Português: Análise do capítulo X de Viagens na Minha Terra

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Análise do capítulo X de Viagens na Minha Terra

Funcionalidade do capítulo: introdução à novela da Menina dos Rouxinóis.


Sumário

O sumário deste capítulo revela a grande variedade de assuntos abordados no capítulo, cumprindo assim Garrett o projeto de fazer múltiplas «viagens».


Localização espacial da viagem

O espaço compreende a distância que vai desde o Terreiro do Paço (Lisboa) até Santarém, com referências concretas a Vila Nova (cap. II), Azambuja (cap. V), ao café do Cartaxo (cap. VI), à Charneca (cap. VIII) e, finalmente, ao Vale de Santarém (cap. X).


Localização temporal: fim da tarde.


Estrutura interna do capítulo

1.ª parte: Descrição do Vale de Santarém.

2.ª parte: Reflexões a propósito de uma janela.

3.ª parte: Reprodução de um diálogo entre o narrador e um companheiro de viagem.

4.ª parte: Preâmbulo a uma história que o narrador irá reproduzir.


Descrição (romântica) do vale

Simbolismo: o vale é descrito como um lugar ameno e deleitoso, com uma vegetação frondosa, uma harmonia suavíssima, uma simetria de cores, um sítio simples, sereno e harmonioso habitado pela paz, pela saúde, pelo sossego de espírito, pelo repouso de coração, pelo amor, pela benevolência e pela inocência, isto é, propício ao desenvolvimento de estados de espírito e de caracteres bons, serenos, saudáveis. É o locus amoenus clássico.

O vale é associado a um Éden, a um Paraíso, isto é, um local idílico e aprazível, símbolo de harmonia, que influencia e transforma quem ali vive: “As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe.”. Essa associação justifica-se por haver nele uma pureza original e um estado de perfeição e de bondade paradisíacas que a sociedade perdeu. É o paraíso puro, ainda livre de todo o mal que a sociedade gera (mito do bom selvagem, de Rousseau).

A paisagem está em harmonia com o estado de alma: “… tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita (…) não parece senão que a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali…”.

A paisagem descrita é claramente romântica, sendo marcada pela harmonia, pela suavidade, pela simetria de cores, pela paz, pela saúde, pela perfeição, traços que se adequam a Joaninha.

O cenário adquire, assim, um estatuto alegórico intemporal, acentuando o caráter mítico do cenário onde a novela se vai desenrolar.

O objetivo da descrição é colocar, neste cenário, Joaninha, bem como a avó, personagens que partilham esse estado de pureza original e se harmonizam com este ambiente idílico, pois são espontâneas, boas e naturais como aquele espaço.

A descrição é feita do geral para o particular.

Na descrição são usados diversos recursos estilísticos:
- Valorização do indefinido: um, tudo, nada.
- Nomes abstratos: suavidade, harmonia, beleza, …
- Personificação: “A faia, o freixo, o álamo entrelaçam os ramos amigos” (sugere a proximidade dos ramos das árvores, que formam espécies de tetos).
- Enumeração: “As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe” (sugere a grande variedade de árvores, arbustos e plantas menores).
- Metáfora: “a congossa, os fetos, a malva-rosa do valado vestem e alcatifam o chão” (sugere a suavidade e a delicadeza da cobertura de ervas).
- Interrogação retórica: “Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?”.
- Comparação: “Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço”.
- Sinédoque: “Parei e pus-me a namorar a janela”.
- Metonímia: “Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração”.


Prólogo da história da “Menina dos Rouxinóis”

O narrador começa por falar de uma habitação antiga, situada no meio de uma paisagem paradisíaca, e, em seguida, de uma janela entreaberta e, finalmente, de um vulto. É a partir deste que um companheiro de viagem lhe fala na história da Menina dos Rouxinóis. Quem lhe conta a história é, de facto, esse companheiro de viagem, mas o narrador acaba por se apropriar dela: “… minha Odisseia…”), para poder continuar a fazer as suas digressões ou divagações.

Quando depara com a janela, o narrador produz um monólogo interior, motivado pela observação da própria janela (“encantava-me como um feitiço”) e pelo vulto vestido de branco (símbolo de pureza) e de olhos pretos. De facto, numa atitude sonhadora e imaginativa, ele idealiza a existência de um vulto feminino, vestido de branco, numa atitude meditativa e com olhos pretos. Ele perde-se, fascinado, imaginando: quem a habitará?, que felicidade será morar ali? Imagina uma cortina, um vulto – feminino, como não poderia deixar de ser. Ou seja, Garrett vai preparando, habilmente, a entrada em cena da novela.

Porém, o companheiro de viagem corrige-o, esclarecendo que os olhos eram verdes «como duas esmeraldas» (comparação que realça o brilho dos olhos e os associa à natureza) e acrescenta que outrora existiu ali uma figura feminina, um anjo, conhecida como a menina dos rouxinóis.

Os olhos da Menina dos Rouxinóis – verdes – são a representação simbólica da essência natural de uma personagem que habita aquele lugar natural, harmonioso e puro.

O rouxinol é o símbolo do sentimento amoroso (Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro), mas também o prelúdio da desgraça amorosa (janela dos rouxinóis Menina dos Rouxinóis).

O interesse do narrador pela janela é despertado por diversos motivos:
1.º) O mistério que a rodeia, pois o narrador não a vê totalmente (“vê-se por entre um claro das árvores»), ela encontra-se «meio aberta», julga ver um vulto através dela e imagina uma personagem e uma história.
2.º) A sua antiguidade, que decorre das marcas que o tempo nela deixou (“carregada na cor pelo tempo e pelos vendavais do sul”), pelo que deve estar associada a várias histórias.
3.º) O canto dos rouxinóis.

No excerto, entrevê-se a mulher romântica: a mulher namorada, a mulher idealizada, a mulher-anjo.

Público-alvo da novela: as «belas e amáveis leitoras», por considerar que estariam mais predispostas a uma novela sentimental.

Por que razão o narrador a classifica como «novela», rejeitando a hipótese «romance»? Segundo ele, a história que vai contar tem uma ação simples, sem «aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros». A sua narração será igualmente simples, sem grande trabalho formal, no entanto «sinceramente contada».

O narrador associa a narração da novela à Odisseia, através de uma metonímia: «É o primeiro episódio da minha Odisseia». Com isto, sugere a aventura da escrita, mas também todos os obstáculos que poderão ocorrer durante esse processo.

A história da Menina dos Rouxinóis é inserida no relato da viagem através da técnica do encaixe.


Digressão sobre o poeta e a mulher apaixonada

Através de uma sinédoque (esta mulher – a parte – representa todas as mulheres apaixonadas – o todo –, mostrando que há uma essência comum a todas), o narrador afirma que há uma semelhança entre o poeta e a mulher apaixonada: ambos se elevam a um estado superior, pensam e sentem de forma especial, diferente dos demais, e superam a banalidade do mundo.
Naquele enquadramento idílico e paradisíaco, caracteristicamente romântico, o vulto que imagina à janela só poderia, de facto, ser uma mulher apaixonada ou um poeta, pois são ambos seres dotados de uma sensibilidade única, que «veem, sentem, pensam, falam como a outra gente não vê, não sente, não pensa nem fala».


Concretização do projeto anunciado no capítulo:
Ver: descrição do vale e da janela.
Ouvir: história de Joaninha, da Menina dos Rouxinóis.
Sentir: visão subjetiva da paisagem – aprecia o vale como «um destes lugares privilegiados pela natureza».
Pensar: reflexões sobre a janela, sobre quem morou ali, sobre o homem e a mulher apaixonados e sobre a receção da sua «odisseia», isto é, da novela que vai contar.


Planos narrativos

Neste capítulo, os planos da viagem e da novela cruzam-se e relacionam-se de forma indissociável.

De facto, a novela da Menina dos Rouxinóis é contada ao narrador por um companheiro de viagem, que a ouve e dela acaba por se apropriar. Ora, tal significa o concretizar do projeto anunciado pelo narrador no primeiro capítulo:




Narrador

O narrador é heterodiegético: o efetivo é um companheiro viajante de Garrett, mas o narrador da obra acaba por se apropriar da história e acrescentar aspetos de cariz ideológico, moral e social, etc.: “É o primeiro episódio da minha Odisseia…”.
Por outro lado, o capítulo contém diversas expressões que denotam o protagonismo do narrador e o caráter romântico das suas “meditações”: “Interessou-me aquela janela”; “Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como um feitiço”; “Se o vulto fosse feminino!... era completo o romance”.


Narratário

Na parte final do capítulo, o narrador dirige-se às «belas e amáveis leitoras». O apelo à leitora surge em contextos muito próprios, sobretudo quando se processo o relato da novela, que é suscetível de ser apreendida como história de índole romanesca e sentimental, mas o narrador depressa esbate essa hipótese: “Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamo-nos o que eu vou contar não é um romance… é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão.”.
A leitora não é, porém, invocada quando está em causa a discussão de matérias de caráter intelectual, como História, Filosofia, Política, etc., o que parece revelar por parte do narrador uma exclusão tática da leitora, porque esta estaria mais predisposta à receção de outros assuntos. De facto, o narrador seleciona um interlocutor feminino ou masculino de acordo com o assunto que aborda.
Esta imagem da leitora representa a mulher que apenas tinha acesso a um leque de temas relacionados com o foro sentimental e íntimo e com as narrativas de índole sentimental.


Marcas românticas
A descrição de uma natureza romântica, inspirada pelo «locus amoenus» clássico.
Identificação da natureza com o estado de alma.
Gosto pelo vago: “É amiudar muito der mais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romântica, vaporosa.”.
A natureza espontânea.
Gosto pelas coisas antigas: “uma habitação antiga”.
O gosto pelo que é nacional: o vale de Santarém é algo que nenhuma outra nação tem; a defesa da língua portuguesa («… dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o português não é bom para isto, que em francês que há outro não sei quê.»).
A ideia de encantamento: “Encantava-me aquela janela”.
O poeta como ser sentimental, diferente dos outros homens.
A ideia de que o afastamento da sociedade, a convivência com a natureza purifica o homem – mito do bom selvagem, de Rousseau.
O rouxinol.
O pôr do sol.
A sensação do misterioso (a janela meio aberta).


Características clássicas
A harmonia patente no texto.
O sentimento de paz e bem-estar.
O locus amoenus.


Tipos de discurso
» Descrição: frases longas, verbos de estado, enumerações, nomes e adjetivos.
» Monólogo interior: frases curtas, interrogativas e exclamativas, repetições.
» Diálogo: discurso direto, língua oral, frases incompletas, frases-feitas.


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