domingo, 24 de fevereiro de 2013

"O Infante"

         Este é o primeiro poema da segunda parte de Mensagem, o que faz todo o sentido se tivermos em conta que o Infante D. Henrique foi o impulsionador dos Descobrimentos, por exemplo ao fundar a Escola de Sagres. Daí o título do texto: embora nele se refira a aventura marítima levada a cabo pelos portugueses, foi o Infante quem desempenhou um papel crucial nessa aventura, o de protagonista, de impulsionador, o de símbolo do início da construção do império. Daí que lhe caiba o papel de protagonista da «Possessio Maris» (Posse do Mar), dedicada à gesta dos Descobrimentos. Segundo António Quadros, o Infante foi o “descobridor da ideia de descoberta”.

         O Infante D. Henrique (1394 ‑ 1460) foi o quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre e é geralmente considerado o homem que mais decisivamente contribuiu para o impulso que levou à expansão ultramarina portuguesa. Por outro lado, ele é também, frequentemente, apresentado como símbolo das vontades e dos esforços anónimos de navegadores, cosmógrafos, mercadores e aventureiros que ajudaram o homem moderno a construir novas dimensões para a perspetiva do mundo.


Estrutura interna

. 1.ª parte (1.º verso) ‑ As três etapas que presidem à construção da obra humana, traduzidas pelo mote / aforismo «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce».
. Duas ações ‑‑‑ a vontade divina;
‑‑‑ o sonho do homem;
efeito: o nascimento / a concretização da obra.
. Os três «sujeitos» dependem mutuamente, numa relação de causa efeito: sem a vontade do primeiro, o segundo não sonharia e a obra não poderia nascer.
. O verso, constituído por três orações assindéticas justapostas (assíndeto e gradação), organiza-se em torno de formas verbais no presente do indicativo, de aspeto durativo, exprimindo realidade, atualidade, valor de lei, uma verdade universal.

. 2.ª parte (versos 2 a 8) ‑ Desenvolvimento do primeiro verso:

1) . Desejo de Deus (agente da vontade):
. a unidade da terra, através do mar, de forma a servir de elemento de união entre os continentes e os povos, daí a existência de um conjunto de palavras e expressões que sugerem a ideia de unidade: «uma», «unisse», «não separasse», «inteira»;
. o caráter navegável do mar, para que o ser humano tivesse acesso ao conhecimento da Terra.
. A colocação das formas verbais predominantemente no pretérito perfeito do indicativo sugere que o princípio em causa foi respeitado e se concretizou.

2) . A sagração do Infante: para o cumprimento dessa missão, Deus sagrou o Infante (a decisão de se aventurar no mar tem origem divina e não num qualquer capricho humano)), isto é, predestinou-o para os grandes feitos das descobertas («… em ti nos deu sinal.» ‑ v. 10). Foi, portanto, Deus (cuja vontade é impreterível) quem quis que o Infante (= os portugueses) sonhasse dominar os mares, desvendar o desconhecido e estabelecer a comunicação entre os povos e os continentes, a nível matéria e espiritual / cultural, isto é, que desse sonho nascesse a obra dos Descobrimentos.
           Assim, o Infante é o símbolo do herói, o agente por vontade divina, destinado a criar uma obra superior.
. A forma verbal «Sagrou» encerra grande expressividade:
‑contém conotações religiosas;
‑ evoca o nome próprio «Sagres», a escola de navegação fundada pelo Infante, símbolo do início da construção do império português;
‑ remete para o caráter mítico e predestinado do Infante, o escolhido por Deus para a execução da obra, daí que possamos também falar na sua divinização;
‑ traduz o caráter providencial e iniciático das Descobertas.
. O complexo verbal «foste desvendando» (v. 4) apresenta a ação como uma continuidade, como algo que se concretizou de modo progressivo; a forma verbal «desvendando» (desvendar = revelar, descobrir, mostrar), por outro lado, remete para a ideia de revelação de algo desconhecido.
. O sujeito poético dirige-se ao Infante na segunda pessoa do singular («Sagrou-te, e foste…» ‑ v. 4); «Quem te sagrou criou-te» ‑ v. 9; «Do mar e nós em ti…» ‑ v. 10), o que traduz uma relação de proximidade e de cumplicidade.

3) . A realização da obra, a sagração:
→ o início da navegação: «foste desvendando»;
→ a descoberta das ilhas da Madeira e dos Açores até à costa africana: «E a orla branca foi de ilha em continente»;
→ a passagem do Cabo das Tormentas: «até ao fim do mundo»;
→ o mar desconhecido a partir da zona do Cabo das Tormentas: «do azul profundo»;
→ a concretização:
. a união da terra: «E viu-se a terra inteira»;
. o seu caráter súbito: «de repente»;
. o aparecimento: «Surgir»;
. a ideia de origem, de profundidade; «azul profundo»;
. a presença do sinal (já na 3.ª estrofe).
. O percurso da obra:
a unificação do mundo alicerçou-se no mar (na «orla branca»);
por mar, atingiu-se uma ilha e depois um continente;
da escuridão se fez luz («clareou»), ou seja, da ignorância se passou ao conhecimento, a civilização ocidental encontrou-se com a oriental;
e assim se atingiu, «correndo», «o fim do mundo», assim se eliminaram as barreiras e os limites;
deste modo, do mar (do «azul profundo»), «de repente», irrompeu a unificação do mundo.
. A realização da obra é sugerida por Pessoa através do recurso a diversos recursos poético estilísticos:
. a gradação: começou por desvendar «ilha(s)» e «continente(s)», chegando ao «fim do mundo» e dando assim a conhecer «a terra inteira»;
. as metáforas e as sinédoques: «desvendando a espuma», «orla branca», «clareou, correndo»;
. a perifrástica «foste desvendando»;
. o gerúndio «correndo»;
. a locução adverbial «de repente»;
. as sugestões cromáticas e luminosas;
. a aliteração do /r/;
. o verbo «desvendar», que remete para a ideia de revelação;
. os adjetivos «inteira» e «redonda» aponta para a unificação da terra, concretizando-se assim o desejo expresso no verso 2. Por outro lado, «redonda» aponta para a «esfera», o símbolo da unidade e da perfeição cósmica.

3.ª parte (3.ª estrofe) – Conclusão:
. a transposição da glória do Infante para o povo português:
‑ Deus sagrou o Infante e criou-o português;
‑ enquanto tal, simboliza o povo a que pertence, o que significa que também ele foi assinalado, predestinado, escolhido por Deus para desvendar o mar desconhecido;
. o sonho cumpriu-se: o desvendar e a unificação dos mares e a criação do império (sonho simultaneamente nacionalista e universal);
. o sonho desfez-se: o império (do Oriente) desfez-se, pertence a outro tempo;
. a pátria, presentemente, não tem desígnio;
. o apelo ao cumprimento do destino mítico de Portugal: uma nova e espiritual missão («Senhor, falta cumprir-se Portugal!» ‑ v. 12). Trata-se do apelo a um novo sonho, de cariz espiritual, visto que a dimensão material do império já foi conseguida, ou seja, falta que Portugal se cumpra como pátria e entidade nacional (notar o uso do presente do indicativo para exprimir urgência). De notar que o sujeito poético se dirige agora diretamente a Deus, apontando para o desencadear de um novo ciclo que, no fundo, constitui o regresso ao início do poema: uma nova vontade divina, um novo sonho do homem e uma nova ação / obra.

         Mas, afinal, o que falhou em todo o processo? Porque se desfez o império? Deus quis, o homem sonhou e a obra nasceu, mas uma obra efémera, perecível, como tudo o que é material e humano. A culpa não é de Deus, já que ele sagrou e destinou o Infante e o povo português ao cometimento de feitos muito acima da sua condição de mortais. Mas como ser humano limitado, não houve continuidade para o império, que se desfez, daí que Pessoa aponte para a necessidade de Portugal se cumprir integralmente, de complementar com a dimensão espiritual a materialidade do império passado, novamente sob a predestinação divina.


A ação do Infante:
‑ representa o povo português («… e nós em ti nos deu sinal.» ‑ v. 10) e «foi desvendando [descobrindo, revelando] o mar», ultrapassando dificuldades;
‑ os seus esforços foram coroados de êxito («Cumpriu-se o Mar» ‑ v. 11); fisicamente, o mundo tornou-se um, a terra tornou-se una, os povos e continentes unificaram-se;
‑ o Infante é o herói que obtém a imortalidade através do cumprimento de um dever individual e pátrio;
‑ é também o herói que busca a universalidade, daí a utilização do artigo definido no título («O Infante») e em «o homem» (verso 1) com um valor universalizante;
‑ possui um caráter divino, dado que foi o eleito, o predestinado por Deus para o cumprimento desta missão; por extensão, como é português e representa o seu povo, a sua sagração significa a divinização do homem português;
‑ a sua sagração, a sua obra, tem como consequência o acesso ao conhecimento: dos limites geográficos do planeta, do mar, de outros povos, de outras culturas.


. Tom dramático do poema:
‑ a tensão emocional resultante da visão da terra redonda surgindo magicamente das profundezas do mar;
‑ as três personagens:
. o sujeito poético, que se dirige ao Infante e interpela Deus, significando este facto a existência de um diálogo (implícito), o que está de acordo com o caráter misterioso e messiânico do poema;
. Deus;
. o Infante.


Recursos poético-estilísticos

1. Nível fónico
. Estrofes: três quadras.
. Métrica: versos decassilábicos heróicos, acentuados nas 6.ª e 10.ª sílabas.
. Ritmo predominantemente ternário, alternando com o ritmo binário.
. Rima:
. esquema rimático: abab / cdcd / efef;
. cruzada;
. consoante;
. grave e aguda;
. pobre e rica.
         A rima permite que certas palavras-chave se encontrem em posições de destaque: «nasce», «uma», «mundo», «português», «sinal», «Portugal».
. Transporte: vv. 7-8.

2. Nível morfossintático
. Verbos:
‑ presente: discurso aforístico do primeiro verso;
‑ pretérito perfeito: narração de acontecimentos passados;
‑ regresso ao presente («Falta cumprir-se Portugal») a sugerir urgência, necessidade.
         Esta sucessão presente / passado / presente sugere a dialética hegeliana tese, antítese, síntese e seu retorno.
. Adjetivos: «redonda», «inteira» ‑ designam um mundo circular, fechado, uno, todo.
. Frases curtas, correspondendo seis a um verso.
. Assíndeto: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce».

3. Nível semântico
. Vocabulário de conotações simbólicas:
‑ «sagrou-te»: talvez ligada à palavra «Sagres», sugere a escolha do Infante para uma missão divina («Deus quer»);
‑ o uso de maiúsculas (Mar, Império);
‑ «mar»: simboliza o desconhecido, o mistério, daí as expressões «desvendar a espuma», isto é, desfazer o mistério, descobrir, ultrapassando as dificuldades que se lhe deparam; é, pois, o traço de união de ilhas e continentes (vv. 2-3); «nos deu sinal», ou seja, dar a chave para decifrar o mistério;
‑ «espuma» (branca), «orla branca» (é o sulco de espuma deixado pelos navios portugueses; simboliza o longo percurso que tiveram de percorrer para que a empresa dos Descobrimentos se concretizasse), «clareou», «surgir» (sair das sombras, revelar-se, conhecer), «do azul profundo» (do mar imenso e profundo, é o símbolo do desconhecido, em oposição ao «clarear», que é o revelado): estas expressões sugerem a passagem do mistério para a descoberta, para o conhecimento, passagem caracterizada como repentina, espetacular, miraculosa; assim o sugere a expressão «E viu-se a terra inteira, de repente, / Surgir redonda…»;
‑ a visão da «terra redonda», surgida repentinamente, sugere a ideia de que a obra dos portugueses é a realização de um plano divino. O redondo, a esfera. É o símbolo da perfeição cósmica, da unidade (do mundo), da obra completa e perfeita que Deus quis: «Deus quer… / Deus quis que a terra fosse toda uma…»;
‑ as cores:
. azul: ligada ao mistério, ao desconhecido (o mar);
. branco da espuma vem clarear e revelar a «terra inteira, de repente»;
‑ o Infante: representa o povo português, mas também surge como o símbolo do homem universal, o herói que realizou um sonho que era vontade de Deus.
. Imagem e personificação: «E a orla branca (…) correndo, até ao fim do mundo», a sugerir a rapidez imparável das Descobertas.
. Gradação: «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», para explicar a lógica da relação Deus / Homem / obra. De acordo com as segunda e terceira estrofes, a obra nasceu, o mar passou a unir em vez de separar, o império cumpriu-se e desfez-se.
. Apóstrofe: «Senhor».

5 comentários :

Anónimo disse...

Bravo!!

Sofia disse...

Bravo? Copiado de livros e sem referências.

Filoctetes Melibeia disse...

Há muitos anos, um professor de literatura grega ensinou o seguinte: os poemas homéricos «têm lá dentro tudo»; os autores que lhes sucederam no tempo limitaram-se a reescrevê-los com outra roupagem.

Creio que foi Eça quem disse que, basicamente, escreveu um livro original e que os restantes eram a sua reescrita, alterando as personagens, o tempo e os lugares.

Anónimo disse...
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Anónimo disse...
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