domingo, 24 de fevereiro de 2013

"Mar Português"

. Título: no título, constituído por duas palavras, há a destacar o adjetivo «português», que remete para a conquista e o domínio dos mares pelos Portugueses, que os ligaram e fizeram com que existisse apenas o «mar» conhecido. Essa união foi o resultado do sofrimento e da coragem dos lusitanos; daí o mar ser «português». Por outro lado, apesar de os Portugueses já não cruzarem o mar no presente, o título deixa entender que ele será sempre lusitano.


. Tema: o mar, glória e desgraça do povo português.


. Estrutura interna

. 1.ª parte (1.ª estrofe) – Interpelação do sujeito poético ao mar, a que, relembra o preço (os sacrifícios) pago pelos Portugueses para conquistarem o mar.



         Os sacrifícios necessários para que os Portugueses conquistassem o mar traduzem-se na morte de muitos dos que partiram e no sofrimento dos que ficaram em terra, daí que o poeta dê realce, através do uso de uma linguagem emotiva (marcada pelas exclamações e pelo uso da 2.ª pessoa, que estabelece uma relação afetiva com o mar) e do campo lexical de sofrimento («lágrimas», «choraram», «rezaram»), ao amor familiar: o amor maternal («quantas mães choraram»), o amor filial (as orações dos filhos) e o amor das noivas que ficaram por casar (notar a construção em anáfora dos versos 3, 4 e 5 e o uso de quantificadores ‑ «quantas mães», «Quantos filhos», «Quantas noivas» ‑, que aumentam o dramatismo das situações evocadas, pondo em desta       que o número de vidas perdidas). Deste modo, realça-se o facto de o sacrifício afetar as famílias já constituídas e as que o seriam, mas não o serão mais, em razão da morte dos «noivos». Observe-se, por outro lado, as potencialidades da forma verbal «cruzarmos»: (1) sugere a causa da dor (a conquista do mar); (2) tem na sua composição a palavra «cruz», símbolo do sacrifício e da morte.
         Outra ideia que ressalta da 1.ª estrofe é a de que o mar é português, tão alto foi o custo que a sua conquista implicou. E notemos que é o mar, não os mares, o que traduz a ideia de unificação do mar, a qual se ficou a dever ao empenhamento lusitano. Outra forma de mitificação de Portugal operada nesta estrofe consiste na atribuição ao sal do mar de uma origem portuguesa, mitificando-se a dor lusa.
         O sofrimento pertence ao passado, daí as formas verbais no pretérito perfeito do indicativo, mas também o infinitivo pessoal «cruzarmos» (v. 3), exprimindo determinação continuada, persistência. Porém, o facto de isso se ter verificado no passado e de os Portugueses já não cruzarem o mar não significa que ele tenha deixado de ser português. De facto, os laços estabelecidos foram tão fortes, revestiram de tanta dor e sofrimento, o sal que o mar comporta é em tal quantidade, oriundo das lágrimas derramadas pelos Portugueses (v. 2), que ele será sempre português.
         Em síntese, as consequências da saga das descobertas são a dor, o sofrimento (consequências emocionais), o desamparo das famílias (consequências sociais e económicas), o despovoamento do reino (consequências políticas).
         Por outro lado, esta estrofe assume um claro cariz épico, uma vez que nela predomina a valorização do sofrimento e do espírito de sacrifício dos Portugueses, capazes de superar provações extremas e de, desse modo, provar a sua grandeza espiritual. Tudo começa e acaba no mar.

. 2.ª parte (2.ª estrofe) ‑ Balanço / justificação dos sacrifícios: os grandes feitos (a conquista e o domínio do mar) pressupõem sofrimento, mas todo o esforço e dor arrastam consigo alguma compensação, daí que o esforço e o sacrifício dos Portugueses não tenham sido em vão.

         Esta segunda estrofe assenta na apresentação da resposta, através de três frases declarativas, à interrogação inicial que introduz a reflexão:

. «Valeu a pena?», isto é, valeu a pena, justificou-se tanto sacrifício?

. «Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena»: todos os sacrifícios são justificáveis se o objetivo que estiver na sua base for nobre e se se agir com ousadia, coragem, determinação e abnegação; tudo vale e pena para atingir o ideal sonhado, a heroicidade.

. «Quem quer passar além do Bojador(1) / Tem que passar além da dor»: quem quer alcançar o objetivo desejado tem de superar os obstáculos que se lhe depararem e a própria dor, indo além dela (notar que o Bojador é, aqui, a metáfora dos objetivos a alcançar e simboliza o ultrapassar do medo, do desconhecido, o primeiro passo para o conhecimento). É necessário superar os limites da frágil condição humana.

. «Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu»: quem superar, sofrendo, os perigos do mar, alcançará a glória suprema, que é o mesmo que dizer que tudo o que é verdadeiramente custoso tem o seu preço (1.ª estrofe) e a sua compensação (último verso). O «mar» é símbolo de sofrimento e morte («perigo» e «abismo»), mas também símbolo de realização do sonho, de glória e imortalidade, já que foi nele que deus fez «espelhar» o céu. Quem conquistar o mar ascenderá ao plano divino. Se, na 1.ª estrofe, se lamentou o preço pago pela conquista do mar, na segunda, anuncia-se o prémio.

         Nestas três frases, estão compreendidos os elementos atitéticos fundamentai para a compreensão do poema: o negativo (pena, dor, perigo) e o positivo (céu). Quer isto dizer que a dor é sempre o preço da glória.
         Nesta segunda estrofe, o tempo verbal predominante é o presente do indicativo, que está de acordo com a dimensão axiomática das afirmações. Excetuam-se os dois últimos versos, que se encontram no pretérito perfeito do indicativo, para recuperar a ideia de ultrapassagem das adversidades como forma de alcançar a imortalidade.


. Tom dramático do poema

. As duas faces dos Descobrimentos: a tragédia ‑ os aspetos desastrosos (1.ª estrofe) ‑ e a glória (2.ª estrofe, embora também haja nela uma referência ao lado trágico).

. A apóstrofe inicial e a do 6.º verso, que confere uma certa circularidade à estrofe.

. A interrogação retórica da segunda estrofe.


. Caráter épico-lírico do poema

. Vertente lírica: a expressão comovida dos sentimentos do sujeito poético (o lamento do lado negativo das Descobertas) e a descrição da dor e do sofrimento dos que viveram a saga das descobertas (vv. 2, 3, 4 e 5).

. Vertente épica: a valorização e o entusiasmo que anima a alma humana para concretizar os seus sonhos, ideais elevados e com isso ascender ao patamar da divindade e da imortalidade.
         A coexistência dos dois planos justifica-se pelo misto de epopeia e de lirismo que se encontra no poema. «Para realizar a glorificação da Pátria, os Portugueses tiveram de sofrer a dor e as privações, o preço a pagar pelos feitos sublimes que praticaram


. Intertextualidade com o episódio do Velho do Restelo

Velho do Restelo

“Mar Português”
. Referência à «dura inquietação d’alma».

. «Se a alma não é pequena».
. O choro das mães, esposas e filhos.

. O choro das mães, a reza dos filhos, as noivas que ficaram por casar.
. A consciência do perigo: o ambiente de dor e pessimismo provocado pela antecipação dos perigos que os que vão embarcar enfrentarão.

. A consciência do perigo, causadora igualmente de dor e sofrimento, mas com traços de otimismo: a dor é encarada como um meio necessário para alcançar o sonho e a glória.
. O sofrimento é necessário para a realização de grandes feitos.

. Idem.
. Reflexo da mentalidade renascentista, o episódio é crítico dos Descobrimentos.

. O poema é, essencialmente, laudatório.
. O herói é mais humano e terreno.

. O herói é mítico e lendário.


. Linguagem e recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: duas sextilhas, o que se adapta á contraposição dos aspetos desagradáveis (1.ª estrofe) e agradáveis (2.ª estrofe).
. Métrica: alternância de versos decassílabos e octossílabos, com alguma irregularidade.
. Rima:
‑ esquema rimático: aabbcc;
‑ emparelhada;
‑ aguda e grave;
‑ consoante;
‑ pobre e rica;
‑ as palavras rimantes são, na maior parte, palavras-chave do poema: sal, Portugal, choraram, rezaram, Bojador, dor, céu, realçando-se, com a posição em final de verso, a sua expressividade.
. Ritmo: binário, largo, típico da meditação lírica.
. Assonância: predomínio da vogal áspera ou forte /a/ (1.ª estrofe).
. Alternância de sons fechados (ê, ô) e sons abertos (á, é).
. Transporte: vv. 1-2, 5-6, 7-8, 9-10.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
‑ pretérito perfeito: evoca os acontecimentos trágicos e os sofrimentos do passado;
‑ presente: remete para os valores intemporais como a bravura, a tenacidade, a coragem o espírito de luta, o desejo de vencer, isto é, os valores que fazem os heróis;
‑ infinitivo pessoal «cruzarmos» exprime determinação e persistência.
. Pobreza de adjetivos, apenas dois: «salgado» e «pequena».
. Predominância de verbos e substantivos, como convém às características do tema desenvolvido:
‑ «mar», «Bojador»: as dificuldades, os perigos enfrentados pelos Portugueses para alcançarem a glória;
‑ «sal»: símbolo do sofrimento, das tragédias provocadas pelo mar;
‑ «lágrimas»: vide 1.ª estrofe;
‑ « céu»: é o símbolo do sonho realizado, da glória, da recompensa que espera o homem que supera os maiores perigos e sofrimentos e conquista o seu sonho; é o símbolo do prémio supremo do herói: a imortalidade.
. Anáfora e quantificadores: «Quantos filhos», «Quantas noivas» ‑ realçam o número de vidas afetas pelas desgraças causadas pelo domínio do mar.
. Função emotiva, traduzida pelas exclamações.
. As três frases declarativas.

3. Nível semântico
. Apóstrofe e personificação do «mar», tratado na 2.ª pessoa e responsável por todo o drama e sofrimento, mas também proporcionador da glória.
. Metáfora e hipérbole: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal», uma síntese das desgraças que o mar causou.
. Reiteração:
‑ dos quantificadores (vide);
‑ da forma verbal «passar» (versos 9 e 10): realça a relação necessária entre a dor e o heroísmo.
. Exclamações (1.ª estrofe): servem o tom épico-dramático do poema e exprimem o que há de mais sagrado nas relações humanas: o amor familiar, isto é, o sofrimento que custou a conquista do mar.
. Interrogação «Valeu a pena?»: chama a atenção para as contrapartidas que o destino reserva aos navegadores e inicia o balanço ou a reflexão sobre a utilidade dos sacrifícios.
. Caráter aforístico dos versos 7-8, 9-10.
. O sentido metafórico de alguns vocábulos e expressões: «cruzarmos», «Bojador», «espelhou», «céu» (é o símbolo do sonho realizado, da glória; se o mar é o local de todos os perigos e medos, também é o espelho do céu, uma vez conquistado).
. A antítese entre o lado trágico e o glorioso dos Descobrimentos.
. Os dois primeiros versos resumem a história passada e presente do povo português e, consequentemente, exemplificam a capacidade de síntese e aproveitamento das potencialidades expressivas das palavras mais banais, processo característico de Fernando Pessoa.



            (1) O Bojador, cabo de difícil acesso situado na costa ocidental africana, terá sido dobrado por Gil Eanes, em 1434, depois de numerosas (fala-se em cerca de 15) tentativas anteriores. Tal dobragem significou um importante passo em frente nos descobrimentos portugueses, já que esse cabo simbolizou, durante muito tempo, o limite do conhecido, e a sul havia muitas riquezas à espera.

8 comentários :

Anónimo disse...

Muito bom !!!

Anónimo disse...

Extremamente bom, parabéns pelo trabalho.

Anónimo disse...

PARABENS GRANDE EXPLICAÇAO!!ABRAÇO

Anónimo disse...

deu para chapar , Obrigado abraços

Anónimo disse...

brigadão ja deu pró 10

Joana Santos disse...

Excelente!! De tudo o que procurei na internet, esta informação foi a melhor. Objetiva e concreta e uma otima análise em todos os aspetos. Muito obrigada

chevalier rosana disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Unknown disse...

Muito bom! Me ajudou muito com a lição de casa!

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