sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Classificação

          A Mensagem não se presta a uma classificação unívoca; pelo contrário, é possível detectar na obra marcas de diferentes tipologias.

          Desde logo, é possível referenciá-la como uma obra lírica (sobretudo na terceira parte):
               » é um livro de poemas;
               » a forma é fragmentária (ao contrário, por exemplo, de Os Lusíadas);
               » o sujeito lírico evidencia uma atitude introspectiva;
               » o sujeito lírico exprime os seus sentimentos, sonhos, desejos, crenças
                  (relativamente ao presente, ou ao futuro da Pátria);
               » há uma postura de interiorização e de contemplação da alma humana;
               » o simbolismo;
               » a inquietação, a ânsia, o constante interrogar-se («'Screvo meu livro à beira-
                  mágoa»);
               » o presente de sofrimento e mágoa;
               » o tom menor;
               » a visão subjectiva do enunciador.

          Contudo, especialmente na segunda parte, a obra é também de carácter épico:
               » os poemas, juntos, formam um todo integrado;
               » os heróis portugueses do passado possuem um valor simbólico e mitológico;
               » há um apelo à glorificação lusíada no século XX e demais;
               » o heroísmo:
                    . os heróis (os marinheiros que percorreram os mares e se imortalizaram)
                      agem pelo instinto, sem terem a visão do sentido e alcance dos seus actos

                      na marcha dos tempos;
                    . o destaque dado aos antepassados que fundaram o Império;
                    . as Mães que foram «seio vigilante» e «ventre de Império»;
                    . os profetas da nova era (o Quinto Império);
                    . os heróis voluntários que cumprem o seu dever contra o Destino e gozam a
                      recompensa apenas na ideia de o ter cumprido;
                    . o heroísmo surge intimamente ligado à ideia de sacrifício ("Mar Português");
               » o elogio do povo português, desvendador e dominador de mundos, com fome
                  de Absoluto;
               » o tom de exaltação heróica ("O Mostrengo") de um povo, dos seus heróis e feitos;
               » a evocação dos perigos e dos desastres marítimos, da dor e do preço necessários
                  para a arealização dos feitos e a obtenção da glória marítima ("Mar Português");
               » a matéria histórica.

          Por fim, é possível detectar traços em Mensagem que a levam a considerar uma obra mítica:
               » os heróis históricos (Ulisses. Viriato, etc.) são apresentados enquanto mitos;
               » Portugal é a nação eleita por Deus para ser o coração e a sede do Quinto Império;
               » o Sebastianismo - o mito do Encoberto - ligado ao rosacrucianismo;
               » Fernando Pessoa reelaborou mitos seculares portugueses, repensando-os e
                  readaptando-os;
               » o mito do Santo Graal, sendo o nosso Desejado o herói sem mácula do ciclo da
                  Demanda do Santo Graal - Galaaz -, aquele que encontrará, por ser o mais puro dos
                  cavaleiros da corte do rei Artur, o cálice sagrado (o Graal) que contém o sangue de
                  Cristo, sobre o qual se poderá construir a Cidade de Deus (poema "O Desejado);
               » o mito das Ilhas Afortunadas, com fortes conotações arturianas, "terras sem ter
                  lugar, / Onde o Rei mora esperando" - poema "As Ilhas Afortunadas":
                    . de acordo com a tradição céltico-bretã e arturiana, o rei Artur, desaparecido na
                      ilha rodeada de nevoeiro, de onde um dia regressará para cingir a sua coroa
                      usurpada;
                    . de acordo com a tradição judaico-messiânica, o Redentor / Messias Salvador virá,
                      de acordo com as profecias, para salvar o seu povo;
                    . segundo a tradição cristã-cavaleiresca e templária, o paradigma de Cristo
                      ressuscitando para salvar a humanidade, o Rei-Cavaleiro, ungido de Deus,
                      voltará para reconduzir a nação transviada ao caminho da grandeza e da glória;
               » o mito das Idades, do ciclo, que apresenta a história da pátria como o mito de um
                  nascimento, vida e morte de um mundo, morte que será seguida de um reanscimento
                  - estrutura tripartida de Mensagem.

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