quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Caracterização / retrato de Inês Pereira


(A) Inês Pereira: rapariga ambiciosa e sonhadora


1. Externa:
. o travesseiro para costurar;
. a touca;
. os véus.

2. Retrato social: Inês é uma jovem pertencente à pequena burguesia.

3. Linguagem:
. trocista;
. crítica;
. revoltada;
. irónica;
. mordaz.

4. Psicológica:

1. Solteira:
. é ociosa e preguiçosa (“finge que está lavrando”), detesta a costura e despreza a vida rústica do campo;
. o seu quotidiano é monótono e entediante: costura, borda e fia;
. vive descontente, revoltada e insatisfeita com a sua vida: aborrecida e enfadada com as tarefas domésticas; presa, fechada e confinada à casa; impossibilitada de se divertir como as jovens da sua idade e sem liberdade;
. é alegre, quer sair de casa e divertir-se, mas é contrariada pela mãe;
. é ambiciosa, sonhadora e idealista, anseia casar-se com um homem que, ainda que pobre, seja “avisado” (isto é, discreto), sensato, meigo e saiba cantar e tocar viola (características do homem de corte), para fugir à vida que tem, viver alegre e livre e ascender socialmente;
. julga que, sendo “aguçosa” (delicada), não lhe será difícil arranjar marido e casar;
. a carta que Pêro Marques envia não lhe agrada; considera-o um “vilão” disparatado e simplório;
. insensível e cruel, troça e desdenha de Pêro Marques quando este a visita e rejeita-o, por o considerar rústico, simplório, um “vilãozinho” que não corresponde ao seu modelo de marido;
. leviana e pretensiosa, por considerar que Pêro Marques é antiquado por não se aproveitar do facto de estar sozinho com ela
. segundo a sua conceção, o casamento faz-se por amor e é sinónimo de libertação (do “cativeiro” da vida de solteira e da sujeição à mãe), daí que deseje um homem sensato, meigo e com dotes musicais; os bens materiais não são necessários.

2. Casada e viúva:
. casa com Brás da Mata, o Escudeiro (homem que parece corresponder às suas exigências e constituir o meio de emancipação e de ascensão social), sem saber que ele é pobre e interesseiro;
. fica a viver em casa da mãe, que se retira para viver num casebre;
. é infeliz, pois o marido não a deixa cantar e prende-a em casa:
- reclusão em casa;
- falta de contacto com o exterior e com outras pessoas;
- absoluta submissão aos ditames do marido;
- entrega ao trabalho;
. fica sozinha, vigiada pelo Moço, quando o seu marido vai para Marrocos lutar contra os mouros, o que revela o seu estatuto social desfavorecido;
. mostra-se revoltada com a sua situação e conclui que foi imprudente na escolha do marido, arrependendo-se por não ter optado por um pretendente mais dócil;
. reconhece, num momento de autocrítica, que errou ao rejeitar Pêro Marques e ao casar-se com o Escudeiro;
. deseja a morte do marido e jura que se casará uma segunda vez com um marido que seja submisso, para gozar a vida e se vingar das provações sofridas enquanto foi casada com Brás da Mata;
. não se comove com a morte do marido, pelo contrário, sente-se alegre e livre;
. é hipócrita, fingida e dissimulada (quando é visitado por Lianor) ao chorar pelo marido morto e ao dizer que está triste, simulando dor e luto;
. reconhece que a experiência de vida ensina mais do que os mestres (o saber livresco, teórico: “Sobre quantos mestres são / experiência dá lição”): o casamento com o Escudeiro ensinou-lhe o engano dos seus ideais;
. o casamento com o Escudeiro altera o seu conceito de “libertação”:
- inicialmente: sinónimo de casamento com um homem da corte, discreto;
- após o casamento: consciência de que o matrimónio pode ser sinónimo de cativeiro e subjugação;
- após a notícia da morte do Escudeiro: opção por um “muito manso marido” como forma de emancipação / libertação.

3. Casada em segundas núpcias:
. materialista, pragmática e calculista, decide casar-se com Pêro Marques (pois este é abastado e ingénuo e tem consciência de que se lhe imporá e ultrapassará, com este casamento, as limitações da sua condição de mulher);
. casada com Pêro Marques, ganha a autonomia que sempre desejou, a ascendência sobre o marido e a liberdade que lhe permite ter um amante, num contraste claro com o encerramento em casa e a opressão de que era vítima às mãos do Escudeiro);
. canta e, livre, sai de casa com o consentimento do marido;
. tem o hábito de dar esmola ao Ermitão de Cupido;
. inicialmente, não reconhece o Ermitão como um apaixonado do seu passado, mas acaba por cometer adultério com ele;
. abusa da ingenuidade do segundo marido e pede-lhe para a acompanhar à ermida, para um encontro amoroso com o Ermitão;
. adúltera, trai o marido com o Ermitão (“Corregê vós esses véus / e ponde-vos em feição.” – Inês vem descomposta porque teve um encontro com o religioso).

            Inês participa simultaneamente da natureza de personagem plana (tipo de rapariga fantasiosa e leviana) e modelada (carácter).
            Podemos considerar que a sua caracterização contempla três fases:
. enquanto solteira é alegre, amiga de viver à sua vontade, mas preguiçosa, pensando somente em casar e contentando-se com um marido “pobre e pelado” e que saiba “tanger viola”, cantar e falar bem;
. após ter recusado Pêro Marques, que insulta com nomes bastante ofensivos, casa com o Escudeiro, mas a sua vida modifica-se para pior, passando a viver como uma reclusa;
. quando o marido morre em Arzila, fica de novo livre, desta feita para casar com Pêro Marques, o “asno” que a leva. A Inês da parte final demonstra, por um lado, ter evoluído em relação ao início, sendo mais materialista, pragmática e calculista (abandonou a fantasia e aprendeu a lição da experiência); por outro lado, quando decide visitar o Ermitão, seu antigo pretendente, deparamos com a mesma Inês leviana e pouco consciente.


Papel / relevo nas personagens de 'Farsa de Inês Pereira'


. Principais: Inês Pereira, Pêro Marques e Escudeiro.

. Secundárias: Mãe, Lianor Vaz, Judeus casamenteiros (Latão e Vidal), Moço e Ermitão.

. Ainda que se possa apresentar Inês como a protagonista da peça, é possível considerar também Pêro Marques e o Escudeiro como personagens principais, pois ambos são indispensáveis à concretização do provérbio que esteve na génese da farsa e, por outro lado, é o seu desempenho que condiciona a evolução da jovem.

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