terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Álvaro de Campos, o nome

          Álvaro, à semelhança dos dois outros heterónimos, é um nome de origem germânica, significando «atento a tudo» ou «atento a novas oportunidades», remetendo para a fase futurista do Campos cantor da modernidade, do progresso, simbolizados nas máquinas e na indústria.

          Já Campos poderá remeter para os «campos do conhecimento» e, assim, em conjunto, os dois nomes traduziriam o homem «atento a todos os campos do conhecimento», um verdadeiro modernista.

          Especulações...

Plano (Álvaro de Campos e Pablo Picasso)

Planificação

Titulo: As diversas formas de arte


Introdução

• Relação existente entre a ciência e a arte. A ciência descreve as coisas como elas são enquanto que a arte as descreve como são sentidas.

• A ciência só pode ter uma única interpretação, não pode ser contestada, enquanto a arte pode ser encarada de diversas formas, pois cada pessoa tem uma maneira diferente de captar a arte, todos temos vivencias e passados distintos e dependendo disso é que vamos interpretar positiva ou negativamente uma obra.


Desenvolvimento

• Pablo Picasso foi um pintor e escultor muito reconhecido no inicio do século XX.

• O quadro de Picasso apresenta uma mulher a chorar, mostra-nos o quanto sofria a única mulher que esteve psicologicamente à altura de Pablo.

• Newton foi um cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático.

• No campo da matemática Newton criou uma expressão que se denomina Binómio de Newton e permite calcular o desenvolvimento de (a+b)n.

• A Vénus de Milo é uma estátua grega, representa a deusa grega Afrodite, deusa do amor e da beleza física.


Conclusão

• Vénus de Milo e o quadro de Picasso são duas obras de arte, ou seja, o Binómio de Newton é tão belo como a arte pois tudo o que é arte é belo, embora cada pessoa tenha uma interpretação diferente de beleza de cada obra de arte.


          Chamo a vossa atenção para o conteúdo do seguinte «post», onde estão as instruções para a realização do trabalho: http://portugues-fcr.blogspot.com/2010/12/alvaro-de-campos-e-pablo-picasso.html.

JR

"Ode Triunfal"

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés -- oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos da estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos pianos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opera que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer,
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraitre amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o amor antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hó jóquei que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos -- e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje. . . )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

"Ode Triunfal" (Análise - 2.ª parte)

          Identificação com as máquinas

          O sujeito poético procura identificar-se com as máquinas, identificação essa que se traduz num «amor» desesperado (“Como eu vos amo… Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto / E com o tacto… / E com a inteligência…” – vv. 86-91). Ele quer penetrar tudo, ser penetrado por tudo (“Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”). Este facto traduz uma atitude sensacionista de “ser tudo de todas as maneiras” do sujeito poético, pois quer sentir tudo e identificar-se com tudo, procurando daí retirar o máximo de sensações possível.

 
          Novo ideal de arte
 
          Álvaro de Campos, na «Ode Triunfal», põe em prática o que havia teorizado nos seus Apontamentos para uma estética não aristotélica (revista "Athena", números 3 e 4). De acordo com a concepção de Aristóteles, a arte / a estética assentava nas ideias de beleza, de perfeição, de equilíbrio, do agradável comandado pela inteligência. Na esteira de Walt Whitman, o heterónimo de Pessoa apresenta uma nova concepção, sustentada nos seguintes princípios:
  • assenta nas ideias de força, dinamismo, energia explosiva, volúpia da imaginação;
  • o sentir predomina em relação ao pensar, por isso o importante não é a beleza dos maquinismos em si mesmos, mas as sensações que eles despertam e o modo como se codificam, ao nível da expressão, essas sensações;
  • não é a beleza da harmonia clássica saída da inteligência que cativa o sujeito poético, mas a força caótica e explosiva produto de uma emotividade individual desordenada e caótica, de um subconsciente em convulsão;
  • daí que Campos queira transformar-se na realidade excessiva que o cerca e cantar tudo "com um excesso / De expressão de todas as (...) sensações com um excesso contemporâneo" das máquinas (vv. 26 a 32).
          Por outro lado, ao longo da ode, Álvaro de Campos procura fazer corresponder o nível da expressão ao nível do conteúdo: as manifestações da dinâmica da vida moderna são apresentadas de forma desordenada, em catadupa, sugerindo assim o movimento das máquinas e a pressa de usufruir de tudo. Neste enquadramento, há a referir também o recurso ao verso livro, a construção de um estilo torrencial, espraiado em versos de duas ou três linhas, a catadupa de anáforas, exclamações, enumerações, interjeições, etc.
          Um pouco à semelhança de Cesário Verde, Campos inova ao conferir poeticidade a temáticas não usuais: máquinas, motores, fábricas, energia, matéria, força, através de uma linguagem carregada de substantivas concretos e abstractos, fonemas substantivados (r-r-r-r-r-r-r...), topónimos (Panamá, Kiel...), antropónimos (Platão, Virgílio...), estrangeirismos (souteneur, foule...), tipos de letra variados (vv. 5, 72, 238), maiúsculas desusadas (Prodígio, Sol...), adjectivação expressiva, figuras de estilo (polissíndetos, metáforas, anáforas, apóstrofes, enumerações, personificações, sinestesias, perífrases, trocadilhos, reiterações, gradações, comparações, aliterações...), neologismos (passante), formas verbais variadas, advérbios expressivos (estridentemente, exageradamente...), gerúndios (rangendo, sorrindo), interjeições (ah, hilla, eia...), rimas internas (vv. 24, 25, 70) e onomatopeias (ciciar, up-lá ôh...).


          A denúncia do lado negativo da civilização industrial:
  • a desumanidade;
  • a corrupção;
  • a mentira;
  • a imoralidade;
  • a pobreza e a miséria;
  • a falta de higiene;
  • a hipocrisia;
  • os falhanços da técnica (desastres, naufrágios, desabamentos...);
  • a prostituição de menores e a pedofilia;
  • a guerra;
  • Campos chega mesmo a prever o fim / a substituição da civilização industrial (vv. 204-206).

          A temática da infância: entre os versos 181 e 189, numa estrofe parentética, Álvaro de Campos retoma um tema comum ao ortónimo e aos heterónimos - a infância -, que surge mais uma vez como a idade perfeita, um espaço de liberdade, de não-pensamento, de felicidade, no que se opõe ao presente. Nos versos citados, a infância surge representada por diversos elementos: a nora, o quintal, a casa, os pinheiros, o burro - animal significativo que representa a ausência de pensamento / racionalidade.


          A linguagem erótica e reveladora de traços de sadomasoquismo: Álvaro de Campos relaciona-se com o mundo do progresso industrial e mecânico através de uma linguagem evocadora de um certo erotismo. Basta atentar nos seguintes exemplos: "Amo-vos carnivoramente, / Pervertidamente..." (vv. 105-106); "Completamente vos possuo como a uma mulher bela...".
          Por outro lado, essa linguagem possui um sentido profundamente masoquista: "Eu podia morrer triturado por um motor..." (v. 134), que se orienta mais para a criação de sensações novas e violentas (sensacionismo) do que para a exaltação das máquinas.


          Percepção do real pelo sujeito poético:
» O modo como o «eu» percepciona o real baseia no excesso de sensações: "(...) excesso / De expressão de todas as minhas sensações.";
» Visuais:
                    . forma: "Ó rodas, ó engrenagens (...)";
                    . luminosidade: "À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas (...)";
                    . movimento: "Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos (...)".
» Tácteis: "Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.";
» Auditivas: "(...) r-r-r-r-r-r eterno!"; "De vos ouvir demasiadamente de perto"; "Rugindo, rangendo (...)";
» Gustativas: "Tenho os lábios secos (...)";
» Olfactivas: "A todos os perfumes de óleos e calores e carvões.".

          No que diz respeito a influências, a "Ode" evidencia a presença do futurismo de Marinetti (Campos canta as máquinas, os motores, a velocidade, a civilização mecânica e industrial...) e do sensacionismo de Walt Whitman (Campos canta a civilização moderna industrial, mas, mais do que os objectos - as máquinas, os motores, etc. -, o que ele busca são as sensações que lhe despertam, num desejo de sentir tudo de todas as maneiras.
          Por outro lado, em diversos momentos sente-se a presença do Pessoa Ortónimo: a sua inteligência torturada (a denúncia do lado negativo da civilização moderna), a referência à infância...


          A ruptura com a lírica tradicional:
               . ruptura a nível formal:
                    » a irregularidade estrófica, métrica e rítmica;
                    » a catadupa de figuras de estilo;
                    » o recurso excessivo à coordenação;
               . ruptura a nível de conteúdo:
                    » o prosaísmo da linguagem;
                    » o novo ideal de arte;
                    » o canto excessivo da civilização industrial;
                    » a ousadia presente na referência aos aspectos negativos da modernidade...


          Linguagem e estilo

     . A tendência contínua para humanizar as máquinas: "Grandes trópicos humanos de ferro, fogo e forças"; "E há Platão e Virgílio dentro das máquinas", etc.

     . O uso da ironia, sobretudo para traduzir a face negativa da civilização industrial:
          - "escrocs exageradamente bem vestidos": além da ironia, note-se a presença da antítese entre a compostura exterior (o vestuário) dos escrocs e as suas intenções;
          - "Chefes de família vagamente felizes": neste caso, o advérbio «vagamente» projecta o cansaço (de viver?) sobre a felicidade dos chefes de família;
          - "Banalidade interessante (...) / Das burguesinhas (...) / Que andam na rua com um fim qualquer": notar novamente a presença da antítese, agora entre o aspecto exterior das «burguesinhas» (diminutivo irónico) e as suas obscuras intenções;
          - "A maravilhosa beleza das corrupções políticas, / Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos": a adjectivação antitética assume o valor de oximoro.

     . A antítese:
          - "tudo o que passa e nunca passa": traduz a concentração do passado no presente, ou a continuidade dos acontecimentos diários;
          - "O ruído cruel e delicioso da civilização de hoje": traduz os sentimentos contraditórios do sujeito poético em relação à civilização industrial.

     . Metáforas e imagens:
          - "Arde-me a cabeça de vos querer cantar";
          - "Grandes trópicos humanos de ferro, fogo e força" (aliteração em «f»);
          - "Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável";
          - "Nos cafés, oásis de inutilidade ruidosas";
          - "Quilhas de chapa de ferro sorrindo".
          Estes recursos estilísticos, nos exemplos apresentados, evidenciam a forma como o sujeito poético vibra com a modernidade, com a civilização industrial (com a fúria do movimento das máquinas, com a excessiva quantidade de carvão...).
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