quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Poema I ("O Guardador de Rebanhos")


     Este texto abre a obra O Guardador de Rebanhos, constituída por 49 poemas, todos com métrica irregular e verso branco, escrita maioritariamente no dia 8 de março de 1914, o «dia triunfal», de pé contra uma cómoda, segundo a carta sobre a génese dos heterónimos a Adolfo Casais Monteiro.
     Convém, porém, esclarecer que, de acordo com uma análise mais cuidada do espólio, nenhum poema está datado desse dia, antes se situam entre 4 de março e 7 de maio de 914. Este facto poderá ter três explicações: 1.ª) "o gosto de Pessoa pelo drama e pela encenação, pela sua própria memória futura, levaram a que ele ficcionasse o nascimento da obra maior de Caeiro num só dia"; 2.ª) "ele, não se recordando exatamente desse período - pouco mais de duas semanas, vinte anos atrás - as sintetizasse num só dia, realmente um dia glorioso, (...) que ele recordava por ser o dia em que tinha «inventado» os heterónimos"; 3.ª) "o dia 8 de março de 1914 tem um significado especial para Fernando Pessoa", daí a sua escolha.
     Por outro lado, O Guardador de Rebanhos era apenas uma parte de uma obra maior de Alberto Caeiro, intitulada Ficções do Interlúdio, que englobaria a totalidade da produção dos heterónimos.
     Além de O Guardador de Rebanhos, há ainda a registar outras duas obras de Caeiro: Poemas Inconjuntos (17 poemas) e O Pastor Amoroso (8 poemas).

     O sujeito poético inicia o poema com a afirmação de que nunca guardou rebanhos, isto é, de que não é um pastor na realidade, mas comporta-se como se o fosse («Mas é como se os guardasse» - v. 2), ou seja, há uma parte de si que se comporta como um pastor - a alma -, uma alma de pastor (comparação do verso 3) que «anda pela mão das Estações / A seguir e a olhar» (vv. 5-6).
     Estes dados permitem-nos, desde já, concluir que estamos na presença de um pastor por metáfora que procura estabelecer com a natureza uma relação de comunhão, de harmonia, de simbiose: «Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estações». De pastor, tem o deambulismo, o andar constantemente e sem rumo definido, observando o que o rodeia, a variedade inexaurível da natureza, concentrado numa única atividade: olhar («A seguir e a olhar.» - v. 6). A sua contemplação da natureza, da beleza primordial, faz com que o «eu» sinta a realidade como se a vivesse intensamente, de acordo com um modo de vida similar ao de um pastor, que contempla, além da proximidade e intimidade ["(...) Natureza sem gente" - v. 7]. De facto, o pastor é o símbolo da solidão do pensamento contemplativo: é o homem que está sozinho na natureza e que ocupa os seus dias vagueando com o seu rebanho, sem a perturbar, alimentando-se do que ela dá, «vislumbrando os seus segredos no silêncio». Daí que o «eu» se considere um pastor, visto que incorpora em si as qualidades de um pastor, mas não é limitado pela vida que um pastor leva. Ou seja, ele serve-se da "arte do pastor para atingir o estado contemplativo, como um budista se serviria da meditação".
     A consequência imediata de o sujeito poético possuir uma alma assim é ter acesso a «toda a paz» que a natureza sem gente proporciona - ela vai «sentar-se» a seu lado (vv. 7-8). Caeiro apresenta-se, assim, em suma, como um poeta metáfora e como o poeta da natureza e do olhar.

     No entanto, no verso 9, o sujeito poético confessa-se triste. Numa primeira leitura, essa tristeza é motivada pelo fim do dia, representado pelo pôr do sol, dado que, quando a noite cai sobre a natureza, ele sentirá maiores dificuldades em contemplar a natureza. E, como já sabemos, Caeiro é o poeta do olhar, o sensacionista para quem a visão é o sentido primordial. Por outro lado, note-se como a tristeza invade o «eu» de forma impercetível, como a borboleta que entra impercetivelmente pela janela.
     A nível estilístico, é de salientar, na primeira estrofe, antes de mais a personificação da natureza (vv. 5, 7-8) e as comparações (vv. 3, 9 e 13), recursos que evidenciam a relação íntima e intensa que o «eu» estabelece com ela. Por outro lado, genericamente, a comparação é o recurso estilístico de que Caeiro se socorre para exprimir a concretização do abstrato, para aproximar o imaginário do real, tornando-o simples e acessível. Por seu turno, a conjunção coordenativa adversativa «mas» (v. 9) sugere o caráter contraditório da tristeza do sujeito poético, pois, se ele tem à sua volta tudo o que deseja, por que razão se sentirá triste?

Os "rankings" das escolas vistos por Maria Filomena Mónica


Os "rankings" das escolas

Por Maria Filomena Mónica                       

OS JORNAIS publicaram recentemente as listas derankings, ou seja, a ordenação das escolas segundo as notas obtidas pelos estudantes. À cabeça, surgem as privadas, o que nos pode levar a pensar que os seus docentes são melhores do que os das públicas. Erro: o êxito académico não depende apenas do que se passa dentro das instituições, mas de uma multiplicidade de factores, de que a origem social, associada à localização, é um dos mais importantes. Basta lembrar que, por hora, os filhos dos ricos são expostos a mais 1.500 palavras do que os dos pobres, o que leva a que, aos 4 anos, exista já uma diferença, a favor dos primeiros, de cerca de 32 milhões de palavras.
Uma vez que as públicas têm de cobrir o território nacional, as do interior exibem elevadas taxas de insucesso. A secundária de Portalegre não conseguiu uma única média positiva; na da Guarda, três das cinco melhores escolas não conseguiram atingir os 10 valores; na freguesia de Rabo de Peixe, na ilha de S. Miguel, verificaram-se, no exame do 9.º ano, as piores classificações do país. O Presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares lembrava que, em vez de se concentrarem no lugar nos rankings, os docentes se deviam preocupar antes com «a mais valia» que as escolas traziam aos alunos, após o que, com razão, salientava que nada é uma fatalidade, ou seja, que mesmo os alunos desfavorecidos podiam alcançar bons resultados. Era esse o caso das Escola Básicas de Rio Caldo (Braga), Dr. Manuel Magro Machado (Portalegre) e Couço (Santarém) que, nos exames de Matemática e de Português do 9ª ano tinham subido mais de mil lugares.
Felizmente, as leis sociológicas não são férreas. Não foi em Lisboa que as melhores notas foram obtidas. No universo das públicas, destacaram-se a B+S de Vila Cova (Barcelos), com a média mais alta do país em Matemática A (142,55) e a Secundária da Gadanha da Nazaré, com a mais elevada nota em Geometria Descritiva (178,25). Curiosamente, provando que as pessoas são mais importantes do que os edifícios, o Liceu Passos Manuel cujo restauro, no âmbito da Parque Escolar, exigiu ao Estado 26 milhões de euros, ficou em 481.º lugar, com uma média de 7,8 valores, o que o coloca entre os dez piores. É sabido que o grupo social que mais importância dá à educação é a classe média. Não me espanta assim que a melhor escola secundária de Lisboa tenha sido a José Gomes Ferreira, em Benfica, cujos pais têm uma participação nas reuniões na ordem dos 70 a 80 %.
Portugal teve de fazer um grande esforço depois de 1974. Nem tudo correu bem, mas o país conseguiu escolarizar a maior parte dos jovens, facto que levou a que as escolas sejam hoje muito diferentes das que existiam na minha adolescência, quando, ao terminar a primária, apenas 2 em cada 10 alunos continuava a estudar. Para muitos, a escola contemporânea representa um mundo radicalmente novo. É por isso que o difícil não é ensinar filhos de privilegiados mas sim jovens que, em casa, nunca viram os pais abrir um livro. 
«Expresso» de 27 Out 12

Hallowe'en


Da solidão tecnológica

Hoje já clicou com o seu vizinho?
Por Ferreira Fernandes
     NA ÚLTIMA 'Sábado', o jornalista Luís Silvestre conversa com a cientista britânica Susan Greenfield, especialista dessa transformação tremenda que está a acontecer no nosso cérebro com os computadores e outros saberes de ponta dos dedos.
     Já uma vez, na pré-história, os dedos - o facto de o polegar ser oponível aos outros - nos aumentaram o cérebro. 
     Pois há dias vi um movimento em sentido contrário. Um desenho, naturalmente feito por computadores, do homem do futuro: vamos ser mais feios, cabecinha mais de ervilha, porque não precisamos de tanto espaço para a memória. 
     Como eu percebo essa previsão. No liceu eu era campeão das capitais, até sabia de nomes hoje desaparecidos de cidades, como Santa Maria Bathurst (fui ver: hoje, Banjul, capital da Gâmbia), mas custava-me horas a decorar. Agora, com dois dedilhares, sei quantas pizarias há em Mendoza, Argentina, e em que rua ficam. E logo esqueço, estreitando, se não a minha cabeça, a dos meus descendentes. 
     Voltando à entrevista da cientista, encontro um alerta para uma perda, não essa hipotética do tamanho da cabeça, mas não menos preocupante: a da empatia. Susan Greenfield diz: "As relações entre as pessoas precisam de muito treino, cara a cara, e há uma nova geração que só comunica por computador." Tele, isto, tele, aquilo, vamos cada vez mais longe, quando o que mais falta nos faz é falar com o vizinho. 
     Foi bom ouvir uma cientista falar da necessidade do "cara a cara". 
DN, 29 de outubro de 2012

domingo, 28 de outubro de 2012

O Sentido dos Heterónimos

     "Custa-me imaginar que alguém possa um dia falar melhor de Fernando Pessoa que ele mesmo. Pela simples razão de que foi Pessoa quem descobriu o modo de falar de si tomando-se sempre por um outro. Quando encarnada em figuras que parecem vivas - e ele supunha mais vivas do que ele - essa descoberta de si como outro, convertida em jogo da sua verdade, chamou-se Heteronímia.
     O «mito-Pessoa», tanto em si como no seu estatuto poético de amplitude hoje universal, repousa essencialmente na encenação prodigiosa a que Pessoa submeteu o seu radical sentimento de inexistência. O célebre «drama-em-gente», a invenção dos Pessoa-outros destinados a cumprir pelo único que havia os sonhos de felicidade ou grandeza imaginárias que só de os pensar o destruíam, é o último ato do longo processo de dissolução do Eu inaugurado pelo Romantismo.
     A poesia de Caeiro, Reis e Campos não precisa de outro «sujeito» que o da voz «anónima», anónima como nenhuma outra da nossa tradição - por isso nos tocou tanto - que nele se fala e nos fala, tornando-nos imaginariamente felizes em Caeiro, indiferentes à felicidade ou infelicidade em Reis e impossivelmente felizes em Campos. A criação dos heterónimos é só ficção de interlúdio, maneira para Fernando Pessoa ter sido, num breve momento, futurista com Álvaro de Campos, romano e invulnerável à angústia com Ricardo Reis e divinamente grego, alegre ou triste como a natureza, com Alberto Caeiro. Tudo isto, para nos dizer, como ninguém o dissera antes, que Deus, o deus da nossa alma e da nossa cultura milenarmente cristãs, estava morto e, com ele, as crenças, os valores, as ilusões, a moral, a política de que era a suprema e materna sigla. Mas o que Pessoa compreendeu, antecipando-se a deduções futuras e óbvias, foi que essa morte de Deus era, ao mesmo tempo, morte do Homem, fim da ilusão humanista que imaginava ainda poder justificar, na perspetiva de uma ausência de Sentido transcendente para o universo e a História, os mesmos valores, as mesmas ilusões consoladoras, a mesma moral tranqulizante.
     Caeiro, Campos, Reis, não são mais que sonhos diversos, maneiras diferentes de fingir que é possível descobrir um sentido para a nossa existência, saber quem somos, imaginar que conhecemos o caminho e adivinhamos o destino que vida e História nos fabricam. Ter sonhado esses sonhos não libertou Pessoa da sua solidão e da sua tristeza. Mas ajudou-nos a perceber que somos, como ele, puros mutantes, descolando para formas inéditas de vida, para viagens ainda sem itinerários. Com Caeiro fingimos que somos eternos, com Campos regressamos dos impossíveis sonhos imperiais para a aventura labiríntica do quotidiano moderno, com Reis encolhemos os ombros diante do Destino, compreendemos que o Fado não é uma canção triste mas a Tristeza feita verbo."

Eduardo Lourenço, Fernando, Rei da nossa Baviera

A heteronímia

     "A palavra heterónimo deriva do grego e significa «outro nome». Pessoa usou este neologismo, o qual se distingue da palavra pseudónimo, pois esta é entendida como um nome suposto que substitui o nome próprio do autor, sem que isso altere a sua personalidade literária.
     O caso de Pessoa ganha um sentido muito especial, porque a heteronímia afeta o sentido mesmo da sua obra considerada na sua globalidade. Tendo em vista Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, Pessoa procura ser «esses outros», que se constituem «não eus sintetizados num eu-postiço». Daí o ter considerado essas personagens autorais - para as quais elaborou biografias que, curiosamente, não fez em relação a si próprio - como sendo «minhamente alheias».
     O recurso aos heterónimos consiste, pois, numa passagem da expressão pessoal, isto é, de uma personalidade que seria a do autor, para uma personificação estética que é já a do texto ou da escrita. É com este sentido que Pessoa utilizou aquela expressão, de modo que a rotação que se faz da personalidade propriamente dita para a personificação estética implica múltiplas questões que foram abordadas pelo poeta ou estão implícitas em tal noção: o papel desempenhado pelo autor, a sinceridade ou autenticidade, o fingimento (expressão que se torna central na sua poética e que o início de um poema seu consagrou: «o poeta é um fingidor»), o caráter dramático da poesia, a redução da subjetividade, etc.
     Pessoa afirma, referindo-se aos heterónimos: «Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás como se deve ler.». Passa-se, numa afirmação como esta, do plano da escrita poética para o da leitura, havendo nesta uma circularidade que a vai fixar, finalmente, na própria realidade textual; ler os heterónimos «como estão» circunscreve a sua realidade à do texto que, por sua vez, lhes confere a realidade que é a da própria escrita."

Fernando Guimarães, «Heteronímia - Poética»,
in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português

"Não sei quantas almas tenho" - Correção do questionário


1. C

2. A

3. C

4. A

5. B

6. A

7. C

8. B

9. A

10. B

11. C

12. A

13. B

14. A

15. A

16. C

17. B

18. C

19. C

Miguel Relvas teve equivalência a cadeiras que não existiam

Licenciatura na Lusófona

Relvas teve equivalência a cadeiras que não existiam

27.10.2012 - 09:27 Por PÚBLICO
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Miguel Relvas completou a licenciatura no espaço de apenas um ano mas arrisca-se a perdê-la
Miguel Relvas completou a licenciatura no espaço de apenas um ano mas arrisca-se a perdê-la (Foto: Nuno Ferreira Santos)
 Miguel Relvas, além de ter precisado de fazer apenas quatro das 36 cadeiras da licenciatura da Universidade Lusófona, teve também equivalência a cadeiras que não existiam.











Fonte: Público

     Agora, expliquem-me que autoridade tem um qualquer professor para falar de exigência aos seus alunos.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Da ânsia de culpados ou da loucura justiciosa italiana

Povo adora culpar e leva com deuses
Por Ferreira Fernandes
     SEIS cientistas italianos da Comissão de Grandes Riscos e o respetivo coordenador governamental foram condenados por não terem previsto o terramoto em Áquila, a 6 de abril de 2009 (300 mortos). 
     Tinha havido uma sucessão de avisos sísmicos desde dezembro de 2008, mas a comissão concluíra não haver perigo maior. Os cientistas eram reputados e um deles, o professor Enzo Boshi, era o presidente do Instituto de Geofísica e Vulcanologia. Todos condenados a seis anos de prisão. 
     Apaziguado pela sentença, o familiar de uma das vítimas disse: "Esperamos que agora os nossos filhos tenham as vidas mais seguras." Provavelmente ele está convencido de que, daqui para diante, o tribunal emitirá atempadamente um edital sobre o próximo terramoto. Terá de ser tribunal, terá de ser juiz, pois são as únicas entidades humanas imunes ao erro. 
     Como se sabe, se amanhã houver provas de que aquele sismo de Áquila era absolutamente impossível de prever - e, logo, a sentença ter sido errada -, o juiz que esta semana condenou não responderá pelo erro. Ele está protegido pela lei. Já o sismólogo Boshi, como o médico Fulano que não curou o cancro ou o piloto Sicrano que não aguentou a turbulência na aterragem estão sujeitos ao atira a pedra na Geni, maldita Geni. 
     A ânsia de encontrar culpado sempre foi própria do povo. Agora arranjou um aliado de peso e, ou muito me engano, vai ser corneado na parceria: o próximo deus vai vestir toga. 

Diário de Notícias, 24 de outubro de 2012

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Morreu o sobrevivente mais velho de Auschwitz

Antoni Dobrowolski


     O campo de concentração nazi era «pior do que o inferno de Dante», disse Antoni Dobrowolski numa entrevista de 2009.
     Dobrowolski, que faleceu aos 108 anos - era o mais velho sobrevivente a um campo nazi conhecido - foi enviado para o campo da morte de Auschwitz por ter desafiado as ordens dos alemães, visto que manteve aulas secretas (ele, que era professor) durante a ocupação nazi da Polónia, invadida em 1939, quando os nazis proibiram a população local de frequentar a escola.

domingo, 21 de outubro de 2012

A vida humana começou no Alentejo?

Do Planeta Vermelho ao Alentejo Vermelho
Por Ferreira Fernandes
     QUE VASCO da Gama, aquele que ajudou a pôr o mundo redondo, era alentejano, de Sines, já é dado como certo. Que Cristóvão Colombo, que ajudou a completar o mundo, era também alentejano, de Cuba, é menos certo, embora haja maduros com essa ideia. Mas essas teorias alentejano-cêntricas estão em vias de se tornar modestas comparadas com a atual parada: agora, é a NASA que suspeita que foi em Cabeço de Vide, também vila alentejana, que começou a vida na Terra. 
     Descobriu-se uma bactéria nas águas termais de Cabeço de Vide que é, por assim dizer, comadre de outra descoberta em Marte. Anda um cientista da NASA pela vila alentejana, tal como andaCuriosity, o robô da NASA, pela cratera Gale, ambos à cata de provas que possam geminar as duas regiões. 
     O Planeta Vermelho e o Alentejo Vermelho já tinham, aliás, pontos comuns. E tudo ter começado no Alentejo também explica o maravilhoso ritmo com que por lá tudo acontece - ninguém tem pressa quando já cá anda há mais tempo que os outros. 
     Quem percebeu bem a filosofia da terra foi a reportagem da SIC que garantiu que nas ruas de Castelo de Vide a coisa (o começo da vida da Terra ser uma especialidade local) "não é novidade". Ouviu-se dois velhotes, sentados num banco, e ambos confirmaram. O de boné disse: "Não sou daqui mas o pessoal que é daqui... hmm, foi aqui que começou." 
     Quer dizer, não só a vida na Terra começou em Cabeço de Vide como, quando chegou, já os alentejanos lá estavam.
Diário de Notícias, 21 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Fisco retroativo

Fisco notifica morto há 25 anos para pagar imposto

Publicado em 2012-10-20

NUNO MIGUEL MAIA
 9 0 0

     As finanças querem cobrar o Imposto Único de Circulação de 2008 a um contribuinte que faleceu há 25 anos num acidente em que o carro a que corresponde o tributo ficou completamente destruído. A família ficou indignada com a notificação.

foto LISA SOARES/GLOBAL IMAGENS
Fisco notifica morto há 25 anos para pagar imposto
Filha do falecido

Via JN


     No ano de 1987, António Simões Pinto Mirancos, chapeiro, tinha 49 anos quando, a 16 de agosto, ao volante da sua Ford Transit de 1978 foi a Lisboa buscar uma filha.

     No regresso, na zona de Leiria, teve um desastre com a viatura, que caiu numa ribanceira, do que veio a resultar a sua morte. A filha ficou gravemente ferida e teve de ser hospitalizada. Felizmente escapou com vida. A viatura ficou sem conserto e foi para a sucata.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina - 1943 - 2012

A um Homem do PassadoEstes são os tempos futuros que temia 
o teu coração que mirrou sob pedras, 
que podes recear agora tão fundo, 
onde não chegam as aflições nem as palavras duras? 

Desceste em andamento; afinal era 
tudo tão inevitável como o resto. 
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se 
da tua vista os bons e os maus momentos. 

Tu ainda tinhas essa porta à mão. 
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.) 
Agora já não é possível morrer ou, 
pelo menos, já não chega fechar os olhos. 

                                                     Manuel António Pina, in Nenhum Sítio

Funções sintáticas I (G 2012 - 1 - Correção)

1.
a) Sujeito composto (O Rui e a Joana).
b) Sujeito simples (A Tatiana).
c) Sujeito nulo indeterminado.
d) Sujeito simples (O Marco).
e) Sujeito nulo expletivo.
f) Sujeito simples (A Matilde).
g) Sujeito nulo subentendido.
h) Sujeito composto (O Rafael e o microfone).
i) Sujeito nulo indeterminado.
j) Sujeito nulo indeterminado.

2.
a) «teve um lindo bebé»
b) «discutiram acerca do TPC»
c) «prefere com açorda»
d) «chegue aqui rapidamente»

3.
a) Complemento direto.
b) Complemento indireto.
c) Modificador frásico.
d) Complemento oblíquo.
e) Complemento oblíquo.
f) Complemento direto.
g) Modificador.
h) Complemento direto; complemento indireto.

4.
a) «Antunes»: vocativo.
b) «Mãe»: vocativo; «a avó»: sujeito.
c) «O Herman José»: sujeito.
d) «A televisão»: sujeito; «Roberto»: vocativo.
e) «Cristiano» e «meu filho»: vocativos; «A Irina»: sujeito.

5.
a) «Infelizmente, o Apolinário faleceu:»
b) «Felizmente, a febre já desceu.»
c) «Excecionalmente, ninguém adoeceu.»

6.
A   B
1 ‑ D
2 ‑ A
3 ‑ C
4 ‑ E
5 ‑ B
6 ‑ D

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Ó sino da minha aldeia" - Correção do questionário

1. B

2. B

3. C

4. B

5. D

6. A

7. C

8. A

9. D

9.1. A

10. D

11. C

12. C

13. C

13.1. «És para mim como um sonho / Soas-me na alma distante…»

14. D

15. A

16. B

17. D

"Não sei quantas almas tenho" - Questionário

& “Não sei quantas almas tenho”























Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
 
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
 
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

         Selecione a opção que completa de modo correta cada afirmação / pergunta.

1. O verso 1 traduz
a) a dúvida do sujeito lírico acerca da sua alma.
b) a estranheza do sujeito poético relativamente ao seu número de almas.
c) a dúvida e a indefinição do sujeito lírico relativamente à sua identidade.

2. O verso 2 remete para
a) a constante fragmentação e a divisão do sujeito poético.
b) a mudança que se opera momentaneamente no sujeito poético.
c) a criação dos heterónimos, em consequência da tendência do sujeito poético para a despersonalização.

3. O verso 3 é uma “consequência” dos dois anteriores. A alternância presente / passado e o uso do advérbio “continuamente”
a) expressam a oposição entre a vida passada e presente do sujeito poético.
b) exprimem a continuação do estado de espírito do passado no presente, com projeção para o futuro.
c) estão ao serviço da expressão da sensação de estranheza do sujeito poético relativamente a si mesmo, consequência da constante mudança.

4. O verso 4 remete para
a) a tendência para a autoanálise, para a reflexão por parte do sujeito poético e para a incapacidade de se encontrar.
b) a incapacidade de o sujeito poético definir um rumo para a sua vida.
c) as consequências do facto de se considerar um estranho no próprio corpo.

5. O recurso ao vocábulo «Nunca» (v. 4) significa que
a) , apesar da autoanálise, o sujeito poético não é capaz de se encontrar e pacificar.
b) , apesar da autoanálise, o sujeito poético não consegue atingir um momento que seja de conhecimento integral.
c) é um estratagema para despistar a angústia que o sujeito poético sente pela tendência para a despersonalização.

6. O verso 5 significa que
a) o sujeito poético sente não ter vida, mas só alma, dado que a sua vida é (foi) toda racionalizada («sente na alma, mas não no corpo»).
b) a multiplicidade de «eus» conduz o sujeito poético à ausência de ser, limitando a sua existência.
c) o sujeito poético deseja a morte, transformar-se em alma / espírito, pois só assim pode alcançar a calma que a instabilidade da vida lhe nega.

7. «Quem tem alma não tem calma» (v. 6) quer dizer que
a) quem apenas é capaz de sentir e não racionaliza antes de agir vive em permanente instabilidade.
b) o espírito do sujeito poético é incapaz de encontrar a paz e o sossego em qualquer circunstância.
c) a instabilidade domina a vida do sujeito poético, dado que, porque é constituído apenas por alma, vive na ânsia de se encontrar, daí não ter calma, sossego.

8. Os dois versos que encerram a primeira estrofe assentam
a) no pressuposto de que os sentido enganam e limitam a perceção do ser humano acerca do significado da vida.
b) na antítese viver / pensar, isto é, entre os que vivem a vida sem a pensar e os que a pensam.
c) na ideia de que a vida deve ser pensada e só posteriormente vivida de acordo com os ditames da razão.

9. Os versos 9 e 10 confirmam
a) a despersonalização do sujeito poético, que se transforma noutras figuras.
b) a divisão do sujeito poético entre ver e ser, isto é, sentir e pensar.
c) que Pessoa era, de facto, um lunático.

10. Os versos 11 e 12 acentuam o traço do sujeito poético identificado na pergunta anterior, pois
a) “eles” constituem um sinal das suas “visões” e loucura.
b) “eles” sonham e desejam independentemente de si mesmo.
c) “eles” constituem o sinal da sua divisão entre o sentir e o pensar.

11. As metáforas dos versos 13 e 14 sugerem o papel do sujeito poético:
a) observador de paisagens.
b) observador da realidade circundante, ao jeito de Cesário Verde.
c) espetador de si mesmo.

12. A tripla adjetivação do verso 15 sintetiza os traços da personalidade do sujeito poético:
a) múltiplo e fragmentado (“_____”), volúvel e inconstante, causa e agente de outras personalidades (“_____”), e, por isso ou apesar disso, solitário (“_____”).
b) múltiplo e fragmentado (“_____”), causador da sua própria instabilidade (“_____”) e agente da solidão das diferentes personalidades (“_____”).
c) com diversas atitudes face à vida (“_____”), em permanente mobilidade e errância (“_____”) e, por isso, solitário (“_____”).

13. O verso 16 traduz
a) a incapacidade de o sujeito poético sentir.
b) a constante inadaptação do sujeito poético.
c) nenhuma das hipóteses anteriores-

14. O adjetivo «alheio» (v. 17) exprime
a) o sentimento de estranheza e de autodesconhecimento face a si próprio.
b) o modo distraído como o sujeito poético lê.
c) a atitude intelectual do sujeito poético.

15. A metáfora da vida como um livro (vv. 17-18) sugere
a) a despersonalização do sujeito poético, que se distancia para se ver.
b) a cultura livresca do sujeito poético, que se apresenta como um escritor da própria vida.
c) o ensimesmamento do sujeito poético, perdido na leitura metafórica do seu percurso de vida.

16. Na última estrofe, o sujeito poético apresenta-se como
a) um ser material e corpóreo em permanente mutação.
b) um ser semelhante aos demais que procura a unidade na diversidade.
c) um livro com várias páginas escritas pelos diversos «eus» do «eu».

17. Dada a sua despersonalização e tendência para a mudança contínua, o eu lírico
a) é incapaz de prever o futuro e o passado.
b) esquece o passado e é incapaz de prever o futuro.
c) sente a angústia do presente pelas diversas páginas do livro que é a sua vida.

18. O sujeito poético não sabe verdadeiramente quem é ou quem foi que
a) causou a permanente volubilidade que caracteriza a sua existência.
b) o conduziu àquele estado de confusão e à sensação de estranheza face a si mesmo.
c) sentiu o que supõe que sente, pois vê-se como um palco no qual atuam diferentes atores, os seus outros «eus».

19. O verbo final traduz a ideia de que
a) o Deus do catolicismo é, afinal, o responsável pelo drama vivido pelo sujeito poético, ideia que contraria a noção de que é incapaz de sentir.
b) a harmonia que o sujeito poético tanto procura, em razão da sua fragmentação, reside numa figura transcendente, omnisciente e omnipresente.
c) o eu lírico se sente impotente para encontrar uma resposta satisfatória para os seu drama através da inteligência racional.

20. Transcreva os versos que «justificam» as ideias seguintes:
a) Fragmentação do eu: «_____________________________________________________
___________________________________________________________________________
b) A estranheza e o desconhecimento face a si próprio: ____________________________
___________________________________________________________________________
c) Despersonalização: _________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
d) Inadaptação constante: _____________________________________________________
___________________________________________________________________________

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