segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sebastianismo


     A derrota em Alcácer Quibir e o desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir, em 1578, deixaram Portugal na orfandade e sob o domínio castelhano. Esta situação inspirou vários escritores que viram no acontecido o desfazer do sonho de um grande império. Só uma fé messiânica nos poderia salvar da degradante situação.
     Gonçalo Anes, de alcunha o Bandarra, sapateiro de Trancoso, inspirado na Bíblia, cantou em trovas um tempo novo simbolizado pelo rei D. Sebastião, o Encoberto, libertador da opressão e da miséria do povo e da "erronia" do mundo. Compostas entre 1530 e 1540, as Trovas de Bandarra resultariam na expressão mais relevante do messianismo anterior a D. Sebastião, com base no profetismo hebraico (crença na vinda do Messias), no mito peninsular do Encoberto e nas reminiscências das lendas do ciclo arturiano (o rei Artur desapareceu, está guardado numa ilha e regressará), dando origem a uma doutrina e a um mística: o SEBASTIANISMO, de que D. Sebastião permanecerá como símbolo por excelência.
     A sociedade não se reconhecia a si própria e nela confluíram antagonismos e projetos, em refletida crise de identidade nacional potenciada, a partir de meados do século XVI, pelas oscilações vitais na dinâmica estrutural do Império Português. Assim, sublimou em D. Sebastião a vontade de um povo no reforço e dilatação do Império e na reafirmação do seu papel de guardião da fé cristã, retratada nas obras de Camões, Diogo Bernardes e Pêro de Andrade Caminha, que a morte do rei, porém, tão abruptamente obliterou.  Durante o domínio filipino, sob um pulsar nacionalista, suceder-se-iam os episódios de aventureiros que, fazendo-se passar por D. Sebastião ou encarnando a esperança no Encoberto, insidiosa e teimosamente mantiveram vivo e consubstanciaram o desejo de libertação do jugo espanhol em Portugal.
     Após a Restauração, no período brigantino, o mito do Encoberto seria transposto para D. João IV, em adequação do profetismo anterior às novas realidades políticas. O reinado de D. João IV, porém, em resultado das vicissitudes de uma continuada guerra com Castela e de dissidências e dificuldades financeiras internas, não concitaria a unanimidade dos anelos proféticos, pelo que se sucederia a identificação do Encoberto em futuros monarcas, D. Afonso VI, D. Pedro II ou D. João V. Nesta época merece destaque o papel do Padre António Vieira. De facto, Vieira, norteando alguns dos seus sermões por uma fé providencialista que terá orientado, desde a batalha de Ourique, este povo, apoiado em profundos conhecimentos teológicos e bíblicos, augurava a formação de um grandioso império espiritual e temporal  -  o QUINTO IMPÉRIO  -  que haveria de suceder aos quatro anteriores (o Assírio-Babilónico, o Persa, o Grego e o Romano) e cuja liderança caberia a Portugal. Em simultâneo, o seu escrito Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo, que lhe valeria a prisão pelo Santo Ofício da Inquisição, consagrava ainda, em continuidade de posições anteriores, a ressurreição de D. João IV, por forma a realizar múltiplos prodígios contra o Judeu e o Turco, em cujos delineamentos não estariam ausentes as profecias de Bandarra.
         Na múltipla expressividade da sua trajectória histórica evidenciaram-se, durante o reinado de D. José, duas correntes sebastianistas, a dos ortodoxos ou puritanos, continuadores das antigas profecias reportáveis ao regresso de D. Sebastião, e a dos singelistas ou jacobeus, defensores do ideário do Quinto Império e liderados pelo bispo de Coimbra, D. Miguel da Anunciação, as quais, endereçando algumas críticas à administração do Marquês de Pombal, a coberto de pretensas interpretações das Trovas de Bandarra, se tornaram alvo da tenaz perseguição do ministro de D. José, que não deixaria igualmente impunes os textos de Bandarra, apreendidos e queimados em auto-de-fé no Terreiro do Paço. Seria, porém, no reinado de D. João VI, em consequência da ameaça das invasões francesas, que se verificaria um recrudescimento do sebastianismo, flutuante entre a pessoa do rei e D. Miguel.
          Revelador deste recrudescimento e seu matiz nos começos do século XIX, o opúsculo de José Agostinho de Macedo Os Sebastianistas, Reflexões sobre esta Ridícula Seita refere, apesar do seu caráter manifestamente reactivo ao sebastianismo, que "já não vemos os Franceses, mas ainda vemos, suportamos e aturamos os sebastianistas, atroz flagelo, causa contínua da nossa infâmia, e que por vezes nos tem feito passar no conceito de estranhos por um povo de estúpidos e semibárbaros. Que pode esperar uma nação, disse e escreveu um franchinote, onde metade do povo espera o Messias e a outra metade el-rei D. Sebastião?". Acentue-se ainda que, ao longo do século XIX, sucessivas edições das Trovas, algumas bem distantes já da sua versão original, numerosos folhetos sebastianistas e obras literárias testemunham não só a vulgarização do sebastianismo, como a sua progressiva entronização, sobretudo a partir de meados do século, na esfera literária e cultural, na qual presidirão a um sentimento e um pensamento de renovação nacional em que assumem proporções de vulto Afonso Lopes Vieira e Fernando Pessoa. Ainda no século XIX, vários outros escritores retomaram este sonho. Garrett, em Frei Luís de Sousa, põe na boca de Telmo palavras diretas de fé sebastianista. Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Silva Gaio foram, entre outros, alguns dos escritores que exaltaram a mística sebastianista.
     No século XX, Teixeira de Pascoaes associou o sebastianismo ao saudosismo e anunciou o renascimento da Pátria. Muitos poetas e prosadores trataram este assunto, mas foi Fernando Pessoa quem escreveu o mais famoso dos livros, Mensagem (1932), no qual anunciava para breve o Quinto Império.
     Atualmente, a chama vai-se apagando, se bem que no coletivo da nação ainda não tenha morrido. Todavia, a rápida evolução da sociedade, as novas tecnologias, a formação de blocos económicos e políticos deixam ver que o destino de qualquer país está nas suas mãos, ou para o bem ou para o mal.

     Logo na segunda cena da peça de Almeida Garrett, fundem-se dois motivos do regresso do rei quando Madalena diz a Telmo: «mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade, -  esses contínuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família...».
     No Sebastianismo, como ele é representado no Frei Luís de Sousa por Telmo e Maria ("o nosso rei", diz Maria em I, 3), reside não somente a crença em que o rei ao voltar (o «Encoberto») conduzirá a uma época de brilho para Portugal. Com efeito, infiltraram-se nele concepções messiânicas mais antigas e relativas ao fim próximo do mundo. Com Sebastião começará uma nova época mundial do direito e da grandeza, a qual será a última no plano divino da salvação dos homens.
     O regresso que se realiza no Frei Luís de Sousa é um anti-regresso. Não leva à redenção, mas à catástrofe, e não é uma «graça», mas sim uma «des-graça». O nimbo messiânico à volta do mito sebástico paira à volta do regresso destruidor de D. João de Portugal. O próprio drama obriga-nos à representação concreta de tais relações. Em III, 11, chama Maria a D. João «homem do outro mundo», «anjo terrível», falando das suas visões. E quando, na cena seguinte, o vê e ouve, ela grita: «É aquela voz, é ele, é ele!». Parece ser uma fraqueza artística a maneira como Garrett se aproveita, aqui, das visões de Maria. É como se Garrett tivesse duvidado dos efeitos adequados do motivo «sebastianista» por si só.

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