quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Poetas-paranoicos

     Alguns rapazes, com muita mocidade e muito bom humor, publicaram, há dias, uma revista literária em Lisboa. Essa revista tinha apenas de notável a extravagância e a incoerência de algumas, senão de todas as suas composições. Como a recebeu a imprensa diária? Com o silêncio que merecia? Com as duas linhas indulgentes e discretas que é de uso consagrar às singularidades literárias de todos os moços? Não. A imprensa recebeu essa revista com artigos de duas colunas, - na primeira página. A imprensa fez a essa revista um tão extraordinário reclame, que a primeira edição esgotou-se e já se está a imprimir a segunda. Ora semelhante atitude está longe de ser inofensiva ou indiferente. Em primeiro lugar, consagra uma injustiça fundamental; em segundo lugar, favorece e prepara uma seleção invertida. Eu bem sei que o reclame a certas obras é às vezes feito à custa da veemente suspeita de alienação mental que pesa sobre os seus autores. Mas n'este caso, como em outros muitos, é justo confessar que os loucos não são precisamente os poetas, mais ou menos extravagantes, que querem ser lidos, discutidos e comprados; quem não tem juízo, é quem os lê, quem os discute e e quem os compra.


Dantas, Júlio, "Poetas-paranoicos", in Ilustração Portuguesa

"Orpheu" e o Primeiro Modernismo

     O primeiro número de Orpheu, publicado em fins de março de 1915, foi largamente noticiado na imprensa, servindo de saboroso tema aos humoristas e sendo alvo das troças do senso comum. "Maluqueira literária", "Os poetas do Orpheu e os alienistas" e "Orpheu dos Infernos" eram títulos que encabeçavam os artigos - dezenas delas - publicados na capital e na província. "Somos o assunto do dia em Lisboa", escreveu Pessoa ao amigo e colaborador Cortes-Rodrigues, então nos Açores, donde era originário. "O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente - mesmo extraliterária - fala no Orpheu." Deste modo, a revista, comprada para ler ou para escarnecer, esgotou a sua tiragem de 450 exemplares.
     O segundo número saiu três meses depois, de acordo com o plano editorial anunciado, agora com Pessoa e Sá-Carneiro como codiretores. Não houve uma cisão entre ele e Montalvão, que colaborou no novo número com um poema, Narciso, dedicado a Pessoa, mas queriam garantir a orientação "intersecionista" da revista tão longamente planeada. A tiragem subiu para 600 e esgotou de novo, pois a imprensa voltou a destacar, chistosamente, os doidos "paúlicos", que facilitaram o trabalho aos jornalistas fornecendo-lhes provas da sua maluquice literária e até extraliterária. Com efeito, o número dois abria com poemas inéditos de Ângelo de Lima (1872 - 1921), então internado em Rilhafoles, onde viria a morrer seis anos mais tarde. (...)
     O Orpheu 2, à semelhança do número de estreia, contou com uma colaboração brasileira, de outro amigo de Montalvor. Em vez de uma ilustração na capa (a do primeiro número tinha um desenho de José Pacheco), optaram por inserir quatro hors-textes com "trabalhos futuristas" de Santa-Rita. Entre os restantes colaboradores do Orpheu incluíam-se, no primeiro número, Alfredo Guimarães e Almada Negreiros e, nos dois números, Cortes-Rodrigues e Sá-Carneiro. Mais de um terço de cada número era preenchido por obras - obras-primas, aliás - de Pessoa: O marinheiro, os seis poemas "intersecionistas" da Chuva Oblíqua, Opiário, Ode Triunfal e Ode Marítima. As três últimas foram assinadas por Álvaro de Campos, o heterónimo mais exuberante de Pessoa e o primeiro a ser revelado publicamente.
     (...)
     Pessoa, entretanto, procurava levar o projeto de Orpheu por diante. Em setembro de 1916, anuncia numa carta a Cortes-Rodrigues que Orpheu 3 "deve sair por fins do mês presente", com colaborações que incluem "dois poemas ingleses meus, muito indecentes", versos de Pessanha, poemas inéditos de Sá-Carneiro, A cena do Ódio de Almada Negreiros e quatro hors-textes "do mais célebre pintor avançado português - Amadeu de Souza-Cardoso". A revista não sai nem naquele mês nem nos meses seguintes, mas em julho de 1917, e com um conteúdo algo diferente, Orpheu 3 fica quase totalmente composto numa tipografia, faltando-lhe apenas a colaboração de Álvaro de Campos. O projeto entrará então, misteriosamente, numa dormência prolongada.

Richard Zenith, Fotobiografias Século XX, Fernando Pessoa

«Moon River», Andy Williams


1927 - 2012

Novas tendências artísticas modernistas

     Um grupo de poetas  e literatos com afinidades muito especiais começou a definir-se em 1912: Pessoa, Mário de Sá-Carneiro (1890 - 1916), Luís da Silva Ramos (1891 - 1947) (condiscípulo de Sá-Carneiro no liceu e posteriormente conhecido como Luís de Montalvor), Armando Cortes-Rodrigues (1891 - 1971) e António Cobeira (1892 - 1959) (colegas do curso de Letras depois de Pessoa o ter abandonado), Alfredo Pedro Guisado (1891 - 1975) (filho do proprietário do restaurante Irmãos Unidos, um dos sítios onde os jovens se juntavam), Mário Beirão (1890 - 1965) e o ainda muito jovem António Ferro (1895 - 1956). Não é que formassem uma tertúlia propriamente dita, mas sentiam - no meio dos muitos outros habitués dos cafés - uma afinidade de gostos e um comum desejo de renovar e internacionalizar as letras portuguesas, a começar pelas suas próprias produções literárias.
     A Águia, revista saudosista ligada ao grupo Renascença Portuguesa, representava, para os jovens o que de mais novo e interessante havia em Portugal. Pessoa, porém, depressa superou a estética da "nova poesia portuguesa", tão longamente analisada e elogiada nos artigos por si publicados em A Águia, nos quais citava versos de Teixeira de Pascoaes e Beirão como modelos de "subtileza e complexidade ideativas" graças à sua maneira analítica de "desdobrar uma sensação em outras" e à sua feição espiritual de "encontrar em tudo um além".
     (...)
     [Pessoa] Chegou a definir o paulismo como "o culto da artificialidade", e preteriu-o em favor do "intersecionismo", que pretendia ser mais construtivista, uma espécie de cubismo aplicado à literatura - se bem que Pessoa, nas suas teorizações, imaginasse o novo "ismo" aplicado a todas as artes. À semelhança do movimento seu precursor, o intersecionismo (escreveu ele numa carta assinada por Álvaro de Campos em 4 de junho de 1915 e dirigida ao Diário de Notícias, embora provavelmente não enviada) caracterizava-se por uma "subjetividade excessiva" e um "exagero da atitude estática", mas procurava ser mais incisivo, justapondo, de forma bem nítida, diversos planos ou dimensões em simultâneo.
     Empenhados nestes esforços de inovação, Pessoa e os seus discípulos - pois ele, embora reservado por natureza, era o mestre incontestável que guiava os outros - estavam sozinhos, sem terem onde se inserir no meio literário português. Tornava-se urgente criar uma revista que lhe desse voz. A ideia nasceu, inevitavelmente, de um projeto de Pessoa. No início de 1913, ou talvez ainda em 1912, Pessoa elaborou planos para uma revista mensal intitulada Lusitânia, que se debruçaria principalmente sobre os problemas políticos que a jovem república enfrentava e o lugar por ela ocupado na cena internacional.
     (...)
     Se Pessoa, sem sair de Lisboa, se conseguia manter a par das últimas tendências nas artes e letras, e em particular das correntes vanguardistas, era em parte graças às viagens de alguns camaradas desse grupo. Em outubro de 1912, Sá-Carneiro fora para Paris, dando início a uma animada correspondência literária com Pessoa, e no final do mesmo ano Montalvor partiu para o Rio de Janeiro, a fim de trabalhar como secretário de Bernardino Machado, nomeado embaixador de Portugal.
     Em Paris, Sá-Carneiro convivia com Santa-Rita Pintor (1889 - 1918), um jovem artista português cheio de ideias e audácia mas de valor artístico controverso (a seu pedido, a família destruiu toda a sua obra quando morreu, em 1918). Em todo o caso, Santa-Rita conseguira impor-se ao ponto de Marinetti, que então vivia na capital francesa, o ter autorizado a traduzir e publicar manifestos futuristas em Portugal. Sá-Carneiro regressa a Lisboa em junho de 1913, volta para Paris um ano depois e regressa novamente no outono de 1914, altura em que a guerra também trouxe de volta Santa-Rita e o seu amigo Raul Leal, que, como ele, conhecera os futuristas. Os três estavam muito ao corrente das novidades artísticas (Picasso, o cubismo) e literárias (Max Jacob, Apollinaire) que se refletiam no modernismo português.

Richard Zenith, Fotobiografias Século XX, Fernando Pessoa

"Orpheu"

     Por diferentes que sejam entre si, as vozes poéticas do grupo Orpheu identificam-se por uma série de fatores comuns: a fragmentação ou multiplicação do Eu; a transgressão dos tabus éticos; a nova consciência do mundo provocada pela velocidade / poder da Máquina; o poder criador da Palavra, como concretizadora da Vida vivida; a recusa do código linguístico convencional e a descoberta da criação literária, como a grande aventura da Vida; a busca de uma obra poética que, a par de seu valor estético, apresentasse uma conceção filosófica do Ser, e fosse ela mesma um ato, um elemento criador da vida autêntica; a consciência heraclitiana de que a realidade não é um ser, mas um devir; não é um estado durativo e persistente, mas um ocorrer; e ligada a isso está a busca da «portucalidade», da essência da raça portuguesa; o repúdio pelas ideias feitas, pelo convencional, daí, nessa produção órfica, a presença constante da Locura, do clima onírico, da incoerência, etc....; a atração pelo Mistério, pelo Exótico, pelo Esteticismo (também como modo de ser, de existir), ou ainda pelos excessos de qualquer natureza; a análise, como processo criativo, e não mais a síntese que fora procurada pela literatura anterior; a predominância da perceção sensorial da realidade (nervos excitados pelas impressões recebidas do mundo exterior) (...).

Nelly Novaes Coelho, Escritores Portugueses do século XX

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Uma leitura do poema "Isto" (II)

     Outra análise do poema «Isto», de Fernando Pessoa: AQUI.

Uma leitura do poema "Isto" (I)

1. O título causa uma certa estranheza no leitor pelo facto de «isto» ser um termo ambíguo (isto, o quê?). «Isto» é um pronome demonstrativo invariável e um deíctico que, neste caso, tem como referente o próprio poema, aqui apresentado pelo sujeito poético como realidade exterior, um «objecto» fabricado pela inteligência e relativamente ao qual o Eu pretende mostrar o distanciamento emocional próprio de um poeta-raciocinador que se orienta pelo intelecto e não pela emotividade.

2. No v.1, o sujeito nulo indeterminado sugere que quem «diz» é a generalidade dos outros poetas, aqueles que consideram o Eu fingidor ou mentiroso pelo facto de defender que a escrita do poema resulta de um acto de fingimento poético. No poema está implícita uma oposição Eu-eles, ou seja, uma oposição entre 2 concepções opostas de poetar: a que assenta na crença no poeta inspirado que se confessa no que escreve (a perspectiva tradicional na época em que o poema foi escrito) e aquela que Pessoa defende e que assenta numa visão do poema como produto do acto de pensar as emoções sentidas e que vê o poema como fruto de um trabalho intelectual.
3. No v. 2, o Eu rejeita categoricamente a acusação de que é alvo e explica, nos versos seguintes da 2ª estrofe, que «sente» com a inteligência, isto é, que analisa, disseca as emoções com a ajuda da inteligência e que não se deixa guiar pela emotividade: «Não uso o coração», v.5. O advérbio «simplesmente», v. 3, sugere que esta actividade intelectual é habitual para o sujeito poético e ainda que é acusado de «fingidor» por incapacidade por parte dos outros poetas em compreender como se deve «construir» um poema; assim, o advérbio «simplesmente» introduz no poema um tom levemente irónico e depreciativo no que respeita aos «outros», ao mesmo tempo que mostra a segurança do Eu no que toca à validade do poema concebido como objecto artístico produzido por um autor que se transforma num ser ficcional (o sujeito poético ou Eu ou sujeito lírico) que finge emoções e consegue impressionar os leitores como se elas fossem verdadeiras ou realmente sentidas no momento em que as expressa.
4. Na 2ª estrofe, o sujeito poético explicita o que afirmou na 1ª: as emoções negativas e positivas encontram-se nos alicerces do poema e delas fazem parte os sonhos e as vivências do poeta («o que sonho ou passo»), os falhanços, as decepções (o que falha) e a consciência da efemeridade de tudo na vida (o que finda). Mas esta matéria emocional e realmente sentida não passa de uma espécie de «terraço/ Sobre outra coisa ainda» (notar a comparação e a metáfora), ou seja, as emoções sentidas são a via de acesso a «outra coisa» que é «linda» e «essa coisa» bela é o poema perfeito que o poeta ambiciona escrever, racionalizando as emoções.
5. A 3ª estrofe coincide com a 2ª parte deste poema e é a conclusão do mesmo, tal como é indiciado pela locução coordenativa conclusiva «por isso». Como é que o poeta faz para aceder à «coisa linda» que deseja? Escreve distanciado das emoções que se encontram arquivadas na memória ou naquilo «que não está ao pé», conseguindo assim libertar-se das perturbações de carácter emocional («livre do meu enleio») e fingindo emoções que não sente («Sério do que não é»). O último verso diz respeito ao leitor e é a este, que tantas vezes se mostra ávido de emoções, que cabe emocionar-se, se quiser: «Sentir? Sinta quem lê!». Assim, não cabe ao poeta emocionar-se no momento da escrita do poema, isso é tarefa do leitor.

Fonte: Atena2010's Blog

"Isto" - Questionário

1. O poema desenvolve o tema da criação poética, já não em termos universais e genéricos como em «Autopsicografia», mas numa perspetiva pessoal.
1.1. Comprove a afirmação.
2. Descreva a acusação feita ao sujeito poético pelos leitores.
2.1. Enuncie a reação do «eu» a essa acusação. Transcreva elementos do texto que justifiquem a sua resposta.
2.2. Explique o sentido dos três últimos versos da primeira estrofe.
2.3. Sintetize as duas conceções de «fingimento» apresentadas na primeira estrofe.
2.4. Comente a expressividade do advérbio «simplesmente» (v. 3).
3. A segunda estrofe assenta numa figura de estilo.
3.1. Nomeie-a.
3.2. Comente a sua expressividade.
3.3. Explique o motivo por que o sujeito poético sente tanta dificuldade na procura que realiza.
3.4. Clarifique a função do terraço.
4. Atente na última estrofe.
4.1. Saliente o valor semântico do marcador discursivo que a introduz.
4.2. Clarifique o sentido dos quatro versos iniciais.
4.3. Interprete o sentido da interrogação que fecha o poema, tendo em conta a globalidade do mesmo.
4.4. Esta estrofe contrapõe a sinceridade artística à sinceridade humana convencionada. Fundamente esta afirmação e apresente exemplos textuais pertinentes.
5. Identifique o tema do texto.
6. Analise o título do poema.
7. Proceda à análise formal da composição.

O Modernismo na literatura portuguesa

     Entende-se aqui por «Modernismo» um movimento estético, em que a literatura surge associada às artes plásticas e é por elas influenciadas, empreendido pela geração de Fernando Pessoa (n. 1888), Mário de Sá-Carneiro (n. 1890) e Almada Negreiros (n. 1893), em uníssono com a arte e a literatura mais avançadas na Europa, sem prejuízo, porém, da sua originalidade nacional. Trata-se, pois, de algo delimitado no tempo, algo sobre que temos já uma perspetiva histórica, embora seja lícito, não só descobrir-lhe precedentes na própria literatura portuguesa (sobretudo na geração de Eça de Queirós, autor das atrevidas Prosas Bárbaras e criador, com Antero, do poeta fictício, baudelairiano, Carlos Fradique Mendes; em Cesário Verde, em Eugénio de Castro, em Camilo Pessanha, em Patrício), mas ainda assinalar os seus prolongamentos até aos nossos dias, a sua ação decisiva na instauração entre nós do que consideramos agora a «modernidade». O modernismo assim definido tem consequências mais profundas do que o simbolismo-decadentismo de 1890, a que os Espanhóis chamam «Modernismo»: implica uma nova conceção da literatura como linguagem, põe em causa as relações tradicionais entre autor e obra, suscita uma exploração mais ampla dos poderes e limites do Homem, no momento em que defronta um mundo em crise, ou a crise de uma imagem congruente do Homem e do mundo.
     Foi por 1913, em Lisboa, que se constitui o núcleo do grupo modernista. Ao invés dos movimentos literários anteriores (Simbolismo, Saudosismo), o Modernismo seria basicamente lisboeta, apenas com algumas adesões de Coimbra (o poeta e ficcionista Albino de Meneses, etc.) e ecos vagos noutros pontos da província. Pessoa e Sá-Carneiro haviam colaborado n'A Águia, órgão do Saudosismo; mas iam agora realizar-se em oposição a este, desejosos como estavam de imprimir ao ambiente literário português o tom europeu, audaz e requintado, que faltava à poesia saudosista. Nesse ano de 1913 escreveu Sá-Carneiro, aplaudido pelo seu amigo F. Pessoa, os poemas de Dispersão; ambos nutriam o sonho de uma revista, significativamente intitulada Europa; F. Pessoa dava início a uma escola efémera compondo o poema «Paúis» (publicado em Renascença, fevereiro de 1914); Pessoa e Almada travavam relações, graças à primeira exposição (de caricaturas) por este efetuada, e criticada por aquele nas colunas d'A Águia (...). Em 1914 os nossos jovens modernistas, estimulados pela aragem de atualidade vinda de Paris com Sá-Carneiro e Santa-Rita Pintor, adepto do Futurismo, faziam seu o projeto que Luís da Silva Ramos (Luís de Montalvor) acabava de trazer do Brasil: o lançamento de uma revista luso-brasileira, Orpheu. Dessa revista saíram com efeito dois números (os únicos publicados) em 1915; incluíam a colaboração de Montalvor, Pessoa, Sá-Carneiro, Almada, Côrtes-Rodrigues, Alfredo Pedro Guisado e Raul Leal; dos brasileiros Ronald de Carvalho (que, regressado ao Brasil, serviria de traço de união entre o Modernismo brasileiro e o português) e Eduardo Guimarães; de Ângelo de Lima, internado no manicómio; de Álvaro de Campos, heterónimo de Pessoa. Feitos, em parte, para irritar o burguês, para escandalizar, estes dois números alcançaram o fim proposto, tornando-se alvo das troças dos jornais; mas a empresa não pôde prosseguir por falta de dinheiro. Em abril de 1916, o suicídio de Sá-Carneiro privou o grupo de um dos seus grandes valores. Entretanto, a geração modernista continuou a manifestar-se, quer em publicações individuais, quer através de outras revistas (...). A revista Presença, aparecida em 1927, não só deu a conhecer e valorizou criticamente as obras dos homens do Orpheu, como lhes herdou o espírito por intermédio de alguns dos presencistas, pertencentes já a uma segunda geração modernista. Nela colaborou Fernando Pessoa. Entretanto, em conjunto, representa um recuo: é um modernismo assagi (1), psicologista, um parcial regresso à eloquência neorromântica (Régio, Torga).


Jacinto do Prado Coelho, Dicionário de Literatura

(1) assagi: ajuizado

O Modernismo

     Numa perspetiva de largo alcance, pode dizer-se que o Modernismo se estende desde finais do século XIX (cerca de 1890, segundo alguns autores) até depois da Segunda Guerra Mundial, mesmo até ao final dos anos 50, quando vão aflorando teorias e práticas culturais classificadas como pós-modernistas; numa perspetiva mais restrita, o Modernismo estende-se das vésperas da Primeira Guerra Mundial até à Segunda Guerra Mundial, sendo que os anos 20 e 30 são o seu tempo mais fecundo. Em Portugal, o aparecimento e a maturação do Modernismo relacionam-se com a relevância cultural assumida por algumas revistas e naturalmente pelos autores que nelas colaboraram; os marcos decisivos da afirmação modernista são constituídos, em 1915, pelos dois números da revista Orpheu (um terceiro, já em provas, acabou por não vir a público). A par desta, outras revistas servem de lugar de manifestação literária e doutrinária do Modernismo português: Centauro e Exílio (1916), Contemporânea (1922-1926) e Athena (1924-1925); entre 1927 e 1940 publica-se a revista Presença, que não só faz ecoar o legado cultural da chamada Geração de Orpheu como, segundo alguns autores, pode ser considerada o órgão cultural de um segundo Modernismo português.
     Se é problemático estabelecer as balizas cronológicas que ficaram sugeridas, [...] um outro aspeto problemático da caraterização genérica do Modernismo tem que ver com a confluência, nesse tempo histórico-cultural, de múltiplos movimentos de uma forma ou de outra envolvidos na dinâmica modernista. Deparamos aqui com uma importante componente da herança finissecular que se prolonga no Modernismo; com efeito, se no final do século XIX se multiplicam os "ismos" - uma multiplicação que é evidência de grande efervescência cultural e, simultaneamente, de uma certa crise ideológica -, no tempo do Modernismo essa tendência chega a assumir contornos de paroxismo ou então de provocação deliberada. O Ultraísmo, o Criacionismo, o Imagismo, o Vorticismo, o Construtivismo, o Expressionismo, o Cubismo e ainda (no contexto do Modernismo português), o Sensacionismo, o Interseccionismo, um incipiente Paulismo, o Neopaganismo e o Futurismo [...] são alguns desses "ismos". Deles ficou, nalguns casos, testemunho notório da vocação inovadora e experimental do Modernismo [...].
     A complexa e diversificada produção cultural que, nos inícios do século XX, se projeta sobre o Modernismo, condicionando indiretamente as suas linguagens artísticas e os seus temas dominantes, envolve outros componentes, nalguns casos de recorte ideológico. Não pode ignorar-se, no contexto dessa produção cultural, a relevância da psicanálise freudiana e da psicologia de William James; se a primeira vem permitir o acesso a instâncias profundas da psique humana, a segunda estabelece e difunde o conceito de corrente de consciência, assim se favorecendo a tematização literária de universos psicológicos extremamente complexos, instáveis e evanescentes, tematização que, no caso específico do romance, permite falar numa verdadeira revolução romanesca.
     Ela verifica-se, contudo, porque, do ponto de vista ideológico, o Modernismo incorpora e potencia valores que estimulam a reinterpretação da pessoa feita personagem, tendo em atenção um estádio civilizacional exteriormente pujante e eufórico, mas atravessado, no seu interior, por tensões e excessos de muito problemática harmonização. Noutros termos, dir-se-á que o tempo histórico-civilizacional do Modernismo é o de uma época de acentuada industrialização e de intenso desenvolvimento das comunicações que anulam distâncias, tudo congraçado num conceito quase obsessivo, traduzido na palavra mágica que na época se impõe: a modernização, semanticamente relacionada com o termoconceito Modernismo.
     Que essa modernização - pela sua desmesura e pela sua desumana intensidade - suscita dúvidas e ansiedades, sabemo-lo, pela via das representações poéticas, pelo menos desde Baudelaire e, entre nós, desde Guilherme de Azevedo, Cesário e Gomes Leal; ou então, nos termos de uma ironia de sabor tipicamente finissecular, desde que Jacinto, n'A Cidade e as Serras, se cansa das maravilhas da Civilização e se refugia nas Serras [...].
     Diretamente correlacionadas com este tempo de convulsões sociais, de conflitos armados, de regimes políticos autoritários, [...] os temas dominantes do Modernismo aprofundam os sentidos nucleares que o constituem. A euforia do moderno é, naturalmente, um desses temas, um moderno que é o de realidades civilizacionais trepidamente novas e pujantes, celebradas à maneira de Walt Whitman; em muitos casos, contudo, essa euforia desliza rapidamente para o tédio, situado, conforme ficou referido, no estádio final de uma evolução que chega a desembocar na dissolução do sujeito ("Não sou nada. / Nunca serei nada", dizem os versos de abertura da "Tabacaria") e no suicídio [...]; o que vem a ser o desenlace patético de um esforço de autoconhecimento, desenvolvido (muitas vezes de uma forma obscura, interiorizada e desligada do social) pelo homem e pela personagem do Modernismo. De um modo geral, o que estes sentidos temáticos denunciam é uma aguda crise do sujeito, projetada em tópicos como a máscara ("Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara", diz Campos na "Tabacaria"), o retrato, o espelho [...] e a procura labiríntica do outro, em si mesmo.


REIS, Carlos, 2008, O Conhecimento da Literatura - Introdução aos Estudos Literários

"Orpheu"

     Revista lançada em 1915, cujos dois únicos números publicados, em abril e julho, marcam o início o modernismo em Portugal. Com direção, no n.º 1, de Fernando Pessoa e do brasileiro Ronald de Carvalho, e, no n.º 2, de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, o escândalo provocado pela publicação de Orpheu deveu-se, entre outros motivos, à apresentação de práticas de escrita e correntes artísticas vanguardistas (paulismo, intersecionismo, simultaneísmo, futurismo, sensacionismo), embora surjam na revista ainda compaginadas com leituras e práticas simbolistas e decadentistas.
     O n.º 1 foi preenchido com a seguinte colaboração: Luís de Montalvor, "Introdução"; Mário de Sá-Carneiro, "Para os Indícios de Oiro" (poemas); Ronald de Carvalho, "Poemas"; Fernando Pessoa, "O Marinheiro" (drama estático); Alfredo Pedro Guisado, "Treze Sonetos"; José de Almada-Negreiros, "Frizos" (prosas); Côrtes-Rodrigues, "Poemas", e Álvaro de Campos, "Opiário" e "Ode Triunfal".
     O número dois recebeu os seguintes autores: Ângelo Lima, "Poemas Inéditos"; Mário de Sá-Carneiro, "Poemas sem Suporte"; Eduardo Guimarães, "Poemas"; Raul Leal, "Atelier" (novela vertígica); Violante de Cisneiros, "Poemas"; Álvaro de Campos, "Ode Martítima"; Luís de Montalvor, "Narciso" (poema); Fernando Pessoa, "Chuva Oblíqua" (poemas intersecionistas); Santa-Rita Pintor, "Quatro Hors de texte duplos".
     Para o projetado número três - cuja publicação esteve prevista para 1916 mas que, por razões financeiras, não foi posto à venda - Orpheu contaria com os seguintes textos: Mário de Sá-Carneiro, "Poemas de Paris"; Albino de Meneses, "Após o Rapto"; Fernando Pessoa, "Gládio" e "Além-Deus" (poemas); Augusto Ferreira Gomes, "Por Esse Crepúsculo a Morte de um Fauno..."; José de Almada-Negreiros, "A Cena do Ódio"; D. Tomás de Almeida, "Olhos"; C. Pacheco, "Para Além doutro Oceano", e Castelo de Morais, "Névoa". Mais tarde, deste número do Orpheu, chegaram ainda a ser publicados poemas de Fernando Pessoa, assim como algumas notas em Inglês. A revista Orpheu foi considerada por Pessoa "a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos".

Fonte: Infopédia

Sobre o aparecimento da revista "Orpheu"

Sobre o aparecimento da revista Orpheu

     Quando falamos sobre a revista Orpheu temos de, julgo eu, dar primeiro que tudo voz àqueles que a fizeram e a sonharam. Por isso perante a pergunta "o que foi a revista Orpheu?" responderemos em primeira linha com partes da introdução de Luiz de Montalvor ao número n.º 1 da mesma: "O que é propriamente revista em sua essencia de vida e quotidiano, deixa-o de ser ORPHEU, para melhor se engalanar do seu titulo e propôr-se. E propondo-se, vincula o direito de em primeiro lugar se desassemelhar de outros meios, maneiras de formas de realisar arte, tendo por notavel nosso volume de Beleza não ser incaracteristico ou fragmentado, como literarias que são essas duas formas de fazer revista ou jornal. (...) Nossa pretenção é formar, em grupo ou ideia, um numero escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este principio aristocratico tenham em ORPHEU o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos."
     Projecto portanto aparentemente pessoal, de poder ser uma montra para o "sentir" e o "conhecer" dos seus autores. Mas também algo em "dessemelhança"; ou seja representativo de uma rutpura com o status quo literário.
     É nas palavras do próprio Pessoa que podemos revelar o processo da génese desta invulgar revista, que revolucionou a literatura Portuguesa no início do século XX: "- O que quer Orpheu? - Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. (...) a verdadeira arte moderna tem de ser desnacionalizada - acumular dentro de si todas as partes do mundo. (...) feita esta fusão espontaneamente, resultará uma arte-todas-as-artes, uma inspiração espontaneamente complexa".
     Mas como apareceu a revista?
     Pessoa responde, com um longo texto que só viu a luz do dia em 1968, pelas mãos do Pessoano Francois Castex e que resumimos de seguida:
     - A ideia da revista foi originalmente de Luis de Montalvor, em princípios de 1915, quando regressou do Brasil. Em Fevereiro, no café Montanha, reunido com Pessoa e Sá-Carneiro, ele lançou a ideia de uma revista trimestral. - O título "Orpheu" veio também de Luis de Montalvor (Orpheu é uma figura mitica que vai ao mundos dos mortos socorrer a sua mulher, sem nunca poder olhar para trás). - A ideia avançou inicialmente pelo entusiasmo dos 3 e das possibilidades económicas de Sá-Carneiro (que recorreu ao pai). - Estaria latente em todos a vontade de "reagir em Leonino contra o ambiente", nas palavras do próprio Pessoa. - Ficaram como directores Luís de Montalvor e um outro poeta brasileiro, Ronald de Carvalho, mas a direcção era realmente compartilhada com Pessoa e Sá-Carneiro, bem como com Alfredo Guisado. - A tríade contactou então Alfredo Guisado e Cortes-Rodrigues para obter originais, bem como Almada Negreiros. Depois Pessoa trabalhou no poema "Opiário", para o incluir também. Aqui Pessoa revela que "Opiário" foi escrito depois da "Ode Triunfal", embora tenha "fingido" a prioridade posteriormente. - Como editor foi o nome de António Ferro - estritamente uma ilegalidade, mas que muito divertiu Pessoa e Sá-Carneiro (que desconhecia que Ferro era ainda menor quando colocou o nome daquele na revista). Outra "mentira" foi a designação da empresa editora: Orpheu ltda. Na realidade não tinha sido constituída nenhuma empresa por quotas Orpheu, e a designação ficou por insistência de Sá-Carneiro, perante as reservas de Pessoa. - Pessoa parece passar a imagem da revista ter uma base de "blague", de brincadeira levada a sério. É bom pensar neste ponto: na realidade era preciso uma coragem de brincalhão para inovar assim, corajosamente, sem pensar nas consequências. - Pessoa não considerava a revista futurista. Futurista - diz ele - nessa altura, do n.º 1, era apenas Santa-Rita Pintor. - Pessoa recusa o epíteto de mestre na revista. Ele diz que tanto ele quanto Sá-Carneiro eram "individualistas absolutos". - A intenção da revista era provavelmente dar voz a uma geração, mas não uma voz clara e inequívoca: aliás é bem claro pelas palavras de Pessoa que tanto ele como Sá-Carneiro tinham uma certa noção de que não iriam ser compreendidos, e por isso insistiam mesmo numa certa opacidade das suas intenções.
     Claro que "Orpheu" acabou por ser decisiva, mesmo só com dois números, precisamente porque não foi entendida. O seu testemunho ficou duradouro. Nas palavras de Pessoa em Novembro de 1935: "Orpheu acabou. Orpheu continua". E o que continuou foi esse rompimento com o passado, romântico e simbolista. "Os de Orpheu" eram o retrato de uma geração nova que se afirmava e que, à boa maneira das novas gerações, recusava com prazer a herança dos seus pais.
     Mas quiçá aparecida noutra altura não tivesse o mesmo peso. A verdade é que em 1915 Pessoa está precisamente no ponto decisivo da sua vida - o dia triunfal tinha acontecido no ano anterior e a sua enorme energia criativa começava a dirigir-se para os seus novos heterónimos. Haveria Orpheu sem Campos? Talvez, mas é porventura Campos o motor da modernidade da revista e do subsequente escândalo que a mesma causou. E depois da ruptura, pouco mais haveria a fazer do que deixar a "fenda" alargar-se a todos os espectros sociais, começando nas artes. Como fenómeno explpsivo, bem se compreende que Orpheu não tenha tido a necessidade de ter mais do que apenas dois números (mesmo com um terceiro planeado mas nunca publicado).
Estava aberto o horizonte para uma nova literatura, uma nova maneira de pensar e agir. Os loucos haviam ocupado o manicómio.

Fonte: Um Fernando Pessoa.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A cigarra e a formiga, Miguel Macedo e Alexandre O'Neill

     Miguel Macedo, atual ministro do governo português, aludiu à fábula da cigarra e da formiga nos seguintes termos: "É nestes tempos difíceis que é preciso ter esta pedagogia: nós não podemos ser um país de muitas cigarras e poucas formigas.".

     Esquecendo o significado metafórico que o ministro lhe quis emprestar em termos de atualidade, esta referência constitui sobretudo uma boa oportunidade para recordar o poema de Alexandre O'Neill (visto que a fábula é por demais conhecida):

Minuciosa formiga

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

«Perda» ou «perca»?

     Estas palavras são parónimas e é comum usá-las indevidamente.
  • Perda: nome que significa «privação de alguém ou de alguma coisa que se possuía»:
                    - Houve perda de liquidez na SAD do Benfica.
                    - O Benfica tem acumulado perdas financeiras.
                    - Sou uma vítima da perda de cabelo.
                    - A Miquelina ficou destroçada com a morte do pai.
  • Perca: flexão do verbo «perder»:
                    - Tu queres que eu perca a paciência?
                    - Não perca a esperança, D. Esperança.

     Deste modo, uma frase como "A Casa dos Segredos é uma perca de tempo" é incorreta. A frase correta é "A Casa dos Segredos é uma perda de tempo".

domingo, 23 de setembro de 2012

Concordância do verbo «SER»

     O verbo copulativo ser apresenta uma concordância especial. Regra geral, respeita o princípio que rege a concordância: concorda com o sujeito em número:
  • O Rui comeu os rebuçados.
     No entanto, há casos em que o verbo «ser» concorda com o predicativo do sujeito. Vejamos as situações em que tal acontece.

     Casos especiais de concordância do verbo SER:

1.º) Quando o verbo vem acompanhado dos advérbios «muito», «pouco», «bastante», «suficiente», etc., significando quantidade, distância, peso, etc., conjuga-se no singular:
  • Dez euros é muito para este par de meias.
  • Cem metros de terrenos é suficiente para construir o galinheiro.
  • Oitenta quilos é um exagero. Estou muito gordo.
  • Trezentos mil euros é um preço exagerado.
  • Duas horas de estudo é suficiente para fazer o teste.
  • Dois dias é pouco tempo para estudar tanta matéria.
  • Cinco quilos de carne é suficiente?
  • Vinte quilos é demasiado para uma criança carregar.
     A concordância no singular, nalguns dos exemplos apresentados, soa estranha, mas acontece normalmente com as expressões que denotam «excesso», «suficiência» ou «insuficiência». O sujeito, embora no plural, conserva a ideia coletiva e o verbo no singular sintoniza-se com essa ideia.

2.º) Quando o sujeito ou o predicativo do sujeito é um pronome pessoal, o verbo concorda com o pronome:
  • Ela é linda!
  • Nós somos feios.
  • Eu sou o presidente da junta.
  • Tu és um palerma.
  • A esperança somos nós.
  • Vocês são atrevidos.
  • O Brasil, senhores, sois vós.

3.º) Quando o sujeito é o pronome interrogativo «que»  ou «quem», o verbo concorda com o predicativo:
  • Quem são aqueles homens?
  • Que são dois anos na vida de uma tartaruga?
  • Que são palavras homónimas?
  • Quem foram os responsáveis por este atentado?
  • Que seriam aqueles pontos brilhantes no céu?

4.º) Com expressões numéricas que indicam período de tempo, hora ou distância, o verbo concorda com  a expressão numérica (predicativo) e torna-se impessoal (= sem sujeito):
  • É uma hora e meia.
  • São cinco horas.
  • São três e um quarto.
  • É um minuto para as seis.
  • De casa à escola, são doze minutos certos.
  • Já são dez para as quinze.
  • Eram perto de dez horas.
     No caso de locução verbal, é o verbo auxiliar que concorda com o predicativo:
  • Devem ser dez horas.

5.º) Relativamente às datas, a concordância opera-se do seguinte modo.

          a) Quando a palavra «dia» está expressa, o verbo fica no singular:
  • Hoje é dia 23 de setembro.
          b) Quando a palavra «dia» não está expressa, a concordância é facultativa:
  • Hoje é 23 de setembro.
  • Hoje são 23 de setembro. 

6.º) Quando o sujeito é um dos pronomes «isto», «isso», «aquilo», «o (que)», «tudo», o verbo concorda com o predicativo:
  • Isso são flores.
  • Isso são lembranças de viagens.
  • Aquilo é uma miséria.
  • O que fica na memória são as coisas marcantes.
  • Os bastidores é o que me toca.
     Nota: O verbo «ser» fica no singular quando o predicativo é formado por dois
                elementos no singular:
  • Tudo o mais é tristeza e amargura.

7.º) Quando o sujeito é «nome de coisa ou objeto (no singular)» e o predicativo do sujeito um «nome no plural», o verbo concorda, preferencialmente, com o predicativo:
  • A vida [coisa] não são rosas.
  • A cama [coisa] do meu avô eram umas palhas.
  • O seu segredo [coisa] são essas pernas deslumbrantes.
  • Divertimento é coisa que não falta aqui.
  • Dois metros de tecido é suficiente para fazer a toalha.
Nota: Se o sujeito ou o predicativo forem um nome próprio, o nome de uma pessoa 
           ou uma pessoa, o verbo concorda com a pessoa:
  • Ricardo era só problemas.
  • O homem é cinzas.
  • O teu orgulho são os teus cães.
  • Aquele aluno é o encanto dos professores.

8.º) Quando o sujeito ou o predicativo se encontra no singular e outro (sujeito ou predicativo) no plural, o verbo conjuga-se no plural:
  • Os filhos são o meu tesouro.

9.º) Quando o verbo representa definição ou identidade, pode ser conjugado no singular:
  • Pátria é nosso rios e mares, nossos animais, nossa gente.

Académica - Benfica on-line

AUTEDOR

Roubado ao Sorumbático

Da ignorância política e jornalística

Diz lá qualquer coisa que serve
Por Ferreira Fernandes
     POR ESTES dias demo-nos conta do nascimento de uma (enfim, duas) palavra oficial, rapidamente caída no goto de políticos, jornalistas e comentadores, tão nebulosa como devem ser as palavras oficiais mas, esta, com uma cândida confissão. Era tão sem nada para dizer que nem era uma, mas duas: ora modelação,ora modulação, e dizia-se uma delas ao calha. 
     Uma ou outra foi dita por Passos Coelho quando, os acontecimentos obrigando-o a arrepiar caminho, ele afirmou que poderia mudar a sua proposta da TSU. Mas disse ele "modelação"? Isto é, tornear, ajustar... Ou ele disse "modulação"? Isto é, passar o canto ou a harmonia para um tom diferente... 
     A primeira hipótese é verosímil, própria do jogo de cintura de qualquer político; mas a segunda também é, vinda de Passos Coelho, que não destoa ao cantar "chamava-se Nini/vestia de organdi". 
     O uso da palavra inócua não teria interesse, não fosse sindicalistas e políticos, na esteira do primeiro-ministro, passarem a citá-la como crucial. Tão decisiva que uns diziam "modelação" e outros "modulação"... E os jornalistas faziam-lhes eco, ora modelando, ora modulando. 
     Paulo Pinto, professor da Universidade Católica, propôs no blogueJugular uma palavra nova: "mudlar", a síncope do "e" ou do "u" poupando-nos esta vergonha. Esta. Para as outras, nascidas do mesmo vício, fica a mezinha tradicional. De cada vez que falarmos, pôr esta dúvida: de que estamos a falar quando estamos a falar?
«DN» de 23 set 12

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Dois pesos e duas medidas


Jesus ter mulher dá bandeira queimada?

Por Ferreira Fernandes 
     SOU A FAVOR de certos atentados, como os que, por legítima defensa, poderiam (e deveriam) ser feitos contra o homem que fez o tal filme anti-Islão. De que atentados falo? De um encharcado nas trombas do realizador, cristão copta egípcio que, no bem-bom da Califórnia, acirrou cáfilas de exaltados que se aproveitam do menor pretexto para atacar os cristãos coptas egípcios que, esses, vivem no Egito sem proteção da polícia americana. Encharcado pespegado, não vejo mais que violência possa ser justificada neste caso. Até o canalha desse realizador copta tem direito de fazer uma xaropada sobre a pretensa vida sexual do Maomé. Que isso pode ofender muçulmanos? Pode. Mas parte do mundo aprendeu que podem coexistir o direito a sentir-se ofendido e o direito de dizer (filmar, pintar...) mesmo com o risco de poder ofender outros. Não é má ideia. Não fosse assim, ontem, a minha porteira não se teria sentido só perplexa quando ouviu no telejornal que um milenário papiro copta (estes parecem danados para a ofensa, mas foi só coincidência) revelava que "Jesus tinha mulher." Ela ouviu aquilo, ofendeu-se (acreditou toda a vida na pureza sexual de Jesus) mas limitou-se a abanar a cabeça. Não foi para a rua queimar bandeiras e invadir a primeira embaixada. Se a minha porteira conseguiu fazer uma figura decente, julgo que os clérigos muçulmanos que se engasgam com o tal filme também podiam conter-se. E se não puderem, tratem-se. 
DN de 20 Set 12

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O impacto do aumento do n.º de alunos por turma no aproveitamento escolar

     O ministro Nuno Crato aumentou o número de alunos por turma em todos os ciclos do ensino obrigatório, desprezando todos aqueles que criticaram a medida, argumentando que tal iria prejudicar a aprendizagem e o sucesso educativo.
     Usou mesmo um tom displicente ao afirmar que não havia estudos que comprovassem a relação entre o aumento do n.º de alunos por turma e a diminuição do sucesso. Pois bem, há pelo menos um estudo do Ministério da Educação francês, datado de 2006, que comprova o que quem está no terreno tem afirmado até à exaustão: a partir de um momento, cada aluno a mais numa turma diminui o sucesso escolar dos aprendizes.


     Aqui fica o link para o estudo em questão: Les Dossiers - Enseignement scolaire.

domingo, 9 de setembro de 2012

Conformismo / Protesto


          Acho uma moral ruim
          trazer o vulgo enganado:
          mandarem fazer assim
          e eles fazerem assado.

          Sou um dos membros malditos
          dessa falsa sociedade
          que, baseada nos mitos,
          pode roubar à vontade.

          Esses por quem não te interessas
          produzem quanto consomes:
          vivem das tuas promessas
          ganhando o pão que tu comes.

          Não me deem mais desgostos
          porque sei raciocinar...
          Só os burros estão dispostos
          a sofrer sem protestar!

          Esta mascarada enorme
          com que o mundo nos aldraba,
          dura enquanto o povo dorme,
          quando ele acordar, acaba.

                                              António Aleixo

O tuíte de Pedro Passos Coelho

A realidade portuguesa


Burro Justino


     David Justino é um professor universitário e ex-ministro da Educação no XV Governo Constitucional. Durante o exercício do cargo, a população do Poceirão batizou-o de «Burro Justino», uma forma de protesto pela demora do Ministério de Educação da altura em construir uma escola na zona.
     Cansadas de esperar, as populações de Poceirão e Marateca levaram um equídeo, em 6 de novembro de 2004, até à porta da Assembleia da República. O animal participou noutros momentos de protesto, por vezes de mochila às costas, e, ironicamente, foi intentada a sua candidatura ao Parlamento Europeu.
     Ainda que pelos motivos acima sumariamente explicitados, aquelas populações tinham toda a razão no nome de batismo que escolheram para o ex-ministro. De facto, repare-se como o dito, colaborador assíduo no blogue 4T - Quarta República, cometeu mais um dos erros de português pelos quais é conhecido, ao trocar o verbo «ver(-se)» pelo verbo «vir(-se)»: "Sem menosprezar a incompreensão de milhares de professores que se vêm ao fim de muitos anos de exercício de actividade docente...".
     Ainda bem que o aturado exercício da docência tem efeitos tão... agradáveis.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Como me curei de uma deficiência

     «Entre nós, os Jogos Paralímpicos de Londres acontecem sob o mando do pudor, até poucas fotografias se veem. Ora, se um recorde desportivo é sempre admirável, que imagem mais forte pode haver que esse conseguimento alcançado por alguém que tem tudo para não conseguir?
     Em 2004, nos JO de Atenas, durante uma corrida de apresentação de paralímpicos, um atleta virou a sua cadeira de rodas em frente da bancada de jornalistas. A cadeira por terra e as pernas deficientes viradas ao céu pareceram-nos demasiado patéticas, desviámos o olhar e nem coragem tivemos de nos encarar uns aos outros. Mas alguém endireitou a cadeira e o atleta continuou a corrida com naturalidade.
     Agora, a cobertura entusiástica dos bons jornais ingleses nos Jogos Paralímpicos de Londres tem-me curado da piedade despropositada. Também Oscar Pistorius, o sul-africano das pernas em lâmina, me ajudou. Há um mês, ele foi o primeiro atleta deficiente a correr nuns Jogos Olímpicos e até chegou às finais de 4x400m. No domingo, nos Jogos Paralímpicos, ele foi vencido nos 200m classe T44 (amputados das pernas, com próteses) pelo brasileiro Alan Fonteles. Só a derrota de Pistorius é uma lição de normalidade: aquele que é uma vedeta entre olímpicos, perde com paralímpico... Depois, houve a reação do sul-africano: acusou, sem razão, o brasileiro de ter corrido com próteses ilegais...
     Pronto, é oficial: os deficientes são normais. Até têm o mau perder dos outros.»

Ferreira Fernandes, in DN (04/09/2012)
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