sexta-feira, 4 de março de 2011

Gomes Freire de Andrade

          Embora nunca apareça em cena, Gomes Freire de Andrade - amado pelo povo e odiado pelos governadores - é a personagem central e constitui o elemento estruturador da acção:
  • origina a sequência de episódios da peça;
  • é o símbolo da luta pela Liberdade e pela Justiça;
  • atrai a admiração e a esperança do povo miserável e oprimido;
  • atrai, por oposição, a desconfiança e o ódio dos governadores.
  • a sua prisão, condenação e execução constituem o centro das conversas e condicionam o comportamento das restantes personagens.

          Apesar de estar fisicamente ausente (de facto, nunca surge em cena / palco), domina os pensamentos e as preocupações das restantes personagens, daí que o seu retrato seja traçado a partir do que elas nos dão a conhecer sobre ele.


1. Para o POVO:
  • é considerado um mito / é mitificado ("Para esta cambada, o Freire é Deus." - pág. 24);
  • é idolatrado (pelo povo);
  • é carismático;
  • é admirado ("Fala com entusiasmo." - pág. 20);
  • representa a liberdade;
  • é um amigo, «um homem às direitas»;
  • é humano e corajoso («Não é um santo, é um homem como todos nós.»);
  • é o único capaz de enfrentar «os senhores do Rossio».

2. Para o ANTIGO SOLDADO:
  • é um militar - general ("No regimento de Freire d'Andrade" - pág. 18);
  • defende / representa a liberdade ("No regimento de Freire d'Andrade / São cantadas com o estilo / De lá ré ó liberdade." - pág. 18);
  • é "Um amigo do povo" (pág. 20);
  • é justo, recto, honesto ("Um homem às direitas!" - pág. 20), sendo, pelas suas qualidades, único, diferente dos restantes ("Quem fez aquele não fez outro igual..." - pág. 20);
  • é um herói ("Vê-se que Gomes Freire é o seu herói." - pág. 20);
  • não é oportunista; é humano e um igual ao povo ("Não é um santo, é um homem como todos nós..."- pág. 23).

3. Para MANUEL:
  • deposita no general a sua (única) esperança de enfrentar o poder instituído e lutar pela liberdade ("Se ele quisesse..." - pág. 21);
  • é forte, corajoso, valente ("... é capaz de se bater com os senhores do Rossio..." - pág. 23);
  • é o único "capaz de se bater com os senhores do Rossio" (pág. 23).

4. Para VICENTE:
  • é um general como os outros, que se serve do povo quando dele necessita e depois o abandona à sua sorte;
  • ignorará o sofrimento do povo, não o retirando da opressão e da miséria
  • é um estrangeirado ("O teu general, então, é perfeito: nem sequer é português... (...) Estrangeirado: estrangeirado é que ele é!" - pág. 23);
  • é idolatrado pelo povo ("Para esta cambada, o Freire é Deus." - pág. 24; "... a ninguém tem o povo mais amor do que ao primo de V. Excelência." - p. 34), que nele deposita toda a sua esperança numa revolução ("Em ninguém põe o povo mais esperança do que no general..." - p. 34).

5. Para BERESFORD:
  • é um oficial de patente elevada, com um grande passado militar (p. 64);
  • considera-o inimigo natural dos governadores pelas suas qualidades ("Trata-se de um inimigo natural desta regência." - pág. 71);
  • é seu inimigo pois receia ser substituído por ele e, assim, perder os privilégios de que disfruta, entre os quais se conta a tença que recebe por comandar o exército.;
  • é incómodo porque «... devendo, por nascimento e posição, defender certos interesses, defende outros...» (p. 96).

6. Para D. MIGUEL:
  • considera-o lúcido, inteligente, idolatrado pelo povo, um soldado brilhante, grão-mestre da Maçonaria e um estrangeirado (p. 71);
  • considera-o um "inimigo natural desta regência" (p. 71);
  • considera-o um traidor, daí a necessidade da sua morte: "Morte ao traidor Gomes Freire d'Andrade!" (p. 74);
  • consciente de que não possui a capacidade de comunicação do primo, receia que este ponha em causa o seu lugar na regência e lhe retire a sua projecção como estadista.;
  • considera-o incómodo, já que «... devendo, por nascimento e posição, defender certos interesses, defende outros...» (p. 96).

7. Para PRINCIPAL SOUSA:
  • odeia os franceses, os maçons, porque os considera responsáveis pela falta de respeito a Deus e à Igreja ["São muitos os inimigos do Senhor (...). Fala-se de Deus com ironia e da sua Igreja como se de letra morta se tratasse. Os piores, Srs. Governadores, são os pedreiros-livres (...). Quem será o chefe da Maçonaria?" - pág. 67]. Por ser considerado estrangeirado, Gomes Freire de Andrade representa os franceses, cuja influência faz com que o povo cante "... pelas ruas subservivas." (pág. 40).

8. Para MATILDE:
  • constitui uma ameaça ao Poder, mesmo que não tenha sido conspirador: «Olhe que nem saía de casa com medo que o povo o aclamasse. Juro-lhe que nunca conspirou.» (p. 95);
  • é o seu homem;
  • é o paradigma da honestidade, da verdade, da lealdade: «(...) dizem a verdade (...) vêem para além da cortina de hipocrisia com que os poderosos escondem a defesa dos seus interesses...» (p. 95);
  • não é ambicioso nem adulador: «Vê para além das medalhas que usais no peito...» (p. 96);
  • é ousado, corajoso e destemido: «... olha para vós de frente e sorri...» (p. 96);
  • é valente, justo e leal;
  • está inocente do crime que lhe procuram imputar, isto é, conspirar contra o Poder («... ele não cometeu qualquer crime.» - p. 95).

9. Para SOUSA FALCÃO:
  • é o oposto de D. Miguel Forjaz: «É franco, aberto e leal...» (p. 117) e sabe perdoar, ao contrário do primo, que é «calculista e medíocre»;
  • é um homem corajoso, o exemplo da luta por um ideal, um daqueles «... homens que obrigam todos os outros homens a reverem-se por dentro...» (p. 137).

10. Para FREI DIOGO:
  • é um santo: «Se há santos, Gomes Freire é um deles...» (p. 126);
  • «Foi um grande privilégio que Deus lhe concedeu - o de viver ao lado dum homem como o general Gomes Freire.» (p. 127).

          Em suma, o general Gomes Freire de Andrade é apresentado como:
  • um homem culto, educado e letrado (um estrangeirado");
  • o símbolo da luta pela liberdade e pela defesa dos ideais contrários à prática dos "reis do Rossio";
  • o símbolo da modernidade e do progresso, adepto das novas ideias liberais, por isso considerado pelos governantes subversivo e perigoso, daí que preencha todos os requisitos para ser o bode expiatório do ambiente de revolta;
  • símbolo da integridade e da recusa da subserviência, da capacidade de liderança e de coragem na defesa dos ideais em que crê;
  • culpado (pelos detentores do poder) porque "... é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado..." (p. 71);
  • um homem cuja morte remete para a manutenção de uma ideologia fossilizada, num país estagnado e assolado pelo medo, pela denúncia e pela suspeição (p. 63);
  • um homem cuja morte é duplamente aviltante enquanto militar, pois é enforcado e depois queimado, quando a sentença adequada para ele na qualidade de elemento do exército seria o fuzilamento; por outro lado, a morte pretende ser uma lição para todos aqueles que ousarem afrontar o poder político.

Paralelismo histórico-metafórico


Vicente

          Vicente integra o grupo dos traidores e delatores, o equivalente aos «bufos» da época do Estado Novo. Este grupo move-se pela conveniência, isto é, representa todos aqueles que se aproximam do poder para obter favores e que não têm qualquer pejo em se vender aos governantes. São, no fundo, os verdadeiros traidores que não têm qualquer ética ou valores morais e que passam impunes, alcançando os seus objectivos.

          Vicente é, na peça, o maior representante  desta «classe». Ele é um elemento do povo / popular que surge, pela primeira vez, investido na função de provocador e agitador, procurando denegrir a imagem do general Gomes Freire de Andrade junto do povo através de diversos «argumentos»: a guerra e as feridas e mágoas que deixou na lembrança das pessoas ("Vocês ainda não estão fartos de generais?" - pág. 21); as miseráveis condições de vida em que vivem [a fome que atinge as famílias, muitas numerosas, procurando apelar ao sentimento de pai ("Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?" - pág. 21); a ausência de vestuário; a ausência de habitação ("Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno..." - pág. 21)]; o desprezo a que são votadas as pessoas quando deixam de ter utilidade, abandonadas à miséria e à condição de pedintes, por contraste com os generais, que obtêm glória ("... para eles se encherem de medalhas..." - pág. 22) através do seu sacrifício e vivem confortavelmente("Matas a fome com os cinco réis e com a recordação da campanha. Mas eles... eles vão para casa encher a pança!" - pág. 22 - notar o recurso a uma linguagem rude, sinónimo da sua origem social), indiferentes à desgraça alheia. Depois, concentrando-se directamente no seu alvo, acusa-o de ser um «estrangeirado» (pág. 23) e ser igual aos outros, de estar conluiado com o poder ("Porque está feito com eles, porque essa gente é toda igual." - pág. 24). Nessa sua tarefa, socorre-se por vezes do sarcasmo e da ironia ("É um santo, o teu general..." - pág. 23).

          Durante o diálogo com os dois polícias, Vicente autocaracteriza-se como mentiroso ("... digo-lhes metade da verdade." - pág. 25) e revela toda a sua astúcia, manha e inteligência ("Lembro-lhes que o Gomes Freire é general e falo-lhes da guerra. Haverá alguém que se não lembre da guerra?"; "Odeiam os Franceses e os Ingleses? Chamo estrangeirado ao Gomes Freire..." - pág. 25), todo o seu materialismo, oportunismo e ambição, afirmando que se vende a quem lhe pagar: "Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra." (pág. 25). Ora, estas afirmações permitem deduzir que Vicente poderia perfeitamente aliar-se ao general caso este fosse detentor de dinheiro ou poder, o que quer dizer que não há qualquer ideologia que sustente as suas acções, apenas o seu interesse imediato.
          Por outro lado, esta personagem não tem qualquer rebuço em confessar que trai os seus por dinheiro ("Ias perguntar-me se foi por dinheiro que eu me virei contra os meus..." - pág. 26), mostrando-se descontente, frustrado e revoltado com a sua condição social, revelando igualmente vergonha das suas origens ("´É verdade que nasci aqui e que a fome desta gente é a minha fome, mas... é igualmente verdade que os odeio, que sempre que olho para eles me vejo a mim próprio: sujo, esfomeado, condenado à miséria por acidente de nascimento." - pág. 27). O modo que encontra para ultrapassar a sua condição e o seu sentimento de inferioridade passa pela ascensão político-social rápida, obtida através da denúncia  e da traição e concretizada com a obtenção do cargo de chefe de polícia ("... sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia..." - pp. 30-31). Esse sentimento de inferioridade e de vergonha pelas suas origens leva-o a desprezar os seus semelhantes, os elementos da sua classe ("Rindo-se com desprezo" [do 1.º Polícia] - pág. 31). Por outro lado, em determinado momento denuncia a incapacidade de o povo se fazer ouvir pelo Poder ("Bem vistas as coisas, que pode a voz do povo contra a voz d'el-rei?" - p. 35). A sua origem social fica patente na sua linguagem, quando recorre a provérbios populares: "Há quem diga que a voz do povo é a voz de Deus..." (p. 35).

          No seu percurso, marcado por várias etapas - provocador e agitador (início do acto I), procurando denegrir a imagem do general; espião (vigia a casa de Gomes Freire); delator (denuncia o general, acto pelo qual espera uma recompensa); acusador (confirma a existência das reuniões e indica o nome dos conspiradores) - ficam bem patentes as suas características mais marcantes: a hipocrisia, o servilismo, a adulação, o materialismo, o oportunismo dos que não olham aos meuos para atingir os seus fins. No diálogo entabulado com os governadores, nomeadamente com D. Miguel, demonstra toda a sua adulação ("Avançando e fazendo uma vénia prolongada" [para D. Miguel] - pág. 33; "Francamente adulador" - p. 34), todo o seu calculismo e hipocrisia, visto que age e fala de acordo com aquilo que pensa poder agradar ao seu interlocutor. Dito de outra forma, as respostas que Vicente dá ao governador são, inicialmente, dúbias até ter a certeza da sua posição em relação ao general ("Fixa atentamente D. Miguel porque não tem a certeza de estar a agradar. A meio da frase faz uma pausa para estudar a reacção do governador, e recomeça." - p. 34).

          Após a denúncia e condenação do general, Vicente é recompensado pelos seus «bons» serviços ao ser promovido a chefe de polícia, afinal a sua grande ambição, passando, a partir daí, a ignorar e maltratar os seus conhecidos e os da sua classe social: «Olhou para mim como se nunca me tivesse visto. Estendi-lhe a mão e deu-me uma cacetada na cabeça.». Ele é, em definitivo, aquele que se vende ao poder de forma pouco escrupulosa.
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