Português: Memórias de um Sargento de Milícias
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quinta-feira, 20 de julho de 2023

Características de Memórias de um Sargento de Milícias


     1. Ironia: característica presente em todo o romance como elemento fundamental. Aliás, o discurso de Manuel António de Almeida é, antes de tudo, irónico. Esta ironia é o resultado de uma visão desenganada da sociedade e tem a função de nivelar a visão das personagens e, no fundo, de todo o ser humano. O nivelamento das personagens é também dado pela ausência de nome próprio de algumas personagens, pois o nome é uma forma de individualizar.
    Numa segunda parte, a ironia modifica-se, pois tem um âmbito mais psicológico e refere-se à maneira de ser das personagens. Obviamente, a ironia que acompanha Leonardo enquanto criança tem de ser diferente da vida de adulto.

    2. O esboço da sociedade da época acaba por ser o dominante na obra:
            - inexistência de traços idealizantes: as coisas são descritas tal como são;
            - objetividade na construção do romance.
    As personagens quase sempre aparecem dentro de um certo ambiente: por exemplo, Vidinha aparece inserida num ambiente e é nesse ambiente que a personagem é descrita. A profissão e o divertimento aparecem sempre na caracterização das personagens.
    No fundo, o romance é uma relação estreita entre um relato histórico e uma visão desenganada da existência. É Bosi que usa a expressão “trilhar o infortúnio” a respeito de Manuel Almeida. É, de facto, a personagem de Leonardo é isto: ele passa sucessivamente de momentos de fortuna para momentos de infortúnio, como se fosse um foguete da sorte e do destino.

    3. Humor: a ironia que se depara na obra não é uma ironia amarga, mas é quase sempre alegre, pautando-se pelo cómico e pelo humor, que no romance assume várias perspetivas:

- humor subtil (ou inglês);

- humor pícaro (ou espanhol), caracterizado pela sátira e cinismo. Este é muito comum no romance, sobretudo pelas duas primeiras características apontadas.

 
    4. Realismo: marca a diferença em relação à literatura deste tempo, sobretudo em relação a Iracema.
    O romance situa-se no Romantismo, mas passa além dele, o que pode justificar a pouca aceitação que teve. O Realismo resulta de três processos:

- caracterização das personagens;

- construção do processo narrativo;

- relação de unidade entre personagens e factos.

    A análise psicológica é o facto mais inovador e tem sobretudo importância no tratamento do desvio, da fuga à norma. Isto dá uma visão mais profunda da sociedade e da dificuldade que as personagens têm em se relacionar umas com as outras. Embora a análise psicológica não seja dominante no romance, dá uma grande contribuição para lhe conferir um pendor realista numa época dominada pelo Romantismo.

    5. Ordem e desordem: quem representa a ordem é o Major Vidigal, que cuida da ordem e da estabilidade na cidade. Juntamente com ele, encontram-se a comadre, D. Maria e o compadre. Não são personagens inteiramente íntegras, porém possuem alguma estabilidade social.
    Representando a desordem encontramos Vidinha, Teotónio (um malandro), o sacristão da Sé, entre outras personagens. Não obstante, há figuras que transitam entre os dois polos. Por exemplo, o Major Vidigal transgrediu a lei quando libertou e promoveu Leonardo por motivos amorosos e sexuais (a pedido de três mulheres e em troca de morar com a sua amante).


Aspetos a favor do “ponderado Realismo”

 
    O objeto escolhido e o modo de relatar o assunto mostram a transição para o Realismo. Mas há outros aspetos:

* Preocupação inovadora com o comportamento psicológico das personagens.

* Trato mais realista.

* Desenho do perfil psicológico das personagens.

* Registo irónico e cómico.

    Estes dois últimos traços já anunciam o Realismo de Machado de Assis e a aplicação de estratégias narrativas desenvolvidas posteriormente.

* Surpreendente parcialidade na contemplação das personagens. Mas a ironia, a crítica e o humor dão uma visão que não é parcial.

* Ausência de tensão entre o bem e o mal, típica do Romantismo. Isto originou um nivelamento, uma vez que todas as personagens partilham do bem e do mal; têm em si os dois polos. Mas a tendência para a análise introspetiva não é profunda nem pretende atingir a raiz do comportamento psicológico.

    O cinismo que se vêm em toda a obra não é amargurado, mas é mais o resultado de uma espécie de filosofia de vida.
    Temos de ver também a influência que a sua formação jornalística teve no seu “ponderado realismo”: é como se pretendesse fazer uma reportagem direta, superficial e crítica, revendo aspetos genéricos de uma sociedade urbana.

 
                Trata-se, além disso, de um romance de costumes:

 
* Presença de personagens-tipo: é como se tirasse um mínimo múltiplo a nível de comportamento, o que não impede que elas, por vezes, saiam dessa linha e tenham comportamentos diversos.

                Estas personagens-tipo constroem-se de várias formas:

- não atribuição de nomes próprios (exs.: comadre, compadre);

- uso de nomes eufemísticos (exs.: Maria da Hortaliça, Maria Regalada);

- colocação das personagens em cenários correspondentes (ex.: Canto dos Meirinhos);

- dissolução das personagens: elas acabam por não ter um estatuto principal perante o cenário.

 
* Romance horizontal, onde a ação é predominante. Trata-se sobretudo da análise da forma de convivência entre as pessoas e nesta o que mais ressalta é a fragilidade desse contacto. Dos processos mais importantes na narrativa, cabe a referência a acontecimentos sociais e ao modo como as personagens aparecem inseridas nesses acontecimentos sociais. Há uma sucessão de eventos vistos pela perspetiva das personagens.

 
* As referências ao tempo e ao espaço praticamente não existem ou não são apontadas especificamente. Quase sempre funcionam como introdução a acontecimentos e personagens, não havendo quase descrições.
Quanto ao tempo, temos apenas uma referência logo no início (“Era no tempo do rei…”) e a ideia do fluir do tempo pela referência ao crescimento de Leonardo.

 
* Personagens: só são relevantes quando presentes e vivem num movimento constante entre um “cá” e um “lá”, entre a sorte e o infortúnio. Por exemplo, Leonardo tanto está numa fase boa como numa má, a partir da qual logo vem outra boa. Há sempre um movimento aparentemente de queda que se revela de ascensão em alguns casos. Todo este movimento de oscilação influencia o ritmo do romance e é a quebra da oscilação que marca o fim do romance.

 
* Prosa: tem um estilo muito direto, simples, com uma ou outra descrição romântica, que são quase críticas. Este estilo reflete uma visão desencantada e parcial do mundo.

 
Conclusão:

O mais importante em Memórias de um Sargento de Milícias acaba por ser a crença de que todos os homens são mais ou menos iguais, nem maus nem bons, ou então bons e maus. A maioria das pessoas tem em si a dualidade: tanto faz o bem como o mal e passa de um extremo ao outro com grande facilidade. Isto acaba por afastar o romance do Romantismo, sobretudo no que diz respeito à teoria do herói romântico. A teoria do génio romântico fica muito em baixo nesta obra.

                A visão desencantada mostra já algo de Realismo.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Classificação de Memórias de um Sargento de Milícias


    A classificação de Memórias de um Sargento de Milícias é complexa, desde logo porque os estudiosos não se entendem sobre a matéria e, por isso, apresentam diversos enquadramentos. Assim, há quem sustente que se enquadra na tradição do romance picaresco, cuja génese remonta à Espanha, nomeadamente com a publicação de Lazarilho de Tormes, obra anónima, em 1554.
    O termo «pícaro» refere-se às personagens que fogem ao conceito tradicional de herói e que vivem de astúcias e trapaças, sobrevivendo a partir de expedientes vários. É o que sucede com Leonardo, uma criança enjeitada pelos pais pouco tempo depois do seu nascimento, criada pelo padrinho e, posteriormente, pela madrinha. Deste modo, Manuel António de Almeida narra as suas aventuras e desventuras na “baixa sociedade fluminense”.
    Há quem o considere uma crónica de costumes, dado que retrata os costumes da sociedade num tom que se aproxima bastante do jornalístico. Na capa do primeiro volume da edição de 1875, surge como subtítulo a denominação “romance de costume brasileiros”, a qual não constava do original.
    Em rigor, talvez não seja possível rotular a obra com uma classificação específica.

Estrutura de Memórias de um Sargento de Milícias


    A obra está dividida em duas partes: a primeira é composta por 23 capítulos e a segunda por 25.
    Por outro lado, temos dois momentos na narrativa, que correspondem a preocupações diferentes:

. na primeira, temos o tratamento irónico das personagens;

. a segunda começa no capítulo XVIII da 1.ªparte da obra e caracteriza-se por aumentar a análise psicológica e introspetiva. Há uma mudança no drama, na intriga urdida entre as personagens e também a nível da estratégia narrativa. Na verdade, na 2.ª parte, a peça fundamental é Leonardo enquanto adulto e não Leonardo criança, com as suas travessuras e criancices.

    Assim, passa-se de uma parte, em que era fundamental o cómico para uma parte em que prevalece a análise psicológica. O cómico como que é substituído pelo que o narrador pensa das personagens. Podemos quase contrapor a infância (cómico) e a vida adulta (análise psicológica) de Leonardo, embora haja elementos que se mantêm:

. pseudo-superficialidade: resulta do caráter cómico e irónico da obra. Embora possa parecer que ele apenas se interessa por este aspeto, tudo o que escreve abrange um domínio mais profundo, chegando a fazer crítica moral e social;

. pragmatismo: esta característica nota-se em toda a sua escrita; tudo o que diz tem uma função. Se ele refere um dado elemento, é porque é importante, seja qual for a sua função. Isto é verdade, quer em relação à linguagem, personagens ou costumes;

. simplicidade de ações e no tratamento das personagens e dos factos;

. primitivismo no tratamento dos factos e das personagens. É como que a conclusão de todas estas características. Apesar de M. A. Almeida não se inserir ainda no Realismo totalmente, a sua ligação a este movimento deve-se precisamente a este primitivismo. Ele não é romântico, mas também ainda não é totalmente realista.

    Os acontecimentos narrados na primeira parte parecem esparsos, mantendo pouca relação entre si, como se estivéssemos perante recortes de eventos marcantes da sociedade, concretamente dos estratos médio e baixo, do Rio de Janeiro na época de D. João VI. Ao longo das páginas, predomina o tom de crónica jornalística, em episódios como, por exemplo, o batizado de Leonardo ou a Via Sacra do Bom Jesus. Já a segunda parte é típica de um romance, focando-se em Leonardo e na sua história.
    Os diversos episódios narrados funcionam com grande autonomia, sendo ligados pela presença de Leonardo, o que confere ao texto uma estrutura mais novelística do que de romance.

O narrador de Memórias de um Sargento de Milícias


    A obra é narrada na terceira pessoa por um narrador observador, não obstante o vocábulo «memórias» figurar no título, o qual poderia pressupor que o relato fosse feito na primeira pessoa, contudo a sua presença justifica-se pelo facto de o romance possuir traços históricos, visto que retrata cenas e costumes de uma época passada, e conta acontecimentos passados.

    Relativamente à focalização, estamos na presença de um narrador omnisciente, isto é, que sabe tudo, incluindo os pensamentos das personagens.

    A narrativa caracteriza-se pelo humor e pelo cinismo do narrador, que intervém nas situações que conta com ironia, enquanto descreve as personagens e os costumes da época. Deste modo, rompe com a postura idealizadora do narrador caracteristicamente romântico relativamente às personagens.

O tempo de Memórias de um Sargento de Milícias


    A narrativa é feita de acordo com a cronologia, embora seja entrecortada por vezes para o narrador produzir os seus comentários, introduzir uma ou outra analepse ou explicar algo.
    A ação decorre no início do século XIX, no período em que a família real portuguesa vivida no Brasil, depois de ter fugido às Invasões Francesas. Essa instalação da corte no Rio trouxe mudanças à cidade. Uma delas foi a criação de novas instituições, como a Real Junta do Comércio, a Mesa do Desembargo do Paço e a Intendência-Geral da Polícia, que está presente ao longo da obra através da figura do Major Vidigal. A ação da polícia estendia-se por um campo amplo, desde a segurança pública até às questões de saúde, passando pelos conflitos familiares e pelo recrutamento, exemplificado pelo de Leonardo filho. O Intendente da Polícia da Corte e do Estado do Brasil atuava, na prática, como uma polícia política, dado que mantinha a estabilidade das instituições políticas da nova corte; garantia a segurança pública (através da criação de quartéis para a Guarda Real da Polícia, em articulação com os juízes do crime dos bairros da cidade); controlava os espetáculos e os festejos populares (como as súcias do grupo de amigos de Leonardo e do antigo sacristão da Sé); fichava os moradores da cidade; coletava informações sobre a conduta de pessoas suspeitas de algo; arbitrava conflitos conjugais e familiares; era o depósito de mulheres desprotegidas, nomeadamente por motivos de divórcio; elaborava devassas e sumários da criminalidade na cidade do Rio de Janeiro; perseguia os marinheiros desertores, etc. Um dos traços e temas que caracterizam a obra é a repressão policial do período joanino, personificada na figura autoritária e omnipresente do Major Vidigal.
    Outros aspetos características da época são as modinhas populares difundidas pelo gosto popular na nova corte; as festas, patuscadas, comemorações; a burocracia transmigrada para o Rio, coincidente com a mudança da corte, exemplificada pelos oficiais superiores do Pátio dos Bichos, figuras meramente decorativas do Palácio Real; a presença e a ação de imigrantes portugueses no Brasil; a Justiça e as transformações ocorridas com a vinda da corte, exemplificadas pela figura de D. Maria, alucinada por demandas judiciais e a descrição dos meirinhos e da sua importância naquele tempo; a corrupção, bem visível no capítulo sobre os meirinhos; a maledicência; as festas e tradições populares, nomeadamente as religiosas; a capoeira, representada por Chico-Juca; os costumes dos ciganos, retratados como pessoas ociosas e festivas entregues a expedientes proibidos; as práticas educativas da época, simbolizadas pela figura do mestre-de-rezas, sempre com a palmatória à mão); as profissões de homens livres e pobres, etc., etc., etc.

Caracterização de Maria Regalada

    Maria Regalada é a amante de Vidigal. Intervém algumas vezes, a pedido de D. Maria e da comadre, em benefício de Leonardo. Numa dessas ocasiões, promete ao Vidigal, segredando-lhe ao ouvido, ir viver com ele se libertar o jovem.

Caracterização de Chiquinha

    Chiquinha é filha da comadre. Casa com Leonardo Pataca depois de Maria da Hortaliça o ter traído e abandonado.

Caracterização de Maria da Hortaliça

    Maria da Hortaliça é uma vendedora dos mercados de Lisboa que emigra para o Rio de Janeiro. A bordo do navio que a transporta, conhece Leonardo Pataca e envolve-se amorosamente com ele, acabando por engravidar. No Rio, moram juntos, embora não sejam casados, porém, passado algum tempo, ela começa a traí-lo com diferentes homens. Quando Pataca confirma as suas suspeitas de traição, agride-a, o que a leva a abandoná-lo e ao filho de ambos, fugindo na companhia do capitão de um navio.

Caracterização de Leonardo Pataca


    Leonardo Pataca é oficial de justiça e pai de Leonardo. Durante a viagem de barco rumo ao Rio de Janeiro, conhece a bordo Maria da Hortaliça, com quem se envolve sexualmente, engravidando-a. Já no Brasil, desconfia da fidelidade da companheira e, quando confirma a sua traição, agride-a fisicamente. Na sequência, ela foge com o capitão de uma embarcação e Leonardo entrega o filho ao barbeiro e acaba por casar com Chiquinha.
    Trata-se de um homem sentimental que tem um fraquinho por mulheres. Uma das com quem se envolve depois de Maria da Hortaliça é uma cigana, que, porém, o abandona, pelo que ele recorre a algo proibido na época – a feitiçaria –, para a conseguir de volta e que lhe traz problemas com Vidigal.
    Apesar de ser oficial de justiça, envolve-se em atividades suspeitas. O seu apelido – Pataca – deriva do facto de possuir dinheiro. Recorde-se que o termo «pataca» designava uma moeda de prata com o valor de 320 réis, que foi emitida por Portugal até ao século XIX.

Caracterização do Major Vidigal


    O Major Vidigal é um militar que persegue Leonardo e o prende algumas vezes, mas acaba por o integrar nas suas forças milicianas, primeiro como granadeiro, depois como sargento de milícias, para permitir que se casasse. É uma figura temida e respeitada por todos, severa e punidora, desempenhando ao mesmo tempo os papéis de polícia e juiz.
    Major Vidigal é uma personagem construída com base numa pessoa que existiu e viveu na época chamada Miguel Nunes Vidigal, que era chefe da Guarda Real, uma posição criada por D. João VI em 1809, para policiar o Rio de Janeiro.
    No que diz respeito à sua representatividade, o Vidigal configura o símbolo da repressão arbitrária e socialmente injusta, temida por todos aqueles que – tenham ou não problemas com a lei – são pobres e não dispõem de recursos nem beneficiam da proteção trazida pela amizade com alguém poderoso. Representa, de facto, a ordem do Rio de Janeiro, combatendo a malandragem e a vagabundagem da época. No entanto, apesar de ser o símbolo da Lei e da Justiça, acaba por as quebrar ocasionalmente, cedendo, nomeadamente, aos desejos da amante, com quem vai viver num relacionamento não oficial.

Caracterização de José Manuel

    José Manuel é um homem ambicioso, materialista e calculista que se casa por dinheiro para ter acesso à riqueza dele. No fundo, não passa de um caça fortunas. Após o enlace, trata muito mal a esposa, prendendo-a em casa. Acaba por falecer de apoplexia em decorrência de uma demanda que lhe é colocada por D. Maria. No fundo, não passa de um caça-dotes, representando de uma figura uma crítica à burguesia.

Caracterização de D. Maria

    D. Maria é uma velha senhora que adora demandas judiciais e que obtém a guarda de Luisinha quando os seus pais falecem. Trata-se de uma viúva rica e bondosa, tia e tutora de Luisinha, amiga da comadre e do compadre. Além disso, é uma das figuras da obra que sempre procura proteger e agir em defesa de Leonardo.

Caracterização do compadre barbeiro


    O compadre é barbeiro de profissão. Acolhe Leonardo quando os pais se separam, cria-o como seu filho, educa-o, protege-o e deixa-lhe uma herança que obteve de forma ilícita do comandante de um navio. Sonha um futuro próspero para ele – ser padre –, mas tal não se concretiza. Apesar da referida herança, vive humildemente.

    Em determinada fase da sua vida, foi para África como médico num navio negreiro. Na viagem de regresso, fica, de forma ilícita, com um baú de dinheiro do capitão que, moribundo, lho confiou para entrega à sua filha, porém ficou com ele para si. Tendo-se tornado homem de bem, cria Leonardo como seu filho.

Caracterização de comadre

    A comadre defende e acompanha Leonardo em todos os momentos importantes da sua vida, indo em seu socorro diversas vezes, porque o adora. É uma parteira e madrinha do protagonista. Apesar de ser muito religiosa e frequentar assiduamente a igreja, gosta de intrigas e é a responsável por espalhar uma mentira sobre José Manuel, o pretendente de Luisinha e rival de Leonardo.

Caracterização de Vidinha

    Vidinha é uma jovem mulata, bonita e extrovertida, que toca viola e canta modinhas. Em determinado momento, seduz Leonardo, que vive com ela durante um determinado período de tempo, constituindo a sua segunda paixão.

Caracterização de Luisinha

    Luisinha é a jovem órfã com quem Leonardo casa e que foi o seu primeiro amor. Inicialmente, é apresentada como uma rapariga desengonçada e estranha, mas vai-se transformando com o tempo. De facto, as suas características fogem ao modelo idealizado da mulher romântica: era feia, pálida e desajeitada.

    Por influência da tia, casa com José Manuel, um marido que a trata mal e a prende em casa e só casa por interesse nos seus bens. Algum tempo depois, fica viúva, o que possibilita a sua reaproximação a Leonardo, com quem casa.

Caracterização de Leonardo


    Leonardo é o herói ou protagonista da obra. Em rigor, estamos na presença do chamado anti-herói ou herói pícaro, dado ser alguém que é malandro, matreiro, vadio, que se envolve em problemas e adora fazer estripulias.
    Desde criança, Leonardo é instável e rebelde. Foi abandonado pelos pais: primeiro pela mãe, que fugiu para Portugal com um capitão de navio; depois, pelo pai, que o entregou ao cuidado do padrinho, que o criou, e foi viver a sua vida.
    A única tentativa de frequentar a escola redundou em fracasso: começou a frequentar as aulas de manhã e, à tarde, já estava a receber palmatoadas do professor por mau comportamento. Mais tarde, tornou-se amigo do sacristão da igreja, igualmente um malandro, e acabou por exercer essa função, mas entrou em conflito com um padre e foi expulso.
    Com o tempo foi-se acalmando, até que chegou à idade dos amores Se desde criança foi descrito como uma figura esperta e vagabunda, mais tarde é apresentado como um mulherengo, assemelhando-se neste caso ao protagonista de Macunaíma. O seu percurso a partir daqui pode resumir-se da seguinte forma: mulherengo, como o pai, quase perdeu o seu amor – Luisinha – por ser inconsciente. Foi preso algumas vezes, tornou-se granadeiro, depois sargento de milícias, casou-se com a sua amada e assentou na vida confortavelmente, graças a heranças. A sua primeira paixão foi Luisinha, sobrinha de D. Maria, mas o namoro acabou por não vingar por falta de jeito dele, apesar de a jovem gostar do filho de Pataca.
    Entretanto, Leonardo voltou a viver com o pau, porém os desentendimentos com a madrasta – Chiquinha – eram frequentes e acabou por ser expulso da casa paterna, tendo-se depois afastado e isolado de todos, até reencontrar o antigo amigo sacristão, com quem foi viver, na Rua da Vala, onde habitavam duas mulheres quarentonas, cada uma com três filhos – uma tinha três rapazes e outra três raparigas. Leonardo apaixonou-se pela mais bonita – Vidinha. Estes amores despertaram o ciúme de dois primos, que a disputavam também e que o foram intrigar junto de Vidigal, que o tentou prender, mas sem sucesso.
    A madrinha conseguiu-lhe um emprego na ucharia real, contudo também não parou aí muito tempo, dado que se envolveu amorosamente com a esposa do patrão, o toma-largura. Na sequência, acabou por ser preso pelo Vidigal. Na sua ausência, Vidinha cedeu aos avanços do toma-largura, que se tinha encantado por ela.
    Após a sua prisão, foi obrigado a servir o exército, tendo entrado para o batalhão dos granadeiros, para combater a malandragem do Rio de Janeiro, porém a sua índole não tinha mudado e ele continuou a fazer diabruras. A última que aprontou foi quando avisou um indivíduo que imitava o Vidigal que iria ser preso, permitindo-lhe, assim, escapar à lei. No entanto, o major descobriu a artimanha e prendeu de novo Leonardo. Mais uma vez, foi salvo pela madrinha, por D. Maria e por Maria Regalada: não só foi libertado como foi promovido a sargento de milícias. No final da obra, casou-se com Luisinha, que entretanto ficara viúva de José Manuel.
    Relativamente à sua representatividade, Leonardo simboliza o malandro e o seu esforço no sentido de conseguir sobreviver à margem das instituições sociais. Por outro lado, é uma versão carnavalizada do herói romântico: a sua origem foi cómica e tornou-se um malandro, tentando sobreviver de esquemas e à margem da família, da igreja, da sociedade, em suma.

As personagens de Memórias de um Sargento de Milícias

    As personagens de Memórias de um Sargento de Milícias são tipos sociais, visto que a maioria não possui profundidade psicológica (são planas) e representam um grupo ou uma classe social: o povo, a classe média, etc. Note-se que várias personagens não têm nome próprio, sendo designadas pela sua profissão ou condição social.
    Por outro lado, a ação da obra centra-se num grupo de homens livres pobres. Fora dessa classe, encontramos uma senhora rica, dois padres, um chefe de polícia, um oficial superior e um fidalgo, que servem de ponte a uma breve descrição do Paço. Ausentes estão os membros da corte, bem como os escravos, que constituiriam provavelmente a maior parte da população do Rio de Janeiro na época, e os negros, representados por figuras meramente decorativas como as baianas da procissão dos Ourives e as criadas de D. Maria.
    Ou seja, estamos na presença de uma obra restrita socialmente, pois não aborda as camadas altas da sociedade e praticamente omite a população cativa. Os grupos sociais representados corresponderão àquilo que hoje chamaríamos classe média baixa.

Contexto de Memórias de um Sargento de Milícias


    A ação decorre no período em que D. João VI e a corte portuguesa viviam no Brasil, entre 1808 e 1821, depois de aí se terem refugiado, fugidos de Portugal das Invasões Francesas, por isso o romance começa com a expressão “Era no tempo do rei”, que recorda o início dos contos tradicionais populares: “Era uma vez…”.
    Em 1806, a Inglaterra e a França estavam em conflito. Napoleão Bonaparte, imperador da França, decretou o Bloqueio Continental, que estabelecia que todos os países europeus deveriam encerrar os seus portos aos navios ingleses, com o objetivo de enfraquecer as exportações inglesas, dando origem a uma crise económica.
    Nessa época, Portugal e Inglaterra eram aliados e mantinham boas relações comerciais, por isso os portugueses não anuíram às exigências dos franceses. Assim, Napoleão decidiu invadir Portugal, pelo que, em 1808, a família real lusitana fugiu para o Brasil, passando a capital do Império a ser o Rio de Janeiro.
    Após a chegada da corte portuguesa ao Brasil, D. João VI põe em prática diversas medidas económicas, políticas e sociais que favoreceram o florescimento das atividades culturais no Brasil. Depois de 1822, D. João VI regressou a Portugal. Dois anos a seguir, em 1824, D. Pedro I outorga a Constituição brasileira.
    Em 1840, dá-se o Golpe da Maioridade de D. Pedro II, que faz com que o Brasil inicie novo período de crises económicas, políticas e sociais, acentuadas pela guerra com o Paraguai, a extinção do tráfico negreiro e a abolição da escravatura.
    Já na década de 1860, o Brasil começa a exportar diversos produtos, como café, açúcar e algodão, que tornam a balança comercial brasileira positiva. Foi neste contexto que, entre 1836 e 1881, floresceu, atingiu o apogeu e decaiu o Romantismo.
    A obra explora personagens características da sociedade do Rio de Janeiro do século XIX, sempre recorrendo ao humor e à ironia. Nessa época, a literatura brasileira cultivava uma narrativa que recuperava as raízes e tradições nacionais. Em simultâneo, surgiu um outro género, o chamado romance urbano, que tinha como pano de fundo a cidade e a vida social, familiar e amorosa de personagens que vivem os seus conflitos amorosos, os problemas de convivência, o materialismo, a corrupção, a procura de ascensão social, etc.
    Manuel António de Almeida não foi alheio ao envolvimento político. Na obra, descreve e compara a cultura brasileira referente ao período em que o Brasil foi a sede da monarquia portuguesa com a do tempo em que a obra foi escrita (1852 – 1853), fazendo uso da ironia para denunciar as mazelas sociais, procurando mostrar que aqueles que defendiam o “tempo do rei” estavam equivocados ao pensar que o governo déspota desenvolveria a sociedade brasileira com o passar dos anos. Pelo contrário, enquanto liberal, considerava que um governo tirano como o que se praticava no Brasil teria exatamente o efeito contrário, isto é, atrasaria o desenvolvimento social, criando pessoas ignorantes e rudes. Assim, o livro pode ser lido como uma alegoria da época da sua escrita, pretendendo o autor sugerir que o Brasil de 1850 não diferia muito do de 1808, daí a crítica que vai tecendo ao sistema de Justiça, à Educação, ao clero, à polícia, aos imigrantes portugueses, etc., etc.
    Na sua ótica, o desenvolvimento brasileiro teria de estar ligado ao investimento na educação dos seus cidadãos, algo completamente descuidado pelos sucessivos governos e abordado na obra. De facto, todas as personagens manifestam comportamentos tidos por inadequados, bem como uma clara falta de formação intelectual. Elas são espertas e resolvem os seus problemas com base em esquemas e na malandragem. O próprio Vidigal, o legítimo representante da lei no Rio, conhecido pela sua eficiência, usa métodos investigativos e punitivos violentos e ilegais.

terça-feira, 18 de julho de 2023

Resumo do capítulo XXV da 2.ª parte de Memórias de um Sargento de Milícias


    Este é um capítulo muito rápido, que nos dá a conhecer tudo o que se passou. Esta rapidez na narração dos acontecimentos é já um elemento do Realismo, pois dentro do Romantismo este capítulo abrangeria muitos mais.
    Leonardo e Luisinha retomam o namoro assim que termina o luto por José Manuel e D. Maria começa a fazer planos para casar novamente a sua sobrinha. Há um impedimento, porém: Leonardo não se pode casar, dado que é um sargento de linha e estes não podiam contrair matrimónio.
    Para tentar resolver o problema, D. Maria, a comadre e Luisinha procuram novamente Maria Regalada, para que esta interfira e convença o major a promover Leonardo a sargento de milícias, a fim de que possa desposar a jovem viúva. Para surpresa das três, encontram Maria Regalada a viver com Vidigal: tinha sido esta a promessa feita ao ouvido do major, para este libertasse Leonardo.
    O Major Vidigal promove-o a sargento de milícias e Leonardo casa com Luisinha, já na posse da herança que o padrinho lhe deixara e que o pai, enfim, lhe devolvera.
    O romance termina com a notícia das mortes de D. Maria e de Leonardo Pataca e com a alusão a vários acontecimentos tristes, que o narrador omite, para poupar o leitor.

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