quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Contextualização de 'O Ano da Morte de Ricardo Reis'

https://pt.slideshare.net/CarvalhoCC/contextualizao-histrico-literria-o-ano-da-morte-de-ricardo-reis

https://pt.slideshare.net/CarvalhoCC/contextualizao-histrico-literria-o-ano-da-morte-de-ricardo-reis-77044819

domingo, 25 de fevereiro de 2018

A paixão do futebol

Jonas! Simplesmente Jonas!


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A (mini) notícia com mais erros do mundo


     O Exame certamente reprovaria num exame escrito.

     Vamos à lista?

     1.º) A palavra site é um empréstimo, logo deveria ser motivo de destaque (itálico ou aspas).

     2.º) Aquela vírgula a seguir ao GN "os jornais" na realidade está a separar o sujeito do correspondente predicado. Será que a pontuação se alterou entretanto, ou esta é uma daquelas falhas básicas?

     3.º) Folha é o nome de uma publicação brasileira, pelo que deveria vir, também, destacada no texto.

     4.º) "(...) vão ao encontro às suas(...)"? Que calamidade é esta? Como se não bastasse a habitual confusão entre "ir ao encontro de" e "ir de encontro a", agora temos uma variação bem criativa: "ir ao encontro a". Fantástico!

A concordância do sujeito com o verbo


     Já sabemos que a gramática da língua portuguesa não é coisa para amadores, porém há erros que são incompreensíveis, independentemente da pessoa que os cometa. Quando estamos a falar da imprensa, a coisa atinge foros de escândalo.

     Se o sujeito da frase é "A equipa de cheerleaders da Coreia do Norte", por que carga de água o verbo está conjugado no plural?

     Por outro lado, o escrivão da notícia ignora também o facto de cheerleaders ser um empréstimo, pelo que necessita de ser destacado na frase - a itálico ou através de aspas.

     Como diria Maria Flor Pedroso, assim se escreve mau português.

O seu carro pode ser "hackeado"


     A notícia pode ser encontrada aqui [Observador].

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Na aula (XXXIII): humor de um bolinha

     Sabes qual é o super-herói preferido dos gordos?
     É o supermercado.
João C.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Descobertos os primeiros fósseis de placodontes em Portugal


     Foram descobertos em Loulé por paleontólogos da Universidade Nova de Lisboa os primeiros fósseis, em território português, de placodontes.
     Estes animais eram répteis aquáticos que viveram durante o período triásico, aproximadamente entre 250 e 200 milhões de anos, altura em que se extinguiram, em águas pouco profundas. O triásico foi o primeiro período da era mesozóica, época em que os continentes estiveram juntos num supercontinente (Pangeia) e em que os dinossauros surgiram e se espalharam pelo planeta, diversificando-se.
     Os placodontes tinham uma alimentação à base de moluscos. Fisicamente, eram constituídos por placas ósseas - "osteodermes" - que lhes davam uma aparência semelhante à das tartarugas e possuíam uma forma hexagonal, plana, alongada e sem ornamentação da carapaça, não possuindo dentes.
     A descoberta ocorreu em 2016 e 2017, nos concelhos de Loulé e Silves, mas só agora foi divulgada junto do grande público. O estudo que dá conta dela pode ser encontrado aqui [estudo].

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Descalça vai pera a fonte"


§ Tema: a mulher / beleza feminina.


§ Estrutura interna

D Mote (tese) - Apresentação de Lianor:
® é localizada a caminho da fonte;
® é caracterizada física  -  "fermosa"
                              e
                 psicologicamente  -  "não segura"

D Voltas (confirmação da tese) - Desenvolvimento:
® da caracterização física:
                            ì "branca"
. adjectivação      í "fermosa"
                            ï "linda"
                            î "graciosa"

                                                 ì "mãos de prata"                ü
. metáforas í "cabelos de ouro"             ý preciosidade
                       î "chove nela graça tanta"   þ

. figuras de estilo                        ì "mais branca que a neve pura"
. hipérboles  í "dá graça à formosura"
                         î "tão linda que o mundo espanta"

. comparação: "Mais branca que a neve pura"

. superlativação   | "tão linda"
                            | "graça tanta"

. vestuário  -  cor  ¾¾  branco: pureza
                              ¾¾  vermelho: paixão, alegria

® da caracterização psicológica: "não segura" (insegurança)
- caminhar com o pote na cabeça > insegurança > encontro com o amigo
                                                           (desequilíbrio)
- da beleza (ser ou não apreciada)?
- do encontro com o namorado (pode não encontrá-lo)?
- dos seus sentimentos?
         De notar a alternância entre os aspectos objectivos e subjectivos do retrato, de forma a transmitir a impressão que o sujeito colhe da imagem de Lianor.



§ Estrutura narrativa

 Espaço: ambiente campestre, rural, bucólico ("verdura", "fonte").

 Tempo: presente  -  momento em que o sujeito observa a mulher.

 Acção: caminhar para a fonte  -  "vai pera a fonte".

 Personagem: Lianor.



§ Recursos estilísticos

         A descrição da beleza e graciosidade de Lianor é feita através dos seguintes recursos:

         1. Nível fónico

. Métrica: redondilha maior (versos de 7 sílabas)  -  medida velha.

. Rima  - ABB / CDCCBB;
             - emparelhada e interpolada;
             - consoante ("verdura" / "segura");
             - rica ("verdura" / "segura") e pobre ("prata" / "escarlata");
             - grave ("verdura" / "segura").
j
. Aliteração em v.

. Alternância de sons abertos (ó, á), sugestivos de vitalidade, e fechados (ô, u) e nasais (on, an).

. Transporte: vv. 1-2, 15-16.


         2. Nível morfossintáctico

. Expressividade do substantivo graça, dos adjectivos linda, branca e pura.

. Substantivos:
fonte     | ambiente
verdura |
pausa        |
neve          | retrato físico
ouro          |
encarnado |
graça       | retrato psicológico
formosura      |

. Adjectivação: fermosa; (não) segura (exposta às ciladas do amor); branca; pura; linda.

. Orações consecutivas:         "que o mundo espanta";
                                            "que dá graça à fermosura".

. Alternância entre orações coordenadas e subordinadas.

. Expressividade do verbo chover, com valor transitivo e sentido hiperbólico: a graça era tão evidente e abundante como a chuva.

. Advérbios tanta, não.


         3. Nível semântico

. Personificação: "tão linda que o mundo espanta".

. Metáforas: "mãos de prata, "cabelos de ouro"  ®  fazem ressaltar a brancura das mãos e os cabelos louros, características do tipo da mulher clássica;
                     "chove nela graça tanta".

. Hipérboles: "mais branca que a neve pura";
"tão linda que o mundo espanta";
"chove nela graça tanta
 que dá graça à fermosura".

. Comparação: "mais branca que a neve pura".

. Diminutivos: sainho, vasquinha  ®  sugerem a ideia de carinho e simpatia do sujeito pela mulher, o encantamento daquele face à beleza e graciosidade desta.

. Associação de cores (o vermelho do vestuário, o branco da pela e o loiro dos cabelos) para sugerir a alegria, a pureza e a perfeição de Lianor, respectivamente.

. As peças de vestuário e os objectos que transporta, em si graciosos, que o sujeito poético pretende transferir  -  a graciosidade  -  para Lianor.

. Trocadilho: "Chove nela graça tanta / Que dá graça à fermosura".



§ Mulher retratada: a mulher clássica, petrarquista, cujo retrato incide mais sobre a beleza psicológica e menos sobre a física.


§ Classificação: vilancete  ®  forma poético-musical composta a partir dum mote
                                                 curto (2 ou 3 versos), tradicional, geralmente alheio, que introduz o tema. De início, este mote era tirado duma canção popular-vilã e a ele cabia, em exclusivo, a designação de vilancete, que depois passou a atribuir-se a todo o poema. A seguir ao mote existem as voltas ou glosas, compostas por 7 versos, que desenvolvem o tema introduzido pelo mote. A glosa divide-se em cabeça (os primeiros 4 versos) e cauda (os restantes 3). O último verso da cabeça rima com o primeiro da cauda, fazendo assim a ligação entre ambas; os dois últimos versos da cauda rimam com os dois últimos versos do mote, e o último deste é, no vilancete perfeito, integralmente repetido no último verso da cauda.



§ Influências  -  Intertextualidade

         § Petrarca (inovações renascentistas):
- caracterização da mulher (física e psicológica);
- caracterização predominantemente psicológica e só aparentemente física.

§ A utilização do trocadilho, da hipérbole e do jogo de conceitos e ambiguidades, como recursos do engenho poético (também existentes na endecha "Aquela cativa"), coloca, em certa medida, Camões como precursor da poesia cultista e conceptista do século XVII.


Caracterização / retrato de Pêro Marques


(B) Pêro Marques: lavrador abastado

1. Externa: (lavrador)
. o capelo;
. o gabão azul;
. as perlas;
. as peias;
. o novelo;
. o chocalho;
. o pente;
. as pêras.

2. Retrato social: Pêro Marques é um lavrador abastado pertencente ao povo.

3. Linguagem:
. tímida;
. afetiva;
. simples;
. monologada.

4. Psicológica:
. é o primeiro pretendente de Inês, rejeitado por ela inicialmente;
. é rico e trabalhador, tendo herdado a maior parte do gado do pai e uma fazenda de mil cruzados;
. apresenta-se como um homem de bem, honesto, sincero, leal, respeitador e de boas intenções (preocupa-se com a reputação e honra de Inês);
. atencioso e delicado em relação a Inês, procura agradar-lhe, penteando-se antes de a ver;
. é um homem rústico, simples / simplório e desajeitado, pouco inteligente, desconhecedor das regras de convivência social, ignorante e ingénuo:
- procura a casa de Inês, mas não a encontra facilmente;
- esqueceu-se da morada da jovem, não obstante se tratar de um encontro muito importante;
- só identifica a casa a partir de um elemento pertencente ao seu universo: a “parreira”
- não sabe usar uma cadeira, acabando por se sentar de costas para Inês e a Mãe;
- traz peras como presente para Inês, tendo-as colocado no capelo, por baixo de todos os outros objetos e acabando por não as encontrar;
. inseguro e inábil nos assuntos amorosos, cai no ridículo pela maneira como se veste e pela maneira de falar e de agir:
- quando se vê a sós com Inês, ao invés de procurar seduzi-la, como fariam os outros homens, mostra-se incomodado e receoso por pôr em causa a reputação dela;
- quando inicia o discurso perante Inês e a Mãe não consegue dizer grande coisa e acaba mesmo por se trabalhar;
- atrapalha-se quando Lianor lhe pede para abraçar Inês após o casamento;
- não se recorda das palavras regulamentares do casamento;
- pretende que o trigo seja deitado sobre eles antes do casamento;
. sofre com a rejeição e promete não se casar até que Inês o aceite;
. após a morte do Escudeiro, casa-se com Inês Pereira;
. ingénuo e crédulo como sempre e submisso, concede liberdade total a Inês e é traído por ela;
. representa o papel de «asno» que leva literalmente a mulher às costas para que ela se preserve para («visitar») o Ermitão.

            Pêro Marques representa o papel de “asno” que carrega a mulher às costas para casa de um seu antigo pretendente. É a personagem cómica da farsa. Enamorado de Inês, tudo tenta para casar com ela, mas a sua estupidez e ingenuidade são um grande obstáculo. Embora bem formado moralmente, comporta-se como um imbecil. É rico e honesto, mas a sua honestidade não lhe deixa ver a maldade humana.
            Em antítese com o Escudeiro, Pêro Marques é o bom marido que dá à mulher toda a liberdade que ela quer, procurando fazê-la feliz. Todavia, Inês não o respeita e é-lhe infiel com um falso Ermitão, sendo o próprio marido, Pêro, que a conduz ao encontro com o amante.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A próclise

     Cada vez se escreve pior em todo o lado, incluindo os meios de comunicação social. Este facto talvez se fique a dever a uma apreciável falta de cuidado, um "tanto faz", mas é possível que também possa ter a ver com a falta de preparação dos atuais jornalistas da nossa praça.
     Qualquer que seja a razão, os erros medram, nomeadamente nas plataformas digitais dos nossos jornais e revistas.

     Neste caso, o que está a questão é a colocação do pronome «se» e logo nesse baluarte que é o Expresso:


     Pois bem, o novo contrato de Messi tem para lá, como diria Luís Filipe Vieira, umas cláusulas, incluindo esta: "... se a Catalunha se tornar independente..." e não como aparece escrito.

     A explicação para a anteposição do pronome à forma verbal pode ser encontrada aqui.

'Ter de' ou 'ter que'?


     "Toda a saúde, pública, privada ou social TEM QUE ser repensada." OU "Toda a saúde, pública, privada ou social TEM DE ser repensada."? Qual é a construção correta?

     O uso da construção 'ter que' em vez de 'ter de' é frequentíssimo, mas, como é habitual noutro casos e noutras circunstâncias, a generalização não invalida que se trata de um 'erro'.

     Repare-se como, neste edição do programa «Bom Português» [aqui], da RTP, se sustenta, precisamente, a utilização errada da primeira construção.

     Sem mais delongas, citamos a explicação da professora Regina Rocha [aqui], com a qual concordamos em absoluto, considerando, no entanto, outras possibilidades [aqui e aqui, por exemplo]:

1. Ter de
Ter de é uma expressão utilizada quando se pretende dizer que se tem o desejo, a necessidade, a obrigação ou o dever em relação a uma qualquer acção: «tenho de me ir embora» (= sou obrigado a ir-me embora, devo ir-me embora, tenho necessidade de me ir embora), «ele tem de arrumar o quarto» (= ele deve arrumar, tem o dever de arrumar o quarto), «temos de nos ouvir uns aos outros» (= temos o dever ou a obrigação de nos ouvir).
Nesta situação, o verbo «ter» é um verbo auxiliar da conjugação perifrástica: auxiliar ter + preposição de + verbo no infinitivo. Assim, «ter de», por si só, significa «ter necessidade de», «precisar de», «ser obrigado a», «dever», designando, pois, a necessidade de praticar a acção expressa pelo verbo que se segue, que é o verbo principal.

2. Ter que
Nesta situação, o verbo «ter» não é um auxiliar; é um verbo com a plena significação de «possuir», «ser detentor de», «estar na posse de», «desfrutar», «usufruir», «poder dispor de».
Por exemplo, se alguém quiser dizer que «tem muito trabalho», poderá utilizar a expressão «que fazer» para substituir a palavra «trabalho»: «Tenho muito que fazer.» Do mesmo modo, se quiser dizer que tem uma série de histórias ou aventuras para nos contar, pode utilizar a expressão «que contar» para referir esse conjunto de relatos: «Ele viveu muito, tem muito que contar.» Se quiser, ainda, dizer que tem em casa muita matéria para estudar, assuntos sobre os quais se debruçar, poderá utilizar a expressão «que estudar»: «Tenho tanto que estudar!» E também podem surgir frases sem esse antecedente, subentendendo-se «coisas», «alguma coisa», «algo» (na negativa, «nada») a que o relativo se refira: «ele não tem que fazer» (= não tem coisas que fazer, não tem nada que fazer), «ele não tem que comer» (= não tem nada que comer), «ele não vai ter que dizer» (= não vai ter nada que dizer).
Por outro lado, esses sintagmas «que fazer», «que contar», «que estudar», «que comer», «que dizer» assumem, pois, força substantiva, como se pudessem ser substituídos por «trabalho» ou «afazeres», «relatos», «estudo», «comida», «palavras», etc.: «ele tem que fazer» = ele tem trabalho, tem afazeres; «ele tem que comer» = ele tem comida; «ele não tem que dizer» = ele não tem palavras. E entre o verbo «ter» e o pronome relativo «que» poderá ser colocado um indefinido (tanto, muito, pouco).

3. Ter de distingue-se, pois, de ter que, porque no primeiro caso está presente a ideia da obrigação, da necessidade, do dever, enquanto no segundo está presente a de dar uma informação sobre o que o emissor possui ou tem em mãos.
Vou construir duas frases semelhantes, em que apenas substituo a preposição «de» pelo pronome relativo «que», de modo a mostrar como o sentido é diferente.
a) «Ele não vai sair, porque tem de estudar.» – Com esta construção pretende dizer-se que ele precisa de estudar, deve estudar, tem a obrigação ou a necessidade de estudar, está obrigado a estudar; e a necessidade de estudar impede-o de sair.
b) «Ele não vai sair, porque tem que estudar.» – Com esta construção pretende dizer-se que ele tem matéria para estudar. Não é do dever de estudar que se pretende falar, mas da quantidade de estudo que há para fazer. Não é o dever de estudar que o impede de sair, mas a quantidade desse estudo: não é o que «deve», aquilo de que «precisa», mas o que «tem», o que «possui».


Em síntese:

Ter de: obrigatoriedade

  • Tenho de estudar.
Ter que: estar relacionado com
  • Este assunto tem que ver com o tema da conversa de ontem.
Ter que: ter algo para (com verbos transitivos cujo c. direto não está explícito)
  • Tenho (algo/coisas) que fazer.
  • Tenho o que fazer.
  • Tenho mais que fazer.

Reforma educativa em Espanha


     Pensavam que era só por cá?

     Não! É um movimento global. Então em países onde a OCDE mete a sua pata... ui!

PAFC (Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular)

     As coisas em Espanha, no campo da Educação, andam também num virote.

     Por cá, é apresentado como modernaço algo que tem décadas, para não dizer séculos. Observe-se o que postou um professor espanhol no seu Twitter:


quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Caracterização / retrato de Inês Pereira


(A) Inês Pereira: rapariga ambiciosa e sonhadora


1. Externa:
. o travesseiro para costurar;
. a touca;
. os véus.

2. Retrato social: Inês é uma jovem pertencente à pequena burguesia.

3. Linguagem:
. trocista;
. crítica;
. revoltada;
. irónica;
. mordaz.

4. Psicológica:

1. Solteira:
. é ociosa e preguiçosa (“finge que está lavrando”), detesta a costura e despreza a vida rústica do campo;
. o seu quotidiano é monótono e entediante: costura, borda e fia;
. vive descontente, revoltada e insatisfeita com a sua vida: aborrecida e enfadada com as tarefas domésticas; presa, fechada e confinada à casa; impossibilitada de se divertir como as jovens da sua idade e sem liberdade;
. é alegre, quer sair de casa e divertir-se, mas é contrariada pela mãe;
. é ambiciosa, sonhadora e idealista, anseia casar-se com um homem que, ainda que pobre, seja “avisado” (isto é, discreto), sensato, meigo e saiba cantar e tocar viola (características do homem de corte), para fugir à vida que tem, viver alegre e livre e ascender socialmente;
. julga que, sendo “aguçosa” (delicada), não lhe será difícil arranjar marido e casar;
. a carta que Pêro Marques envia não lhe agrada; considera-o um “vilão” disparatado e simplório;
. insensível e cruel, troça e desdenha de Pêro Marques quando este a visita e rejeita-o, por o considerar rústico, simplório, um “vilãozinho” que não corresponde ao seu modelo de marido;
. leviana e pretensiosa, por considerar que Pêro Marques é antiquado por não se aproveitar do facto de estar sozinho com ela
. segundo a sua conceção, o casamento faz-se por amor e é sinónimo de libertação (do “cativeiro” da vida de solteira e da sujeição à mãe), daí que deseje um homem sensato, meigo e com dotes musicais; os bens materiais não são necessários.

2. Casada e viúva:
. casa com Brás da Mata, o Escudeiro (homem que parece corresponder às suas exigências e constituir o meio de emancipação e de ascensão social), sem saber que ele é pobre e interesseiro;
. fica a viver em casa da mãe, que se retira para viver num casebre;
. é infeliz, pois o marido não a deixa cantar e prende-a em casa:
- reclusão em casa;
- falta de contacto com o exterior e com outras pessoas;
- absoluta submissão aos ditames do marido;
- entrega ao trabalho;
. fica sozinha, vigiada pelo Moço, quando o seu marido vai para Marrocos lutar contra os mouros, o que revela o seu estatuto social desfavorecido;
. mostra-se revoltada com a sua situação e conclui que foi imprudente na escolha do marido, arrependendo-se por não ter optado por um pretendente mais dócil;
. reconhece, num momento de autocrítica, que errou ao rejeitar Pêro Marques e ao casar-se com o Escudeiro;
. deseja a morte do marido e jura que se casará uma segunda vez com um marido que seja submisso, para gozar a vida e se vingar das provações sofridas enquanto foi casada com Brás da Mata;
. não se comove com a morte do marido, pelo contrário, sente-se alegre e livre;
. é hipócrita, fingida e dissimulada (quando é visitado por Lianor) ao chorar pelo marido morto e ao dizer que está triste, simulando dor e luto;
. reconhece que a experiência de vida ensina mais do que os mestres (o saber livresco, teórico: “Sobre quantos mestres são / experiência dá lição”): o casamento com o Escudeiro ensinou-lhe o engano dos seus ideais;
. o casamento com o Escudeiro altera o seu conceito de “libertação”:
- inicialmente: sinónimo de casamento com um homem da corte, discreto;
- após o casamento: consciência de que o matrimónio pode ser sinónimo de cativeiro e subjugação;
- após a notícia da morte do Escudeiro: opção por um “muito manso marido” como forma de emancipação / libertação.

3. Casada em segundas núpcias:
. materialista, pragmática e calculista, decide casar-se com Pêro Marques (pois este é abastado e ingénuo e tem consciência de que se lhe imporá e ultrapassará, com este casamento, as limitações da sua condição de mulher);
. casada com Pêro Marques, ganha a autonomia que sempre desejou, a ascendência sobre o marido e a liberdade que lhe permite ter um amante, num contraste claro com o encerramento em casa e a opressão de que era vítima às mãos do Escudeiro);
. canta e, livre, sai de casa com o consentimento do marido;
. tem o hábito de dar esmola ao Ermitão de Cupido;
. inicialmente, não reconhece o Ermitão como um apaixonado do seu passado, mas acaba por cometer adultério com ele;
. abusa da ingenuidade do segundo marido e pede-lhe para a acompanhar à ermida, para um encontro amoroso com o Ermitão;
. adúltera, trai o marido com o Ermitão (“Corregê vós esses véus / e ponde-vos em feição.” – Inês vem descomposta porque teve um encontro com o religioso).

            Inês participa simultaneamente da natureza de personagem plana (tipo de rapariga fantasiosa e leviana) e modelada (carácter).
            Podemos considerar que a sua caracterização contempla três fases:
. enquanto solteira é alegre, amiga de viver à sua vontade, mas preguiçosa, pensando somente em casar e contentando-se com um marido “pobre e pelado” e que saiba “tanger viola”, cantar e falar bem;
. após ter recusado Pêro Marques, que insulta com nomes bastante ofensivos, casa com o Escudeiro, mas a sua vida modifica-se para pior, passando a viver como uma reclusa;
. quando o marido morre em Arzila, fica de novo livre, desta feita para casar com Pêro Marques, o “asno” que a leva. A Inês da parte final demonstra, por um lado, ter evoluído em relação ao início, sendo mais materialista, pragmática e calculista (abandonou a fantasia e aprendeu a lição da experiência); por outro lado, quando decide visitar o Ermitão, seu antigo pretendente, deparamos com a mesma Inês leviana e pouco consciente.


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