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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Análise de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

 I. Vida de José Mauro de Vasconcelos


II. Obras


III. Obra


IV. Época


V. Ação

        1. Resumo

        2. Estrutura

        3. Resumo dos capítulos

                3.1. Primeira parte

                        3.1.1. Primeiro capítulo

                        3.1.2. Segundo capítulo

                        3.1.3. Terceiro capítulo

                        3.1.4. Quarto capítulo

                        3.1.5. Quinto capítulo

                3.2. Segunda parte

                        3.2.1. Primeiro capítulo

                        3.2.2. Segundo capítulo

                        3.2.3. Terceiro capítulo

                        3.2.4. Quarto capítulo

                        3.2.5. Quinto capítulo

                        3.2.6. Sexto capítulo

                        3.2.7. Sétimo capítulo

                        3.2.8. Oitavo capítulo

                        3.2.9. Último capítulo


VI. Análise dos capítulos

        1. Título da 1.ª parte

        2. Capítulo I

                2.1. Título

                2.2. Ação

                2.3. Caracterização das personagens

                        a) Zezé

                        b) Totoca

                        c) Mãe

                        d) Tio Edmundo

                        e) Pai de Zezé

                2.4. Espaço

                2.5. Tempo

                2.6. Narrador

                2.7. Simbologia

                2.8. Temas

        3. Capítulo II

                3.1. Título

                3.2. Ação



O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

Caracterização do pai de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização psicológica
 
● Vive frustrado e apático por estar desempregado.
 
● Manifesta pouca paciência relativamente a Zezé, castigando-o pelas suas travessuras.
 
ii) Caracterização social
 
● Desempregado, sente-se humilhado pela pobreza e pelo facto de ser a esposa a sustentar a casa.
 
● É uma figura de autoridade distante, dura e cansada.
  

Caracterização do Tio Edmundo (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● Não é um parente biológico de Zezé, mas faz parte da vida da família, assumindo o papel semelhante ao de um tio.
 
● É um homem velho e reformado, de cabelo branco e óculos na ponta do nariz, que passa o seu tempo acompanhando Dindinha.
 
● Fala pausadamente, lê o jornal, adotando a postura de quem já não participa ativamente no mundo do trabalho.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Para Zezé, é um “sábio”, uma referência intelectual que admira pelo seu conhecimento.
 
● É visto pela família como “meio trongola”, meio excêntrico ou «maluco», porém, para o narrador, é o portador de uma sabedoria encantadora.
 
● Velho e separado da mulher, vive sozinho, apesar de ter cinco filhos, que não o visitam.
 
iii) Caracterização social
 
● Está aposentado: recebe pensão da Câmara Municipal.
 
● De condição modesta, é visto como «sábio» e respeitado por Zezé.
 
● É um transmissor de cultura: não sendo professor, é um mestre involuntário.
 

Caracterização da Mãe (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● É alta, magra, mas muito bonita, e tem a pele queimada pelo sol.
 

● Os seus cabelos são pretos, lisos e longos, caindo até à cintura.

 
● Usa um lenço na cabeça para se proteger do sol e um avental na cintura enquanto lava.
 
● A sua imagem surge associada ao tanque de lavar a roupa: as mãos na água, o sabão, a espuma e o estendal.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Reprime Zezé, mas não de forma tão dura como outros membros da família.
 
● Demonstra o seu afeto não por palavras, mas através de pequenos gestos, como, por exemplo, cantar para o filho enquanto trabalha.
 
● A canção que cantava ficou gravada no íntimo de Zezé como símbolo de consolo e memória afetiva.
 
iii) Caracterização social
 
É uma mulher do povo, casada, com vários filhos.
 
É uma mulher trabalhadora: sustenta a casa e a família com o escasso produto do seu trabalho – lava a roupa da família do Dr. Faulhaber.
 
Vive condicionada pelas circunstâncias: o marido está desempregado, as contas atrasadas, a luz cortada.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Análise do conto "Desenredo", de Guimarães Rosa

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Análise do conto "Barra da Vaca", de Guimarães Rosa

I

II

Análise do conto "Arroio-das-Antas"

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3

Análise de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

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    Continuação da análise aqui: »»».

Análise do poema Cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto

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Análise do poema "A lição de poesia", de João Cabral de Melo Neto

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Análise do poema "A Viagem", de João Cabral de Melo Neto

    A partir da obra Os três mal amados (1943), a poesia de J. Cabral pauta-se pela:
        =- construção
        =- racionalidade
        =- objetividade

    Estes elementos estão presentes em obras como O Engenheiro (1945) e Psicologia da Composição (1947).
    Em Pedra de Sono, o domínio do Surrealismo pode verificar-se em duas vertentes:
        =- alucinatória, pois o Surrealismo dá total liberdade à mente, às imagens tal como elas vão surgindo;
        =- construtivistas: nesta vertente, o rigor da construção sobrepõe-se ao domínio onírico.
    Estas duas vertentes já aparecem em Pedra de Sono, mas aqui a vertente alucinatória sobrepõe-se à construtivista, mas não com o relevo que vai ter nos livros que se seguiram.
    No Engenheiro, verifica-se ainda o embate das duas venturas; o problema não foram ainda resolvido, mas o projeto construtivista começa a ganhar espaço e relevo na construção dos poemas. Mas mantém-se ainda o clima surrealista, evidente na abundância de palavras ligadas ao domínio onírico: sonho, sono, noite, morte.
    Nesta obra, temos que distinguir dois tipos de poemas:
        . os poemas que são escritos segundo o ritmo da expansão onírica;
        . os poemas que, embora mantendo as palavras derivadas da expansão onírica, já estão sujeitos a um projeto de construção. Assumem, assim, uma forma mais racional e objetiva.

    Este poema é um exemplo vido do primado da expansão onírica; continuamos a ter presentes os três temas comuns, que são a noite, o sonho e a morte e uma sucessão de imagens oníricas.    
    No poema “Poesia”, a interrogação mostrava uma clara tentativa de racionalização; aqui esta função de objetivar as coisas não é tão evidente.
    Outra característica do poema é o domínio da subjetividade. Mas esta característica está igualmente presente na vertente construtivista. O poeta aparece à deriva entre as sugestões com que se depara e relaciona-se com elas de forma diferente: umas vezes, tenta separar-se e outras funde-se com elas.

Análise do poema "O Poeta", de Gracialiano Ramos

Este poema é uma sucessão de imagens oníricas tal como elas surgem ao poeta, tal como dizia o Surrealismo.

    O poeta termina com uma tentativa de racionalização, concretizada por alguns vocábulos ou expressões:
        - “acenderam”: ver algo que estava no escuro; é o primeiro indício da racionalização;
        - “duas flores secas” representam um tipo de poesia objetiva, concreta, sem lágrimas. Por isso, há uma certa racionalidade e tentativa do poeta se libertar do mundo onírico.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Análise do poema "Poesia", de João Cabral de Melo Neto

    O discurso é interrogativo e está ligado a um clima de mistério e também de racionalização. O discurso parece ser o único elemento que permite chegar à racionalização e nunca o conteúdo, apesar de haver palavras que só por si são racionais, claras e objetivas: sol, luz, saúde (são palavras que fogem ao domínio da noite, do escuro e do sonho). Mas toda a “luz” e “saúde” são subordinadas a um mistério maior. Por isso, toda a tentativa de racionalização pelo uso de certas palavras desaparece, ficando apenas o discurso interrogativo.
    A conquista de um território diurno esbarra com um território em que se produz a poesia. Há uma desistência do real enquanto instância passível de organização pela consciência. Apesar do poeta procurar ordenar o real, pela sua consciência acaba rendido à evidência de o não conseguir. A poesia surge como ato de criação, onde é valorizada a mente onírica, do sonho, da evasão do criador, que não consegue ter uma atitude crítica perante o que cria.
    Como conclusão, poderemos dizer que a poesia é o resultado da mente do criador e, como dizia o Surrealismo, é um conjunto de expansões oníricas. A interrogação surge ao poeta como única forma de colocar em causa o que foi dito.

Análise do poema "Composição", de João Cabral de Melo Neto

    O Surrealismo tem como principal característica a expressão de imagens oníricas, que também neste poema são abundantes.

    Ao lado da vertente de organização consciente e objetiva, sobressaem no poema três ideias fundamentais: a ideia de noite, de sonho e de morte. Mas em J. Cabral, estas imagens são submetidas a um processo de racionalização, concretizado no final pelo verbo “digo”, que marca a separação do mundo onírico e a consciência de criação desse mundo pelo “eu” lírico. O sujeito lírico compactua com o onírico, mas não o subscreve, não o “celebra”.

Pedra de Sono, de João Cabral de Melo Neto

    Os poemas reunidos nesta obra foram escritos entre 1939 e 41.
    A obra tem uma epígrafe constituída por um verso de Mallarmé: "Solicitude, récife, etoile",que mostra uma certa influência do Simbolismo. Apesar de não ser simbolista, João Cabral apresenta alguns traços comuns ao Simbolismo:
        - espírito crítico
        - traçar artes poéticas. Este 

Vida e obra de João Cabral de Melo Neto

Motivo e tema de Vidas Secas

    Há determinados motivos centrais e o tema é construído através deles.

    Se este é um romance regionalista, o núcleo do romance deve ser a região e também o modo de vida e de ser das personagens. A paisagem e a seca são elementos omnipresentes em todo o romance e, por isso, é inútil separá-los de todos os outros motivos e temas.

    Os motivos principais são:

            1. Viagem: relacionada com um trânsito de caráter cíclico e toda a vida das personagens tem como polos a viagem. A vida das personagens acaba por ser a própria viagem com um tempo de esperança no meio.
    Como o que leva as figuras a viajar são motivos exteriores, a viagem acaba por ser errância, que se caracteriza pela ausência de um plano e tempo específicos. É como se o destino das personagens as levasse a andarem sempre errantes de lugar para lugar. Se as personagens viajassem por motivos interiores, então seria verdadeiramente viagem; como tal não acontece, é errância, sempre condicionada por questões externas, que se identificam com o destino.
    Logo no capítulo I, temos um contraste entre um presente de desespero e u  futuro que poderá ser de esperança e é isto que os leva continuamente a viajar e a viagem suscita dois estados: desalento e anseio. A viagem tem um sentido místico de procura e esperança. Mas esta ideia não é constante no romance. Se em determinadas alturas, as personagens estabelecem esta dualidade são elas próprias que ganham a consciência de que ela não é constante. Fabiano tem consciência do seu destino de errância; há uma sina que os leva a mudarem constantemente de lugar. Mas no final do romance, Fabiano e Sinhá Vitória sentem necessidade de acreditar num futuro melhor, porque confiam um no outro. Este afinal tem como centro o sertão, núcleo fundamental de mão de obra que envia para a cidade.
    A viagem equivale a uma mudança, que é constante e, assim, aparece uma referência universal nu romance regional. Se a viagem é um motivo provocado pelas características de uma determinada região, ela consegue adquirir uma dimensão universal, através do destino e da fatalidade que rege a vida das personagens.

            2. Problema da linguagem: a linguagem é uma preocupação essencial de Fabiano e, neste campo, há uma referência constante a Tomás da bolandeira. São vários os exemplos disto ao longo do romance: Fabiano tem consciência de que o conhecimento das coisas, a cultura, dão uma certa superioridade ao indivíduo. Elas estão ao serviço de outros elementos, como o poder, a exploração e a revolta, que se tornam efetivos e eficazes pela linguagem. Pela sua dificuldade de comunicação, Fabiano tem consciência da sua inferioridade e incapacidade de exercer um poder; ele sabe que é pelo poder da linguagem que é explorado, e como não a domina nunca será capaz de exercer o poder e explorar. Por outro lado, Fabiano também tem a noção de que a linguagem exige uma certa perícia e domínio da língua que ele não tem. Mas ele coloca em causa a necessidade de conhecer as coisas e o interesse desse conhecimento. Isto acontece quando as crianças o interrogam e ele põe em causa o conhecimento, pois através do domínio do conhecimento, as crianças podiam pôr em causa o seu poder. Também fabiano usa o seu restrito poder para se impor na família. Também Seu Tomás conhecia tudo, mas isso não o impediu de sofrer as vicissitudes da seca.
    A própria revolta acaba por não ter sucesso: o patrão tem a autoridade e ele tem apenas que a acatar. A linguagem e o conhecimento são fontes de poder, nas não valem nada, porque acima de tudo está um poder superior: destino, que submete todas as personagens.
    O problema da linguagem é também sentido pelas crianças; elas sentem a necessidade de nomear as coisas para lhes retirarem o mistério e delas se apoderarem.
    A linguagem também se impõe como problema em Sinhá Vitória. É pela linguagem que estabelece ligação com os outros.
    É ainda pela linguagem que as personagens podem mostrar os seus sonhos; é pela linguagem que surge o desejo e a esperança, dá-lhes a possibilidade de se revoltarem. É pela construção de um discurso de esperança e revolta que Sinhá Vitória leva Fabiano a mudar a sua atitude. A revolta no domínio do sonho e esperança é a única possível.

            Relação entre os 2 motivos: viagem e dificuldade de comunicação. Temos entre os dois motivos uma relação de implicação. A viagem é causada pela fatalidade, mas a linguagem seria um momento de revolta. A fatalidade é o símbolo da viagem e a revolta o símbolo da dificuldade de linguagem e ambos se implicam. Esta revolta que a linguagem podia possibilitar acaba por ser inútil, por causa desse destino imutável que determina a viagem.
    No fundo, as personagens caem num beco sem saída. A viagem e a dificuldade de comunicar são dois motivos essenciais, cujas consequências se cruzam ao longo do romance. Fica a ideia da impossibilidade de mudança. É perante isto que Fabiano aceita o poder do patrão, pois a revolta é impossível. Ele não tem capacidade de argumentar e, por isso, o poder de soldado amarelo aumenta também pela autoridade de que está investido. A única revolta de Fabiano consiste na questionação da legitimidade da opressão exercida. É uma revolta íntima e nunca exteriorizada. Daí o isolamento a que se votam; aceitam o inevitável, não fogem ao destino e apenas se revoltam em sonho.

    No final, Sinhá Vitória constrói um mundo de sonho e Fabiano é aliciado por isso, mas o sonho condu-lo a uma cidade onde vão perder a sua liberdade. Assim, abdicar da região que lhes dava uma certa liberdade é outro motivo.
    Do romance fica a ideia da impossibilidade de mudança, do destino e uma imagem de rudeza e opressão.
    A viagem e suas implicações, todo o destino e fatalidade, a revolta íntima e automática e a impossibilidade de comunicação constituem um tema único e geral: denúncia da opressão, que é uma necessidade do homem universal e não apenas do homem do sertão. É pelo uso de motivos regionais que se alcança um tema universal e é pela conquista deste tema que o romance regional se torna universal.

Foco narrativo em Vidas Secas

    Cada capítulo é dedicado a uma personagem, embora as outras possam estar presentes. O tipo de discurso que temos é quase sempre o discurso indireto livre: o narrador na 3.ª pessoa é substituído pela visão e pensamento das personagens. Mas a distância entre os dois discursos não é fácil de efetuar, de tal modo se sobrepõem. Este processo já era usado por Machado de Assis, embora com objetivos e efeitos diferentes. É um processo presente em todo o romance: muitas vezes, não sabemos se estamos perante a visão das personagens ou do narrador.

    A descrição física é substituída, por vezes, pela descrição do sentimento e o narrador é substituído pelas personagens e isto confere ao romance uma grande dose de objetividade.

    No início de cada capítulo, temos um relato omnisciente, que é quase sempre substituído pelo relato da personagem, o que tem repercussões ao nível do discurso.

    No capítulo referente ao menino mais novo, o vocabulário e a construção utilizados mostram-nos a evolução do pensamento do menino. E é constante a alteração entre a perspetiva do menino e a do narrador, que se sobrepõem, sendo difícil separá-las.

    O processo de substituir perspetivas acaba por ser um facto importante na própria estrutura do romance: se o narrador é substituído pela visão das personagens, ele vai ter a ciência que as personagens lhe permitirem.

    O discurso vai ser condicionado pelo próprio conhecimento que as personagens têm em relação às coisas. O foco narrativo e a ciência do narrador são condicionados por dois aspetos:
            - discurso indireto livre: substituição da voz do narrador pela voz das personagens;
            - recurso ao monólogo.
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