terça-feira, 30 de abril de 2013

Beresford

          Se D. Miguel personifica o poder civil e Principal Sousa o religioso, William Carr Beresford representa o domínio britânico a que Portugal estava submetido e o poder militar. De facto, ele é um marechal do exército britânico que foi nomeado para reorganizar o exército português e investido de amplos poderes pelo rei D. João VI.

          Não obstante, despreza Portugal, país onde é obrigado a viver e que considera insignificante e provinciano ("... quem não viu as árvores da minha terra, nunca viu árvores...""Esta situação é, em si mesma, uma crítica a Portugal, que ele, como se depreende, despreza." - pág. 56), «um país de intrigas e de traições», opiniões que as figuras dos restantes governadores e dos delatores (Vicente, Andrade Corvo e Morais Sarmento) exemplificam / concretizam. Não é, pois, de estranhar que aproveite qualquer pretexto para ridicularizar Portugal e assuma, sistematicamente, uma postura de arrogância e de superioridade relativamente ao reino e às suas gentes, contrapondo a sua terra natal, uma «terra onde as leias são humanas» (depreende-se, por contraste, que em Portugal são desumanas), «as pessoas cultas» (em Portugal, incultas e ignorantes), «a vida cheia de sentido» (em Portugal, o oposto) e «um homem vive como um homem» (em Portugal, como um bicho / animal? - ou seja, em condições degradantes). Pelo contrário, o reino lusitano é um país de intrigas e traições (pág. 63) onde reina a desonra («Honras? E quem mas presta?» - pág. 57) e os títulos nobiliárquicos não têm valor («Títulos? Mas quem é o marquês de Campo Maior fora do botequim do Marrare?» - pág. 58), cuja superioridade enfatiza.
          Dois dos traços característicos de Portugal com que mais antipatiza são o catolicismo caduco e o exercício incompetente do poder, mostrando-se, nos diálogos que trava com Principal Sousa, sistematicamente, sarcásticoirónicojocosozombadormordaztrocista e profundamente crítico quer com aquela personagem, que com o país, quer com as suas instituições («O tom do marechal é sempre jocoso. Sente-se que não toma os Portugueses a sério, embora esteja disposto a  colaborar com eles na medida do necessário para a obtenção dos seus fins.» - pág. 55 - assim se revela um perfeito oportunista). Atente-se, por exemplo, nas opiniões que manifesta sobre o exército (considera-o pindérico), o Rei e a Igreja, que despreza.

          Homem prático e decidido («Excelências: não vim aqui para perder tempo com conversas filosóficas. Venho falar-lhes de coisas mais sérias.» - pág. 41) e objectivo(«Beresford é um homem prático, que encara objectivamente a realidade» - pág. 42), as suas intervenções, nos diálogos travados com as demais personagens, denunciam um homem calculistaperspicazpráticoobjectivomaterialista e ambicioso, um mercenário, em suma, que não tem qualquer pejo em confessar que só está em Portugal por um único motivo - «Pretendo uma coisa de vós: que me pagueis - e bem!»«Troco os meus serviços por dinheiro, Excelência.» - pág. 58) -, isto é, para assegurar «um futuro que [o] compense dos sacrifícios do presente [...]» (pág. 57).

          Relativamente ao General, assume que o odeia e que é seu inimigo por razões pessoais: «... é meu inimigo, portanto, quem me dificulte esta missão.» - pág. 63  o General; «quem me possa substituir na organização do exército»  o General; «sou um grande sargento e um mau oficial» (o oposto do General); «sei organizar um exército, mas que não o sei comandar em campanha.»  a falta de liderança (o oposto do General). Ou seja, Beresford receia que Gomes Freire ponha em perigo a manutenção do seu lugar de marechal no exército português. Daí que também ele, na conjura, trace o perfil do alvo a abater: «[...] temos de encontrar alguém que tenha prestígio no exército. Julgo que nos convém um oficial de patente elevada, com um bom passado militar.» (pág. 64).
          À semelhança de D. Miguel, apresenta-se como uma personagem que segue os princípios do maquiavelismo, ou seja, alguém para quem os fins justificam os meios («Tragam-nos a proclamação... obtenham-na seja como for...» - pág. 52; «Senhores, afirmo-vos em nome dos meus 16 000$00 anuais que farei tudo o que for necessário para os continuar a receber!» - pág. 59). Dito de outra forma, a condenação de Gomes Freire - a condenação de um inocente - visa a conservação do seu poder, da sua tença, do seu prestígio e dos seus privilégios. Assim, fomenta a denúncia e o suborno no sentido de encontrar o responsável pela conspiração («Comprem quem for preciso, vendam a alma ao diabo, mas tragam-nos o nome dos chefes...» - pág. 69).

          Já o diálogo mantido com Matilde mostra-nos um Beresford egoístainsensível e frio que não se deixa comover pelas súplicas desesperadas da companheira do general. Pelo contrário, usa com ela uma linguagem trocistairónica e arrogante, que se destina a agredi-la moralmente e a humilhá-la, é mordaz, não desperdiçando a oportunidade para a humilhar e espezinhar e de, através dela, humilhar indiretamente Gomes Freire.

Principal Sousa


         Principal Sousa, a figura que representa o poder religioso, é, em nossa opinião, de todas, a personagem mais odiosa da peça. Porquê? Desde logo, porque deveria representar o BEM e, por isso, estar ao lado do povo humilhado, explorado, oprimido e ignorante. No entanto, pelo contrário, Principal Sousa personifica uma Igreja contrária aos princípios cristãos e ao exemplo de Jesus Cristo: autocráticadogmáticaconservadora nos usos e costumes, falsa hipócritadefensora dos seus interesses, daí o seu comprometimento com o poder político (a equivalência à relação, em determinados períodos do Estado Novo, entre a Igreja católica, representada pelo Cardeal Cerejeira, e o Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar).

          Defensor do despotismo iluminado ("É de origem divina o poder dos reis e é portanto a sua - e não a do povo - a voz de Deus." - p. 36), é um obscurantista, na medida em que defende a manutenção do povo na ignorância para que, desse modo, o poder opressivo e tirânico possa manter o seu reinado livremente. É uma forma de assegurar o sufocar da revolta popular ("... a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! Ambas podem afastar o homem de Deus e do seu caminho." - p. 36) - que receia (p. 40) -, pois a ignorância impede que o povo seja capaz de refletir sobre si, sobre a sua existência, sobre os mecanismos do poder opressivo e de os questionar. Assim, também não é de estranhar que ele odeie a Revolução Francesas e os ideais / valores que lhe estão subjacentes, além dos próprios franceses ("... perdoe o ódio que tenho aos Franceses..." - p. 39), acusando-os de serem responsáveis pelo espírito revolucionário que germina e que poderá contribuir para o fim do seu consulado.

          Por outro lado, dá voz a determinadas ideias do Salazarismo: a conservação de um povo«pobre mas feliz» (pág. 40). Odeia Beresford ("O principal não gosta de Beresford..." - p. 41), que considera um herege (pág. 41), mas aceita e submete-se à sua presença porque tem consciência de que precisa do seu auxílio para manter o poder (p. 59). Além disso, é vingativo, pretendendo justificar a condenação do general com uma ofensa que este terá praticado relativamente ao seu irmão ("Agora me lembro de que há anos, em Campo d' Ourique, Gomes Freire prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!" - p. 72). Astuto, converte rapidamente os eu ódio pessoal numa razão de Estado (RÉPLICAS DA PÁG. 74)

          Adota, sucessivamente, uma postura calculista, hipócrita e cínica. Por exemplo, mostra-se falsamente preocupado com a possibilidade de se condenar um inocente e parece hesitar cada vez que se alude à trama que estará na base da condenação de Gomes Freire (p. 60), mas é denunciado por Beresford, que lhe diz que está nas suas mãos impedi-lo. Por outro lado, é ele próprio quem encontra as razões que o «tranquilizam»: «São muitos os inimigos [...] Maçonaria?» - pág. 67; o episódio acima referido acerca da ofensa que terá praticado. No entanto, pouco depois deixam de o mover o sentimento de culpa e os princípios morais e religiosos que deveriam servir de base à sua atuação, que são substituídos pela inquietação em torno de não se encontrarem as pessoas certas para a condenação de Gomes Freire. Além disso, faz uso constante de uma linguagem pejada de termos religiosos, invocando periodicamente a figura divina para justificar os seus atos, como se agisse em seu nome, e de um discurso paternalista («Vá, meu filho, e ajude-nos a cuidar do rebanho...» - pág. 38). Além disso, não demonstra qualquer escrúpulos em adulterar / deturpar o discurso bíblico, adequando-o aos seus propósitos, interesses e necessidades (PÁGINA 36). Não obstante, o seu inconsciente parece atormentá-lo: sonhou com o seu julgamento e com a sua condenação à forca (p. 68), o que o deixa aterrado e sem dormir.

          Vive deformado pelo fanatismo religioso, evidenciando uma ausência aflitiva de valores éticos e um paternalismo falsooco e beato. Daí a sua linguagem estereotipada, paternalista e falsamente compreensiva. Acaba por ser Matilde a desmascará-lo e humilhá-lo, dirigindo-lhe e à Igreja que representa um conjunto de acusações diretas e violentas: de hipocrisia, violência, falsidade, mentira e traição. A culminá-las, atira-lhe uma moeda aos pés que simboliza os princípios da traição, do apego aos bens materiais  e da corrupção que sempre nortearam o percurso de Principal Sousa.

          Em suma, a figura de Principal Sousa representa:
  1. o conluio entre a Igreja e o Poder;
  2. a política do orgulhosamente sós, princípio em que se espelha, mais uma vez, o Salazarismo;
  3. o não cumprimento da sua missão, evidenciada pela hipocrisia, pela ausência de valores éticos e morais consonantes com a ética cristã e pela cobertura que dá à injustiça.

D. Miguel Forjaz Pereira

          D. Miguel Forjaz pertence ao grupo das personagens do PODER, do qual fazem parte igualmente Principal Sousa e William Carr Beresford, formando um núcleo que comprova a existência de diversos interesses em jogo no que à regência do reino diz respeito: os da nobreza, os dos oficiais ingleses e os da Igreja católica. Por outro lado, os três comungam ainda do medo que possuem relativamente ao movimento liberal por este poder pôr em causa a rígida hierarquia da governação e, assim, ameaçar os privilégios de que beneficiavam.

          D. Miguel é o representante, na peça, da nobreza e de uma das três formas de poder - o civil - e o símbolo da decadência do país que governa. Absolutista convicto, é prepotente e sectárioreligiosa, desumano, frio e cruel, exercendo o poder de forma violenta e despótica: «Temos de a impedir com tal brutalidade que ninguém volte a conjurar neste Reino...» (pág. 43); «Lisboa há de cheirar toda a noite a carne assada [...]» (pág. 131). É alguém reacionário, que não aceita as ideias de liberdade, personificada pelo general Gomes Freire de Andrade. Não obstante serem primosodeia-o, porque teme que a sua popularidade ponha em causa o seu poder e o venha a afastar do cargo governativo que desempenha e porque lhe reconhece qualidades que ele não possui. Com efeito, desprovido de caráter, age em função dos seus ódios pessoais: «Se eu fosse a falar do ódio que lhe tenho...» (pág. 72). Mais: odeia tudo o que possa pôr em causa o regime absolutista, que considera de direito divino, e que é o garante da manutenção dos seus privilégios e dos da classe a que pertence. Assim, sentindo-se ameaçado pelas novas ideias e pelo ambiente revolucionário que se vai instalando, executa um plano ardiloso para forjar a condenação do general, assumindo, sem rebuço, o seu maquiavelismo, ao afirmar que os fins justificam os meios, como se pode verificar no final do ato I. Por outro lado, fica claro que tem tudo preparado e sob controle para encontrar um «bode expiatório» e o acusar e incriminar. Neste sentido, encarrega Vicente da missão de vigiar a casa de Gomes Freire e dar notícia dos seus contactos e movimentações (p. 38), prometendo-lhe, como recompensa, a chefia de um posto de polícia.

          D. Miguel defende o abafar rápido e imediato da revolução de qualquer forma e por qualquer meio, sem contemplações ou receios de recorrer à violência e à brutalidade ("Temos de a impedir com tal brutalidade que ninguém volte a conjurar neste Reino... Se não o fizermos, se tivermos piedade, ou escrúpulos, mais tarde ou mais cedo voltaremos ao mesmo." - p. 43) de forma a conservar o seu poder. Nesse sentido, procura incriminar quem lhe convém e não se preocupa em procurar os verdadeiros conspiradores ("A pergunta é: quem deverá, ou convirá, que tenha sido o chefe da revolta?" - p. 60), saindo da sua boca afirmações que remetem para o salazarismo"Não há inocentes, Reverência. Em política, quem não é por nós, é contra nós." - p. 60). Neste passo da peça, a personagem traça um retrato claro do regime da época e, por extensão, do do Estado Novo e cujos traços principais são a concentração do Poder nas mãos de um só homem (ou nas dos seus representantes - neste caso, os três governadores do reino), a possibilidade de decisão da vida / do destino de outro homem, sem que este tenha direito a um julgamento justo e imparcial, imanado de um poder judicial independente e isento («... o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença.» - pág. 61).

          O processo que leva à condenação do general revela um D. Miguel corrupto («compra»os denunciantes, com Vicente à cabeça), ameaçadormanipulador e estratega, recorrendo a argumentos convincentes para alcançar os seus desígnios. Deste modo, no intuito de convencer Beresford a alinhar no seu plano, dado que este receia perder o seu posto e a sua tença, descreve Gomes Freire como um soldado brilhante, um homem inteligente e um herói popular, e, ao procurar o apoio de Principal Sousa, relembra-lhe que o general é grão-mestre da Maçonaria e um estrangeirado. Não obstante, revela sempre ser medroso e até cobarde, por exemplo, quando não é capaz de receber Matilde de Melo, no acto II, que se lhe dirige procurando libertar o «marido». Por outro lado, defende um julgamento secreto e uma execução célere para evitar possíveis perdões ("... o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença." - p. 65), o que significa que quem for acusado, automaticamente, mesmo antes de ser julgado, já está condenado.
          Por outro lado, o julgamento que idealizou é uma verdadeira farsa, só possível de existência num regime absolutista e de ditadura: (1) o julgamento será secreto, (2) a execução terá lugar imediatamente a seguir à sentença (desta forma, evitam-se os pedidos de clemência e os perdões de pena), (3) as provas judiciais apelarão à emoção em vez da razão (por exemplo, questionando o patriotismo do general), (4) recorrer-se-á a denunciantes, a «patriotas», isto é, a corruptos que tudo farão para cair nas boas graças do Poder e que se vendem a troco de dinheiro.

          Nas palavras de Sousa Falcão (pp. 116-117), D. Miguel é «friodesumano e calculistaOdeia Gomes Freire (...) é a personificação da mediocridade consciente e rancorosa.» e «... um cristão de domingo (...) todos os dias dá, a um pobre, pão que lhe baste para se conservar vivo até morrer de fome...» - o oposto do seu primo. Por outro lado, é desumanovingativo e cruel, por exemplo, quando afirma que «Lisboa há-de cheirar toda a noite a carne assada. (...) o cheiro há-de-çhes ficar na memória durante muitos anos...», ou «Temos de a impedir [à revolução] com tal brutalidade que ninguém volte a conjurar neste Reino...» (pp. 71-72).

          Na sua qualidade de governador, personifica o pequeno tirano, hipócrita, mesquinhoinsensívelinseguro e prepotente, que é avesso ao progresso e à modernidade, mantendo o povo na miséria, na ignorância e no obscurantismo, pois a situação reverte a seu favor. O seu discurso enquadra-se perfeitamente no da época do Estado Novo (séc. XX), girando em torno da retórica e lógica ocas e demagógicas, construindo verdades falsas - assinalem-se, a título exemplificativo, as ideias do «ardor patriótico», da construção de «um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor...». Por outro lado, a sua megalomania e prepotência aliam-se à cobardia e ao calculismo político, num ser desprovido de integridade e corrupto. O processo de condenação do general evidencia, ainda, a aliança da traição, do despeito e da vingança, sentimentos motivados por aquela figura: «Senhores Governadores: aí tendes o chefe da revolta. Notai que lhe não falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado. (...) Se eu fosse falar do ódio que lhe tenho...» (pp. 97-98).

          Além disso, personifica a ambição desmedida, o egoísmo e o desejo de perpetuação da opressão, do absolutismo, das injustiças e diferenças sociais: «Não concebo a vida, Excelências, desde que o taberneiro da esquina possa discutir a opinião d'el-rei, nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro. Pergunto-vos, senhores: que crédito, que honras, que posições seriam as nossas, se ao povo fosse dado escolher os seus chefes?» (p. 43).
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