segunda-feira, 15 de abril de 2013

Questão Exame 1 (ex-10-2f)


TAREFA: responder à pergunta seguinte:

1. Scarlatti e Baltasar têm percepções diferentes da «ave gigantesca» (linha 12).

     Explique em que consiste a diferença, ilustrando o ponto de vista de cada uma destas personagens com uma citação adequada.

Vicente

     Vicente integra o grupo dos traidores e delatores, o equivalente aos «bufos» da época do Estado Novo. Este grupo move-se pela conveniência,isto é, representa todos aqueles que se aproximam do poder para obter favores e que não têm qualquer pejo em se vender aos governantes. São, no fundo, os verdadeiros traidores que não têm qualquer ética ou valores morais e que passam impunes, alcançando os seus objetivos.

     Vicente é, na peça, o maior representante  desta «classe». Ele é um elemento do povo / popular que surge, pela primeira vez, investido na função de provocador agitador, procurando ridicularizar os outros populares e manchar a reputação e denegrir a imagem do general Gomes Freire de Andrade junto do povo através de diversos «argumentos»: (1) inferiorizar o povo, acusando-o de irresponsável («Vocês ainda não estão fartos de generais? Cornetas, tambores, tiros e mais tiros... Bestas!»; «Julgas que matas a fome com as balas? Idiotas!»), simplório («Nenhum de vocês tem um teto que o abrigue no inverno, nenhum de vocês tem onde cair morto, mas, mal passa um tambor, não há um só que não queira ir atrás dos saldados. Catrapum! Catrapum! Catrapum, pum, pum! - Idiotas!») e ingénuo («Se o teu Gomes Freire é tão bom como dizes e se a 'rapaziada' lá do regimento é como tu a descreves, explica lá o que estás a fazer aqui...»); (2) acusa os generais de serem oportunistas («O que interessa a uns interessa a outros, e a todos interessa que a gente viva assim...»), desumanos, insensíveis e arrogantes, usufruindo e prosperando com base nas discrepâncias sociais do país e nas miseráveis condições de vida em que vivem os populares [a fome e o frio que atingem as famílias, muitas numerosas, procurando apelar ao sentimento de pai ("Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?" - pág. 21); a ausência de vestuário; a ausência de habitação ("Nenhum de vocês tem um tecto que o abrigue no Inverno..." - pág. 21)], sem fazer qualquer gesto para os resgatar desta situação, concluindo que Gomes Freire é como todos os generais; (3) a guerra e as feridas e mágoas que deixou na lembrança das pessoas ("Vocês ainda não estão fartos de generais?" - pág. 21); (4) o desprezo a que são votadas as pessoas quando deixam de ter utilidade, como acontece com os soldados, que serviram o país na guerra e, quando velhos, foram marginalizados, abandonados à miséria e à condição de pedintes, por contraste com os generais, que obtêm glória ("... para eles se encherem de medalhas..." - pág. 22) através do seu sacrifício e vivem confortavelmente("Matas a fome com os cinco réis e com a recordação da campanha. Mas eles... eles vão para casa encher a pança!" - pág. 22 - notar o recurso a uma linguagem rude, sinónimo da sua origem social), indiferentes à desgraça alheia. Depois, concentrando-se diretamente no seu alvo, (1) põe em causa o seu patriotismo e acusa-o de ser um «estrangeirado» (pág. 23) e ser igual aos outros, (2) põe em dúvida o seu caráter, acusando-o de estar conluiado com o poder ("Porque está feito com eles, porque essa gente é toda igual." - pág. 24), e (3) levanta dúvidas sobre a sua coragem («Mas não se bate! Vais ver que não se bate!»). O seu discurso, na tentativa de ser bem sucedido na sua missão, é particularmente rico em termos estilísticos. Assim, Vicente socorre-se por vezes do sarcasmo e da ironia ("É um santo, o teu general..." - pág. 23); socorre-se das interrogações retóricas («Julgas que o Gomes Freire os vai vestir?»), dirigidas aos populares, na tentativa de os intimidar, persuadir e convencer dos seus argumentos; socorre-se da enumeração («Cornetas, tambores, tiros e mais tiros...»); socorre-se os onomatopeias («Catrapum! Catrapum! Catrapum, pum, pum!»), que conferem verosimilhança ao texto (sugerindo o ambiente da capital) e procuram atingir o povo; socorre-se das repetições enfáticas («Que te dizem eles (...) Sabes o que te dizem? Sabes?»); socorre-se das exclamações injuriosas («Bestas!»; «Idiotas!»); socorre-se das frases suspensas («... e que a Virgem se compadeça dele...»). Por outro lado, o seu discurso de desacreditação e, simultaneamente, de persuasão é acentuado por elementos não verbais como a posição escolhida para falar, que o coloca num plano superior ao dos populares, conferindo-lhe logo centralidade e superioridade («Sobe a um caixote»), o voz («Fala muito depressa.»; «Pronuncia a palavra 'rapaziada' com sarcasmo.»; «Fala alto, em tom de triunfo.»; «Fala com escárnio.»), e os gestos («Faz com as mãos o gesto de quem toca tambor.»; «Abre os braços num gesto que abrange os presentes, o fundo do palco, a miséria...»).


          Durante o diálogo com os dois polícias (símbolo da violência e repressão e um instrumento ao serviço do poder tirânico exercido pelos governadores), de quem, ao contrário do povo, não foge, Vicente autocarateriza-se como mentiroso ("... digo-lhes metade da verdade." - pág. 25) e revela toda a sua astúciamanha e inteligência ("Lembro-lhes que o Gomes Freire é general e falo-lhes da guerra. Haverá alguém que se não lembre da guerra?""Odeiam os Franceses e os Ingleses? Chamo estrangeirado ao Gomes Freire..." - pág. 25), todo o seu materialismooportunismo e ambição, afirmando que se vende a quem lhe pagar: "Só acredito em duas coisas: no dinheiro e na força. O general não tem uma nem outra." (pág. 25). Ora, estas afirmações permitem deduzir que Vicente poderia perfeitamente aliar-se ao general caso este fosse detentor de dinheiro ou poder, o que quer dizer que não há qualquer ideologia que sustente as suas acções, apenas o seu interesse imediato.

          Por outro lado, esta personagem não tem qualquer rebuço em confessar que trai os seus por dinheiro ("Ias perguntar-me se foi por dinheiro que eu me virei contra os meus..."- pág. 26), mostrando-se descontentefrustrado e revoltado com a sua condição social, revelando igualmente vergonha das suas origens ("´É verdade que nasci aqui e que a fome desta gente é a minha fome, mas... é igualmente verdade que os odeio, que sempre que olho para eles me vejo a mim próprio: sujo, esfomeado, condenado à miséria por acidente de nascimento." - pág. 27). Vicente odeia ser pobre e considera que essa condição social não decorreu da sua vontade, mas de um «acidente de nascimento», um acaso do destino. O modo que encontra para ultrapassar a sua condição e o seu sentimento de inferioridade passa pela ascensão político-social rápida, obtida através da denúncia  e da traição e concretizada com a obtenção do cargo de chefe de polícia ("... sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia..." - pp. 30-31). Esse sentimento de inferioridade e de vergonha pelas suas origens leva-o a desprezar os seus semelhantes, os elementos da sua classe ("Rindo-se com desprezo" [do 1.º Polícia] - pág. 31). Por outro lado, em determinado momento denuncia a incapacidade de o povo se fazer ouvir pelo Poder ("Bem vistas as coisas, que pode a voz do povo contra a voz d'el-rei?" - p. 35). A sua origem social fica patente na sua linguagem, quando recorre a provérbios populares ("Há quem diga que a voz do povo é a voz de Deus..." - p. 35) e vocábulos / expressões tipicamente populares também («... encher a pança.»).

          No seu percurso, marcado por várias etapas - provocador e agitador (início do acto I), procurando denegrir a imagem do general; espião (vigia a casa de Gomes Freire);delator (denuncia o general, acto pelo qual espera uma recompensa); acusador (confirma a existência das reuniões e indica o nome dos conspiradores) - ficam bem patentes as suas características mais marcantes: a hipocrisia, o servilismo, a adulação, o materialismo, o oportunismo dos que não olham aos meios para atingir os seus fins. No diálogo entabulado com os governadores, nomeadamente com D. Miguel, demonstra toda a sua adulação ("Avançando e fazendo uma vénia prolongada" [para D. Miguel] - pág. 33; "Francamente adulador" - p. 34), todo o seu calculismo e hipocrisia, visto que age e fala de acordo com aquilo que pensa poder agradar ao seu interlocutor. Dito de outra forma, as respostas que Vicente dá ao governador são, inicialmente, dúbias até ter a certeza da sua posição em relação ao general ("Fixa atentamente D. Miguel porque não tem a certeza de estar a agradar. A meio da frase faz uma pausa para estudar a reacção do governador, e recomeça." - p. 34). Mais: ao tomar conhecimento do grau de parentesco que que une D. Miguel e o general, elogia este, mas, ao constatar que, com essa atitude, não está a agradar ao governante, «começa a compreender que se enganou ao gabar Gomes Freire» e muda o discurso. No final desse diálogo, é incumbido de vigiar a casa de Gomes Freire, no Rato, e de trazer, diariamente, a D. Miguel, uma lista discriminada com a identificação nominal de todas as pessoas que a frequentavam.

          Após a denúncia e condenação do general, Vicente é recompensado pelos seus «bons» serviços ao ser promovido a chefe de polícia, afinal a sua grande ambição, passando, a partir daí, a ignorar e maltratar os seus conhecidos e os da sua classe social:«Olhou para mim como se nunca me tivesse visto. Estendi-lhe a mão e deu-me uma cacetada na cabeça.». Ele é, em definitivo, aquele que se vende ao poder de forma pouco escrupulosa.

Povo

   O povo / os populares configura(m) uma personagem coletiva relevante na peça, como não poderia deixar de acontecer.
     O povo não possui qualquer poder nem um líder - embora deposite enormes esperanças no general -, o que faz com que surja na peça oprimido e completamente indefeso.
     O seu espaço privilegiado é a rua, retrato da sua miséria:
  • ausência de alojamento / habitação (os populares dormem na rua; nas palavras de Vicente, «Nenhum de vocês tem onde cair morto» - pág. 21);
  • não tem condições de higiene e de saúde: uma velha cata piolhos a uma rapariga nova;
  • tem fome e vive o drama do desemprego: «Tens sete filhos com fome e com frio e vais para casa com as mãos a abanar. (...) E tu, que não comes desde ontem...».
     Além disso, é caracterizado pela ignorância e pelo analfabetismo («Talvez, se o ensinassem a ler...» - p. 36) e vítima do terror e da opressão (sentem medo ao ouvirem os tambores e fogem quando os polícias chegam, levando consigo os parcos e rudimentares objetos pessoais), da desilusão e da ausência de perspetivas.
           Nas palavras de Vicente, a sua miséria é tal que dirige a sua preocupação para o quotidiano e para a sobrevivência diária ("Interessa-lhe mais o preço do pão... Talvez, se o ensinassem a ler, tomasse conhecimento do «Eclesiastes»..." - p. 36), escasseando-lhe tempo para questões da filosofia política ou religiosa ("... e pouco se preocupa com a origem do poder."- p. 36).
          Não obstante todas as circunstâncias que marcam o seu quotidiano, o povo tem um grande sentido de justiça e de dignidade e uma elavada consciência. À semelhança do que sucede com Manuel, vê no general Gomes Freire o libertador da opressão, do medo e da miséria em que vive, depositando na sua ação toda a esperança, daí não ser de estranhar o desespero, a falta de ânimo e a desilusão que o assalta quando toma conhecimento sua prisão e posterior condenação à morte.

     Por outro lado, esta personagem desempenha diferentes funções ao longo da peça:
  1. Coro, dado que as suas falas têm o valor de informação ou comentário dos acontecimentos;
  2. Inicia os dois atos, estabelecendo, no I, a ligação entre a ação e o espetador e relatando, no II, a prisão de Gomes Freire e o desespero de Matilde;
  3. Situa o espetador no tempo histórico, através das suas interrogações ("Onde aprendeu vocessemecê isso? Em Campo d'Ourique - já lá vão dez anos..." - pág. 18);
  4. No ato II, as falas populares revestem o caráter de informação / comentário sobre os episódios ao nível da ação dramática: "Passaram toda a noite a prender gente por essa cidade..."; "É por pouco tempo, amigo, espera pelo clarão das fogueiras..." (pág. 80).
          Em suma, o povo é uma personagem coletiva que representa o «grupo dos deserdados pela sorte e pelo berço», dos que servem e são explorados, que recebem esmola e são tratados indignamente pela classe dominante, que trabalham e são explorados.
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