segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Ulisses"

1. Origem do nome Lisboa

         Há várias hipótese para a explicação da origem da palavra Lisboa:
1.ª) Ulissipo: o nome proviria de Ulisses, um dos heróis lendários da Guerra de Tróia e o protagonista da Odisseia, epopeia de Homero, que teria sido o fundador da cidade (segundo a lenda, após a vitória de Tróia e de regresso a casa, ter-se-ia perdido no Mediterrâneo, aportado no estuário do Tejo e fundado a cidade).
2.ª) Elasippos: nome de um dos filhos de Neptuno ou nome comum que significa «que lança os cavalos na corrida» (alusão à fama entre os Antigos dos velozes cavalos do Ribatejo);
3.ª) Alis ubbo: do fenício, que significa «baía amena»;
4.ª) Lix bona: do latim, que significa «água boa».
         O documento mais antigo conhecido em que surge a palavra Lisboa é uma moeda do reinado de D. Fernando I.


2. Lisboa antes da reconquista aos mouros

         A ocupação humana de Lisboa data do século VI a.C., sucessivamente ocupada por Fenícios, Gregos e Cartagineses. Os dados históricos iniciam-se apenas no contexto da conquista da Hispânia pelas legiões romanas, quando era denominada Olisipo. A partir de 139 a.C., serviu como base das operações contra os núcleos de Lusitanos dispersos após o assassínio de Viriato (?-139 a.C.), seu líder. Posteriormente, em 60 a.C., tendo Caio Júlio César concluído a conquista definitiva da Lusitânia, concedeu à povoação o título de Felicitas Júlia, concedendo aos seus habitantes o privilégio da cidadania romana. Perante as invasões do Império Romano por parte dos bárbaros, a que a Península Ibérica não ficou imune, a cidade de Lisboa foi conquistada pelos Suevos, no século V, e, poucos anos mais tarde, pelos Visigodos. No século VIII, a cidade viria a cair sob o domínio muçulmano, vindo a denominar-se Lissabona.


3. Reconquista cristã de Lisboa

         No contexto da Reconquista cristã da Península Ibérica, após a conquista de Santarém, as forças de D. Afonso Henriques (1112-1183), com o auxílio de cruzados, investiram contra esta fortificação muçulmana, que capitulou após um duro cerco de três meses (1147). Algumas décadas depois, entre 1179 e 1183, a cidade resistiu com sucesso às investidas muçulmanas que assolaram a região entre Lisboa e Santarém.

Fontes:
lisboamm.blogs.sapo.pt;
‑ manual Página Seguinte.


4. Tema: o mito como origem e fundação de Portugal.


5. Estrutura interna

. 1.ª parte (1.ª estrofe) – Definição de mito:
. Tese: «O mito é o nada que é tudo» (metáfora e paradoxo): é «nada» porque, dada a sua natureza, não tem consistência nem fundamento, não existe na realidade, não é um facto, mas dá uma explicação para todas as coisas, está na origem dos grandes acontecimentos. Ou seja, é algo que «oculta» a verdade, mas também concorre para a esclarecer;
. «O mesmo Sol que abre os céus / É um mito brilhante e mudo»: o mito é um acontecimento habitual, presente aos olhos de todos, mas exige ser decifrado (é um enigma ‑ «mito brilhante» ‑, nítido, claro, mas mudo, daí a exigência de ser decifrado), como o sol, que faz romper a manhã («abre os céus» ‑ personificação). Note-se que o culto do sol, de origem pré-histórica, está associado a grande número de ritos iniciáticos. Por outro lado, de acordo com as conceções rosa-crucianas, o mundo é o corpo de Deus. O sol é, para Pessoa, «a apresentação visível de Deus na matéria criada»;
. «O corpo de Deus / Vivo e desnudo»: o mito é uma fonte de criação («Deus») que aparenta nada significar («corpo morto»), mas é «vivo e desnudo», isto é, encontra-se nele tudo, explicação para tudo, é um mito vivo, a luz celeste.
         Como se trata de uma tentativa de definição, os verbos encontram-se no presente do indicativo, que confere às afirmações um valor universal e intemporal. Por outro lado, a presença dos paradoxos brilhante / mudo, morto / vivo, pretende exprimir o quanto de indefinível o mito possui.

. 2.ª parte (2.ª estrofe) – Ulisses enquanto mito: o herói Ulisses, ainda que não tenha existido, foi transformado em mito, através do qual se explicou a origem de Lisboa (Olisipo > Lisboa) – representando Portugal, como sua capital – e projetou, por ser um herói ligado ao mar e às viagens, o povo português para a glória, concretizada nas longas viagens marítimas rumo ao desconhecido, vencendo, com audácia, os perigos.
         Esta estrofe é a concretização da definição dada na primeira estrofe, particularmente no primeiro verso: o mito que é Ulisses passou de nada a tudo, ao dar nome a uma cidade e fazendo transcender-se um povo e um país, apresentando-se como exemplo e apontando um caminho.
         Ulisses «Foi por não ser existindo», isto é, ele é um ser mítico, portanto não existiu, mas, também por ser um mito, existe na memória cultural de um povo.

. 3.ª parte (3.ª estrofe) – Conclusão: a lenda (o mito) fecunda a realidade, dá-lhe nova vida, um sentido.
         O mito é colocado num plano superior à realidade, à vida, que está «em baixo», é só «metade de nada», transitória e mortal, por isso, quando não apoiada no mito, definha, «morre». Só adquire vida aquilo que o mito fecunda. O mito permanece, a vida morre. Dito de outra forma, sem mito não há vida.
         Note-se, porém, que há autores que apresentam outra interpretação para os dois versos finais. De acordo com essa interpretação, o sujeito poético aludiria à morte como libertação ou energia redentora, numa perspetiva iniciática.
         De acordo com a conclusão do texto, o que verdadeiramente importa não é a existência real de Ulisses, mas aquilo que ele representa: o futuro glorioso de Portugal só poderá concretizar-se através da vivência do mito e da energia criadora que ele liberta.


6. A origem mítica de Portugal

         Através deste texto, Pessoa serve-se da origem lendária de Portugal para explicar a importância do mito e desta para explicar o que deverá ser Portugal. Ulisses, o herói da guerra de Tróia – inventor do estratagema do Cavalo de Pau – e protagonista da Odisseia‑, é um dos grandes mitos da civilização grega, matriz da civilização ocidental e, segundo a lenda, na sua viagem de regresso á pátria, teria aportado em Portugal, fundando Lisboa, a futura capital do reino.Ulisses é tomado como pretexto para justificar que o mito, embora um nada, é necessário. Ele foi herói, resistiu, impôs-se aos seus inimigos, sulcou os mares, cometeu ou esteve na génese de grandes feitos – como Portugal fez (o império real) e deverá fazer (o império de base espiritual). O importante é que Portugal se encha de coragem e denodo, para vencer a mediocridade do presente.
         Ao recuperar esta lenda e elegê-la como um dos primeiros poemas de Mensagem, Pessoa tenciona conferir a Portugal uma origem mítica que é mais valiosa do que qualquer origem histórica. Além disso, a gesta de Ulisses ajuda a explicar a vocação marítima dos portugueses, também eles ligados ao mar e às viagens, como o seu mítico fundador.


7. Significado do poema e da sua integração na 1.ª parte de Mensagem

         A Mensagem apresenta uma estrutura tripartida e uma divisão simbólica:
. Brasão: as origens e os fundadores da pátria;
. Mar Português: as grandes realizações e feitos marítimos;
. O Encoberto: o futuro promissor após uma fase de estagnação.
         Este poema pertence à primeira parte. As origens de Portugal, como das grandes nações, estão envoltas na lenda e no mistério. Neste caso, é o mito de Ulisses, o herói lendário fundador da capital do nosso império, Lisboa, o coração da pátria.


8. Recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: três quintilhas.
. Metro: quatro versos de 7 sílabas métricas e um, o que finaliza cada estrofe, de 4.
. Rima    ‑ esquema rimático: ababa;
‑ cruzada;
‑ consoante («tudo» / «mudo»);
‑ rica («rudo» / «mudo») e pobre («mudo» / «desnudo»);
‑ grave («tudo» / «mudo») e aguda («céus» / «Deus»).
. Transporte: vv. 2-3, 9-10, 11-12, 14-15.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
‑ as formas verbais escorre e decorre, no seu aspeto durativo, traduzem a ação duradoura e persistente do mito: este espalha-se, propaga-se e eterniza-se de geração para geração, por isso não morre. Aquilo que morre é o lado físico e material dos homens;
‑ alternância de tempos verbais:
. o presente, na 1.ª estrofe, é usado porque se trata de uma definição do mito;
. o pretérito perfeito, na 2.ª estrofe, justifica-se por tratar de uma narração do nosso passado, a origem, o ato mítico da criação; narra a origem e construção do mito fundador de Ulisses; situa a sua ação num passado remoto;
. o presente, na 3.ª estrofe, justifica-se porque se trata de uma conclusão: a lenda está presente e é essencial aos feitos dos grandes povos;
. as formas perifrásticas «foi existindo» e «foi vindo» caracterizam o processo gradual da criação dos mitos e da sua ação; por outro lado, o gerúndio atribui à lembrança de Ulisses um valor duradouro.
. Expressão adverbial «Em baixo» estabelece uma contraposição com o que o sujeito afirma a respeito da dinâmica do mito: este abre os céus, é um deus vivo, ou seja, vem do alto. Porém, a expressão «em baixo» refere-se à vida desligada do mito, que, sendo «menos que nada», morre.

3. Nível semântico

. Oximoros:
«O mito é o nada que é tudo» (síntese da mensagem poética): o mito é nada porque não existe e é tudo, visto que dá explicação para todas as coisas e dele brotam as forças ocultas que projetam os povos para as grandes façanhas;
«Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo»: estas afirmações exprimem o caráter contraditório do mito.
. Metáforas ‑ imagens:
«O mesmo Sol… / É um mito brilhante e mudo»: o mito surge como um sol brilhante que nos abre os céus, palavra que conota perspetivas brilhantes, ideias de heroicidade;
«O corpo morto de Deus vivo e desnudo”: o mito é um deus que, parecendo morto, vácuo, se revela aos homens como vivo.
         Estas duas metáforas contêm elementos fundamentais e contraditórios do mito: a sua irrealidade («mudo», «corpo morto») e o seu dinamismo («vivo e desnudo», «abre os céus»).
. A dicotomia ideal – lenda (mito) / real (vida) de caráter platónico.


9. Intertextualidade com Os Lusíadas

         Tal como neste poema, também Camões, n’Os Lusíadas, recupera a lenda de Ulisses, atribuindo-lhe a fundação mítica de Lisboa:
“Ulisses é, o que faz a santa casa
À deusa que lhe dá língua facunda;
Que se lá na Ásia Troia insigne brasa,
Cá na Europa Lisboa ingente funda.»

(Canto VIII, estância 5)

1 comentário :

Anónimo disse...

muito bom para perceber o poema de fernando pessoa. muito esclarecedor e compreensivel. obrigada. gostei muito e ajudou-me imenso

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