domingo, 25 de novembro de 2012

"Vem sentar-te comigo, Lídia..."

            No início do poema, o sujeito poético, situado num espaço bucólico, através da apóstrofe presente no primeiro verso (que, juntamente com o recurso ao modo imperativo e ao presente do conjuntivo, remete para a existência de um interlocutor a quem o discurso é dirigido e cuja elaboração desvanece o individualismo de Ricardo Reis, que, assim, procura ultrapassar o negativismo do ortónimo, fechado em si mesmo), convida Lídia a sentar-se consigo e a contemplar o rio e a sua corrente como metáforas da brevidade e transitoriedade da vida e do fluir do tempo (“fitemos o seu curso”, v. 2), numa atitude de observação, passividade e de não intervenção. A vida é, assim, apresentada como uma viagem que flui como um rio e cujo fim é inevitável e inexorável. De facto, esse convite transforma-se, logo de seguida, num exercício intelectual (“aprendamos” – v. 2; “pensemos” – v. 5) – a razão deverá predominar sobre a emoção. Assim, a partir da observação e interação com a Natureza, comandada pela razão (“aprendamos”), ele convida-a a aprender uma lição: tal como o rio, a vida passa e não volta (recorde-se, a este propósito, Heraclito, que afirmou que ninguém se banha duas vezes na mesma água do rio, símbolo, portanto, da constante mudança do indivíduo e do seu percurso a caminho do fim). Esta é, em suma, a lição de vida que o «eu» pretende transmitir a Lídia.
            Essa constatação da brevidade da vida é aceite de modo sereno e conduz ao desejo de fruir o momento e assumir compromissos. Note-se, a propósito, os parêntesis do verso 4, que funcionam como uma espécie de aparte, uma hipótese transitória: o raciocínio do sujeito poético é, momentaneamente, quebrado pelo impulso amoroso de “entrelaçar as mãos”, expressando o desejo de fruir o momento presente, único bem que nos é dado possuir. Esta atitude é compreensível em quem (re)toma consciência da brevidade da vida, no entanto é um mero instante de “distração”, uma mera hipótese que jamais se concretiza. Porém, rapidamente o sujeito poético conclui pela rejeição de qualquer compromisso com Lídia. Da constatação de que “não estamos de mãos enlaçadas” (v. 3), parte para a possibilidade de “Enlacemos as mãos” (v. 4), que seria uma hipótese possível de relacionamento amoroso, mas que, analisada a situação, se afigura inconsequente. Daí a afirmação do verso 9. Em suma, este enlaçar de mãos (v. 4), a simbolizar o compromisso, o adotar atitudes e decisões, o «fabricar» qualquer coisa que fique, não é, portanto, mais do que uma hipótese, cuja concretização de nada valeria.
            No início da segunda estrofe, o sujeito poético reforça o apelo à racionalidade (“pensemos”). De seguida, o paradoxo “crianças adultas”, em forma de modificador do nome apositivo, destaca a Natureza paradoxal dos amantes que, apesar de possuírem a ingenuidade das “crianças”, aludida na primeira estrofe, são, afinal, adultas, por isso sujeitas ao pensamento, que as obriga a reconhecer a passagem do tempo, a efemeridade da vida, a qual não depende do sujeito, e a morte, representada pela imagem eufemística do “mar muito longe” (v. 7), onde todos os rios (todas as coisas humanas) vão desaguar. O sujeito poético e Lídia têm uma consciência “adulta” de que a passagem do tempo é inexorável e de que a vida é efémera. Por isso, adotam uma postura de rejeição estoica ao desenvolvimento amoroso, mantendo uma ligação pura e sem paixão, como se fossem crianças. De facto, na hierarquia do comando da vida humana, a posição mais alta cabe ao Fado / Destino, entidade a quem até os deuses obedecem, ideia expressa pela comparação dos versos 7 e 8. Recorde-se, a este propósito, a passagem da Ilíada em que Zeus, podendo salvar o seu filho Sarpédon, não o fez, porque sabia ser vontade do Destino que ele morresse.
            Dito de outra forma: porque a vida é fugaz e eles não estão de mãos dadas (não estabeleceram laços, não se comprometeram, nada produziram que dure), talvez fosse oportuno enlaçarem as mãos. Porém, refletindo melhor (possuidores da racionalidade do adulto e, simultaneamente, da ingenuidade das crianças), a fugacidade da vida é tão desconcertante (notar o paralelismo de construção “a vida passa e não acaba” – pleonasmo – e “nada deixa e nunca regressa”) que definitivamente o sujeito poético se decide pela não assunção de qualquer compromisso afetivo.
            A terceira estrofe inicia-se com a afirmação do refrear do impulso amoroso por parte do sujeito poético (“Desenlacemos as mãos” – v. 9) e que se prolonga pelo resto da composição (vv. 17, 19-20 e 21-22), que vai num crescendo de passividade que culmina numa atitude de quase indiferença. Ou seja, em consequência da reflexão que desenvolve sobre a vida, o sujeito poético decide desenlaçar as mãos das de Lídia, por considerar que se trata de um dos “desassossegos grandes” (v. 12), isto é, compromissos ou emoções / sentimentos extremos (“amores” – v. 13; “ódios” – v. 13; “paixões” – v. 13, “invejas” – v. 14 – enumeração gradativa sindética) e as preocupações que lhes são inerentes (“cuidados” – v. 15), que podem impedir que viva “silenciosamente” (v. 11), ou seja, em tranquilidade, sem agitação. Ao evitar esses “desassossegos”, o sujeito poético atinge a ataraxia desejada, pois não vale a pena qualquer esforço, dado que, “quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio” (v. 10). Dito de outra forma, o sujeito poético tem consciência de que o que quer que façamos (ou não façamos) não vai ter qualquer influência na nossa vida que, implacável e inexoravelmente, seguirá o seu curso em direção à morte. Assim, dada a efemeridade da vida, ele justifica o desenlace das mãos com a inutilidade do cansaço que esse gesto implica, isto é, as ligações, os afetos e os compromissos não valem o esforço.
            Esta filosofia de vida é clara e consiste na abdicação voluntária e consciente face aos sentimentos e prazeres da existência. Se o curso desta é irreversível e “passamos como o rio” (comparação ‑ v. 10), “não vale a pena cansarmo-nos” (v. 9) com sentimentos que perturbem essa passagem. Estilisticamente, aquela é sugerida pela repetição da preposição “sem” (vv. 12-13) e da conjunção coordenativa copulativa “nem” (vv. 13-15), que concorrem para intensificar a ideia de recusa, introduzindo a enumeração dos sentimentos e das ações que se rejeitam, em prol da tranquilidade desejada.
            Na quinta estrofe, o sujeito poético «sugere» a Lídia que se amem tranquilamente (v. 17), ou seja, sem os excessos decorrentes do envolvimento físico ou de sentimentos intensos. Note-se como esta atitude de passividade e de quase indiferença é de caráter voluntário (“podíamos / se quiséssemos”), dado que existe a possibilidade de um envolvimento físico e emocional intenso: “trocar beijos e abraços e carícias” (v. 18) – notar a enumeração e o polissíndeto ‑, e está dependente da sua vontade, determinada pela constatação racional da inexorabilidade da vida. Por essa razão, opta por uma existência caracterizada pela ataraxia, traduzida pelos advérbios “tranquilamente” (v. 17) e “sossegadamente” (v. 23). Assim, o sujeito poético e Lídia ficarão sentados, lado a lado, ouvindo e vendo correr o rio, isto é, assistindo à passagem da vida, apenas como mais um elemento natural, como as flores e o rio, enquanto “Pagãos inocentes da decadência” (v. 24), metáfora que aponta para o paganismo de Reis: dois pagãos despreocupados com a passagem do tempo, com o declínio e a degeneração que aquela acarreta (“não cremos em nada” – v. 23).
            Ora, esta decisão do sujeito poético tem como finalidade evitar as sensações extremas e as perturbações que implicam. Por outro lado, trata-se de uma forma de integrar o curso regular e inevitável do mundo (traços epicuristas). Além disso, é evidente a preocupação com a aceitação das forças superiores do universo (os deuses, o fado), através da adoção de um estado de apatia conseguido por meio da recusa das paixões e da imitação da Natureza. Assim, conjugando os princípios epicuristas e estoicos, o sujeito poético atinge o estado que permite não recear a morte, o destino, etc.
            Ao longo das estrofes, a mensagem / a lição moral do sujeito poético assenta no uso de frases de tipo imperativo com os verbos no modo imperativo (“pega”) e no presente do conjuntivo (“Desenlacemos”, “Amemo-nos”) com a utilização de advérbios de modo (“silenciosamente”, “tranquilamente”, “sossegadamente”).
            As duas estrofes finais constituem a conclusão do poema, a justificação da recusa aos fugazes prazeres da vida: é a única forma de evitar o sofrimento causado pela antevisão da morte. A ausência de perturbação e de emoções fortes durante a vida evita o sofrimento quando chegar a morte. No momento inevitável da separação, quando a morte chegar, o sofrimento não será tão penoso. Neste contexto, o tempo verbal utilizado é o futuro (do indicativo e do conjuntivo: “lembrar-te-ás”, “terei”, “for”) que indicam factos posteriores ao momento da enunciação e têm um efeito de antecipação.
            O sujeito poético propõe a Lídia uma relação tranquila, contida, sem envolvimento nem paixão, nem sequer emoção, como única forma de evitar o sofrimento provocado pela separação que a morte de um deles acarreta. Esse medo é tão grande que a morte não é nomeada senão através de eufemismos (vv. 25 e 29).
            Os eufemismos utilizados para referir a morte contribuem para a sua apresentação como algo leve e natural que corresponde ao curso indeclinável da Natureza e da vida. De acordo com os princípios estoicos e epicuristas, a morte não trará sofrimento se a vivência não fizer “sofrer” (v. 30).
            Os seres humanos devem procurar uma existência semelhante à dos elementos naturais. Assim, aceitando-se efémeros, reconhecem-se nas “flores” (v. 21) transitórias e no “rio” (vv. 1, 10, 15 e 20) que segue de forma irreversível o seu curso, tal como os humanos devem aceitar o destino que lhes coube.

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