Português: Agatha Christie
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domingo, 5 de julho de 2026

Apreciação crítica de Contagem até zero

    Contagem até Zero destaca-se na obra de Agatha Christie pela sua estrutura narrativa inovadora e pela profunda exploração psicológica das personagens. A obra subverte a fórmula tradicional do romance policial ao propor, através da sabedoria do idoso advogado Mr. Treves, que o assassinato não é o ponto de partida da história, mas sim o seu culminar, a "hora zero" para onde convergem diversas circunstâncias, pequenas escolhas e indivíduos guiados pelo destino.
    O aspeto mais brilhante da trama é a desconstrução do próprio motivo do crime. A autora surpreende ao revelar que o brutal homicídio de Lady Tressilian é, na verdade, um crime secundário e meramente instrumental. O verdadeiro e maquiavélico objetivo de todo o plano é forjar provas de forma meticulosa para que Audrey Strange seja condenada à forca, num ato de vingança sádica por parte do seu ex-marido, Nevile.
    A caracterização joga constantemente com as perceções do leitor. Nevile Strange utiliza a sua imagem de desportista perfeito, calmo e carismático como uma máscara que oculta uma mente doentia e psicopata. Em contraste, Audrey é inicialmente vista como uma figura etérea, pálida e passiva, cuja apatia esconde afinal um terror profundo provocado por anos a viver sob a ameaça velada da loucura do ex-marido. A autora cria um excelente jogo de espelhos com as pistas do crime: o assassino planta indícios demasiado óbvios contra si mesmo para ser facilmente ilibado pela polícia, tornando assim as provas subsequentes contra Audrey muito mais credíveis e infalíveis.
    A obra ganha ainda uma camada filosófica invulgar através do arco de Angus MacWhirter. A jornada deste personagem, que começa num hospital após uma tentativa de suicídio por considerar a sua vida inútil, ilustra perfeitamente a tese central do livro de que todos têm um papel a desempenhar no grande xadrez da vida. A sua sobrevivência prova ter um propósito imprevisto, acabando por ser o acaso da sua presença no local exato a ditar a salvação de Audrey, utilizando o raciocínio lógico e a ousadia para enganar o próprio assassino.
    Em suma, trata-se de um brilhante exercício de suspense onde o elemento principal não é o "quem matou", mas sim a anatomia do ódio e a inexorabilidade do destino. O caso é desvendado confiando na análise da psicologia humana e orquestrando um clímax de tremenda pressão psicológica que destrói por completo a fachada de sanidade do antagonista.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Resumo de Contagem até Zero, de Agatha Christie

    
Um grupo de advogados reúne-se à volta da lareira para discutir um julgamento recente, o caso Lamorne. Entre eles destaca-se Mr. Treves, um célebre e idoso advogado, conhecido pela sua experiência, discrição e conhecimento na área da criminologia. Embora já retirado da prática por causa da sua idade avançada, todos aguardam com respeito a sua opinião. Enquanto os colegas se concentram apenas nos aspetos técnicos e no valor dos testemunhos, Mr. Treves surpreende-os ao refletir sobre as pessoas envolvidas no processo, lembrando que por trás das leis e provas existem seres humanos apanhados pelo acaso em circunstâncias que os levam inevitavelmente ao tribunal. Refere-se ao encadeamento de pequenos acontecimentos que convergem para um mesmo ponto: a chamada “hora zero”, momento inevitável em que o crime acontece.
    Após a reunião, Treves regressa a casa. Já sozinho, reflete: se fosse escritor de romances policiais, começaria não pelo crime em si, mas pelos antecedentes e pelas coincidências que conduzem as pessoas ao local e hora exatos do acontecimento. Porém, ao abrir a correspondência, encontra uma carta que altera os seus planos e reage com contrariedade, regressando bruscamente da reflexão à realidade.
    O prólogo estabelece a atmosfera de suspense, introduzindo a figura sábia mas frágil de Mr. Treves, e lançando a ideia central de que os crimes não nascem apenas de um momento, mas de uma cadeia de circunstâncias que convergem para o inevitável.

    Angus MacWhirter está internado num hospital após uma tentativa falhada de suicídio. Amargurado e revoltado, lamenta não ter conseguido pôr fim à vida, que considera inútil. Sem saúde, sem emprego, sem dinheiro, sem família ou amigos, acredita que o suicídio teria sido o ato mais lógico e sensato.
    Na enfermaria, uma jovem enfermeira ruiva cuida dele com calma e paciência. Angus descarrega a sua frustração, criticando a constante interferência dos outros e defendendo o direito de decidir sobre a própria vida. A enfermeira, com serenidade, contrapõe que o suicídio “não está certo”, por ser pecado e porque uma vida nunca é apenas de quem a vive: pode ter impacto noutras pessoas.
    Durante a conversa, Angus revela como perdeu o emprego por recusar mentir num acidente para favorecer o patrão, foi abandonado pela mulher e caiu na miséria. Apesar disso, a enfermeira insiste que ele ainda poderá ter utilidade, mesmo que apenas por estar num certo lugar num momento decisivo.
    No fim, Angus percebe que talvez não volte a tentar o suicídio. Embora mantenha dúvidas, a convicção simples da enfermeira – e a sugestão de que a sua vida ainda pode ter um propósito imprevisto – começa a abalar a sua desesperança.

    Numa sala silenciosa, alguém escreve, fria e detalhadamente um minucioso plano de assassinato. O processo é descrito como uma criação quase divina, calculando todos os detalhes e possibilidades e deixando até margem para o imprevisível. O autor conclui o plano e escreve uma data em setembro. Em seguida, destrói cuidadosamente os papéis na lareira, conservando-o guardado apenas na sua mente.

    O superintendente Battle recebe a notícia de que a filha mais nova, Sylvia, de dezasseis anos, fora acusada de cometer furtos na escola. A diretora, Miss Amphrey, explica-lhe que descobriu a culpada através da psicologia, obtendo da rapariga uma confissão. No entanto, Battle mantém-se impassível e quer falar com a filha. A sós, Sylvia confessa que não roubara nada: apenas se deixou pressionar pelo olhar e pelas insinuações da diretora, acabando por admitir uma culpa que não tinha, sentindo até alívio com a falsa confissão. O pai compreende que a filha não é ladra, mas antes demasiado vulnerável à sugestão, por isso confronta então Miss Amphrey, deixando claro que exigiria investigação policial formal para apurar a verdade. De seguida, regressa a casa com a Sylvia, convencido de que outra aluna (provavelmente Olive Parson) era a verdadeira culpada dos crimes. No carro, consola-a, explicando-lhe que as provações da vida servem para pôr as pessoas à prova, e acrescenta que não deve sentir culpa ou remorso por algo que não fez.

    Nevile Strange, um atleta famoso, rico e aparentemente feliz, vive com a jovem e bela esposa Kay, com quem partilha uma relação leve e carinhosa, embora com tensões escondidas. Durante o pequeno-almoço, Kay lamenta terem de passar o verão em Gull’s Point, a casa de Lady Tressilian, que desaprova o novo casamento. A conversa revela ressentimentos: Kay sente-se rejeitada pela família do marido, e Nevile mostra-se ainda perturbado pelo divórcio da primeira mulher, Audrey. A atual vê nela uma figura fria e assustadora, enquanto o tenista admite ter-lhe causado sofrimento a separação e carrega um sentimento de culpa. Nevile propõe que Audrey e Kay se encontrem em Gull’s Point, defendendo que todos poderiam conviver civilizadamente. A esposa reage com estranheza e insegurança, suspeitando que a ideia partiu, na verdade, da primeira mulher. O diálogo deixa claro que, apesar da vida aparentemente perfeita, o casal vive sob a sombra da presença de Audrey, cujo passado com Nevile continua a pesar sobre a nova união.

    Lady Tressilian condena a ideia de Nevile Strange de reunir a atual esposa, Kay, e a ex-mulher, Audrey, em Gull’s Point. Conversando com a prima Mary Aldin, critica Kay, considerando-a vulgar, ambiciosa e culpada pela rutura do casamento anterior do tenista. Para a idosa, Audrey é a verdadeira vítima da situação, uma mulher sensível que sofreu muito com o divórcio. Mary, mais ponderada, tenta relativizar a situação, mas também desconfia da carta de Nevile, suspeitando que a iniciativa não partiu dele, mas talvez da própria Audrey, o que intriga Lady Tressilian. Apesar da sua recusa inicial, a velha senhora, desconfiada e relutante, acaba por concordar em convidar a ex-esposa para um almoço, reconhecendo que a jovem pode estar disposta a aceitar o encontro.

    Audrey Strange, a primeira mulher de Nevile, visita Lady Tressilian. O narrador apresenta-a como uma figura delicada, pálida, enigmática e serena e de presença quase etérea, como um fantasma que, paradoxalmente, parece mais real do que os vivos. A sua voz é suave e encantadora, reforçando a impressão de serenidade e mistério. Lady Tressilian confronta-a com a carta de Nevile, onde este propõe reunir as duas esposas da sua vida em Gull’s Point. Para a idosa, trata-se de uma ideia absurda e dolorosa, mas Audrey, calma e firme, insiste que aceitar o encontro poderá “simplificar as coisas”. Apesar das objeções da anciã, confirma que deseja ir e que está disposta a enfrentar Kay. Após a sua saída, Lady Tressilian mostra-se exausta e confessa à criada Barrett que já não compreende o mundo moderno. A criada, por sua vez, partilha a impressão de que Audrey é uma presença inesquecível e que Nevile poderá ainda pensar nela, apesar da beleza de Kay. Lady Tressilian, com uma gargalhada amarga, conclui que o tenista se arrependerá por querer juntar as duas mulheres.

    Thomas Royde, homem reservado e pouco dado a palavras, prepara a viagem de regresso a Inglaterra após quase oito anos a trabalhar nas plantações da Malásia. O amigo e sócio Allen Drake nota o seu ar fleumático e estranha a decisão, lembrando que Royde já adiara uma visita anterior ao lar, nomeadamente aquando do falecimento do irmão. Fica claro que Thomas esconde algo: cora quando se fala numa mulher, revelando sentimentos por Audrey, prima criada como irmã e ex-esposa de Nevile Strange. A conversa também mostra que não tem grande proximidade com o irmão falecido, Adrian, e que mantém um passado familiar marcado por silêncios e reticências. Royde, porém, limita-se a comentar que pretende rever a família e talvez ficar em Saltcreek, lugar pacato onde “nunca acontece nada”.

    Mr. Treves lamenta o encerramento do Marine Hotel, em Leahead, onde se hospedava há vinte e cinco anos e onde se sentia sempre confortável e bem servido. Rufus Lord consola-o e sugere-lhe o Balmoral Court, em Saltcreek, um hotel tradicional dirigido pelo casal Rogers, antigo mordomo e cozinheira de Lord Mounthead, famosos pela excelência do serviço e da comida. O lugar é descrito como tranquilo e adequado ao estilo de vida de Treves, com varanda, terraço e todas as comodidades modernas, incluindo elevador. Além disso, Rufus menciona Lady Tressilian, vizinha próxima e senhora de grande distinção, o que agrada ao velho senhor. Ele considera então a sugestão excelente e decide escrever para pedir informações, planeando instalar-se ali em agosto ou setembro.

    Durante um torneio de ténis em St. Loo, Kay Strange observa o marido, Nevile, disputar a meia-final contra o jovem Merrick. Apesar de jogar bem, o primeiro perde a partida, mantendo sempre a postura de “bom desportista”, o que Ted Latimer, amigo de Kay e antigo pretendente, critica enquanto sinal de falta de espírito competitivo. Entre os dois há cumplicidade, recordando a antiga intimidade que tiveram, e uma conversa carregada de ironia e insinuações, revelando que Ted ainda guarda ressentimento por ela ter escolhido casar-se com Nevile. Além disso, a conversa entre ambos deixa transparecer tensões: o homem ironiza sobre a vida da antiga paixão, os seus planos futuros em Gull’s Point e a presença de outros convidados, enquanto Kay, por momentos, confessa sentir medo e estranheza. Mais tarde, Nevile e a esposa conversam sobre Ted, durante a qual o marido demonstra sentimentos de indiferença, confiança e uma crença no «Destino» que os uniu. Kay, porém, surpreende-o ao confessar que foi ela quem manipulou os acontecimentos para o conquistar, revelando o seu lado calculista e estratega, o que deixa o esposo intrigado e com um leve ressentimento.

    Lorde Cornelly, um aristocrata rico e excêntrico, recebe Angus MacWhirter para uma entrevista. Impressionado pela sua honestidade, demonstrada quando, no passado, se recusou a mentir para proteger o antigo patrão num processo relacionado com um acidente de viação, Cornelly oferece-lhe um emprego importante, bem pago e que exige total confiança. MacWhirter aceita, embora sem entusiasmo. Apesar da sorte inesperada, mantém-se apático: sete meses antes tentara suicidar-se e sobrevivera apenas por acaso. Agora encara a vida de forma mecânica, sem gratidão nem alegria, mas com disciplina. O novo trabalho levá-lo-á para a América do Sul em setembro, mas, antes disso, terá uma semana livre. Nela, considera a possibilidade de ir a Saltcreek, ideia que lhe parece sombria e estranhamente divertida.

    O superintendente Battle recebe ordens inesperadas que arruínam as suas férias, deixando a esposa, Mrs. Battle, desapontada, embora resignada pela longa experiência como mulher de um polícia. Ele explica que o caso parece pouco interessante, mas envolve o Foreign Office, que está em grande agitação. Insiste para que a esposa e as filhas mantenham as férias em Britlington, enquanto ele, após resolver a situação, ficará uns dias com o sobrinho, o inspetor James Leach, em Saltington, perto de Masterhead Bay e Saltcreek. Mrs. Battle receia que James o arraste para uma investigação, mas o esposo desvaloriza e encara tudo com calma, como uma prova de paciênciaThomas Royde regressa da Malásia e é recebido por Mary Aldin, que o leva até Gull’s Point, onde a situação familiar está tensa: Nevile Strange reuniu a atual esposa, Kay, e a ex-mulher, Audrey, sob o mesmo teto. Mary explica a Thomas que esse convívio foi ideia de Nevile, embora cause desconforto a todos, e revela a sua preocupação com a estranha serenidade de Audrey, que lhe parece esconder emoções profundas.

    Ao chegar à casa, Thomas observa as duas mulheres: Audrey é calma e etérea, mas enigmática, enquanto Kay se apresenta bela e nervosa, mostrando clara antipatia pela primeira. Uma cena banal — a disputa por uma revista — transforma-se num momento de tensão entre as duas, culminando numa explosão de fúria de Kay, que chega a dizer odiar todos na casa e ameaçar violentamente a «rival» ou Nevile. Pouco depois, Audrey recebe Thomas com inesperada alegria e ternura, o que não passa despercebido a Mary Aldin, que observa discretamente a cena.

    Nevile procura Kay e encontra-a em lágrimas e furiosa por ele ter dado a revista a Audrey em vez de a ela. A discussão sobe de tom: a esposa acusa-o de preferir a ex-mulher e de estar contra ela, enquanto o marido, com calma fria, reprova o seu comportamento infantil e ciumento. Kay, desesperada, pede-lhe que abandonem a casa imediatamente, mas Nevile recusa, insistindo em cumprir a quinzena prometida. No auge da discussão, ela alerta-o que a ex-mulher não o perdoou realmente e que esconde intenções profundas sob a serenidade que exibe. Ele, porém, vê em Audrey apenas generosidade e decência. O diálogo termina de forma glacial, com a mulher a acusar o marido de ser um homem frio, sem sentimentos, e este, cansado e frustrado, a abandonar o quarto.

    Lady Tressilian conversa com Thomas Royde, notando que ele mantém a mesma reserva e silêncio da juventude, em contraste com o irmão falecido, Adrian. A idosa aborda então a delicada situação da casa, o “eterno triângulo” entre Nevile, Kay e Audrey, e admite divertir-se com o embaraço criado pela teimosia do primeiro em reunir as duas mulheres. De seguida, questiona de quem teria partido a ideia, concluindo que não seria de Audrey e duvidando que Kay tivesse essa astúcia. Lady Tressilian considera a atual esposa uma jovem desmiolada, de mau génio e sem maneiras, o que só prejudica o casamento. Já a antiga consorte, ponderada, parece ser quem mais sofre. Na conversa, fica evidente o amor discreto e de longa data de Thomas por Audrey. A velha senhora recorda a sua alcunha de juventude, “Fiel Thomas”, e sugere que a constância e devoção dele possam finalmente ser reconhecidas por Audrey, agora que passou por tantas desilusões. Thomas, envergonhado mas sincero, admite que foi com essa esperança que regressou.

    Na cozinha, Hurstall, o mordomo, confessa à cozinheira Mrs. Spicer o seu mal-estar e inquietação: sente que há algo estranho na casa, como se todos estivessem presos numa armadilha, tensos e desconfortáveis. A cozinheira, prática, atribui isso a má digestão, mas ele insiste que o ambiente anda carregado. Na sala de jantar, Mary Aldin anuncia que convidou Latimer, amigo de Kay, para jantar no dia seguinte, o que gera conversas sobre passeios, golfe, dança e programas sociais. Entre as trocas, surgem pequenas ironias que evidenciam tensões entre o casal. Mary, instigada por Thomas Royde, revela discretamente a sua vida: tem 36 anos, vive há 15 com Lady Tressilian, depois da morte do pai, e sente pesar por nunca ter viajado, apesar de ser o seu maior desejo. Há um início de aproximação entre ela e Thomas, marcado por olhares atentos e sinceros. O jantar termina com Mary a anunciar outro convidado: Mr. Treves, um idoso distinto, advogado reformado, de saúde frágil, mas intelectualmente lúcido, conhecido por ter convivido com muita gente interessante. Enquanto isso, Thomas observa as duas mulheres em contraste: Kay, exuberante, cheia de vida e beleza intensa; e Audrey, pálida, recatada, quase apagada. A comparação inspira-lhe a imagem de duas figuras de contos populares: Rosa Vermelha e Branca de Neve.

    Durante o jantar em Gull’s Point, Mr. Treves aprecia a boa comida, o vinho e a organização impecável da casa de Lady Tressilian, apesar de a sua dona estar confinada ao quarto. Enquanto observa os presentes, repara no contraste entre Kay — radiante, sedutora, dominando a atenção de Ted Latimer — e Audrey, discreta, silenciosa e imersa em pensamentos. A diferença entre ambas impressiona o velho advogado. Após o jantar, todos se reúnem na sala: Kay impõe-se com vitalidade, escolhendo a música e dançando provocadoramente com Latimer, deixando Nevile hesitante. Quase por cortesia, este convida a ex-esposa para dançar, mas esta recusa o convite, desculpando-se com o calor, e retira-se para o terraço. Mr. Treves, pensativo e observador, tece comentários ambíguos sobre Latimer, elogiando-lhe os dotes de dançarino, mas insinuando que a sua aparência lembra um criminoso que conheceu. A conversa com Mary Aldin revela o seu olhar clínico e insinuante, sugerindo que por vezes ver demasiado bem pode ser uma maldição. Enquanto isso, no terraço, Nevile e Audrey têm um breve momento de proximidade forçada quando o cabelo dela se prende no botão da manga dele. Ambos ficam nervosos e trémulos, e Thomas Royde interrompe a cena. O ambiente permanece tenso e cheio de olhares implícitos. Esta parte termina com a chegada da criada de Lady Tressilian, que anuncia o desejo da velha senhora de ver Mr. Treves no seu quarto.

    Lady Tressilian recebe Mr. Treves com prazer, e os dois passam algum tempo a recordar velhos tempos e a trocar impressões. A conversa logo se volta para o “eterno triângulo” — Nevile, Audrey e Kay — e a velha senhora mostra-se indignada com a situação, porém o advogado analisa o caso de forma fria e pragmática, sugerindo que tais paixões súbitas são comuns e muitas vezes terminam em reconciliação ou em novos casamentos. A idosa insiste que Audrey tem demasiado orgulho para voltar para os braços do ex-marido, mas o homem lembra que, no amor, o orgulho raramente resiste. Depois, Lady Tressilian fala da sua solidão, da morte do marido e da fidelidade de Mary Aldin e da criada Barrett, que lhe são essenciais, e a conversa termina. Na sala, os convidados conversam: discute-se crimes, falhas da justiça e a possibilidade de a fazer "pelas próprias mãos”. Thomas defende que, se a lei falha, alguém tem o direito de agir — uma ideia que Mr. Treves rejeita como perigosa. O advogado, então, conta uma história sombria: uma criança que matou outra com arco e flecha em circunstâncias suspeitas. Oficialmente o episódio foi considerado um acidente, todavia ele nunca esqueceu a questão, sugerindo que reconheceria esse “assassino em miniatura” mesmo adulto. O relato deixa o ambiente tenso. Na despedida, Mr. Treves é acompanhado por Ted Latimer até ao hotel. No caminho, o advogado alerta-o, de forma velada, sobre os perigos da vida e da sua conduta impetuosa. Entretanto, surge Thomas Royde, e os três entram no Balmoral Court, onde descobrem que o elevador está avariado. O homem, com o coração fraco, é forçado a subir lentamente as escadas. Royde e Latimer despedem-se e seguem em direções opostas sob a lua prateada.

    Na praia, Audrey, Mary, Kay e Ted Latimer desfrutam de um dia de sol. Kay, impaciente e provocadora, mantém-se próxima de Ted, com quem partilha cumplicidade e entusiasmo. Mary e Audrey observam-nos de longe e comentam como parecem formar um par natural, até mais harmonioso que ela com Nevile. Mary, sem querer, deixa escapar que teria sido melhor se Kay nunca tivesse conhecido o marido, o que gela imediatamente Audrey, que insiste que o passado está morto e que não sente mais nada por Strange. Entre as duas amigas surge uma conversa íntima: Mary admite sentir o peso de uma vida convencional, dedicada a Lady Tressilian, e revela pequenos “jogos mentais” que faz para se distrair, como observar as reações das pessoas. Audrey, fria e misteriosa, responde que ela própria é imprevisível, deixando a outra intrigada. Posteriormente, Mary fica sozinha na praia e conversa com Ted Latimer. Pela primeira vez, percebe nele não só arrogância e cinismo, mas também dor: ama Kay e perdeu-a para Nevile. Ted confessa o ressentimento que sente pelos outros, acusando-os de “presunção”uma superioridade natural dos que sempre tiveram privilégios. Mary tenta defendê-los, dizendo que, embora pareçam superficiais, não são cruéis, e demonstra sincera compaixão pela infelicidade dele. Ted admite amar Kay desde sempre, mas acrescenta enigmaticamente que “muitas coisas podem acontecer no futuro próximo”, deixando no ar uma ameaça ou presságio.

    Audrey encontra-se com Thomas Royde junto às rochas, em frente a Gull’s Point. Conversam sobre o mar, acidentes e recordações de infância, incluindo a cicatriz na orelha de Audrey causada por uma mordidela de cão. A conversa avança para a relação dela com Nevile. Audrey confessa que se apaixonou por ele, porque representava tudo o que ela não era: positivo, seguro, feliz, “real”. Thomas, amargo, deixa escapar o ressentimento que sente por Strang, que sempre foi brilhante e bem-sucedido, enquanto ele, apagado e limitado fisicamente, perdeu a única mulher que amou. Acaba por confessar o seu amor de longa data por ela, que responde negativamente a tal pretensão. Logo depois encontra o ex-marido, deitado a observar um caranguejo. A conversa começa de forma banal, mas rapidamente Nevile, nervoso, tenta confirmar que continuam amigos. Audrey responde afirmativamente, mas mantém a frieza. Num momento carregado de tensão, ele sussurra que “ela é a sua verdadeira mulher”, revelando que ainda a ama, mas a mulher, firme, corrige-o e afasta-se.

    Subitamente, surge a notícia de que Mr. Treves faleceu subitamente, logo após regressar ao hotel. É aventada a possibilidade de a morte ter sido provocada pelo esforço feito ao subir as escadas do hotel, já que o advogado tinha um coração fraco. Thomas Royde afirma que, de facto, ele e Latimer o tinham deixado a subir os degraus, porque no elevador havia um letreiro a avisar que o elevador estava avariado. No entanto, Mrs. Rogers, a proprietária do hotel, e o porteiro garantem que o elevador estava a funcionar perfeitamente nessa noite, nunca tendo estado avariado.

    Mary e Thomas comentam o clima de tensão crescente em Gull’s Point, à espera da partida de Nevile, Kay e Audrey. Todos sentem a atmosfera opressiva, agravada pela morte recente de Treves. Nevile confessa a Audrey que ainda a ama e propõe deixar Kay para reatar com ela, mas esta surpreende-os, furiosa, e confronta o marido, recusa o divórcio e ameaça matá-lo e a sua ex, tornando o ambiente ainda mais pesado e ameaçador.

    A narrativa desenrola-se numa noite chuvosa, marcada por um ambiente de grande constrangimento. O jantar decorre num clima palpável de mal-estar: Nevile encontra-se absorto nos seus pensamentos, a sua mulher, Kay, esconde o rosto atrás de uma quantidade exagerada de maquilhagem, e Audrey assemelha-se a um fantasma petrificado. Após a refeição, a tensão mantém-se. Kay queixa-se de uma dor de cabeça e retira-se cedo. Nevile, sentindo-se infeliz e evitando o olhar de Audrey, decide sair à chuva para apanhar o ferry até Easterhead, com o intuito de fazer companhia a Latimer. No entanto, antes de conseguir sair, por volta das dez da noite, é avisado de que Lady Tressilian o quer ver no seu quarto. O encontro entre os dois é explosivo. A idosa revela ter ouvido Nevile e Kay a gritar debaixo da sua janela e confronta-o com as suas suspeitas: ele delineou um plano para que Kay avance para o divórcio, com o objetivo de ele poder voltar a casar com Audrey. Lady Tressilian repreende-o severamente, afirmando estar inteiramente do lado de Kay, e lança um ultimato ao anunciar que Audrey terá de abandonar a casa no dia seguinte. Nevile, revoltado, levanta a voz e grita que não tolerará essa decisão.

    Enquanto isso, nos aposentos dos criados, a criada Alice Bentham procura a cozinheira, bastante perturbada. Acabara de descobrir que Miss Barrett, que deveria levar o chá à patroa, está mergulhada num sono profundo e invulgar, não acordando por nada e apresentando uma respiração esquisita. Alice assume então a tarefa e leva ela própria o tabuleiro do chá ao quarto de Lady Tressilian. Ao entrar nos aposentos, ouve-se um estrondo de loiça partida e uma série de gritos apavorados. Alice foge pelas escadas a correr e depara-se com Hurstall no vestíbulo, revelando o desfecho macabro da noite: Lady Tressilian está morta, com um grande buraco na cabeça e sangue por toda a parte, o que leva a criada a suspeitar de que a casa foi assaltada por gatunos.
    O superintendente Battle e o seu sobrinho, o inspetor James Leach, assumem a investigação do homicídio de Lady Tressilian, uma senhora idosa assassinada na sua residência em Saltcreek. A vítima foi morta no seu quarto com um golpe fatal na cabeça desferido por um taco de golfe, arma que foi abandonada no local com impressões digitais perfeitamente nítidas. O médico legista estabelece que o crime ocorreu entre as dez da noite e a meia-noite, sublinhando que Lady Tressilian parecia estar desperta e não revelou sinais de ter ficado assustada com a presença do seu atacante. O homicídio demonstra clara premeditação, evidenciada pelo facto de a criada da vítima ter sido fortemente drogada com barbitúricos no chá, o que a impediu de ouvir qualquer eventual pedido de socorro.

    Durante a inquirição à família, Nevile Strange identifica o taco de golfe ensanguentado como sendo do seu próprio saco. O móbil do crime começa a desenhar-se quando Nevile confirma que ele e a esposa são os herdeiros da fortuna da vítima. As suspeitas contra SI avolumam-se rapidamente depois de uma criada relatar tê-lo ouvido a discutir de forma muito exaltada com Lady Tressilian por volta das dez da noite. Simultaneamente, as autoridades revistam o seu quarto de e descobrem um fato azul-escuro escondido no guarda-fato com manchas de sangue nas mangas, além de água espalhada no chão junto ao lavatório, indiciando que alguém tentou limpar-se e lavar o sangue à pressa.
    No gabinete do chefe de polícia, o major Mitchell, o superintendente Battle e o inspetor Leach debatem as provas que apontam para Nevile Strange como o autor do homicídio da idosa. As evidências parecem esmagadoras: ele herda uma grande quantia em dinheiro, foi ouvido a discutir com a vítima na noite do crime, o seu fato azul apresentava manchas de sangue e o taco de golfe usado como arma tem apenas as suas impressões digitais. Contudo, Battle e Leach desconfiam destas pistas por serem demasiado óbvias e forçadas, fazendo o suspeito parecer um completo idiota. O superintendente aponta uma profunda contradição no caso, sublinhando que a premeditação necessária para drogar o chá da criada não se coaduna com um crime impulsivo cometido num acesso de fúria com um taco de golfe. A sua teoria é de que a vítima terá sido agredida com outro objeto e que o taco foi deliberadamente sujo de sangue e deixado no local apenas para o incriminar, o que indicia a presença de uma mente ardilosa e manipuladora a operar nos bastidores deste ato brutal. Como plano de ação, os detetives decidem investigar o real estado das finanças de Nevile para apurar se havia verdadeira necessidade de dinheiro, optando também por fingir que o consideram o suspeito principal, com o intuito de o assustar e de estudar minuciosamente as reações das restantes pessoas na casa.
    De regresso à residência de Gull's Point, os investigadores começam a revistar os quartos e analisam novas provas, nomeadamente cabelos louros e ruivos recolhidos pela polícia no casaco do suspeito. Ao inspecionarem o andar superior e a casa de banho dos criados, confirmam a presença do pacote aberto de folhas de sene, as quais ficavam habitualmente a demolhar e que foram usadas para drogar a criada. Esta descoberta consolida a absoluta convicção dos detetives de que se tratou de um trabalho interno, pois apenas um habitante da casa conheceria intimamente o sistema da campainha e as rotinas do pessoal, tendo acesso fácil e atempado à bebida sem levantar qualquer suspeita.
    O superintendente Battle e o inspetor Leach continuam a inspeção aos quartos, observando a simplicidade das roupas de Audrey, a desarrumação típica de Thomas Royde e o conforto do quarto de Mary Aldin. Contudo, é nos aposentos de Nevile e Kay que encontram uma enorme confusão de roupas luxuosas e caras, levando Leach a especular se os gastos excessivos da mulher seriam o verdadeiro motivo para o marido necessitar de uma quantia avultada de dinheiro. De seguida, instalam-se na biblioteca para o interrogar, com Battle a decidir adotar uma tática psicológica inspirada em Hercule Poirot: dar bastante margem de manobra ao suspeito e deixá-lo falar à vontade até que cometa um deslize e se denuncie.
    Nevile apresenta-se surpreendentemente calmo e relata os seus movimentos da noite anterior, explicando que, após o jantar, pretendia ir ao hotel em Easterhead ter com o seu amigo Edward Latimer. Quando subia para trocar o seu fato azul por um fato cinzento mais velho, por causa da chuva, foi chamado ao quarto de Lady Tressilian. Admite que tiveram um pequeno desentendimento sobre o seu divórcio e os hábitos modernos, mas assegura que se despediram de forma perfeitamente amigável. Relata ainda que saiu por volta das dez e meia, apanhou o barco, conviveu e jogou bilhar com o amigo, e, por ter perdido o último transporte de regresso, Latimer trouxe-o de carro, chegando a casa pelas duas e meia da manhã, encontrando tudo silencioso.
    A tensão atinge o pico quando Leach o confronta com as provas irrefutáveis: as suas impressões digitais são as únicas presentes de forma nítida no taco de golfe usado no homicídio, e o fato azul que vestia tem manchas de sangue nas mangas. Nevile fica horrorizado, entra em pânico e nega de forma veemente o crime, sugerindo que o verdadeiro assassino deve ter usado luvas. Para desmentir a teoria de que matou pela herança, exige que a polícia contacte imediatamente o seu gestor bancário em Londres. O telefonema confirma que Nevile possui um saldo substancial e excelentes investimentos, desmoronando a teoria da falta de dinheiro, embora Leach alerte que podem existir dívidas ocultas ou casos de chantagem. O interrogatório termina com Battle a informar que têm indícios suficientes para pedir um mandado de captura, mas que lhe concedem por agora o benefício da dúvida. Nevile fica com a terrível sensação de estar encurralado num pesadelo e numa armadilha montada contra si, enquanto Battle regista mentalmente toda a sua atitude e desespero.
    A primeira a ser ouvida é Kay, a atual mulher de Nevile, que relata ter-se deitado cedo com uma dor de cabeça e encontrado a porta do quarto do marido trancada. Durante o seu testemunho, demonstra uma enorme fúria e ciúme em relação a Audrey, a primeira mulher de Nevile, acusando-a de se fazer de vítima para manipular o ex-marido e de ter orquestrado o encontro de todos na mesma casa. Apesar de admitir que o esposo precisava da avultada herança, defende convictamente que ele seria incapaz de assassinar uma idosa indefesa. Em seguida, as autoridades interrogam Mary Aldin, que adota uma postura mais serena e analítica, rejeitando a hipótese de o crime ter sido cometido por um intruso devido à geografia inacessível da propriedade, com as suas falésias a pique, e às portas trancadas por dentro. Mary também acredita na inocência de Nevile, mas relata a existência de um ambiente denso e ameaçador na casa, suspeitando de que a ideia de juntar Audrey e Nevile foi incutida na cabeça deste por uma terceira pessoa. A testemunha menciona ainda Mr. Latimer, um amigo de Kay que não era do agrado da vítima, e mostra-se francamente surpreendida ao descobrir pelos inspetores que a intenção da falecida era dividir a grande fortuna entre Nevile e Audrey, em vez de a deixar na totalidade ao homem. A passagem termina com os detetives a prepararem-se para o passo seguinte da investigação, decidindo avançar para o interrogatório a Audrey, ironicamente apelidada de primeira mulher do Barba Azul.
    Os interrogatórios prosseguem com Audrey, a primeira mulher de Nevile. Apresentando-se pálida e contida, afirma ter-se deitado às dez da noite e garante que apenas aceitou o convite para se reunir na mesma casa por sugestão do ex-marido, de modo a não ser desagradável. Nega guardar qualquer rancor ao ex-marido e tenta manter as suas emoções completamente ocultas dos inspetores.
    Em seguida, Thomas Royde, primo afastado de Audrey, é inquirido. Ele confirma ter ouvido Nevile sair de casa pouco antes das vinte e três horas e duvida que este tivesse problemas financeiros. A situação do suspeito agrava-se substancialmente quando o Superintendente Battle revela ter encontrado as suas impressões digitais na alegada arma do crime, além de sangue na manga do seu casaco. O cenário parece fechar-se quando uma chamada telefónica do laboratório confirma que o sangue é humano e do mesmo grupo sanguíneo da vítima, levando o inspetor Leach a dar o caso como encerrado e Nevile como definitivamente culpado.
    No entanto, ocorre uma enorme reviravolta na investigação. Um Nevile pálido e fatigado é chamado para ser interrogado e Battle surpreende-o ao afirmar que teve uma sorte imensa. Apesar de todas as provas circunstanciais apontarem na sua direção, descobre-se que o taco de golfe com as suas impressões digitais não foi a verdadeira arma do crime. O objeto foi deliberadamente colocado no local para o incriminar de forma premeditada, possivelmente por alguém que ouviu a sua discussão anterior com a vítima e aproveitou a oportunidade para lhe preparar uma armadilha. A investigação foca-se então num novo ponto cego, com o Superintendente Battle a insistir repetidamente para que Nevile identifique quem, entre os presentes, o odeia de forma tão profunda. O homem, contudo, mostra-se incapaz de encontrar justificação para tal ódio e afasta categoricamente a hipótese de Audrey lhe guardar qualquer ressentimento, chamando-lhe mesmo um "anjo".
    O texto prossegue com o desenvolvimento da investigação do homicídio de Lady Tressilian, acompanhando os esforços do Superintendente Battle e do inspetor Leach para definirem a linha temporal da noite do crime. Cruzando a informação médica com o depoimento sobre a criada Barrett, que foi drogada antes das dez e vinte da noite, Battle conclui que o assassinato terá ocorrido por volta das onze horas. As autoridades tentam ainda verificar os movimentos de Mr. Latimer, cujo álibi se revela bastante vago, restando aos inspetores a convicção de que o verdadeiro culpado se encontra no grupo restrito da casa: Kay, Audrey, Mary Aldin ou Thomas Royde. No meio da frustração da equipa, o superintendente tem uma súbita epifania, recordando-se de um conselho de Hercule Poirot, o que o leva a acreditar que sabe como encontrar a verdadeira arma do crime.
    Numa cena posterior, o foco transfere-se para o jardim, onde uma nervosa e inquieta Mary Aldin conversa com um sereno Thomas Royde. A mulher partilha o seu imenso alívio por Nevile ter sido finalmente ilibado das acusações, reconhecendo a tremenda sorte do rapaz, que escapou de uma condenação por um triz. Contudo, a tensão mantém-se quando confessa uma nova e perturbadora preocupação relacionada com o falecido Mr. Treves. Ela levanta a suspeita de que a história sobre um jovem assassino, contada pelo velho advogado num serão anterior, não foi um mero acaso, mas sim um aviso deliberado a alguém presente na sala que ele teria reconhecido do passado. Embora Thomas tente acalmar Mary, lembrando-lhe que Mr. Treves morreu devido a um ataque cardíaco, ela recusa-se a afastar as suas suspeitas, considerando a morte demasiado estranha e insinuando que poderá ter sido silenciado para proteger a identidade do criminoso.
    A investigação sofre um avanço significativo quando o Superintendente Battle e o inspetor Leach descobrem a verdadeira arma do crime no próprio quarto da vítima. Reparando que a maçaneta esquerda do guarda-fogo de aço está estranhamente limpa e sem impressões digitais, ao contrário da direita, os inspetores desaparafusam-na e encontram sangue na rosca, concluindo que aquele objeto pesado foi usado para cometer o homicídio e que o assassino se esqueceu de limpar o interior da peça. Logo a seguir, Battle é intercetado por Mary Aldin, que se mostra bastante assustada e questiona se o crime poderá ter sido cometido por um maníaco vindo do exterior. O Superintendente descarta essa hipótese, e Mary confessa a sua suspeita de que a morte de Mr. Treves não foi acidental, mas sim um assassinato premeditado. Ela teme que o velho advogado tenha sido silenciado por ter reconhecido, através de alguma peculiaridade física, a criança assassina da história que contara na noite anterior, estando essa pessoa agora presente na casa.
    Entretanto, na biblioteca, a leitura das disposições testamentárias traz uma revelação chocante para Nevile. O Sr. Trelawny esclarece que a fortuna não reverte inteiramente para Nevile, estando antes estipulado que os bens sejam divididos em partes iguais entre ele e a sua primeira mulher, Audrey, não tendo o divórcio alterado essa condição. Esta descoberta surpreende-o e dá à ex-mulher um fortíssimo motivo financeiro (cinquenta mil libras), facto que o Superintendente Battle sublinha, especialmente após revelar que Audrey andava a recusar e a devolver obstinadamente a pensão que Nevile lhe tentava pagar, o que indica que ela poderia estar a passar por dificuldades.
    Em paralelo, a narrativa introduz um novo arco com Angus MacWhirter, que se encontra a refletir sobre o seu passado no terraço de um hotel em Easterhead Bay. A sua paz é interrompida por uma jovem de treze anos, Diana, e pelo seu cão, que tresanda de forma insuportável após se ter rebolado em peixe morto na praia. MacWhirter ajuda a rapariga a dar banho ao animal às escondidas na casa de banho do hotel. Mais tarde, apanha um autocarro para ir buscar um fato a uma lavandaria. Devido à ineficiência da empregada, é-lhe entregue um embrulho errado. Ao inspecionar o casaco trocado no seu quarto, repara numa mancha descolorada no ombro e fica muito intrigado ao constatar que a peça de roupa deita exatamente o mesmo cheiro nauseabundo a peixe podre com que o cão se tinha sujado na praia.
    A narrativa prossegue com MacWhirter a dar um passeio noturno pelas falésias de Stark Head, refletindo sobre as suas próprias mágoas do passado. De súbito, a sua atenção é captada por um vulto a correr desesperadamente em direção ao abismo. Num ímpeto, consegue intercetar a mulher antes que esta se lance no vazio, descobrindo tratar-se de Audrey. Aterrorizada e no limite das suas forças, ela confessa-lhe que prefere uma morte rápida a acabar enforcada pelo homicídio de Lady Tressilian. Compadecido com a atitude dócil e frágil da mulher, promete protegê-la e ordena-lhe que volte para casa.
    No dia seguinte, após a realização do inquérito oficial, MacWhirter visita a residência e pede para falar com Mary Aldin. De forma insólita, solicita-lhe que o ajude a encontrar uma corda. Completamente surpreendida, mas quase hipnotizada pela determinação do homem, condu-lo à estufa. Aí, MacWhirter inspeciona um pedaço de corda e nota que apresenta uma zona limpa e ligeiramente húmida, o que parece confirmar uma teoria que tem em mente, deixando-o visivelmente satisfeito.
    Entretanto, o Superintendente Battle e o inspetor Leach regressam à casa com um ar triunfante e misterioso. Chamam Nevile à biblioteca e revelam-lhe novas descobertas: encontraram uma luva pequena e a verdadeira arma do crime, uma pesada bola de aço desaparafusada de um guarda-fogo vitoriano. O superintendente confronta-o com uma série de provas, incluindo um casaco de Audrey que continha cabelos loiros, pó de arroz e um perfume caro, sugerindo que o verdadeiro assassino usou as roupas da mulher para a tentar incriminar. O detetive insiste que tudo se trata de um plano meticuloso orquestrado por alguém que nutre um ódio doentio pela primeira mulher de Nevile. Contudo, a investigação sofre uma reviravolta chocante. Após uma troca de acusações entre os presentes sobre os motivos de cada um, Battle assume uma postura oficial e dá ordem de prisão a Audrey pelo assassinato de Lady Tressilian. Para espanto de Nevile, que tenta intervir, ela aceita a acusação com uma tranquilidade perturbadora, suspirando e afirmando que o desfecho é quase um alívio para o seu enorme cansaço.
    O clímax da cena é interrompido no exato momento da detenção pela entrada abrupta de MacWhirter. Ele dirige-se de imediato ao Superintendente Battle, declarando ter uma informação crucial para o caso. O indivíduo revela que, na noite do crime, se encontrava do outro lado da baía e, graças à claridade do luar, observou perfeitamente um acontecimento de extrema importância. A passagem termina com o polícia, muito interessado, a encaminhá-lo para a biblioteca para ouvir o que este testemunhou, deixando um enorme suspense no ar e a perspetiva de uma nova mudança no rumo da investigação.
    A tensão atinge o seu limite quando Kay, num ataque de nervos, acusa abertamente Audrey de estar por trás de tudo. Após a intervenção exaltada de Nevile e Ted Latimer, o Superintendente Battle retoma o controlo da situação mantendo a frieza habitual. Pede que preparem uma mala para Audrey, indicando que a detenção irá avançar, e confirma a Nevile que, apesar da história singular de MacWhirter, tem de cumprir o seu dever. Contudo, em vez de concluir o caso de imediato, Battle decide realizar uma última experiência, levando Kay, Ted, Nevile, Mary Aldin, Thomas Royde e MacWhirter num barco.
    A embarcação desce o rio em silêncio até parar sob a sombra imponente da falésia de Stark Head. Ali, com o motor desligado, o Superintendente anuncia solenemente que chegaram à "Hora Zero". Battle explica a sua teoria de que um homicídio não começa no ato em si, mas é antes o culminar de uma longa série de circunstâncias imprevistas que convergem para um único momento e local, atraindo pessoas de várias partes do mundo. Para choque de todos, revela uma conclusão aterradora: a morte de Lady Tressilian foi apenas um crime secundário. O verdadeiro e único objetivo de todo aquele plano meticuloso era o assassinato de Audrey Strange, ou seja, forjar provas de forma a que ela fosse condenada à forca.
    O detetive expõe a extrema astúcia do verdadeiro criminoso, que primeiro plantou pistas superficiais contra Nevile para serem facilmente desmascaradas pelas autoridades, e depois forjou uma teia de falsos indícios contra Audrey — desde a arma e a luva ensanguentada até aos cabelos e impressões digitais. Battle confessa que a própria atitude dócil e conformada daquela quase o convenceu da sua culpa, não fosse um milagre trazido por MacWhirter. A pedido do superintendente, relata então o que observou na noite do crime: ao olhar para a casa a partir da falésia vizinha, viu claramente uma corda pendurada de uma janela até ao mar e um homem a subir por ela. Embora a revelação faça Mary Aldin pensar de imediato num intruso vulgar, Battle destrói rapidamente essa ilusão, alertando o grupo de que a corda teve de ser previamente preparada e atirada por alguém a partir do interior da casa, o que prova de forma definitiva que um dos presentes está implicado na conspiração.
    O Superintendente elimina a possibilidade de Ted Latimer ou Thomas Royde serem os assassinos, provando que nenhum dos dois teria a capacidade física para atravessar o rio a nado na escuridão e subir por uma corda. O único capaz de tal proeza atlética é Nevile Strange. Confrontando-o de forma implacável, Battle expõe a sua mente doentia e a verdade aterradora: ele não matou Lady Tressilian por causa da herança. O homicídio foi apenas um meio maquiavélico para incriminar a sua primeira mulher, Audrey, e levá-la à forca. Tratava-se de uma vingança sádica e meticulosamente planeada por ela o ter trocado por outro homem, Adrian. Perante a dedução implacável do policial e o peso de ter sido descoberto graças a um "intrometido", a máscara de desportista perfeito de Nevile quebra-se por completo. Num ataque de histeria, ele confessa aos gritos o seu ódio doentio por Audrey e por Adrian, lamentando que o plano tenha falhado, e acaba por se desmoronar, a chorar como uma criança.
    Mais tarde, num desabafo com o Superintendente no terraço, Audrey revela que viveu aterrorizada durante anos por trás da fachada de simpatia de Nevile, confidenciando que há muito suspeitava da sua loucura e acreditava que ele fora o verdadeiro responsável pelo "acidente" de viação que matara Adrian. Durante esta conversa, Battle deduz também que a morte do velho Mr. Treves não foi natural; Nevile pendurou o aviso de "Avariado" no elevador para o forçar a subir as escadas, provocando-lhe um ataque cardíaco fatal, porque aquele o teria reconhecido como a criança assassina da sua velha história, devido a uma deformidade física num dos dedos. O detetive explica ainda as minúcias do crime principal, nomeadamente a forma rápida como Nevile nadou, usou a corda e forjou o álibi com a campainha, até ao motivo de ter afastado Audrey de imediato.
    A história caminha para o seu desfecho no quarto de Angus MacWhirter, que prepara as malas para embarcar para o Chile. Audrey visita-o para lhe agradecer por a ter salvo, e é então que o homem faz uma confissão surpreendente: ele nunca viu realmente um homem a subir pela corda. Através da sua dedução lógica, ligando o fato manchado e com cheiro a peixe de Nevile e a corda húmida na arrecadação, MacWhirter compreendeu toda a verdade, mas decidiu inventar o testemunho visual irrefutável de forma a forçar a polícia a intervir e impedir o enforcamento de Audrey. Esta apercebe-se de que o próprio Battle sabia que era mentira, mas decidiu usar a história para encurralar Nevile. Profundamente comovida por tudo o que MacWhirter arriscou por ela e finalmente liberta da sua paralisia e medo, recusa-se a deixá-lo partir sozinho. Ignorando as convenções, propõe-lhe casamento de imediato. Ele ainda tenta argumentar que ela estaria melhor com o seu velho amigo Thomas, mas acaba por se render à determinação e ao amor de Audrey. A obra encerra com os dois abraçados, prontos para deixar o passado para trás e iniciar uma nova vida juntos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O Segredo de Chimneys, de Agatha Christie

    No primeiro capítulo, é apresentada a figura de Anthony Cade, ujm aventureiro que vive em África. Ele encontra-se com Jimmy McGrath, um velho amigo, que lhe fala de uma missão intrigante: entregar as memórias do conde Stylptich, um político muito importante de Herzoslováquia, um país fictício situado algures na Europa Central, a uma editora de Londres e devolver um conjunto de cartas comprometedoras a uma mulher chamada Virgínia Revel. Pelo meio, é descrito o contexto em torno desse país peculiar e mencionada outra personagem relevante, Vyktor Drago, um político ambicioso envolvido numa conspiração para derrubar o poder instituído e apossar-se dele.
    George Lomax e Lorde Caterham discutem o caso e o diplomata sustenta que é imperioso impedir a publicação das memórias, acrescentando que seria interessante envolver uma mulher no assunto no sentido de, de forma subtil e com tato, atingir tal desiderato junto de James McGrath. Na sequência, sugere o nome da sua cunhada, Virgínia Revel, viúva de um homem que esteve ligado à embaixada inglesa na Herzoslováquia e que era particularmente versado nos assuntos desse país. A mulher referida possui 27 anos, é loura, elegante, atrevida e prococadora, possuindo o dom de arrastar a admiração e paixonetas de homens.
    Entretanto, Anthony Cade, sob o nome do amoigo McGrath, chega a Londres, cujo solo não pisa há 14 anos. Pouco depois da sua chegada, é contactado no hotel onde se instala por um homem, o barão Lolopretjzyl, o representante do partido Lealista da Herzoslovákia, que lhe diz que é tempo de restaurar a monarquia e entregar o poder ao príncipe Miguel. Além disso, o indivíduo oferece a Cade a quantia que este desejar para as memórias do conde Stylptich não serem publicadas, pois elas causarão um escândalo que predicará o seu partido e o seu candidato ao trono, no entanto aquele recusa.
    Logo de seguida, é visitado por um representante da Irmandade da Mão Vermelha, que deseja apossar-se do livro e que o ameaça com uma arma, porém Cade desarma-o e o sujeito foge. Nessa noite, entra pela janela do quarto o criado que lhe servira o jantar, igualmente para se apossar das memórias, no entanto aquele desperta do sono e luta com o intruso, que se escapole pela janela, levando consigo, todavia, o maço de cartas supostamente da autoria de Virgínia.
    O foco da ação, após estes eventos, centra-se precisamente nela, que recebe igualmente a visita de um homem que a pretende chantagear com cartas de teor amoroso comprometedor, ameaçando enviá-las ao marido, o que significa que o chantagista não conhece Virgínia nem a sua vida, ignorando que é viúva há algum tempo. Por outro lado, pela sequência de eventos, é simples deduzir que se trata do criado que invadiu o quarto de Cade e lhe roubou o maço de cartas. A mulher lê uma que o indivíduo levou como exemplar do material de que dispõe, fica estupefacta com o facto de o papel estar assinado com o seu nome, porém reconhece de imediato que não é a sua caligrafia, porém guarda a informação para si. O sujeito exige-lhe mil libras para não divulgar a correspondência e o seu conteúdo e a viúva, por diversão e como estratégia para o apanhar, entrega-lhe quarenta, com a promessa de lhe pagar o restante posteriormente. Assim que o indivíduo sai, Virgínia recebe outra visita, a de George Lomax, que a tenta convencer a seduzir McGrath de modo a apoiar a restauração da monarquia na Herzoslovákia, concretamente o príncipe Miguel Obolovitch. A viúva irá passar o fim de semana em Chimneys, onde espera que o assunto seja discutido.
    Anthony Cade, na pele do seu amigo McGrath, comunica ao gerente do hotel o ataque de que foi vítima na noite anterior por parte do criado Giuseppe. O administrador fornece-lhe todas as informações de que dispõe: está em Inglaterra há cinco anos e, dentre os hotéis em que havia trabalho, em dois tinham ocorrido roubos. Mais tarde, ainda nesse dia, Cade recebe um telefonema proveniente da firma Balderson & Hodgkins, concretamente de Balderson, que o esclarece que a sua editora tem sido vítima de ameaças e tentativas de chantagem por causa do manuscrito que o aventureiro possui, por parte de um grupo muito perigoso, e pede-lhe que não lhes entregue diretamente o texto. Em alternativa, no dia seguinte, um funcionário da editora recolhê-lo-á junto de Cade e entregar-lhe-á um cheque de mil libras.
    Na manhã posterior, liquida a conta do hotel e, quando se prepara para entrar num táxi, entregam-lhe uma carta em que lhe é pedido que não tome qualquer resolução sobre o manuscrito antes de se reunir com George Lomax. A missiva compreende ainda um convite para Chimneys na sexta-feira, endereçado por Lorde Caterham. De seguida, Cade instala-se numa obscura hospedaria de Londres, o Blitz Hotel, e envia uma carta-resposta à que recebera, na qual comunica que já se encontrava em Londres desde terça-feira, que tinha entregado o manuscrito à firma Balderson & Hodgkins e, por último, que declinava o convite, pois iria partir de imediato de Inglaterra. Todas estas ações não passam, porém, de uma estratégia tendente ao abandono da identidade do amigo e à assunção da sua.
    Virgínia vai jogar ténis e, quando retorna a casa, a aia comunica-lhe que recebera um telegrama supostamente endereçado pela própria patroa, instruindo-a a enviar toda a criadagem para a casa de campo, onde supostamente iria dar uma festa durante o fim de semana. Quando entra no estúdio para telefonar à polícia, dá de caras com um homem morto no sofá, assassinado com um tiro no coração. Ao observá-lo mais de perto, constata que se trata do seu chantagista. Enquanto decide o que fazer, tocam à campainha. É um jovem desempregado que lhe tentara vender um folheto quando ela regressara do ténis. Na realidade, é Anthony Cade. Quando ambos observam o revólver com que fora morto, descobrem que tem gravado o nome Virgínia e, ao revistarem a sua roupa, encontram um pedaço de papel no forro rasgado do casaco que reza o seguinte: "Chimneys onze e quarenta e cinco, quinta-feira."
    Esgotados as investigações, coloca-se um problema: o que fazer com o corpo? Cade deposita-o numa mala; Virgínia chama um táxi e manda depositar a bagagem nele, incluindo a mala. Desloca-se até à estação de Paddington e manda guardá-la no depósito de bagagem. Cade aguarda-a na plataforma e, quando ela passa por ele, deixa cair o bilhete do depósito, que Cade apanha e finge devolver, mas, na realidade, conserva-o na sua posse. De seguida, levanta a mala e conduz o corpo para longe de Londres, abandonando-o na berma de uma estrada recôndita. Depois esconde a arma do crime no cimo de uma árvore e segue para Chimneys. Às 23 horas e 5 minutos, enquanto ronda a propriedade, ouve um tiro proveniente da vetusta mansão. Pouco depois, a luz acende-se numa das janelas superiores.
    Mais tarde chegam o superintendente Battle e o coronel Melrose. O morto é o príncipe Miguel, da Herzoslováia, e estava em Chimneys para firmar um acordo com Herman Isaacstein: trocar concessões de petróleo por um empréstimo quando subisse ao trono. O relógio da vítima parou com a queda do corpo e regista as 23 e 4 como a hora do crime. Foram descobertas marcas de pés que iam dar à janela do compartimento onde ocorreu o crime, que foram comparados com os sapatos de um rapaz que alugou um quarto numa estalagem nessa noite e correspondem exatamente. Quem é esse rapaz? Anthony Cade. No instante em que o superintendente acaba de revelar estes dados, um criado entra a anunciar a presença de um cavalheiro que deseja falar com Lorde Caterham sobre um assunto muito importante. Quem é esse cavalheiro? Anthony Cade. Ele conta ao aristocrata, a Battle, a Lomax e ao coronel Melrose a história desde o encontro em Bulavaio com o amigo, James McGrath, omitindo, no entanto, alguns pormenores, como o encontro com Virgínia e tudo o que se passou em torno do homem morto na sua casa. Battle leva-o e fala com ele a sós e dessa conversa fica a conhecer-se um facto: Cade, na noite anterior, encontrou todas as janelas fechadas, mas na manhã seguinte a do meio encontrava-se aberta. Debaixo do cadáver, fora encontrada uma folha de papel com o símbolo da Mão Vermelha. De seguida, o superintendente leva-o a ver o cadáver e Cade reconhece nele a figura de Mr. Holmes, o enviado da casa Balderson & Hodgkins. Depois regressam à Sala do Conselho e Battle pede a Anthony que diga que se enganou e que a janela estaria aberta e só não a conseguiu abrir por ser pesada e estar perra. À porta, surpreendem Hiram Fish, um norte-americano interessado em crimes, convidado por Lorde Caterham para apreciar os quadros existentes em Chimneys.
    Certa noite, Bill é acordado por Virgínia, que lhe diz que há ladrões na Sala do Conselho. Os dois deslocam-se até lá e Bill, no meio da escuridão, luta com um desconhecido que acaba por fugir pela janela. Virgínia corre atrás dele, mas acaba por esbarrar, ao dobrar uma esquina, com Hiram Fish, que se apresenta vestido. No meio de tamanho alarido e rapidez de eventos, soa algo estranho. Quem não marca presença é Isaacstein.
    Entretanto, o superintendente Battle parte para Londres e, na estação de caminho de ferro, encontra-se com Cade, que fora investigar aspetos da vida da governanta de Chimneys, pois estava convicto de que, na noite do crime, a janela que vira iluminar-se após o tira era a do quarto dela. De regresso à mansão, o criado Tredwell informa-o da tentativa de roubo da noite anterior, em que «os ladrões» estavam a desmontar as armaduras da Sala do Conselho.
    Virgínia, Bill e Cade encontram-se na casa dos barcos: a mulher desconfia que há um esconderijo e uma escada secreta algures na propriedade e está convencida de que havia duas pessoas na Sala, tendo-se uma escapulida pela janela e outra saído pela porta no momento em que ela pulou pela abertura. Com a ausência de Battle em Londres, Cade crê que os «ladrões» voltarão a atacar nessa noite, por isso propõe que ele e Bill Eversleigh, o secretário de Lomax, se escondam na Sala do Conselho, mas Virgínia impõe a sua participação no plano. A caminho das três horas, ouvem passos no terraço, depois a janela abre-se e um homem pula por cima do parapeito. Entretanto, Bill não segura um espirro, Virgínia acende as luzes e Cade domina o intruso, um desconhecido de barba preto que se encontra hospedado no Cricketers e que fora visto rondando nas imediações. Nesse instante, na soleira da porta surge Battle, que apenas fingira ter ido a Londres. De seguida, o desconhecido apresenta-se: detetive Lemoine, da Sureté de Paris.
    O superintendente começa a fazer luz sobre os acontecimentos: um misterioso ladrão conhecido por rei Vítor, há cerca de oito anos, efetuara uma série de assaltos audaciosos em Paris, sob o nome de capitão O'Neill, associado a Angèle Mory, uma atriz do Folies Bergéres, numa época em que a capital francesa se preparava para receber a visita do rei Nicolau IV da Herzoslovákia. Os Camaradas da Mão Vermelha pagaram à atriz para seduzir o rei e o atrair a um determinado local. O monarca apaixonou-se por ela e cobriu-a de joias e ela conseguiu casar-se com ele, tornando-se a rainha Varaga da Herzoslováquia. Contudo, a organização criminosa, furiosa com a sua traição, atentou duas vezes contra a sua vida, causando tamanha tensão que acabou por redundar numa revolução que causou a morte do casal real. Sucede que, durante todo esse tempo, ela comunicava secretamente com o rei Vítor, usando o nome de uma dama inglesa pertencente à embaixada: Virgínia Revel. Após a revolução, descobriu-se que as pedras preciosas da maioria das joias da coroa tinham sido furtadas por Angèle Mory e enviadas ao seu amante, o rei Vítor. Em determinada época, o casal real da Herzoslovákia visitara a Inglaterra e fora hóspede do falecido marquês de Caterham, tendo aí coincidido com o conde Stylptitch. Uma joia muito valiosa, o Koh-i-noor, fora escondida pela rainha algures na Inglaterra. Quinze dias depois, rebentou a revolução, o rei e a rainha foram assassinados e o capitão O'Neill foi preso em Paris. Todo este caso fora abafado pelas autoridades. Cade intervém de conta que McGrath se encontrara com o conde em Paris, quando o salvara de um ataque que sofrera, que lhe confidenciara saber onde estava o Koh-i-noor e que as pessoas que o tinham atacado pertenciam ao bando do rei Vítor. O detetive francês esclarece que, após ser libertado da prisão, o famoso ladrão emigrara para os Estados Unidos e aí se instalara sob o papel de Nicolau da Herzoslováia, aproveitando-se do boato que corria, segundo o qual o verdadeiro príncipe tinha falecido no Congo alguns anos antes. No entanto, acabou por ser desmascarado e teve de fugir à pressa do país, deslocando-se para Inglaterra.
    De seguida, Lemoine explica que chegara a Chimneys no dia seguinte ao assassinato e não se identificara como policial para que quem ele investigava não se precavesse. Deslocara-se para a casa e, quando estava no terraço, apercebera-se de que havia alguém na Sala do Conselho. Então, entrara pela janela do meio, que se encontrava destrancada, e procurara observar o homem que lá se encontrava e que tinha desmantelado duas armaduras à procura de algo e, nada tendo encontrado, começara a bater no painel de madeira localizado por baixo de um quadro. Fora nesse momento que Virgínia e Bill tinham entrado em cena. Na sequência, Lemoine saltara pela janela, para a sua identidade não ser descoberta, e o intruso saíra pela porta. Terminada a narrativa dos vários intervenientes, Battle volta-se para Cade e diz-lhe que o morto que tinha sido encontrado perto de Staines, de que lhe falara recentemente, fora identificado: Giuseppe Manuelli, criado no hotel Blitz, de Londres. Cade narra-lhe então os acontecimentos que tiveram lugar na noite da quinta-feira anterior. O superintendente crê que o criado foi usado pelo rei Vítor ou pelos Camaradas da Mão Vermelha para roubar as memórias, mas, quando se apoderou das cartas por engano, decidiu chantagear Virgínia, porém aqueles para quem trabalhava desconfiaram que os estava a trair e liquidaram-no. Ao mesmo tempo, apossaram-se das cartas, que deveriam conter a localização da joia, de que estavam à procura.
    Finalizada a reunião, Anthony Cade sobe ao seu quarto e, em frente ao espelho, depara com o pacote de certas assinadas em nome de Virgínia Revel. Battle permite que os hóspedes que o desejarem possam abandonar Chimneys, no entanto pede a Lorde Caterham que os convide a ficar, sem exceção. Isaacstein é um dos que parte. Quando o carro que transporta as suas bagagens parte, Lemoine manda-o parar a pretexto de uma boleia até à vila. No entanto, quando o veículo chega à curva, cai uma das malas que transporta e o detetive surge de trás de uma volta da estrada. Rapidamente, abre-a e revolve-a até encontrar um revólver no interior de um pacote de roupa interior.
    Enquanto isso, Battle convoca o professor Winwood para decifrar as cartas assinadas em nome de Virgínia e encontradas no quarto de Cade. A sua teoria para justificar o misterioso aparecimento das missivas é a de que se trata de um estratagema do rei Vítor, que, sabendo que a Sala do Conselho está sob vigilância apertada, pretende que as autoridades se apossem delas, as decifrem e encontrem o esconderijo da joia, para depois entrar em ação. O professor decifra a carta que contém a menção a Chimneys e leva consigo as restantes para Londres, para um seu assistente as desvendar. O texto em questão reza o seguinte: «Operações executadas com sucesso, mas S. traiu-nos. Retirou pedra do esconderijo. Não está no seu quarto. Dei busca. Encontrei seguinte memorando que acho se refere assunto: RICHMOND SETE EM FRENTE OITO ESQUERDA TRÊS DIREITA.» Cade interpreta o «S.» como uma referência a Stylptich, enquanto Virgínia desvenda a alusão da Richmond: é o quadro de Holbein que se encontra na Sala do Conselho e que constitui um retrato do conde de Richmond. Pouco depois, Bundle, a filha de Lorde Caterham, interrogada, informa que há uma passagem secreta que liga o cómodo a Wyvvern Abbey, cuja entrada é o painel com dobradiças.
    Após o almoço, Battle, Bundle, Virgínia, Lemoine e Cade reúnem-se na Sala do Conselho. O grupo penetra na passagem, mas percorre apenas cem metros, pois está obstruída por material de construção. De regresso à sala, colocam-se junto ao painel de entrada: Battle dá sete passos em frente para dentro da passagem, examina o chão e encontra vestígios de um sinal feito com giz no chão. De seguida, contam oito tijolos a partir da marca em direção à esquerda e, de seguida, três para a direita. Battle percebe que o último tijolo da contagem é diferente dos demais, retira-o com a ajuda de uma faca e encontra uma cavidade, de onde o superintendente retira um cartão com pequenos botões de pérolas, um quadrado de malha grosseira e um pedaço de papel com uma fila de E maiúsculos. No chão, Lemoine encontra um fósforo.
    Mais tarde, Battle mostra a Cade uma folha de papel com uma mensagem: «Cuidado com Cade. Não é o que parece.» Pouco depois, encontra-se com Fish no Jardim das Rosas e pede-lhe um fósforo a pretexto de acender um cigarro e guarda-o. Mais tarde, confere-o e conclui que é igual ao encontrado na passagem secreta. Depois apanha boleia para Londres com Bundle. Durante o trajeto, a filha de Lorde Caterham elogia a inteligência de Virgínia e a dedicação extrema ao marido, justificando-o com o facto de ela não o amar e procurar compensar essa ausência de amor ajudando-o com a sua carreira de diplomata.
    Chegados a Londres, Cade apanha um comboio para Dover e, posteriormente, dirige-se para a casa de Hurstmere, na Estrada Langly, na qual encontra meia dúzia de homens que pertencem à Mão Vermelha. Trata-se do quartel-general do rei Vítor. Subitamente, enquanto espreita a uma janela, ouve gemidos provenientes de outro compartimento. Agarra-se a uma trepadeira, sobe, força o trinco da janela do compartimento com um instrumento apropriado e entra. Na cama, encontra um homem amarrado de pés e mãos, mas é surpreendido por Hiram Fish.
    Passadas trinta horas desde a partida de Cade, em Chimneys, Lorde Caterham, Virgínia e Bundle discutem a sua ausência, bem como a de Fish, quando são interrompidos por Lemoine, que lhes vem falar precisamente do desaparecimento do aventureiro, sobre o qual mantém algumas suspeitas, e conta que tinha apanhado um papel que aquele deixara cair, contendo o endereço de uma casa em Dover, que, como por acaso, deixara também cair esse mesmo pedaço de papel, que seria apanhado por Boris, o criado herzoslovaco, um emissário da Mão Vermelha, e entregue a Cade, que, por sua vez, o devolvera ao detetive francês. Virgínia defende Cade, dizendo que Lemoine não tinha a certeza se fora aquele que deixara cair o papel e que há outra pessoa que se ausentara de Chimneys - Fish -, no entanto o francês diz-lhe que o sujeito é um detetive da Pinkerton.
    Virgínia regressa ao seu quarto, desolada. Subitamente, ouve um ruído de saibro atirado à janela. Abre-a e depara com Boris, que diz ter sido enviado por Anthony Cade para a conduzir até o local onde ele se encontra e lança-lhe uma mensagem escrita pelo aventureiro contendo esse pedido e a explicação.
    Às 10 horas de 13 de outubro, Cade entra no hotel Harridge e pergunta pelo barão Lolopretjzyl. É conduzido ao seu quarto, onde o encontra na companhia do capitão Andrassy, e oferece-se para lhe fornecer um príncipe para liderar a Herzoslováia. Para consumar o «negócio», devem deslocar-se a Chimneys nessa noite, pelas 21 horas. Posteriormente, desloca-se a casa de Herman Isaacstein para lhe oferecer um candidato ao trono do país, em troca de um empréstimo semelhante ao que fora oferecido ao príncipe Miguel. Depois informa-o de que o revólver usado para o matar foi encontrado na mala do próprio Isaacstein. O homem fica frenético e nega o seu envolvimento no crime, enquanto Cade o aconselha a marcar presença em Chimneys nessa noite para resolver a questão.
    Por volta da hora marcada, as personagens começam a reunir-se na Sala do Conselho.
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