segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Por gentileza, faleça!


A teorização do sermão (“Alegoria da Árvore”, in Sermão da Sexagésima)


Estrutura do sermão

            Conforme os preceitos retóricos clássicos, oriundos principalmente de Aristóteles, Quintiliano e Horácio, o discurso oratório devia apresentar determinada estrutura. Discrepantes, contudo, eram as opiniões acerca das partes que a integrariam, admitindo uma escala de variação entre duas a sete:

Método da oratória

            No Sermão da Sexagésima, o Padre António Vieira expôs o método que adotava na construção da sua oratória:
1. Definir a matéria;
2. Reparti-la;
3. Confirmá-la com a Escritura;
4. Confirmá-la com a Razão;
5. Amplificá-la, dando exemplos e respondendo às objeções, aos “argumentos contrários” (contra-argumentar);
6. Tirar uma conclusão e persuadir, exortar.


            Dito de forma mais simples:


O sermão no século XVII

            Durante o século XVII, o sermão foi o género literário predominante e a base da mais importante cerimónia social: a pregação.
            O púlpito constituía o último bastião da liberdade de expressão, nomeadamente durante os sessenta anos de domínio filipino em Portugal. De facto, nesse período apenas alguns sacerdotes se permitiam falar livremente, por exemplo, contra a opressão espanhola. Com a dominação filipina e consequente repressão de qualquer tipo de oposição, o púlpito tornou-se o local a partir do qual alguns padres podiam falar, criticar e acusar. Com a restauração e D. João IV, o púlpito serviu de tribuna para o comentário político e crítico ao Poder e à Sociedade; a pregação chegou a todas as classes sociais e foi ouvida por multidões que não sabiam ler.
            Por outro lado, enquanto discurso de caráter religioso, o sermão torna-se uma das armas fundamentais da Contrarreforma. Os seus traços mais significativos na época eram os seguintes:
▪ a dimensão teatral e espetacular da oratória religiosa (por exemplo, o púlpito da igreja de S. Roque, em Lisboa, configura um exemplo da importância deste elemento arquitetónico na igreja seiscentista);
▪ o púlpito constitui um palco e o pregador um ator (a oratória jesuíta ensinava ao futuro pregador, para além dos preceitos formais, como deveria dispor as pregas do hábito, os gestos que deveria fazer, o tom de voz a empregar, a linguagem fácil, etc.);
▪ o sermão tinha uma função lúdica, idêntica à das demais artes de palco da época, nomeadamente o teatro, a ópera, o ballet, os enterros, as procissões, as toradas ou os autos de fé);
▪ o seu ritual social torna-o, muitas vezes, numa prática que visa culpabilizar e admoestar os ouvintes, daí a necessidade do caráter de deleite intelectual, em que frequentemente se transformou;
▪ a associação de elementos e rituais inerentes à prática do sermão, como a luz e o incenso.
            De facto, embora já existisse há quase dois mil anos como forma de divulgação do Evangelho, ganhou preponderância em épocas de confusão doutrinal, como sucede no século XVII, no contexto da Contrarreforma, quando a Igreja se viu confrontada com a necessidade de recuperar para a fé aqueles que dela se tinham afastado e de consolidar a adesão espiritual de quem permanecera fiel a Roma. Deste modo, no Concílio de Trento elaborou-se um vasto programa de divulgação da doutrina cristã, baseado sobretudo na formação dos sacerdotes, na pregação e no ensino do catecismo. Os pregadores deveriam expor os vícios que deveriam evitar e as verdades que deveriam praticar, para poder escapar ao Inferno e alcançar a felicidade eterna.
            O sermão constituía, por isso, um grande acontecimento. Instalado no púlpito, diante da multidão expectante, o pregador desenvolvia as suas ideias num sermão de estrutura clássica: exórdio, exposição, confirmação e peroração.
            Frequentemente, o orador expunha antecipadamente o assunto do sermão e eventualmente a sua divisão em partes, de modo a facilitar a participação dos ouvintes. Por outro lado, como a confirmação poderia conter elementos (conceitos ou comparações de difícil compreensão, por exemplo) que dificultariam a compreensão e o acompanhamento do auditório, antecipar o assunto constituiria uma medida indispensável para a sua perceção e apreensão.
            O pregador teria até a esse momento atingido um duplo objetivo: expor alguns conceitos doutrinais (desempenhando assim a função didática que cada sermão deve ter), e aqueceu psicologicamente o ambiente, como convém antes de se dar início às considerações morais destinadas a comover os presentes e a fazer nascer neles o desejo de se emendarem. Nesta altura, ganha grande importância a técnica de evidenciar a enormidade dos bens e dos males mais ou menos deduzíveis do assunto exposto. Para alcançar o resultado desejado, o pregador, aumentando aos poucos o seu tom de voz, servir-se-á do arsenal retórico habitual – descrições, comparações, alegorias – e mesmo de alguns expedientes teatrais.
            A confirmação culminará com alguma consideração ou algum efeito reservado para o final devido ao seu grande poder emotivo. De seguida, o pregador, sem deixar que sesse clímax emotivo se extinga, prepara-se para a conclusão do sermão, que consiste em geral numa enumeração dos seus melhores argumentos, convenientemente ampliados.
            Os seus efeitos, porém, eram de curta duração, pois, passadas algumas semanas, a situação retornava ao mesmo.
            Nas palavras de Margarida Vieira Mendes (“Apresentação crítica”, in Sermões do Padre António Vieira), «O púlpito era um palco e o pregador um ator a tentar exibir do melhor modo possível a sua palavra, ajustando as modulações da sua voz aos efeitos visados junto do auditório. […] A pregação era um espetáculo, tanto quanto possível espetacular. […] Aliás, uma das tradicionais categorias de funções oratórias era o delectare (deleitar), para além do docere (ensinar) e do movere (mover ou influenciar o comportamento do ouvinte) e estava no espírito da Contrarreforma a captação e catequização das multidões não tanto pela razão, que se estava cada vez mais revelando perigosa para a religião de então, mas antes pela sensibilidade, pelo prazer, pelo puro gozo intelectual, e também pelo terror e piedade que moveriam (movere) os espectadores […].
            Para além dos temas religiosos, tratavam-se as questões sociais, políticas, económicas, literárias e militares. Daí que as qualidades do pregador fossem essenciais para o sucesso do sermão: a palavra fácil, a imagem sugestiva, a sonoridade da voz, o gesto teatral e arrebatado.
            Tudo isto se reflete na arquitetura dos templos barrocos, carregada de ornamentação, de imagens e palavras fulgurantes, lado a lado com os finos prazeres sensuais de aromas de incenso, música dos moletes, brilhos de luzes, faulhando de velas, refletidos de ouros, pratas, pedras preciosas, lhamas e brocados.

            Texto adaptado de:
. MORÁN, Manuel, e ANDRÉS-GALLEGO, José, 1995. “O Pregador”. In VILLARI, Rosario (Dir.), 1995. O Homem Barroco (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo). Lisboa. Presença (pp. 117-142);
. MENDES, Margarida Vieira, 1992. “Apresentação crítica”. In Sermões do Padre António Vieira (apresentação crítica, seleção, notas e sugestões para análise literária de Margarida Vieira Mendes). 4.ª ed. Lisboa: Editorial Comunicação (pp. 15-17) (1.ª ed.: 1982).

Definição de «sermão»

            O sermão insere-se na arte de pregar, é uma forma de oratória, consistindo num discurso sagrado sobre alguma verdade da doutrina de Cristo, o que significa que se destina a ser proferido oralmente.
            O vocábulo sermão deriva, etimologicamente, do latim sermo, onis, que significa conversação. Posteriormente, sermão acabou por significar, por um lado, repreensão e, por outro, convencer, persuadir alguém a seguir determinado caminho moral ou religioso.


A oratória


            A oratória, ramo da argumentação, é a «arte de discursar em público, com o objetivo de persuadir o auditório».
            A oratória agrupa os autores que se empenharam, pela eficácia da palavra, em persuadir os outros da justiça e da verdade das suas causas. Há várias espécies de oratória:
- forense ou jurídica: defende os direitos civis dos cidadãos;
- política: incide sobre as deliberações referentes ao bem comum das sociedades;
- académica: versa temas culturais;
- sagrada: o orador fala em nome de Deus e proclama uma mensagem ligada aos valores divinos.
            De uma forma mais simplista, podemos dividir a oratória em dois grandes conjuntos: a profana, cujos maiores representantes foram Demóstenes (384-322 a.C.), na Grécia; Cícero (106-43 a.C.), em Roma; Almeida Garrett (1799-1854) e José Estêvão (1809-1862), em Portugal.
            No século XVII, a oratória adquire uma enorme importância sob a forma do sermão, perspetivado como arte de palco e a base da cerimónia social mais significativa: a pregação.
            Por outro lado, na segunda metade do século XVI e na primeira metade do século XVII, a música tornou-se muito importante no acompanhamento da mensagem sagrada. No século XVIII, a oratória musical fixou-se entre as grandes formas da história da música. São bem conhecidas as obras geniais de J. S. Bach (1685-1750), Haendel (1685-1759), Haydn (1732-1809) e Mozart (1765-1791).

            Uma regra que o orador deve ter em consideração é o bom conhecimento do auditório a quem se dirige. Quanto mais for esse conhecimento, maiores serão as possibilidades de êxito das ideias/teses que defende, daí a necessidade de um prévio estudo do perfil do destinatário. O orador tem que adequar a sua argumentação, a sua linguagem às características do seu auditório/destinatário.
            O método de pregação do Padre António Vieira, por exemplo, consiste na utilização de lugares-comuns facilmente reconhecíveis pelo seu auditório, que, seguindo as normas da época, desenvolvia a argumentação dos seus sermões recorrendo a “conceitos predicáveis”.
            Outra regra da argumentação é que não age sobre evidências, pois o que é evidente não necessita nem de demonstração nem de apresentação de argumentos a favor ou contra. A argumentação não pode ser a afirmação da verdade, porque todo o verdadeiro diálogo nunca esgota a possibilidade de investigação da verdade. A argumentação não pode partir do pressuposto de que uma conclusão retórica seja, por definição, a conquista de uma verdade universal. Argumentar é procurar coerência onde existe dúvida, é descortinar sentido num paradoxo, mas também pode ser dar sentido a uma absurdidade ou a uma contradição.
            A argumentação é sobretudo contestação.

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