Português: O Meu Pé de Laranja Lima
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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Análise de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

 I. Vida de José Mauro de Vasconcelos


II. Obras


III. Obra


IV. Época


V. Ação

        1. Resumo

        2. Estrutura

        3. Resumo dos capítulos

                3.1. Primeira parte

                        3.1.1. Primeiro capítulo

                        3.1.2. Segundo capítulo

                        3.1.3. Terceiro capítulo

                        3.1.4. Quarto capítulo

                        3.1.5. Quinto capítulo

                3.2. Segunda parte

                        3.2.1. Primeiro capítulo

                        3.2.2. Segundo capítulo

                        3.2.3. Terceiro capítulo

                        3.2.4. Quarto capítulo

                        3.2.5. Quinto capítulo

                        3.2.6. Sexto capítulo

                        3.2.7. Sétimo capítulo

                        3.2.8. Oitavo capítulo

                        3.2.9. Último capítulo


VI. Análise dos capítulos

        1. Título da 1.ª parte

        2. Capítulo I

                2.1. Título

                2.2. Ação

                2.3. Caracterização das personagens

                        a) Zezé

                        b) Totoca

                        c) Mãe

                        d) Tio Edmundo

                        e) Pai de Zezé

                2.4. Espaço

                2.5. Tempo

                2.6. Narrador

                2.7. Simbologia

                2.8. Temas

        3. Capítulo II

                3.1. Título

                3.2. Ação



O tempo do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Tempo da ação
 
● O tempo cronológico do capítulo é linear, acompanhando um período muito curto – parte de um dia –, em que Zezé passeia com Totoca pela rua, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, questiona, recorda a canção da mãe, recorda como aprendeu a ler sozinho e ouve do irmão a explicação sobre a mudança de casa.
 
● Os eventos são apresentados segundo uma sequência cronológica: saída de casa caminha atravessamento da estrada diálogo memórias regresso a casa.
 
● Embora não existam referências exatas / concretas a datas, existem indícios (carroças, lampião de petróleo, falta de luz elétrica) que remetem para as décadas de 1920 ou 1930.
 
b) Tempo do discurso
 
● O capítulo é caracterizado por uma alternância entre o presente narrativo (a voz da memória) e o passado (daí o recurso ao pretérito perfeito e imperfeito) da infância, recordado pelo narrador.
 
● O discurso é fragmentado, isto é, a narração cronológica é cortada por analepses. Por exemplo, o diálogo entre os irmãos, enquanto caminham pela rua, é interrompido pela memória da mãe a lavar a roupa. Mais tarde, ocorre novo recuo no tempo, nova analepse, para dar conta que Zezé deu a entender, há alguns dias, ao tio Edmundo que sabia ler. Esta ausência de linearidade do discurso mostra o modo como a memória infantil emerge aos saltos, consoante os pensamentos do narrador-personagem.
 
 
c) Tempo histórico
 
● A narrativa decorre no Brasil do início do século XX, provavelmente algures nas décadas de 1920 ou 1930, como se pode depreender dos seguintes dados:
- a mãe de Zezé lava roupa para famílias ricas, uma tarefa desempenhada por mulheres que habitavam em bairros suburbanos da época;
- as referências a carroças ou ao lampião de petróleo, substituto nos casos de ausência de eletricidade, e à precariedade de infraestruturas urbanas;
- a estrada Rio-São Paulo, símbolo do início de uma ligação moderna entre cidades, começou a ser construída nos anos 20 do século XX;
- as questões do desemprego do pai de Zezé, das dívidas da família e a luz cortada retratam a vulnerabilidade das classes trabalhadoras urbanas nesse período;
- as referências ao Moinho Inglês e a “Mister Scottfield” constituem marcas da presença de empresas estrangeiras no Brasil.
 
● Por outro lado, ao longo do capítulo, são identificáveis traços característicos do Brasil da época:
- as desigualdades e os contrastes sociais: famílias ricas, patrões estrangeiros, operários, trabalhadores domésticos;
- a infância pobre não tem direitos nem proteção social;
- a existência de trabalho infantil (Totoca ajuda na missa para ganhar uns trocados).
 
d) Tempo psicológico
 
● O tempo psicológico é o tempo subjetivo, o modo como o narrador-personagem vive o tempo no seu interior (as memórias, as emoções, os pensamentos).
 
● O tempo psicológico flui sem uma ordem cronológica rígida: enquanto os dois irmãos caminham, Zezé «viaja» pelo passado (a recordação da mãe a lavar no tanque), pelo sonho (Raio de Luar) ou por dentro de si (o canto interior).
 
● A recordação da canção de marinheiro prolonga-se muito mais na mente do que no tempo real, mostrando como a memória afeta a duração dos eventos na narrativa.
 
● Por outro lado, o tempo psicológico é um tempo sensível, fragmentado, marcado por uma tristeza difusa que Zezé não compreende. É o «espaço» onde a criança se defende da realidade dura e cruel através da imaginação (o canto, o sonho, o cavalo Raio de Luar).
 

O espaço do capítulo I (1.ª parte) de O Meu Pé de Laranja Lima

 
a) Espaço físico
 
i) O bairro e a rua
 
● A ação decorre num bairro pobre do Rio de Janeiro, concretamente o bairro de Bangu.
 
● Um dos espaços geográficos ocupado pelas personagens é a rua, um espaço aberto que possibilita alguma liberdade física a Zezé: nela, anda de mãos dadas com Totoca, aprende a atravessar a estrada Rio-São Paulo, observa o que o rodeia, faz perguntas.
 
● A rua é um espaço real, concreto, quotidiano, que ganha uma dimensão simbólica, visto que é nela que Zezé aprende a vida fora de casa.
 
● Outro espaço focado é a estrada Rio-São Paulo, caracterizada por um trânsito intenso que representa grande período, por isso Zezé tem que aprender a atravessá-la.
 
● Há ainda referência ao quintal da casa do Tio Edmundo e ao cesto de roupa suja, espaços domésticos concretos, mas são apenas produto da evocação por meio da memória, não cenário de ação.
 
ii) A casa da família
 
● O espaço doméstico surge, no primeiro capítulo, em retrospetiva, através da memória de Zezé, nomeadamente o tanque onde a mãe lava roupa para ganhar dinheiro, o quintal onde se apanha goiaba, o cesto de roupa onde a criança escondeu os óculos do Tio Edmundo.
 
● Esses espaços interiores estão associados à rotina dura, à disciplina (sovas), mas também à música (a canção da mãe).
 
● A casa é um espaço de regras e de repressão.
 
● Em suma, trata-se de um espaço humilde, suburbano, pobre, caracterizado por um quotidiano onde natureza e cidade se misturam.
 
b) Espaço psicológico
 
i) O interior de Zezé
 
● O capítulo dá-nos conta do universo interior do narrador: é nele que existe o passarinho que canta por dentro, quando não pode cantar em voz alta.
 
● É um espaço de imaginação viva: Zezé inventa um cavalinho de pau chamado Raio de Luar, sonha ser um poeta com gravata de laço, recorda as canções da mãe como se fossem um refúgio.
 
● O espaço psicológico vai para além da rua, projetando-se no passado (a mãe a lavar a roupa) e no futuro (o sonho de ser poeta).
 
ii) O refúgio contra a dura realidade
 
● Zezé sofre violência física, por isso encontra refúgio e proteção dentro do mundo que cria, um refúgio contra a violência e a repressão doméstica.
 
● O próprio evento de aprender a ler sozinho é mais psicológico do que físico, visto que constitui uma proeza do imaginário infantil, um «milagre» que ninguém explica.
 
iii) Conflito interno
 
● Zezé oscila entre a curiosidade e o medo, a alegria e a tristeza, o orgulho e a vergonha.
 
● Quando recorda a canção da mãe, sente uma tristeza profunda, mas não sabe explicar a razão desse sentimento.
 
● No momento em que Totoca o ameaça, sente vergonha.
 
c) Espaço social
 
i) A pobreza
 
● Zezé vive num bairro pobre e faz parte de uma família igualmente pobre: a família deve oito meses de renda, a luz foi cortada por falta de pagamento.
 
● A mãe trabalha como lavadeira para casas de família (neste caso, a do Dr. Faulhaber), Totoca ajuda na missa para conseguir uns trocos.
 
● O pai está desempregado, o que constitui um peso que recai sobre todo o resto da família.
 
● A pobreza extrema leva a família a mudar de casa, para evitar ser despejada.
 
ii) Estrutura familiar
 
● A família de Zezé é numerosa e pobre, com um pai ausente (ou impotente) e uma mãe sobrecarregada de trabalho.
 
● Sobre Zezé recai uma autoridade rígida: palmadas, repreensões, vigilância por parte das irmãs.
 
● Totoca assume a função de tutor: a ausência de estruturas formais (família, escola) faz com que os irmãos mais velhos eduquem os mais novos.
 
iii) Desigualdade familiar
 
● Personagens como o Dr. Faulhaber ou Mister Scottfield, o «patrão», representam a elite, classes social e economicamente privilegiadas.
 
● O tio Edmundo, agora aposentado, simboliza alguém que trabalhou a vida inteira e, atualmente, vive de um pequeno rendimento atribuído pelo Estado, contrastando com o pai de Zezé, que está desempregado e incapaz de contribuir para o sustento da família.
 
● A rua é um espaço de desigualdade: na estrada Rio-São Paulo, passa todo o tipo de veículo (camiões, automóveis, carroças), no entanto a família de Zezé mal tem como se deslocar.
 

Caracterização do pai de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização psicológica
 
● Vive frustrado e apático por estar desempregado.
 
● Manifesta pouca paciência relativamente a Zezé, castigando-o pelas suas travessuras.
 
ii) Caracterização social
 
● Desempregado, sente-se humilhado pela pobreza e pelo facto de ser a esposa a sustentar a casa.
 
● É uma figura de autoridade distante, dura e cansada.
  

Caracterização do Tio Edmundo (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● Não é um parente biológico de Zezé, mas faz parte da vida da família, assumindo o papel semelhante ao de um tio.
 
● É um homem velho e reformado, de cabelo branco e óculos na ponta do nariz, que passa o seu tempo acompanhando Dindinha.
 
● Fala pausadamente, lê o jornal, adotando a postura de quem já não participa ativamente no mundo do trabalho.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Para Zezé, é um “sábio”, uma referência intelectual que admira pelo seu conhecimento.
 
● É visto pela família como “meio trongola”, meio excêntrico ou «maluco», porém, para o narrador, é o portador de uma sabedoria encantadora.
 
● Velho e separado da mulher, vive sozinho, apesar de ter cinco filhos, que não o visitam.
 
iii) Caracterização social
 
● Está aposentado: recebe pensão da Câmara Municipal.
 
● De condição modesta, é visto como «sábio» e respeitado por Zezé.
 
● É um transmissor de cultura: não sendo professor, é um mestre involuntário.
 

Caracterização da Mãe (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física
 
● É alta, magra, mas muito bonita, e tem a pele queimada pelo sol.
 

● Os seus cabelos são pretos, lisos e longos, caindo até à cintura.

 
● Usa um lenço na cabeça para se proteger do sol e um avental na cintura enquanto lava.
 
● A sua imagem surge associada ao tanque de lavar a roupa: as mãos na água, o sabão, a espuma e o estendal.
 
ii) Caracterização psicológica
 
● Reprime Zezé, mas não de forma tão dura como outros membros da família.
 
● Demonstra o seu afeto não por palavras, mas através de pequenos gestos, como, por exemplo, cantar para o filho enquanto trabalha.
 
● A canção que cantava ficou gravada no íntimo de Zezé como símbolo de consolo e memória afetiva.
 
iii) Caracterização social
 
É uma mulher do povo, casada, com vários filhos.
 
É uma mulher trabalhadora: sustenta a casa e a família com o escasso produto do seu trabalho – lava a roupa da família do Dr. Faulhaber.
 
Vive condicionada pelas circunstâncias: o marido está desempregado, as contas atrasadas, a luz cortada.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Caracterização de Totoca (capítulo I da 1.ª parte)

i) Caracterização física
 
É mais velho do que Zezé: tem nove anos.
 
ii) Caracterização psicológica
 
Assume, parcialmente, o papel de ensinar ao irmão mais novo aspetos práticos e essenciais sobre a vida e o mundo dos adultos. Neste capítulo, por exemplo, ensina-lhe o caminho para a escola.
 
Trata Zezé de forma rude, com alguma frieza e até distância: caminha de mão dada com o irmão, ensina-o a atravessar a rua, desdenha das suas fantasias, etc. Aparenta ter já perdido parte da sua ingenuidade e inocência e a sua atitude face a Zezé sugere que esse é um caminho imprescindível na infância.
 
Procura afastá-lo da imaginação e das ilusões, que poderão coloca-lo em perigo ou fazê-lo sofrer.
 
iii) Caracterização social
 
Assume a função de irmão mais velho, substituindo em parte a figura paterna ausente.
 
Aprende desde cedo a ter responsabilidades fora da sua idade: cuidar do irmão mais novo, encarar a realidade do desemprego do pai.
 

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Caracterização de Zezé (capítulo I da 1.ª parte)

 
i) Caracterização física

A epígrafe que antecede a narrativa coloca o leitor na pista: vai ler uma obra que constitui uma memória dos tempos de infância do protagonista – a “história de um meninozinho que um dia descobriu a dor”.
 
Assim sendo, é clara uma relação autobiográfica entre o autor (José Mauro de Vasconcelos) e o pequeno Zezé (este nome é um diminutivo de José).
 
Zezé é uma criança pequena, com cinco anos, de constituição franzina e aparência frágil, como o indiciam, além da sua tenra idade, o facto de ser protegido pelo irmão, com quem vai de mão dada.
 
ii) Caracterização psicológica
 
É uma criança precoce e muito inteligente: aprende a ler sozinho, faz perguntas filosóficas (“Idade da razão pesa?”), escuta os adultos com muita atenção, para tentar compreender o que dizer.

É muito curioso: faz muitas perguntas sobre as circunstâncias com que se vai deparando no seu dia a dia e não aceita explicações rasas, antes insiste nas perguntas.
 
É muito imaginativo e sonhador: inventa histórias, cria mundos paralelos para fugir da realidade dura que vive.
 
iii) Caracterização social
 
Pertence a uma família pobre e numerosa que mora num bairro simples.
 
É o penúltimo de vários irmãos.
 
A família enfrenta dificuldades financeiras: o pai está desempregado, o que gera tensão em casa; a família não tem como pagar a luz, tem o aluguer da casa atrasado.
 
A sua educação é moldada pela família, mas também pela comunidade e pela liberdade que encontra fora de casa.
 

Ação do capítulo I da 1.ª parte de O Meu Pé de Laranja Lima

    A ação da obra abre com o recurso a uma analepse, cuja função reside em introduzir na narrativa a primeira grande descoberta do narrador: ele revela à família que já sabe ler e que aprendeu a fazê-lo sozinho.

    De facto, o capítulo inicial começa com Totoca a acompanhar Zezé e a ensinar-lhe o caminho até à escola. Nesse momento, a narração recua alguns dias, concretamente até ao momento em que a criança dera a entender que já sabia ler, primeiro ao tio Edmundo e, de seguida, a toda a família. Todos ficam incrédulos e testam-no. Confirmada a situação, decidem que, como sabe eu, Zezé deverá entrar na escola rapidamente, mesmo sendo necessário mentir quanto à sua idade (dado que tinha apenas cinco anos) até porque, assim, daria menos trabalho em casa.

Análise do título do capítulo I da 1.ª parte de O Meu Pé de Laranja Lima

    O título do primeiro capítulo é “O Descobridor das Coisas” e remete pra um dos traços do protagonista: a sua curiosidade, a vontade de compreender tudo o que o rodeia, desde como atravessar a rua até conceitos tão profundos como “idade da razão” ou questões do quotidiano como “aposentadoria”. Neste contexto, o nome «coisas» é propositadamente vago, pois designa tanto um qualquer objeto (uma rua, um comboio, etc.) quanto o invisível (os sentimentos e as emoções suscitados pela música, a dor da violência física, o mistério de aprender a ler sozinho, etc.). Zezé enfrenta uma realidade dura: a violência doméstica, a pobreza, a falta de afeto e amor, por isso uma forma de sobreviver e enfrentar essa realidade consiste em transformar tudo em descoberta. Porém, reside aqui um paradoxo: ele é uma criança que descobre algumas coisas cedo demais, como confessa nas linhas finais: “A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.”

Título da 1.ª parte de O Meu Pé de Laranja Lima

    O Meu Pé de Laranja Lima está dividido em duas partes, dois momentos que caracterizam o crescimento do protagonista, Zezé.

    A primeira parte tem o subtítulo “No Natal, às vezes nasce o Menino Diabo”, o qual configura “uma desconstrução satírica da imagem de esperança e redenção que se atribui emocionalmente ao «Menino Jesus»” (Miguel Neves Santos, op. cit., pág. 8). Por outro lado, remete para a imagem de “Menino Diabo» que Zezé vai, ao longo da narrativa, criando de si próprio a partir do modo como os outros se lhe referem, o caracterizam e reagem às suas partidas e travessuras.

Resumo do último capítulo - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    No capítulo final, muito breve, uma espécie de confissão, é já o narrador Zezé-adulto que se dirige a Manuel Valadares, mais de quarente anos depois dos acontecimentos, e lhe confessa o impacto que ele teve na sua vida.

    De facto, Zezé relembra, com ternura e saudade, o vínculo afetivo que manteve com o Portuga durante aquele breve período da infância. Em simultâneo, confessa que, apesar de tantos anos volvidos, por vezes ainda parece sentir-se criança e espera que ele reapareça com presentes simples, como figurinhas ou bolas de gude, os quais simbolizavam o afeto, o cuidado e a atenção que recebia de Valadares. Além disso, reconhece que foi o português quem lhe ensinou a ternura da vida, um sentimento que tenta manter vivo até ao presente, compartilhando afeto com os outros, mesmo quando erra ou se engana, porque, afinal, “a vida sem ternura não é lá grande coisa”.

    Por outro lado, num tom melancólico, admite que foi precocemente atingido por detalhes da realidade dura e cruel que chocam com a inocência e a esperança que devem ser preservadas no decurso da infância. É com essa reflexão sobre a dureza de ter conhecido as dores da vida demasiado cedo, relembrando uma frase de Dostoiévsky para expressar a tragédia de uma infância interrompida pela dor e pela perda.

    A obra termina, pois, de forma poética e dolorosa, mostrando que as marcas da infância permanecem vivas na memória e no coração de Zezé. É um adeus simbólico ao Portuga e à criança que um dia foi, uma criança que conheceu o peso da vida antes do tempo, mas que também conheceu o valor do amor verdadeiro.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Resumo do capítulo VIII - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

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    Zezé recupera e recomeça a sua vida, apesar do vazio enorme que sente. É já quase restabelecido que escuta a novidade do pai: fora nomeado gerente da Fábrica de Santo Aleixo, o que significa que a situação financeira da família irá melhorar. É precisamente isto que o pai promete: pegando nele ao colo e falando-lhe com carinho, garante-lhe uma vida melhor, com presentes no Natal, viagens e uma nova casa com muitas árvores. Além disso, tenta resgatar o vínculo afetivo, relembrando a medalha do índio e prometendo devolvê-la num novo relógio.

    No entanto, Zezé, apesar das palavras otimistas do progenitor e do seu gesto de carinho, de aproximação, afasta-se, confuso e magoado, e reflete que aquele homem não é seu pai – o seu verdadeiro pai, na sua perceção afetiva, tinha partido no dia em que o Portuga morreu, símbolo do afeto e compreensão. Quando seu Paulo tenta consola-lo, dizendo-lhe que, no futuro, poderá escolher novas árvores, acrescentando que não haverá motivo para temer o corte do seu pé de laranja lima, visto que não acontecerá a curto praxo, Zezé desaba. Em lágrimas, assume simbolicamente, sem que o pai compreenda o alcance e o significado das suas palavras, que a sua árvore já fora cortada há mais de uma semana, associando-a, assim, ao desaparecimento do seu amigo Portuga.

Resumo do capítulo VII - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    É neste capítulo, intitulado “O Mangaratiba”, que tem lugar a última peripécia da obra. Numa aula, já perto do final do ano letivo, enquanto Zezé brilha no quadro e encara, entusiasmado, a proximidade das férias, um colega, Jerónimo, entra atrasado e explica que tal se deveu a um acidente entre o comboio Mangaratiba e o automóvel de Manuel Valadares. O narrador fica perturbadíssimo e sai da sala a correr, guiado pela urgência de confirmar com os próprios olhos o que acontecera ao seu querido Portuga. Ao chegar à confeitaria, procura com o olhar o automóvel, mas não o vê. Volta a correr, até ser intercetado por seu Ladislau, que o impede de prosseguir. Convém recordar que a amizade entre Zezé e Valadares era praticamente um segredo, por isso, com exceção de seu Ladislau da confeitaria, todas as outras pessoas estranham a reação da criança, nomeadamente quando entra de tal forma em choque que adoece gravemente. Entretanto, o homem procura acalmá-lo, afirmando que o português está internado no hospital e que o levará a vê-lo quando for possível. Desorientado e arrasado, o menino recusa voltar para casa ou para a escola e vagueia sozinho pela cidade, chorando, até que chega a um lugar simbólico – a estrada onde o Portuga o deixara chamá-lo assim e o deixara «morcegar». Aí, dirige um lamento profundo ao Menino Jesus, questionando por que razão está a ser castigado. De facto, ele sente-se injustiçado, visto que tem tentado ser um bom menino, mudou o comportamento, estudou, deixou de dizer palavrões e, ainda assim, continua a sofrer. Recorda então outra perda que se avizinha: o corto do pé de laranja lima. Imerso na sua dor, exige ao Menino Jesus que lhe devolva o Portuga. É nesse momento que ouve uma voz doce e suave, talvez saída da própria árvore onde se sentara, que lhe diz que o seu amigo foi para o céu.

    É encontrado por Totoca sentado nos degraus da casa de Dona Helena Villas-Boas, completamente esgotado, febril, sem forças nem para chorar. Totoca tenta confortá-lo e levá-lo para casa, mas Zezé recusa, afirmando que já não tem mais nada em sua casa, pois tudo na sua existência perdeu sentido. O irmão, preocupado, leva-o ao colo até casa e deita-o na cama, percebendo a gravidade do seu estado. Inicialmente, Jandira desvaloriza a situação, pensando que o menino está a fingir, porém, durante três dias e três noites, mergulha num estado de febre alta. Glória, a irmã que mais o acarinha e o protege, muda-se para o seu quarto, mantém a luz acesa e permanece sempre ao seu lado. Toda a família, normalmente ríspida, passa a tratá-lo com doçura. O Dr. Faulhaber é chamado e conclui que Zezé sofre de um choque traumático intenso. A família e os vizinhos associam erradamente o estado de Zezé ao comentário feito por Totoca sobre o eventual abate do pé de laranja lima. A própria vizinhança, antes crítica, mobiliza-se para o apoiar: trazem-lhe doces, ovos, orações e palavras de afeto. A criança sente-se tocada, mas continua entregue à dor, até que recebe a visita de Ariovaldo, o vendedor de folhetos, que lhe implora que não morra. Esta visita comove o menino e marca o início da sua lenta recuperação.

    Zezé começa a conseguir reter alimentos, mas continua a ser assolado por imagens do Mangaratiba esmagando o Portuga, e pede a Deus que ele não tenha sofrido. Glória continua a tratar dele com todo o carinho e chega a oferecer a sua mangueira do quintal, mas o irmão responde que nem a planta dela nem o pé de laranja lima serão mais importantes. Totoca sente-se culpado por ter contado a notícia que, supostamente, desencadeou a crise e chega a emagrecer com o remorso. A vida da família volta, gradualmente, à normalidade, mas Glória não abandona a cabeceira da sua cama, pois o narrador continua a ostentar um estado de debilidade, oscilando entre momentos de melhora e outros de recaída e sempre mergulhado numa sonolência.

    Num dos momentos de febre alta, Zezé tem um sonho que marca o fim da doença. Nesse sonho, o seu pé de laranja lima aparece pela última vez no texto, iluminado: entra no quarto com um presente – Luciano, o pássaro, todo enfeitado com penas prateadas – e leva-o a cavalo pelas ruas, até chegar aos locais que partilhara com o Portuga e, em particular, até encarar o sinistro som do Mangaratiba e enfrentar definitivamente  a morte do seu amigo. De facto, Minguinho transforma-se num cavalo voador e Luciano acompanha-os alegremente ao ombro do narrador. O percurso traz uma breve sensação de alegria e a tristeza afasta-se por instantes. No entanto, um som familiar e assustador irrompe à distância: é o apito de um comboio. Zezé reconhece imediatamente o ruído do Mangaratiba e o pânico apodera-se dele, convencido de que o comboio quer agora matar o seu outro amigo, Minguinho. Grita desesperadamente e tenta impedir que a árvore seja esmagada também. O trem passa com um enorme barulho, fumo e violência e a criança grita várias vezes «Assassino!», revivendo o trauma da morte do Portuga. A certa altura, o próprio Mangaratiba parece falar, repetindo entre risos e gargalhadas o seguinte: “Eu não sou culpado... Eu não fui culpado...”.É neste momento que Zezé acorda, como se despertasse também para a realidade, em sobressalto, gritando, a vomitar. A mãe abraça-o, tentando confortá-lo, dizendo que foi apenas um pesadelo. Glória, em lágrimas e esgotada, relata que acordou com os gritos do irmão a chamar «assassino» a alguém e a falar de morte e destruição.

    Poucos dias depois, a doença chega ao fim. Numa manhã, Glória entra no quarto com uma flor na mão – é a primeira flor de Minguinho, símbolo de que a árvore está a crescer, mas também marca o fim da inocência de Zezé, que compreende que a flor representa uma despedida simbólica – o pé de laranja lima deixa de pertencer ao mundo da imaginação e passa a fazer parte do mundo real e doloroso. Depois, Glória propõe-lhe tomar um pequeno-almoço leve (um mingau) e dar uma volta pela casa, o que simboliza o regresso à normalidade. Luís convida o narrador a brincar: quer visitar o jardim zoológico, a Europa, a selva amazónica, e brincar com Minguinho. Zezé não quer desiludir o irmão e aceita. Glória observa, emocionada, a cena, aliviada por o ver regressar ao mundo da fantasia. Quando Luís pergunta pela pantera negra, símbolo de uma das fantasias partilhadas entre ambos, o narrador hesita, mas acaba por manter viva a ilusão do irmão e responde que o animal foi passar férias na Amazónia. Por dentro, todavia, tem consciência da realidade, isto é, que nunca houve pantera nenhuma, apenas uma galinha velha que acabou num caldo. A selva do Amazonas, por outro lado, não passava de algumas laranjeiras do quintal.

    Por fim, Zezé, cansado, decide terminar a brincadeira, prometendo retomá-la no dia seguinte. Luís, por causa da sua tenra idade, não compreende que aquela flor branca que Glória trouxe representa o adeus definitivo a Minguinho – e, com ele, à infância, à fantasia e à inocência do narrador.

Resumo do capítulo VI - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    O início deste capítulo é marcado pela continuação do diálogo entre Zezé e o Portuga. Este explica ao menino que, na sua infância, não teve árvores que falassem consigo, e fala-lhe com carinho das vindimas e das tradições rurais de Portugal, evidenciando, assim, toda a ligação afetiva que mantém com o torrão natal, nomeadamente a Trás-os-Montes. A partir deste momento, a narrativa é marcada pela perda e pela tristeza. O primeiro coincide com a confissão do desejo, por parte de Manuel Valadares, de um dia regressar a Portugal (mais concretamente a Folhadela) para viver a sua velhice. Esta revelação entristece profundamente Zezé, que só então percebe que o amigo é mais velho que o próprio pai. Além disso, a criança é invadida por uma sensação de vazio, decorrente da consciência de que o construiu com o amigo poderia desaparecer. Em resposta, o Portuga assegura-lhe, com ternura, que o menino estará sempre nos seus sonhos, porém também o alerta, com tristeza e realismo, que não se deve apegar demasiado às pessoas, porque tudo é passageiro.

    A sequência seguinte é caracterizada por um diálogo entre Zezé e o pé de laranja lima. A criança revela-lhe que o pai, agora, o trata der forma mais carinhosa e próxima e acrescenta que gostaria de ter 24 filhos – os primeiros 12 seriam sempre crianças e nunca seriam castigados, enquanto os restantes cresceriam escolhendo livremente o que queriam fazer. O narrador imagina-se a oferecer-lhes objetos simbólicos das profissões que escolherem: machados, fardas, selas, bonés. Minguinho interrompe-, questionando sobre como seria o Natal. A criança fantasia que será muito rico, ganhará a lotaria e comprará toneladas de castanhas, brinquedos, nozes e doces para os filhos e também para os vizinhos pobres.

    Outro momento representativo da perda e da tristeza é suscitado por Totoca, que pede 400 réis ao irmão. Este, porém, recusa o empréstimo, mesmo tendo o dinheiro e só aquiesce quando Totoca elogia o pé de laranja lima, comparando-o com o seu próprio pé de tamarindo. Em troca, o irmão dá duas notícias: o pai conseguiu trabalho como gerente na fábrica de Santo Aleixo, o que permitirá à família sair da miséria; por outro lado, anuncia a possibilidade de Minguinho ser cortado, visto que a prefeitura projetava obras de alargamento da estrada, o que implicaria destruir alguns quintais. Esta segunda notícia atinge profundamente Zezé, que chora, entrega a Totoca uma moeda de quinhentos réis para que este vá ao cinema ver um filme do Tarzan, usando o troco para comprar rebuçados, e suplica-lhe que o ajude a impedir o abate do pé de laranja lima, chegando até a falar de guerra.

    Zezé regressa para junto de Minguinho, ainda bastante emocionado. Recorda que já viu o filme do Tarzan e decide contar a Manuel Valadares. Este pergunta-lhe se queria ir ao cinema, mas o menino responde que não pode entrar no Cinema Bangu durante um ano como castigo por uma travessura passada e que tal só poderá suceder se for acompanhado por um adulto. Quando chegam à bilheteira, a moça que atende o público diz-lhes que tem ordens para não deixar entrar o narrador. O Portuga assume a responsabilidade pelo menino, argumenta que agora está mais maduro. A jovem, hesitante, acaba por ceder, especialmente pelo gesto de carinho da criança, que lhe sopra um beijo e lhe sorri com ternura, mas adverte-o de que, se ele se comportar mal de novo, ela perderá o emprego.

Resumo do capítulo V - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    Zezé precisa de cerca de uma semana para começar a recuperar fisicamente. Psicologicamente, fica devastado e interioriza a ideia de que não tem qualquer valor e de que talvez nem devesse ter nascido, pois todos à sua volta o castigam e insultam. Perde a vontade de brincar e sente-se vazio, passando o tempo a observar, em silêncio, Luís a brincar. Decide então mudar os seus interesses: deixa de se interessar por filmes de cowboys e passa a ver apenas películas de amor, os quais lhe mostram pessoas que se amam e são felizes. Trata-se, no fundo, de uma forma de compensar a falta de afeto que sente.

    Mal sente forças para sair de novo, procura o seu amigo português. Encontra-o numa confeitaria. Zezé mostra-se triste e, ao aperceber-se dessa tristeza, Manuel Valadares convida-o para dar uma volta de carro. No trajeto, o narrador desabafa toda a dor acumulada dentro de si, dando nota da violência sofrida em casa, da pobreza da família, e chega a confessar que tinha decidido atirar-se para baixo do Mangaratiba nessa noite, para terminar com todo o seu sofrimento. O Portuga, profundamente comovido com o que acabar de ouvir, consola-o, dizendo-lhe que é uma criança inteligente, sensível e querido. Além disso, promete-lhe um passeio a dois até ao Guandu, no sábado, para pescar. Preocupado com a desculpa que terá de inventar para justificar a sua ausência e com as possíveis consequências se for descoberta a mentira, Valadares questiona-o sobre o assunto, mas Zezé tranquiliza-o, dizendo-lhe que toda a família prometeu a Glória não lhe bater até ao final daquele mês.

    No dia combinado e durante o caminho, a criança reflete sobre o seu próprio comportamento: apesar de se mostrar carinhoso e bem-comportado quando está na companhia do amigo português, por exemplo, reconhece que é travesso e que gosta de pregar partidas e fazer travessuras. Para ilustrar o que acaba de dizer, conta uma das suas traquinices mais ousadas: um dia, ao ver Tio Edmundo a dormir numa rede nova que acabara de comprar, aproveitou um momento de distração do homem e, com fósforos e pedaços de jornal, fez uma pequena fogueira debaixo da rede, causando um enorme susto no indivíduo, que acordou sobressaltado, pensando que o responsável pelas chamas tinha sido ele mesmo e o seu cigarro.

    Chegados ao destino, escolhem um espaço aberto, com uma árvore enorme e imponente, para assentar arraiais. Manuel Valadares diz que a planta se chama Rainha Carlota e que deve ser tratada com respeito e reverência, como se fosse uma majestade, no que parece ser uma alusão à rainha D. Carlota Joaquina. Juntos, deixam os seus objetos à sombra da árvore, preparam os apetrechos de pesca, e o Portuga explica ao narrador onde poderá brincar sem perigo, enquanto ele se dedica à pescaria. A criança delicia-se com o ambiente que o rodeia, mergulha os pés na água, observa os sapos, as folhas e os seixos arrastados pela corrente e, enquanto o faz, recorda os versos ditos por Glória, compreendendo que a poesia se manifesta nas pequenas coisas.

    Quando chega a hora do almoço, Valadares pede-lhe que se lave antes de comer, porém Zezé mostra-se renitente, porque não quer que o novo amigo veja as marcas e cicatrizes deixadas pelas sovas que tem levado. O homem percebe a hesitação da criança, por isso não o força e apenas lhe diz, com a voz embargada, que, se a higiene lhe causa dor, não precisa de entrar na água, porém o menino retorque que as feridas já não lhe doem.

    Terminada a refeição simples (pão, salame, ovos, mariolas e bananas), aproveitam a sombra da grande árvore. Manuel Valadares deita-se para dormir a sesta, com o narrador preso nos seus braços, visto que receia que, endiabrado como é, se envolva nalguma confusão. Nesse momento, Zezé pergunta-lhe se é verdade que gosta muito dele, como afirmara na confeitaria a seu Ladislau. Perante a resposta afirmativa, levanta a possibilidade de ser adotado, ou mesmo comprado, pelo português. Na sua opinião, a família aceitaria bem a ideia, visto que seria uma boca a menos para alimentar, tal como já tinha sucedido com uma irmã, que fora «dada» para viver com uma prima no Norte. Manuel Valadares fica profundamente emocionado, com lágrimas a escorrer dos olhos, e explica-lhe que isso não será possível, que a vida não se resolve dessa forma e que ele não poderá tirá-lo à família, mas, em contrapartida, promete-lhe que, a partir daquele momento, passará a tratá-lo como se fosse, realmente, seu filho. Ao contínuo, Zezé beija-lhe o rosto, selando, desta forma, um vínculo profundo entre ambos.

domingo, 6 de julho de 2025

Resumo do capítulo IV - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    Zezé aprende com Totoca a fazer balões de papel, mas o irmão cobra-lhe a ajuda prestada nas etapas mais difíceis, nomeadamente querendo que o narrador lhe dê bolas de gude ou figurinhas. Determinado a fazer o seu balão sem depender de Totoca, a criança vai pelas ruas tentando vender as suas bolas e figurinhas para angariar dinheiro e comprar papel de seda. Porém, apesar de todo o esforço que emprega, ninguém lhe compra nada. Já desanimado, encontra Biriquinho, que, após uma breve negociação, adquire alguns dos itens à venda. Deste modo, a criança consegue parte do dinheiro (duzentos réis) de que necessitava para concretizar o seu objetivo. De imediato, vai â venda do Miséria e Fome e compra papel de seda cor-de-rosa e cor de abóbora, mesmo não sendo as que queria. Animado, volta para casa e começa a construir o seu balão, na companhia do irmão Luís. No entanto, demora-se a descer para o jantar e a sua irmã Jandira descontrola-se, não só pelo atraso, mas pela reação de Zezé, que a insulta, chamando-lhe puta. Com efeito, a rapariga chamara-o diversas vezes, mas, focado em terminar o balão, ele demorara-se e não atendera ao seu chamado. A irmã perdera a paciência, puxara-o pelas orelhas, arrastara-o e destruíra o balão, rasgando-o em pedaços. Desesperado e dominado pela raiva e pela dor, o narrador insulta-a repetidamente, o que, por sua vez, desencadeia uma reação violenta da parte dela: espanca-o sem piedade com uma correia. Entretanto, chega Totoca e, em vez de defender o irmão mais novo, bate-lhe também no rosto, especialmente na boca, para o tentar calar. A situação só termina com a chegada de Glória, que separa os irmãos e leva o menino para o quarto, onde trata os ferimentos e o tenta acalmar. Ao mesmo tempo, revolta-se contra Totoca, humilhando-o ao revelar que ainda faz xixi na cama. Por seu turno, Zezé, profundamente magoado, lamenta não apenas as dores do corpo, mas sobretudo a perda do seu balão, que queria construir para impressionar os seus dois amigos, o Portuga e Minguinho. Glória tenta consola-lo e promete ajudá-lo no dia seguinte a comprar novo papel de seda para fazer um balão ainda mais bonito, no entanto o irmão acredita que o encanto do que estava a construir e fora destruído nunca mais seria recuperado. A irmã promete-lhe, então, que um dia fugirão para um lugar melhor, onde possam viver felizes, livres e sem violência.

    Novo episódio de violenta agressão sucede dois dias depois, quando o pai, que continuava desempregado e deprimido, não compreende a intenção do filho quando este começa a cantar uma música de Ariovaldo para o animar. De facto, o que sucedeu foi o seguinte: após a violenta sova que levou de Jandira e de Totoca, Zezé passa dois dias sem sair de casa, tendo sido inclusive impedido de ir à escola, para que ninguém visse os seus ferimentos e se apercebesse da brutalidade de que tinha sido vítima. Ocupa esse tempo na companhia de Luís e de Minguinho, encontrando refúgio e proteção na sua imaginação, nas figurinhas que Manuel Valadares lhe dera e nas brincadeiras com o irmão. Não obstante, sente saudades do português, de quem não se conseguiu despedir e que certamente estranhará a sua ausência.

    Certa noite, com a casa quase vazia, o menino apercebe-se de que o pai está pensativo e triste, sentado numa cadeira de baloiço, olhando fixamente para a parede. Ao observar aquele quadro, o menino sente pena de seu Paulo, compreendendo o quão é difícil a sua vida, desempregado, dependendo da esposa, que chega tarde a casa por causa do seu trabalho no Moinho Inglês. Numa tentativa de o animar, começa a entoar um tango que aprendeu com Ariovaldo, porém, a música, de conteúdo impróprio para uma criança, irrita profundamente o pai, que entende que a letra é uma provocação e o obriga a repetir a canção. A cada repetição castiga-o com sucessivas bofetadas e Zezé, dominado pela dor e pela revolta, deixa de cantar e enfrenta o progenitor, chamando-o «assassino». Louco de raiva, o pai tira o cinto e espanca brutalmente o filho e só para após a chegada de Glória, que segura o braço paterno, pedindo-lhe que pare e oferecendo-se para ser sovada no lugar do irmão. Nesse instante, o pai toma consciência da sua atitude, atira o cinto para cima da mesa e, cheio de remorsos, chora.

    Glória levanta a criança do chão , mas esta desmaia devido à dor e ao cansaço. Quando acorda, está a arder de febre, rodeado pela mãe, por Glória e Dindinha. As dores são tão intensas que mal se consegue mexer ou engolir a sopa que a irmã lhe preparou. O ambiente é de grande preocupação, porém a família decide não chamar o médico, para não expor a situação publicamente. A mão vela-o toda a noite, até sair para o trabalho. Antes, o narrador confessa-lhe que não deveria ter nascido, que lhe deveria ter acontecido algo semelhante ao que sucedeu ao seu balão – algo que não chegou a concretizar-se, que não veio ao mundo. A mãe, emocionada, não sabe o que lhe responder, acaricia-lhe a cabeça e apenas murmura que todas as pessoas nascem por algum motivo.

sábado, 5 de julho de 2025

Resumo do capítulo III - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    Este capítulo abre com uma longa conversa entre Zezé e Minguinho. O menino conta-lhe que descobriu onde mora o Portuga, concretamente na Rua Barão de Capanema. Ao chegar lá, encontra-o a fazer a barba no quintal, bate as palmas para lhe chamar à atenção e oferece-se para lhe engraxar os sapatos. Simpaticamente, Valadares convida-o a entrar enquanto acaba de se barbear. Ao ser questionado sobre a escola, responde que é feriado e que aproveitou o feriado para ganhar algum dinheiro. O português convida-o para entrar e tomar café, o que dá a oportunidade ao narrador para observar a organização e a limpeza do espaço, que contrasta com a sua casa, pobre e menos bem cuidada. A criança interrompe o assunto, ao notar o silêncio do pé de laranja lima, e questiona-o. A árvore responde que se sente desprezado pelo menino desde que passou a encontrar-se com Valadares.

    Zezé retoma a descrição do encontro com o Portuga, nomeadamente o momento em que lhe confessou que não estava realmente a trabalhar e que só tinha levado os apetrechos de engraxador como pretexto para sair de casa, já que apenas tinha autorização para se ausentar para longe para trabalhar. Isso evita que lhe batam tantas vezes, visto que a família acredita que, trabalhando, não fará travessuras. Valadares fica admirado com tanta malícia vinda de uma simples criança, e Zezé começa, então, a listar as suas traquinices e maldades, afirmando que é mau e que alguém como ele nem deveria ter nascido, segundo ouviu da boca de uma irmã, e acrescenta que é sovado constantemente. Dessa lista fazem parte as seguintes maldades: incendiou a cerca da vizinha Nega Ifigénia, ofendeu outra mulher chamando-lhe Pata Choca, partiu um espelho com uma bola de pano, quebrou lâmpadas com a baladeira, apedrejou a cabeça de um miúdo, arrancou mudas de plantas de outra vizinha e fez o gato de Dona Rosena engolir uma bola de gude. O português procura esconder o riso, mas repreende-o pela traquinice feita ao gato. De seguida, narra o episódio mais embaraçoso: no cinema, para não perder a parte de um filme, urinou num canto da sala. Todavia, as outras crianças aperceberam-se e imitaram-no, criando um «rio» dentro do cinema. Descoberto, foi culpado pelo incidente e foi proibido de entrar no Cinema Bangu durante um ano. Para piorar a situação, o dono contou tudo ao pai, que lhe deu uma sova com um tamanco, mesmo estando a criança já a dormir.

    No final, Minguinho continua amuado por se sentir rejeitado. Zezé tenta convencê-lo de que há espaço no seu coração para todos. Perante o silêncio da árvore, decide ir jogar bola de gude, dizendo que ela está muito enjoada.

    Zezé e Manuel Valadares passam a encontrar-se frequentemente, crescendo entre eles uma amizade com contornos familiares. De facto, o narrador aproveita todos os momentos e oportunidades para estar com o português, que, por sua vez, lhe proporciona algumas das coisas com as quais a criança poderia apenas sonhar. De início, porém, mantém a amizade entre ambos em segredo, primeiro por vergonha, depois por diversão. Durante os seus encontros, Zezé fala sobre a sua família, as suas dificuldades e os seus sonhos. Tudo isto faz com que a relação entre ambos se fortaleça, a ponto de o menino lhe pedir para o tratar por «você», pois soa mais íntimo e carinhoso entre amigos e o chamar «Portuga», que considera mais carinhoso e representativo da amizade entre ambos, em vez de «senhor» ou «Manuel». Valadares aceita, demonstrando um afeto paternal. Ele emociona-se com os relatos da criança acerca da sua miséria familiar (conta que a mãe é filha de índios, trabalha muito para sustentar a casa e sofre com uma hérnia; apesar de ser rígida e, às vezes, lhe bater, Zezé reconhece que é uma boa mãe, apenas cansada demais; fala também sobre a irmã mais velha, que vive a fugir para encontrar namorados, contrariando as ordens maternas), e ela fica impressionada com o carinho, a preocupação e o afeto que o português lhe dedica, em todos os momentos. Os dois combinam que tudo o que é do Portuga, incluindo o carro, pertence também, de certa forma, ao menino, que lhe conta que pensava que Valadares era um antropófago (um canibal), coisa que ouvira por aí, e explica o significado do termo com surpreendente clareza para a sua idade.

    Zezé revela que tem oficialmente cinco anos, mas diz ter seis para poder frequentar a escola. Além disso, mostra ao português uma medalhinha antiga, na qual está escrita a palavra «carborundum» e que fazia parte do relógio de seu pai, o qual teve de ser vendido para fazer face às dificuldades económicas da família. A medalha constitui, para a criança, a herança que restou do progenitor. Para o deixar ainda mais feliz, Valadares deixa-o pendurar-se no pneu sobressalente na traseira do carro enquanto conduz devagar, realizando, assim, o sonho da criança. Para terminar, conversam sobre o modo como Zezé justificaria junto da família o tempo passado fora de casa – astuto como habitualmente, diz que inventará que estava no catecismo. No caminho de regresso, muito emocionado, o narrador encosta-se ao braço do Portuga e faz-lhe uma declaração tocante: nunca mais se quererá afastar dele, porque, na sua companhia, sente-se protegido, amado e feliz.

    Enquanto a amizade entre Manuel Valadares e o narrador evolui e se cimenta, passa existir algum distanciamento entre este e Minguinho.

domingo, 29 de junho de 2025

Resumo do capítulo I - 2.ª parte - de O Meu Pé de Laranja Lima

    As primeiras sequências narrativas desta parte centram-se na vivência quotidiana de Zezé, fazendo sobressair em definitivo o seu caráter e a sua tendência para ser reconhecido por todos como o “danado do menino de seu Paulo”, o principal agitador da rua.

    A criança toma o pequeno-almoço, enquanto Glória o apressa para não chegar atrasado à escola. Zezé e Totoca saem com as suas sacolas, cheias apenas de livros, cadernos e lápis, sem lanche. Aquele leva também as suas bolas de gude e os ténis nas mãos, que calçará apenas quando chegar à escola. Zezé, depois de o irmão o ter deixado para trás, pensa em «morcegar» o carro de Manuel Valadares, o único que lhe faltava apanhar e o mais bonito, embora constasse que o seu dono aplicava castigos severos a quem se aventurasse a apanhar aquele tipo de boleia clandestina. Na verdade, o menino sente-se fascinado pela estrada Rio – São Paulo e pelo «morcegar», uma atividade perigosa. Até então, já tinha conseguido fazê-lo até com o carro de um sujeito conhecido pela sua severidade, o sr. Ladislau, por isso agora está fixado no seu novo desafio, o automóvel do português, um homem temido, de aspeto carrancudo e com fama de agredir quem ousasse aproximar-se do seu veículo. O menino partilha esta informação com Minguinho e revela-lhe o seu plano de se agarrar ao carro de Valadares quando este parar no bar “Miséria e Fome” para comprar cigarros. Apesar do medo que sente, Zezé quer provar que é corajoso.

    No dia em que decide concretizar o seu plano, esconde-se, espera o momento adequado e agarra-se ao carro, todavia fá-lo cedo de mais, antes de o português ligar o motor e é apanhado por Valadares, que o puxa pela orelha, o repreende e lhe dá uma fortíssima palmada, à frente de toda a gente. O menino, apanhado de surpresa, nem consegue reagir, permanecendo calado, tal a humilhação e a raiva que sente naquele momento. Mais do que a dor física, ele sente vergonha por ser castigado diante das pessoas e pela zombaria destas. Nas poucas palavras que dirige a Manuel Valadares, Zezé explica que vai esperar até ficar crescido e, nessa altura, vingar-se-á, matando-o. Quando se afasta, chora e tenta aliviar a dor. O seu maior receio é que os colegas da escola descubram o que aconteceu e façam troça de si.

    Nesse mesmo dia, Totoca pede a Zezé que enfrente um outro rapaz, Bié, mais velho, muito maior e mais forte, que queria apanhá-lo no final das aulas para lhe bater. Apesar de Zezé explicar ao irmão que não terá qualquer hipótese de vencer aquela luta, Totoca convence-o e elogia-o. O menino atende o pedido, transferindo a raiva acumulada que sente pelo português para essa luta. Todavia, durante o confronto, apanha bastante pancada, enquanto Totoca e outros colegas incentivam à distância, e fica bastante magoado. Só não apanha ainda mais, porque o dono da confeitaria e admirador da sua irmã, seu Rozemberg, intervém e os separa. Apesar da sova que apanhou, Zezé sente-se aliviado por ter descarregado parte da sua raiva e frustração.

    Na sequência deste episódio, a criança desabafa com Minguinho e relativiza aquela luta, que resultou num olho roxo. Sente-se envergonhado e é repreendido pelo pai, que bate a Totoca, o que deixa Zezé magoado, pois apercebe-se de que é sempre considerado o culpado de tudo. A árvore ouve tudo atentamente e sente-se revoltado, apelidando seu Paulo de agressor e cobarde. O menino, por sua vez, sonha com a vingança, idealizando um plano que envolve armas e armadilhas, inspirado em filmes do faroeste. No entanto, a raiva acaba por passar e os dois mudam o assunto da conversa.

    De facto, a criança diz-lhe que ganhou um livro como prémio de ser bom aluno (A Rosa Mágica), o qual narra a história de um príncipe e da sua rosa encantada, e expõe ao amigo as suas dúvidas relativamente aos pressupostos muito irrealistas da ação, manifestando algumas reservas acerca da forma como se tentava por vezes impingir às crianças contos de fada que não se coadunavam com a realidade. De facto, ele considera a história infantil e sem graça, visto que prefere aventuras reais e perigosas, como as dos heróis do faroeste (Tom Mix, Buck Jones, Fred Thompson, etc.), e reflete sobre o pormenor de os adultos subestimarem a inteligência das crianças. Esta conversa, todavia, termina após a chegada de Luís para não destruir as fantasias do irmãozinho. Zezé mostra-se protetor e carinhoso para com Luís, afirmando que os sonhos das crianças devem ser preservados.

    Subitamente, com a chegada do vento – elemento que simboliza a fantasia e a liberdade –, o menino mergulha numa brincadeira de faz-de-conta: transforma o ambiente e Minguinho num cavalo de ouro, imaginando-se vestido como um xerife, numa planície cheia de índios apaches, bisões, tiros e galopadas a cavalo. Este faz-de-conta configura um momento de imaginação e fuga à dura realidade que vive. No entanto, Zezé é interrompido por Luís, que, com medo dos índios, lhe pede que mude de brincadeira. O irmão tenta acalmá-lo, afirmando que os Apaches são amigos, mas acata o pedido. Este episódio evidencia a sua sensibilidade em lidar com os sentimentos do irmão, bem como a importância que a imaginação e a fantasia assumem enquanto válvula de escape para a dor e os conflitos familiares.

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