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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Resumo do conto "Von Kempelen e a sua Descoberta"

Edgar Allan Poe
    O conto começa com o narrador a propor-se esclarecer a verdade sobre a espantosa e inédita descoberta de Von Kempelen, afastando rumores e atribuindo a sugestão inicial do feito a anotações do diário do eminente químico Sir Humphrey Davy.
    Von Kempelen é-nos apresentado como um homem natural de Utica, Nova Iorque, de aspeto comum, franco e de trato agradável, desmentindo a ideia generalizada de que seria um misantropo. Após mudar-se para a cidade de Bremen, na Alemanha, começou a viver com extremas dificuldades. Contudo, a compra repentina de uma grande casa levantou suspeitas na polícia local de que estaria envolvido em esquemas de falsificação.
    Sob rigorosa vigilância, a polícia acabou por segui-lo até a um laboratório secreto nas águas-furtadas de um velho edifício. Ao arrombarem a porta, esperando encontrar material de contrafação, os guardas surpreenderam-no a trabalhar num pequeno forno com cadinhos que continham chumbo fundido e uma substância química desconhecida. Durante a busca ao quarto, encontraram debaixo da cama uma arca incrivelmente pesada. Embora os polícias tenham pensado inicialmente que estava apenas cheia de pedaços irregulares de latão, no dia seguinte soube-se em toda a cidade que o seu conteúdo era, na verdade, ouro absolutamente puro e sem liga.
    Von Kempelen tinha concretizado a velha quimera da pedra filosofal: a transformação de chumbo em ouro. O relato termina com o narrador a refletir sobre o profundo impacto económico desta descoberta. Especula-se que a capacidade de fabricar ouro à discrição tornará a corrida ao ouro na Califórnia fútil, uma vez que o ouro passará a valer tanto como o chumbo. Como prova do impacto imediato da descoberta, assinala-se que, na Europa, o preço do chumbo sofreu de imediato um aumento de duzentos por cento.

Resumo do conto "O Embuste do Balão"

Poe
    O Embuste do Balão apresenta-se como uma notícia sensacionalista, alegadamente publicada no New York Sun, que anuncia a incrível travessia do Oceano Atlântico em apenas três dias. O feito inédito é atribuído ao balão dirigível Victoria, concebido pelo Sr. Monck Mason e tripulado por um grupo de oito pessoas.
    A narrativa detalha a evolução técnica da aeronave, explicando que o sucesso desta máquina se deve à combinação da força de sustentação de um balão com um mecanismo de propulsão baseado no parafuso de Arquimedes, superando assim as falhas de inventores anteriores. O balão foi construído em grande segredo no País de Gales, financiado por entusiastas da aerostação. Para a sua ascensão, optou-se pela utilização de gás de hulha em vez de hidrogénio, por ser consideravelmente mais económico, duradouro e fácil de controlar.
    Uma das inovações mais cruciais para a viagem descritas no texto é o "cabo-guia". Trata-se de uma corda comprida pendurada na barquinha que roça na superfície da terra ou do mar. Este engenhoso sistema permite estabilizar a altitude do balão — aliviando o peso quando o cabo toca no solo — sem ser necessário desperdiçar lastro ou gás, servindo também como um instrumento para indicar a direção e a velocidade do vento.
    A expedição, que inicialmente tinha como objetivo apenas atravessar o Canal da Mancha até Paris, parte tranquilamente numa manhã de sábado. Contudo, como a própria notícia do jornal antecipa, acontecimentos inesperados durante o voo acabam por transformar a rota planeada na suposta e extraordinária travessia transatlântica que dá origem à história.
    A viagem, detalhadamente registada num diário de bordo, começa na manhã de sábado, dia 6 de abril. No entanto, quando os tripulantes já sobrevoavam o mar e testavam os mecanismos de navegação, um imprevisto altera drasticamente os planos: um movimento brusco na barquinha danifica a haste de aço que liga a hélice ao motor. Enquanto a tripulação tenta reparar o mecanismo, o balão é surpreendido e apanhado por uma violenta corrente de vento de leste, que os arrasta em direção ao oceano Atlântico a grande velocidade.
    Perante esta situação inesperada, o Sr. Ainsworth propõe uma ideia audaz: em vez de lutarem contra o vendaval para tentar regressar a Paris, deveriam aproveitar a força da tempestade e tentar alcançar a costa da América do Norte. O grupo aceita o desafio e o balão avança rapidamente para oeste. Durante os dias seguintes, os aeronautas maravilham-se com a viagem, cruzando com vários navios que os saúdam, observando a fosforescência do mar à noite e chegando a atingir a impressionante altitude de 25 000 pés, surpreendentemente sem sentirem grandes dificuldades respiratórias ou frio extremo.
    Na terça-feira, dia 9 de abril, a ousadia da tripulação é coroada de sucesso com o avistamento da costa da Carolina do Sul. O balão, manobrado com precisão graças ao cabo-guia e à hélice já reparada, aterra suavemente e em segurança na Ilha de Sullivan, perto do Forte Moultrie, pelas duas da tarde. A extraordinária travessia transatlântica é assim concluída em apenas setenta e cinco horas, sem qualquer acidente grave, sendo descrita no artigo como a mais estupenda e interessante proeza jamais realizada pelo homem.

Resumo do conto "O escaravelho de ouro"

Poe
    William Legrand, um homem de origens ricas, após cair na miséria, isola-se na ilha de Sullivan, na Carolina do Sul. Vive numa cabana com o seu leal servo negro, Jupiter, dedicando-se à caça, pesca e entomologia.
    Durante uma visita do narrador, Legrand revela com grande entusiasmo ter descoberto um escaravelho desconhecido e brilhante, que o supersticioso Jupiter acredita ser feito de ouro maciço. Como Legrand havia emprestado o inseto a um tenente, decide desenhá-lo num pedaço de papel sujo que encontra no bolso para o mostrar ao amigo. O narrador nota que o esboço se assemelha perfeitamente a uma caveira, o que inicialmente irrita o homem. No entanto, ao reexaminar o papel,fica subitamente pálido, absorto e guarda o desenho a sete chaves, mudando drasticamente o seu humor.
    Cerca de um mês depois, Jupiter procura o narrador em Charleston, extremamente preocupado. Relata que o seu amo está doente, com um comportamento obsessivo, passando os dias a decifrar códigos matemáticos e a murmurar sobre ouro durante o sono. O servo está convencido de que o amo enlouqueceu devido a uma mordedura do misterioso inseto dourado. O excerto termina com ele a entregar uma missiva urgente de Legrand, que implora ao narrador que regresse à ilha imediatamente para lhe comunicar um assunto da maior importância.
    Após receber a nota preocupante, encontra Jupiter, que trazia consigo pás e uma foice compradas a pedido do amo. Ao chegarem à cabana, deparam-se com um Legrand pálido, febril e num estado de grande euforia, absolutamente convencido de que o escaravelho é feito de ouro verdadeiro e será a chave para recuperar a sua fortuna. Apesar de o narrador suspeitar que o amigo perdeu a razão, aceita acompanhá-lo para o tentar acalmar. O grupo parte à tarde e caminha até uma região elevada e desolada, onde encontram um enorme e imponente tulipeiro. Legrand ordena então a Jupiter que suba à árvore, levando consigo o escaravelho atado a um cordel.
    A muito custo e cheio de receio, o servo trepa até a um ramo bastante alto, onde faz uma descoberta macabra: uma caveira humana pregada à madeira. Seguindo as instruções precisas e delirantes do amo, deixa cair o escaravelho exatamente através do olho esquerdo da caveira. Utilizando o ponto onde o inseto aterra, Legrand faz medições minuciosas com uma fita métrica, estendendo uma linha de cinquenta pés a partir da árvore até um novo local. Aí, traça um círculo no chão e ordena aos seus companheiros que comecem imediatamente a escavar.
    Após escavarem arduamente durante duas horas sem encontrarem absolutamente nada, o narrador dá a missão por terminada e o desapontado grupo prepara-se para regressar a casa. No entanto, pouco depois de iniciarem a marcha, Legrand interroga Jupiter e apercebe-se de que o servo cometera um erro crasso: deixara cair o escaravelho pelo olho direito da caveira, em vez do esquerdo. Eufórico com a descoberta da falha, obriga-os a regressar à árvore, refaz as medições a partir do olho esquerdo e marca um novo local. Voltam a escavar e, não muito depois, o cão deteta vestígios que revelam dois esqueletos humanos e algumas moedas. Continuando a cavar, encontram finalmente uma pesada arca de madeira reforçada a ferro. Ao abri-la, o grupo fica deslumbrado com um tesouro incalculável. Com enorme esforço, transportam para a cabana uma fortuna avaliada em mais de um milhão e meio de dólares, composta por centenas de milhares de moedas de ouro antigas de vários países, diamantes, rubis, esmeraldas, safiras e inúmeros ornamentos de ouro maciço.
    Passada a excitação do transporte e da contagem, Legrand começa a desvendar o mistério ao narrador. Explica que o papel sujo onde desenhara o escaravelho era, na verdade, um pergaminho que encontrara na praia junto aos destroços de um barco. A figura da caveira só tinha aparecido no verso porque, na noite em que o narrador analisara o esboço do inseto, segurara o papel demasiado perto do calor da lareira, ativando compostos químicos de uma tinta invisível. Fascinado com a coincidência, Legrand aplicou mais calor ao pergaminho e revelou uma nova figura: um cabrito ("kid", em inglês). Associou imediatamente o desenho ao famoso pirata Capitão Kidd, assumindo tratar-se da sua assinatura. Convicto de que tinha em mãos as indicações perdidas para a fortuna do pirata, lavou o pergaminho e aqueceu-o sobre as brasas, revelando por fim um conjunto de figuras ocultas dispostas em linhas, um código secreto que continha a localização exata do tesouro.
    De seguida, detalha o minucioso processo de decifração do criptograma. Partindo do princípio de que o pirata Kidd falava inglês, analisou a frequência dos símbolos. Sabendo que a letra "e" é a mais comum na língua inglesa, associou-a ao símbolo que mais se repetia (o número 8). Através desta lógica de substituição e tentativa, foi desvendando palavras inteiras até traduzir a totalidade da mensagem oculta. O enigma decifrado falava de uma "boa lente na albergaria do bispo", na "cadeira do diabo", e fornecia coordenadas exatas e instruções para disparar pelo olho esquerdo de uma caveira. Após investigar a ilha, Legrand descobriu que a "albergaria do bispo" não era uma taberna, mas sim um rochedo proeminente num antigo terreno da família Bessop. Ao explorar essa rocha, encontrou uma saliência estreita — a "cadeira do diabo".
    Sentando-se nessa exata posição e utilizando um óculo (a "boa lente"), apontou-o para as coordenadas referidas no texto e conseguiu finalmente avistar a caveira pregada no ramo do tulipeiro ao longe. O resto das instruções mandava deixar cair uma bala pelo olho esquerdo da caveira e traçar uma linha de cinquenta pés. Ele explica que o erro inicial de Jupiter, ao largar o peso pelo olho direito, criou um ângulo de desvio que, ao fim de cinquenta pés, os afastou significativamente do local correto do tesouro. Confessa ainda que, aborrecido com as suspeitas de que estaria louco, decidiu castigar o narrador e o velho servo negro secretamente: usou o escaravelho de ouro em vez de uma simples bala apenas para os mistificar e assustar um pouco mais.
    Para terminar, o narrador questiona Legrand sobre os dois esqueletos encontrados no buraco junto à arca. A resposta encerra a história com uma nota sombria: o Capitão Kidd certamente precisou de ajuda para escavar e enterrar uma fortuna daquele tamanho, mas, para garantir que o segredo do mapa ficava apenas consigo, assassinou os seus cúmplices, quiçá a golpes de picareta, assim que o trabalho terminou.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Resumo do conto "A Aventura sem Paralelo de um tal Hans Pfaall", de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe
    A narrativa começa na cidade de Roterdão, que entra em alvoroço com a aparição nos céus de um balão bizarro, construído com jornais sujos e tripulado por uma criatura de aspeto peculiar. Esse ocupante deixa cair um manuscrito destinado às autoridades, assinado por Hans Pfaall, um humilde reparador de foles da cidade que se encontrava misteriosamente desaparecido há cinco anos, tal como três dos seus credores.
    Através do manuscrito, Pfaall relata como a pobreza extrema e a perseguição diária e insuportável desses credores o levaram ao desespero. Inspirado pela leitura de um livro de astronomia e pneumática, decide conceber um plano de fuga audacioso: constrói um balão gigante em segredo, utilizando um novo gás por si descoberto, que é imensamente mais leve do que o hidrogénio. Para concretizar a partida, engana os credores, pedindo-lhes ajuda nos preparativos finais. Durante a descolagem, aciona um mecanismo com pólvora que resulta numa enorme explosão; o impacto não só atira o balão violentamente para os céus, como elimina os três credores que tinham ficado no chão.
    A viagem começa de forma quase fatal, com Pfaall a ficar acidentalmente pendurado de cabeça para baixo, do lado de fora da barquinha, na sequência do solavanco da explosão inicial. Após um esforço agonizante e terror extremo, consegue finalmente içar-se de volta para o interior do cesto. À medida que ganha altitude, Hans reflete sobre a miséria e o desespero em Roterdão que o levaram a preferir esta arriscada fuga pelo espaço ao suicídio. O relato é pautado por constantes observações científicas e raciocínios matemáticos sobre a distância da Terra à Lua, a atração gravítica e a densidade da atmosfera.
    Ao atingir camadas mais elevadas, o protagonista depara-se com um sofrimento físico atroz devido à rarefação do ar, sofrendo de espasmos, inchaço e sangramentos severos nos ouvidos, nariz e olhos. Para escapar à morte iminente, coloca em prática a sua invenção salvadora: envolve toda a barquinha num invólucro hermético de borracha e ativa um engenho condensador capaz de purificar o ar rarefeito do exterior, permitindo-lhe voltar a respirar com facilidade e aliviando as suas dores.
    O resto do trajeto descrito alterna entre a contemplação fascinada do espaço e da Terra escurecida, e as tragédias e desafios logísticos diários. Entre eles, destaca-se a perda acidental da sua gata e respetivos gatinhos, que caem do balão, e a necessidade de inventar um sistema de alarme mecânico com água para o acordar a espaços regulares (hora a hora) durante a noite, garantindo que opera o condensador de ar e não morre asfixiado enquanto dorme. O estratagema adotado por Hans Pfaall para purificar o ar e conseguir respirar na atmosfera altamente rarefeita consistiu na criação de um ambiente totalmente isolado, associado a um aparelho de condensação. Para o efeito, envolveu toda a barquinha do balão e a si próprio num resistente e flexível saco de goma-elástica, perfeitamente hermético. No interior desta câmara improvisada, instalou a sua máquina condensadora, cujo extenso tubo comunicava com o exterior através de uma abertura no invólucro. Este aparelho criava um vácuo que aspirava a atmosfera rarefeita circundante, condensando-a para que se misturasse com o ar leve já presente no habitáculo, tornando a atmosfera própria para respiração após a operação ser repetida diversas vezes. No entanto, como o ar num espaço tão confinado ficava rapidamente viciado pelo uso dos pulmões, Pfaall instalou uma pequena válvula no fundo da barquinha para o evacuar. Para evitar o efeito nefasto e potencialmente fatal de criar um vácuo total no interior da câmara, esta purificação nunca era feita de súbito, mas sim de maneira gradual: abria a válvula apenas por alguns segundos para expelir o ar denso e viciado, fechando-a de seguida para que a bomba do condensador introduzisse e repusesse uma quantidade correspondente de ar fresco processado.
    Durante a sua odisseia, Pfaall mantém um diário rigoroso das suas observações astronómicas e geográficas, como o achatamento dos polos da Terra e uma profunda concavidade no Polo Norte. Para sobreviver à viagem, relata o uso de um engenhoso sistema de alarme feito com água, que o desperta hora a hora para operar a sua máquina de purificação de ar e evitar a asfixia. À medida que se aproxima do destino, os desafios intensificam-se. Ele sobrevive à quase colisão com gigantescos fragmentos vulcânicos e meteoritos e descreve um momento de pânico absoluto quando a atração gravitacional se inverte, fazendo com que a Lua passe a estar subitamente debaixo dos seus pés e a Terra por cima de si.

    A descida para a superfície lunar é perigosamente veloz. Apesar de a atmosfera lunar o ajudar a travar, Pfaall vê-se forçado a desmantelar a sua câmara protetora, atirar borda fora todo o seu equipamento e pendurar-se na rede do próprio balão para sobreviver ao impacto. Aterra finalmente no coração de uma cidade de aspeto fantástico, habitada por criaturas pequenas, feias, sem orelhas e que não comunicam pela fala. A narrativa destes excertos culmina com a revelação de que Hans Pfaall sobreviveu e reside na Lua há já cinco anos, oferecendo-se agora para partilhar com os astrónomos da Terra todos os profundos mistérios, costumes e segredos geológicos do satélite que teve a oportunidade de explorar.
    O manuscrito termina com Hans a solicitar um perdão oficial às autoridades de Roterdão pelo homicídio dos seus credores aquando da partida do balão. Em troca deste perdão, ele oferece conhecimentos profundos e revolucionários sobre a ciência física e metafísica. Hans revela ainda que o mensageiro bizarro que entregou a carta é, na verdade, um habitante da Lua que ele convenceu a viajar até à Terra, ficando agora a aguardar o seu regresso com o tão desejado perdão.
    Após a leitura, as autoridades locais, representadas pelo professor Rubadub e por Mynheer Superbus von Underduk, ficam estupefactas, mas concordam em perdoar o crime. Contudo, apercebem-se de que o mensageiro lunar, mortalmente assustado com a aparência da população, tinha desaparecido, impossibilitando assim que o perdão chegasse às mãos de Hans.
    Quando o conteúdo da carta é tornado público, gera-se uma onda de especulação e ceticismo, com várias pessoas sensatas a considerarem tudo um enorme embuste. Os céticos baseiam-se em factos muito práticos: o suposto extraterrestre assemelhava-se a um anão sem orelhas que desaparecera recentemente da cidade de Bruges; o balão tinha sido fabricado com jornais impressos em Roterdão; e, como prova final da farsa, o próprio Hans Pfaall e os três credores que ele alegava ter assassinado tinham sido vistos, escassos dias antes, a beber numa taberna local, acabados de regressar de uma viagem por mar e com dinheiro nos bolsos.

    O final propriamente dito do conto é seguido de uma extensa Nota que o encerra, uma espécie de reflexão crítica e literária do próprio Edgar Allan Poe. Nesta secção, o escritor defende a originalidade da sua obra, fazendo questão de sublinhar que "Hans Pfaall" foi publicado cerca de três semanas antes do célebre "Embuste da Lua", uma fraude literária de Richard Adams Locke que se tornou famosa na época. Poe dedica grande parte do texto a criticar a facilidade com que o público se deixou enganar por esse embuste, dissecando os seus erros científicos absurdos e a falta de rigor astronómico e ótico.
    Para além desta crítica, o autor compara o seu conto a outras obras clássicas sobre viagens à Lua. Ele resume enredos de outros livros, detendo-se particularmente na história de um homem que viaja até ao satélite terrestre numa máquina puxada por enormes pássaros migratórios (ganzas). Menciona ainda as histórias satíricas de Cyrano de Bergerac e de outras personagens que voam em águias, apontando sistematicamente as falhas e o total desrespeito pela física e pela astronomia nestes relatos.
    O texto destas páginas culmina com a conclusão final de Poe sobre o seu próprio trabalho. Ele afirma que, ao contrário de todos os outros autores de panfletos e brochuras lunares — que visavam apenas a sátira e nunca se preocuparam com a plausibilidade —, o grande objetivo e originalidade de "Hans Pfaall" é a busca pela verosimilhança. A sua história demarca-se por aplicar princípios científicos reais de forma a dar uma aparência de total credibilidade e realismo a uma viagem profundamente fantasiosa.

domingo, 26 de julho de 2026

Resumo de O Eterno Marido

Dostoiévski
   Veltchanínov é um hipocondríaco de 38/39 anos, com uma educação esmerada, vaidoso, progressivamente solitário e cismático, perde a memória de coisas recentes e recorda, sob um novo ponto de vista, factos remotos (as duas fortunas desbaratadas, o filho tido de um popular — ambos abandonados, comportamentos "criminosos", calúnia de pessoas), desliga-se por vezes da realidade. Mantém um litígio em tribunal. Toda a angústia e perturbação que sente, conclui, fica a dever-se a uma série de encontros, na rua, com um misterioso homem, de chapéu com fita de luto, que parece persegui-lo.
    Uma noite, sonha que assassinou um homem e ocultou o crime. Outro homem, outrora muito familiar a Veltchanínov, já falecido, está em sua casa e dele depende a sua condenação ou absolvição. Subitamente, desperta e encontra à porta de casa o homem com a fita de luto no chapéu. O homem é, afinal, Pável Pávlovitch Trussótski, um velho conhecido de Veltchanínov, viúvo há pouco tempo. A mulher, Natália Vassílievna fora, então, sua amante, por quem ele faria qualquer loucura que ela desejasse: era uma mulher sedutora, escravizante e dominadora. Após a partida dele, ela teve novo amante: Bagaútov. Trussótski era o "eterno marido", ou seja o homem que casa para ser "cornudo" sem o saber. O poder dela era tal que quem acabava as relações era Vassílievna.
    Trussótski vive em Peterburgo, numa casa miserável, com uma criança de 8 anos, Liza, sua filha. Por isso, Veltchaninov convida-o para sua casa e a enviar a filha para uma casa de seus conhecidos para o tempo que eles ainda estão ali, onde será bem tratada. A criança nasceu cerca de oito meses depois de Veltchanínov ter saído de T... Ora, uma das razões invocada por Natália para acabar o romance com ele foi precisamente a suspeita de uma gravidez deste.
    Veltchanínov confidencia à sua amiga Klávdia Petrovna Pogoréltsev, a mãe de família que acolhera temporariamente Liza, estar convencido que esta é sua filha e que Trussótski o visitou por despeito, para se "vingar" do romance que manteve com Natália. Trussótski sabe que Bagaútov foi amante da falecida mulher, porque esta deixou uma caixinha contendo, entre outras coisas, a sua correspondência com o amante. Veltchanínov suspira de alívio por nunca ter escrito uma carta amorosa que fosse a Natália; por outro lado, fica a saber que trata Liza com grande crueldade, beliscando-a, apelidando-a de bastarda, ameaçando que um dia se enforcará e que a culpa será dela.
    Enfim, Liza adoece e pede a Veltchanínov que a leve de casa dos Pogoréltsev, o que lhe é impossível. Ao décimo dia na casa destes, a criança morre. Veltchanínov passa os últimos dias à cabeceira da sua cama; depois parte em busca de Trussótski, que encontra, mais uma vez, bêbedo, numa casa de passe, dizendo-lhe que o verdadeiro pai de Liza era um alferes de artilharia. Trussótski simula a doença e envia uma carta de agradecimento aos Pogoréltsev, juntamente com 300 rublos para pagar as despesas da estadia e do funeral, mas estes utilizam apenas o necessário para o funeral e devolvem-lhe o restante. Veltchanínov erra pela cidade, desmazelando a sua pessoa por completo (é-lhe indiferente, por exemplo, o facto de ter sido solucionado o litígio que mantinha de forma positiva para si).
    Tempo depois, Trussótski anuncia-lhe o intuito de se casar com uma menina de 15 anos, filha de Zakhlebinin, conselheiro de estado que agia em favor da parte contrária no litígio de Veltchanínov. Trata-se de uma família sem grandes possibilidades de acumular riqueza, constituída por vários filhos, pelo que é necessário casá-los com alguém de posses. Daí o interesse mútuo no casamento; para Trussótski o que o atrai também é a inocência da menina. Ele vem convidar Veltchanínov para o acompanhar à casa de campo da família, para o apresentar a esta. Este apercebe-se de imediato que a pretendida, Nádia, odiava o pretendente e aceita muito a custo a pulseira que lhe oferece. Pelo contrário, o saber estar e conversar em sociedade de Veltchanínov logo o guindam ao centro das atenções, a todos agradando. Nas brincadeiras que efectuam, os jovens troçam e ridicularizam diversas vezes Trussótski que, furioso, "obriga" Veltchanínov a abandonar a casa de Zakhlebinin, perante a estupefacção geral, ao dar-se conta que Veltchanínov conquistara o coraçãosinho de Nádia.
    Quando estão em casa de Veltchanínov, recebem a visita de um jovem de 19 anos, Aleksandr Lóbov, que está comprometido com Nádia, e vice-versa, tendo a mesma já pedido em casamento, apesar da oposição do pai dela, e que vem solicitar a Trussótski que abandone o ignóbil intento de desposá-la. Veltchanínov é acometido de uma crise de fígado durante a noite, tem um sonho semelhante ao que lhe ocorrera algum tempo atrás e, quando desperta, é vítima de uma tentativa de assassinato por parte de Trussótski, com uma navalha da barba. De manhã, Veltchanínov expulsa-o de sua casa.
    No dia seguinte, Lóbov informa Veltchanínov de que Trussótski partiu, de regresso, para T... e entrega-lhe uma carta que ele lhe deixou. Dentro do sobrescrito existe uma carta escrita por Natália para Veltchanínov, mas que ela não enviou afinal e substituiu pela outra. Nessa carta, Natália dizia-lhe estar apaixonada por Veltchanínov e estar grávida dele, Veltchanínov.
    Dois anos depois, Veltchanínov viaja até Odessa para visitar um amigo e na esperança de ser apresentado a uma determinada senhora. É um homem, agora, que recuperou o seu gosto pelo convívio social. Numa paragem do comboio na estação, há um episódio em que uma senhora é ofendida por um comerciante bêbedo e Veltchanínov vai em seu socorro. Ora, essa senhora é "apenas" a nova esposa de Trussotski, que aparece pouco depois. Ele é dominado pela mulher, de quem tem medo, e vive atormentado pela possibilidade de ser novamente atraiçoado.
    Veltchanínov, de mau humor, causado pela despedida intempestiva de Trussotski, acaba por não visitar a sua senhora conhecida, o que provoca um comentário final do narrador pleno de suspense: "Mas ele o viria a lamentar, mais tarde !!!"

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Resumo de A Dama do Lago, de Raymond Chandler

Raymond Chandler
    A Dama do Lago (The Lady in the Lake) é um romance policial da autoria do escritor Raymond Chandler.
    O início da história acompanha o detetive privado Philip Marlowe, que se desloca aos luxuosos escritórios da empresa de cosméticos Gillerlain para se encontrar com o rígido e arrogante empresário Derace Kingsley, após a recomendação de um tenente.
    Após um primeiro contacto tenso e uma breve negociação sobre honorários e confidencialidade, Kingsley revela o motivo da reunião: quer contratar Marlowe para encontrar a sua mulher, Crystal, que está desaparecida há cerca de um mês. O último local onde esteve foi na propriedade do casal nas montanhas, junto a um lago (Little Fawn Lake).
    Kingsley explica que recebeu um telegrama de Crystal, oriundo de El Paso, a informar que iria para o México tratar do divórcio para se casar com um homem chamado Chris Lavery, descrito como um conquistador. O mistério adensa-se quando Kingsley conta que se cruzou acidentalmente com Lavery há poucos dias e este lhe garantiu que não fugiu com Crystal nem a via há dois meses.
    Temendo um escândalo e sabendo que a mulher tem um comportamento bastante errático e extravagante quando bebe (incluindo roubar em lojas), Kingsley confia a investigação a Marlowe, temendo que algo de grave lhe possa ter acontecido.
    O detetive traça logo o seu plano de ação: interrogar Chris Lavery e fazer uma visita à propriedade na montanha. Antes de sair, pede a morada de Lavery à elegante secretária do empresário, Miss Fromsett, que reage com evidente nervosismo e desconforto ao ouvir o nome do homem, dando assim o mote para o arranque da investigação.
    Dando seguimento à investigação, o detetive dirige-se à casa de Chris Lavery. Após alguma insistência, este acaba por deixá-lo entrar, mas mostra-se arrogante e esquivo. Nega ter fugido com Crystal para El Paso e garante que não a vê desde que estiveram juntos na montanha, não adiantando qualquer pista sobre o seu paradeiro. Ao sair da casa, Marlowe decide ficar a observar a rua a partir do seu carro e depara-se com uma situação suspeita na vivenda em frente, que pertence a um médico chamado Dr. Albert Almore, que se apercebe da sua presença e se mostra bastante nervoso, espreitando por entre as cortinas e fazendo um telefonema.
    Pouco depois, surge um detetive da polícia, o tenente Degarmo, que confronta o detetive de forma hostil. O polícia assume imediatamente que Marlowe está ali para vigiar ou chantagear o Dr. Almore, lançando-lhe avisos em tom de ameaça e indicando que o último homem que tentou fazer o mesmo teve um desfecho infeliz. O investigador esconde os seus verdadeiros motivos, afasta-se e regressa ao escritório. De seguida, telefona a Derace Kingsley para o informar sobre o encontro infrutífero com Lavery e relata-lhe o estranho episódio com o vizinho. O empresário revela então um detalhe intrigante: o Dr. Almore foi médico de Crystal no passado, tratando-a nos seus episódios de embriaguez, e a própria mulher do médico cometeu suicídio há algum tempo. Perante este novo mistério que parece cruzar-se com o seu caso, o detetive decide avançar para a fase seguinte do seu plano e informa Kingsley de que irá viajar até à propriedade do casal nas montanhas para tentar descobrir o que realmente aconteceu a Crystal.
    Dando continuidade à investigação, Marlowe viaja até à remota propriedade dos Kingsley nas montanhas, perto de San Bernardino, no isolado Little Fawn Lake. Lá, depara-se com Bill Chess, o caseiro do local, um homem rude, amargurado e com forte tendência para a bebida. Durante a conversa, este confirma que Crystal Kingsley partiu para a cidade há cerca de um mês e não voltou a ser vista. Contudo, o caseiro acaba por desabafar e partilha um detalhe trágico e coincidente: a sua própria mulher, Muriel, também o abandonou exatamente na mesma altura. Após uma discussão motivada pela infidelidade de Bill, Muriel desapareceu, deixando-lhe apenas um bilhete a dizer que preferia a morte a continuar a viver com ele. O detetive aproveita a oportunidade para revistar a cabana de Kingsley em busca de pistas sobre a fuga de Crystal, investigando as roupas e pertences deixados para trás. No entanto, é no exterior que a investigação sofre uma reviravolta chocante e macabra.
    Enquanto os dois homens contemplam as águas do lago a partir de um pontão, reparam numa forma estranha presa debaixo de água, sob uma antiga estrutura de madeira. Bill atira uma pesada pedra para quebrar as tábuas submersas, libertando o que lá estava preso. O corpo afogado e em avançado estado de decomposição de uma mulher loira vem flutuar à superfície. Ao reconhecer o colar de pedras verdes que a vítima traz ao pescoço, Bill Chess entra em absoluto desespero, percebendo que a mulher morta no lago é afinal a sua esposa, Muriel. Após a macabra descoberta do corpo, Marlowe deixa-o sozinho e em estado de choque junto ao lago, dirigindo-se à povoação para alertar as autoridades locais.
    Lá, o detetive encontra Jim Patton, um homem corpulento, mais velho e de modos muito pacatos, que acumula as funções de xerife e delegado daquela jurisdição e que se encontra em plena campanha eleitoral para manter o cargo. Marlowe relata-lhe o aparecimento do cadáver na propriedade dos Kingsley, confirmando que, a julgar pelas roupas e pelos indícios, se trata de Muriel Chess.
Marlowe partilha também os detalhes da descoberta: o facto de o corpo estar submerso e preso debaixo do pontão há cerca de um mês, e a existência do bilhete de despedida que sugere um possível suicídio.
Sem demonstrar qualquer sobressalto ou pressa excessiva, o pragmático xerife Patton aceita a gravidade da situação e prepara-se para intervir. Antes de arrancarem nos respetivos carros em direção a Little Fawn Lake, Patton retira estrategicamente uma garrafa de uísque da sua secretária para ajudar a acalmar Bill Chess e informa que irá contactar o médico local, o doutor Hollis, dando assim início às diligências oficiais da investigação. Apesar da insistência do viúvo de que a mulher se suicidou atirando-se à água e ficando propositadamente presa debaixo do pontão, tanto o médico como o pragmático xerife mostram-se céticos em relação à teoria de um simples afogamento. Confrontado com as dúvidas das autoridades e com o facto de o bilhete de despedida ter a data de 12 de junho (há um mês), Bill Chess sofre um violento esgotamento emocional. Num acesso de fúria e desespero, agride-se a si próprio no rosto até sangrar e grita para que o prendam, culpando-se pela morte da mulher devido às suas infidelidades, embora negue veementemente tê-la assassinado. Mantendo a calma, Patton decide levá-lo para a vila para ser interrogado de forma oficial.
    Mais tarde, na vila de Puma Point, Marlowe é abordado junto ao seu carro por Birdie Keppel, uma bem-disposta cabeleireira local que também trabalha como jornalista para o jornal da terra. Após o detetive partilhar alguns dos detalhes que já são do conhecimento das autoridades sobre a descoberta no lago, Birdie decide partilhar uma pista crucial que introduz uma nova peça no puzzle. A jornalista revela que, há algumas semanas, um polícia de Los Angeles com tiques de valentão, chamado De Soto, andou pela zona a mostrar a fotografia de uma mulher chamada Mildred Haviland. Birdie reparou que a mulher da fotografia, apesar de ter a cor de cabelo e as sobrancelhas diferentes, era incrivelmente parecida com Muriel Chess. A suspeita adensa-se quando a jornalista confessa que chegou a comentar o episódio com a própria Muriel, notando que esta tentou disfarçar, mas não conseguiu ocultar um evidente nervosismo. Com esta revelação, Marlowe percebe que a pacata esposa do caseiro assumira uma falsa identidade e esconde segredos obscuros que a ligam à polícia de Los Angeles. No final da conversa, Birdie afasta-se na escuridão e o detetive dirige-se à central telefónica da vila.
    Após descobrir a pista sobre a falsa identidade de Muriel, Marlowe telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre o caso e aproveita para o questionar sobre o nome "Mildred Haviland", mas o empresário reage de forma defensiva e nega qualquer conhecimento sobre essa mulher. Nessa mesma noite, o detetive regressa furtivamente à propriedade em Little Fawn Lake e decide arrombar uma janela para investigar o interior da casa de Bill Chess. Para sua surpresa, depara-se com o pragmático xerife Jim Patton, que o aguardava calmamente às escuras no interior da habitação. Os dois homens acabam por partilhar informações e teorias sobre o crime. Quando Marlowe menciona a semelhança entre Muriel e a mulher procurada pela polícia de Los Angeles, Patton admite que também ele tinha sido abordado pelo mesmo detetive com a fotografia, mas que na altura optou por não dizer nada.
    Em seguida, o xerife partilha um avanço crucial na investigação: antes de regressar à cidade, foi investigar as redondezas de um lago vizinho e isolado, chamado Coon Lake. Lá, escondido num barracão de uma estância de verão abandonada, Patton encontrou o carro de Muriel com as suas malas e roupas empacotadas. Além disso, mostra a Marlowe uma prova muito peculiar encontrada no local: um fio de ouro de tornozelo, cortado, que estava cuidadosamente escondido no meio de pó branco, dentro de uma caixa de açúcar. Perante este cenário tão engenhoso e calculado, ambos concordam que Bill Chess dificilmente teria a frieza, a astúcia ou até a capacidade de planeamento para ocultar o carro e as provas com aquele nível de detalhe. Esta conclusão levanta sérias dúvidas sobre a culpa do caseiro e adensa ainda mais o mistério em torno do passado obscuro de Muriel e de quem a quereria ver morta.
    A investigação de Philip Marlowe sofre um novo avanço quando este decide revistar minuciosamente a cabana de Bill Chess. Escondida no fundo de uma caixa de açúcar em pó, o detetive encontra uma pequena medalha de ouro em forma de coração com uma dedicatória de "Al" para "Mildred". Esta prova confirma definitivamente que a falecida Muriel Chess e a procurada Mildred Haviland são a mesma pessoa. O detetive partilha a descoberta com o xerife Patton, sugerindo a teoria de que o assassino será alguém do passado da vítima que a conseguiu raptar, e não o caseiro Bill.
    Dando seguimento à busca pela esposa do seu cliente, desloca-se a um hotel em San Bernardino, onde o carro de Crystal Kingsley havia sido guardado. Após instalar-se num quarto e subornar os funcionários do hotel para obter informações sobre a noite de 12 de junho, faz uma descoberta crucial: ao mostrar uma fotografia, um dos empregados reconhece Chris Lavery como sendo o homem que abordou a mulher loira no átrio do hotel. O funcionário confirma ainda que os dois jantaram juntos e partiram no mesmo táxi. Esta revelação destrói o álibi do indivíduo, que garantira a Marlowe e a Kingsley não ver Crystal há largos meses. Com esta nova e comprometedora pista em mãos, o detetive regressa a casa, em Hollywood, exausto e assombrado por pesadelos com o cadáver da mulher no lago, preparando-se para o próximo confronto.
    Na manhã seguinte, Marlowe recebe a visita do Tenente Greer, que o interroga e se mostra bastante desconfiado com a coincidência de o detetive estar presente no momento em que o corpo da mulher foi retirado do lago. Após este encontro, ele telefona a Derace Kingsley para o atualizar sobre as suas descobertas. Tenta também contactar a esquadra para localizar De Soto (o misterioso polícia que andara à procura de Mildred Haviland), mas informam-no de que não existe nenhum agente com esse nome.
    Seguindo a pista do homem que se encontrou com Crystal, o investigador dirige-se à casa de Chris Lavery em Bay City. Encontra a porta de entrada destrancada e, ao entrar, depara-se com uma mulher invulgar a descer as escadas com uma arma na mão, que se identifica como Mrs. Fallbrook, a senhoria de Lavery, justificando a sua presença com rendas em atraso e alegando ter encontrado o revólver abandonado nos degraus. Ela entrega-lhe a arma e ele percebe que esta cheira a pólvora por ter sido disparada há pouco tempo. Sozinho, Marlowe começa a investigar as divisões. No quarto, encontra vestígios da presença recente de uma mulher e descobre um lenço escondido debaixo de uma almofada com as iniciais "A. F." (que coincidem com Adrienne Fromsett, a secretária de Kingsley). Contudo, o momento mais chocante dá-se quando força a entrada na casa de banho, que se encontrava trancada. Lá dentro, descobre o corpo de Chris Lavery caído no polibã, brutalmente assassinado com vários tiros. Fiel ao seu estilo de não se comprometer antes do tempo, limpa as suas impressões digitais, guarda o lenço como prova e abandona a cena do crime sem alertar as autoridades, partindo para se encontrar pessoalmente com Derace Kingsley. No escritório deste, confronta a secretária Adrienne Fromsett, mostrando-lhe o lenço perfumado que encontrou debaixo da almofada de Lavery. Ao revelar que o homem foi brutalmente assassinado na casa de banho, a secretária fica em choque e nega qualquer envolvimento no crime, sugerindo que alguém deixou lá o lenço de propósito para a incriminar. Marlowe decide guardar segredo e poupá-la, por agora, a esse escândalo.
    Após esta conversa, o detetive regressa à casa de Lavery, em Bay City. Posiciona a arma que retirara à misteriosa mulher e telefona finalmente à polícia local para relatar o homicídio. A cena do crime é rapidamente invadida por agentes, destacando-se a chegada do Capitão Webber e do robusto Tenente Degarmo, o mesmo polícia hostil que já havia ameaçado Marlowe quando este vigiava a casa do Dr. Almore. Durante o tenso interrogatório que se segue, é forçado a abrir o jogo: revela que é detetive privado e que foi contratado por Derace Kingsley para encontrar a sua mulher, Crystal, que alegadamente teria fugido com o falecido. Relata também as suas recentes descobertas na montanha, incluindo o aparecimento da mulher afogada, ligando assim os dois casos. No entanto, a revelação mais comprometedora surge quando admite que as roupas de senhora que estão no quarto de Lavery correspondem exatamente à descrição da roupa que Crystal Kingsley usava recentemente. Para os polícias, especialmente para Degarmo, as provas parecem claras e a desaparecida passa a ser considerada a principal suspeita do homicídio de Lavery.
    Enquanto a equipa forense e o médico legista chegam para examinar o corpo, Marlowe não resiste a testar as águas e confronta diretamente o Tenente Degarmo com a morte da mulher do vizinho, o Dr. Almore. O detetive aponta a estranha coincidência de ter sido o próprio Lavery a encontrar o corpo na altura e o facto de a polícia de Bay City ter abafado o caso. A menção a este assunto deixa Degarmo tenso, frio e na defensiva, adensando a suspeita de que a polícia local esconde segredos obscuros.
    De regresso ao seu escritório, Marlowe encontra um bilhete da secretária Adrienne Fromsett com a morada dos pais da falecida mulher do Dr. Almore, os Grayson. O detetive decide visitá-los no seu apartamento para obter mais informações sobre a morte suspeita da filha, Florence, e tentar descobrir o paradeiro do detetive privado que o casal havia contratado no passado, um homem chamado Talley. Durante a conversa, os Grayson revelam que acreditam que o clínico é um médico corrupto, envolvido no fornecimento de narcóticos a pacientes viciados, e partilham a convicção de que ele terá assassinado a própria mulher. Explicam ainda que Florence era insubmissa e desconfiava que o marido mantinha um caso amoroso com a enfermeira do seu consultório. O momento mais revelador do encontro surge quando a Sra. Grayson recorda o nome dessa enfermeira: Mildred Haviland. Esta descoberta é uma peça central para Marlowe, pois liga de forma inegável o passado obscuro e os encobrimentos em Bay City à mulher encontrada morta no lago nas montanhas (Muriel Chess, a mulher do caseiro, que assumira essa mesma identidade).
    Após Marlowe deixar os Grayson em choque com a notícia de que Chris Lavery — o homem que "convenientemente" encontrou o corpo de Florence — foi assassinado a tiro nessa mesma manhã, o casal cede-lhe a morada da mulher de Talley. A narrativa prossegue então com o detetive a dirigir-se de imediato a essa morada em Bay City. A meio da noite, bate à porta da pequena casa na esperança de localizar o antigo detetive, cujas investigações passadas parecem conter a chave para desvendar toda a teia de homicídios. A visita é violentamente interrompida por dois polícias corruptos de Bay City, que o agridem física e verbalmente, o forçam a beber uísque para o poderem prender sob a falsa acusação de condução sob o efeito de álcool e o atiram para uma cela. Mais tarde, é levado para interrogatório perante o Capitão Webber e o hostil Tenente Degarmo. Longe de se deixar intimidar, o detetive denuncia a armadilha de que foi alvo e revela abertamente que estava a investigar as pontas soltas do caso Almore. Ao perceber que tinha sido Degarmo a enviar os agentes para o intimidar e encobrir o passado, o Capitão Webber repreende o tenente e expulsa-o do gabinete.
    A sós com o Capitão, Marlowe expõe toda a teia que une os vários mistérios: explica a intrincada ligação entre o assassinato de Chris Lavery (o homem que "descobriu" o corpo da mulher do Dr. Almore) e a verdadeira identidade do cadáver encontrado no lago nas montanhas. Ele revela que a vítima do lago, Muriel Chess, era na verdade Mildred Haviland, a antiga enfermeira do médico e a principal suspeita de ter estado envolvida na morte da mulher do médico. Perante o peso destas "coincidências" fundamentais e inegáveis que ligam os acontecimentos de Bay City à remota propriedade nas montanhas, Webber rende-se aos factos. Decide que já não é possível ignorar o passado, concorda em integrar o caso Almore na atual investigação de homicídio e pede a Marlowe que se sente para discutirem os próximos passos.
    Na sequência da sua conversa com o Capitão, o detetive detalha as provas que tinham sido recolhidas no passado pelo investigador privado Talley, nomeadamente a descoberta de um sapato de baile escondido que pertencia à falecida Florence Almore. Esse detalhe provava que o corpo da mulher tinha sido vestido e movido após a sua morte, encobrindo um assassinato. O detetive reforça assim a teoria de que Mildred Haviland (a ex-enfermeira do Dr. Almore e a verdadeira identidade da mulher morta no lago) está no centro de toda a teia criminal, sublinhando que o seu único objetivo é provar que a esposa do seu cliente, Crystal Kingsley, não assassinou Chris Lavery.
    Após deixar a esquadra e regressar ao seu hotel em Hollywood, o descanso de Marlowe é interrompido a meio da noite por um telefonema de Derace Kingsley. Poucos minutos depois, o empresário e a sua secretária, Miss Fromsett, surgem no quarto do detetive. O empresário, com um aspeto exausto e perturbado, revela que Crystal telefonou para Miss Fromsett a pedir urgentemente 500 dólares, justificando o pedido com o facto de recear que a polícia já tenha emitido um mandado de captura contra si, o que a impede de levantar dinheiro num banco ou trocar cheques. As suas instruções foram claras: alguém teria de lhe entregar o dinheiro num bar em Bay City chamado Peacock Lounge e, para que pudesse identificar o mensageiro, este deveria usar um vistoso cachecol verde e amarelo que pertence ao marido. Apesar de estar quase convencido de que Crystal foi a responsável pela morte de Lavery, Kingsley não a quer abandonar e pede a Marlowe que faça a entrega do dinheiro para a ajudar a escapar. Este aceita a arriscada missão, recebe o envelope com os 500 dólares e o espalhafatoso cachecol e sai na calada da noite rumo a Bay City para o encontro com a mulher que procura desde o início da investigação.
    Marlowe chega ao bar Peacock Lounge, mas acaba por ser abordado no exterior por uma mulher misteriosa de cabelo escuro. Ela exige que lhe entregue os quinhentos dólares, mas o detetive recusa-se a fazê-lo sem obter respostas primeiro. A contragosto, ela diz-lhe para se encontrarem no quarto 618 do Hotel Granada. Aí, começa a interrogá-la sobre os seus passos desde a suposta fuga. Durante a conversa, o detetive revela que a polícia encontrou o corpo de Muriel Chess no lago há um mês e que esta era, na verdade, Mildred Haviland, a antiga enfermeira do Dr. Almore. A mulher finge não saber de nada e mostra-se surpreendida,mas Marlowe confronta-a e desmascara-a por completo. O detetive revela que percebeu o seu teatro e que sabe que ela é a mesma pessoa que se fez passar por "Mrs. Fallbrook" (a suposta senhoria) na casa de Chris Lavery. Sem rodeios, acusa-a do assassinato de Lavery. Com uma frieza impressionante, a mulher confessa o crime, justificando que o matou porque este lhe tinha roubado o dinheiro todo da carteira. De imediato, saca de um revólver e aponta-o a Marlowe. Este tenta usar um truque para a distrair, avisando-a de que a arma está travada, o que lhe dá uma aberta para se atirar a ela e tentar desarmá-la. No entanto, enquanto os dois lutam pelo revólver, um homem misterioso surge subitamente de trás de uma cortina do quarto e atinge o investigador violentamente na cabeça que o faz perder os sentidos.
    Quando recupera os sentidos no chão do quarto de hotel, depara-se com um cenário macabro: a mulher que interrogara está morta na cama, brutalmente estrangulada, e ele próprio está encharcado em gin. Com os seus quinhentos dólares ainda no bolso do casaco, percebe que o verdadeiro assassino armou o cenário para o incriminar. Ouvindo passos e murros na porta, percebe que não tem tempo a perder. Numa fuga arriscada, escapa pela janela da casa de banho e trepa pelo parapeito exterior do edifício até conseguir invadir o apartamento contíguo. Aí, veste uma camisa limpa pertencente ao morador ausente e tenta sair tranquilamente pela porta principal, passando-se pelo vizinho. No entanto, o plano falha quando dá de caras no corredor com um agente da polícia e com o implacável Tenente Degarmo. Este percebe de imediato o embuste, nota o cheiro a gin e acusa o detetive do homicídio da mulher. Contudo, em vez de o deter formalmente, o tenente, que pelos vistos se encontra suspenso, decide contornar as regras. Com a ajuda do seu agente subordinado (Shorty), leva Marlowe em segredo até à garagem do prédio, evitando cruzar-se com o seu superior, o Capitão Webber. Pelo caminho, manda o outro agente sair da viatura, preferindo conduzir o interrogatório a sós e à margem dos regulamentos oficiais.
    Durante a viagem noturna de carro, o investigador privado conta a sua versão dos acontecimentos a Degarmo: explica o encontro com a mulher, a luta pela arma e o ataque surpresa do misterioso homem corpulento escondido atrás da cortina. O detetive partilha ainda o cachecol de Kingsley e sugere que o empresário teria fortes motivos (financeiros e pessoais) para querer a mulher morta. Intrigado com a teoria de Marlowe ou talvez movido pela sua própria agenda, o policial muda de rumos e os dois dirigem-se a Beverly Hills para confrontar diretamente Derace Kingsley.
    O detetive e o tenente Degarmo dirigem-se a meio da noite ao apartamento de Adrienne Fromsett, a secretária do empresário, informa-a de que a misteriosa mulher do hotel foi estrangulada e mostra-lhe o cachecol verde e amarelo deixado na cena do crime. Embora acabe por admitir que Kingsley não tem um álibi para a hora do homicídio, Miss Fromsett recusa-se a acreditar que ele seja um assassino. Sem saber o seu paradeiro exato, sugere que o empresário possa ter procurado refúgio na sua cabana isolada em Little Fawn Lake. Marlowe usa o telefone da secretária para contactar o xerife Jim Patton, pedindo-lhe que verifique se o suspeito se encontra na propriedade da montanha. De seguida, ele e Degarmo fazem-se à estrada numa longa viagem de carro em direção à serra.
    Durante a viagem, ocorre uma revelação chocante: Degarmo confessa a Marlowe que a mulher encontrada morta no lago (Mildred Haviland, que usava a falsa identidade de Muriel Chess) tinha sido sua companheira e que o seu homicídio o deixou completamente transtornado e cego de raiva. Aproveitando a vulnerabilidade do polícia, o detetive confronta-o com toda a teia que finalmente conseguiu desvendar: Degarmo sempre soube que tinha sido Mildred a assassinar a mulher do Dr. Almore no passado. Cego pelos seus sentimentos, o tenente encobriu o crime, ajudou-a a fugir para a montanha e silenciou o detetive privado que tentou investigar o caso. A situação acabou por se descontrolar mais tarde, quando Mildred, farta da vida com o rude caseiro Bill Chess, tentou extorquir dinheiro ao médico, levando a que as pontas soltas do passado se voltassem a cruzar. Encurralado pelas deduções precisas do detetive, Degarmo não nega as acusações e admite estar metido numa embrulhada sem saída. Marlowe, por sua vez, reitera que o seu único objetivo é provar a inocência do seu cliente, Derace Kingsley. Sem mais segredos entre ambos, os dois prosseguem a sua tensa viagem em direção a San Bernardino e ao derradeiro confronto nas montanhas.
    Os dois homens chegam finalmente à cabana em Little Fawn Lake, onde se reúnem com o xerife Jim Patton e encontram o empresário Derace Kingsley, que está embriagado e alheio a tudo. É neste cenário tenso que Marlowe desvenda a verdade final e chocante sobre toda a teia de crimes. O detetive explica a todos os presentes que o corpo encontrado no lago, afinal, não era de Muriel Chess (a verdadeira identidade da ex-enfermeira Mildred Haviland), mas sim da própria Crystal Kingsley. Mildred assassinara Crystal, vestira-lhe as suas roupas e atirara-a ao lago para encenar a sua própria morte, garantindo assim tempo e anonimato para escapar aos crimes que cometera no passado. A partir daí, Mildred assumiu a identidade da rica Crystal e acabou por assassinar Chris Lavery, pois este reconhecera-a no hotel e ameaçava expor o seu disfarce. Marlowe expõe ainda o derradeiro segredo que liga todas as pontas: o responsável pela morte de Mildred (quando esta se fazia passar por Crystal) no quarto de hotel em Bay City foi o próprio tenente Degarmo. Movido pelo ódio e pela repulsa face aos sucessivos crimes e traições da ex-mulher, o polícia decidiu silenciá-la com as próprias mãos, encenando depois o local para incriminar Marlowe.
    Encurralado pela verdade, o polícia saca do seu revólver num ato de desespero para tentar fugir. No entanto, surpreendendo todos, o pacato e experiente xerife Patton consegue desarmá-lo com um movimento brusco e preciso. Derrotado e ciente de que não tem escapatória legal, Degarmo abandona a cabana perante a passividade temporária de Patton e foge ao volante do carro de um dos polícias locais.
    Sabendo que o tenente não tem por onde escapar nas montanhas, Patton alerta de imediato por telefone os guardas militares que vigiam a barragem da região. Na sua fuga alucinada, Degarmo recusa-se a acatar as ordens de paragem no dique. Um dos sentinelas é forçado a disparar, o que faz com que o tenente perca o controlo do veículo descapotável, precipitando-se por uma ravina rochosa. A história encerra assim de forma trágica com a morte de Degarmo no fundo do desfiladeiro, colocando um ponto final na complexa teia de corrupção, enganos e homicídios.
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