domingo, 22 de outubro de 2084

Professor

     "Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais." 

Rubem Alves

sábado, 20 de junho de 2020

'Os Lusíadas': Canto V: estâncias 92 a 100


. Análise estância a estância

. Estância 92

. É agradável (“doce”) ouvir os elogios dos outros quando os nossos feitos são divukgados (“soados” – v. 2).

. Qualquer pessoa de valor (“nobre”) esforça-se por igualar ou superar a glória dos seus antepassados.

. A admiração (“envejas”) dos feitos dos outros/antepassados constitui um estímulo, um incentivo para realizar atos mais sublimes (hipérbole “Fazem mil vezes feitos sublimados.” – v. 6). De facto, o canto, o louvor, incita à realização dos feitos: “Louvor alheio muito o esperta e incita.” (v. 8) – o exemplo origina a ação.

. Estância 93: Heróis da Antiguidade que se dedicaram à poesia ou à cultura.

. Alexandre Magno apreciava os versos melodiosos de Homero (mais do que os próprios feitos de Aquiles).

. Temístocles invejava os monumentos às vitórias do general Milcíades.

. Temístocles gostava de ouvir cantar os feitos de Milcíades.


Apreço dos Antigos pelos seus poetas
e importância dada à cultura
Consequência
Conciliação entre as armas e as letras

. Estância 94

. Vasco da Gama esforça-se por mostrar que a sua viagem à Índia (“que o Céu e a Terra espanta.”) merece mais glória e louvor do que as célebres navegações de Ulisses e Eneias, embora estes tenham sido imortalizados porque Virgílio foi valorizado por um “Herói” (v. 21), Otávio César Augusto.
O Poeta enaltece o Herói clássico pela sua atitude

. Crítica implícita aos portugueses: Camões canta os feitos dos portugueses, tal como Virgílio, e não há um herói que reconheça o seu valor. Quem imortaliza Vasco da Gama e os seus feitos é o Poeta.

. Estâncias 95 e 96

. Em Portugal, há heróis como os clássicos Cipião, César, Alexandre e Augusto, mas…

. Não possuem “aqueles dões / Cuja falta os faz duros e robustos” (vv. 3-4, est. 95): o Poeta censura os guerreiros/heróis portugueses seus contemporâneos, a quem falta cultura e dons artísticos.

. Exemplos de heróis cultos:

1. Otávio, imperador de Roma, no meio das maiores preocupações, escrevia belos versos, tal como o pode provar Fúlvia, a quem aquele dedicou um poema, depois de Marco António a ter abandonado por Glafira.

2. César, fundador do império romano, dedicava-se à escrita e tinha um estilo erudito semelhante à eloquência de Cícero, um célebre orador romano. Em simultâneo, praticava os seus feitos guerreiros, conciliando as letras e as armas: “Vai César sojugando toda França / E as armas não lhe impedem a ciência; / Mas, nua mão a pena e noutra a lança, […]”.

3. A fama de Cipião, chefe de guerra romano, deve-se à sua dedicação à escrita de comédias.

4. Alexandre Magno, o célebre herói da Antiguidade, apreciava tanto Homero que o considerava seu poeta de eleição: “Que sempre se lhe sabe à cabeceira”.


. Estância 97




sexta-feira, 22 de maio de 2020

Episódio de Leonardo

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, nos dois últimos versos desta estância, Camões valoriza, claramente, o conhecimento baseado na experiência. De facto, Camões faz uma descrição bastante elucidativa acerca do prazer experimentado pelos marinheiros e pelas ninfas, porém conclui-a afirmando que “é melhor experimentá-lo que julga-lo”, pois só poderá ter noção exata das emoções e do prazer vividos aquele que passar por tal experiência.


. 5.ª parte (IX, est. 84) – O casamento.
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro e flores abundantes;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.
                A ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos há uma troca formal de palavras e atos parecidos aos de uma cerimónia de casamento: “As mãos alvas lhe davam como esposas; / Com palavras formais e estipulantes / Se prometem eterna companhia” (est. 84, vv. 5-7).
                Atente-se, por outro lado, na simbologia do ouro e do louro. Comecemos pelo primeiro: o ouro, tradicionalmente considerado como o metal mais valioso, o metal perfeito, possui o brilho da luz e é considerado, na Índia, a luz mineral. Por outro lado, contém o caráter ígneo, solar e real, e até divino. Por seu turno, o ouro-luz configura o símbolo do conhecimento e, para os brâmanes, é a imortalidade. De acordo com a tradição grega, evoca o sol e toda a sua simbologia: fecundidade, riqueza, conhecimento, irradiação. Relativamente ao louro/loureiro, está ligado, como todas as plantas que se conservam verdes no inverno, à imortalidade, simbolismo que levou os Romanos a fazer dele o emblema da glória, tanto das armas como do espírito. O loureiro é uma planta consagrada a Apolo e simboliza a imortalidade adquirida pela vitória, daí a sua folhagem servir para coroar os heróis, os génios e os sábios. Simboliza ainda as condições espirituais da vitória, a sabedoria unida ao heroísmo.


. Paráfrase

Leonardo, soldado bem-disposto, manhoso (= com qualidades), cavaleiro e dado a amores, a quem Amor não dera apenas um desgosto, mas sempre o tratara mal, e que já sabia que não era feliz em amores, porém ainda não perdera a esperança de mudar a sua sorte.
Quis o Destino que Leonardo corresse atrás de Efire, exemplo de beleza, que se mostrava mais esquiva que qualquer uma das outras ninfas. Já cansado, enquanto corria, dizia-lhe: “Ó formosura em quem não fica bem a crueldade, já és dona da minha vida e alma, espera também pelo meu corpo.
Todas se cansam de correr, Ninfa pura, rendendo-se à vontade do inimigo, e só tu foges de mim? Quem te disse que era eu? Se to disse a má sorte que sempre me acompanha, não acredites nela, porque eu fui enganado sempre que nela acreditei.
Não canses, que me cansas! Se foges de mim para que eu te não possa tocar, espera por mim, e verás que, mesmo que esperes, eu nunca te alcançarei. Espera, e vamos ver que subtil forma encontra agora a minha pouca sorte para me escapar. E no fim verás “tra la spica e la man qual muro he messo” (entre a espiga e a mão levanta-se sempre um muro, ou seja, quando parece que está +restes a alcançar-se o que se deseja, surge um obstáculo intransponível).
Não fujas! E também não fuja o breve tempo da tua formosura. Só com abrandar o passo, tu poderás conseguir o que nunca conseguiram imperadores e exércitos: vencer a força dura do Destino, que sempre me perseguiu em tudo o que desejei.
Tomas o partido da minha desgraça? É fraqueza dar ajuda ao mais forte contra o mais fraco. Levas contigo o meu coração? Larga-o e correrás mais depressa. Não te sentes carregado pelo peso desta alma que levas enredada nos teus cabelos de ouro? OU, depois de a prenderes, mudaste-lhe o Destino, que passou a pesar menos?
Nesta única esperança de vou seguindo: ou tu não aguentas o peso da minha alma, ou a força da tua beleza lhe mudará a triste e dura estrela. Se mudar, não fujas mais, porque Amor te ferirá, e então serás tu a esperar-me. E, se me esperas, nada mais espero.”
A linda ninfa fugia, já não tanto para se fazer difícil, como a princípio, mas para ir ouvindo o doce canto e os queixumes apaixonados de Leonardo. E, já toda banhada de riso e de alegria, deixa-se cair aos pés do vencedor, que se desfaz em puro amor.
Toda a floresta ressoa de beijos famintos, de mimoso choro, de zangas depressa convertidas e risinhos. O que mais aconteceu naquela manhã e na sesta, é melhor experimentá-lo do que imaginá-lo, mas imagine-o quem o não pode experimentar.
Desta forma, já juntas as ninfas com os navegantes, enfeitam-nos com coroas de flores, louro e de ouro. Dão-se as mãos como esposas, e com palavras formais e estipulantes, prometeram-se eterna companhia na vida e na morte.



. Localização: canto IX.

. Plano narrativo: plano da viagem e da mitologia..

. Narrador: o Poeta – narrador heterodiegético.

. Contextualização do episódio: após o desembarque dos Portugueses na Ilha dos Amores, um dos marinheiros, Leonardo, persegue uma ninfa, que parece ser mais difícil de apanhar do que as restantes.

. Estrutura interna

. 1.ª parte (IX, est. 75-76, vv. 1-5) – Retrato de Leonardo e Efire:
- soldado destemido, alegre e bem disposto (“soldado bem disposto, / Manhoso, cavaleiro e namorado);
- manhoso, “espertalhão”;
- cavaleiro;
- namorado apaixonado, galante, sempre disponível para o amor apesar de nunca ter tido sorte no mesmo / mas com pouca sorte ao amor (por isso habituado a sofrer, mas com esperança de ver mudada a sua má sorte amorosa) (“com amores mal afortunado”);
- namoradeiro, pois procura insistentemente conquistar a ninfa Efire, que simula furtar-se à sua sedução;
- audacioso, valente e corajoso;
- muito persistente e persuasivo.

Note-se como Leonardo reflete o perfil que Camões apresenta de si mesmo na sua lírica: a disponibilidade para o Amor, a má sorte amorosa, a impossibilidade de ser feliz e a capacidade de manuseamento das palavras.
De facto, Leonardo já contara com várias desilusões amorosas ao longo da sua vida, sendo que cada vez que se apaixonava era abandonado pela sua amada, no entanto jamais perde a esperança de um dia ser correspondido. E, de facto, quando a ninfa se lhe rende, Leonardo vê o seu fado de ser infeliz no amor mudar.

         Efire é uma ninfa muito bela e sedutora que capta a atenção de Leonardo, que a persegue, tal como todos os seus companheiros perseguiam as suas enamoradas.

. 2.ª parte (IX, v. 6 est. 76-81) – Discurso de Leonardo.
         Enquanto persegue a ninfa Efire, Leonardo procura argumentos que a convençam a parar a sua fuga:
(1) Todas as outras ninfas se cansam de correr, só ela resiste.
(2) A ninfa foge porque já deve conhecer a sua fama de infeliz no amor.
(3) A má sorte é tanta que, mesmo que a alcance, alguma coisa o impedirá de a tocar.
(4) A ninfa é a única que poderá mudar a sua má sorte no amor.
(5) É fraqueza colocar-se ao lado da sua infelicidade, já que ela lhe roubou o coração; se quiser fugir, deve devolver-lho, pois ele só pode pesar-lhe.
(6) É a esperança de ela mudar a sua má sorte, amando-o também, que o faz correr.

. 3.ª parte (IX, est. 82) – Retrato de Efire:
                Efire é uma das mais belas ninfas (“exemplo de beleza” – est. 76, v. 2; “bela Ninfa” – est. 82, v. 1), de cabelo louro (“fios de oiro reluzente” – metáfora), formosa (“Ó formosura”) e pura (“Ninfa pura” – apóstrofe – est. 77, v. 1).
                A ninfa finge fugir a Leonardo, mas, após longa perseguição, deixa-se cair “aos pés do vencedor / Que todo se desfaz em puro amor”, conseguindo, assim, mudar o “seu fado” de ser infeliz no amor.

. 4.ª parte (IX, est. 83) – Descrição do enlace amoroso.
                Entre as ninfas e os marinheiros portugueses desenrolam-se jogos amorosos: “famintos beijos na floresta”, “mimoso choro que soava”, “afagos tão suaves”, “risinhos alegres”, “Vénus com prazeres inflamava”.
                Por outro lado, a ligação amorosa entre as ninfas e os portugueses apresenta semelhanças com a união conjugal, o casamento. De facto, entre ambos

. 5.ª parte (IX, est. 84):
. Coroação dos marinheiros como heróis, recebendo ouro e louro;
. Celebração da cerimónia de casamento dos marinheiros com as ninfas, representado pelas coroas de flores, louro e ouro, pelas mãos dadas e pelas juras de amor eterno.



quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Tempo e espaço em Admirável Mundo Novo

            Admirável Mundo Novo decorre no ano de 2450 dC, uma data em que a Terra está unida politicamente como o "Estado Mundial". Os controladores que o governam maximizam a felicidade humana usando tecnologia avançada para moldar e controlar a sociedade. As pessoas crescem em garrafas e sofrem uma lavagem cerebral durante o sono na infância. Como resultado, os cidadãos do Estado Mundial são física e psicologicamente condicionados a serem felizes com o seu lugar na sociedade e com o trabalho para que são designados. Todo o cidadão pertence a uma “casta”, variando de Alfas altamente inteligentes e fisicamente fortes a “semi-idiotas” da Épsilon. As pessoas de castas inferiores são produzidas em lotes de mais de cem gémeos idênticos e vivem a vida inteira ao lado de seus duplicados. Todos os cidadãos têm acesso instantâneo a prazeres de todos os tipos. Eles são condicionados e socialmente incentivados a serem sexualmente promíscuos. “Música sintética” e “filmes sensoriais” – filmes com sensações físicas, além de imagens e sons – proporcionam experiências sensoriais imersivas. Sempre que os cidadãos experimentam um sentimento desagradável, são encorajados a tomar soma, uma droga que um escape à emoção negativa.
            A maioria dos eventos do romance ocorre na Inglaterra. Huxley usa marcos familiares ingleses para ajudar os seus leitores a descodificar o futuro que ele imaginou. A Estação Charing Cross, em Londres, tornou-se a "Charing T Tower", porque as cruzes cristãs foram substituídas pelo "T" do carro Modelo T da Ford, enquanto as estações de comboio foram substituídas por torres que lançam foguetes intercontinentais. A outra localização principal do romance é a "Reserva Selvagem" no Novo México. É uma área em que as tecnologias do Estado Mundial não foram introduzidas. Os "selvagens" ainda dão à luz, acreditam em deuses e suportam a dor física e o sofrimento emocional. O povo e os costumes da Reserva Selvagem são modelados vagamente nas tradições dos nativos americanos de Zuñi. O cenário da Reserva permite que o romance compare todas as sociedades históricas – da era neolítica à de Huxley – com a sociedade do Estado Mundial.
            O cenário do Estado Mundial é central para a exploração dos temas de Admirável Mundo Novo. Como a prioridade dos Controladores Mundiais é a felicidade dos seus cidadãos, ninguém no Estado Mundial tem a oportunidade de aprender com o sofrimento ou experimentar a solidão. Arte e religião não existem. O cenário altamente controlado do Estado Mundial estabelece a questão central do romance: qual é o preço da felicidade e valerá a pena pagá-lo? Ao oferecer-nos uma visão do futuro do nosso próprio mundo, Admirável Mundo Novo é capaz de questionar e satirizar os valores da sociedade contemporânea. Por exemplo, o "Processo de Bokanovsky", que duplica os seres humanos, satiriza a produção em massa, levando-a à sua conclusão extrema. Ao mostrar que no Estado Mundial a religião e a arte não têm sentido, o romance põe em dúvida o valor de ambas na nossa própria época.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Antagonista de Admirável Mundo Novo

            O antagonista da obra, quer para Bernard quer para John, é o Estado Mundial, uma civilização cujos únicos objetivos são a estabilidade e a produtividade. Para atingir esses objetivos, os Controladores que governam o Estado Mundial tentam garantir que os seus cidadãos estejam sempre felizes. Bernard e John entram em conflito com ele porque acreditam que a individualidade (Bernard) e o sofrimento (John) são mais valiosos do que a felicidade e o prazer. Bernard tenta ser mais individual, mas no final é seduzido pelo prazer da promiscuidade oferecida pelo Estado Mundial. Quando John tenta abraçar o sofrimento, acaba por participar numa uma orgia. Tanto um como o outro tentam libertar Lenina da lavagem cerebral e do controle social do Estado Mundial, mas nenhum dos dois o consegue. No final do romance, ambos confrontam o Estado Mundial na pessoa de Mustapha Mond, um dos controladores mundiais. Mond mostra-lhes que as suas tentativas de lutar contra o poder do Estado Mundial são totalmente inúteis.

Os protagonistas de Admirável Mundo Novo

            A obra tem dois protagonistas. Desde o início do romance até à visita de Bernard à Reserva, esta personagem é o protagonista, uma figura que é um estranho no Estado Mundial. Fisicamente, é pequeno ("oito centímetros abaixo da altura padrão do Alfa"), o que leva os demais cidadãos a troçarem dele. Porque é um estranho, sente-se único. Isso coloca-o em desacordo com a sociedade do Estado Mundial, onde todos deveriam sentir o mesmo que os restantes. Bernard valoriza sua individualidade e quer sentir-se ainda mais individual: "como se eu fosse mais eu". A busca de autonomia põe em movimento a trama, quando ele decide visitar a Reserva Selvagem. Tudo o que acontece no livro após essa visita é resultado de sua decisão. O resultado mais significativo dessa decisão é que Bernard leva John para o Estado Mundial. A partir daí, a sua história torna-se secundária à de John. Bernard continua a sentir-se um indivíduo, mas deixa de procura uma maior individualidade. A associação ao Selvagem torna-o famoso e popular e começa a ver-se menos como alguém de fora.
Do capítulo 8 até ao final do romance, John é o protagonista da história. Ele constitui o outsider definitivo no Estado Mundial, porque cresceu na Reserva Selvagem, onde nenhuma das tecnologias ou formas de controle social do Estado Mundial foi introduzida. Como não foi condicionado, acredita que o objetivo da vida não é ser feliz, mas buscar a verdade, por isso sente nojo do Estado Mundial, onde tudo está configurado para fazer as pessoas felizes e ninguém pode procurar a verdade. Ele tem uma série de conflitos com o Estado Mundial e os seus valores e fica incomodado quando Helmholtz ri de Shakespeare. Recusa-se a ir às festas de Bernard e fica horrorizado quando Lenina o tenta seduzir. Quando ele descobre que a sua mãe recebeu tanta soma que não tem noção de que está a morrer, John finalmente encaixa-se. Ele deita fora o suprimento de soma dos trabalhadores do hospital, porque, diz, torna os cidadãos do estado "escravos". No final do romance, o controlador Mustapha Mond permite que John viva da maneira que escolher e escolhe procurar a verdade através da autopunição ritual, mas falha a sua busca e cede às tentações do prazer. Depois de participar numa orgia, enforca-se.

Caracterização de Henry Foster

            Henry Foster é um dos muitos amantes de Lenina. Trata-se de um macho Alfa perfeitamente convencional, discutindo casualmente o corpo de Lenina com os seus colegas de trabalho. O seu caso com Lenina e a sua atitude casual a esse respeito enfurecem o ciumento Bernard.

Caracterização de Mustapha Mond

            Mond é um dos dez controladores mundiais, presentemente o Controlador Mundial Residente da Europa Ocidental. Ele já foi um jovem cientista ambicioso que realizou pesquisas ilícitas. Quando o seu trabalho foi descoberto, foi-lhe dada a opção de se exilar ou de treinar para se tornar um Controlador Mundial. Acabou por escolher desistir da ciência e atualmente censura descobertas científicas e exila as pessoas por crenças não-ortodoxas.
            Por outro lado, mantém uma coleção de literatura proibida no seu cofre, incluindo Shakespeare e escritos religiosos. O nome Mond significa "mundo", e Mond é realmente a personagem mais poderoso do mundo deste romance.
            De facto, é o proponente mais poderoso e inteligente do Estado Mundial. No início do romance, é a sua voz que explica a história do Estado Mundial e a filosofia em que se baseia. Mais à frente na obra, é o seu diálogo com John que expõe a diferença fundamental de valores entre a sociedade do Estado Mundial e o tipo de sociedade representada nas peças de Shakespeare.

Mustapha Mond é uma figura paradoxal. Ele lê Shakespeare e a Bíblia e costumava ser um cientista de mente independente, mas também censura novas ideias e controla um estado totalitário. Para Mond, os objetivos finais da humanidade são a estabilidade e a felicidade, em oposição a emoções, relações humanas e expressão individual. Ao combinar um firme compromisso com os valores do Estado Mundial com uma compreensão diferenciada da sua história e função, esta personagem representa um formidável oponente para John, Bernard e Helmholtz.

Caracterização de Fanny Crowne

            Amiga de Lenina Crowne (elas têm o mesmo sobrenome, porque apenas dez mil sobrenomes estão em uso no Estado Mundial), o papel de Fanny é principalmente expressar os valores convencionais da sua casta e sociedade. Especificamente, ela avisa Lenina que deveria ter mais homens na sua vida, porque parece mal concentrar-se no mesmo homem por muito tempo.

Caracterização de Lenina Crowne

            Lenina é uma das trabalhadoras no Centro de Incubação e Condicionamento Central de Londres, na área da vacinação.
Em termos pessoais, ela é o objeto de desejo de várias personagens principais e secundárias, incluindo Bernard Marx e John. O seu comportamento às vezes é intrigantemente heterodoxo, o que a torna atraente para o leitor. Por exemplo, ela desafia as convenções da sua cultura namorando exclusivamente com um homem durante vários meses; é atraída por Bernard – o desajustado – e desenvolve uma paixão violenta por John, o Selvagem. Por fim, os seus valores são os de um cidadão convencional do Estado Mundial: o seu principal meio de se relacionar com outras pessoas é o sexo, e ela é incapaz de compartilhar o descontentamento de Bernard ou de compreender o sistema alternativo de valores de John.

Caracterização de Popé

            Popé era amante de Linda na Reserva Selvagem do Novo México. Ele deu-lhe uma cópia das Obras Completas de Shakespeare. Por outro lado, é objeto dos ciúmes edipianos de John.

Caracterização de Linda


            Linda é uma cidadã beta e mãe de John, que foi gerado durante uma visita à Reserva Selvagem e cujo pai é o Diretor.
De facto, durante uma tempestade, Linda perdeu-se, sofreu um ferimento na cabeça e foi deixada para trás. Um grupo de índios encontrou-a e levou-a para a sua aldeia. Grávida, não conseguiu abortar na Reserva e tinha com vergonha de voltar para o Estado Mundial com um bebé. A sua promiscuidade condicionada pelo Estado Mundial (o ato de dormir com vários homens) torna-a uma pária social na aldeia. Ela está desesperada para retornar ao Estado Mundial e ao soma. Acaba por morrer pouco tempo depois de regressar, num estado de semiconsciência motivado pela droga.

Caracterização do Diretor

            A personagem conhecida por Diretor tem como função a administração do Centro de Incubação de Londres e o Centro de Condicionamento. Estamos na presença de uma figura ameaçadora e com grande poder, como, por exemplo, exilar Bernard Marx para a Islândia. No entanto, possui uma vulnerabilidade que o faz cair em desgraça: teve um filho (John), um ato escandaloso e obsceno no Estado Mundial.

Peggy Lipton

1946 - 11/05/2019
     O RR Diner de Twin Peaks perdeu a sua dona no passado mês de maio. Em contrapartida, The White Lodge ganhou mais um residente.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Caracterização de Helmholtz Watson


            Professor Alfa na Faculdade de Engenharia Emocional, Helmholtz é um excelente exemplo da sua casta, mas sente que o seu trabalho é vazio e sem sentido e gostaria de usar as suas habilidades de escrita para algo mais significativo. Ele e Bernard são amigos porque encontram um ponto em comum no seu descontentamento com o Estado Mundial, mas as críticas de Helmholtz ao Estado Mundial são mais filosóficas e intelectuais do que as queixas mais insignificantes de Bernard. Como resultado, o primeiro costuma achar entediante a arrogância e a cobardia do segundo.
            Helmholtz Watson não é tão desenvolvido como algumas das outras personagens, agindo como uma folha para Bernard e John. Para Bernard, Helmholtz é tudo o que ele desejava ser: forte, inteligente e atraente. Como uma figura de força, Helmholtz sente-se muito à vontade na sua casta. Ao contrário de Bernard, ele é apreciado e respeitado. Embora os dois compartilhem uma aversão ao Estado Mundial, Helmholtz condena-o por razões radicalmente diferentes. Bernard não gosta do Estado porque é fraco demais para se ajustar à posição social que lhe foi atribuída; Helmholtz porque ele é muito forte. Ele pode ver e sentir como a cultura superficial em que vive o está sufocando.
            Helmholtz também é uma folha para John, mas de uma maneira diferente. Os dois são muito parecidos em espírito; ambos amam poesia e são inteligentes e críticos do Estado Mundial, mas há uma enorme diferença cultural que os separa. Mesmo quando Helmholtz vê o gênio na poesia de Shakespeare, não pode deixar de rir da menção a mães, pais e casamento – conceitos que são vulgares e ridículos no Estado Mundial. As conversas entre Helmholtz e John ilustram que mesmo o membro mais reflexivo e inteligente do Estado Mundial é definido pela cultura em que ele foi criado.

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