Poema
IX
“Sou
um guardador de rebanhos”
O
poema, constituído por três estrofes (duas sextilhas e um dístico) de versos
brancos e métrica irregular, apresenta-nos um sujeito poético que se assume,
metaforicamente, como um pastor, remetendo assim para o início do poema I, no
qual se lhe comparava.
A
primeira estrofe inicia-se com uma metáfora
(“Sou um guardador de rebanhos”) que
institui o sujeito poético como um ser natural e
simples (ele estabelece desde logo uma ligação com a Natureza, com a
pastorícia, com um ambiente bucólico) e que anula a oposição entre o pensar e o
sentir, através da identificação entre / transformações dos pensamentos e/em
sensações, característica do sensacionismo de Alberto Caeiro: o conhecimento da realidade adquire-se pela sua
apropriação direta mediante os cinco sentidos humanos, isto é, ele
relaciona-se com a realidade, seja ela flor, fruto, ou um dia de calor, através
dos sentidos. E isso basta-lhe, pois é essa relação que lhe traz a verdade
desse real. É isso que significa a metáfora do verso 2: os pensamentos
do «eu» são associados a um rebanho, representando assim a ideia de que a sua
tarefa de poeta é juntar e guardar as impressões que recolhe da Natureza. Dito
de outra forma, a metáfora constrói uma doutrina orientada para a
objetividade, isto é, o conhecimento da realidade é adquirido a partir dos
cinco sentidos. Mais: a metáfora institui o sujeito poético como um guardador de pensamentos (um pastor guarda
ovelhas, o pastor-metáfora de Caeiro guarda pensamentos). O que significa ser
um guardador de pensamentos? O eu poético é um «guardador» que vigia e...
A análise do poema continua aqui: »»».