domingo, 20 de outubro de 2019

Análise do capítulo V de Sermão de Santo António aos Peixes


            Se, no capítulo anterior, o padre António Vieira criticou a generalidade dos peixes, neste, apresentará os defeitos e vícios de alguns destes animais em particular (“Descendo ao particular…”). Note-se, antes de mais, que a estrutura do capítulo no que diz respeito aos quatro peixes focados é similar. Assim, o orador começa por identificar o animal, depois caracteriza o seu comportamento, que confronta seguidamente com figuras e exemplos bíblicos, cuja função é sustentar a sua tese e mostrar o caminho a seguir para corrigir o(s) vício(s) denunciado(s).

            Os primeiros peixes a serem visados são os roncadores, que simbolizam a arrogância e a soberba. Trata-se de peixes pequenos (“peixinhos tão pequenos” – diminutivo e advérbio) e muito vulneráveis (“com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar um aleijado”) que emitem um som grave que se assemelha ao grunhido de um porco e que os faz ser “as roncas do mar”. Este contraste entre o seu tamanho e o barulho que fazem, porque roncam muito (isto é, ostentam, gabam-se, pavoneiam-se, são arrogantes, daí simbolizarem precisamente a arrogância), causa, simultaneamente, o desagrado e a ira do pregador (emoções expressas através da interrogação retórica): “… e vendo o seu tamanho, tanto me moveram a riso como a ira”; “É possível que sendo vós uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar”. De facto, como compreender que ronquem tanto quando um simples aleijado, com uma linha de coser e um alfinete torcido, são pescados com toda a facilidade? Neste contexto, repita-se, assume grande expressividade o recurso ao verbo «roncar», através do qual o orador critica todo aquele que “faz grande alarde das suas ações, que age com espalhafato, ostentação e aparato e que, como se não bastasse, também se gaba, pavoneia-se e é arrogante.” (Andreia Sousa e Regina Carvalho, in Arrumar ideias, 11.º ano). Por outro lado, a antítese/o contraste entre o tamanho dos peixes e o som forte que produzem traduz o ridículo em que caem com a sua forma de ser e, por extensão, o ridículo que cobre os homens arrogantes e soberbos, isto é, aqueles que possuem poucas qualidades, mas se comportam como se as possuíssem.
            Já outros peixes, de maior dimensão, como o espadarte, não roncam e permanecem em silêncio, o que, de certa forma, é um contrassenso, pois, se haveria alguém que pudesse «roncar», seria o «peixe maior». Qual a razão disto? O orador responde: “Porque, ordinariamente, quem tem muita espada, tem pouca língua.” (a espada constitui uma metáfora de força, enquanto a língua simboliza o alarde por meio das palavras). Deste modo, infere-se que os roncadores simbolizam aqueles que se autopromovem, exibindo a sua vaidade e o seu poder, sendo, por isso, soberbos e arrogantes.
            Este modo de ser desagrada a Deus e acarreta o seu castigo: “… mas é regra geral que Deus não quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam.”.
            O padre Vieira exemplifica, seguidamente, os seus argumentos, o caso dos roncadores, com o caso de São Pedro, o discípulo de Cristo: “… tinha tão boa espada, que ele só avançou contra um exército de Soldados Romanos; e, se Cristo lha não mandara meter na bainham, eu vos prometo que havia de cortar mais orelhas que a de Malco.” (este era um servo de Caifás, um sacerdote a quem o santo cortou a orelha direita como ato de resistência à prisão de Cristo). Assim, Pedro tinha-se gabado antecipadamente da sua bravura, isto é, de que se todos fraquejassem, “só ele” defenderia Cristo até à morte, se fosse necessário, porém (“foi tanto pelo contrário”) bastou a simples voz de uma «mulherzinha», no pretório de Pilatos, após a Sua prisão, para tremer e negar que O conhecia por três vezes: “… só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha para o fazer tremer e negar.” (esta é uma referência ao episódio bíblico segundo o qual uma criada do sumo sacerdote perguntou a Pedro se conhecia Jesus, o que ele negou, com medo de ser preso, como tinha acontecido a Jesus). O santo tinha já fracassado também no Horto das Oliveiras, onde se deixou adormecer depois de Cristo lhe ter pedido que vigiasse (“Vós, Pedro, sois o valente que havíeis de morrer por mim, e não pudestes uma hora vigiar comigo?”). Daí que o orador conclua: “O muito roncar antes da ocasião é sinal de dormir nela.”, ou seja, todos aqueles que se gabam muito de algo acabam por não cumprir o que deles se espera no momento oportuno. Além disso, se isto aconteceu ao santo (“Se isto sucedeu ao maior pescador…”), bem menos razões terão os homens para serem arrogantes (“… que pode acontecer ao menor peixe?”). Daí o conselho final do padre Vieira, para que se meçam e vejam como são ridículos e não têm fundamento para a sua arrogância: “Medi-vos e logo vereis quão pouco fundamento tendes de blasonar, nem roncar.”.
            Os próprios peixes maiores, como a baleia, não têm desculpa para a sua arrogância, não obstante a sua «grandeza». Esta referência às baleias é o ponto de partida para a introdução de novo exemplo: o de Golias e David. Golias era um gigante e a “ronca dos Filisteus” e esteve durante quarenta dias no campo, armado, sem ser derrotado. No entanto, foi vencido por um pequeno pastor, David (“Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda para dar com ele em terra.” – atente-se na expressividade do diminutivo, contrastando com o nome «gigante». O padre António Vieira recorre, assim, a novo exemplo bíblico para reafirmar que os arrogantes e soberbos que se julgam («tomam-se») Deus acabam sempre por ficar «debaixo», isto é, castigados, porque “quem se toma com Deus sempre fica debaixo”.
            Assim sendo, que conselho se pode dar aos “amigos roncadores” (ou seja, aos homens arrogantes e soberbos)? De acordo com o orador, o que há a fazer é “calar e imitar” Santo António.
            Por outro lado, quais são as causas da arrogância? Segundo o orador, são duas: o saber e o poder. E ambas “incham” e produzem efeitos diferentes. Os exemplos humanos apresentados são os de Caifás (“roncava de saber”), o sumo sacerdote dos judeus no processo que conduziu Jesus à morte, e Pilatos (“roncava de poder”), o procurador romano da Judeia que exerceu o papel de juiz, roncando “ambos contra Cristo”. Em contraste temos o exemplo de Santo António, que constitui o modelo oposto desta forma de ser. Possuidor de tanto saber e tanto poder, o santo nunca se vangloriou das suas capacidades (“ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder, quanto mais blasonar disso.”), mantendo o silêncio e confinando-se à sua condição de servo de Deus: “E, porque tanto calou, por isso deu tamanho brado.”. Desta forma, Santo António tornou-se um modelo de simplificada e um guia espiritual.


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