quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

"Descalça vai pera a fonte"


§ Tema: a mulher / beleza feminina.


§ Estrutura interna

D Mote (tese) - Apresentação de Lianor:
® é localizada a caminho da fonte;
® é caracterizada física  -  "fermosa"
                              e
                 psicologicamente  -  "não segura"

D Voltas (confirmação da tese) - Desenvolvimento:
® da caracterização física:
                            ì "branca"
. adjectivação      í "fermosa"
                            ï "linda"
                            î "graciosa"

                                                 ì "mãos de prata"                ü
. metáforas í "cabelos de ouro"             ý preciosidade
                       î "chove nela graça tanta"   þ

. figuras de estilo                        ì "mais branca que a neve pura"
. hipérboles  í "dá graça à formosura"
                         î "tão linda que o mundo espanta"

. comparação: "Mais branca que a neve pura"

. superlativação   | "tão linda"
                            | "graça tanta"

. vestuário  -  cor  ¾¾  branco: pureza
                              ¾¾  vermelho: paixão, alegria

® da caracterização psicológica: "não segura" (insegurança)
- caminhar com o pote na cabeça > insegurança > encontro com o amigo
                                                           (desequilíbrio)
- da beleza (ser ou não apreciada)?
- do encontro com o namorado (pode não encontrá-lo)?
- dos seus sentimentos?
         De notar a alternância entre os aspectos objectivos e subjectivos do retrato, de forma a transmitir a impressão que o sujeito colhe da imagem de Lianor.



§ Estrutura narrativa

 Espaço: ambiente campestre, rural, bucólico ("verdura", "fonte").

 Tempo: presente  -  momento em que o sujeito observa a mulher.

 Acção: caminhar para a fonte  -  "vai pera a fonte".

 Personagem: Lianor.



§ Recursos estilísticos

         A descrição da beleza e graciosidade de Lianor é feita através dos seguintes recursos:

         1. Nível fónico

. Métrica: redondilha maior (versos de 7 sílabas)  -  medida velha.

. Rima  - ABB / CDCCBB;
             - emparelhada e interpolada;
             - consoante ("verdura" / "segura");
             - rica ("verdura" / "segura") e pobre ("prata" / "escarlata");
             - grave ("verdura" / "segura").
j
. Aliteração em v.

. Alternância de sons abertos (ó, á), sugestivos de vitalidade, e fechados (ô, u) e nasais (on, an).

. Transporte: vv. 1-2, 15-16.


         2. Nível morfossintáctico

. Expressividade do substantivo graça, dos adjectivos linda, branca e pura.

. Substantivos:
fonte     | ambiente
verdura |
pausa        |
neve          | retrato físico
ouro          |
encarnado |
graça       | retrato psicológico
formosura      |

. Adjectivação: fermosa; (não) segura (exposta às ciladas do amor); branca; pura; linda.

. Orações consecutivas:         "que o mundo espanta";
                                            "que dá graça à fermosura".

. Alternância entre orações coordenadas e subordinadas.

. Expressividade do verbo chover, com valor transitivo e sentido hiperbólico: a graça era tão evidente e abundante como a chuva.

. Advérbios tanta, não.


         3. Nível semântico

. Personificação: "tão linda que o mundo espanta".

. Metáforas: "mãos de prata, "cabelos de ouro"  ®  fazem ressaltar a brancura das mãos e os cabelos louros, características do tipo da mulher clássica;
                     "chove nela graça tanta".

. Hipérboles: "mais branca que a neve pura";
"tão linda que o mundo espanta";
"chove nela graça tanta
 que dá graça à fermosura".

. Comparação: "mais branca que a neve pura".

. Diminutivos: sainho, vasquinha  ®  sugerem a ideia de carinho e simpatia do sujeito pela mulher, o encantamento daquele face à beleza e graciosidade desta.

. Associação de cores (o vermelho do vestuário, o branco da pela e o loiro dos cabelos) para sugerir a alegria, a pureza e a perfeição de Lianor, respectivamente.

. As peças de vestuário e os objectos que transporta, em si graciosos, que o sujeito poético pretende transferir  -  a graciosidade  -  para Lianor.

. Trocadilho: "Chove nela graça tanta / Que dá graça à fermosura".



§ Mulher retratada: a mulher clássica, petrarquista, cujo retrato incide mais sobre a beleza psicológica e menos sobre a física.


§ Classificação: vilancete  ®  forma poético-musical composta a partir dum mote
                                                 curto (2 ou 3 versos), tradicional, geralmente alheio, que introduz o tema. De início, este mote era tirado duma canção popular-vilã e a ele cabia, em exclusivo, a designação de vilancete, que depois passou a atribuir-se a todo o poema. A seguir ao mote existem as voltas ou glosas, compostas por 7 versos, que desenvolvem o tema introduzido pelo mote. A glosa divide-se em cabeça (os primeiros 4 versos) e cauda (os restantes 3). O último verso da cabeça rima com o primeiro da cauda, fazendo assim a ligação entre ambas; os dois últimos versos da cauda rimam com os dois últimos versos do mote, e o último deste é, no vilancete perfeito, integralmente repetido no último verso da cauda.



§ Influências  -  Intertextualidade

         § Petrarca (inovações renascentistas):
- caracterização da mulher (física e psicológica);
- caracterização predominantemente psicológica e só aparentemente física.

§ A utilização do trocadilho, da hipérbole e do jogo de conceitos e ambiguidades, como recursos do engenho poético (também existentes na endecha "Aquela cativa"), coloca, em certa medida, Camões como precursor da poesia cultista e conceptista do século XVII.


Caracterização / retrato de Pêro Marques


(B) Pêro Marques: lavrador abastado

1. Externa: (lavrador)
. o capelo;
. o gabão azul;
. as perlas;
. as peias;
. o novelo;
. o chocalho;
. o pente;
. as pêras.

2. Retrato social: Pêro Marques é um lavrador abastado pertencente ao povo.

3. Linguagem:
. tímida;
. afetiva;
. simples;
. monologada.

4. Psicológica:
. é o primeiro pretendente de Inês, rejeitado por ela inicialmente;
. é rico e trabalhador, tendo herdado a maior parte do gado do pai e uma fazenda de mil cruzados;
. apresenta-se como um homem de bem, honesto, sincero, leal, respeitador e de boas intenções (preocupa-se com a reputação e honra de Inês);
. atencioso e delicado em relação a Inês, procura agradar-lhe, penteando-se antes de a ver;
. é um homem rústico, simples / simplório e desajeitado, pouco inteligente, desconhecedor das regras de convivência social, ignorante e ingénuo:
- procura a casa de Inês, mas não a encontra facilmente;
- esqueceu-se da morada da jovem, não obstante se tratar de um encontro muito importante;
- só identifica a casa a partir de um elemento pertencente ao seu universo: a “parreira”
- não sabe usar uma cadeira, acabando por se sentar de costas para Inês e a Mãe;
- traz peras como presente para Inês, tendo-as colocado no capelo, por baixo de todos os outros objetos e acabando por não as encontrar;
. inseguro e inábil nos assuntos amorosos, cai no ridículo pela maneira como se veste e pela maneira de falar e de agir:
- quando se vê a sós com Inês, ao invés de procurar seduzi-la, como fariam os outros homens, mostra-se incomodado e receoso por pôr em causa a reputação dela;
- quando inicia o discurso perante Inês e a Mãe não consegue dizer grande coisa e acaba mesmo por se trabalhar;
- atrapalha-se quando Lianor lhe pede para abraçar Inês após o casamento;
- não se recorda das palavras regulamentares do casamento;
- pretende que o trigo seja deitado sobre eles antes do casamento;
. sofre com a rejeição e promete não se casar até que Inês o aceite;
. após a morte do Escudeiro, casa-se com Inês Pereira;
. ingénuo e crédulo como sempre e submisso, concede liberdade total a Inês e é traído por ela;
. representa o papel de «asno» que leva literalmente a mulher às costas para que ela se preserve para («visitar») o Ermitão.

            Pêro Marques representa o papel de “asno” que carrega a mulher às costas para casa de um seu antigo pretendente. É a personagem cómica da farsa. Enamorado de Inês, tudo tenta para casar com ela, mas a sua estupidez e ingenuidade são um grande obstáculo. Embora bem formado moralmente, comporta-se como um imbecil. É rico e honesto, mas a sua honestidade não lhe deixa ver a maldade humana.
            Em antítese com o Escudeiro, Pêro Marques é o bom marido que dá à mulher toda a liberdade que ela quer, procurando fazê-la feliz. Todavia, Inês não o respeita e é-lhe infiel com um falso Ermitão, sendo o próprio marido, Pêro, que a conduz ao encontro com o amante.


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