quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Realismo e Naturalismo (1865-1890)

1. Origem do vocábulo Realismo
  • O vocábulo realismo é constituído pelos vocábulos real (do latim "res", que significava «facto», «coisa») e ismo, que significava «partido», «escola», «doutrina».

2. Origem do movimento realista
  • O termo realismo (de origem francesa) foi usado pela primeira vez pelo pintor Gustave Coubert, em 1855, ao intitular a sua exposição de arte, realizada em Paris, como Le Réalisme. Por outro lado, a primeira obra realista foi Madame Bovary, publicada em 1857, da autoria de Gustave Flaubert.
  • Em Portugal, é consensual que o Realismo nasceu com a Questão Coimbrã, em 1865.

3. Origem do Naturalismo
  • O Naturalismo surgiu de dentro do Realismo como uma corrente literária motivada pela intensificação das suas características. A primeira obra naturalista é Thérèse Raquin, datada de 1867 e da autoria de Émile Zola.

4. O Realismo na Europa
  • O Realismo é um movimento literário que surgiu na Europa, na segunda metade do século XIX, influenciado pelas transformações que ali se operavam no âmbito económico, político, social e científico, em oposição ao Romantismo e aos excessos de lirismo e de imaginação.
  • Economicamente, vivia-se a segunda fase da Revolução Industrial, período marcado pelo clima de euforia e progresso material que a burguesia industrial experimentavam em virtude das inúmeras intervenções possibilitadas pelas descobertas científicas e tecnológicas  No entanto, apesar dos benefícios trazidos à burguesia, a condição social do proletariado era cada vez pior. Motivados tanto pelas ideias do socialismo utópico, principalmente de Proudhon e Robert Owen, quanto pelas ideias do socialismo científico, defendidas por Karl Marx e Friedrich Engels, os operários procuram organizar-se politicamente. Fundam então associações trabalhistas e passam a exigir melhores condições de trabalho e de vida.
  • No campo científico e cultural, destacam-se diversas ideias e correntes: o positivismo de Augusto Comte, para o qual o único conhecimento válido era o conhecimento positivo, isto é, que provinha das ciências; o determinismo de Taine, que defendia que o comportamento humano era determinado por três fatores: o meio social, a hereditariedade / a raça e o momento histórico; a lei da seleção natural, de Charles Darwin, segundo a qual a natureza ou o meio selecionam, entre os seres vivos, as variações que estão destinadas a sobreviver e a perpetuar-se, sendo eliminados os mais fracos. Nos domínios da Física, da Química, da Biologia e da Medicina, ocorreram avanços significativos e foram lançados os fundamentos de três novas disciplinas: a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia.
  • Perante este panorama, os escritores sentiram a necessidade de criar uma literatura sintonizada com a nova realidade, capaz de abordá-la de modo mais objetivo e realista do que até então vinha fazendo o Romantismo. As descobertas científicas, as ideias de reformas políticas e de revolução social exigiam dos escritores, por um lado, uma literatura de ação, comprometida com a crítica e a reforma da sociedade, e, por outro, uma abordagem mais profunda e completa do ser humano, visto agora à luz dos conhecimentos das correntes científico-filosóficas da época. Apareceu então o Realismo, cujas principais ações passou pelo combate a toda a forma romântica e idealizada de ver a realidade; pela crítica à sociedade burguesa e à falsidade dos seus valores e instituições (Estado, Igreja, casamento, família); pelo embasamento do materialismo, o emprego de ideias científicas; pela introspeção psicológica das personagens; pelas descrições objetivas e minuciosas; pela lentidão do ritmo narrativo...
  • Os três movimentos associados a este período (Realismo, Naturalismo e Parnasianismo) surgiram em França, com a publicação do romance realista Madame Bovary (1857), de Flaubert; do romance naturalista Thérèse Raquin (1867), de Zola, e das antologias parnasianas Parnasse Contemporain (a partir de 1866).
  • De facto, em França, ao lado do Realismo surgiram igualmente outras duas correntes literárias - o Naturalismo e o Parnasianismo -, de pequena penetração em Portugal. A primeira procurava provar, através do romance de tese, as teorias científicas da época, particularmente o determinismo. O Parnasianismo, por sua vez, era uma corrente que combatia os exageros de sentimento e de imaginação do Romantismo e tentou resgatar certos princípios clássicos de procedimento, como a busca do equilíbrio, da perfeição formal e o emprego da razão e da objetividade.

5. O Realismo em Portugal
  • A Questão Coimbrã é apontada como o marco introdutório do Realismo em Portugal. Nessa época, haviam cessado finalmente as lutas entre liberais e as fações que representavam a velha monarquia deposta pela revolução de 1820. Consolidado o liberalismo, Portugal conheceu, a partir de 1850, um período de estabilidade política, de progresso material e de intercâmbio com o resto da Europa. Coimbra, então um importante centro cultural e universitário da época, ligou-se em 1864 diretamente à comunidade europeia por meio do caminho de ferro. Contudo, do ponto de vista literário, predominavam ainda velhas ideias românticas.
  • O primeiro romance realista português é O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós.

6. Características do Realismo
  • O Realismo é uma reação contra o Romantismo, contra os excessos, contra o idealismo artificial e formalista e as atitudes emocionais enfáticas e hiperbólicas dos românticos, defendendo a análise, síntese e exposição da realidade com verdade e neutralidade do coração. Perante o bem e o mal, o vício e a virtude, o belo e o feio, o escritor realista não deixará transparecer qualquer emoção. É uma literatura anti-idealista e que combate a evasão romântica, interessando-se pela realidade circundante, pela análise social e pelo contemporâneo.
  • O Realismo é a negação da «arte pela arte».
  • É uma literatura engagé, isto é, comprometida ou empenhada, humana e / ou socialmente. A arte realista mantém um compromisso com a sua época e com a observação do mundo objetivo e exato. Como proclamará Antero de Quental em Odes Modernas, "A Poesia é a voz da Revolução".
  • O Realismo visa uma análise exata da vida, do mundo e dos seus vícios. De facto, os realistas desnudam e atacam a imoralidade, os vícios, os maus costumes, os aspetos baixos da vida / sociedade contemporâneas.
  • O Realismo dá preferência ao presente contemporâneo do escritor. Assim, a crítica social ficaria mais próxima e mais concreta. Nesse sentido, a literatura ganha um papel de denúncia do que de mau existe na sociedade.
  • Reflete ideais republicanos e socialistas e marcas da ideologia materialista e do reformismo liberal.
  • Os temas mais cultivados pelos escritores realistas são temas cosmopolitas e de incidência coletiva:
  • a representação da vida burguesa, naquilo que ela possa ter de mais desagradável ou negativo, em certos aspetos da sua existência económica (a usura, a ambição, a avareza, a cobiça, a corrupção, etc.);
  • a representação da vida urbana, porque é nos grandes meios sociais, nas cidades, que as tensões sociais, políticas e económicas, resultantes ainda de um comportamento condenável da burguesia, mais se agudizam;
  • a análise das relações e dos conflitos sociais, resultantes de grandes desníveis entre classes;
  • a representação do sofrimento social e moral, da frustração, da opressão, da corrupção e do vício, em consequência de erros e injustiças sociais, económicas ou políticas;
  • o adultério, a frivolidade;
  • a educação, o jornalismo, a política, o parlamentarismo.
  • A forma privilegiada pelo Realismo é o romance.
  • A narração articula-se com a descrição, intercalando a representação de uma ação com a descrição de espaços sociais (Os Maias).
  • O Realismo procura a objetividade, a análise impessoal e minuciosa / pormenorizada da realidade que critica.
  • Procura o retrato fidelíssimo da Natureza, ao contrário do Romantismo, que a idealizava.
  • Faz uso da personagem-tipo, que permite a reflexão crítica sobre o Homem e os seus problemas (basta atentar, a título exemplificativo, na extensa galeria de tipos sociais presentes em Os Maias).
  • A construção da personagem está em conexão com o mundo profissional, cultural, económico, social e psicológico.

7. Características do Naturalismo
  • A literatura naturalista é a expressão dos progressos da ciência (Fisiologia, Sociologia, estudo dos carateres, da evolução, da influência do meio, etc.). O Naturalismo deve socorrer-se do método fisiológico, ou seja, deve descrever as emoções através das suas manifestações físicas, com base no estudo das fisiologias.
  • O romance naturalista inspira-se na vida quotidiana, comum, procurando a análise rigorosa do meio social e de aspetos patológicos.
  • É uma corrente influenciada pela ciência e pela filosofia do século XIX, nomeadamente pelo Determinismo (o Homem está preso a um destino que ele não consegue mudar) e pelo Positivismo de Comte.
  • Os temas fundamentais do romance naturalista (experimental) são os seguintes:
  • a opressão social e a miséria, como resultado de conflitos de interesses, denunciando as suas causas económicas, políticas e sociais;
  • o adultério, como denúncia de determinado modo de vida resultante duma errada educação romântica;
  • o alcoolismo, como deformação social e dos carateres;
  • o jogo, encarado como consequência de determinadas situações de injustiça;
  • a doença (por exemplo, a loucura), enquanto manifestação de taras hereditárias.
  • O Naturalismo procura explicar cientificamente o comportamento do homem com base em três fatores: a hereditariedade, o meio ambiente e a educação / o momento histórico. Os fenómenos humanos são consequências inevitáveis destas determinações.
  • A forma literária adotada foi o chamado romance experimental, resultante da aplicação dos princípios da observação e da experimentação, adotados inicialmente na investigação científica.
  • Procura a análise das circunstâncias sociais que envolvem as personagens.
  • Manifesta preocupações socioculturais e objetiva a crítica dos costumes, como o Realismo.
  • Usa a indução e os métodos experimentais; descreve, por exemplo, as emoções, justificando as manifestações físicas pelos estudos fisiológicos e de carateres. Procura a anatomia do caráter.
  • Dá relevo à importância das leis da Natureza.

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