas não o auxiliarem, ele receia não conseguir levá-la a cabo, a de cantar os feitos gloriosos dos portugueses.
         Entre as estâncias 79 e 81, o poeta, numa reflexão de tom marcadamente autobiográfico (atestado pelo uso da primeira pessoa e pelo conteúdo biográfico), salienta que tem vindo sempre a cantar os feitos lusos e, em simultâneo, luta pela sua pátria e elenca as dificuldades, as misérias e os perigos que tem enfrentado / sofrido / corrido (vide esquema do poema), comparando-se, no final da estância 79, a Cânace, personagem mitológica que se suicidou e escreveu ao irmão Macareu uma carta de despedida, com a pena na mão direita e a espada na outra (segundo Ovídio, baseado em Eurípides, Cânace foi obrigada pelo pai, que lhe enviou uma espada, a cometer suicídio como punição pelo facto de ter mantido uma relação incestuosa com o irmão, da qual nasceu uma criança que foi morta pelo avô, que a lançou aos cães). Essa comparação aponta para o facto de o poeta aliar à sua coragem na guerra a sua faceta de artista (estância 79, vv. 7-8). A espada simboliza as batalhas em que o poeta participou, o seu lado guerreiro, enquanto a pena remete para a sua obra literária, para a arte, para a escrita.
         Na estância 81, finalizada a enumeração dos infortúnios que pautaram a sua vida, introduz um novo a que dá destaque através do articulador «ainda», criando a sensação de instabilidade: como se já não bastassem os tormentos que teve de suportar, acresce que. Em vez de os seus patrícios e contemporâneos o premiarem, pelo contrário, ingratos, «inventam-lhe» novos trabalhos e privações.
         Na estância 82, dirige-se novamente às ninfas, apostrofando-as, para criticar, socorrendo-se da ironia, os «valerosos» senhores de Portugal que, em vez de acarinharem e glorificarem aqueles que, como ele, através da poesia / arte, cantam os feitos ilustres dos portugueses, os maltratam, são ingratos. E qual é a consequência desta postura? A desmotivação das futuras gerações de poetas, que se sentirão inibidos de cantarem os feitos lusos. Deste modo, Camões procura criticar a incultura, o desinteresse pela arte e a ingratidão dos portugueses. Dito de outra forma, os grandes senhores não amam a arte nem incentivam as artes, o que fará com que os grandes feitos do futuro não sejam cantados e, portanto, deles não fique memória. Critica ainda a ambição desmedida e o facto de sobreporem os seus interesses aos do «bem comum e do seu Rei», a dissimulação, o abuso de poder e a exploração do povo.

         Quanto à estrutura interna, este excerto de Os Lusíadas pode dividir-se em quatro momentos:
. 1.º momento (estância 78):
1. A invocação: “Vós, Ninfas do Tejo e do Mondego”;
2. Objetivo: pedir às Ninfas que lhe deem inspiração para a composição da obra (“Vosso favor invoco”);
3. Razões do pedido: o receio de que, sem a inspiração das Ninfas, não seja capaz de cumprir o seu propósito (“Que, se não me ajudais, hei grande medo / Que o meu fraco batel se alague cedo”).

. 2.º momento (estâncias 79 – 81): Argumentos do poeta:
1. O poeta já canta, há muito tempo, os feitos dos portugueses (“o vosso Tejo e os vossos Lusitanos”) ‑ os longos anos a escrever sobre os portugueses;
2. Trabalhos e danos que enfrentou:
a) os perigos e as aventuras / viagens do / pelo mar (79, v. 5);
b) os perigos / a participação da / na guerra (79, v. 6);
c) a errância pelo mundo;
d) a pobreza sofrida no Oriente (80, v. 1);
e) o desterro e os trabalhos passados em regiões estranhas (80, v. 2);
f) as esperanças e as desilusões (80, vv. 3-4);
g) os perigos das navegações: o naufrágio que sofreu (8º, vv. 5-8);
h) a ingratidão (81) dos senhores (82, v. 1) que o poeta cantava e que, em vez de honra e glória, lhe inventaram novos trabalhos (81, vv. 7-8), levando os poetas do futuro a desistir de cantar os feitos que mereçam “ter eterna glória”.

. 3.º momento (estâncias 82 a 86): Crítica ao exercício do poder:
‑ Acesso desonesto ao poder:
. a ambição;
. o interesse pessoal;
. a simulação.
‑ Mau exercício do poder:
. roubo do povo;
. pagamento injusto do trabalho.

. 4.º momento (estância 87):
a) Intenções do poeta: cantar aqueles que arriscam a sua vida e a colocam ao serviço de Deus e da Pátria / do Rei e, por isso, merecem a imortalidade;
b) Por oposição, nas estâncias 84 a 86, enumerou aqueles que não cantará:
i) os que colocam o interesse pessoal à frente do bem comum e do interesse do rei;
ii) os ambiciosos que ascendem ao poder para se servir a si mesmos e abusam desse poder;
iii) os dissimulados;
iv) os que exploram o povo.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Miguel Relvas e a língua portuguesa: 'take' II


'Os Lusíadas': VI, 95-99

         Nos quatro versos iniciais da estância 95, o poeta refere, genericamente, como se alcança a imortalidade (“honras imortais”) e as maiores distinções – a fama e a glória: através da coragem, da capacidade de luta e sofrimento demonstradas em situações de perigo, como fica visível nas seguintes expressões textuais: “hórridos perigos” e “trabalhos graves e temores”. Nestes versos, há a realçar a adjetivação, que, por um lado, intensifica a dureza e a amplitude (“hórridos” e “grandes”) das dificuldades a que se sujeitam todos aqueles que, como os portugueses, desejam cometer grandes feitos, e, por outro, reforça o valor das recompensas (“imortais” e “maiores”) que, desse modo, atingem.
         Um segundo momento do texto localiza-se entre o verso 5 da estância 95 e o verso 4 da estância 98. Aí, são identificados os obstáculos à obtenção da fama e da glória, isto é, o poeta põe em evidência aquilo que não são os meios de as atingir (logo atos a evitar):
a. viver à custa do que os antepassados conseguiram (= a glória não é herdada dos antepassados) ‑ 95, 5-6;
b. viver rodeado de conforto (95, 7);
c. viver rodeado de luxo e de requintes supérfluos (95, 8);
d. os “manjares novos e esquisitos” (96, 1);
e. os passeios ociosos (96, 2);
f. os deleites / prazeres (96, 3) que efeminam, isto é, enfraquecem, os fidalgos;
g. viver para saciar os apetites / caprichos insaciáveis;
h. ficar indiferente face a uma “obra heroica de virtude”.
         Assinale-se o recurso à enumeração e à anáfora na estância 96. Por um lado, o poeta enumera diferentes caminhos que não conduzem à verdadeira glória. Através da repetição anafórica, reitera a ideia de que esses caminhos devem ser postos de lado.
         Sintetizando, o poeta critica todos os que desejam ser reconhecidos na vida, apreciados apenas na genealogia, nos luxos, nos prazeres e numa vida ociosa, sem praticarem qualquer “obra heroica de virtude” (96, v. 8).
         A partir do verso 1 da estância 97, introduzido pela conjunção coordenativa adversativa «mas», sinónima de ideia oposta, Camões vai enumerar as ações que fazem o verdadeiro herói e que permitem alcançar a fama e a glória (ou seja, vai apresentar as alternativas aos comportamentos anteriormente descritos), salientando a dureza dessas ações através do recurso ao adjetivo (“forçoso”, “forjado”, “cruas”, “frios”, “nuas”, “corrupto”, “árduo”, …). Essas ações são as seguintes:
a. a obtenção das honras pelos seus atos, ações a que possa chamar suas (97, 1-2);
b. a disponibilidade para a guerra (97, 3);
c. o enfrentar/sofrer tempestades e “ondas cruas” (97, 4);
d. as navegações árduas por regiões inóspitas à custa de enorme sofrimento pessoal (97, 3-8);
e. o consumo de alimentos deteriorados;
f. a resignação ao sofrimento;
f. a vitória sobre as limitações pessoais, de forma a enfrentar as situações mais difíceis ou dolorosas – o enfrentar a guerra com ar seguro / confiante e alegre (por exemplo, manter um rosto “seguro” ao assistir a acidentes dos companheiros.
         Entre os versos 5 da estância 98 e 4 da 99, é feita uma espécie de síntese das qualidades necessárias àqueles que buscam a virtude:
i. o “calo honroso” no peito;
ii. o desprezo das honras e do dinheiro trazidos pela «ventura» e não pela «virtude»;
iii. o entendimento esclarecido e temperado pela experiência e a libertação dos interesses mesquinhos (“O baxo trato humano embaraçado” – 99, v. 4).
         Nos últimos quatro versos da estância 99, o poeta clarifica que só quem percorrer este caminho poderá e deverá ascender ao poder (“ilustre mando”, 99 – v.7), sempre contra a sua vontade e nunca a pedido, isto é, fá-lo-á de forma desinteressada. No fundo, ao concluir esta sua reflexão, Camões retoma o que afirmara na introdução: é através do esforço próprio e não das “honras e dinheiro” que se pode/deve ascender ao estatuto de herói. O verdadeiro herói despreza as “honras e dinheiro” (est. 98, v. 6) trazidos pela sorte e não produto do esforço pessoal. A sua experiência dar-lhe-á o conhecimento da verdadeira virtude e um estatuto superior ao dos homens de “baixo trato” (est. 99, v. 4). Desse modo, num mundo justo, “Subirá” (est. 99) a posições de poder por mérito pessoal e “não rogando” (est. 99, v. 6) favores.

         Em suma, é digno de louvor e merecedor de glória aquele que se dignifica através do seu esforço, da sua capacidade de sofrimento, perseverança e humildade, bem como através do desprezo das honras e do dinheiro conquistado graças à sorte e não ao mérito pessoal. Só quem "preencher estes requisitos" poderá conquistar o "ilustre mando", não porque o peça, mas contra a sua vontade. Tal significa que só a honra e a glória alcançadas por mérito próprio poderão ser valorizadas.


         Relativamente à estrutura interna, o excerto pode dividir-se em três momentos:
. 1.º momento (vv. 1-4, est. 95): o poeta elogia a coragem de quem, como os portugueses, pratica atos gloriosos dignos de honra.
. 2.º momento (v. 5, est. 95 ‑ v. 5, est. 98):
2.1. enumeração das renúncias (v. 5, est. 95 – est. 96);
2.2. atos a praticar por quem deseja alcançar a verdadeira fama (est. 97 – v. 4, est. 98);
. 3.º momento (v. 5, est. 98 – est. 99): conclusão das reflexões do poeta, que salienta o esforço sincero e desprendido como motor da glória.

         As reflexões feitas pelo poeta nestas estâncias sugerem o perfil do herói épico, que se resigna à dureza da vida e enfrenta com convicção, abnegação, espírito de sacrifício e coragem as dificuldades que se lhe apresentam. O herói é o que concretiza trabalhos árduos e perigosos na guerra e no mar, em condições climatéricas e existenciais deploráveis. Só deste modo, conseguindo superar todas as dificuldades e provações, é possível alcançar um estatuto honroso, destacando-se dos restantes seres humanos pelo seu carácter grandioso. Por outro, indiretamente, pode ver-se neste passo da obra a crítica camoniana à elite do seu tempo, “acusando” os nobres de serem passivos, fracos, privilegiados, insatisfeitos e alienados da realidade.

domingo, 27 de janeiro de 2013

'Os Lusíadas': I, 105-106

Canto I, estâncias 105-106

            A reflexão do poeta nestas duas estâncias é motivada por um acontecimento respeitante ao plano da Viagem: a chegada da armada portuguesa a Mombaça, após várias vicissitudes ocorridas em Moçambique e Quiloa, urdidas por Baco.
            Com efeito, após a realização do consílio dos deuses no Olimpo, onde se formam duas correntes – uma de apoio à empresa do Gama – liderada por Vénus – e outra de oposição – chefiada por Baco ‑ e onde Júpiter toma a decisão de auxiliar os portugueses chegarem à Índia, Baco prepara-lhes várias ciladas em Quiloa – Moçambique – e Mombaça, cujo rei tinha sido convencido por ele a aniquilar a frota lusitana.
            Nos quatro versos iniciais da estância 105, o poeta faz alusão à traição que se prepara em Mombaça aos portugueses. De facto, o «recado» (a mensagem) que os enviados trazem é, na aparência e dissimuladamente, de amizade, mas na realidade é de grande perigo (metáfora “debaxo o veneno vem coberto” – v. 2) e de inimizade (v. 3). No entanto, a traição acaba por não se consumar, dado que foi descoberta (“Segundo foi o engano descoberto.” – v. 4).
            Os versos 5 e 6 (observar a metáfora do verso 6) introduzem o tema da reflexão: a insegurança da vida humana, insegurança essa que decorre dos grandes perigos (“Oh! Grandes e gravíssimos perigos! – notar a interjeição e os adjetivos “grandes” e “gravíssimos”, este no grau superlativo absoluto sintético, que conferem um tom hiperbólico aos perigos e à sua gravidade), e da incerteza (“… caminho da vida nunca certo…” – v. 6) que a caracterizam. A exclamação do verso 8 – aliada às dos versos 5 e 6 e à metáfora do verso 6 – reforça a ideia da extrema insegurança que o homem enfrenta.
            Por sua vez, os quatro versos iniciais da estância 106 enunciam os perigos que o ser humano enfrenta, como se pode observar no quadro seguinte:


            Estilisticamente, assume preponderância o recurso ao paralelismo de construção, à anáfora, à hipérbole e à antítese, recursos presentes nesses quatro versos, que evidenciam os perigos a que o ser humano está sujeito tanto no mar como na terra, intensificados pelo recurso à repetição – “tantas”, “tanta”, “tanto”.
            Os últimos quatro versos são apresentados sob a forma de uma interrogação (Poderá o Homem, “bicho da terra tão pequeno”, ultrapassar a sua pequenez face ao universo, muito mais poderoso do que ele?), através da qual (e da anáfora dos vv. 5 e 6) Camões salienta a condição de grande fragilidade do ser humano, que dificilmente conseguirá encontrar um lugar onde possa estar seguro, dada a enorme desproporção entre si e o “Céu sereno”. O poeta conclui, pois, que o Homem dificilmente poderá encontrar segurança e tranquilidade (“Onde pode acolher-se um fraco humano” – v.5) num universo hostil que contra ele se arma, dada a sua pequenez e fragilidade (“Onde terá segura a curta vida” – v. 6 – tema da brevidade da vida humana). A metáfora e hipérbole do verso 8, aliadas à interrogação, enfatizam a referida fragilidade humana e a pouca probabilidade de fazer frente ao universo.
            Tendo em conta o conteúdo da Proposição (I, 1-3) relativamente ao herói de Os Lusíadas, parece ser intenção do poeta, com esta reflexão, exaltar a valentia dos portugueses, que, mesmo sendo pequenos (“bicho da terra tão pequeno” – v. 8), venceram os maiores desafios. Observe-se, ainda, que os dois versos finais constituem uma espécie de ponto de partida para a mitificação dos portugueses enquanto heróis. De facto, não obstante a sua fragilidade enquanto seres humanos, ousam navegar por mares desconhecidos e desafiar a natureza e os diversos perigos, ultrapassando os limites da sua condição humana.
            O tema das duas estâncias é, pois, a fragilidade e a efemeridade da vida humana face aos grandes perigos enfrentados no mar e na terra e às circunstâncias da vida. E o poeta lamenta esses perigos, essa incerteza e insegurança a que o ser humano está exposto, em toda a parte, sem qualquer abrigo ou porto seguro.
            Relativamente à estrutura interna, a reflexão pode dividir-se em três momentos:
. introdução (vv. 1‑4, 105): a traição preparada aos portugueses;
. desenvolvimento (v. 5, 105 – v. 4, 106): os perigos que espreitam o ser humano em terra e no mar;
. conclusão (vv. 6‑8, 106): a fragilidade do ser humano.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Miguel Relvas visto e «ouvisto»!


     Qualquer português conhece o modo como o ministro Miguel Relvas se licenciou.

     Quem o conhece diz que é um «doer» e um criativo. Bem, este brilhante momento televisivo vem comprovar isso mesmo, no exato momento em que o sr. ministro cria um neologismo: OUVISTO. Fico à espera de saber qual é o infinitivo do novo verbo da língua portuguesa.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

'A Literatura'

     «Não sei se já repararam nisso mas quando lemos - estou a falar para a ínfima minoria de espectadores que além de virem ao teatro ainda lêem... 2 ou 3 pessoas, hoje -, bom, mas quando lemos livros estrangeiros, raramente nos detemos nos nomes. Eu pelo menos faço isso. Mas eu tenho um desconto, que ainda por cima venho todos os dias ao teatro. É que um personagem dum romance russo, por exemplo, pode chamar-se Ievguénhi Ponomarev Tsugorski! E então estamos nós a ler: «O cavalo corria louco pela estepe, mas, de repente, estacou tão abruptamente que I-e-v-g aaa... Pino... Poni... Pinto... bom, Tsa... Tsu... chiça! foi cuspido violentamente e esmagou o crânio instantaneamente. Mas o bravo amigo... japonês... Os-ss-u-ga-ro- I-o-mi-akei, ok, Iomiakei Kawa-ka-ta-mi - fo-go! -, deitando-se sobre o corcel, consegue ainda apanhar o valioso documento que I... I-e-v-g-u pffff Pinto Tsar transportava tão ciosamente.. Osss.... u Io, io, io! Kawa... saki! Lançou-se a toda a brida.» Uff! «Mas o cruel mongol que os perseguia aproximava-se cada vez mais. Com efeito, Li-ao Tse Xi-ong» - e este é fácil! Eu já estou a simpatizar com o mau da fita... - «Liao Tse Xiong tinha prometido ao condutor de riquexó Sun Wang Ião (...) não só resgatar o valioso documento que tinha viajado pelo Japão e chegado à Sibéria trinta e seis anos depois» isto é fácil porque não está em numeração romana... «não só resgatar o trararara como também aniquilar... I-ev-g... Ivo Pinto Tsu e o nipónico Osso Io Kawasaki.»
     Eu compreendo que se leia cada vez menos. Literatura estrangeira, pelo menos... para mim tem o problema dos nomes.»
José Pedro Gomes, O País dos Jeitosos 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Morte ao idoso doente

Ministro japonês diz que idosos doentes devem “morrer rapidamente” para o bem da economia
Os custos dos tratamentos que prolongam a vida a pessoas com doenças sem recuperação são desnecessários para a economia japonesa, defende Taro Aso.
O ministro já veio admitir que as suas declarações foram desapropriadas KIM KYUNG-HOON/REUTERS




O ministro japonês das Finanças, em funções há cerca de um mês, defende que os cuidados de saúde para doentes mais idosos significam um custo desnecessário para o país e que a estes pacientes deveria ser permitido morrer rapidamente para aliviar a pesada carga financeira que representa o seu tratamento na economia japonesa.
“Que Deus não permita que sejam forçados a viver quando querem morrer. Eu iria acordar sentindo-me incrivelmente mal por saber que o tratamento era totalmente pago pelo Governo”. A frase de Taro Aso, citada pelo Guardian, foi proferida durante uma reunião do conselho nacional dedicada às reformas da segurança social e ao orçamento para a saúde. As declarações tornam-se ainda mais polémicas quando o ministro defendeu que “o problema só será resolvido” se se deixar os idosos “morrer rapidamente”.

Num país com quase um quarto de uma população de 128 milhões de pessoas com mais de 60 anos, Taro Aso, de 72 anos, acrescenta que vai recusar qualquer assistência médica se ficar gravemente doente. “Não preciso desse tipo de cuidados”, disse, citado pela comunicação social japonesa, segundo a qual o ministro terá dado indicações à família para que não receba qualquer tratamento que lhe prolongue a vida.

Após tornadas públicas as declarações, Taro Aso terá tentado explicar-se aos jornalistas. O ministro das Finanças admitiu que utilizou uma linguagem “desapropriada”, mas sublinhou que apenas se referia às suas opções pessoais. “Disse o que pessoalmente acredito e não o que deveria ser o sistema nacional de saúde”.

Esta não é a primeira vez que o responsável japonês se vê envolvido em polémica. No passado, fez piadas sobre doentes de Alzheimer e disse que gostaria que o Japão fosse um país tão bem-sucedido que “os judeus mais ricos ali quisessem viver”.
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