Na estância 144, narra-se o regresso dos marinheiros portugueses à sua pátria - concretamente a Lisboa (“Até que houveram vista do terreno / Em que naceram…”) ‑, numa viagem que decorreu tranquilamente, pois o tempo estava ameno (“Com vento sempre manso e nunca irado…” ‑ v. 2) e o mar calmo (“… cortando o mar sereno…” ‑ v. 1). Entre os versos 5 e 8, o poeta alude ao prémio e à glória que os marinheiros, com os seus feitos, alcançaram e que agora vêm entregar ao rei para seu engrandecimento e da Pátria (“E à sua pátria e Rei temido e amado / O prémio e glória dão (…) / E com títulos novos se ilustrou.” ‑ vv. 6-8).
Nos
primeiros quatro versos da estância 145, o poeta começa por se mostrar cansado,
desiludido e incompreendido (“a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida”
‑ vv. 1-2), não pelo canto em si, mas por “Cantar a gente surda e endurecida”
(v. 4) (isto é, gente que não escuta as suas palavras, não valoriza o seu
canto, não reconhece o seu talento e mérito), visto que está corrompida pela
“cobiça” e num estado de tristeza, desânimo e apatia (“… a pátria, não, que
está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil
tristeza.” ‑ vv. 6 a 8), o que origina uma ausência de fervor patriótico e
ânimo: “Não tem um ledo orgulho e geral gosto, / Que os ânimos levanta de contino / A ter pera trabalhos ledo o rosto.” (vv. 2 a 4 da estância 146).
O
poeta mostra-se cansado e desiludido («Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
/ Destemperada e a voz enrouquecida...» ‑ est. 145, vv. 9-10) por o seu canto
não ser escutado pela «gente surda e endurecida», que não reconhece o seu
talento e o mérito, ocupada que está na satisfação da «cobiça».
Por
outro lado, o poeta mostra-se orgulhoso dos «vassalos excelentes», pois
representam a glória, a coragem e o espírito patriótico, dispondo-se a
enfrentar os maiores perigos e a desenvolver os maiores sacrifícios somente
para engrandecerem o Rei e a Pátria («Olhai (...) / Quais rompentes liões e
bravos touros...» ‑ est. 147, vv. 25-26; «Por vos servir, a tudo aparelhados /
De vós tão longe, sempre obedientes...» ‑ est. 148, vv. 33-34).
Além
disso, ele mostra-se espantado pela ausência de orgulho pátrio e de ânimo nos
seus contemporâneos, bem como pela cobiça e corrupção que os dominam («No gosto
da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.» ‑ est. 145, vv.
15-16).
Perante
este panorama, o sujeito poeta interpela o rei e exorta-o a reconhecer o valor
dos seus “vassalos excelentes”, os quais possuem as qualidades / virtudes
necessárias à restauração da grandeza e orgulho da Pátria:
a. coragem e determinação inexcedíveis (“Quais rompentes liões e bravos
touros…” ‑ est. 147, v. 26);
b. espírito de sacrifício e de missão, que os leva a enfrentar os mais
diversos perigos e obstáculos (fomes, vigias, guerras, climas adversos,
naufrágios, a própria morte, para engrandecerem o Rei e a Pátria (“Que vendecor
vos façam, não vencido.” ‑ est. 148, v. 40;
c. mostram-se sempre prontos, obedientes e felizes por poderem servir o
rei (estância 148).
Os vassalos são apresentados como “vassalos
excelentes” (est. 146, v. 8), “ledos” (est. 147, v. 1) e caracterizados pela
coragem e pelo espírito de sacrifício e de abnegação (est. 147). Além disso,
mostram-se “sempre obedientes” (est. 148, v. 2) e preparados para responder ao
chamado e aos desejos do seu rei, que executam “contentes” (est. 148, v. 4) e
orgulhosos. Por outro lado, encarnam o espírito de cruzada (est. 151, vv. 1-4),
revelando toda a sua coragem e resistência (est. 151, vv. 5-8).
É
evidente, neste passo, o contraste que o poeta estabelece entre a situação
presente da Pátria ‑ caracterizada pela cobiça, pela falta de ânimo e pela
apatia ‑ com o passado, representado pelos heróis que ele canta / celebra, que
se sacrificaram, enfrentando guerras e os perigos vários enumerados na estância
147, incluindo a própria morte, para engrandecer o rei e a Pátria.
Entre
as estâncias 149 e 152, o poeta faz uma série de recomendações ao rei D. Sebastião:
a. recompensá-los, favorece-los e alegrá-los com a sua presença e trato
alegre e humano;
b. aliviá-los de leis rigorosas, cruéis / injustas;
c. promover os mais experientes;
d. apoiá-los todos, sem distinção, nos seus ofícios (= profissões), que
exercem segundo as suas aptidões, seja qual for a área em que se distinguem;
e. estimar os que expandiram a fé cristã e o império (apelo ao espírito de
cruzada) sem temer os inimigos nem regatear esforços;
f. velar para que ninguém possa dizer que os Portugueses constituam uma
nação servil, em vez de senhorial;
g. receber conselhos apenas dos homens experientes (neste passo, Camões
valoriza o conhecimento prático em detrimento do saber livresco ‑ apesar de os
estudiosos possuírem muitos conhecimentos teóricos, os experientes sabem mais
do concreto).
Este conjunto de características configura o perfil
de líder, tendo em conta também o pedido do poeta ao rei para que não permita
que os estrangeiros 8alemães, franceses, italianos e ingleses) desvalorizem a
capacidade de os portugueses gerirem o seu destino.
Com
estes conselhos, o poeta espera que o rei ‑ neste caso, D. Sebastião ‑ saiba
incentivar os seus vassalos, que apenas esperam a sua liderança para agir. Ele
anseia que o monarca exerça o poder com humanidade e a humildade de quem
procura aconselhamento junto dos mais sábios e mais experientes. Espera ainda
que o soberano saiba estimular e aproveitar as energias latentes para dar
continuidade aos feitos do passado e dar matéria a novo canto. Isto significa
que a obra termina com uma mensagem globalizante que abarca o passado, o
presente e o futuro, isto é, a glória do passado deverá ser tomada como exemplo
no presente para construir um futuro grandioso (in Plural 12, texto adaptado).
A
estância 153 abre com uma alusão a Formião, filósofo grego que discursou diante
do general Aníbal sobre a arte de combater e que foi escarnecido por este. Essa
referência funciona como exemplo para constatar que a arte da guerra se aprende
na prática, isto é, «vendo, tratando e pelejando» (v. 8), e não teoricamente
(“Sonhando, imaginando ou estudando” ‑ v. 7).
Na
estância 154, Camões traça o seu autorretrato:
a. “humilde baxo e rudo”;
b. possuidor de “honesto estudo”;
c. misturado com “longa experiência”;
d. possuidor de “engenho” / talento;
e. disposto a servir o rei em combate;
f. disponível para cantar o rei e os seus feitos.
Ora,
este autorretrato corresponde ao do homem ideal do Renascimento:
i. possuidor de um saber feito de estudo e experiência (conciliação do
saber teórico e do saber prático);
ii. detentor de talento e inspiração artísticos;
iii. possuidor da lealdade, da coragem e do desapego do bom soldado, sempre
disponível para servir o seu rei.
Falta
apenas ao poeta ser aceite pelo monarca, pois possui virtudes que devem ser reconhecidas.
De seguida, mostra a sua disponibilidade para cantar os seus feitos futuros (“…
e o vosso peito / Dina empresa tomar de ser cantada” ‑ est. 155, vv. 5-6).
Na
última estância, o poeta incentiva o rei a prosseguir a guerra de cruzada no
Norte de África e oferece-se para a cantar, assegurando-lhe que será cantado e
os seus feitos em todo o mundo e que será mais temido em Marrocos que tudo
(observar a comparação hiperbólica dos versos 1 e 2 ‑ Atlante teria sido
transformado em pedra pela visão da cabeça de Medusa, uma das três Górgonas,
que transformava quem a contemplasse em pedra). O próprio Alexandre Magno
rever-se-ia em D. Sebastião, sem invejar a glória de Aquiles, pois a do
soberano português seria muito superior.
A
finalizar a análise destas últimas estâncias do poema, ficam aqui as palavras
de António José Saraiva, no prefácio de uma das edições da obra:
“Na Dedicatória, o poeta convida o moço
rei a «ver» os feitos dos seus vassalos, isto é, do Gama e seus companheiros,
como se estivessem a ocorrer diante dos olhos de ambos. Há nela também
referências ao tema da Cruzada. Só depois se segue a ação. E, no final do
poema, o autor volta a dirigir-se ao rei numa longa conclusão de 10 estrofes e
meia, em que outra vez o exorta a «olhar» os seus vassalos, lhe dá vários
conselhos e o incita à guerra de cruzada próxima, que o autor se oferece para
cantar. Assim, a narração insere-se entre as duas falas ao rei. O poema poderia
ser interpretado como um longo discurso feito a D. Sebastião, que é diretamente
interpelado no começo e no fim.”
EXCELENTE!!
ResponderEliminarMuito útil :)
ResponderEliminarMuito bom mesmo,existe isto também para os outros cantos??
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ResponderEliminarIncrivel
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ResponderEliminarMuito bom!!:-)♥
ResponderEliminarMuito bom muito muito bom muito muito muito bom muito muito muito muito bom
ResponderEliminarSó que não
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ResponderEliminarobrigado tive 17
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ResponderEliminarEspetaculo
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