sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Desemprego


     Isto representa, na realidade, mais de um milhão de pessoas sem emprego.

Meteoro cai na Rússia


     Um meteoro caiu hoje na Rússia, fazendo um número elevado de feridos. Como não poderia deixar de ser, as caixas de comentários dos nossos jornais encheram-se de pérolas:

1. «vamos ver se não tras nenhum virus com ele. se tiver vai ser o caos.»

2. «vcs perceberam que existem dois (2) rastros de fumaça, um do lado dou outro? Muito estranho um meteorito fazer fumaça assim!»

3. «Tantos telescópios milionários que descobrem planetas a não sei quantos anos-luz de distância e nem se dão conta de um meteorito que vai cair na terra? Só pode ser um complot da maçonaria, aliada à Opus dei.»

4. «Fim dos tempos.»

5. «Fim dos tempos? Há 65 milhões de anos foi o início dos tempos! graças a um destes, vc está hoje escrevendo posts na internet!»

6. «Como nos tempos de Noé, ouvi e atentai para os acontecimentos.»

7. «Não sabia que ainda havia crentes como o senhor, achava que isso tinha acabado algures no século XVI. Se quiser dou-lhe o número de boas carpintarias para ir construindo a arca...»

8. «Tem 4 pontos escuros que passam a frente do meteóro... o que são aquilo serão nave extra terrestres......»

9. «Reparem na foto do homem com um penso na cara. Na parede está um cartaz sobre cães. Deduzo que o homem tenha sido tratado por um veterinário... O desenho mal-amanhado do penso, reforça a minha convicção.»

10. «Em cheio numa camioneta de "ucras" a caminho de Portugal.»

11. «Poderia ter colido mais a Sul na Assembleia da República...»

12. «Estou farto de estar de cabeça pro ar... À espera dessa raio asteroide. Quero jantar e não há maneira dele passar...»

13. «METEORITO É O KARALHO!!!!!!!!!!! ISSO É UM FOGUETE DA COREIA DO NORTE QUE PERDEU O RUMO!!! AO INVÉS DE ACERTAR OS EUA, ACERTOU A URSS!!!!!! AMIGOS DELES!!!!!! QUE TECNOLOGIA DE MERDHA DO KARALHO!!!!!!!!!!!!»

14. «O fim está próximo. A renúncia do papa foi seguida por um raio no Vaticano e uma tempestade de meteoros que já matou mais de 150 pessoas na Rússia.»

15. «APOCALIPSE COMEÇA MILAGRE DO SOL EM FATIMA!!!!!!»

16. «Era pôr-vos aos 2 no coliseu e soltar os leões...»

     Isto é só uma amostra...

"O dos Castelos"

         Neste poema, o primeiro de Mensagem, Pessoa antepõe os Castelos às Quinas (lendariamente concedidas por Cristo ao primeiro rei de Portugal, mas provavelmente só integradas no brasão por D. Sancho I), porém aqueles apenas foram adicionados ao brasão português durante o reinado de D. Afonso III.
         O seu número definitivo (7) só se fixou no início do século XVI e refere-se aos sete castelos que foram conquistados aos mouros para garantir a demarcação do território nacional.
         Por outro lado, o título do poema é uma perífrase de Portugal: «O [país] dos castelos», isto é, Portugal.
         A Europa é personificada por Pessoa, descrita e caracterizada no poema como se de uma figura feminina se tratasse. Ela surge deitada (“jaz” ‑ vv. 1 e 2) e apoiada nos cotovelos, sustentado o rosto na mão direita, (v. 1), com “cabelos românticos” a toldar o rosto e “olhos gregos”. O olhar é “esfíngico e fatal” e o rosto, que fita o Ocidente, é Portugal. De facto, se observarmos um mapa da Europa, constataremos que é possível imaginá-la como uma mulher reclinada, correspondendo os cotovelos à Itália e à Inglaterra.
         O início da descrição apresenta a Europa, simbolicamente, como um espaço decadente e sem vigor. De facto, a repetição de formas verbais pertencentes aos verbos «jazer» e «fitar» sugerem a imagem de decadência que marca a descrição do velho continente. O verbo «jazer», que significa “estar deitado” e “estar morto ou como morto”, destaca a imobilidade e a letargia em que a Europa se encontra. Por outro lado, o verbo «fitar» remete para um estado de imobilidade, de ausência de vitalidade e de estatismo do olhar. Assim sendo, é necessário que a Europa desperte desse estatismo, dessa atitude meramente contemplativa e “adormecida”. Ela parece estar à espera de um novo impulso vital, que o seu olhar procura na distância, no desconhecido, no sentido de construir um novo império espiritual, cujo guia será Portugal.
         Por outro lado, os cabelos são caracterizados como «românticos» (v. 3), sonhadores, toldam o rosto, adensando o mistério que envolve a figura, enquanto os olhos são «gregos». Estas metáforas sugerem as raízes culturais que constituem a identidade europeia: o Norte (a referência aos “românticos cabelos”) e o Sul (a referência aos “olhos gregos”).
         Os cotovelos estão estrategicamente colocados em Itália e na Inglaterra, o que constitui uma nova referência às raízes culturais europeias: o Norte e o Sul, isto é, a cultura romântica e a cultura clássica. Estas referências geográficas são claras: a Inglaterra é referida pela sua ligação ao Romantismo, corrente artística que valorizava imenso o passado, enquanto a Itália e a Grécia são evocadas por terem sido essenciais para a civilização e cultura europeias.
         A mão direita sustenta o rosto, que corresponde a Portugal. Ora, ao apresentar Portugal como o rosto da Europa, Pessoa atribui-lhe um estatuto de superioridade relativamente às restantes nações europeias. Esse rosto fita fixamente o Ocidente com um “olhar esfíngico e fatal” (v. 10), ou seja, um olhar enigmático que antecipa um renascimento de que apenas ele será capaz. O adjetivo “esfíngico” (notam-se no mapa europeu algumas semelhanças com a esfinge egípcia, monstro fabuloso com rosto humano e corpo de leão, que devorava quem não conseguisse decifrar os enigmas que ela propunha) sugere a atitude expectante e contemplativa, enigmática e misteriosa, com que a Europa fita o Ocidente, que representa a sua vocação histórica, o “futuro” que o continente já desvendou no passado e que se apresenta, agora, como nova promessa de renascimento. Por outro lado, o adjetivo “fatal” aponta para a missão predestinada que cabe a Portugal de construção do futuro. Em suma, o olhar é indagador do desconhecido que a Europa contempla e fatal, pois a procura desse desconhecido é motivada pelo Fatum, pelo Destino.
         Portugal parece, pois, ter sido tocado pelo destino, reunindo todas as condições para “comandar” a Europa na reconquista de um passado cultural perdido (paradoxo do verso 10). Enquanto rosto da Europa, «fita» (atente-se na sua repetição por três vezes, como se de uma verdadeira obsessão europeia e portuguesa se tratasse) o mar ocidental, seu destino, seu futuro. Pessoa considera, assim, que a missão de Portugal é ligar o Oriente ao Ocidente (“De Oriente a Ocidente jaz, fitando”), quer geográfica quer espiritualmente, sendo que reúne características indicados para essa missão: a sua situação geográfica privilegiada e a sua vocação marítima, já com provas dadas.
         No poema, destacam-se dois símbolos: o olhar e o rosto. O primeiro tem um poder mágico, misterioso, e, segundo o Islamismo, o olhar do Criador e da criatura constituem o próprio processo de criação. Atraem-se um ao outro. E sem esta atração recíproca, a Criação perde toda a razão de ser. Dentro desta perspetiva, a moral é a ciência do olhar: saber olhar significa descobrir o próprio olhar do Criador, isto é, tirar o véu que cobre a realidade. O rosto é, igualmente, um símbolo de mistério.
         Neste poema, à semelhança do que Camões fez nas estâncias 6 a 21 do canto III de Os Lusíadas, Pessoa procura apresenta Portugal, inserindo-o como cabeça da Europa, uma figura feminina deitada e fitando “com olhar esfíngico e fatal”, em posição de expectativa, o Ocidente, sua vocação histórica.

Estrutura interna de 'Os Lusíadas'

1.ª) Introdução (I, 1-18):

۩ Proposição (I, 1-3): apresentação do assunto.
            Camões propõe-se cantar as navegações e conquistas no Oriente nos reinados de D. Manuel a D. João III, as vitórias em África de D. João I a D. Manuel e a organização do reino durante a primeira dinastia.


۩ Invocação: súplica de inspiração a entidades mitológicas – as musas.
            Camões escolhe as Tágides, ninfas do Tejo, para nelas buscar uma inspiração elevada.
            Ao longo da obra, surgem outras invocações, sempre que Camões necessita de um novo alento para o assunto a narrar.
            As ninfas invocadas recordam o recurso à mitologia, ao maravilhoso pagão, com o objectivo de tornar a narração mais agradável, imitando as grandes epopeias greco-latinas, e de mostrar que para cantar tão grandiosos feitos era necessária uma inspiração sobrenatural.

Localização
Destinatário
Objectivo

I, 4-5


Tágides (ninfas do Tejo)


. Pedir ajuda para a consecução de um “som alto e sublimado”, “um estilo grandíloco e corrente...”.


III, 1-2


Calíope (musa da eloquência da poesia épica)


. Conseguir inspiração para a composição do discurso do Gama ao rei de Melinde.


VII, 78-87


Ninfas do Tejo e do Mondego


. Solicitar o seu favor na tarefa de cantar um povo ingrato, aproveitando para tecer considerações pessoais.


X, 8-9


Calíope


. Sentindo aproximar-se o Outono da vida, Camões solicita ajuda para a missão a que se propôs: glorificar a sua pátria.


X, 145


Calíope


. Camões confessa não poder cantar mais, pois o não merece “a gente surda e endurecida”.



۩ Dedicatória (I, 6-18): oferecimento da obra a D. Sebastião, rei que Camões via como garantia da liberdade nacional, como representante escolhido por Deus, como monarca poderoso. Termina com a exortação ao rei para que também ele se torne digno de ser cantado.



2.ª) Narração (I, 19 – X, 144):

            A narração inicia-se in media res, ou seja, quando a viagem já vai a meio, encontrando-se os marinheiros portugueses no Oceano Índico, e termina quando entram “pela foz do Tejo ameno” (X, 144).
            A narração está estruturada em quatro planos:
Ø  a Viagem: descoberta do caminho marítimo para a Índia;
Ø  a História de Portugal;
Ø  a Mitologia;
Ø  as Considerações Pessoais do Poeta.


      
a)   Viagem: narração dos acontecimentos ocorridos durante a viagem entre Lisboa e a Índia:
F narração do percurso até Melinde por Camões (I e II);
F narração da História de Portugal até à viagem, em forma de discurso dirigido ao rei de Melinde e a pedido deste (III, IV e V, 85);
F inclusão da narração da primeira parte da viagem (de Belém à passagem do Cabo da Boa Esperança – “Adamastor”) e do surgimento da “doença crua e feia” (escorbuto) na retrospectiva histórica atrás referida;
F apresentação do último troço da viagem entre Melinde e Calecute (VI).
      Cronologicamente, a viagem decorreu da seguinte forma:
§  partida em 8 de Julho de 1497 (IV, 84-ss.);
§  peripécias da viagem;
§  paragem em Melinde por dez dias;
§  chegada a Calecute em 18 de Maio de 1498;
§  regresso a 29 de Agosto de 1498;
§  chegada de Vasco da Gama a Lisboa em 19 de Agosto de 1499 (a nau de Nicolau Coelho chegara cerca de dois meses antes).

            Porém, simultaneamente, os deuses reúnem em consílio para decidir “sobre as cousas futuras do Oriente” e, de vez em quando, o poeta tece considerações pessoais.
            A viagem não constitui realmente uma ação, nem tem intriga, nem personagens propriamente ditas. Falta-lhe autonomia. Para que a viagem constituísse uma ação, seria necessário que os seus protagonistas se debatessem com as dificuldades e as resolvessem graças às suas forcas e engenho. Mas tais protagonistas não existem, uma vez que não passam de bonifrates que desempenham um papel destinado pela Providência, sem mãos e cérebro para enfrentar os problemas. não vemos Vasco da Gama arriscar-se e agir, molhar-se na água, nem desenredar-se de intrigas, nem manchar-se de sangue (excepto na escaramuça com indígenas no episódio de Veloso, por ele próprio descrita ao rei de Melinde), nem ter uma vontade, um capricho ou uma paixão. Serve apenas para fazer discursos, para recitar os belos discursos de Camões. O único ensejo que tem de resolver um problema pelos seus próprios meios, isto é, sem a intervenção dos deuses, ocorre quando o Catual o detém em Calecute. Não vemos também Vasco da Gama falar aos seus marinheiros, que, de resto, parecem não existir, são uma abstração que povoa as naus. Não os vemos apagar os incêndios, discutir nos conselhos de capitães em que se tomavam as decisões. Mal entrevemos, numa tempestade, a voz anónima do Gama mandando amainar a grande vela ou dar à bomba. Uma única personagem se nos depara, numa visão fugidia: Fernão Veloso, numa atitude nada heroica (em fuga) e num sito típico de fanfarronice peninsular.
            Por outro lado, pode dizer-se que a viagem não tem história nem enredo. Os marinheiros limitam-se a deixar-se transportar nas mãos dos deuses. Se estes não existissem, nunca saberíamos como é que os nautas alcançaram a Índia, que perigos venceram e de que forma. A unidade orgânica do relato da viagem não reside nem na personalidade dos heróis, nem em qualquer intriga intrínseca à própria viagem. Uma viagem marítima no tempo da navegação à vela, com abordagens, revoltas e motins da tripulação, recontros com as populações costeiras, teria matéria riquíssima para efabulação. Há, todavia, no que respeita à luta com o mar, quadros cheios de relevo e precisão, como a Tromba Marítima, o Fogo de Santelmo e o Escorbuto, e todo o canto V, um dos melhores da obra, que se poderia chamar “Trabalhos do Mar”. Mas esses episódios, onde falta sempre a presença humana, são dados de forma descritiva, exemplificativa, numa sequência oratória, e não narrativa, no discurso ao rei de Melinde. E a história da viagem do Gama, que constitui a parte propriamente narrativa da obra, fica reduzida a uma crónica rimada, mas sem as virtudes das boas crónicas.


b)   História de Portugal

            A História de Portugal, exposta em discursos (de Vasco da Gama ao rei de Melinde e de Paulo da Gama ao Catual, para a história passada em relação à viagem – 1498) e em profecias (de Júpiter, de Adamastor, da ninfa Sirena e de Tétis, em relação à história futura no que diz respeito à viagem), não tem uma unidade intrínseca.
            Uma parte dessa história é dada em sequência cronológica e consta do discurso de Vasco da Gama ao rei de Melinde. Outra parte é dada em quadros soltos, como são as pinturas (“bandeiras”) que Paulo da Gama explica ao Catual, ou as profecias.
            Também o discurso de Vasco da Gama é constituído por uma sequência de quadros contíguos, os feitos dos diversos reis: a sucessão meramente cronológica nunca pode constituir um verdadeiro conjunto artístico. Esta sensação de descontinuidade é agravada pelo facto de os feitos serem, na maior parte, proezas individuais de guerreiros, faltando um ser colectivo de que os indivíduos sejam formas transitórias (cf. Fernão Lopes, Crónica de D. João I). O “peito ilustre lusitano” é uma abstração incapaz de encarnar as proezas sucessivas dos guerreiros. Há alguns belos momentos (a batalha do Salado, a fala da Formosíssima Maria, a batalha de Aljubarrota, o episódio de Inês de Castro, as sínteses de Tétis), mas são conjuntos soltos, contíguos a outros momentos. Não se vê formar-se uma nação, e a ideia de pátria resulta uma noção abstracta: está nos sentimentos do poeta e não nos factos que narra. Não existe uma ação de conjunto nem heróis, que se encontram reduzidos a puras abstrações. Afonso Henriques, Nuno Alvares Pereira, D. João I, Duarte Pacheco, D. Fuas Roupinho ou Geraldo Sem Pavor não têm caracterização própria, não são personalidades diferenciadas como são, por exemplo, Aquiles e Ulisses. Camões encarece-os com uma adjetivação nobilitante e convencional, mas não as caracteriza. Não são realmente personagens, e muito menos heróis, no sentido épico da palavra. São medalhões convencionais de guerreiros.
            Por outro lado, a sequência das batalhas e dos guerreiros, passados ou futuros, é dada em discursos e obedece às regras da oratória: ora é uma sequência cronológica (Vasco da Gama), ora uma seleção de profecias (Júpiter, no canto II, para consolar Vénus, prevê alguns triunfos; no canto V, Adamastor antecipa alguns casos trágicos como castigo pelo atrevimentos dos portugueses; no canto IX, Tétis profetiza as guerras no Oriente).
            Ora, em certo sentido, a oratória é o contrário da epopeia. Na oratória, só tem vida própria o orador, personagem única, em face do público; na epopeia, pelo contrário, como no romance, o autor despersonaliza-se em benefício das personagens, sendo nestas que reside a vida.
            Desta forma, a narração da História de Portugal e dos feitos dos portugueses é caracterizada pela ausência de uma ação de conjunto; são quadros que se sucedem cronologicamente, mas que não revelam uma ideia de conjunto.

            O plano da História de Portugal que a obra apresenta é o seguinte:
*       Em Melinde, Vasco da Gama narra ao rei os acontecimentos de toda a nossa história, desde Viriato ao reinado de D. Manuel I;
*       Em Calecute, Paulo da Gama apresenta ao Catual episódios e personagens representados nas bandeiras;
*       A história posterior à viagem é narrada através de profecias:
§  Júpiter profetiza “feitos ilustres” no Oriente e vitórias tão retumbantes que causarão inveja a Marte (II, 44-45);
§  o sonho profético de D. Manuel: dois velhos (rios Indo e Ganges) vaticinam a chegada à Índia por mar no seu reinado (IV, 66-75);
§  Adamastor profetiza “ventos e tormentas desmedidas”, “naufrágios e perdições” para a gente que profanou o seu mar. Refere-se a D. Francisco de Almeida, por exemplo (V, 42-48);
§  a ninfa Sirena descreve as glórias futuras dos portugueses no Oriente (X, 10-74);
§  Tétis aponta os lugares onde os portugueses hão de realizar grandes feitos e atingir a imortalidade.


c)   Mitologia / Maravilhoso

            Formalmente, a unidade de Os Lusíadas é estabelecida pela intriga dos deuses, visto que estes estão em cena desde o princípio até ao fim da obra (excepto na introdução e na conclusão): abre com o Consílio dos Deuses e termina com a Ilha dos Amores. As personagens mitológicas têm uma vida que falta às personagens históricas: são aquelas os verdadeiros seres humanos, que sentem, se apaixonam, intrigam. Vasco da Gama é muito mais hirto e frio que o Adamastor, não obstante este ser um cabo. E ninguém tem a presença, a força, a personalidade provocante de Vénus.
            A ação consiste no seguinte: Vénus, auxiliada por Marte, seu amante, pretende ajudar os portugueses a chegarem à Índia; Baco, que entende que o Oriente é domínio seu, opõe-se-lhe, provocando a animosidade dos povos costeiros, convencendo ainda os deuses marítimos a desencadearem uma tempestade e, finalmente, induzindo os mouros a atacarem Vasco da Gama. Mas Vénus, vigilante, intervém junto de Júpiter, mobiliza as ninfas do mar, que impelem as naus para fora do perigo, e, seduzindo os deuses do mar, consegue aplacar a tempestade. Finalmente, para premiar os portugueses, prepara-lhes, com a ajuda de seu filho Cupido, uma ilha de delícias, onde eles, conubiando-se com as ninfas, se tornam divinos e são admitidos à visão do cosmos com Vasco da Gama à frente, ele próprio tornando-se esposo da deusa do mar.
            Assim, é na intriga dos deuses que radica a verdadeira ação com princípio, meio e fim.
            Através da mitologia, Camões exprime algumas tendências do Renascimento:
*       a vitória dos homens sobre os deuses, que personificam os limites impostos pela tradição à iniciativa humana;
*       a confiança na capacidade humana para dominar a natureza;
*       a concepção da natureza como ser vivo;
*       a afirmação (virtual) de Deus como imanência;
*       a crença na bondade da natureza;
*       a identificação da lei da razão com a lei da liberdade;
*       a destruição da noção de pecado.

            N’ Os Lusíadas, existem vários tipos de mitologia:
§  pagã: os deuses pagãos greco-romanos;
§  cristã: Deus;
§  mista: coexistência das duas anteriores;
§  céltica/mágica: fadas, bruxas, feiticeiras.


d)   Considerações pessoais

            Este plano é aquele em que Camões tece comentários, muitas vezes satíricos, sobre matérias diversas, normalmente no início e fim dos cantos:
*       a fragilidade da vida humana face aos perigos do mar e da terra (I, 105-106);
*       o desprezo a que os portugueses votaram as Artes e as Letras (V, 91-100);
*       o valor da glória e das honras por mérito próprio (VI, 95-99);
*       crítica aos povos que não seguem o exemplo português (VII, 2-14);
*       a ingratidão de que se sente vítima por parte da sociedade (VII, 78-87);
*       lamento face à importância dada ao dinheiro, fonte de corrupção e traição (VII, 96-99);
*       os modos de atingir a imortalidade, condenando a cobiça, a ambição e a tirania (IX, 92-95);
*       a decadência da pátria (X, 145);
*       a invectiva a D. Sebastião a tomar medidas no sentido de corrigir e repor o país na senda do êxito (X, 146-156).



3.ª) Conclusão (X, 145-146), que se divide em duas partes:

F desencanto perante a musa pelo presente da pátria, pela inutilidade do seu canto, face à indiferença de um povo “surdo e endurecido”;

F exortação e apelo a D. Sebastião para que regenere a pátria, concluindo com o oferecimento para contar os feitos que o rei venha a praticar em África.

Estrutura externa de 'Os Lusíadas'

Ø  dez cantos;
Ø  1102 estrofes (média de 110 por canto);
Ø  metro: versos decassílabos heroicos (a maior parte) e sáficos;
Ø  rima cruzada (seis versos iniciais) e emparelhada (dois últimos), segundo o esquema abababcc.

Elementos do género épico

            Segundo Aristóteles, na obra Poética, de que restam apenas os fragmentos que estudam e comparam a tragédia e a epopeia, esta deve caracterizar-se por ter:

§    uma ação épica expressiva de grandeza e heroísmo de forma solene;

§    um protagonista (rei, grande dignitário, herói) que, além da sua alta estirpe social, devia revelar grande valor moral;

§    unidade de ação (Homero não narra, na Ilíada, somente a Guerra de Tróia, mas um grande numero de outros factos passados);

§    os episódios: enriquecem a obra, sem quebrar a unidade de ação;

§    o maravilhoso;

§    a utilização do modo narrativo pelo poeta em seu próprio nome ou assumindo personalidades diversas;

§    a reduzida intervenção do poeta: depois da Proposição e da Invocação, Homero logo fez agir as personagens, quando a ação estava já numa fase adiantada, permitindo este processo posteriores analepses e prolepses.


Aplicando a norma aristotélica a Os Lusíadas, constatamos a presença dos seguintes elementos:

a)      Ação: a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, como acontecimento culminante da História de Portugal até à data da composição da obra e definidor do perfil do herói, o povo português.
            Havia determinadas qualidades que a ação de uma epopeia devia reunir: a unidade, a variedade, a verdade e a integridade.

1)      Unidade: todas as partes ou séries de acontecimentos devem constituir um todo harmonioso.

2)      Variedade: é conseguida através da inserção de episódios (pequenas ações reais ou imaginárias), cuja função é embelezar a ação e quebrar a monotonia de uma narração continuada, mas sem prejudicar a unidade, por meio do estabelecimento de uma relação com o acontecimento ou a figura de que a ação se ocupa em cada momento.
           São variados os tipos de episódios que encontramos n’ Os Lusíadas:
Ø       mitológicos:
§      Consílio dos Deuses no Olimpo (I, 20-41);
§      Consílio dos Deuses Marinhos;
Ø       bélicos:
§      Batalha de Ourique (III, 42-54);
§      Batalha do Salado (III, 107-117);
§      Batalha de Aljubarrota (IV, 28-44);
Ø       líricos:
§      Formosíssima Maria (III, 102-1-6);
§      Morte de Inês de Castro (III, 118-135);
§      Despedida do Restelo (IV, 89-93);
Ø       naturalistas:
§      Descoberta do Cruzeiro do Sul (V, 14);
§      Fogo de Santelmo (V, 18, vv. 1-4);
§      Tromba Marítima (V, 16, 2.ª parte – 22);
§      Escorbuto (V, 81-83);
§      Tempestade (VI, 70-91);
Ø       simbólicos:
§      Sonho Profético de D. Manuel (IV, 67-75);
§      Velho do Restelo (IV, 94-104);
§      Adamastor (V, 37-60);
§      Ilha dos Amores (IX, 51-92 e X, 1-143);
Ø       humorístico: Fernão Veloso (V, 30-36);
Ø       cavalheiresco: Doze de Inglaterra (VI, 43-69).

3)      Verdade: tratamento de um assunto real ou, pelo menos, verosímil.

4)      Integridade: estruturação de uma narrativa com princípio, meio e fim (introdução, desenvolvimento e conclusão).


b)      Personagem: o herói da ação é o povo português, um herói colectivo, simbolicamente representado por Vasco da Gama, herói individual.


c)      Maravilhoso: intervenção de entidades sobrenaturais na ação, umas favorecendo (Júpiter, Vénus, Marte), outras dificultando (Baco).
            Há vários tipos de maravilhoso n’ Os Lusíadas:
Ø       maravilhoso pagão: a intervenção de numerosas divindades da mitologia pagã;
Ø       maravilhoso cristão: o recurso ao Deus dos cristãos, a “Divina Guarda”;
Ø       maravilhoso misto: a intervenção próxima (no mesmo episódio) de Deus e dos deuses pagãos;
Ø       maravilhoso céltico: a intervenção de fadas, bruxas, feiticeiras.


d)      Forma:
F      narrativa em verso;
F      dez cantos;
F      estrofes: oitavas (média de 110 por estrofe);
F      metro: versos decassílabos, geralmente heroicos;
F      rima cruzada (seis primeiros versos) e emparelhada (dois últimos), segundo o esquema abababcc.


ELEMENTOS
CONCRETIZAÇÃO
N’ OS LUSÍADAS
CARACTERÍSTICAS

. A ação: acontecimentos representados ao longo da obra.


. Viagem de Vasco da Gama, acontecimento culminante da História de Portugal.

. Unidade: ligação entre as diversas partes.
. Variedade: inserção de episódios para quebrar a monotonia e embelezar a ação.
. Verdade: assunto real ou, pelo menos, verosímil.
. Integridade: criação de uma intriga com princípio, e fim.

. A personagem: os agentes ou heróis da ação.


. Vasco da Gama.

. O Povo Português (“o peito ilustre lusitano”).

. Camões?

. E os deuses, mais homens que deuses?


. Individual e principal, com uma dimensão simbólica um povo de marinheiros.

. Herói colectivo, fundamental numa epopeia.

. Herói individual (ou colectivo, porque representativo do homem do Renascimento, completo, soldado e escritor, guerreiro e Velho do Restelo?).

. Não são meros símbolos, têm paixões humanas, identificam o êxito e o fracasso, a vitória e a derrota (Vénus Baco).


. O maravilhoso: intervenção de seres sobrenaturais na ação.


. Júpiter, Vénus, Marte, etc.

. Deus (a Divina Providência cristã).

. Pagão: deuses pagãos.

. Cristão: Deus do cristianismo.

. Misto: mistura dos dois anteriores.

. Céltico: magia, feitiçaria.


. A forma.



. Dez cantos.
. Narrativa em versos decassílabos, geralmente heroicos, agrupados em oitavas.
. Rima cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos.
. Esquema rimático: abababcc.


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