Português

sábado, 7 de março de 2020

Tema do conto George

O conto centra-se nas três idades da vida: a juventude, a maturidade e a velhice.

As três idades não são, porém, apresentadas no texto de forma linear, antes de acordo com a «viagem» empreendida com o narrador, a partir da sua memória.

Síntese das categorias da narrativa do conto George


“George”
A intriga
Intriga focalizada cinematograficamente, valorizando pormenores.
Regresso de uma artista de renome à vila do interior, onde nasceu, depois de 23 anos de ausência.
▪ Diálogo de mulheres que se cruzam:
» Confronto com a juventude: Gi e George.
» Confronto com a velhice: George e Georgina.
▪ Partida de George no comboio que a levará para longe da vila onde nasceu.
O tempo e a personagem principal
▪ Fusão de três tempos: as três idades da vida
» O presente – George: a pintora bem-sucedida de 45 anos.
» O passado – Gi: “a jovem frágil de dezoito anos”.
» O futuro – Georgina: “a velha” de 70 anos com os “cabelos pintados de acaju”.
▪ Afastamento progressivo da infância e aproximação da velhice:
» A infância está presente, no primeiro encontro (entre Gi e George).
» George e Gi movem-se lentamente, como a simbolizar a impossibilidade de George de ressuscitar o passado e de se despedir dele.
» O segundo encontro (entre George e Georgina) é marcado pela velocidade do comboio e pela sua marcha sem retorno, simbolizando a morte definitiva do passado e a aceleração da marcha do Tempo em direção à velhice.
O espaço
▪ Vila parada do interior                                            Regresso ao passado
» Casa da infância
» Ponto de confluência de lugares e de tempos
▪ Locais de passagem:                                               Visão de futuro
» Viagem de comboio
» As várias casas alugadas
» Amesterdão
» Estados Unidos
A protagonista
▪ George:
» Pintora consagrada de 45 anos, bem-sucedida num universo dominado pelo masculino.
– Características da personagem:
. Protótipo da mulher independente, profissionalmente realizada.
. Crença no poder imortalizador da arte.
. Acentuado egocentrismo.
. Consciência plena do envelhecimento e da solidão.
. Solidão combatida pela presença do dinheiro acumulado.

» O nome inusitado de uma figura feminina
– Abreviatura possível de Georgina
– Pseudónimo literário de duas conhecidas romancistas do século XIX
. Escritoras profissionais que viviam da escrita
. Pseudónimos masculinos, visando a aceitação da obra
> A francesa George Sand (1804-1880)
> A inglesa George Eliot (1819-1880)
– Evocação de uma elite intelectual e artística
. Escândalo das ligações sentimentais à margem das convenções
> Hábito de fumar em público
> Uso frequente de indumentária masculina
> Extravagantes cores dos cabelos de George
O narrador
▪ Focaliza, na terceira pessoa, os acontecimentos, conhece o passado e o mundo interior das personagens.
▪ Mistura a sua voz com os pensamentos da personagem principal e com as suas falhas de memória.
▪ Apresenta uma visão crítica e desprovida de autopiedade que a protagonista tem de si própria.
▪ Reproduz as «falas» de Gi e de Georgina em itálico.
A atualidade do conto
▪ A condição feminina:
» A situação (e o sucesso) profissional
» A independência económica
» O amor
▪ Reflexão sobre a Morte e sobre o Tempo.
▪ Mundividência invulgar e sensibilidade artística:
» Reflexão sobre a complexidade da natureza humana
» Reflexão sobre a constante (re)definição da complexidade humana
▪ Fusão da arte narrativa com diversas formas de arte
» Pintura
. Modigliani (1884-1920): pintor italiano
. Edvard Munch (1863-1944): pintor norueguês
» Cinema
» Fotografia

Manual Palavras 12

O diálogo entre realidade, memória e imaginação

A metamorfose de George ao longo da vida

A complexidade da natureza humana no conto George

Este conto constitui uma profunda reflexão sobre a complexidade da natureza humana, centrada na figura de George: (sobre) o fracasso do amor, a separação, a dificuldade de atingir a realização profissional, a condição feminina, a efemérida da vida, a solidão, o vazio e a morte. Por outro lado, o conto compreende uma reflexão sobre a intemporalidade da arte e a imortalização do artista.
Através do desdobramento da protagonista, bem como pela duplicidade do seu nome (entre feminino e masculino), o conto possibilita uma reflexão sobre as diferentes fases da vida e sobre os caminhos que o ser humano trilha, uma vez por opção, outras por imposição das circunstâncias que o rodeiam.

Quando jovem, vivia inconformada com as limitações da conceção de vida que a família e a sociedade local lhe ofereciam, por isso decidiu partir, sozinha, para uma cidade e um país desconhecidos. O seu enorme desejo de liberdade e de independência, bem como a vontade de diversificar ao máximo as suas experiências de vida, levaram-na a alterar constantemente o seu aspeto físico, a viver os afetos e o amor com grande desprendimento e até superficialidade e a mudar frequentemente de local de residência. Além disso, vivia sempre em quartos alugados ou casas arrendadas mobiladas para que não se apegasse aos objetos. O desejo de ser livre e independente predominava. Apesar de conservar uma fotografia sua da juventude (de quando era Gi), prefere o esquecimento e não chora pelo passado.
Em suma, George tornou-se uma pintora de sucesso, famosa e rica. Perante a imagem (antecipada) da sua velhice e da solidão que a espera, mostra-se incomodada e arrogante, preferindo os pensamentos agradáveis e confiante de que o dinheiro constituirá a sua tábua de salvação.

Relacionado com esta questão estão os nomes da protagonista. De facto, a evolução da sua vida reflete a complexidade humana, também espelhada no nome. Assim, a abreviatura Gi, que constituía o tratamento carinhoso que lhe foi dado durante a infância e a juventude, está associada a uma fase de submissão aos ditames familiares e sociais. Já George, o nome correspondente ao presente, à vida adulta da protagonista, representa a rutura que ela pretendia, marcada pelo desejo de liberdade e independência. Note-se que o nome não é português, o que evidencia o cosmopolitismo que tanto procurava e sugere alguma ambiguidade relativa ao género (o nome é masculino), indiciado também pelo facto de o narrador se referir ao(s) seu(s) amor(es), sem especificar se se trata do género masculino ou feminino (excluindo a figura do primeiro namorado, Carlos). Georgina é o nome de registo da personagem, assumido pelo narrador quando ela imagina como será a sua velhice, numa atitude aparente de resignação, de assunção de uma identidade inteira e final.

Uma terceira questão respeitante ao problema da complexidade da natureza humana neste conto tem a ver com a falta de amor, tema recorrente na obra de Maria Judite de Carvalho.
No texto, por exemplo, George, em vez de amor, tem amores, isto é, relações frágeis e efémeras, passageiras, todas provisórias, como provisórias são as casas e as cidades onde mora.
Essa ausência de afeto e a solidão que afeta as personagens da obra da escritora – tanto homens como mulheres – têm como consequência, se não a morte, uma espécie de morte em vida, «uma existência desprovida de sentido que, ao longo dos anos que nas suas memórias se vão confundindo, se arrasta e pesa mais do que a própria morte.».
A vida, metaforicamente vista como uma viagem, é complexa, tanto na juventude como na velhice. Famosa além-fronteiras, George configura o protótipo da mulher independente e profissionalmente realizada, aparente sem razões para lamentar o passado e, ainda medos, recear o futuro. No entanto, esse medo assalta-a de forma imprevista e cruel no momento em que regressa à sua terra natal e que vai suscitar um confronto quer com o passado quer com o futuro.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Símbolos do conto "George"

▪ A vila: o passado e o retorno à infância.

▪ A fotografia:
→ ligação ao passado;
→ fixação da juventude perdida;
→ imagem ideal da juventude intocada e dos sonhos por cumprir.

▪ O comboio: a marcha rápida para a velhice, a viagem do passado para o futuro.

▪ Os quadros de George: autorretratos; o sucesso profissional e financeiro.

▪ O pincel, as telas, as tintas: a máquina fotográfica e a fixação do momento.


Conto "George": as 3 idades da vida

segunda-feira, 2 de março de 2020

Análise do capítulo XX de Viagens na Minha Terra

Estrutura do capítulo

1.ª parte (do início até “à menina do seu nome”): Apresentação de um quadro idílico: Joaninha, adormecida, no meio da natureza.

2.ª parte (de “Com o aproximar dos soldados” até “há dois anos?”): Caracterização de Carlos.

3.ª parte (de “Dizendo isto” até “Agora vamos, Carlos”): Encontro e conversa entre Carlos e Joaninha.

4.ª parte (de “E falando assim” até ao fim do texto): As personagens dirigem-se para o vale de Santarém.


Retrato de Joaninha

Joaninha é uma jovem campestre, simples e de sentimentos e intenções puros, e revela-se espontânea na forma de agir, bem como terna e afetuosa.

Fisicamente, possui um corpo esbelto (“formas graciosas”) e o rosto “expressivo”.

Joaninha representa a pureza, a autenticidade e a simplicidade da Natureza. Por essa razão, Garrett mostra grande cuidado na descrição do cenário que a envolve, onde predomina a verdura.

Joaninha, adormecida, surge como um elemento indissociável (isto é, enquadrado) do espaço em que se encontra; personagem e espaço parecem fundir-se num todo, iluminadas pela luz do crepúsculo, de modo que é difícil distinguir os limites de uma dos da outra. Este enquadramento da personagem na natureza serve para estabelecer uma relação de afinidade e sintonia entre ambas, de perfeita harmonia e sintonia, que permite sugerir que Joaninha é natural, autêntica (sem o artifício de outras mulheres) e simples.

De facto, a sua apresentação de Joaninha é associada a um quadro de naturalidade. Desde logo, é apresentada como alguém com quem o narrador se deparou por acaso e é descrita exatamente dessa forma: adormecida, nem sentada nem deitada, num tufo de erva, com as formas do corpo realçadas pelo assento natural em que se encontra. Além disso, a expressão «sem arte nem estudo» sugere exatamente essa naturalidade do quadro de Joaninha adormecida.

▪ Joaninha tem os olhos verdes, o que constitui uma alusão à esperança e à fecundidade da terra verdejante. No fundo, representa a própria terra-mãe, ao mesmo tempo que evoca um passado que constitui uma espécie de paraíso perdido: «Sobre uma espécie de banco rústico de verdura, tapeçado de gramas e de macela brava, Joaninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente”.

O rouxinol:
a) Simboliza o sentimento amoroso: Joaninha, adormecida, era embalada pelo canto harmonioso do rouxinol, que a acompanhava. O barulho dos soldados silenciou-o, mas a chegada do misterioso oficial inspirou-lhe o canto, que se tornou um prelúdio do amor. Símbolo, como Joaninha, da pureza do Vale, o rouxinol faz-se aqui eco do sentimento a despertar nela.

b) Representa a graciosidade e o caráter natural de Joaninha; surge como o prolongamento metonímico da natureza e da personagem que se lhe associa. A “torrente de melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e admiráveis de irregularidade e invenção, como as bárbaras endeixas de um poeta selvagem das montanhas” não constitui uma mera função de enquadramento decorativo: essas melodias trazem consigo os sentidos da espontaneidade, da naturalidade e da criatividade anticonvencional que se concentram nos olhos verdes de Joaninha.
c) Serve para preparar o encontro amoroso entre Joaninha e Carlos.

Características românticas:
» Joaninha representa a mulher-anjo;
» a paisagem serve de enquadramento ao reencontro de Carlos e Joaninha;
» o rouxinol: inspira premonições como o sofrimento, a desilusão amorosa, a morte (Menina e Moça).


Retrato de Carlos

Num segundo momento, verifica-se a entrada em cena de uma nova personagem (um oficial), procedendo o narrador, de seguida, à elaboração do seu retrato, enquanto Joaninha permanece adormecida.

Antes de introduzir Carlos, o narrador dirige-se familiarmente, num registo coloquial, às «amáveis leitoras» (narratário), pois serão as que maior interesse terão em conhecer o oficial. Por um lado, mais uma vez a mulher é «chamada» quando se vão tratar questões do foro amoroso; por outro, o narrador consegue interessar quem o lê na história, quase levando a que sejam também parte dos acontecimentos.

▪ A utilização da expressão «entrada em cena de um novo ator» reflete a novidade da escrita das Viagens, visto que o narrador interpela constantemente o leitor, optando por uma escrita de caráter conversacional e informal. Por outro lado, a forma como a novela é introduzida no relato da viagem, o predomínio do diálogo e a constante interação com o leitor assemelham a obra a um texto dramático, acentuando o seu hibridismo.

Este retrato é feito a partir do aspeto físico para o espiritual.

O narrador apresenta a personagem envolta em grande anonimato e mistério, designando-o meramente por “O oficial”, estratégia que favorece a curiosidade das “amáveis leitoras”.

Idade: menos der 30 anos.

Fisicamente:
» é um jovem militar, mas já com feições de homem feito/aspeto de adulto e um rosto marcado pela vida e pelas preocupações;
» é magro, mas de peito largo e forte;
» é de estatura mediana;
» tem barba e cabelos pretos;
» tez / pele clara;
» os olhos são vivos, pardos e não muito grandes, mas eloquentes;
» a boca é pequena;
» a testa é alta;
» tem um busto clássico;
» está vestido com uma farda militar.

Psicologicamente:
» é gentil e determinado;
» é elegante e de passo enérgico;
» a compleição e os olhos pardos e grandes indiciavam que se tratava de um homem de talento e com a nobreza de um «caráter franco, leal e generoso», isto é, inteligência, talento e alguma irreflexão;
» tem uma personalidade «pouco vulgar»;
» é impulsivo, arrebatado e orgulhoso, ora sério, ora alegre.

A componente física do retrato serve como veículo de acesso às características psicológicas e emocionais.

▪ A descrição de Carlos é feita de forma gradual e entremeada de divagações. O narrador começa pela sua estatura, o vestuário, os olhos, a boca, o rosto, o cabelo, o busto e termina com uma síntese que remete para a excecionalidade da personagem: «Daquele busto clássico e verdadeiramente moldado pelos tipos da arte antiga, podia o estatutário fazer um filósofo, um poeta, um homem d’estado, ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d’expressão que lhe desse». As divagações que acompanham a descrição acentuam-lhe os traços românticos.

▪ O narrador foca especialmente os olhos e o olhar de Carlos: «Os olhos pardos e não muito grandes». Ora, o olhar do homem romântico vê coisas que os outros não podem/conseguem ver e transcende a realidade comum. Daí que os olhos da personagem se caracterizem por «uma luz e viveza imensa, [que] denunciava o talento, a mobilidade do espírito».

Por outro lado, o narrador valoriza em especial certos pontos estratégicos da fisionomia, em grande parte coincidentes com o que em Joaninha é também descrito: os olhos, lugar preferencial de projeção do temperamento e das emoções, a boca e o rosto.

▪ A comparação «mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre» destaca a importância que o coração assume para o homem romântico. Por outro lado, a antítese entre o «corpo delgado» e o «peito largo» da personagem realça a valorização dos sentimentos, associada à ideia de um coração grande e generoso.

A fisionomia revela uma personagem marcada por traços de excecionalidade bem típicos do herói romântico:
» a superioridade e impulsividade;
» o viver pelo sentimento;
» a luta por causas;
» as antinomias (“fácil na ira, fácil no perdão, etc., mas sobretudo a oscilação entre os polos da mobilidade e da gravidade);
» o pendor da marginalidade e para o isolamento existencial que se adivinham no “caráter pouco vulgar e dificilmente bem entendido”;
» ser incompreendido e com características de uma certa genialidade.

Estes factos são confirmados pela trajetória biográfica de Carlos: ao contrário de Joaninha, ele é dominado por uma sistemática tendência para a mudança – a partida do vale de Santarém, a experiência no exílio, o regresso ao vale, seguido de nova partida (definitiva), as mudanças no campo amoroso e, por fim, no campo social.

Crítica: o retrato é interrompido pelo narrador para criticar o desprezo a que foi votado o uniforme militar nacional (patriotismo romântico): “Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações…”.


Encontro entre Carlos e Joaninha

Joaninha acorda e não quer crer que é Carlos quem está à sua frente, porque tinha sonhado que ele morrera, tal como a avó (presságio de tragédia), daí a grande emoção que evidencia, traduzida pelas pausas no seu discurso, marcadas pelas reticências, pelas exclamações e pelas repetições de palavras ou expressões.

É revelado o parentesco entre as duas personagens: são primos (“– Carlos, meu primo…”) e de algo que ultrapassa o mero parentesco familiar entre primos (“… sonhava com aquilo em que só penso… em ti.”; “e abraçaram-se num longo, longo abraço – com um longo, interminável beijo…”).

As duas personagens começam por se tratar por «prima(o)» e «irmã(o)» e por exprimir a saudade que sentiam um do outro, mas acabam por manifestar o amor que nutrem mutuamente, selado por um beijo.

Os sentimentos expressos por Carlos e Joaninha estão em consonância com o espaço em que se reencontram – o ambiente natural do vale. Assim, é com naturalidade e espontaneidade que manifestam os sentimentos puros que nutrem um pelo outro.

São também bem visíveis os preconceitos sociais que os envolvem: a preocupação com a honra (“E sós, sozinhos aqui a esta hora! (…) E que dirão? (…) Mas quem não souber, pode dizer…”).

A felicidade absoluta e perfeita das duas personagens não pode continuar, porque tudo é efémero. Se assim não fosse, «os anjos» trocariam o céu pelo paraíso que seria a terra: «Senão… invejariam os anjos a vida na terra”.

Um outro facto relevante consiste na revelação a Carlos da cegueira da avó.


Informações sobre a família

Introdução de duas novas personagens: Frei Dinis e a avó, cega.

Joaninha e Carlos são primos.

A cegueira da avó tem uma causa triste, não revelada ainda.

Carlos desconhece coisas, que Joaninha contará mais tarde.

Joaninha e a avó pensavam que Carlos tinha morrido.


Linguagem e recurso expressivos

Sinédoque: “o trato das armas” – é uma sinédoque da vida militar, visto que se associa a parte (as armas) ao seu todo (o exército, a carreira militar, na qual as armas são elemento essencial).

Estrangeirismos: demi-jour, coquette, boudoir, great coat.

Metáforas:
- «quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras»: designa o ato da escrita.

Comparação:
- com «pintores da Idade Média», que escreviam uma espécie de legendas por baixo das pinturas que pintavam, para que estas fossem mais bem compreendidas – o narrador faz o mesmo e as suas divagações correspondem às suas legendas.

Tom coloquial: «Voltemos ao nosso retrato».

Caracterização pela negativa: «Os olhos pardos e não muito grandes…».

Frases curtas.

Pontuação expressiva:
» frases exclamativas: «Carlos, meu primo… meu irmão!»;
» frases interrogativas: «Pois tu sonhavas?»;
» frases interrompidas pelo uso de reticências: «Tu não morreste…».

Vocativos: «Carlos, Carlos!».

Os últimos recursos referidos estão presentes, neste capítulo, de forma a recriar a linguagem oral e, simultaneamente, sugerir o estado de espírito de Joaninha, colhida de surpresa pelo inesperado encontro com o primo.

Mistura da cultura erudita e popular: por um lado, faz-se uso de formas de relacionamento informal com o interlocutor e, por outro, recorre a referências artísticas que só o leitor culto acompanha: o teatro, a pintura, a escultura.

Digressão: «Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações – que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram do exército… por muito português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfândega, reformaram-no em uniforme da bicha!».

Coloquialidade: «Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela o meu retrato».

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Análise do capítulo X de Viagens na Minha Terra

Funcionalidade do capítulo: introdução à novela da Menina dos Rouxinóis.


Sumário

O sumário deste capítulo revela a grande variedade de assuntos abordados no capítulo, cumprindo assim Garrett o projeto de fazer múltiplas «viagens».


Localização espacial da viagem

O espaço compreende a distância que vai desde o Terreiro do Paço (Lisboa) até Santarém, com referências concretas a Vila Nova (cap. II), Azambuja (cap. V), ao café do Cartaxo (cap. VI), à Charneca (cap. VIII) e, finalmente, ao Vale de Santarém (cap. X).


Localização temporal: fim da tarde.


Estrutura interna do capítulo

1.ª parte: Descrição do Vale de Santarém.

2.ª parte: Reflexões a propósito de uma janela.

3.ª parte: Reprodução de um diálogo entre o narrador e um companheiro de viagem.

4.ª parte: Preâmbulo a uma história que o narrador irá reproduzir.


Descrição (romântica) do vale

Simbolismo: o vale é descrito como um lugar ameno e deleitoso, com uma vegetação frondosa, uma harmonia suavíssima, uma simetria de cores, um sítio simples, sereno e harmonioso habitado pela paz, pela saúde, pelo sossego de espírito, pelo repouso de coração, pelo amor, pela benevolência e pela inocência, isto é, propício ao desenvolvimento de estados de espírito e de caracteres bons, serenos, saudáveis. É o locus amoenus clássico.

O vale é associado a um Éden, a um Paraíso, isto é, um local idílico e aprazível, símbolo de harmonia, que influencia e transforma quem ali vive: “As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe.”. Essa associação justifica-se por haver nele uma pureza original e um estado de perfeição e de bondade paradisíacas que a sociedade perdeu. É o paraíso puro, ainda livre de todo o mal que a sociedade gera (mito do bom selvagem, de Rousseau).

A paisagem está em harmonia com o estado de alma: “… tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita (…) não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali…”.

A paisagem descrita é claramente romântica, sendo marcada pela harmonia, pela suavidade, pela simetria de cores, pela paz, pela saúde, pela perfeição, traços que se adequam a Joaninha.

O cenário adquire, assim, um estatuto alegórico intemporal, acentuando o caráter mítico do cenário onde a novela se vai desenrolar.

O objetivo da descrição é colocar, neste cenário, Joaninha, bem como a avó, personagens que partilham esse estado de pureza original e se harmonizam com este ambiente idílico, pois são espontâneas, boas e naturais como aquele espaço.

A descrição é feita do geral para o particular.

Na descrição são usados diversos recursos estilísticos:
- Valorização do indefinido: um, tudo, nada.
- Nomes abstratos: suavidade, harmonia, beleza, …
- Personificação: “A faia, o freixo, o álamo entrelaçam os ramos amigos” (sugere a proximidade dos ramos das árvores, que formam espécies de tetos).
- Enumeração: “As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe” (sugere a grande variedade de árvores, arbustos e plantas menores).
- Metáfora: “a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão” (sugere a suavidade e a delicadeza da cobertura de ervas).
- Interrogação retórica: “Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?”.
- Comparação: “Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço”.
- Sinédoque: “Parei e pus-me a namorar a janela”.
- Metonímia: “Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração”.


Prólogo da história da “Menina dos Rouxinóis”

O narrador começa por falar de uma habitação antiga, situada no meio de uma paisagem paradisíaca, e, em seguida, de uma janela entreaberta e, finalmente, de um vulto. É a partir deste que um companheiro de viagem lhe fala na história da Menina dos Rouxinóis. Quem lhe conta a história é, de facto, esse companheiro de viagem, mas o narrador acaba por se apropriar dela: “… minha Odisseia…”), para poder continuar a fazer as suas digressões ou divagações.

Quando depara com a janela, o narrador produz um monólogo interior, motivado pela observação da própria janela (“encantava-me como um feitiço”) e pelo vulto vestido de branco (símbolo de pureza) e de olhos pretos. De facto, numa atitude sonhadora e imaginativa, ele idealiza a existência de um vulto feminino, vestido de branco, numa atitude meditativa e com olhos pretos. Ele perde-se, fascinado, imaginando: quem a habitará?, que felicidade será morar ali? Imagina uma cortina, um vulto – feminino, como não poderia deixar de ser. Ou seja, Garrett vai preparando, habilmente, a entrada em cena da novela.

Porém, o companheiro de viagem corrige-o, esclarecendo que os olhos eram verdes «como duas esmeraldas» (comparação que realça o brilho dos olhos e os associa à natureza) e acrescenta que outrora existiu ali uma figura feminina, um anjo, conhecida como a menina dos rouxinóis.

Os olhos da Menina dos Rouxinóis – verdes – são a representação simbólica da essência natural de uma personagem que habita aquele lugar natural, harmonioso e puro.

O rouxinol é o símbolo do sentimento amoroso (Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro), mas também o prelúdio da desgraça amorosa (janela dos rouxinóis Menina dos Rouxinóis).

O interesse do narrador pela janela é despertado por diversos motivos:
1.º) O mistério que a rodeia, pois o narrador não a vê totalmente (“vê-se por entre um claro das árvores»), ela encontra-se «meio aberta», julga ver um vulto através dela e imagina uma personagem e uma história.
2.º) A sua antiguidade, que decorre das marcas que o tempo nela deixou (“carregada na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul”), pelo que deve estar associada a várias histórias.
3.º) O canto dos rouxinóis.

No excerto, entrevê-se a mulher romântica: a mulher namorada, a mulher idealizada, a mulher-anjo.

Público-alvo da novela: as «belas e amáveis leitoras», por considerar que estariam mais predispostas a uma novela sentimental.

Por que razão o narrador a classifica como «novela», rejeitando a hipótese «romance»? Segundo ele, a história que vai contar tem uma ação simples, sem «aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros». A sua narração será igualmente simples, sem grande trabalho formal, no entanto «sinceramente contada».

O narrador associa a narração da novela à Odisseia, através de uma metonímia: «É o primeiro episódio da minha Odisseia». Com isto, sugere a aventura da escrita, mas também todos os obstáculos que poderão ocorrer durante esse processo.

A história da Menina dos Rouxinóis é inserida no relato da viagem através da técnica do encaixe.


Digressão sobre o poeta e a mulher apaixonada

Através de uma sinédoque (esta mulher – a parte – representa todas as mulheres apaixonadas – o todo –, mostrando que há uma essência comum a todas), o narrador afirma que há uma semelhança entre o poeta e a mulher apaixonada: ambos se elevam a um estado superior, pensam e sentem de forma especial, diferente dos demais, e superam a banalidade do mundo.
Naquele enquadramento idílico e paradisíaco, caracteristicamente romântico, o vulto que imagina à janela só poderia, de facto, ser uma mulher apaixonada ou um poeta, pois são ambos seres dotados de uma sensibilidade única, que «veem, sentem, pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala».


Concretização do projeto anunciado no capítulo:
Ver: descrição do vale e da janela.
Ouvir: história de Joaninha, da Menina dos Rouxinóis.
Sentir: visão subjetiva da paisagem – aprecia o vale como «um destes lugares privilegiados pela natureza».
Pensar: reflexões sobre a janela, sobre quem morou ali, sobre o homem e a mulher apaixonados e sobre a receção da sua «odisseia», isto é, da novela que vai contar.


Planos narrativos

Neste capítulo, os planos da viagem e da novela cruzam-se e relacionam-se de forma indissociável.

De facto, a novela da Menina dos Rouxinóis é contada ao narrador por um companheiro de viagem, que a ouve e dela acaba por se apropriar. Ora, tal significa o concretizar do projeto anunciado pelo narrador no primeiro capítulo:




Narrador

O narrador é heterodiegético: o efetivo é um companheiro viajante de Garrett, mas o narrador da obra acaba por se apropriar da história e acrescentar aspetos de cariz ideológico, moral e social, etc.: “É o primeiro episódio da minha Odisseia…”.
Por outro lado, o capítulo contém diversas expressões que denotam o protagonismo do narrador e o caráter romântico das suas “meditações”: “Interessou-me aquela janela”; “Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como um feitiço”; “Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance”.


Narratário

Na parte final do capítulo, o narrador dirige-se às «belas e amáveis leitoras». O apelo à leitora surge em contextos muito próprios, sobretudo quando se processo o relato da novela, que é suscetível de ser apreendida como história de índole romanesca e sentimental, mas o narrador depressa esbate essa hipótese: “Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos o que eu vou contar não é um romance… é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão.”.
A leitora não é, porém, invocada quando está em causa a discussão de matérias de caráter intelectual, como História, Filosofia, Política, etc., o que parece revelar por parte do narrador uma exclusão tática da leitora, porque esta estaria mais predisposta à receção de outros assuntos. De facto, o narrador seleciona um interlocutor feminino ou masculino de acordo com o assunto que aborda.
Esta imagem da leitora representa a mulher que apenas tinha acesso a um leque de temas relacionados com o foro sentimental e íntimo e com as narrativas de índole sentimental.


Marcas românticas
A descrição de uma natureza romântica, inspirada pelo «locus amoenus» clássico.
Identificação da natureza com o estado de alma.
Gosto pelo vago: “É amiudar muito der mais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romântica, vaporosa.”.
A natureza espontânea.
Gosto pelas coisas antigas: “uma habitação antiga”.
O gosto pelo que é nacional: o vale de Santarém é algo que nenhuma outra nação tem; a defesa da língua portuguesa («… dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o português não é bom para isto, que em francês que há outro não sei quê.»).
A ideia de encantamento: “Encantava-me aquela janela”.
O poeta como ser sentimental, diferente dos outros homens.
A ideia de que o afastamento da sociedade, a convivência com a natureza purifica o homem – mito do bom selvagem, de Rousseau.
O rouxinol.
O pôr do sol.
A sensação do misterioso (a janela meio aberta).


Características clássicas
A harmonia patente no texto.
O sentimento de paz e bem-estar.
O locus amoenus.


Tipos de discurso
» Descrição: frases longas, verbos de estado, enumerações, nomes e adjetivos.
» Monólogo interior: frases curtas, interrogativas e exclamativas, repetições.
» Diálogo: discurso direto, língua oral, frases incompletas, frases-feitas.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...